7 de julho de 2019

DORSO DE LOUÇA E OUTROS POEMAS


Nei Duclós


DORSO DE LOUÇA

Não conteste o poema
Não porque seja fruto de certezas
Mas porque os anjos sopram
Suas sílabas sobre o vento

E as velas levantam em direção ao norte
Com o tempo fechado em todas as comportas

Deslize em seu dorso
Navio gigante que aporta numa louça
E consome a fome de perguntas



Se a política foi o motivo
Da ruptura depois do conflito
É porque não prestava o vínculo
Cultivado pelo sentimento

Dói assim mesmo, inconsequente

Não faço estardalhaço
Não chuto o balde
Nem digo que vou viver no anonimato

Não posso fugir
flor de cacto

Moro no sonho desfeito
no moinho abandonado

Tenho tantos livros
Um dia não estarão mais comigo
Farão parte do teu pão, teu abrigo
E nem lembrarás
que fiz sangrando

PASSAGEIRA

Você melhora a cada dia
Renova o sonho, fica na sua
Escreve ensaios e compartilha
Viaja ao Butão depois à India
Volta só para ver a família
Quer outro mundo e por ele briga

E eu?
Eu espero
De guarda chuva aberto o fim do inverno
Quando virás trazendo sementes
Que plantaremos em terras de conflito

Por enquanto leio tuas cartas
Passageira noturna




EUCARISTIA

Ficamos mais próximos de Deus conforme a idade avança
Não íntimos porque não existe espaço doméstico no paraíso
e ninguém toca a tunica da divindade para saber de que pano é feita

Ficamos como irmãos do Senhor a jogar dominó com os anjos
E imagino que ao chegar aos cem O trataremos como Filho

O filho que se foi na faixa dos 30 anos
Teu Filho, Senhora
Tende piedade de nós, almas desamparadas
Que roçam a heresia por viverem muito
E tudo se reduz à essência do Espirito

Desça com suas linguas de fogo
Terceira pessoa que conduz a Eucaristia
Ficamos mais religiosos
À medida que o tempo avança

Sobe aos céus a Poesia



O POÇO

Teu coração agora é de pedra
A política sepultou o teu poema
No fundo desse poço o verso grita
Mas não se salva, sonho nas correntes

Nem viste teu punho cortando as asas
Achavas que a razão te segurava
Mas és apenas um peão, uma aldrava
Fechas a ilusão sobre o penhasco

Diga uma oração, quebre o que mata
Volte à poesia, mãe de toda água
Sagrada comunhão que te resgata

Deixe o crime sem tua vocação a segurar as pontas
Veja como fogem quando despertas



TERRA FOGO ÁGUA AR

A Terra é plena
Plena de mar

O mar é a Terra
Solta no ar

O ar é o poema
Fogo de estrela



XANGRILÁ

Tua beleza me adoece
Não possuo acesso à cura
O que sinto convalesce
Nas curvas de uma aventura

Mantenho perto as bagagens
Para subir a montanha
Até a estação das neves
Xangrilá das tuas trilhas

Enquanto percorro as pedras
A tempestade do clima
Que manténs com tua conduta
Se abate em meus domínios

Ligo para alguém, o destino
Para descobrir a armadilha
Em busca de uma esperança
Que devolva a minha vida

Desça que o tempo está feio
Me diz o deus que me expulsa
Ela pertence ao império
Dos compromissos divinos

Embaixo do mau Olimpo
Toco a lira e te cultivo
Quem sabe a flor que carrego
Não me seja devolvida



BONECO DE PALHA

Você diz perdoa mas não se arrepende
Diz que não está e se esconde
Sarça ardente, leão de bronze
És personagem, cavaleiro andante
Na companhia de saltimbancos
Cuidas dos guizos, boneco de palha
Tua acrobacia é a palavra



MIGRAÇÃO

Migrei para ter outra vida
E a mesma foi na bagagem
Fugi mas precisei voltar
Ficar foi minha ruína

Fora disso
Vivi feliz onde tua flor
encontrou abrigo



MARESIA

Não importa o que digo
Mas a música que eu produzo
Palavra é melodia
Composta pelo uso

O conteúdo é datado
Pode ir para o lixo
Já a canção fica
Nova a cada crepúsculo

Cante
Aprenda a sonhar
De ouvido
Leia o som deste violino
Toco para ti, maresia




30 de junho de 2019

O MELHOR JORNAL DA REGIÃO


JACK O MARUJO NO BOM DIA FLORIPA

O melhor jornal da região dispara: há 200 anos jogamos esgoto no mar. E ainda falamos em qualidade de vida.

Na última página: Jack, O terraplanista do mar. Jack o Marujo implica e estoca quem se atreve a fazer perguntas.


POEMAS PARTIDOS

Nei Duclós


Esses poemas partidários
Cúmplices de tiranias
Cegos pela ideologia
Solidários com os crimes

Esses poemas datados aparelhados
Desperdiçam a grandeza do poeta
Que se foi antes que os verdugos
Aproveitassem sua obra para obter eterno poder

Esses poemas desamparados pela utopia traída
Moram em meu coração
Eu os recito levantando o punho

O sonho se realiza quando tudo estiver perdido




DIGO TANTO

Nei Duclós


Digo tanto que nem acredito
Desconfias que o principal eu guardo
Que economizo para o fim do inverno

Pode ser verdade
Costumo esquecer os melhores versos
Depois descubro que eles te cercam
Mas não escutas, feminina seda


DESLUMBRE

Nei Duclós


Desejo que extrapola gera desconforto
Ponha-se ao alcance do meu beijo
Vivo nos limites fisicos do querer-te
Mss só quando consentes invado o terreno

O prazer mantem-se no banco da espera
Navegue seus ombros para o deslumbre sincero


VI DEUS

Nei Duclós

Vi Deus, finalmente
Suas faces de ferro
Suas mãos de granito
Seu corpo de gelo

Ou foi apenas um deus
O Tempo


BRINCADEIRA


Nei Duclós 

Para você foi tudo uma brincadeira.
Nossos pés expulsando o inverno.
Beijo mais intenso
do que uma tempestade.
Os gritos de amor noite adentro.

Foste embora como lufada de vento
 que vibra a rede na varanda.
Nem viste a lua despencando
 no canteiro que cultivamos.




27 de junho de 2019

OSCURO OLIMPO


 Nei Duclós

 Te quiero, diosa
Como quiere un diós la más hermosa
En este Olimpo sin mitologia
Con todo amor
Y su oscura geografia

Quiero tu cuerpo
Que es la vida que jamás
tendré un dia



PITONISA, A LENDA

Nei Duclós


Um cavalo pasta a nuvem
E revela a lua
Monto na garupa
Tuas costas noturnas

Multidão de estrelas
Caem sobre o dorso
Em que habita o rosto
De selvageria

Inventei a lenda
Flor oferecida
Debruças o corpo
Sonho que adivinho




DEUSES INVISÍVEIS

Nei Duclós


Do nada fez-se o mundo, provam os cientistas
Deus providenciou tudo, acreditam os fiéis
O Acaso define-se pelo capricho, notam os curiosos
O Criador é o artista maior, basta ver o crepúsculo

Não resta ao poema senão dedicar-se a assuntos menores
Como a flor no quintal, o desagravo do herói
A multidão que cruza o mar por uma nova vida
O amor que tarda, o sonho impossível

O poema é o que ocupa o Tempo em sua odisséia
Rezando a deuses invisíveis
que se manifestam nos trovões
e no grito dos recém nascidos




PÉS DE BARRO

Nei Duclós


Tentei chegar na rua
Mas foi- se tempo
em que eu pisava estrelas
e me encantava com a surpresa
de encontrar a lua

Mantenho-me quieto
como adivinho à espera
de um anjo que trará escrita
a canção ainda não composta

Tudo é armadilha do poema
tua flor oculta
meus pés de barro



24 de junho de 2019

ZERO


Nei Duclós

O óbito zera tudo
Os diplomas, os salarios
Até mesmo a memória

O universo não sente falta do que devora

Fica apenas esse pio de pássaro no entardecer da eternidade

E as mãos do sol sumindo no abismo
Puxando a noite pela rede de estrelas
A única que te consola




O INCRIADO


Nei Duclós

Os antigos estavam mais perto de Deus
E O representavam em monumentos talhados nas montanhas
Seus altares ainda sobrevivem em forma de pedras maciças
Indecifráveis vestígios de uma civilização fundada na arte
Que é a fé exposta ao toque dos descendentes

Somos depositários do que não compreendemos
E por isso devemos ficar contritos diante do mistério
Que é o Incriado, fonte do que somos
Humanos de olhos em pânico
Voltados para o infinito



A FACA NA ÁGUA

Nei Duclós


A poesia não está na palavra
Mas não há outro caminho
A não ser o canto estilhaçado
De quem busca o voo no ventre da asa

Esses versos que se espalham
E se concentram sugerindo vozes
O som das vogais no verbo "sonora"
A vida consoante o silêncio

A infância autentica, que não mais lembramos
Mas que a poeta captura
Pelos vestígios
De uma arqueologia como cerração
Espessa para quem acorda
Linha de fio da faca na água
Para ver o que tem dentro

A dura liquidez pingando num livro aberto
Em que a linguagem passa e deixa nos espinhos da trilha
Um fiapo animado pelo vento
Uma confluência de inúmeros achados e perdas
Um reencontro sem as velhas vestimentas



RETORNO -Sobre o livro ÁGUA DURA, de Juliana Meira
( Artes & Ecos, 73 pgs.)

É SIMPLES

Nei Duclós

É simples ser mulher, ela me disse
Complico para evitar abuso
E nisso acabo acostumando
Fico triste só de implicante
Acho graça quando ninguém está vendo

Não quer subir? ela me disse
Na hora em que eu estava desistindo


MURALHA DE GELO

Nei Duclós


É um vício te fazer companhia
Eu poderia abandonar-te, como fizeste um dia comigo
Mas imagino que uma aventura não tem limite
Há terras além da muralha de gelo
Há mapas que mostram o desapego
Entre a lógica e o Tempo

Basta saber o que fazer
Com esses domingos de inverno
Em que caminhas em ruas tranquilas
Sob um céu de primeira missa




SINAIS DE PANDORA

Nei Duclós


Esses versos que visito
E nunca mais participo
São minha porção da desmemória

Algums ficam
Como as ruinas depois da tempestade
O vento não é o momento
Mas sua travessia

Escuto a poesia que foi embora
E recito os sinais que se soltam
Da caixa de Pandora




PELE ARISCA

Nei Duclós


Não há motivos para tanta poesia.
Guarde-se para os piores dias
Faça contas e veja
Quantas manhãs ainda te restam
Escreva sobre a dor, poeta
Já que perdemos o dom da alegria

É o que dizem
Quando passam a toda
Pela minha janela
Mas eu encontro só o que vibra
Desejo e sonho em tua pele arisca



20 de junho de 2019

NAVAJO

Nei Duclós


Não fugi para um rancho no México
Fiquei no desfiladeiro segurando o fogo
Todos os companheiros se salvaram
Menos eu
Mas levei para o buraco um batalhão de inimigos

Nunca fui índio
Mas me chamam de Navajo
Hoje meu corpo faz parte das pedras do deserto
e alimenta as ervas cultivadas pelos lagartos

Eu nada tinha a perder
depois que ela levou um tiro
e caiu dos meus braço




RETORNO - Imagem: Kody Dayish, ator e diretor de “Unbroken Code” em Santa Fe

10 de junho de 2019

ATLAS

Nei Duclós


O tempo é feito sem relógios
Mas com os dentes que formam as montanhas
O sol se põe depois das dez
Seus raios penetram a pedra na véspera da noite

Tudo é obra dos gigantes que sustentam a terra
Atlas tem ombros de mármore
O mundo está estacionado
Como navio imóvel em calmaria

Só o vento forjará o movimento
É quando a eternidade convoca os ponteiros



PALAVRAS

Nei Duclós


Tem palavra perigosa
Que marca data
Para o desencontro

Tem palavra que escorrega
Te deixa esperando

Tem palavra sem sentido
Um bilhete que se desmancha na chuva

Tem palavra que se entrega
Esse rosto que se cobre com tua lágrima

Tem palavra fina
Tem palavra bruta



MASSACRE


Nei Duclós

Estamos em guerra, dizem
Não é verdade
Na guerra há chance de sobrevivência
O inimigo é declarado
O objetivo é a vitória que estabelece a paz

Na guerra há barbárie mas termina num acordo
E há a memória de batalhas e heróis
Mesmo que haja injustiça

Nós, ao contrário, não estamos numa guerra
Estamos sendo massacrados
O noticiário é um funeral
O poder e sua oposição fazem parte das quadrilhas

A cidadania não está entre nós
Os virtuosos roubam
os derrotados se vingam
a mocidade morre

Somos uma sociedade terminal
Até quando vamos anunciar o pior?
Quando chegar a nossa vez



O ESTRANGEIRO

Nei Duclós


Vou embora porque fiquei louco
Deixo uma nação que inaugurei aos poucos
Lutei contra o mal disfarçado de anjo
Descubro que sou mortal, vinho no mangue

Fica o exemplo, quando comprei a cordilheira
Morada dos deuses que ninguém levou fé
Depois doei para que a cidadania
Tivesse orgulho de tão sólido presente

Pareço mendigo pois ando aos andrajos
Com ferrugem no elmo e magro Rocinante
Mas nasci para transformar o mundo
De moinho abandonado a próspero gigante

Fui seguido por todos os quadrantes
Nas aventuras que inventei em trilhas desertas
Repassei a promessa de ilhas e continente
Agora fico só, passageiro de Caronte

Coloquem as cores do meu lenço
Na portas e quintais como bandeira
Quem foi? perguntarão
Apenas um estranho
Mas a praça com multidões não ficarão em silêncio

Anunciarão em surdos tambores:
É o coração da terra, o que veio distante
E ficou dentro de nós, poeta do nosso tempo
Trecho de luz que se fez humano
O estrangeiro que acreditou no sonho


3 de junho de 2019

JOGUEI FORA

Nei Duclós


Joguei fora as silabas
Para ficar só com a palavra
Peixe sem embalagem
No balcão transparente da linguagem

Evitei assim gaguejar o sentido
Que cometemos ao retalhar a carne
Foi o jeito de preservar o todo
sem as partes que lhe atrapalham

Depois, deitei sobre o entulho
Observando as aves
Lá se vão as frases que flutuam
Sem a liga das letras em sua margem

O verbo sem a roupagem
Que o faz invisível no discurso
É voz de criaturas flagradas
Soprando nos ouvidos seus abusos



POETA DE RUA

Nei Duclós


Sou poeta de rua
Troco verso por comida
Uso paredes e muros
para a vil literatura

Aos mendigos me misturo
Nas exposições da praça
Mas prefiro a língua culta
Já estou exausto da gíria

Não aceito encomendas
Acróstico e outras frescuras
Não rimo por conveniência
Nem trovo galo de briga

Sou invocado e soberbo
Como um nobre da República
Bebo só quando convidam
Durmo com a luz da lua

Assino meus sentimentos
Com toda desenvoltura
Sou peça de outro tempo
Nas vitrines do subúrbio




HORA DECISIVA

Nei Duclós


Tua perda é plena, porque dela vieste
Mas essa origem não te condena
Te libertas com o poema
Que costuras de memória
E com amor, linhagem de uma vida

O adeus não cicatriza, ferida aberta
É teu passaporte para a ausência
Por tê-la, nos braços desde a infância
E ainda mais agora, hora decisiva

Escorre para o nada quem já foi tudo
Escapa no vazio que o destino arruma
Nele estão os momentos, a flor e a agonia
Mas dentro de ti ela se apruma

Mãe que te abraçou, glória da natura
Que em Deus habita e reza por sua filha




30 de maio de 2019

ESCASSO

Nei Duclós


Evitar a palavra que se entrega
E pega carona em correnteza
O destino é a quebra, a queda

Poema não é sentimento
É cruzar a pé o deserto
Sem maná que nos sustente
Ou oásis previsto no mapa

Ficamos perdidos em temporais de areia
Água só em comboios fantasmas
Horizontes na fila de miragens

Evite o jipe que traz os mantimentos
Não se entregue à bolsa de remédios
Alimente-se quando fica escasso
Sobreviva sem condenar a obra





LEMBRAMOS


Nei Duclós

O balde cheio da memória não mata a sede sem a poesia.
Esvazia meu coração o sabor salobro da amargura
E adoça com sonho o fôlego da vida
Promessa que nos faz eternos
Quando nos lembramos

Vencemos aos poucos, em vitórias quase invisíveis,
a não ser quando notam nosso sorriso diante do mar.





IMPRUDÊNCIA

Nei Duclós


Nunca tive paciência, como se o tempo acabasse para mim a qualquer momento. Por isso esses rabiscos, galhos tortos a marcar trilhas no deserto, que dão para lugar nenhum.

Impossível voltar pelo mesmo caminho, que soterrou os vestígios da minha imprudência.

Tenho pressa, amor, por isso tardiamente descobri que foste embora para sempre. Calma e doce, foste colhida pelo atropelo dos esquecidos, que te deixaram por não saber que nunca estaremos prontos e por isso é inútil ignorar o sentimento, única ferramenta para moldar nossa ansiedade à sabedoria das estações.



INAUGURAR

Nei Duclós


Um pregador pode falar por poesia
Mas a poesia não é púlpito
Embora possa ser oração

A poesia nasce quando todas as outras linguagens são jogadas no lixo
Impregna-se no trovador em fase terminal
No sacerdote que perdeu a fé
No discurso que afastou o cidadão

É como o solidário que suspende o ferido e o põe na maca
A mão que se interpõe na faca
A canção que ninguém mais escuta

Ela brota nos desvãos das grutas
No coração das multidões em repouso

Um poema inaugura uma civilização sem crimes




ARQUITETOS


Nei Duclós

Deuses são arquitetos
Chuva vento erosão neve
Moldam montanhas para os equinócios
Desenham a pedra de uma vida eterna

Por que sopra tanto mistério?
De onde vem a escrita dos sumerios?
Da sua engenhosa percepção?
Mãos divinas sobre a terra?

Por que o tempo tem idade?
Quando nasci, gigantes que habitam
os contrafortes da serra?





28 de maio de 2019

A POESIA DO LUTO

Nei Duclós

Escrevi este livro ao longo de dois anos, depois da tragédia que levou meu filho embora em 2015. É uma das muitas manifestações do luto, em forma de poesia. Nesta SEMANA MIGUEL LOBATO DUCLÓS, em que lembramos a data do seu nascimento dia 29 de maio de 1978, decidi formatá-lo em PDF numa edição simples com 54 poemas inéditos e distribuir às pessoas que queiram ter um exemplar. É uma forma de preservar sua memória e ficar perto de sua mente brilhante e seu grande coração.

Este é o primeiro dos lançamentos focados em Miguel, pois há muito o que fazer. Estamos selecionando seus textos fundamentais sobre filosofia inseridos no seu site que está sendo atualizado pela família e será relançado em breve, além do cardápio cultural variado contemporâneo que publicou em milhares de posts. em seu blog, que está sendo descontinuado.

Quem quiser ter a seleta de poemas intitulado MIGUEL entra em contato comigo. A contribuição financeira e voluntária. O importante é chegar às pessoas um livro que foi escrito com a dor da perda e amor ao filho.



Um dos poemas do livro:

ÚLTIMAS PALAVRAS

A morte é corte
não costura
o corpo enfim
sob medida

A roupa de pouco uso
na despedida
o rosto contraído
como um insulto

o adeus empurra
como um susto
o instante mil vezes
repetido

Um pai não sobrevive
a quem sepulta
Equivale à perda
do paraíso

Nenhuma literatura
vale um filho

Nei Duclós

MIGUEL
Poemas
Nei Duclós
Edição do Autor
Ebook (PDF), 54 pgs

Contatos: neiduclos@gmail.com

25 de maio de 2019

LIVRE ARBÍTRIO


Nei Duclós


O mundo inteiro era deserto
Nossos ancestrais plantaram as florestas
Só em alguns lugares não deu certo
Havia muita guerra

Debaixo da areia há petróleo
Debaixo das árvores, minérios
Somos seres feitos de mosaico
Queremos uma lápide sobre as ervas

Nas rochas milenares rostos de granito
Gritam denunciando a tragédia

Deus pagou um preço alto
Pelo arbítrio tornado livre
E o espírito da liberdade aprisionado



23 de maio de 2019

EMBALO TEU SONHO

Nei Duclós


Não tenho paciência de fazer tudo certo
Também não cultivo o erro
Sou como o vento
Obedeço a uma lógica que desconheço
Arrasto as folhas no chão do outono
Fustigo a montanha no inverno
Balanço a flor quando te aproximas
Embalo teu sonho feminino



21 de maio de 2019

CAIXA DE PRATA

Nei Duclós


Embalei o poema em celofane
Coloquei dentro da caixa de prata
Para entregar nos melhores do ano

Mas ele escapou
e foi para a praia tomar banho
Secou-se ao luar, trovador de pano
Cantou para os barcos azuis do outono

Sua plateia eram as estrelas cadentes
no mar oceano



SEM FREIO


Nei Duclós


Para você não há mistério
o corpo que dispões há tempos
Mas para mim, que em ti enxergo
O capricho artesanal dos deuses
Mais o coração e a inteligência
Em belezas que enchem os espelhos
É como visitar o paraíso
Logo que a criação perdeu o freio


DESAFIO DA FÍSICA


Nei Duclós



Não fica perto nem está pronto
Ou mesmo passa no horário certo
Não se oferece nem te contempla
É desconforto parece ausência
Não se compara ao desconhecido
Não é isento nem vai contigo
Adota um rumo que não se enquadra
É estrangeiro nas geometrias

É o que estás vendo mas não alcanças
Mesmo depois de setenta anos
Não é estrela não é do ramo
Apenas jogo de aparências

E não adianta não adivinhas
Porque senão ficaria explícito
Você enxerga mas não atinas
É onde a física se desafia



NEM DESCONFIAS

Nei Duclós


Nem desconfias
Ou talvez evites o que está posto
Flor que mantenho em úmido rosto

Preferes, prudente
Que eu desista desse projeto insano
Mas não tem jeito
Deslizo em direção ao sonho
Beijo o proibido corpo
Rego a terra que me resta



17 de maio de 2019

AMOR CLANDESTINO

Nei Duclós


Todos precisam de tudo
Mas só querem o amor

E pelo amor sacrificam até a biografia
Não que valha grande coisa
Nada vale muito comparado ao amor

Intangível frágil raro
O amor é carga sem identificação
Clandestino misturado no porão
Ele viaja silencioso
E quando o descobrem é atirado ao mar

Ele nada então só com a vontade
E atinge a costa do teu olhar



13 de maio de 2019

CAMUS ATIRA NELE MESMO

Nei Duclós

O Estrangeiro, de Albert Camus, é um suicídio: o francês argelino mata o árabe que há dentro dele.

Mersault é funcionário público, função que provocava pânico em Camus por ser um destino definitivo. Camus precisou arriscar, ou seja, romper com o que parecia estar escrito para ser um escritor.

Seu personagem atribui o crime ao absurdo, mas é tributário da lógica. A morte da mãe, evento ao qual dedicou total indiferença, não fora suficiente para libertar-se da África. Era preciso culpar o clima, o calor excessivo da sua verdadeira pátria para disparar quatro vezes, cego pelo sol, contra o Outro, que era ele mesmo.

Para Camus, o suicídio era o dilema principal da condição humana.



O CIRCO

Nei Duclós


Vejo o circo passar
ao largo na estrada principal
Atrações literárias fora do meu quintal
Minha plantação de versos selvagens

Não me apresento para a sessão lotada
Fica entre nós, sonho na montanha
Preciso alimentar as cabras
Meditar as pedras deixadas pelos ancestrais

Tropeço em cactos plantados por anjos
para eu não ficar tão só
Eles ornamentam a paisagem contra o céu

Meu avô canta uma ária sob a lona
Sua voz se fina conforme avança o circo
Presto atenção. O cão se insurge contra os trovadores
Que viajam no comboio de carona



10 de maio de 2019

NO ANO PASSADO

Nei Duclós


No ano passado ainda conversavas comigo
Isto foi antes da guerra
Agora estamos na mira das armas
Abrigados em armadilhas de ferro

Se por acaso berro
Tremes com medo de ter amado
O pior inimigo
O que abraçaste sem a dor de ter morrido





ENTRE OS GUARDIÕES


Nei Duclós

Sobrevivi na noite gelada
Na gruta onde velam os deuses da montanha
Foram invocados pelo fogo que acendi no altar de pedra
Com a ajuda de ervas sagradas que brotam no chão

Tinhas me abandonado lá para morrer
Pois não suportas o convívio com teus pares
Eu te escutei mas na hora de falar
Mantiveste os ouvidos fechados a chave

É inútil tentar chegar no templo onde dormi profundamente
E vi no breu desenhados pelas sombras das chamas
Um sacerdote e seus ajudantes
Todos gigantes, guardiões desse território sagrado que descobres com gestos em câmara lenta
E descreves pausadamente como quem planta um bosque invisível no deserto

O lugar onde fiquei é inacessível
A não ser que os anjos que sobrevoam as túnicas dos guardiões te ajudem
Doutor de abismos




CRUZEIRO

Nei Duclós


Não quero o próximo
Nem o distante
O que está fora
Ou está dentro
O que fica firme
E o que desanda

Quero que o cosmo
Faça meu sangue
Fora do tempo
E do sistema

Quero o poema
Monstro de feltro
Que numa redoma
Guarda um segredo

Não quero que digas
Nem teu silêncio
Apenas a antiga
Rosa dos ventos
Estrela Polar
E ao sul o Cruzeiro





EL TITAN MIRA EL TIEMPO


Nei Duclós

  

El titan mira el tiempo
Lejos de nosotros los dioses no se rinden
El mundo es el desierto de architetura silente
Llega hasta mi, creatura y duende

Llega por el viento, cielo que se rompe
En la nueva lengua, el intacto semblante
Cuerpo de granito, nubes en la sangre
Seré yo el lume de la tierra ardente
O solamente vivo de un paraiso muerto?



HORA DA COLHEITA

Nei Duclós


Passado o primeiro tiro
Que ecoou aqui dentro
Nos acostumamos
É tempo de sobreviver
Miserável combatente

Dispersar no vento a obra de pano
Suja de pó e de lixo orgânico
Malhar em ferro frio o que não se dobra
Recolher-se ao grude na remota montanha
E em pura pedra submeter-se

Os tiros nos avisam
O chumbo chega quente
Fugimos para a rua
não há quem nos enfrente
Somos invisíveis espíritos de gesso
Há tempos atingiram nossa erguida fronte
Tombamos quando era a hora da colheita


A DOR MAIOR

Nei Duclós

(Para meu mestre Mino Carta, neste momento de dor)



Para que a longevidade quando um filho morre?
Durar não tem propósito nem sentido
É como vagam sem a gravidade
Corpos vazios avessos ao ruído

Porque o luto de um filho é o silêncio
Mesmo que na aparência solte gritos
É o reino da sombra onde sentamos
Na margem sinistra de Caronte

E vemos o filho, que a morte nos deserda
Deslizando na madeira e no granito
Não faremos drama, conforme o prometido
Pois nenhuma dramaturgia nos garante

Restamos, sobrevivos, a remoer remorso
Pais que jamais contavam com a fortuna
Tirando a máscara da sorte
E revelando os olhos da Medusa

O silêncio é também de quem nos acompanha
Não há consolo, o choro não adianta
E nem a arte, a qual nos dedicamos

A palavra apodrece na cama da memoria
Não há grandeza quando o futuro nobre
Em pranto profundo enterramos




6 de maio de 2019

CRESCE O DESAFIO

Nei Duclós


Cresce o desafio de afiar o verbo
Gasto de uso e de manejo cego
Achar a embocadura do corpo miúdo
Palavra que se apruma em golpe de esgrima

Enquanto na cidade o lixo se acumula
São frases sem sentido, contos confusos
Ficas acima mas fora do circuito
O vento engatinha rente ao piso

Forças a conduta, recitas a obra
Poucos te ouvem, esforço solidário
Pegas a mala e partes para a lua

Cruzas o mar, que tão cedo acaba
Riscos de andorinhas, latidos vizinhos
Pisas a rua no passo do arco-iris



5 de maio de 2019

A SORTE E O DESTINO


Nei Duclós

O cinema subverte a Criação, pois não a imita, antes a substitui. Fruto da técnica, a Sétima Arte pode encarnar a origem divina a inventar ao mundo sem a intermediação da divindade. Em Um Homem de Sorte (Billie August, 2018) o cinema oferece a paisagem e suas forças – o vento, as ondas – para representar a tradição que condena o protagonista, um jovem estudante de engenharia (interpretado por Esben Smed,) , ao ostracismo. Ateu numa família cristã de patriarca rigoroso e impiedoso, o garoto gênio dependura-se em sua formação escolar e autodidata para provar que pode atirar pedras em Cristoe expulsar o barulho dos dinos das igrejas em sua cabeça. Conta para isso com o talento, a inteligência e a sorte, que por um período confunde-se com a Fortuna, deusa caprichosa de rápida ascensão e queda radical, conforme o destino de cada um.

O destino de Petras Andreas é ter as portas escancaradas para seus projetos e depois jogá-las no lixo, não por um capricho mas por uma contingência: não consegue escapar de suas raízes e a elas torna-se fiel até o desfecho fatal. Assim, perde a chance de mudar a realidade do seu país, a Dinamarca, capturando energia dos ventos e das ondas e mudando a localização de um porto comercial, que faria concorrência a outros portos poderosos da Europa. O tempo lhe dará razão, mas para ele é tarde demais. Sua oportunidade de reinventar o mundo por meio da técnica é colhida pelo lodaçal da aristocracia política, financeira e intelectual dos que detém o poder e o exercem para humilhar a cidadania.

Joga fora, por teimosia, sua entrada na rica família de financistas judaicos e acaba também abandonando os filhos que teve com a filha de um pastor. Recolhido no ermo, é visitado por sua ex-noiva, a bela Jacobe (a talentosa atriz Katrine Greis-Rosenthal), que o perdoa e agradece a oportunidade de tê-lo conhecido por se afastar de sua condição de herdeira e abraçar a causa social num orfanato. No fim ele cumpriu sua missão, mas foi tragado por ela. Sua ruína foi subverter a criação, querendo transformar seu país numa potência econômica. Atraído para o abismo do fracasso, onde só a solidão poderá significar liberdade, ele experimenta o gosto amargo do criador apartado de sua obra. É como o cinema, que domina a história, o assunto, a maneira de apresentá-la, e é esquecido em função do que mostra ao espectador. Todos veem a trama, e a encaram como se fosse real, mas não a pura verdade, que este filme, como todos os outros, é sobre cinema, pois sem ele nada disso existiria. Ficaríamos com nossa imaginação, mas não com a prova de que é possível transformar algumas vidas do passado numa soberba manifestação da arte maior que a técnica nos proporciona pela mão dos cineastas imprescindíveis.





1 de maio de 2019

OS ROUXINÓIS


Nei Duclós


Tardes inteiras em bancos de praça
Junto a canteiros desabitados
Lá as flores não vingaram
E não se demoram os pássaros

Solidão e penúria em quartos alugados
Corredores sem fim ao cair da tarde
Viagens em trens desconfortáveis

Só havia um hábito, a palavra
Ela me tirou da perdição
Arte soprada em flautas de osso
Tambores do Outro Lado, onde se forjava o corso
E puxávamos o cordão da escola da esquina

Eram os Rouxinóis, que preenchiam todos os vazios da rua
Os Rouxinóis, diziamos, que é o maior
 

GIGANTES

Nei Duclós


Leio pouco mas já vivi bastante e por isso parece muito
É que me apego aos livros
sinto saudades quando termino
E prometo voltar mas me limito às memórias da leitura
Deixo nas estantes namorando as capas
E tento partir para outro título

Desisto no começo ou na metade
A não ser que seja algo oculto na História

Acabo vendo vídeos sobre os gigantes
Que preferiam as humanas
Talvez seja influência das páginas da Odisséia
Que tem me acompanhado nas concentrações na varanda
As pombas ululam no telhado vizinho
Enquanto os adivinhos no livro de Homero fazem predições vendo o voo dos pássaros

O universo se ocupa exercendo bizarra vagabundagem



24 de abril de 2019

ANTES DO DILÚVIO

Nei Duclós


A terra é um sítio temático do mundo titânico
Gente dos primeiros tempos altos como as montanhas
Que hoje exibem seus corpos e rostos petrificados
Em expressões e cenas de extrema imobilidade

Por isso essas criaturas coevas são invisíveis
A soprar seu enigma diante dos abismos
Abrigando neves e cavernas que se ligam ao centro do mistério

Somos insignificantes perto dos titãs
Passamos por eles em nossas carruagens
Escalamos seus ombros no maior desplante
A fincar bandeiras nos topos que são suas cabeças

Não choramos por eles
Que velam em granito nos desertos
Onde sobrevivem suas lendas
Ocultas em linguagens indecifráveis

Só o poema toca em seus olhares
Despejados no ar como pássaros antes do Dilúvio



TEMPLO


Nei Duclós

Para que serve a palavra dita em voz baixa
em busca de um lugar na tua alma?
Basta que escutes o leve roçar
dos lábios em pele escura ou clara.
Esse vento suave na flora dos teus cantos.
Esse acalanto em templo sagrado e profano.
O corpo humano.



SONORAS

Nei Duclós


Gosto de palavras sonoras
Ecos de tambores
Solos de flauta

Que abrem a guarda
para frases soltas
Colhidas a esmo
Quando algo pipoca
em chuva no teto

Um anjo que pousa torto
Um amor que dá as caras



NA MESA COMUM


Nei Duclós 

Não perco tempo me dispersando
Providencio o pão, 
que o amanhecer completa

O jejum não celebra o dia,
nem o vazio, de má conduta.
E sim o que compartilho, 
alimento no fogo imaginado 
desses versos

Na mesa comum, recito,
admirando a deusa que desperta.



21 de abril de 2019

ACENO ADENTRO

Nei Duclós


Um rosto não é o poema
Feito memória e poeira
Oasis de árduo acesso
Mesa posta no deserto

Um rosto é dor e aceno
Invisivel passageiro
Dele ninguém se lembra
A não ser quando se escreve

Um rosto que me dá pena
Jugo de contingências
Voltado inteiro para dentro
Onde em sonho submerge



PERIGOSA


Nei Duclós


Fazes mistério com tua aparência
Driblas o assédio fingindo que é antiga
Como se a beleza corresse perigo
Se descobrisse o véu do anonimato

Não sabes que brilhas sob tantos panos
E uma perna foge em meio ao desacato
Nada disfarça tua vocação ao cânone
Nem mesmo os óculos de má procedência

De longe és o que os deuses dizem
Por isso te cercam de trovões e raios
Só o navegante atado no barco
Terá forças para conquistar-te

Pois ouvirá teu canto sem afogar-se
Sereia do amor, perigosa beldade


AMOR PRECOCE

Nei Duclós


Tudo é tardio na minha idade
Menos tu, amor precoce
Pés fazendo alarde na praia
Quando andas atraindo olhares

Passas sem me ver mas eu te visto
Com a desfaçatez da minha fantasia
Nem sequer te enxergo, estou absorto
No estrago que a paixão faz quando voa

Entras então no mar
E vem lá da montanha a sinfonia
És a virtuose, seguras o violino
A tocar com o corpo meu mergulho



EM SITUAÇÃO DE RUA

Nei Duclós


Morre Valdiram em situação de rua
no sábado de Aleluia

Vindo de Pernambuco, do Brasil profundo
vestiu a camisa do Vasco ao lado de Romário
Foi espancado na Cracolandia em São Paulo
Talvez por vingança
Por lembrar aos parceiros de infortúnio
o quanto era especial por ter chegado ao Maracanã depois de uma infância pobre

Teve sua chance, dirão os indiferentes do país sem misericórdia
Os que passam de olhos fechados para a via crucis de quem foi herói por ter se superado
E que experimentou a queda até sucumbir aos 36 anos

Morre Valdiram em situação de rua
no sábado de Aleluia
Fez a passagem na véspera de um domingo
Jogou e foi jogado
da página dos Esportes para os obituários

Quem se importa com um brasileiro a menos na estatística dos assassinatos?
Não serei eu, que faço o poema sobre o irremediável
depois que a gruta fecha sobre a carne

Esse silêncio nos terrenos baldios onde jogávamos futebol
em duelo com a glória
Nós, os eternos deserdados
Nos campinhos que abrigavam futuros craques a chutar um sonho até depois de escurecer



9 de abril de 2019

O VOO DO ROMPEDOR


Nei Duclós




Vavá rompe a barreira formada pela teimosia adversária
Eles achavam que bastava levantar um muro para manter aquelas criaturas longe
Não contavam que pássaros podiam voar
no peito, na raça e de cabeça
E meter numa fresta invisível a olho nu
A bola contraída pela vontade

Éramos leões, éramos canários
que os moleques soltavam para correr atrás
Éramos os campeões do mundo
E ainda faltava uma eternidade de tempos para acabar a Copa



O NÚMERO UM

Nei Duclós

Não dizíamos goleiro
Dizíamos Gilmar
Não era espetacular
Raramente voava
Mas estava sempre onde um Gilmar deve estar

Fazia parte como alguém da linha de frente
Não se limitava a ser o número Um já que era Dez

Se o futebol fosse música
Ele não seria o bel canto
Mas João Gilberto

No seu ombro de campeão do mundo
Um rei menino chorou



A VOLTA DOS CAMPEÕES


Nei Duclós

Quando voltamos com a taça
O povo foi nos receber
Pois tínhamos povo
Não apenas torcedores, jogadores, mas todos
As crianças, as mulheres, os idosos

Era o titulo conquistado desde o quintal
O terreno baldio que ganhou linhas de cal
Era a bola de papel, depois de meia
Era a bola de couro
Que ensebávamos com graxa costurando cada gomo esfolado
Eram os joelhos feridos as canelas roxas de tantas faltas
Eram as medalhas dos torneios, as camisetas brancas
que tinham uma faixa azul ou vermelha costurada pelas tias

Depois os estádios, os times do coração
Nossa religião de todos os domingos

Por isdo o povo celebrou sua vitória
Pelos pés dos craques nascidos nessa história

Eramos os reis do futebol. 
A glória extraida no coração poderoso de uma nação que estava de pé


TODOS OS PÁSSAROS

Nei Duclós


Garrincha surpreende fazendo sempre o mesmo
Aprendeu que em futebol não se inventa
Mas se cria
É como fazer um pássaro. Em cada pluma há uma nova cor
Em cada garganta um novo canto

Seus dribles são criaturas de uma só espécie
Que ele aprendeu domando o corpo pelo avesso
Foi árduo impor-se em Pau Grande
E de lá um lugar ao sol
Passando pela enciclopédia do futebol

Em 1958 foi meia Copa reserva
Mesmo Deus precisa ficar no banco



O MAESTRO

Nei Duclós


Não precisávamos de mais ninguém para ganhar a taça
Tínhamos Nilton Santos

Era como um chanceler em missão diplomática
Um maestro em visita a orquestras estrangeiras

Os reis imitavam sua postura sem pose
Sua capacidade de armar jogadas decisivas

O carisma vinha dessa posição
De ser o pilar de uma equipe inédita
E também da humildade de ser o maior
sem dar bandeira

De longe parecia facil
Mas cada verbete do seu jogo era marcado pelo sacrifício

Humano, transcendia os confrontos. Pairava sobre as nações do futebol
Com o jeitão de boa praça
Cercado de respeito porque voltou vitorioso da guerra
Veterano que desde moço soube dominar as armas
E liderou um país na travessia do mar



VERSOS LIVRES

Nei Duclós


O talento de Maiakovski não precisava da revolução
E sim o contrário

Mas a convicção e o idealismo colocaram suas palavras no front

Quando a revolução foi traída
A tirania empurrou-o para o suicídio
Enquanto os versos que fez cruzam os anos
"como o aqueduto levantado pelos romanos"
como diz na obra prima, A Plenos Pulmões

Essa é sua lição
Ao defender uma causa, não se ponha a serviço de um tirano
por mais que ele jure inocência
Faça da vocação um sopro que extraia música das nuvens
e dialogo do drama
E sobreviva ao aparelhamento que hoje parece obrigatório

O poder usa o poeta que se imagina dono da vontade
Teu compromisso é com algo mais importante
A liberdade



LUGAR COMUM

Nei Duclós


Ninguém foge ao seu destino
Os terrores da infância
voltam na terceira idade
A vida é uma cobra
que morde o próprio rabo

Brincamos de roda
Enquanto falta chão
na eternidade



2 de abril de 2019

TROVAS AVULSAS


Nei Duclós

Essa vida é uma ilusão
Essa vida é passageira
Só a infância tem razão
Só o poema é de primeira


Mandei um coração
Não precisa devolver
Não sinto falta
Ele está em boas mãos
Só não esqueça na porta
Se começar a chover

Tuas fotos não compõem
uma persona.
És múltipla conforme incide
a luz e a sombra.


nvento-me, risco na areia
que tu, maré, desmanchas
concha que abriga sereia
escuto em forma de onda


És a doçura que brota no deserto,
alimentada pela flor do meu poema.


É preciso paciência ao dizer
E humildade ao escutar
Tudo o que vem do Outro
Quando há ponte entre iguais
É uma ordem do amanhecer


Trouxe orvalho, que estava em falta. Barulho de peixe na água, para assombrar o acampamento. Estrelas cadentes, que somem em silêncio. Cavalos marinhos, que ninguém monta.

Não precisa agradecer, flor exposta na varanda.

- Pode voltar! disse ela desesperada para o motorista. Esqueci o pacote de amor na porta.

Tudo o que não presta, vinga
Tudo o que te dizem, cola
Tudo o que esperas, demora
Tudo o que perdes, não volta
Tudo o que fazes, pagas
Tudo o que esqueces, vale
Tudo o que falas, cobram
Tudo o que consegues, invejam
Tudo o que abandonas, cresce
Tudo o que aprendes, esquecem

Passei depressa pela vida
Deixei um verso como aviso
Teus olhos despertam
quando recitam

POEMA VAZIO


Nei Duclós

O poema está vazio
Como um baú descendo o rio
Como um país que se perdeu
Como lua sem nuvem no frio

Falta-lhe a palavra que o habite
O ritmo que a voz emite
O timbre de tambor invicto
O sopro divino

O poema se permite
Ficar oco igual ao corpo
de um parente morto
Sem convite, sem ingresso
À vida, como um prematuro rebento
A esperar para sempre
O momento do grito



CAPTURA


Nei Duclós


Não posso dizer não à tua beleza
Por onde passas há um rastro de felina
Seria crime ignorar a realeza
Mesmo que eu corra o risco de perder-me
Abdicar dos brasões de cavaleiro

Pois há punição para quem não vira o rosto
E tenta enxergar o que não deve
Tua glória de mulher, aura de deusa
Teu brilho natural, tua candura

Passo pelo séquito bem despacio
Fechando a cara para teus guardiões de mato
Porque um dia chegará, pastora
Em que eu mudo a lei e te capturo