25 de maio de 2017

HORA DE AÇÃO

Nei Duclós

Exponho o corpo ao frio para que saiba
o quanto de cosmo há no clima ameno
recado físico trazido por cometas
em conluio com o gelo de outros sistemas

Os poros agradecem, depois de torrar na areia
no verão interminável e sem sossego
a pele gosta do arrepio bem no começo
antes que o inverno venha em seu recesso

Outono é assim, nos mantém alertas
o ano não tem mais álibi contra compromissos
é hora de ação, inaugurar o espaço
que estava oculto e agora se apresenta


DECISÃO



Nei Duclós


A dúvida na autoestima
quando só somos meninos
espalha-se na idade adulta
como se fossem raízes

Isso mantém submissa
a vontade na armadilha
permanecemos convictos
superficie do destino

A não ser que venha um dia
O amor que contraria
as lições da confraria
os ditames da familia

Você consegue é o lema
doce despertar sem vínculo
com as amarras do nó cego
Esse amor é que decide

FOGO AMENO



 Nei Duclós


Não vou mais repartir
pois já não tenho
o pão que assisti
em fogo ameno
Todos se serviram
mãos sobre a mesa
Silêncio de oração
com Deus presente

O frio veio de longe
Regiões guerreiras
E se instalou de pronto
Trigo no gelo
O corpo se entregou
alma em divórcio
Hoje eu adormeço
luas de sonho

Venha amor esplêndido
do céu mais denso
Com seiva e fermento
Que eu me mantenho
A lenha ainda quente
Brasa incompleta
no fósforo molhado
que não se entrega

RECADO SILENCIOSO



Nei Duclós

Era uma janela aberta para o quintal de terra
E outra para a rua calçada
Saídas naturais do quarto confinado por outro quarto
O dos pais

Da rua vinham os convites para a algazarra
As serenatas para a familia
as carroças de leite ou verduras

Do quintal com cinamomo e galpão ao fundo
vinham os pássaros do verão
os caminhões de entrega
os pés de mamão roçando no muro

Entre o mundo lá fora
e o espaço que havia nos limites do portão
vivi uma vida que de repente se despediu

Foi quando peguei o trem
E do vidro largo olhava a lua cheia
a brotar do pampa como um presságio

Era o tempo que apitava no comboio mastigado pelos trilhos
Eu partia carregado de memórias
Levava no casaco um maço de palavras
cultivadas naquele teto

Era o recado silencioso a cavaleiro da maquina
Monstro que soltava fogo pelas ventas


EXEMPLO



Nei Duclós

Pequeno é o que vemos de cima
No topo da trilha, mirante em montanha
Nosso olhar é vasto no mundo mesquinho
O ar que escasseia nos inspira

No alto somos arautos da sabedoria
Repartimos a luz com quem vem da planície
Temos algo de sagrado, sacerdote e pitonisa

A ilusão se desfaz quando há poesia
E deixamos de lado toda soberba
Acendemos o fogo rodeados de magia
A que veste o espírito, não a que o condena

Abraçamos o sonho e não a maestria
Damos exemplo ao escolher o abismo


18 de maio de 2017

SESSÃO DE CINEMA



Nei Duclós


Imagino melhor do que enxergo
A cena invisível é mais nítida
Alma é album de fotografias
Videos que ninguém compartilha

Sonho situações de enigma
Acordo assustado e lívido
De onde aquelas portas, colunas
Lugares que trafeguei dormindo?

Tudo se mistura à memória
Soma de recordações e roteiros
A vida é uma sessão de cinema