17 de dezembro de 2017

O ANJO



Nei Duclós

Não posso fazer da solidão o meu conjunto
Nem da tristeza meu tambor de banda
Não tenho álibi, meu crime é o canto
Puxo o cordão de um bloco de sujo

Perguntam se sofro e porque não resolvo
Essa situação que mais parece o corso
Desfilo sem razão ou comedimento
Empurro o carrossel para que se divirtam

Assim posso mais tarde ficar num ponto
Onde nada me atinge, nem sequer o anjo
Que sopra esses versos, cultura do pântano


16 de dezembro de 2017

FIM DO MUNDO



Nei Duclós

Você não quer e isso decide
É justo as estrelas evitarem o poema
A terra girar ao contrário, as cartas se perderem

O sol tem o direito de sumir para sempre
A lua de esconder-se atrás de Júpiter
É natural que o amor vá para o lixo

Preferes o coração fora da pertença
A solidão em vez da desavença
A convenção e não o quarto escuro
O discurso suplantando o beijo

Somos como bichos. Vamos esquecer depois de feito o serviço
Te escuto gargalhar, musa em desuso

Eu pego na estação um trem
Para o fim do mundo


PACIÊNCIA



Nei Duclós

Se é para dizer a mesma coisa
deixe como está
Se é para inventar o sem sentido
pense melhor
Se é para ficar como excluído
não vá
Se é para chorar o leite derramado
vire para o lado

Se é para esquecer que tens caído
lembre do salto
Se é para pedir o impossível
fique calado

E não dê conselhos
O templo das religiões
está lotado


14 de dezembro de 2017

ANGÚSTIA, DE GRACILIANO RAMOS



Nei Duclós

Nada sobra das 237 páginas de Angústia, de Graciliano Ramos: a nação, o futuro, o Nordeste, a imprensa, a opinião pública, a honestidade, a inspiração, o povo, as profissões, a beleza, a infância, a escola e o próprio leitor, que sucumbe quando chega à últíma página. A história não é o romance, mas o que o autor faz com a linguagem. Para compor a sonoridade e a trama do seu texto, ele usa a tragédia pessoal do funcionário público pobre do Tesouro, que faz bicos de revisão e é ghost writer nos jornais, que num acesso de loucura estrangula o oponente filho de pais ricos e donos de loja de tecidos, gordo, falastrão, sonetista e patrioteiro,   porque este lhe roubou a noiva, ruiva e vizinha, a engravidou e a abandonou.  A riqueza dessa literatura maior vem da confluência de elementos específicos (personagens e situações relacionadas com o ambiente onde nasceu e se criou) e o rodízio de linguagem que impõe um ritmo cada vez mais intenso conforme a insanidade do protagonista se aprofunda diante das decepções, frustrações, impasses e desesperos que se avolumam em sua vida.

Gostam de dizer que Graciliano Ramos, o maior entre seus pares, se define pelo corte obsessivo que faz da narrativa, reduzindo-a à essência. Não vejo assim. Ele não busca a secura e isso tem confundido os epígonos, que crestam a linguagem até torná-la inerme e obsoleta. Graciliano faz diferente. Sua essência é de outra natureza e nada tem a ver em colocar fogo nas palavras. Ele usa os lugares comuns de maneira magistral, pois estes fazem parte do imaginário e das falas do seu personagem principal, que no fim descreve todo o roteiro e o mundo ao redor. É por meio dessa criatura que tudo acontece, inclusive as manifestações das outras pessoas. Tudo está dentro da cabeça do narrador, que pinta um quadro completo de sua trajetória, desde a infância sofrida e inesquecível, passando pela mocidade de mendicância até chegar á idade adulta cheia de problemas.

Todo o livro é uma espiral concêntrica de repetições no monólogo obsessivo do protagonista, solteiro de 35 anos, que veio do interior (da serra, onde havia muita chuva), neto de dono de escravos e proprietário de terras que caducou e perdeu tudo, obrigando a famíília a sair da fazenda para morar numa vila.  Toda a riqueza desse passado se cruza, num ritmo cada vez mais intenso, com as preocupações do fazedor de artigos políticos a favor e contra, e que tem a mente perturbada pelas dificuldades que enfrentou na dureza do relacionamento com o pai, na brutalidade dos crimes e das mortes que se sucediam diariamente, na mendicância na capital, Maceió, na juventude, onde morou em pensão caindo aos pedaços.

Então que graça pode ter Graciliano se ele enxerga a humanidade como um projeto perdido e se aprofunda em detalhes sinistros do corpo em decomposição, das prisões podres, dos quintais cheios de lixo, dos trabalhadores cobertos de óleo e fuligem, das moças que são disputadas pelos gaviões e acabam na Rua da Lama? Não importa esse quadro cru e violento da vida brasileira, onde a culpa assume o perfil definitivo da personalidade do narrador. O que importa é a maestria do escritor, que nos ensina como fazer, mostrando sua relação assombrosa com as inúmeras possibilidades da linguagem. Ele aborda as pixações de rua, os letreiros comerciais carcomidos nos bares, as conversas mesquinhas de agiotas e falsos intelectuais, as interjeições dos bêbados, a indiferença dos donos de bodegas etc. É um mural que poderia ser disperso, mas é totalmente concentrado, onde a linguagem se transforma num ponto de tensão explosiva, rebentando enfim, pela leitura, numa obra que habita nosso espírito pela contundência, a genialidade, a grandeza, que são a marca desse autor que não veio à terra a passeio.

Graciliano Ramos. Não há outros autores.


Nei Duclós 

REPÚBLICA COM E SEM REI



Nei Duclós

O historiador britânico marxista Christopher Hill nos ensina que o termo república não significa apenas o sistema republicano, mas, como na sua origem se refere aos negócios públicos, também serve para a monarquia. Se levarmos em conta a monarquia inglesa depois das décadas revolucionárias de 1640 a 1680, quando os ingleses intauraram a monarquia parlamentarista depois de defenestrar e enforcar um rei e recuar para uma restauração da coroa, podemos entender melhor esse conceito que, como tudo em História, é complicado.

Terminei de ler O Mundo de Ponta Cabeça - Idéias radicais durante a Revolução Inglesa de 1640 (Cia das Letras, 1987, trad. de Renato Janine Ribeiro), que reúne revelações importantes sobre as seitas que medraram na insurgência contra todas as igrejas, católica, anglicana e presbiteriana, contra os fidalgos, os dízimos, os proprietários de terras, os burocratas, os letrados etc. numa manifestação popular das profissões mais simples, os que pegavam a mão na massa e se tornaram, com a desestabilização social provocado pela guerra, em figuras itinerantes a pregar blasfêmias contras as Escrituras, Cristo, a nobreza, o clero etc.

As seitas era inúmeras: os diggers, que cavavam as terras devolutas para lavrar sem a licença do governo, os levelers, que queriam nivelar todos, os ranters, que blasfemavam radicalmente, além dos quackers, que acabaram recuando e se tornando mais prudentes e longevos. Alguns faziam cultos em cervejarias e praticavam o amor livre e deixavam os loucos anos 20 ou dos anos 60 no século 20 no chinelo. É forte a influência desse movimento periférico que não foi devidamente estudado - até Hill - pela historiografia e que deixou marcas na política, na filosofia, na imprensa, nas religiões, na literatura, atingindo diretamente as obras de grandes autores como William Blake e Milton.




Bastidores de guerras são sempre importantes para entendermos melhor os eventos históricos, fora do cânone em que se colocam os fatos para que esteja apropriados aos aparelhamentos políticos contemporâneos. A monarquia constitucional foi adotada por Dom Pedro I, que levou essa ideia a partir do Brasil para as guerras contra seu irmão Miguel em Portugal, onde virou Dom Pedro IV.

Dom Pedro se aconselhava com um general holandês que fora braço direito de Napoleão e estava no exílio no Rio desde a derrotada do Imperador. Conto isso no meu livro Tudo o que pisa deixa rastro, de 2015, uma ficção com bibliografia, fruto de 20 anos de pesquisa e que avança para outras guerras brasileiras, desde a da Independência, até a de 1924, a de 1930 etc.É bom ler sobre esses eventos e ampliar nossa percepção do que pegou no passado e continua agindo sobre nós.

Nei Duclós