15 de novembro de 2018

AMOR DISPERSO

Nei Duclós


O que está dito na arte do poema
existe em outro plano
Podes trai-lo, falando tudo ao contrário
Agindo como se não fosses o dono
da palavra cerzida em sagrado pano

Ele não se abala e brilha no alto da montanha
Completo e soberano
Em sua plataforma de voo
Pertence ao patrimônio
que a palavra gesta para compor o universo

Foste apenas seu profeta
Beduíno de amor disperso
Vives na areia
restos de um tempo obsoleto



14 de novembro de 2018

TIM ROBBINS, A CARA LIMPA DO MONSTRO


Nei Duclós


É da natureza do seu trabalho o fato de Tim Robbins não parecer o que realmente é: um dos poucos atores de primeiríssimo time do cinema. Sua cara limpa, sua altura desmedida em relação aos seus interlocutores, o disfarce nos papeis em que parece ser um assessor de boa vontade do chefe da prisão e é um fugitivo trambiqueiro(Um sonho de liberdade), parece ser um cara favorável à Sérima Arte e é seu algoz (O Jogador), tudo deságua nessa figura que se anula diante das câmaras, pois nada tem de atrativo tradicional. Seria apenas um bom moço de comédias românticas, não fosse sua linhagem, filho de mãe atriz e pai cantor e no início de carreira um jovem ator de vanguarda teatral.

Ele seduz o olhar do espectador para o que existe fora dele, o ator, como se nada tivesse a ver com os papéis sinistros que encarna. Não que não saiba fugir dessa imagem de falso bom moço, já que em Guerra dos Mundos Spielberg o transformou num americano em pânico armado contra os alienígenas. Ele pode fazer qualquer coisa, como é o caso do velho motorista maluco de Ongs no filme Um dia perfeito, de 2015, sobre o fim da guerra em Sarajevo, em que toma conta do filme fingindo não ser ninguém, e é apenas tudo.



É que sua preferência é anular-se até o osso aparentando o que não é, para que possamos enxergar o essencial: o próprio cinema. Porque a Sétima Arte não são os atores, nem o roteiro, nem os bastidores, o making of, o marketing, as tramas e a ação, como prova Orson Welles no seu póstumo O Outro Lado do Vento (disponível na Netflix). Um filme é apenas o cinema, em que todas as artes que confluem nele são coadjuvantes para que se apresente nas nossa fuças viciadas em comentários tipo “mas que fotografia!” e nos faça enxergar o óbvio.

Todo filme é sobre cinema e Tim Robbins é um dos seus supremos demiurgos. Atrai nossa percepção para que realmente conta, a arte imperceptível e anônima que teimamos em não ver em favor de ilusões e platitudes. Orson Welles apresenta um filme dentro do filme, e esse filme é uma alternativa ao seu clássico O Processo, que filmou nos anos 60 com Anthony Perkins fugindo desesperado de uma perseguição judicial e caindo nas garras da curiosidade das crianças. Neste O Outro lado do vento, é um casal nu que se defronta com a presença invisível do diretor (interpretado pelo maleva John Huston) que esnoba scripts, revela o talento de atores sem nenhuma expressão comercial e conta como um filme é impossível de ser realizado numa indústria que exige resultados financeiros e não arte.

Tim Robbins é o cara que não nasceu talhado para ser o ator principal nem coadjuvante, mas sim para ser espectador. Só que ele subverte esse destino e se funde no cinema, que é sua missão realizada com esmerada parcimônia. Ele é um dos monstros, o tipo de ator que encarna o personagem sem carregá-lo nas costas, como fazem os cavaleiros. Só que ao se transformar, se funde e aparentemente se anula. Ficamos com a melhor parte: seu talento de infinita capacidade de realização.





12 de novembro de 2018

SOPRADO NUM SONHO

Nei Duclós


O que acontece com Deus
quando você desaparece
E aparece
do outro lado da vida?

Ele te abandona
como se não existisse
Ou te protege
como fez com os apóstolos?

Vem e segue-me, dirá
Ou ficará sem a voz
que falou aos profetas?

Uma coisa é certa
Só contarás com a fé
Teu passaporte

Nei Duclós

9 de novembro de 2018

DA SORTE


Nei Duclós


Perdeu a graça aproximar-se
Agora já sabes
Que não há mistério
Apenas o humano laço
Sem nenhum disfarce

Nossa contingência
Falta de pendor
Para a eternidade
Só a suspeita
De que não somos o que imaginamos
Mas o que sobra da sobrevivência

Reatar o sonho com arte
A breve iluminação da sorte possível
Como um norte inventado na bússola que nuncs usamos
 

COMANDO

Nei Duclós


A vontade é que faz a criatura
Não sua capa
A estrela-guia além da carne
A conduta apesar da roupa

A lealdade à lei que vem da origem
A que o fim do tempo respeita
Pois o transcende

O sangue não comanda
Mas a liberdade




ATRASO

Nei Duclós


Foste me receber
Mas eu já tinha partido
Sou a próxima viagem

Fique com os lenços jogados do convés
Pelos enamorados

Fomos assim um dia
Estávamos com as mãos abanando
Sem bagagem

Hoje transportamos cargas
Eu com pressa
Tu com atraso




SALA DE PROJEÇÃO

Nei Duclós


Vida pequena
Projetada enorme na tela
Para que vejam a imagem
E não a fonte
menor do que aparece na parede

Estás muito bem, dizem
Melhor assim
A escassez é de foro íntimo
Tua dor não entra em cartaz
A não ser como coadjuvante
No drama épico da tua passagem

Venha, anjo
Nos ensine esse difícil oficio,
a humanidade




7 de novembro de 2018

BALANÇO PRECOCE



Nei Duclós

Tenho recebido votos de Natal dois meses antes da data. Sinal que há pressa em se despedir de 2018, que para a literatura foi bastante generoso.

Lancei três ebooks de poesia
FIO SUSPENSO
TANTOS VERSOS QUANTO ESTRELAS
O VALOR DA CRIAÇÃO

Lancei um romance pela Amazon:
A DURA LUZ DO SUBÚRBIO

Aumentei minha presença na Amazon
ARRASO POEMAS DE AMOR
A VIAJANTE OBSCURA
OUTUBRO
O REFÚGIO DO PRÍNCIPE

Relancei dois livros de poesia em forma de ebook:
NO MAR, VEREMOS
PAMPABISMO & ENIGMINAS: CONVERSOS

E um de ensaios literários:
AS RUÍNAS DO DISCURSO


Lancei em setembro uma Campanha do Livro para comemorar meus 70 anos, completados em outubro, com excelente retorno.As vendas de livros impressos e em ebook foram muito bem este ano, graças à consideração de muitos leitores, que acompanham por aqui o jorro da fonte. .

Fiquei ainda de atualizar meu livro de ensaios sobre cinema, que já está há mais de dois anos defasado.

E periga estou formatando nova seleta de poemas.para reunir em novo volume.

Um ano complicado de eleições, em que a poesia e a prosa contribuíram para habitar os espíritos e disseminar a paz na diferença.

Boas festas adiantado!!!



:

6 de novembro de 2018

VERSOS SEM AMPARO

Nei Duclós


Linguagem bizarra
de funda camada
Versos sem amparo
Estrofes que não conversam

Talvez seja o caos
Que o fim dos encontros
Gerou no poema

Rolo no discurso sem forma
É teu coração
Que puxou o apoio

Boiei como nuvem pesada
Depois chovi em vão na calçada

Arco-íris de carros
Nas poças d' água
Raspo a solidão
nos muros sem pintura

Esperas de braços cruzados
No mesmo portão que nos separa

Nei Duclós

VESÚVIO

Nei Duclós


Falo nos bares que ainda abrem como a flor projetada no ar pelas bombas que erram o alvo e pipocam na agua que o sal corrói

Os bêbados escutam o estrondo provocado pelo último poema que quebra os copos em queda de pratrleiras feitas com madeiras de lei

As orquídeas depositadas nos ombros dos heróis se refazem da longa marcha no deserto
e só um clarim tem permissão de acompanhar a palavra arrancada de corpos moços de um exército mudo a cruzar o pântano
Silenciosamente como um franco atirador na borda do Vesúvio


5 de novembro de 2018

PELA LIBERDADE

Nei Duclós


Livrai-nos, Senhor, do radicalismo,
filho dileto da burrice
Livrai-nos dos grilhões da direita,
da esquerda, da vanguarda,
e da retaguarda

Dai-nos a coragem do livre arbítrio
O pensamento liberto das amarras
De origem divina,
que transcende a razão
mas jamais a contraria (*)


RETORNO - (*) "que transcende a razão mas jamais a contraria" tirei de Hobbes







O BARCO NA SARJETA

Nei Duclós


O poema confessional é de autoria de personagens ocultos, que o autor cria ou invoca. São múltiplas personalidades lendárias a navegar nos versos reunidos sob um mesmo nome real. Elas se encaixam nas percepções variadas de quem lê, contesta ou se identifica.

Depois de jogar seu barco de papel na correnteza feita pela chuva na sarjeta, o poeta, garoto, se recolhe. E se perguntam pelos versos ele sacode os ombros. Diz que não é com ele. Escapa assim pelas reticências...

Ninguém pode se decepcionar quando insiste em ver as asas de um anjo que não existe. Que não é alegre nem triste, como diz Cecília Meireles. É só poesia, e isso é tudo.



A DOR E A FORTUNA

Nei Duclós


Todos os tempos são duros
Qualquer momento é um abismo
Teu entorno é tua aposta
Entre a dor e a fortuna

A memória é que costura
O passado em novo ritmo
Viaje agora no futuro
O presente como um fruto

A notícia é coisa bruta
Ninguém tolera a censura
Teu corpo contém a cura
O gesto é tudo o que resta




A VOLTA


Nei Duclós


Entendo que agora não me reconheças
Desapareci por muito tempo
Por obra de misteriosos eventos

Desisti de te convencer da minha experiência
Da qual não me lembro, nem por hipnose
E hoje meu nome transformado em lenda
Não pode ser manchado por qualquer notícia

Vou sumir de novo, desta vez para sempre
Pois se há dor na ausência
Ela é maior quando somos jogados de volta
Sem merecimento

Mudou minha aparência, mas mantenho intacta
A identidade doada pelo berço
Minha mãe saberia, mas ela não pode mais ser consultada

De todas as marcas desta enrascada
Que nem o teste de DNA resolve
Fica apenas a íntima alegria
De poder voltar à vida

Sou um náufrago que à revelia
Foi tragado numa curva do incógnito universo
Por motivos ignotos, num momento sem registro
E agora pede socorro à Lua
Que me acompanha, por ter o mesmo destino



4 de novembro de 2018

QUASE TU


Nei Duclós

Quase tu no intervalo imperceptivel
Em cada dobra da praia há um deus
Escutei o que não havia, talvez um zumbido
Incorporei o verso sem origem
Montado em Pégaso de pintura em bar fechado

Muito obrigado musa que embaralhou as cartas
Para eu não ver inteira a persona em sua costura



3 de novembro de 2018

O CINEMA EM PRETTY WOMAN


Nei Duclós

É de cinema, como acontece sempre na Sétima Arte, que trata o filme Pretty Woman (Uma Linda Mulher) , de1990, dirigido pelo veterano Garry Marshall (1934) com script de J.F. Lawton – com 30 anos na época do lançamento - interpretado por Julia Roberts e Richard Gere, que atingiram o estrelato como o casal romântico formado pelo empresário e a prostituta. O escritor J.F tem DNA em Hollywood: é filho de Harry Lawton, autor do livro que originou o clássico Willie Boy (1969), a perseguição e morte de um fora da lei, dirigido por Abraham Polonsky, que fez dessa antológica obra sua reentrada em Hollywood depois de ter sido alvo do macartismo.

A crise econômica e a decadência dos costumes é o foco principal de Pretty Woman, com sua consequência direta no cinema. A calçada da fama, que eterniza os ídolos cinematográficos do passado, é território dividido pelo trottoir. As pessoas despossuídas pela crise se amontoam disputando migalhas até que surge um protagonista da situação, o grande especulador financeiro que compra empresas em decadência para loteá-las e obter mais lucro. O encontro entre o cara perdido em Hollywood e a profissional que o orienta na vida amorosa é a reiteração do sonho do cinema, que fez a fama da América em épocas mais esperançosas.

O sucateador de empresas tem a ver com os predadores da própria indústria cinematográfica, também vítima da indústria financeira, que acabou gerando mais tarde, em 2008, o grande colapso do sistema, de onde jamais saímos. Em 1990 havia essa interseção entre o tradicional – o grande empresário construtor de navios e seu herdeiro – e a voragem emergente do advogado sem escrúpulos (Jason Alexander, de Seinfeld) e seu patrão ambicioso, que acaba mudando de rumo porque se apaixona.

O sonho retorna de qualquer lugar. Pode ser de uma calçada decadente, de um hotel de luxo, de uma ópera de Verdi, de botas de cano longo ou de uma limusine. Os americanos jamais tentam excluir os fatos que demolem cenários obsoletos, anexando-os em novo patamar, sempre no ritmo e no rumo de uma América indestrutível, porque se adapta. Enquanto nós nos entregamos ao horror das transgressões, os americanos não se opõem à multiplicidade das situações terminais, deixam fluir e reiteram sua pertença.

Pretty Woman, um dos grandes sucessos do cinema, mostra a decadência de Hollywood ao mesmo tempo que salva o principal, o sonho de um amor impossível. O encanto vem do amparo que o filme tem no próprio cinema, pois o fato de Richard Gere tirar os sapatos e roçar os pés na grama vem de Descalços no Parque (1967, baseado em peça de Neil Simon), e nas adaptações cinematográficas dos contos de fados, no caso aqui Cinderela. Eis o segredo de Pretty Woman, sempre bom de ver, se observarmos suas camadas mais profundas.



2 de novembro de 2018

OBRA ABERTA


Nei Duclós


Feche o poema a tempo. Não o submeta ao fardo das hipérboles e chaves de ouro. Freie quando as rodas dianteiras do comboio balançarem na margem do abismo.

Abandone o leitor à sua própria sorte. Volte a pé sem olhar para os lados, perseguido pelo crocitar das palavras que deixaste de usar, por saber que a criação fica sempre aberta, como flor à mercê do orvalho.


FEITA DE VELUDO

Nei Duclós


És feita de veludo por dentro
Fibras da manhã, corpo no tapete
Convite aberto em leque japonês
O que gera brisa em modelos de ateliê

Evitas o suspiro que em ti é redundância
Pois em tuas porções inteira manifestas
Desenho de um acaso que decide a festa
Guizos do mármore que virou promessa

Estátua de sal sem ressentimento
Te desmanchas quando faço vento
Conheço o cenário da tua elegância
Evento célebre te cerca de talentos

Escovado, compareço,rude, atento
Ao teu lado protejo o patrimônio
Guardo segredo sobre os interiores
O que escondes sob plácida aparência


27 de outubro de 2018

PLENA DE AMOR


Nei Duclós


Quando acordas como o sol a leste me ilumina
Abrindo o dia que brotou no escuro
Plena de amor sobre a pele nua
Descubro o motivo de ter vindo à terra
Ser tua companhia na cama da vontade


25 de outubro de 2018

VERBO ACESO

Nei Duclós


É penoso o ofício do poema
Evitar os truques do sentimento
Pensar em soluções não redundantes
Manter o verbo aceso na penumbra

Criar é sombra para sair do espelho
Não entregar o segredo que faz vento
Mergulhar quando tudo é superfície
Voar se for nuvem, pousar se me convences

Sair inteiro do naufrágio
Desistir para que todos vençam
Entregar-se à correnteza, colar de pedras
Emergir no barro antes do Gênesis



FORA DO EIXO

Nei Duclós


Nada do que se diz terá efeito
 A palavra é contorcionista do Direito
A injustiça é contrapor cada verdade
 com o lixo de um acervo violento

Serve para nós, para todo mundo
Vale a poesia se ela for
como se diz  da amizade, do peito

O amor é a base no piso do entendimento
 Desde que não se esvazie o conceito
Não diga que concorda só para tirar proveito
A boa palavra ocupa lugar fora do eixo



LIBERTA PELO VOO

Nei Duclós


Quem te representa
são as palavras da calúnia
As que usas para atingir o alvo
Não quem ganha teu apoio
Pois a ira é maior do que a concordância

Não é o amor tua bússola
Dela só tens a agulha
rodopiando como a biruta
Pois os ventos, inúmeros
contribuem para a fúria insana

Quer jogar? Ponha a bola no chão
Não em favor do lance rasteiro
Mas sim colocar a longa distância
Tua palavra liberta pelo voo
Servindo na cabeça do atacante

Vamos vencer, disse Didi na Suécia
Recolhendo o revés do fundo da rede
E repondo no centro do gramado
a vontade de empunhar a taça



23 de outubro de 2018

FORA DO MAPA

Nei Duclós


Éramos poucos no largo espaço do deserto
O único poço ficava fora do mapa
Imploramos um milagre e veio a chuva
Descobrimos depois que não fora a divindade
Que escutou nossa sede no feirão das graças

Mas sim a terra, exausta da secura
Da vingança que o Destino, louco milionário
Aprontara num jogo de pôquer com a Fortuna

Foi um sonho, eu sei, tenho sentido
falta de razão nesses embates
Farei o dever de casa em causa própria
Para deixá-los à vontade no areal da caça



MORO NO MAR

Nei Duclós


Moro no mar
Junto com as águas
Que um dia foram rio
E hoje são sal

Cardumes provisórios
Passam em direção ao cais
Viajo nos ventos vindos da costa
Vou para não voltar

Navego sem intenção de chegar
Sou o que o sonho me faz
Acordo o que vive fundo
O amor feito de corais



22 de outubro de 2018

DIFERENTE

Nei Duclós


Se você fosse diferente
Eu poderia forçar a barra
Te convidar para a poesia
Em vez de cultivar a guerra

Eu deveria também mudar o rumo
E me tornar ativo em tuas obras
Distribuir o pão, cuidar dos doentes
E na tua mão deixar de ser bizarro

Mas fico esperando tua iniciativa
Fechado no milésimo apartamento
No condomínio já condenado
Por projeto de futuro saneamento

Bates na porta. Carregas uma cesta
Finges me alimentar, musa travessa
Vestindo essa roupa de faltar à escola



CORRENTES

Nei Duclós


Não foi o tempo que arruinou nossa amizade
Dias perdidos já fazem parte
dessa porção de vida que nos cabe
Nem as ideologias ou as distâncias
Somos craques em ficar longe e pensar bobagens
Ou tampouco as palavras, de uso tão escasso
Ou os silêncios, de péssimo hábito

Foi a infelicidade que cultivamos sem alarde
Somando barro às tristezas da tarde
A desistência de resistir ao destino
Que traçaram para nós, pobres soldados

Em frangalhos revistamos as sobras
De uma devastação que não nos pertence
Mas compartilhamos com as correntes da solidão de arrasto



21 de outubro de 2018

SINAL

Nei Duclós


Foi só o sinal do sentimento
Brilho do olhar, tosco desenho
de um coração vermelho

Não é para responder, basta que vejas
E saiba que uma vida é pouco
para tanta espera

Meu beijo aguarda o melhor momento
Quando virás, não importa como
Nada separa os corpos nascidos um para o outro
Nem a distância evita as almas 
que juntas se atiram no abismo
do amor sem conserto



UMA SÓ PESSOA

Nei Duclós


O tempo pune e perdoa
Pune com a fome de hoje
Perdoa depois ou antes

A Trindade é amanhã
(o Espírito Santo)
o filho presente
e o pai que se foi

Passado, Presente e Futuro
Uma só pessoa
É verde quando está maduro
(nunca o sumo alcança o ponto)
E podre quando cai da árvore
(tudo é inútil se não há flagrante)

Aprendo quando passo adiante
Nada retorna como nas fábulas
Somos de outra natureza
O tempo nos ameaça



20 de outubro de 2018

CAMPO MINADO

Nei Duclós


A vaidade dos velhos
À altura dos seus crimes
A longevidade é uma folha corrida
Único documento que a mentira
Gravou em mármore e granito

Medalhas no teu peito, prêmios
E o discurso sobre o que não aprende
Longe do espelho, ilusão permanente
O rosto é um deboche do tempo

A flor possível é contar a verdade
Chance para o perfeito drible
No campo minado de falsidades
Passo terminal que apressa o paraíso



19 de outubro de 2018

INCERTO

Nei Duclós


Insetos tem vida curta
Não sobrevivem ao outono
Quando lhe sonegam flores
E os jogam como folhas soltas

Andam às cegas, como rebanhos
Voam para perto das cercas
Devoram colheitas, depois somem
Deixam restos de asas dos seus abdômens

Inseto sou, parte do povo
Ando de ônibus, viajo pouco
Só me resta zunir, supersônico
É o poema, motor do meu sonho



18 de outubro de 2018

ÁGUA DA MONTANHA

Nei Duclós


Tudo apontava para a doçura
A vida em comum, o amor em obras
Ficamos amargos na cinza dos minutos
A suspeita, os entraves, rupturas

Tudo conflui para o desfecho
Este sol que devorou a lua
Esse vento sobre as dunas
Esse impossível recomeço

Nada perdura. É como as poças de chuva
O que fica é a passagem sem retorno
E o teu rosto, água da montanha
Que alimenta o tempo
Para que nos surpreenda

Tudo está conforme o vento
Invisível, rastro de espuma
A carne provisória e o eterno espírito
Nossa inteligência, única alegria



17 de outubro de 2018

UM QUARTO DE LUA

Nei Duclós


Sou outra pessoa, a que ganhou o mundo
E o perdeu, por ter ficado à toa
Não entendeu que a fase boa
É uma só, como um quarto de lua

Hoje estou só por não saber ao certo
Se sou o mesmo, o que faz o verso
Ou o mendigo, que escolheu a rua

Gêmeo de um sonho, sou minha memória
Risquei a página que ficou em branco
Tenho uma prenda no corpo ainda vivo
Pedra brilhante que escolhi ser tua



16 de outubro de 2018

O RISCO DA DIÁSPORA


Nei Duclós


És proibida, eu sei, de chegar mais perto
Assim mesmo arriscas, flor rude do cacto
A censura não impede o ferimento
que mostras para mim, decisiva prova

Não prestas atenção, me dizes, pura lágrima
Ficas na sombra porque o sol se posta
Entre a criatura que ficou de fora
E coração como biruta em tempestade

Mas conservas a vontade, como um pecado
Que a virtude adoça na intensa espera
Bastará um gesto, talvez no acaso
Para romper o selo de tamanha diáspora


SONHO DE SALTIMBANCO


Nei Duclós

Tão ocupada. O dia pleno de detalhes
Retalhos do tempo, flor dilacerada
entre pedra e vento
Enquanto entorno
a luz dos teus momentos
Afiando a voz cada vez mais longe

Meu canto está em outra freguesia
Na feira livre da estação vizinha
Precisas de um trem no próximo horário
Para chegar sem fôlego no meu expediente

Tenho espaço nos intervalos
Para um encontro à beira da calçada
Isso é só um sonho pois o saltimbanco
É quem viaja por concessão da amada



15 de outubro de 2018

IMPULSO


Nei Duclós

Cada palavra conta
São como pedras
Que a infância colhe
E separa pela cor e a forma

Minha gaveta tinha tantas
Oferta do esforço em surpreender-te
Quando passavas precisando
De um colar de conchas, de um impulso

Meu tesouro daria o mesmo brilho
Que ostentam as estrelas

Joguei todas para o ar
Refletindo o néon da lua cheia
Leste então o que o céu apronta



12 de outubro de 2018

COLEÇÃO DE ESTRELAS

 Nei Duclós


Num só dia pinto as paredes do edifício
Abrigo os retirantes do deserto
Arrumo a estrutura dos andares
Abro todas as janelas para a Lua

Depois me retiro
Alguém que está por perto pergunta:
É seu endereço?

Só por dever de ofício, digo
Ainda falta bordar o céu noturno
Com minha coleção de estrelas


NO MEIO DA TORMENTA

Nei Duclós


Valei-nos Nossa Senhora Aparecida
Livrai-nos do vazio e dos corações de pedra
Da tentação do mal, que é a violência
Lembrai-nos do amor no meio da tormenta

Que tenhamos fé, contra todas as suspeitas
Que possamos transcender no livido sofrimento
E entender quem vive com diferente rosto
Que sejamos solidários em nossas solidões

Mãe de Deus, que tua presença
Em nosso espírito seja a tolerância
E possamos seguir sem que os ferimentos
Impeçam a formação de um tempo generoso



10 de outubro de 2018

POESIA


Nei Duclós


A poesia não está a serviço da política nem de nada ou de ninguém. Também não compactua com as posições de ter lado ou ser isenta. Ela é onívora, encarna tudo o que é humano. Está acima, abaixo, distante, próxima de tudo o que existe, nasce, morre. É feita de palavra, das suas origens e transformações, dos usos e abusos. Não pode ser enquadrada pela mediocridade dos interesses provisórios ou permanentes. Não combina com cartilhas nem palavras de ordem.

Sua força é a liberdade impulsionada pela sonoridade. É música, com e sem partitura. Tesouro de nações, perfil de espíritos intensos. Combativa e recolhida, explícita e no resguardo, cinza e de todas as cores. É preto no branco, é tranco e barranco. Não a esqueça na gaveta, não finja indiferença. Não é supérflua, comportada nem simples transgressão. Pode ser sóbria, assombrosa, leve, forte. Incorpore sua natureza selvagem, marca de uma civilização.

Poesia. Porção de eternidade no universo frio e de pedra. Forja de criaturas. Insanidade e lucidez. Dor e transcendência. Amor e conflito.


FATO É LINGUAGEM – O CASO OVNIS


Nei Duclós

INTRODUÇÃO - O fato existe como linguagem e importa pelo impacto que provoca na percepção coletiva. Isso o torna refém das versões. A solução é mapear a trajetória da linguagem para definir os contornos do fato sem entregá-lo para a dispersão e o desmentido. Portanto, nenhum fato que tenha sido rastreado pelas marcas que sua linguagem deixou no imaginário social perde sua veracidade. Ele é o que provoca no confronto entre seu movimento e a observação e vivência social. Ao curvar o espaço tempo do cenário coletivo ganha peso de realidade. Isolado é apenas um evento suspeito de não ter acontecido.Essa é uma Introdução ao estudo de fatos divididos entre a verossimilhança e a falsificação. Vamos pegar um exemplo:

OVNIS - É um assunto interessante por ser um fenômeno de massa exposto ao preconceito. Não importa se existem ou não, importa que esse evento pode ser dividido em tempo, lugar e protagonistas. O tempo são as fases em que o fato, a linguagem, provocou na percepção coletiva.

Vamos abordar no início do fenômeno, 1947 (a pré-história, a dos marcianos fica de fora aqui, não faz parte dos Ovnis, já que as naves e os seres vinham de Marte e não de qualquer lugar, com raras exceções). A primeira fase, nessa abordagem de tempo, é a surpresa, a descoberta. É a era Roswell, do provável acidente de naves no Novo México, com a polêmica captura de seres e os desmentidos militares.

Segue-se a intensificação do mistério, das interrogações e da ocultação das visualizações e abduções, que coincide não por acaso com a Guerra Fria. Dos anos 60 aos 80 é a época de Aquarius, a lenda dos seres que vinham para anunciar a paz e a concórdia e uma nova idade de ouro para a humanidade, o que gerou a inocência do filme ET ou a esperança dos Contatos Imediatos de III Grau, de Spielberg. É o tempo por excelência dos planetas de outras dimensões e dos gurus virtuais que falam por telepatia. Essa época foi substituída pelo fim de século, apocalíptico, em que os OVNIss eram ameaças de guerra e os aliens, monstruosos.

Chegamos enfim a este século, em que há vários vetores em destaque. Um deles é a abertura dos arquivos secretos, que coincide com a abertura dos papéis da segurança da CIA via Edward Snowden, mesmo que não haja ligação direta. A Nasa e outras agências oficiais admitem a existência dos OVNIs e os avistamentos se multiplicam graças aos celulares e suas câmaras fotográficas e de vídeo, oferecendo vasto espectro de casos por canais do You Tube.

Esses são os impactos de tempo. Nos de lugar, e seus respectivos protagonistas, temos os avistamentos primeiro das agência espaciais, ainda com escassas informações mas com registros importantes; a dos pilotos das forças armadas ou dos aviões comerciais, com testemunhos e perseguições e até mesmo acidentes e capturas de seres de outros mundos; depois temos os acontecimentos em terra. Primeiro no interior, onde a cultura inocente dos protagonistas entra em contato com a sofisticação dos extraterrenos. No interior sobram exemplos de viagens espaciais inspirados em literatura de ficção de segunda, com líquidos protetores para cruzar o espaço nas naves, cidades utópicas e perfeitas em constelações distantes, seres amigáveis etc. Nas cidades a barra é mais pesada. Os ETs se metamorfoseiam para conviver entre nós, coincidindo com uma literatura de ficção mais sofisiticada. E há os avistamentos no mar e na montanha, com naves mergulhando ou se estabelecendo em lugares remotos.

Temos então um fato suspeito – a existência de inteligências de outros planetas – e seus impactos sobre nós. O fato é linguagem que impacta o imaginário. Existem de fato? O que importa é que sim, existem nessa interação com o imaginário coletivo.

Nei Duclós

PROVA DOS NOVE

Nei Duclós


Voou teu anjo, voou
Bem no alto precisaram dele
Você perdeu tudo
Eras uma porção de quem se foi

Sim ao remorso e ao desespero
Mas não reprove
Neste teste final
Só passamos se formos humanos
A vontade de Deus
é sua prova dos nove



6 de outubro de 2018

TÁBUA

Nei Duclós


Estavas suada como um animal exausto
Eu te pus numa tábua do mar revolto
Navegamos orientados pelas três de Órion
Balançavas com perigo em direção ao fundo
Ferida de paixão, rasgo sobre a espuma



RISCOS NO DESERTO

Nei Duclós

Trilhas do tempo na pele do braço,
riscos no deserto,
expostos nas dobras dos gestos.

De onde vieste,
peregrino de outro mundo?
Água é insuficiente.

Só o respeito à sede de Deus
nos mantém acesos

4 de outubro de 2018

CRUEL CICLONE

Nei Duclós


Mar é onde mora o vento
Vela ao relento
Naufrágio de monstros

Praia sem sossego
Corais afiados
Ondas do medo

Céu é só o que não vejo
Mísseis de Zeus
Nuvens avessas

Primavera, cruel ciclone
Vulcões, tsunami
Flor é só o que não tenho



TODA PERDIÇÃO


Nei Duclós


Sou tua perdição
No dia seguinte sentes remorso
Mas em vão

Nada apaga o fogo
que arde por vocação

Basta uma nota
para extrair todo o roquenrol
Uma letra para a versão integral
da Marília de Dirceu


2 de outubro de 2018

ÚMIDO VOO

Nei Duclós


No cenário seco da minha história
trouxeste uma flor no bico
para depositar em minhas garras

Para preservá-la
caprichei nos cuidados com tuas águas

Foi assim que sobrevivi,
arrulho de raizes úmidas



30 de setembro de 2018

FLOR OCULTA

Nei Duclós


Não é o que eu pego
Mas o que escapas
Na lisa curvatura da conversa
O teu requebro
Que me deixa segurando o ar
Do pobre verbo

Treino antes do encontro
Mas não produzo
A mínima sensação de movimento
Fico mudo
Pois tens o domínio do contorno

Volto com as mãos vazias
Meu sonho é puro vento
No outdoor ris do mau momento
Em que tentei seduzir a flor oculta

Ninguém sabe onde fica tua vontade
Se na pele, no ventre, na coragem
Chego em casa e lá está a bela
Lendo um livro, e a lua na janela




OFERENDAS

Nei Duclós


É de fundo falso minha caixa de mágicas
Onde retiro os dons e o poder das palavras
E que te sobra por transbordar o jarro
Água que inunda como as tempestades

Pergunto se há limite para tua sede
Já que a minha cabe na fonte mais óbvia
Se é possível o convivio, tu no fio da espada
Eu a paisana, vestido como os pássaros

Jamais estaremos na mesma sintonia
Não procuro a trilha onde te disfarças
Porque sou da natureza, voo a céu aberto

Levo a uva que vai gerar o vinho
Não mato o cordeiro, o sangue derramado
A mesa é o espaço do fruto solidário
Espessa é a fome que se serve do ciúme

Quem está por perto é Deus e sua fibra
Que providencia a força, impulso dos cardumes
Nossas oferendas são o pão e a carne
E a noção do que faremos depois do crime



AMOR EXATO

Nei Duclós


Não sinta vergonha, curta o carinho

Matemática é quando a logica tira os números para dançar
O amor também pode se dar o luxo de ser exato

O corpo enxuto abriga a lágrima
O impulso pousa na pintura
A palavra solta se abriga
O arrepio prepara o grito






29 de setembro de 2018

AMOR PENDENTE


Nei Duclós


Flor não emociona mais

Dentro do teu peito, a lua
No teu voo meu encanto
Tua saia na ventania
Meu coração na montanha

Por quem viajas, poesia?
Será que ainda chegas de viagem?
Tua mala de couro, teu corpo
A única paisagem

Dormirás conforme o tempo
for abrindo as janelas
Lá estou eu amor pendente
Pendurado em teu sonho


UM RECADO

Nei Duclós


Somos distantes
como sistemas solares de galáxias opostas
Tu no centro do cosmo
Eu viajando na borda mais extrema

De vez em quando uso um cometa para enviar um poema
E dizer eu te amo



CÂNTARO

Nei Duclós

Pus a mão no jarro de água
Era de barro
Era de pétala
Tinha a pele dourada
Como a tua, ao sol deserto

Pus a mão no cântaro da bela
Ela me olhou
Como quem desmaia


26 de setembro de 2018

CANTOS DA TERRA

Nei Duclós


Quando eu voltei, com versos novos
Da missão que por acaso abracei
Pois fui levado sem saber ao certo
O que deveria fazer
Senti que eram leves as palavras
Apesar do front onde fiquei

Encontrei as pedras em poemas tristes
De quem viveu na vida a distância
Nao havia voos que em mim flutuam
Como plumas depois de um sopro
Espalhadas pelos cantos da terra

Evitar o perigo pode ter um custo
Abraçar o risco traz além do susto
A noção exata da primavera



SONHAR

Nei Duclós


Deixa eu sonhar
Sem os contrabandos
do real
Imaginar a física do amor
Com as leis da solidão

Não precisa chegar
Acostumei ao que jamais existirá
Sei o que há
Quando te ponho de prontidão

Na cadeira que dá para o mar
Onde navego o coração



24 de setembro de 2018

PALAVRA DE DESPEDIDA

Nei Duclós


Palavra de despedida
Silente, como um aceno
Porque não cabe uma vida
No intervalo de um sino

Na última batida
Subiste o degrau extremo
Teu rosto ainda se vira
Para meu pranto suspenso

Porque não damos bandeira
Quando o amor é impossivel
Você parte e eu fico
Os corpos já não se entendem

No entanto não se assuste
Ao olhar pela janela
Na areia do faroeste
Eu cavalgo minha pressa

Levo um recado supremo
No sujo chapéu de feltro
Digo em sinais de lenço
O adiado compromisso

Nem sempre o coração vibra
No diapasão do poema



PURO CORAL

Nei Duclós


Mostro o que sou
Para que vejas o que não aparece
Minha devoção, que brilha no rosto exausto

E que revela os túneis da fantasia
Tu sem disfarce a me fazer companhia
A esperar a manhã, iluminação mais fina
Puro coral da íntima alegria


ALÉM DA MOLDURA

Nei Duclós


Teu olhar está pedindo socorro
O sorriso não disfarça, antes reforça
É o desperdício que te põe para baixo
Tanta beleza nos limites do óbvio

Não que precises posar de estrela
Isso já és, sem fazer esforço
Mas é o destino de brilhar intensa
Mesmo anônima, jóia preciosa

Noto que olhas muito além da foto
Presa na moldura que a vida modela
Procuras uma porta, uma janela
Pudera estar eu no alvo dessa rota



SEM CONSERTO

Nei Duclós


No momento em que ela é sua
Você a perde
Seu caminho agora é a rua
Mais cedo ou mais tarde

Mulher nada a segura
Nem a própria vida, que joga para o alto
Queres guardar a lua numa redoma
Mas em qual fase será que escapa?

Orgulho da caçapa quando a pões nua
Mal sabes que a conquista é o início da derrota
Mantenha-se no espaço que o amor rabisca
Não queira fazer disso uma pintura

Ela voará, ave sem conserto
E só pousará se lhe der na telha



22 de setembro de 2018

DESCENSO

Nei Duclós


É como se o corpo pedisse arreglo
Provando que não tenho mais conserto
A perna que há anos se atormenta
Com a pele em fogo de bruta bactéria
A visão cada vez mais sem resistência
O coração fora do ritmo e a cabeca
A tontear conforme avança o inverno

As engrenagens ringem nos tropeços
Os dentes que se foram sem ser substituídos
E o ouvido a se ressentir com os silêncios

Qual é a moral da história?
Recuperar os movimentos
dançando um tango após o diagnóstico?

Que seja. Dance comigo E não tema.
Contigo é a unica maneira
De eu viver sem ter um troço



MAIS TARDE

Nei Duclós


A realidade desmoraliza
Coloca tua profecia no chinelo
Faz tua análise provocar engulhos
Descarta a poesia e as velhas fantasias

Te reduz ao pó de onde jamais saímos
Somos testemunhas, jamais protagonistas
Nossa vida mendiga latas usadas para a reciclagem
Enquanto completam o serviço: fazem caridade

Você quer dormir e eles te acordam
Com a sopa do discurso e o cobertor da miséria
Muito bom o que escreveste, dizem eles
Só que não tivemos tempo de ler
Guardamos para mais tarde



MELIANTE


Nei Duclós


Cachorro descobre teu próximo lance
Faz o diagnóstico do teu pensamento
Segue o movimento antes que aconteça
Sintoniza na mente como os predadores

Chega junto em todos os instantes
Não por ser dono, mas por ser semelhante
És o cão que ele formata ligeiro
Oriente as orelhas, enterre o osso

Ele domina a casa e mija nas roupas
Esfrega o focinho na tua comida
És seu refém, o monstro meliante
jamais sente pena de quem sequestra

No fim do dia chegam as crianças
E enchem de mimo o ditador dengoso
Ele te olha lânguido imaginando
O que fará contigo no dia seguinte


EXPOSIÇÃO DE ARTE

Nei Duclós


Perguntas pela flor, sendo a mais bela
Como se fosse obrigação da primavera
Providenciar o que te sobra
És a obra
Não perguntes pelo que deslumbra nossos olhos

E não importa se isso está fora de moda
Te comparar ao que a natureza aprova
Esse bordado de cor e forma
Que cobre as pedras da rua onde moras

Passo a passeio
Carrego rosas
E noto que me espias da janela
Nenhum de nós domina tanta corte
Oferecer a flor para quem não sabe
O quanto expõe de sua própria arte



20 de setembro de 2018

ESTÁTUA

Nei Duclós


Terra para mim é água
Riacho onde o pampa acaba
E o mato inaugura a obra:
Barco e tralha de pesca

Acampados no barranco
A linhada bem na boca
A rede onde faz a curva
O surubi ressabiado

O rio que banha a cidade
O barro cobrindo as pedras
O assobio da piava
Dourado passando ao largo

Nunca estive a cavalo
Nem fui à carga de lança
Os causos quando criança
Falavam de outra fauna

Faca só para as escamas
Tiros se houvesse festa
Mas às vezes as perdizes
Chamavam de campo aberto

Carregando a espingarda
Chumbo grosso para a janta
O cachorro viu primeiro
Virou estátua na hora

Desisti e virei ponte
Onde tudo recomeça.



19 de setembro de 2018

ADÃO E EVA

Nei Duclós


Não foi o vício
que nos expulsou do paraíso
Mas o ofício para ficar inteiros
depois da Queda, o pior batismo

É o que nos faz humanos
Tua doce pétala apagando o remorso
Meu espirito atento com sabor de pólvora

Adão e Eva, a inventar família
Lavrar o afeto nos filhos opostos
Essa linhagem sem Deus de sentinela
Sua voz de trovão fora da conversa

Aqui não entra a espada, que ficou de guarda
Temos o fogo, coração do inverno
E nossas mãos, que a Criação adora



18 de setembro de 2018

LENTES

Nei Duclós


Conheço as fotos que pões ainda
Como se fossem hoje e são antigas
E que a todos atingem pela beleza
Mas não sabem que agora és diferente
Mais sóbria nas linhas do desejo

Talvez não interesse e insistem no mesmo
Como se fosse eterno teu perdido momento
E não enxergam o que só eu vejo
Pelas lentes do amor, confessor do tempo



16 de setembro de 2018

TARDE DEMAIS

Nei Duclós


Inútil a palavra depois que morre
o som de uma conversa de amor
E medra o horror plantado entre nós

Suspendo o verbo, escuto os passos armados
pelas vozes que agora se escondem

Quando se manifestaram sem freios
já era tarde demais




PLENITUDE

Nei Duclós


Teu recato faz parte da personagem
Memória da moça que nasceu há tempos
E ainda tem o ar do teu começo

Poderia ser falso já que és madura
Mas ainda é tua essa atitude certa
Flor da plenitude, passo de açucena



RELÓGIO

Nei Duclós



Nítida no céu a líquida estrela
Se desfaz em luz que molha a noite
Silêncio do sereno em íntimo descenso
A pousar no chapéu que já não tenho

Fim de estação em teu olhar de feltro
Retumba o coração na sala do mistério
Plena de amor ainda sem apoio
Nenhum dom à vista no ofício da pele

Sobe a lua cheia assombrada pelo medo
Ela não pediu para entrar nesse universo
Pertence sabe-se a quem, criatura sem retoque
Origens talvez no que jamais tem preço
Esse sino que é o tempo nas dobras do relógio



12 de setembro de 2018

MEU NOVO ROMANCE PELA AMAZON


Nei Duclós

A fronteira no final dos anos 30: uma investigação, um crime, um tesouro enterrado, uma derrama de dinheiro falso, um trem noturno, um pescador, um adivinho, um mandalhete que pretende entrar para a polícia, uma mulher de vestido prateado, uma viúva, um casamento, as heranças, os conflitos, os gângsters.

A DURA LUZ DO SUBÚRBIO é uma história da fronteira escrita entre 2016 e 2017 e que reúne personagens da mocidade dos meus pais misturados às minhas próprias lembranças. Um clima de filme noir com drama e comédia policial revela o carismático e elegante Leva e Traz, o mandalhete da máfia que queria ser investigador. Entre outros destacados personagens.

Uma ferrovia imaginada pela memória contém elementos de um confronto na fronteira do Rio Grande do Sul no final dos anos 1930. O popular Leva e Traz, personagem de pouca altura que se veste com terno e chapéu de feltro, levando sempre uma arma na cintura, usa o trajeto para entregar em mãos pacotes suspeitos de potentados da região e por isso enfrenta diversos contratempos. Precisa explicar para bandidos menores o que faz com tanto esmero de lá para cá, enquanto esconde seu hobby, a busca de tesouros perdidos no pampa. Na trama se destacam personagens marcados por tragédias familiares, como a perda de um pai, de um emprego, da mocidade, da paz. Desfila no romance uma galeria de personalidades marcantes, como a viúva mãe de mpças em idade de casar, o delegado que fica às voltas com derrame de dinheiro falso e por isso não atende direito o Leva e Traz, que sonha em ser detetive da polícia, a beldade do cabaré de vestido prateado. Num texto impregnado pelo clima direto e franco do lugar onde se desenrola a trama – uma cidade e as aldeias ao redor, as casas e ruas e escritórios luxuosos em oposição ao campo aberto onde se esconde um cadáver e pessoas perdidas como o velho pescador dos arroios ou o benzedor e adivinho que mostra onde há ouro enterrado.Num crescendo, a ação chega ao desfecho jogando os protagonistas no ermo de uma literatura de sóbria carpintaria.    

Romance
Nei Duclós
Ebook Kindle
76 pgs
R$ 25



TESOUROS

Nei Duclós


Não temos valor quando estamos vivos
Só depois, ao ser distribuídos
Os pertences que passam sem compromisso
Uma escova de dente de marfim antigo
Uma enxada de prata para lavrar estrelas
Um tapete persa tecido no sótão
Uma camiseta assinada pelo craque esquecido

E os livros! Insurrectos de Emílio Salgari
A Guerra dos Mascates, o Mundo da Criança
E o acervo de capa verde de Lobato

Tudo caindo aos pedaços, folheados por gerações
em profundos invernos
Uma cestinha de vime para que a mãe guardasse
Suas lãs e alfinetes e um enorme rosário

Talvez fique num canto sem propósito
Tesouros que agora somem no depósito
O que fica é o toque de mãos invisíveis
Que um dia foram nossas e agora não existem



11 de setembro de 2018

LÓGICA E MISTÉRIO

Nei Duclós


É uma questão de lógica, apesar do mistério
De sobrevivência do nosso pobre espírito
Confiar que exista Deus, marca do infinito
Na mente fechada em seus limites

Para não haver solidão, sólida contingência
Na hora final quando a alma grita
E o poder soberano então escuta
A tempo de ver o que o destino apronta
Quando tudo no universo é só clausura
E o pai que nada pode contra o destino
De ver a morte certa ceifando trigo

Não há misericórdia, acreditar ou não
É o mesmo desenlace
Então é o coração o último refúgio
Chamam de amor mas é pura tempestade



VENTO SECRETO

Nei Duclós


Sonhei com o vento secreto
Ninguém sabe que ele venta
De onde vem sua tormenta
Para onde vai quando deita

Não descobrem sua agenda
Escrita em fiapos de estopa
Se sopra por contingência
Nos barcos que perdem tempo

Na guerra ele representa
O movimento silente
Canhões antes do comando
Naufrágios de uma bandeira

Ao marcar a sua ausência
Roçando a pele ainda quente
De quem perdeu o momento
Quase entrega sua existência

Sua solidão é aparente
Por não ter corpo presente
Mas se uma vez te apaixonas
Sentirás o seu segredo