16 de novembro de 2018

UM LIVRO DE DUAS FACES



Nei Duclós

Lanço hoje meu novo ebook DUAS PORÇÕES DO POEMA - Versos & Oficina, que reúne 120 poemas recentes, inéditos em livro, produzidos e divulgados neste segundo semestre de 2018 nas redes sociais, e mais 24 páginas de textos sobre poesia. Mantenho assim atuante minha Campanha do Livro para celebrar os 70 anos de vida, completados em outubro. É minha Feira do Livro particular, com impressos e em sua maioria com lançamentos virtuais. É um universo paralelo, que não entra em antologias mas tem boa repercussão entre os leitores, autores, e os inúmeras pessoas sintonizadas com este trabalho.

Resolvi unir os poemas com algumas pensatas esparsas sobre o ofício, para que fiquem registradas num volume e não fiquem perdidas no universo da internet. Criados para interagir com pessoas que fazem oficina comigo, servem também para atrair novos e eventuais interessados nesse curso formatado a partir da minha experiência e das muitas leituras que fazem parte da minha formação.

Adquira seu exemplar, entrando em contato por aqui, via Messenger ou pelo email neiduclos@gmail.com

Reproduzo a seguir a Apresentação do livro.

APRESENTAÇÃO

Neste novo ebook reúno poemas escritos no segundo semestre de 2018 e adicionei textos sobre poesia que desenvolvi nas oficinas literárias que eventualmente exerço para poucos autores e outros insights publicados na redes sociais. Faço assim um pacote dividido em duas porções, uma para a poesia, outro para a prosa sobre poesia.

Os novos poemas, todos inéditos em livro, procuram forçar a moldura com que tenho trabalhado ao longo do tempo, propondo soluções diversas para encontrar caminhos originais na difícil arte poética. Nem sempre conseguimos cumprir nossas próprias promessas, mas o importante é o exercício diário da palavra, disseminada como interação e amor aos contemporâneos.

NEI DUCLÓS

DUAS PORÇÕES DO POEMA - Versos & Oficina
Nei Duclós
Ebook, 140 páginas
Edição do Autor
2018
R$ 30


15 de novembro de 2018

AMOR DISPERSO

Nei Duclós


O que está dito na arte do poema
existe em outro plano
Podes trai-lo, falando tudo ao contrário
Agindo como se não fosses o dono
da palavra cerzida em sagrado pano

Ele não se abala e brilha no alto da montanha
Completo e soberano
Em sua plataforma de voo
Pertence ao patrimônio
que a palavra gesta para compor o universo

Foste apenas seu profeta
Beduíno de amor disperso
Vives na areia
restos de um tempo obsoleto



14 de novembro de 2018

TIM ROBBINS, A CARA LIMPA DO MONSTRO


Nei Duclós


É da natureza do seu trabalho o fato de Tim Robbins não parecer o que realmente é: um dos poucos atores de primeiríssimo time do cinema. Sua cara limpa, sua altura desmedida em relação aos seus interlocutores, o disfarce nos papeis em que parece ser um assessor de boa vontade do chefe da prisão e é um fugitivo trambiqueiro(Um sonho de liberdade), parece ser um cara favorável à Sérima Arte e é seu algoz (O Jogador), tudo deságua nessa figura que se anula diante das câmaras, pois nada tem de atrativo tradicional. Seria apenas um bom moço de comédias românticas, não fosse sua linhagem, filho de mãe atriz e pai cantor e no início de carreira um jovem ator de vanguarda teatral.

Ele seduz o olhar do espectador para o que existe fora dele, o ator, como se nada tivesse a ver com os papéis sinistros que encarna. Não que não saiba fugir dessa imagem de falso bom moço, já que em Guerra dos Mundos Spielberg o transformou num americano em pânico armado contra os alienígenas. Ele pode fazer qualquer coisa, como é o caso do velho motorista maluco de Ongs no filme Um dia perfeito, de 2015, sobre o fim da guerra em Sarajevo, em que toma conta do filme fingindo não ser ninguém, e é apenas tudo.



É que sua preferência é anular-se até o osso aparentando o que não é, para que possamos enxergar o essencial: o próprio cinema. Porque a Sétima Arte não são os atores, nem o roteiro, nem os bastidores, o making of, o marketing, as tramas e a ação, como prova Orson Welles no seu póstumo O Outro Lado do Vento (disponível na Netflix). Um filme é apenas o cinema, em que todas as artes que confluem nele são coadjuvantes para que se apresente nas nossa fuças viciadas em comentários tipo “mas que fotografia!” e nos faça enxergar o óbvio.

Todo filme é sobre cinema e Tim Robbins é um dos seus supremos demiurgos. Atrai nossa percepção para que realmente conta, a arte imperceptível e anônima que teimamos em não ver em favor de ilusões e platitudes. Orson Welles apresenta um filme dentro do filme, e esse filme é uma alternativa ao seu clássico O Processo, que filmou nos anos 60 com Anthony Perkins fugindo desesperado de uma perseguição judicial e caindo nas garras da curiosidade das crianças. Neste O Outro lado do vento, é um casal nu que se defronta com a presença invisível do diretor (interpretado pelo maleva John Huston) que esnoba scripts, revela o talento de atores sem nenhuma expressão comercial e conta como um filme é impossível de ser realizado numa indústria que exige resultados financeiros e não arte.

Tim Robbins é o cara que não nasceu talhado para ser o ator principal nem coadjuvante, mas sim para ser espectador. Só que ele subverte esse destino e se funde no cinema, que é sua missão realizada com esmerada parcimônia. Ele é um dos monstros, o tipo de ator que encarna o personagem sem carregá-lo nas costas, como fazem os cavaleiros. Só que ao se transformar, se funde e aparentemente se anula. Ficamos com a melhor parte: seu talento de infinita capacidade de realização.





12 de novembro de 2018

SOPRADO NUM SONHO

Nei Duclós


O que acontece com Deus
quando você desaparece
E aparece
do outro lado da vida?

Ele te abandona
como se não existisse
Ou te protege
como fez com os apóstolos?

Vem e segue-me, dirá
Ou ficará sem a voz
que falou aos profetas?

Uma coisa é certa
Só contarás com a fé
Teu passaporte

Nei Duclós

9 de novembro de 2018

DA SORTE


Nei Duclós


Perdeu a graça aproximar-se
Agora já sabes
Que não há mistério
Apenas o humano laço
Sem nenhum disfarce

Nossa contingência
Falta de pendor
Para a eternidade
Só a suspeita
De que não somos o que imaginamos
Mas o que sobra da sobrevivência

Reatar o sonho com arte
A breve iluminação da sorte possível
Como um norte inventado na bússola que nuncs usamos
 

COMANDO

Nei Duclós


A vontade é que faz a criatura
Não sua capa
A estrela-guia além da carne
A conduta apesar da roupa

A lealdade à lei que vem da origem
A que o fim do tempo respeita
Pois o transcende

O sangue não comanda
Mas a liberdade




ATRASO

Nei Duclós


Foste me receber
Mas eu já tinha partido
Sou a próxima viagem

Fique com os lenços jogados do convés
Pelos enamorados

Fomos assim um dia
Estávamos com as mãos abanando
Sem bagagem

Hoje transportamos cargas
Eu com pressa
Tu com atraso




SALA DE PROJEÇÃO

Nei Duclós


Vida pequena
Projetada enorme na tela
Para que vejam a imagem
E não a fonte
menor do que aparece na parede

Estás muito bem, dizem
Melhor assim
A escassez é de foro íntimo
Tua dor não entra em cartaz
A não ser como coadjuvante
No drama épico da tua passagem

Venha, anjo
Nos ensine esse difícil oficio,
a humanidade




7 de novembro de 2018

BALANÇO PRECOCE



Nei Duclós

Tenho recebido votos de Natal dois meses antes da data. Sinal que há pressa em se despedir de 2018, que para a literatura foi bastante generoso.

Lancei três ebooks de poesia
FIO SUSPENSO
TANTOS VERSOS QUANTO ESTRELAS
O VALOR DA CRIAÇÃO

Lancei um romance pela Amazon:
A DURA LUZ DO SUBÚRBIO

Aumentei minha presença na Amazon
ARRASO POEMAS DE AMOR
A VIAJANTE OBSCURA
OUTUBRO
O REFÚGIO DO PRÍNCIPE

Relancei dois livros de poesia em forma de ebook:
NO MAR, VEREMOS
PAMPABISMO & ENIGMINAS: CONVERSOS

E um de ensaios literários:
AS RUÍNAS DO DISCURSO


Lancei em setembro uma Campanha do Livro para comemorar meus 70 anos, completados em outubro, com excelente retorno.As vendas de livros impressos e em ebook foram muito bem este ano, graças à consideração de muitos leitores, que acompanham por aqui o jorro da fonte. .

Fiquei ainda de atualizar meu livro de ensaios sobre cinema, que já está há mais de dois anos defasado.

E periga estou formatando nova seleta de poemas.para reunir em novo volume.

Um ano complicado de eleições, em que a poesia e a prosa contribuíram para habitar os espíritos e disseminar a paz na diferença.

Boas festas adiantado!!!



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6 de novembro de 2018

VERSOS SEM AMPARO

Nei Duclós


Linguagem bizarra
de funda camada
Versos sem amparo
Estrofes que não conversam

Talvez seja o caos
Que o fim dos encontros
Gerou no poema

Rolo no discurso sem forma
É teu coração
Que puxou o apoio

Boiei como nuvem pesada
Depois chovi em vão na calçada

Arco-íris de carros
Nas poças d' água
Raspo a solidão
nos muros sem pintura

Esperas de braços cruzados
No mesmo portão que nos separa

Nei Duclós

VESÚVIO

Nei Duclós


Falo nos bares que ainda abrem como a flor projetada no ar pelas bombas que erram o alvo e pipocam na agua que o sal corrói

Os bêbados escutam o estrondo provocado pelo último poema que quebra os copos em queda de pratrleiras feitas com madeiras de lei

As orquídeas depositadas nos ombros dos heróis se refazem da longa marcha no deserto
e só um clarim tem permissão de acompanhar a palavra arrancada de corpos moços de um exército mudo a cruzar o pântano
Silenciosamente como um franco atirador na borda do Vesúvio


5 de novembro de 2018

PELA LIBERDADE

Nei Duclós


Livrai-nos, Senhor, do radicalismo,
filho dileto da burrice
Livrai-nos dos grilhões da direita,
da esquerda, da vanguarda,
e da retaguarda

Dai-nos a coragem do livre arbítrio
O pensamento liberto das amarras
De origem divina,
que transcende a razão
mas jamais a contraria (*)


RETORNO - (*) "que transcende a razão mas jamais a contraria" tirei de Hobbes







O BARCO NA SARJETA

Nei Duclós


O poema confessional é de autoria de personagens ocultos, que o autor cria ou invoca. São múltiplas personalidades lendárias a navegar nos versos reunidos sob um mesmo nome real. Elas se encaixam nas percepções variadas de quem lê, contesta ou se identifica.

Depois de jogar seu barco de papel na correnteza feita pela chuva na sarjeta, o poeta, garoto, se recolhe. E se perguntam pelos versos ele sacode os ombros. Diz que não é com ele. Escapa assim pelas reticências...

Ninguém pode se decepcionar quando insiste em ver as asas de um anjo que não existe. Que não é alegre nem triste, como diz Cecília Meireles. É só poesia, e isso é tudo.



A DOR E A FORTUNA

Nei Duclós


Todos os tempos são duros
Qualquer momento é um abismo
Teu entorno é tua aposta
Entre a dor e a fortuna

A memória é que costura
O passado em novo ritmo
Viaje agora no futuro
O presente como um fruto

A notícia é coisa bruta
Ninguém tolera a censura
Teu corpo contém a cura
O gesto é tudo o que resta




A VOLTA


Nei Duclós


Entendo que agora não me reconheças
Desapareci por muito tempo
Por obra de misteriosos eventos

Desisti de te convencer da minha experiência
Da qual não me lembro, nem por hipnose
E hoje meu nome transformado em lenda
Não pode ser manchado por qualquer notícia

Vou sumir de novo, desta vez para sempre
Pois se há dor na ausência
Ela é maior quando somos jogados de volta
Sem merecimento

Mudou minha aparência, mas mantenho intacta
A identidade doada pelo berço
Minha mãe saberia, mas ela não pode mais ser consultada

De todas as marcas desta enrascada
Que nem o teste de DNA resolve
Fica apenas a íntima alegria
De poder voltar à vida

Sou um náufrago que à revelia
Foi tragado numa curva do incógnito universo
Por motivos ignotos, num momento sem registro
E agora pede socorro à Lua
Que me acompanha, por ter o mesmo destino



4 de novembro de 2018

QUASE TU


Nei Duclós

Quase tu no intervalo imperceptivel
Em cada dobra da praia há um deus
Escutei o que não havia, talvez um zumbido
Incorporei o verso sem origem
Montado em Pégaso de pintura em bar fechado

Muito obrigado musa que embaralhou as cartas
Para eu não ver inteira a persona em sua costura



3 de novembro de 2018

O CINEMA EM PRETTY WOMAN


Nei Duclós

É de cinema, como acontece sempre na Sétima Arte, que trata o filme Pretty Woman (Uma Linda Mulher) , de1990, dirigido pelo veterano Garry Marshall (1934) com script de J.F. Lawton – com 30 anos na época do lançamento - interpretado por Julia Roberts e Richard Gere, que atingiram o estrelato como o casal romântico formado pelo empresário e a prostituta. O escritor J.F tem DNA em Hollywood: é filho de Harry Lawton, autor do livro que originou o clássico Willie Boy (1969), a perseguição e morte de um fora da lei, dirigido por Abraham Polonsky, que fez dessa antológica obra sua reentrada em Hollywood depois de ter sido alvo do macartismo.

A crise econômica e a decadência dos costumes é o foco principal de Pretty Woman, com sua consequência direta no cinema. A calçada da fama, que eterniza os ídolos cinematográficos do passado, é território dividido pelo trottoir. As pessoas despossuídas pela crise se amontoam disputando migalhas até que surge um protagonista da situação, o grande especulador financeiro que compra empresas em decadência para loteá-las e obter mais lucro. O encontro entre o cara perdido em Hollywood e a profissional que o orienta na vida amorosa é a reiteração do sonho do cinema, que fez a fama da América em épocas mais esperançosas.

O sucateador de empresas tem a ver com os predadores da própria indústria cinematográfica, também vítima da indústria financeira, que acabou gerando mais tarde, em 2008, o grande colapso do sistema, de onde jamais saímos. Em 1990 havia essa interseção entre o tradicional – o grande empresário construtor de navios e seu herdeiro – e a voragem emergente do advogado sem escrúpulos (Jason Alexander, de Seinfeld) e seu patrão ambicioso, que acaba mudando de rumo porque se apaixona.

O sonho retorna de qualquer lugar. Pode ser de uma calçada decadente, de um hotel de luxo, de uma ópera de Verdi, de botas de cano longo ou de uma limusine. Os americanos jamais tentam excluir os fatos que demolem cenários obsoletos, anexando-os em novo patamar, sempre no ritmo e no rumo de uma América indestrutível, porque se adapta. Enquanto nós nos entregamos ao horror das transgressões, os americanos não se opõem à multiplicidade das situações terminais, deixam fluir e reiteram sua pertença.

Pretty Woman, um dos grandes sucessos do cinema, mostra a decadência de Hollywood ao mesmo tempo que salva o principal, o sonho de um amor impossível. O encanto vem do amparo que o filme tem no próprio cinema, pois o fato de Richard Gere tirar os sapatos e roçar os pés na grama vem de Descalços no Parque (1967, baseado em peça de Neil Simon), e nas adaptações cinematográficas dos contos de fados, no caso aqui Cinderela. Eis o segredo de Pretty Woman, sempre bom de ver, se observarmos suas camadas mais profundas.



2 de novembro de 2018

OBRA ABERTA


Nei Duclós


Feche o poema a tempo. Não o submeta ao fardo das hipérboles e chaves de ouro. Freie quando as rodas dianteiras do comboio balançarem na margem do abismo.

Abandone o leitor à sua própria sorte. Volte a pé sem olhar para os lados, perseguido pelo crocitar das palavras que deixaste de usar, por saber que a criação fica sempre aberta, como flor à mercê do orvalho.


FEITA DE VELUDO

Nei Duclós


És feita de veludo por dentro
Fibras da manhã, corpo no tapete
Convite aberto em leque japonês
O que gera brisa em modelos de ateliê

Evitas o suspiro que em ti é redundância
Pois em tuas porções inteira manifestas
Desenho de um acaso que decide a festa
Guizos do mármore que virou promessa

Estátua de sal sem ressentimento
Te desmanchas quando faço vento
Conheço o cenário da tua elegância
Evento célebre te cerca de talentos

Escovado, compareço,rude, atento
Ao teu lado protejo o patrimônio
Guardo segredo sobre os interiores
O que escondes sob plácida aparência