21 de setembro de 2019

NOVO MUNDO

Nei Duclós


Reconstruímos o mundo
Nas ruínas depois do cataclismo
Dele ficaram essas pedras retorcidas
Monumentos sem rosto
Esculturas de gigantes
Perfis de um enigma
Sem retorno a nos perguntar
Quem somos nós
Criaturas geradas em águas profundas
Ou pelo fogo fátuo das estrelas?



20 de setembro de 2019

INVASÃO

Nei Duclós


Não me entenda mal, a tua beleza não é o motivo
De me aproximar com tanto esmero
Fico longe pois conheço que sou número
Entre tantos que sobram pelos cantos

Mas fico à vista, a esperança é a grande fantasia dos cativos

É o teu jeito, tua auto estima
Que projeta essa postura de estadista
Como se fosses dona do meu reino
E eu um pobre cavaleiro andante

Por isso arrasas sendo apenas o que vives
Com esses atributos de escultura
Houvesse uma religião minha devoção
Teria a força de um templo dos romanos

Deixo meus exércitos fora da cidade
Como ordenam as leis dos sacerdotes
Mas a insurreição parece inevitável
Deusa do Olimpo que invadiu o Capitólio



19 de setembro de 2019

SAÍDA


Nei Duclós

Poucas palavras bastam para cobrir a fuga
Uma senha que encontre a saída
Uma porta de entrada
E basta para despir as roupas antigas
Ganhar outro nome
Viver de brisa



BARCO PEQUENO


Nei Duclós


Talvez precise, mas não devo recitar o poema
Dizê-lo em praça pública
Ou confiná-lo em salas de leitura
Ou sussurrar versos em pérfida epifania
Ou mesmo inseri-lo em discursos

Devo abster-me
Como se estivesse sempre mudo
Ele estará recolhido em conchas
Ou velhos livros
Enquanto me mantenho à deriva
No mar que é meu segredo
Barco pequeno que rema contra o Tempo



ARGONAUTA

Nei Duclós


A maior aventura é o conhecimento
É o que me anima, máquina do tempo
Não para saber, que é pilha nas estantes
Mas descobrir, navio dos argonautas

Ver pela primeira vez é o assombro
Terras ignotas, gigantes de granito
Crônica em papiro, diários de bordo

Voltar então com o olhar devassado
Por ter cruzado o mar de estrela distante
Marco polar, aurora permanente
Mais de um sol, luas delirantes

A grande aventura é conhecer-te
Amor, mulher madura, coração ainda verde



16 de setembro de 2019

ENSINO


Nei Duclós


Você me ensinou os poemas de amor
Me aceitou, me quis
Foi e voltou como as estações
Depois me exilou

Na solidão medito nessa consagração
Que me devolveu o sentimento
Que ao contrário de você
Ficou


14 de setembro de 2019

AMARRA

Nei Duclós


Escreveste na pedra para que eu não esqueça
Mas não decifro rabiscos ou hieroglifos
Fico na mesma, não te compreendo
Sou leitor desatento, homem sem brilho

Herdaste dos deuses a inteligência
És de outra estirpe, talvez de outra espécie
Sobrevivente de um cataclisma
Mas que sucumbiu com algo mais forte
Meu desamor, tosca linguagem
De poemas forçados diante da deusa

Sou arauto da dor, sumida princesa
Preciso reler teu alfabeto
Talvez eu encontre o que nos separa
E costure uma ponte e aperte essa amarra



NO BALCÃO


Nei Duclós

Por acaso nos encontramos num café, em lugares opostos no balcão.
Ela se mostrou surpresa pois achava que tinha sumido de vez do alcance do meu sonho.
Ficamos nos olhando longamente, chamando a atenção de quem estava ao redor.
De repente eu disse num murmúrio, arrancando dela um sorriso profundo:
- Eu te amo.

A mulher que estava de olho grudado em nós na extremidade do balcão, chorou.



13 de setembro de 2019

LAÇO DE CATIVO

Nei Duclós


Só você não leu o que te escrevi
Exausto da solidão, que é viver sem ti
Já pedi perdão, já me arrependi
Estenda sua mão que ainda estou aqui

Não pense que sumi apenas que sofri
E continuo teu como nunca estive
O amor é uma emoção, laço de cativo
Não nasce em vão, não ache que morri

Me dê uma razão, volte para mim
Posso imaginar se acaso te perdi
Mas não hei de passar por essa traição
Pois tens o punhal beldade de um verão
E podes machucar mais do que já errei



AFRODITE

Nei Duclós


Te roubei do altar onde um oportunista
Quase te levou do meu convívio
Queria te expor como um bibelô
E não pelo que és, glória feminina

Nasceste porque Deus chegou ao limite
Da sua obra, esplêndida Afrodite
Ele se apaixonou mas deixou-te livre
Já que não é Zeus e numa sarça ardente
Disse-me que eu não deveria perder-te
Que eu não sou Odisseu que abusou da sorte
E quando voltou ainda tinha a bela
Que a todos resistiu ao tecer destinos

Te roubei do altar, momento de perigo
Com meu cavalo branco que foi do imperador
Soldados nos seguiram fazendo a segurança
E logo depois casamos, o povo estava em festa

Jogaste as flores para mill mulheres
E o mundo te amou, noiva que me deste
A felicidade por ter corrido o risco



ESCONDERIJO


Nei Duclós

Não tenho mais acesso, levantaste um muro
Pelo crime de eu ter dito o que não devia
Foi em vão a carga de poesia
Que te de dediquei de maneira explícita

Resolveste te ofender, plena de vurtudes
E eu pecador, com meu jeito rude
Sem jeito de tentar uma nova chance

Foste embora por um erro de cálculo
O tempo é meu aliado, não o meu verdugo
Fico melhor no amor correspondido
Mas não perco o prumo, mesmo tão sozinho

Perguntam porque exibo este rosto triste
Acham que perdi o gosto pela vida
Nisso não aposte noiva em sóbrio exilio
Posso não sorrir mas serei forte
Busco onde estiver teu esconderijo
Do deserto vim, rastreador indígena



11 de setembro de 2019

TUS OJOS

Nei Duclós


Tus ojos tienen el frescor de las mañana
Tu cuerpo es árbol, agua de montaña
Soy tu pájaro que sube hasta las nubes
Dices amor e el mundo se transforma
Es la primavera muy temprana



O PRESENTE



Nei Duclós


Como brincar na rua se as ruas estão mortas?
Como aprender se perverteram os livros?
Como crescer se envenenaram a comida?Nei Duclós
Como sobreviver se destruíram o trabalho?
Como acreditar se aparelharam a fé?
Como obedecer se todas as tendências se corromperam?
Como sonhar se a arte foi devorada pela mediocridade?
Como pesquisar se anexaram o passado às suas hostes?
Como escrever num ambiente ágrafo?
Como te amar se fui amarrado à indiferença e o desengano?

Só a palavra solta me levará até a ti
O poema, último reduto de uma Criação humana
Respaldo dessa divindade que no berço nos deu o presente da alegria



4 de setembro de 2019

LUGAR

Nei Duclós


Viajei por todo lado o tempo todo
Serra e litoral, capital e interior
Pantanal e Passo Fundo, de maria fumaça com baldeação em Cacequi
Alegrete Itaqui e São Borja
Passei por Curitiba morei em São Paulo
Peguei um avião para Brasilia outro para Foz do Iguaçu
Cruzei a ponte e fui para Libres Bella Unión Quarai
Fiquei um ano em Blumenau dois dias em Santa Maria
Estudei e comecei a trabalhar em Porto Alegre
Conheci Ubatuba Cabo Frio Parati
Tomei chuva em Livramento e Rivera
De carona cheguei no Rio
E me estendi até Vitória Jacareipe Nova Almeida
De casaco pulôver terno camiseta calção

Estive em todos os lugares
Em qualquer idade
De Uruguaiana a Tramandaí
Da Lapa ao Butantã
Mas só num permaneci
O meu próprio coração



A LÂMPADA

Nei Duclós


Primeira letra quando nos conhecemos
Tu perfeita com tantos tiques humanos
Rosto sem aparelhos ou truques insanos
Olhos que me colocam aos pés de Vesúvio

Toda surpresa é um presente para quem está esperando
E parecia impossível e já nos desvencilhamos
Quem acredita no amor à primeira vista?
Certamente os solitários mas deixamos passar

Com o tempo o que senti volta ao lugar do crime
Procuro na praça castigada pela chuva
Olho para o chão e escuto: achou?
Não, dizemos em uníssono
Estava bem aqui mas agora está escurando
Debaixo da lâmpada que no fundo era a lua
Olho para ti a segunda vez que nos apaixonamos

É só um poema cercado de buzinas
E uma frase solta no ar
Um eu te amo



GARRANCHOS


Nei Duclós


Passou a hora do poema
Que eu entregaria em mãos
Fiquei com a letra ardendo
Muda na hora da desunião

Melhor assim. Vejo agora
Que era preciso reescrever
Para disfarçar a bandeira

É o que faço agora no teto
Sobre teu quarto fechado
Vou mudar para pássaro
E bicar tua janela até de manhã

Hás de notar o papel com garranchos
Que ostento para que leias

Não me importa que digam
Queo amor é tão ridiculo
Que parece bobagem o sentimento


1 de setembro de 2019

ÁGUA DO PLANETA

Nei Duclós


Em cada planeta as criaturas escolheram os elementos essenciais da vida.

Em Jupiter foi o gás em Mercúrio o enxofre em Plutão a sombra na Lua a areia em Vênus as nuvens baixas pesadas em Marte o fogo em Saturno os arcos e na Terra foi a água.

Daí vieram os lagos os rios os canais as cisternas as cachoeiras os aquedutos as represas.

E também a Deusa da Água, mãe generosa sem a qual não haveria nada a não ser pedras colocadas por toda parte a expor o remorso do dilúvio.

E tem o mar, espaço não domesticado a combinar com o vento o terror do desamparo e com o sol os gloriosos dias de praia.



26 de agosto de 2019

FALSO RECATO


Nei Duclós


Escrevo para ti sem que ninguém saiba
Nem mesmo tu, namoro sem futuro
Escondida em tua esfinge trêmula
Sei onde mora teu desejo
Olhe para mim, falso recato
Charada em papel de almaço
Canção de realejo em remota praça

NOVO CONTINENTE

Nei Duclós


Éramos amigos antes da política
Éramos irmãos, éramos amores
Tinhas uma flor em cada despedida
E um coração nos sons de uma visita

Disseram que era errado beijar se houver conflito
E dar as mãos se houver necessidade
Exigiram a prestação da identidade
Decorar a lição, provar fidelidade

E eu que te queria fiquei na solidão
E tu que eras minha agora és partidária
Não abrimos a boca sem que nos contestem
Amor só entre iguais, modorra de uma peste

Vamos fugir negando essas bandeiras
Voar em direção do livre pensamento
Cruzar o mar sem contrariar o vento
Voltar a descobrir um novo continente



METEORO

Nei Duclós

Nenhum meteoro atingiu a terra
Foi ela mesmo que ficou mais densa
E seu fogo recolheu-se para o centro
Mudou o ambiente amigável aos gigantes
E os dinossauros foram extintos
junto com outras grandes criaturas
Não havia mais clima
Agora a terra ameaça explodir-se
Porque chegou novamente ao limite
Somos esse meteoro de desavenças
Venha impor a paz, açucena
Com tua doçura sem o sal da profecia


PARTIR

Nei Duclós


Partir, dizem os sinais
E as bagagens se acumulam pelo cais
Todos vestem roupas de sair
Deixando o próprio coração para trás

Medo da guerra, medo da miséria
A falta de confiança é geral
Não há futuro na pátria que já era
Embarcam no adeus, a fuga contra o mal

Mas eu fiquei porque não estás de mudança
Abandonada na rua sem vizinhança
Buscas o pão mal rompe o alvorecer
Criança ao colo tens tempo para as flores

Arrancas no caminho as ervas daninhas
E o viço das miosótis esplende em tom diurno
És jardineira, vestido com cintura
Algodão prudente sobre a pele nua

Te imagino minha nessa solidão que tarda
Sigo pelo olhar teu andar enxuto
Só tenho a poesia, último cartucho
Quando explodir o mundo cubro a retaguarda



LÁ DENTRO

Nei Duclós


Amor jamais é um erro
Não gera arrependimento
Cria um mundo paralelo
Que é o mundo verdadeiro

Fora da sua fronteira
Existe dor e remorso
Lá dentro mora o desejo
A paixao e a inteligência

As almas que se apaixonam
Vivem o sonho mais denso
Não acaba. Só dá um tempo
Amor, volte para sempre



ÚLTIMO BANHO

Nei Duclós


Com os pés sujos de areia
Os joelhos gastos de uso
A pele antes do chuveiro
O cabelo, ombros, tudo

Dizer no meio do agarro
Que gostas do corpo alheio
Liberto de outros dengos
Barro com lã te desenha

Esperar que recomponhas
O gesto no tempo feio
A beldade que se entrega
Sabe o estrago que arrebenta

Sair depois a passeio
Cumprimentar os passantes
Com a cara de tratantes
Amor que dispensa espelho

Olhar o mar visitante
Aonde brota a lua cheia
Tomar o último banho
A convite das sereias

Dormir então de olho aceso
Alerta aos movimentos
Se acordas estou atento
Não perco nenhum momento


A INTELIGÊNCIA

Nei Duclós


Queria teu rosto tomando conta
do meu espaço.
Mas chamaria a atenção
e tiraria pedaço.

Jamais perdoam a admiração
pelo que tens de flor,
da tiara ao sapato. O espanto
da tua inteligência. o amor.



GETÚLIO EM AGOSTO


Nei Duclós

Um tiro no coração
Nas fuças da nação
Um tiro no coração
Logo depois da reunião
Um tiro no coração
Para que saibam a razão
Um tiro no coração
A morte em sua mão
Um tiro no coração
Está exposto o caixão
Um tiro no coração
O povo puxa o cordão
Um tiro no coração
Pai com gesto de irmão
Um tiro no coração
No agosto da traição
Um tiro no coração
A dor de baixo calão
Um tiro no coração
O corpo abraça o torrão
Um tiro no coração
Quem lhe tira a decisão?
Um tiro no coração
Fica eterno esse bordão
Um tiro no coração
O sangue brota do chão

Presidente
Getúlio Vargas
Presente!
 

PERDI MEU TEMPO


Nei Duclós 

Perdi meu tempo, o Tempo levou
Ficou obsoleto o que tanto me tomou
Agora fica limpo o cenário final
O corpo não descansa em piso terminal
Prefiro estar corrente do que fingir espanto
Saio do meu canto e desafio o piano
Não tenho com isso nem o mínimo lance



A REVELAÇÃO


Nei Duclós


Eram muitos deuses porque o trabalho árduo
de vestir a terra de canais e monumentos
Mais os altares e as montanhas imitando templos
Com suas torres e terraços amplos
Precisava de mãos e da vontade dos gigantes

Eles então criaram a obra
Que hoje é só vestígio de ancestral espanto
Deixaram as pedras com formas ignotas
E rostos enormes de olho no horizonte

Tudo o que hoje pisamos é sagrado
Deuses provisórios se esforçaram
Para merecer a grandeza da primeira santa
E anunciar pela voz do arcanjo
a vinda de um Deus, síntese e convênio
Nascido de uma estrela de oriental comboio

A revelação é nossa epifania
Herdamos o eco de um Amor sem fundo
Não dá pé esse mar de corais extremos

Diante da criação somos todos mudos
a oração contrita expressa num mergulho
Deus está vendo e vive no comando
Aguarda o tom humano que resta neste mundo


HABITAR

Nei Duclós


Os espíritos se identificam
Na escassez das chances
O mundo não existe
Para a invasão recíproca
O normal é o isolamento
Somos casas sem número
Teu olhar fica restrito
Às minhas janelas de vidro

Dentro de ti habita
Alguém que me surpreende
Aproxima-se o desconhecido
Tuas peças sem liga

É mais do que estranho
O que sinto
Piso no lenço distraido
Somes na escuridão

Fica para depois
Ocupar a sala onde mora
Teu olhar de prisão, aflita.



20 de agosto de 2019

REENCONTRO

Nei Duclós


Um rosto conhecido
No século novo
Cercado por multidões
E cidades frias

Antigos verões
De nossas famílias
Banhos de sol
Expunhas o espírito

À noite na varanda
O amor de véspera
Não havia mais portões
Para a dose certa

Emerges agora
Na tarde chuvosa
Mal me enxergas
Coração de memórias



CAIO NA ARMADILHA

Nei Duclós


Acerto sem querer, acusas o golpe
Num súbito suspiro sufocado
Tens o peito tenso pelo impacto
do que eu disse, ao atingir o alvo

Agora essa ressaca
Em que aguardas a repetição do ataque
Mas eu não vi como fui certeiro
E me distraio te deixando brava

Mulher navega em outro território
Numa estratégia de diversa caça
Costura o rumo que deixei à solta
E me recebe como quem não sabe

Eu caio na armadilha, preso na graça
Que exalas fingindo não saber que matas



FERIDO

Nei Duclós


Tarde demais, beleza da minha terra
Sempre te quis, bouquê de flor e ervas
Estavas no salão, rodeada pela glória
Agora o amor bate em nossa porta
Soldado ferido depois do fim da guerra

O tempo acolhe o terminal estranho
Ele se arrasta procurando abraço
Tens o rosto colhido pelo drama
Somos os dois mais íntimos remorsos
Separados como o sonho numa jaula

Vou para ti com o poema ainda moço
Te apaixonas pelo esboço da palavra
Sopro do anjo que também se atira
Na piração de não ser correspondido

Por minha mão ele força sua fala
Para alguém que conheceu na infância
Que é mulher com o teu mesmo destino
De ser paixão que busca o compromisso



DOCE ALIMENTO


Nei Duclós 

Um verso é todo o poema
Uma palavra, um telefonema
Ou teu silêncio
Quando Deus desperta no alto da montanha
E os pássaros fogem dele
Para se abrigar em tua janela

Teu corpo que se soma à inteligência
É tudo o que oferece o sonho
Ponho de lado o teclado, a caneta
Enquanto desenhas o verbo no vento

Não precisamos de outra versão
Que não seja o amor, fogo que nos alimenta



18 de agosto de 2019

ALTAS HORAS

Nei Duclós


Grude feminino a altas horas
Quando me dava por perdido
Cheiro de surpresa, beijo maritimo
Tua leitura é uma voz que reverbera
dentro de mim, rainha da memória
Beldade viva que derrama açúcar
E que ao abraçar se põe à mostra

Lembro a cidade que tinhas na mão
Nos bailes sonoros e esplêndida praça
Fui espiar tuas pernas quando na quadra
Ostentavas o monumento de tua glória

De saia muito curta e largo sorriso
Desafias o juízo de quem te adora



TEMPO INSONE

Nei Duclós


Sigo os passos da noite
Acordando a toda hora
Os anjos pedem história
Os sonhos não dão sossego

Quando o claro se anuncia
Meus pássaros estão exaustos
Durmo quando já é dia
Fazendo tudo ao contrário

Perco a rotina das horas
Não atendo as desavenças
Me sacodem com sol posto
Foi a noite, explico tonto

Dormir direito com a lua
Embalado por estrelas
Só se não houver defeitos
Nem remorsos, nem lembranças

Insônia é um treinamento
Para a vigília da guerra
Quem vem lá? pergunto afoito
O último sentinela

Explode o tempo no jeito
De me deixar nesse alerta
Ficarei de sobreaviso
Garanto a paz que não veio



16 de agosto de 2019

O SOPRO RECOMEÇA


Nei Duclós

Só fiz o bem
E o mal foi um conselho
Aprenderei
Conforme vai o tempo
E voltarei
O sopro recomeça

Só fiz o mal
E o bem foi um tropeço
Acertarei
Se houver a nova chance
Lá estarei
Se for a flor que sangra

Só fui amor
No mundo indiferente
Me plantarei
Rebento no deserto
Combinarei
Corcéis do vento leste



15 de agosto de 2019

A DOR E A GRAÇA

Nei Duclós


Tudo o que é sério provoca riso
Toda comédia é fruto de um drama
Todo choro soa falso
Toda gargalhada é mal vista

Chamam de humor quando o certo é a graça
Chamam de dor quando a verdade ataca
Gosto de ver o que faz o palhaço
com sua tragédia. Tropeça para alçar voo

A vida é um circo para exibir o trapézio
um salto bruto que a rede não segura
Fomos devorados pelos leões da jaula
A lona pegou fogo, garantiu a manchete

A morte parece estar sob controle
na arte que mostra os dentes e a lágrima
mas é só um treinamento que a Monstra
dança como bailarina nos cavalos

A memória captura as perdas
mas depois tudo some pelo ralo
Fica o poema, serragem de picadeiro
que a chuva transforma em lama tóxica



14 de agosto de 2019

A CARA E A CORAGEM DO MEDO


Nei Duclós

Medo e inevitável para quem está vivo e passa por radicais transformações do berço ao desfecho. Mas cara e coragem para enfrentá-lo ou aprender a conviver com ele são opções. Você põe a máscara para sobreviver, mas isso tem a ver com o mundo de fora. Dentro a carapuça não cabe, você se vê inteiro, enxergando a morte como uma longa sucessão de perdas desde cedo. A escritora Aline Bei, que ganhou o Prêmio São Paulo 2018 como Livro do Ano na categoria estreante, expõe no seu romance O Peso do Pássaro Morto (Editora Nós, 2017, R$ 36 com a autora, frete incluído) esse tecido que embrulha a infância numa embalagem pesada do mundo adulto, e a vida adulta num celofane transparente de sentimentos dolorosos.

A estrutura do livro, em que cada capítulo corresponde a uma determinada idade (8, 17, 37, 48, 49, 50, 52), com a linguagem apropriada a essa marca do tempo, é um monólogo de solidão, abandono, desespero em busca do amor, que sempre falta nas relações familiares e profissionais. Tem tudo para ser um livro pesado, mas é leve pela maneira encantadora que Aline imprime em cada solução de linguagem, sempre surpreendente, em que as frases são expostas nas páginas em peças interligadas, orientando a percepção que fazemos de tão rica narrativa.



Como o livro é mais inteligente do que a resenha, é preciso não ousar inventar a pólvora e deixar que flua a contundência estudada da autora, um texto fragmentado e ao mesmo tempo inteiro, num ambiente quântico em que as realidades convivem aos saltos, esclarecendo a alma da personagem, dividida entre a frustração profissional, a memória afetiva, o embate com as rotinas, o recolhimento autoimposto e a crueza de dizer o que não pode ser silenciado.

Grande livro. Um assombro de talento e trabalho com a linguagem. Vejam isso: “...uma casa empilhada no meio de tantas outras naquela rua feia que por várias noites a lua esquecia de passar.”

A vida não tem cura. Escrever poderia salvá-la, mas quem evita a carta perdida que some no quintal abandonado? Aline não nos dá esperança, a não ser na literatura brasileira contemporânea.




10 de agosto de 2019

FIM DO DIA

Nei Duclós


Acumulei assuntos para dividir contigo
Mas estavas ocupada alimentando os bichos
Nosso quintal imenso já era domínio da lua
E as estrelas forçavam a entrada na arena

Aos poucos o galpão aquietou-se
E nosso pouco gado conformou-se com a cerca

Voltaste suada com os baldes e panos
Restos de ração nas botas de borracha
Eu tinha feito o fogo e esquentava a janta
Não pediste ajuda mas eu te dei o banho

Foi quando um pé de vento chutou o telhado
Chove esta noite, disseste entre bocejos
E dormimos juntos, como sempre fazemos

Deixei os assuntos para o dia seguinte
Depois do aguaceiro
O rádio pega bem as últimas notícias
Tem um chiado, mas ainda escuto perfeitamente
 

5 de agosto de 2019

BRANCO DE LINHO

Nei Duclós


Não esqueça do poema
Convite a céu aberto
Sem divisões de renda
Ou alguma preferência

O verso só junto à nuvem
Poeira que o corpo avista
Palavra que nos ensina
A compor sem instrumento

Maestro de sinfonia
Pião de eterno rodízio
Que giramos sobre a mão
Como no perdido tempo

Quando o tempo ainda havia
Na infância que se perdia
Roupagem de linho branco




OBRA DE ARTE

Nei Duclós


Vida é arte
Obra é o que fazemos dela
Expomos as formas e a alma
Impregnados pelas cores das horas

Embaixo a assinatura
Com tinta invisível

Deixe de lado, missioneira
Tua rotina longe das telas
E me desenhe

Eu, pássaro que se debate
Nas grades de tua astuta gaiola



SONORO ESPÍRITO


Nei Duclós

Falo perto quando posto amor
Longe se for desabafo
A palavra pousa ou atropela
Conforme o piloto, o poeta
Ou quem decide dizer o que lhe toca

Falo baixo para driblar o ruído
Se quero chegar ao privilégio, teu ouvido
Ou grito para anunciar a amizade
Do outro lado da rua

Escuto teu sussurro
Embalo teu discurso
Fica no ar o sonoro espírito
Como as nuvens que velam o precipício



31 de julho de 2019

CONDIÇÃO E OUTROS POEMAS


CONDIÇÃO

No fundo queremos companhia
Remorso por tanto tempo sozinho
Nascemos para nos projetar em luz e sombra
Acolher e ser acolhido

Chamam de amor essa emoção de arrimo
É a condição de abraçar o que evitamos
Sermos humanos

Nei Duclós

CHARADA

Para ti sou novo, me conheceste agora.
Mas não sou moço, tenho História

Para mim sou antigo, mas não me conheço
Quem sabe me dizes o que ignoro?

Nei Duclós

DENTRO E FORA

Não estou sorrindo
Mas isso não importa
Guardo o que não vês
Escondo o que sinto
E exibo a boca torta
De um rictus cevado pelo sofrimento

Mas estou contente
Com minhas provas
De que estou vivo na tormenta

Não estou chorando
Mas dentro medra a dor que não compartilho
Minha alegria é o espírito que me anima
A poesia

Nei Duclós


Não use nada
Só tua alma
Teu coração
Solitário
Tua porção
Do itinerário

Não pegue carona
No notório
Só tuas mãos
Vazias
Só teus dias
Nem mesmo
Tuas memórias

Enfrente o mar
Com teus braços
Finos
Teu peito de cão
Teu corpo tímido

Saia do chão
Com asas ainda úmidas
Presas na oficina

Só tens a poesia
Unico clarão

Nei Duclós


FÁBULA

Tirou-me a bala do peito
O cirurgião residente
Apostou que havia vida
No corpo já sem proveito

O coração se salvara
Por falta de pontaria
O gatilho obedecia
Ao tremor do assassino

Voltei à tona um dia
Depois desse desperdício
Quis a vingança do crime
Mas na hora me contive

Um anjo encarregado
Por Deus ou o seu pupilo
Para livrar-me do erro
Veio então falar comigo

Deixe a obra do destino
Diga sim à sua vontade
Disse a doce entidade
Com a voz de profecia

Tirou-me toda a maldade
Embora eu seja a vítima
Convivo agora com o tiro
Não permito que se espalhe

Nei Duclós

CENA

Na fresta do luar colhi a estrela
Que pousara seu corpo ainda quente
Na areia improvisada de uma praia

Eu era moço, feito de sistemas
Que permitiam viver sem ter acesso
À natureza íntima dos mistérios

Mas foi chegar na rústica morada
Que a onda construira sem alarde
Junto ao aglomerado de um rochedo
Depósito de astros em recesso

Para eu provar o bálsamo do enredo
A trama do convite a uma festa
Em que dancei patrocinado pela lua

Não faz sentido o gesto de Netuno
Que empurrou do mar uma sereia
Eu não estava a merecer aquele sonho

Ainda engatinhava no poema
Mas a cena me ensinou a transcendência

Nei Duclós

16 de julho de 2019

MIOLO DO DRAMA E OUTROS POEMAS


Nei Duclós

MIOLO DO DRAMA

Poesia é a percepção da palavra
O seu uso
Ela mesmo importa menos
Você pode fazer um poema com palavras mortas
Desde que você veja. Você enxergue

A palavra em si não leva a nada
Evite dizer amor quando se apaixonar na cama
Diga adeus e sofra como um cão
O destino, a poesia, te levará de volta
Ao miolo do drama



DEIXA ESTAR

Perdi o bentevi pousado no fio
Fui fotografá-lo mas já era tarde
Perdi o registro da imagem
Mas não a palavra sobre ela

Não vou descrever a cena
Pois poderão dizer: não é o pássaro que estás pensando
É outro, de peito branco e a cabeça amarela e preta
Vai estudar as aves, é o que dirão
Não é bem te vi o que ele canta ou pia
Isso é sua percepção
Sua poesia

Mas agora estou de tocaia
Para provar que tenho razão
Ele há de pousar de novo, o salafrário
E posso garantir: não era gorrião sabiá ou canário
Nem pomba rola ou quero quero
Deixa estar
Tenho a manhã toda para provar
Não importa o vento frio da varanda
Tenho o sol e o céu azul



CIRCUITO

Há tempos sai do circuito
Agora curto

O problema é a faísca
O choque mudo

A energia vai toda para o sonho
Estive na rua sem jamais ter saído

O tempo é um papel que voa baixo
E às vezes levanta num pé de vento



NÃO PARECE

Poema é quando não parece poesia
Não tem o clima
Nao força o estilo

Também não é quando sai no bate pronto
Como este poema
Não é suor nem lágrima

É construído para não ser o que se espera
É quando ninguém recita
Guardado porque não publica

Então do que se trata
Se não rima nem tem verso livre
E fica oculto junto com a lenha?

É só poesia que não se identifica
Bilhete de falso suicida
Palavrão escrito na areia
Pixação depois que esquecem o conflito

Fica a parede com frases perdidas
Como greve dos jornais, minta você mesmo
Ou algo além do enigma
Escrito por anônimos
Como catavento não gera poder central

Mas isso não parece poesia!
É como eu ia dizendo



SUBMARINA

Digo por dizer
Se eu disser mesmo posso me arrepender
No fundo calamos para sobreviver
Só depois vem à tona a palavra tonta de dor
Submarina versão do que evitamos de pior

No fundo a alegria é um nado livre na superfície
Driblamos o olhar assassino do destino
Tocaia do azedume

Rio de mim para que flutue a liberdade do ser



DUPLA JORNADA

Mulher, matriz de criaturas
não se limita ao cânone obscuro
É igual ao que pensas ser só tua
A vocação da presença e da conduta

Dupla jornada, a de ser e abster-se
Para que seu fruto no tempo se abasteça
Parece fácil para quem em si concentra
Os princípios que não trazem diferença
A ilusão de fingir que nasce único

Mas vá fazer o que Deus não experimenta
Por ser homem à imagem e semelhança

Vinga-se o poema confinado
A celebrar o romantismo já enterrado
E o verso pelo ourives em minúcias
É a vez da esgrima sem firulas

Pois é cama de gato que ela apronta
Ao surpreender o mundo com sua grua
De lá somos filmados como bichos
Numa obra que é de corte e não costura



7 de julho de 2019

DORSO DE LOUÇA E OUTROS POEMAS


Nei Duclós


DORSO DE LOUÇA

Não conteste o poema
Não porque seja fruto de certezas
Mas porque os anjos sopram
Suas sílabas sobre o vento

E as velas levantam em direção ao norte
Com o tempo fechado em todas as comportas

Deslize em seu dorso
Navio gigante que aporta numa louça
E consome a fome de perguntas



Se a política foi o motivo
Da ruptura depois do conflito
É porque não prestava o vínculo
Cultivado pelo sentimento

Dói assim mesmo, inconsequente

Não faço estardalhaço
Não chuto o balde
Nem digo que vou viver no anonimato

Não posso fugir
flor de cacto

Moro no sonho desfeito
no moinho abandonado

Tenho tantos livros
Um dia não estarão mais comigo
Farão parte do teu pão, teu abrigo
E nem lembrarás
que fiz sangrando

PASSAGEIRA

Você melhora a cada dia
Renova o sonho, fica na sua
Escreve ensaios e compartilha
Viaja ao Butão depois à India
Volta só para ver a família
Quer outro mundo e por ele briga

E eu?
Eu espero
De guarda chuva aberto o fim do inverno
Quando virás trazendo sementes
Que plantaremos em terras de conflito

Por enquanto leio tuas cartas
Passageira noturna




EUCARISTIA

Ficamos mais próximos de Deus conforme a idade avança
Não íntimos porque não existe espaço doméstico no paraíso
e ninguém toca a tunica da divindade para saber de que pano é feita

Ficamos como irmãos do Senhor a jogar dominó com os anjos
E imagino que ao chegar aos cem O trataremos como Filho

O filho que se foi na faixa dos 30 anos
Teu Filho, Senhora
Tende piedade de nós, almas desamparadas
Que roçam a heresia por viverem muito
E tudo se reduz à essência do Espirito

Desça com suas linguas de fogo
Terceira pessoa que conduz a Eucaristia
Ficamos mais religiosos
À medida que o tempo avança

Sobe aos céus a Poesia



O POÇO

Teu coração agora é de pedra
A política sepultou o teu poema
No fundo desse poço o verso grita
Mas não se salva, sonho nas correntes

Nem viste teu punho cortando as asas
Achavas que a razão te segurava
Mas és apenas um peão, uma aldrava
Fechas a ilusão sobre o penhasco

Diga uma oração, quebre o que mata
Volte à poesia, mãe de toda água
Sagrada comunhão que te resgata

Deixe o crime sem tua vocação a segurar as pontas
Veja como fogem quando despertas



TERRA FOGO ÁGUA AR

A Terra é plena
Plena de mar

O mar é a Terra
Solta no ar

O ar é o poema
Fogo de estrela



XANGRILÁ

Tua beleza me adoece
Não possuo acesso à cura
O que sinto convalesce
Nas curvas de uma aventura

Mantenho perto as bagagens
Para subir a montanha
Até a estação das neves
Xangrilá das tuas trilhas

Enquanto percorro as pedras
A tempestade do clima
Que manténs com tua conduta
Se abate em meus domínios

Ligo para alguém, o destino
Para descobrir a armadilha
Em busca de uma esperança
Que devolva a minha vida

Desça que o tempo está feio
Me diz o deus que me expulsa
Ela pertence ao império
Dos compromissos divinos

Embaixo do mau Olimpo
Toco a lira e te cultivo
Quem sabe a flor que carrego
Não me seja devolvida



BONECO DE PALHA

Você diz perdoa mas não se arrepende
Diz que não está e se esconde
Sarça ardente, leão de bronze
És personagem, cavaleiro andante
Na companhia de saltimbancos
Cuidas dos guizos, boneco de palha
Tua acrobacia é a palavra



MIGRAÇÃO

Migrei para ter outra vida
E a mesma foi na bagagem
Fugi mas precisei voltar
Ficar foi minha ruína

Fora disso
Vivi feliz onde tua flor
encontrou abrigo



MARESIA

Não importa o que digo
Mas a música que eu produzo
Palavra é melodia
Composta pelo uso

O conteúdo é datado
Pode ir para o lixo
Já a canção fica
Nova a cada crepúsculo

Cante
Aprenda a sonhar
De ouvido
Leia o som deste violino
Toco para ti, maresia




30 de junho de 2019

O MELHOR JORNAL DA REGIÃO


JACK O MARUJO NO BOM DIA FLORIPA

O melhor jornal da região dispara: há 200 anos jogamos esgoto no mar. E ainda falamos em qualidade de vida.

Na última página: Jack, O terraplanista do mar. Jack o Marujo implica e estoca quem se atreve a fazer perguntas.


POEMAS PARTIDOS

Nei Duclós


Esses poemas partidários
Cúmplices de tiranias
Cegos pela ideologia
Solidários com os crimes

Esses poemas datados aparelhados
Desperdiçam a grandeza do poeta
Que se foi antes que os verdugos
Aproveitassem sua obra para obter eterno poder

Esses poemas desamparados pela utopia traída
Moram em meu coração
Eu os recito levantando o punho

O sonho se realiza quando tudo estiver perdido




DIGO TANTO

Nei Duclós


Digo tanto que nem acredito
Desconfias que o principal eu guardo
Que economizo para o fim do inverno

Pode ser verdade
Costumo esquecer os melhores versos
Depois descubro que eles te cercam
Mas não escutas, feminina seda


DESLUMBRE

Nei Duclós


Desejo que extrapola gera desconforto
Ponha-se ao alcance do meu beijo
Vivo nos limites fisicos do querer-te
Mss só quando consentes invado o terreno

O prazer mantem-se no banco da espera
Navegue seus ombros para o deslumbre sincero


VI DEUS

Nei Duclós

Vi Deus, finalmente
Suas faces de ferro
Suas mãos de granito
Seu corpo de gelo

Ou foi apenas um deus
O Tempo


BRINCADEIRA


Nei Duclós 

Para você foi tudo uma brincadeira.
Nossos pés expulsando o inverno.
Beijo mais intenso
do que uma tempestade.
Os gritos de amor noite adentro.

Foste embora como lufada de vento
 que vibra a rede na varanda.
Nem viste a lua despencando
 no canteiro que cultivamos.




27 de junho de 2019

OSCURO OLIMPO


 Nei Duclós

 Te quiero, diosa
Como quiere un diós la más hermosa
En este Olimpo sin mitologia
Con todo amor
Y su oscura geografia

Quiero tu cuerpo
Que es la vida que jamás
tendré un dia



PITONISA, A LENDA

Nei Duclós


Um cavalo pasta a nuvem
E revela a lua
Monto na garupa
Tuas costas noturnas

Multidão de estrelas
Caem sobre o dorso
Em que habita o rosto
De selvageria

Inventei a lenda
Flor oferecida
Debruças o corpo
Sonho que adivinho




DEUSES INVISÍVEIS

Nei Duclós


Do nada fez-se o mundo, provam os cientistas
Deus providenciou tudo, acreditam os fiéis
O Acaso define-se pelo capricho, notam os curiosos
O Criador é o artista maior, basta ver o crepúsculo

Não resta ao poema senão dedicar-se a assuntos menores
Como a flor no quintal, o desagravo do herói
A multidão que cruza o mar por uma nova vida
O amor que tarda, o sonho impossível

O poema é o que ocupa o Tempo em sua odisséia
Rezando a deuses invisíveis
que se manifestam nos trovões
e no grito dos recém nascidos




PÉS DE BARRO

Nei Duclós


Tentei chegar na rua
Mas foi- se tempo
em que eu pisava estrelas
e me encantava com a surpresa
de encontrar a lua

Mantenho-me quieto
como adivinho à espera
de um anjo que trará escrita
a canção ainda não composta

Tudo é armadilha do poema
tua flor oculta
meus pés de barro



24 de junho de 2019

ZERO


Nei Duclós

O óbito zera tudo
Os diplomas, os salarios
Até mesmo a memória

O universo não sente falta do que devora

Fica apenas esse pio de pássaro no entardecer da eternidade

E as mãos do sol sumindo no abismo
Puxando a noite pela rede de estrelas
A única que te consola




O INCRIADO


Nei Duclós

Os antigos estavam mais perto de Deus
E O representavam em monumentos talhados nas montanhas
Seus altares ainda sobrevivem em forma de pedras maciças
Indecifráveis vestígios de uma civilização fundada na arte
Que é a fé exposta ao toque dos descendentes

Somos depositários do que não compreendemos
E por isso devemos ficar contritos diante do mistério
Que é o Incriado, fonte do que somos
Humanos de olhos em pânico
Voltados para o infinito



A FACA NA ÁGUA

Nei Duclós


A poesia não está na palavra
Mas não há outro caminho
A não ser o canto estilhaçado
De quem busca o voo no ventre da asa

Esses versos que se espalham
E se concentram sugerindo vozes
O som das vogais no verbo "sonora"
A vida consoante o silêncio

A infância autentica, que não mais lembramos
Mas que a poeta captura
Pelos vestígios
De uma arqueologia como cerração
Espessa para quem acorda
Linha de fio da faca na água
Para ver o que tem dentro

A dura liquidez pingando num livro aberto
Em que a linguagem passa e deixa nos espinhos da trilha
Um fiapo animado pelo vento
Uma confluência de inúmeros achados e perdas
Um reencontro sem as velhas vestimentas



RETORNO -Sobre o livro ÁGUA DURA, de Juliana Meira
( Artes & Ecos, 73 pgs.)