18 de fevereiro de 2020

DENTRO DE TI




Nei Duclós


Dentro de ti não tomo distância suficiente
para avaliar teu rosto.
Saber se expressas amor ou desconforto
Talvez eu demore demais da conta
E passas do sonho ao êxtase
Devolvendo o que eu perdi
sem ter noção da perda


CISÃO


Nei Duclós

Viver num ambiente hostil
te treina para a solidão.
O que exclui fortalece
se houver meditação,
 mergulho na fonte infinita do saber primordial,
que no silêncio enxerga o movimento de forças
 em direção à singularidade do ser,
gerado pelo Absoluto e sua unidade em eterna cisão.



EQUILÍBRIO


Nei Duclós

Seria pedir demais
Voltar a ser feliz
Mas pelo menos reencontrar
Meu ponto de equilíbrio
Ser eu novamente
Antes deste tempo
Em que meu corpo serviu de alimento
Como um gado morto
Para quem se aproximou
Com a melhor das intençõeS



ESCÂNDALO


Nei Duclós

Não nos entendemos.
Só o silêncio oferece uma chance.
Mas a palavra seria a ponte
Então ficamos nos adivinhando
Olho teu rosto que o ouro avança
Tuas pernas de louça
A carne distante com fantasia bruta
A vontade é um escândalo



GESTO ANÔNIMO


Nei Duclós

A poesia é permanente, a política, transitória.
Mas o efeito da poesia é limitado. O da política, infinito.
Por um verso serás lembrado, mas em espaços de leitura.
Por tuas batalhas serás esquecido,
mas teu gesto anônimo vingará nos campos e cidades.

O poema terá paz quando a paz for a vitória.



DESAPEGO




Nei Duclós


Desapego do poema
Móvel antigo fazendo número
Festa suspensa
Data sem o vínculo da surpresa

Deixo o poema como traste entre badulaques
E pensar que vivi nesse esquema
Querendo mais do que poderia me dar

Sentamos no portal diante do entardecer
Eu e o poema
Ele meio triste pelo abandono
Mas focado no sol
que de repente escurece


17 de fevereiro de 2020

O PAÍS NO ABISMO


Nei Duclós

O país apodreceu bem na nossa vez
Quando queríamos salvá-lo
Acreditando em farsantes

O pais caiu no abismo quando nos debruçamos
Pegou fogo na hora do luau
Enlouqueceu quando tínhamos razão

O pais foi embora quando decidimos ficar
Partiu no último avião
Nos deixando com os livros que não servem mais

O país deixou de existir junto com nossa certidão de nascimento
Desconhemos seus vestigios
Sabemos só que havia uma nação onde hoje é deserto



TELHA


Nei Duclós

Digo o que me dá na telha
Pombas chuvas estrelas
Não tenho compromisso com barro ou madeira
Fui feito pelo fogo em fornos a lenha

Não abrigo gado ou humano acervo
Tenho goteiras de sereno
Nos desvãos esconde-se o segredo
Que é meu ouro de tolo e minha espera
Um dia me descobrem
Autor exilado de si mesmo





PERTO DE MIM


Nei Duclós

Não vivo, vegeto
Minhas raízes são o passado
E apesar de tanta folha
escrita
Não faço sombra

Sou de terreno baldio
Árvore sem seiva
A chuva bate em galhos do estio
A seca suga a água de amores vãos

Com o poder prestes a demolir
Assim mesmo brota o capim

Mendigos fazem fogo perto de mim
Exibo estrelas quando a nuvem fecha o céu





ENIGMA DE PEDRA


Nei Duclós

Moro na cidade ancestral de pedra
Sou um dos gigantes
Guardo o espírito que habita monumentos
Centros de energia megalitica
Uso um portal invisível
Migro para um lugar inacessível

Procuro a água que se esconde na montanha
E a deusa esculpida

De longe vocês enxergam esse enigma
Duas pirâmides que apontam o infinito



10 de fevereiro de 2020

POUCO

Nei Duclós



É pouco o poema
É pequeno
Barco a remo no oceano
Sem cais que o receba
No ruído que confunde a rosa dos ventos

É leve esse deslizar sobre a corrente
Que passa ao largo do mundo
E ao mesmo tempo o enfrenta



PERDI


Nei Duclós


Perdi
Deus achou-me entre os escombros
Teus ombros eram o divino arrimo
Em missão de busca

Achei
Um motivo de voltar de novo
Mesmo que tenhas outro destino

Meus trapos vibram ao vento noturno
Fui recebido a bordo

Agradeço a chance
Mar mais amplo do que a longa vida


SERPENTES DO TEMPO

 Nei Duclós
  

Colho agora o que plantei sem ver
Cargas adventícias do meu querer
A semente que vi jamais vingou
Tornou-se adubo do amargor

O fruto torto não me alimenta
Cavo no deserto água salobra
Serpentes do tempo me olham das pedras
E o sol, este sol que torra lavouras de mercúrio



VOEI


Nei Duclós

Voei sem saber de onde veio
a vontade de seguir o pé de vento
Espirais te trouxeram com as folhas
Arrancadas verdes de uma tarde

Só a palavra guardada sem alarde
pode revelar-te frente ao espelho





VINGANÇA

Nei Duclós


Inventaram tua beleza
Por vinganca
Para eu saber que também danço
Nem tudo eu alcanço
Apesar de ser rei
Desde criança



ILHA

Nei Duclós


Todo continente é uma ilha
O mar não está cercado
De terra por todo lado

Só o mar é soberano
Como terra firme
Do altiplano



CRIAR


Nei Duclós

Viver sempre foi insuportável
Ceder para durar
O desejo contra o destino

Com a idade torna-se proibitivo
O corpo trava a necessidade
A memória trai o que foi dito

Não há solução à vista
(A alma vai além do desfecho)
A não ser criar para provar que existo

Nei Duclós


AGORA

Nei Duclós


O tempo do poema é agora
 Não quando escrevo ou leio
 mas no seu leito específico
linguagem sem nenhum erro
no éter inexistente
que põe minha cabeça a prêmio

O poema e perigoso
a todo crime sujeito
carro sem motorista
faróis acesos no ermo

Nei Duclós


30 de janeiro de 2020

CADEIA

Nei Duclós


Procura-me onde não digo
a  palavra presa antes do crime
o trabalho duro do segredo
 não por mistério mas porque não escutam
 Talvez pelo temor ao relâmpago
 que a voz da criação desencadeia 
Medo da teia, meu poema inexorável
grito dentro da cadeia



GANGORRA


Nei Duclós


Subo até a autoestima
 despenco para o remorso
 a vida é só sentimento
 a lógica não domina
Gangorra de amor e fúria
 busca eterna de equilíbrio
 sofri para chegar na altura
 de onde oculta a neblina
o sopro do paraíso
 voo de fantasia
pedra que rola fria
no vulcão ainda extinto


CANÇÃO DO PROVEDOR

Nei Duclós

 Quando eu virar vegetal
Saiam da minha sombra
Não reguem minhas raízes
Não varram as folhas mortas
não consertem os galhos
Ou colham as flores

Deixem-me no deserto
Onde o pássaro mais faminto e indiferente
Arrancará meus olhos

Estarei longe
Num mundo sem mãos estendidas
Abutre do meu sonho
Me alimentarei do nada


PURO

Nei Duclós


Um poema tão puro que não me pertença
Porção anônima da natureza
Fruta que tomba sem o desfecho
Pairando entre o mar e o silêncio



ACORDAR


Nei Duclós


Do amor acordei a tempo
Antes do adeus bater o ponto
Preservei-me nas vozes do silêncio
Guardei o poema, anel do sentimento

Não deixo agora a dor cobrar a conta
Ponho na despensa, o esquecimento
Procuro ouro no aluvião da vida tonta


DE ILHA EM ILHA

Nei Duclós


Não preciso rebuscar palavras de exóticos glossários
Desvirtuar o sentido nos dicionários
Quebrar versos como numa pedreira
Entregar-me a platitudes ou transgressões

Basta cultivar o trigo
e colher o ar agradecido
de quem cruzou o deserto

Navegar de ilha em ilha
Até atingir o continente
Sem limite da poesia



PREMONIÇÃO

Nei Duclós


Você não surpreende um cão um pássaro
Eles trafegam em outra dimensão
Captam tua intenção teu sentimento
Sabem de antemão o gesto que farás
O passo em direção da tua vontade
Voam para longe quando imaginas a foto
E já estão no portão sabendo que vais sair

Só teu semelhante ignora
O que vai dentro de ti
E nada sabias do amor
Que foi embora



16 de janeiro de 2020

FURTIVA


Nei Duclós 

Arrisco dizer mesmo sem clima
Num quase remorso do desperdício
Pois muito já disse e fiquei na mesma
Ocupo um lugar sem força de arrimo

Perdi na política e no sentimento
Avesso aos conselhos não sou mais humano
Recebo o vazio como pobre cântaro
Feito de barro e de esquecimento

Na rua mendigo aguardo a lua
És tu, porção de conflito
És minha inimiga, amor sem desculpas
Mostro meus olhos de água furtiva
Teu coração, eu sei onde fica



14 de janeiro de 2020

ÁRVORE

Nei Duclós


Dentro de ti é onde eu moro
Não sendo casa nem ninho
Paredes do teu carinho
Funcionam como refúgio

Colheste meu abandono
Sem dizer água nem vinho
Deste amor onde não tinha
Rosto virado para o leste

Hoje sou teu acolhido
Faço tudo o que não digo
Gozo de flor e ametista
Árvore de brotos mais puros



HÉRCULES

Nei Duclós


Não posso te enganar, enxergas longe
Olhos de lince, águia no topo
Desces o abismo até minha garganta
Foges aflita depois que me esgana
Sou verbo de carne és pomo de ouro
Meus doze trabalhos inclui teu trono
Só volto depois que apagaste meu sonho
Não passo de um celta a enfrentar meu rebanho
Que perdeu-se no mato sob o fogo romano
Princesa de jóias de puro diamante
Esgrimas no poente quando não sou mais humano



12 de janeiro de 2020

IMPRESSO

Nei Duclós


Jornal impresso dava noticias com menos pressa
O furo pertencia à rádio ao plantão do noticiário
Não que o jornal impresso oferecesse só a análise
Disso também se encarregavam as ondas Hertz
E hoje sobram em mil sites
Mas era um cardápio com forma organizado
Em folhas que obedeciam teu cérebro
E ofereciam competência em textos imagems e manchetes
Obra de veteranos escolados e estagiarios de densa mocidade
Amantes da linguagem aprendizes da coragem
Haviam as reportagens apuradas aos trancos pela deadline
Os erros os acertos e as seções a cargo de visionários
Tudo isso lido de manhã num tempo dividido entre a dor e a felicidade
Quando existia o mundo que no fim foi embora
 

CON LA PALAVRA


Nei Duclós

Te dibujo con la palabra
Eres la loca paisage
De mi alma
Un árbol vino en socorro
El sol muere en la luna

 *
Me gusta quando dices no
Y sonries con tu cuerpo guapo
Tengo la culpa por seres tan bella
Hija de un dios hecho de marmol
Y del amor, peligro de pájaro



O TEMPO É SOM

Nei Duclós

Um baterista lendário passa todos os minutos da vida aprimorando sua arte
Assim deve agir quem se dedica à literatura
Não que fique o tempo inteiro se corrigindo ou reescrevendo
Mas colocando seus acertos de talento e experiência no espaço mais esticado de tempo.
Quando se for permanece intacto o som da sua obra
Desdobrando cada letra como num acorde


4 de janeiro de 2020

O QUE NOS DIZEM?

Nei Duclós


Não compreendemos o que nos dizem 
esses ancestrais de pedra
Nem como construíram esses monumentos 
que nos assombram
Ou como viviam antes que algo poderoso
Talvez o próprio Tempo
Os devorasse

Podemos adivinhar suas esculturas 
altares e templos
E seguir seus passos pela água corrente
Que ainda verte em suas eternas entranhas



2 de janeiro de 2020

CRIME

Nei Duclós


És um crime que cometo
Musa sem o dom da profecia
Sabe-se lá de onde você veio
Do eu profundo ou de uma dor tardia

Sou o pastor bruto e mal nascido
Que apascenta o gado reiúno
Vejo-te passar com séquitos de duendes
quando concedes a flor da tua presença

Desisto de te amar, é muito grave
a solidão quando deita raízes
ainda mais que preferes ser princesa
de um castelo feito de granito

Te ofereço mais, a poesia
mas não escutas, essência do divino
deverias abdicar do trono, à revelia
dos teus sonhos e desejos mais íntimos



SEMEEI A SOLIDÃO


Nei Duclós

Semeei a solidão com a palavra exata: o silêncio
Foi em vão a viagem no alheio coração. Sou a passagem
Entre a oração e a fuga sem perdão
Deus é a dor que tive em minhas mãos
Surdo combate