16 de outubro de 2017

PLANOSFERA



Nei Duclós 


O ponto anterior ao big bang
era uma esfera
a explosão desdobrou-se
num tapete de estrelas

O universo se completa
ao enrolar o piso
sobre si mesmo
como os bichos que se defendem
ao virar pequenas bolas

A Terra faz parte do projeto
ela é redonda por ser plana
chão de uma sala com pingentes

Em qualquer direção
volto ao princípio
pela dupla natureza
desse artifício, que é Deus,
planície, que mora na montanha

Eu também caminho
em direção ao abismo
mas sou traído quando a curva
do destino me devolve ao berço

Sempre no começo
habitante do sol
no íntimo de uma gruta

Os pés, que são plantas
voam
Minhas asas são nuvens
que do ar caem no mar

Planosfera. Tudo faz sentido
no poema
Estratagema da palavra
que no barro fica eterna


RETORNO -  Obra de William Glackens

AS MÃOS LIVRES



Nei Duclós

Se as mãos fossem
independentes
Seriam mais intensas
candentes

Teríamos a chance única
de exercer o que nos falta
a grandeza dos gestos
a clareza das palmas
o orgulho de articular
o aceno

Se as mãos fossem livres
como são os pássaros
me levariam para o espaço
lá onde fica o amor
isolado e trêmulo


IMAGEM - Obra de Henry Moore.

INFLUÊNCIA



Nei Duclós

Não é para ser visto
e no entanto vemos
 a tinta cativa do desejo
sugerido ao lado de um rosto
voltado para a parede
(as costas da aparente
indiferença)

Quadro que oculta a delicadeza
de um poema tímido
de lúcida influência
(a letra enxerga a cor
mas não explica)


RETORNO - Imagem: Moscou, 1947. Foto de Robert Capa.

15 de outubro de 2017

A CHAVE DA CONDUTA



Nei Duclós

Não noto você, sou repetido
no gesto de fazer, sempre miúdo
Fronteiras do meu ser, que preenche tudo
e deixa ao deus dará o estar contigo

Preguiça de mudar, hábito antigo
enquanto esvai o sol todos os dias
a chance de brilhar, definitivo

Compreender não basta, só adia
a chave da conduta, amor à vista
A falta de uma forma mais precisa
reter o que não fui, só de surpresa


VITÓRIA REGIA



Nei Duclós

Amor é feminino
flor de vitória régia
deposita a pétala em meu corpo bruto

Sou feito de pedra
onde medra o líquen
e a erva do coração
que se civiliza

Ame o que tenho de quebra
esse sonho avulso
que avança em teu peito

Carne de veludo e mármore


A ORIGEM DO VERBO



Nei Duclós

É secreta a origem do verbo
Que se oculta por baixo da letra
É completa a escultura de pedra
Não se expõe ao vulcão que desperta

Entendi o enigma do verso
Vi os deuses descer sobre a terra

É sagrado o que fala o profeta
Que na praça esclarece que é cego
(se preserva na luz em excesso)