24 de setembro de 2016

OS FUNDAMENTOS DE OUTUBRO



Nei Duclós

Quando cheguei aos poemas de Outubro, a partir de 1969, já vinha de longo exercício poético desde 1957, quando acabara de completar 9 anos de idade. Foi importante expor essa fase anterior da minha poesia para os colegas da faculdade da Ufrgs. Era o que eu tinha para mostrar. Mas ao colocar no mural alguns trabalhos por muito tempo acalentados na solidão do interior ou mesmo antes de entrar para o Curso de Jornalismo, notei a reação dos colegas, deixando claro que eu tinha muito chão pela frente antes de fazer algo significativo.

Isso me amadureceu rapidamente, principalmente quando tomei contato com a grande poesia nacional e estrangeira, dos modernistas brasileiros e todo o resto, de Cabral a Bandeira, de Drummond a Cecilia, impregnando-me também de Fernando Pessoa e Garcia Lorca, de Maiakovski e Brecht, e tantos outros. Foi uma revelação. O plus foi a transgressão do concretismo e da praxis, seus poemas, traduções e textos teóricos.

Encontrei então minha própria voz, a partir dessa fricção entre meus sonhos anteriores e o impacto da sonoridade da poesia maior. Nada tinha a ver com o engessamento acadêmico que vigorava nos cadernos culturais próximos (o caderno B era inacessível para um estudante sem recursos e longe das grandes capitais). Considerei então um ato de criação que trazia a voz das ruas para a poesia trabalhada com os avanços contemporâneos. Algo novo, mas ousando ter um tom clássico, sem ranço novidadeiro.

O livro Outubro, lançado 7 anos depois, em 1976, é a síntese e porta de entrada dessa nova identidade poética que acompanhava as tendências de uma época de mudança. A segunda edição, comemorativa dos 40 anos de lançamento, está na gráfica, com previsão de lançamento em outubro. Muita gente já adquiriu o exemplar e fez o depósito, apoiando a iniciativa do autor-editor. Junte-se a nós, participe. Escreva  pelo email neiduclos@gmail.com ou use este botão do pagseguro. https://pag.ae/bddhn3r

Outubro veio para ficar. A edição está linda demais. Cada exemplar custa R$ 50,00, com frete incluído.


FIAPO



Nei Duclós

Ficaste preso no tempo
como nos espinhos um lenço
que se desprendeu do corpo
que cruzava o deserto

Deixaste lá a pista, tu mesmo
que ninguém visita, memória
violenta que produz
o choro sem remédio

No fiapo de pano bate o vento
e o sol que cresta a fibra
não revela a passagem
da tua obra hoje oculta

Não pertences mais ao mundo
coração tão próximo e distante
ficaste na estação avulsa
de onde acenas

És o último alento no ninho
que um pássaro conduziu
reduzido a trapo no voo
que se esconde

Que vida nos reserva quando há
essa dor misturada à areia?
Talvez nasça um fruto no futuro
comum que a raiz contempla


22 de setembro de 2016

TUITS NA BOCA DA PRIMAVERA




Nei Duclós

Imprensa, publicidade, política, História, comportamento, primavera, poesia: compartilho alguns tuits recentes para criar um arquivo que seja síntese do que passa pela minha cabeça. 

IMPRENSA

Por favor, não usem protagonismo. É horrível.

Não usem mais "o também", pelo amor de Deus. Ex.: O também empresário. É horrível.

Você não pode publicar matéria q tenha como informação básica a falta de retorno das fontes à abordagem do repórter. Nesse caso, não há matéria

Na imprensa, só entendo fatos já sabidos. Os que desconheço são enigmas, graças à falta de informação e a confusão dos textos mal editados.

Boletim de Ocorrência é fonte, não texto final. Viaturas não colidem numa reportagem.

Jornalismo é uma especialidade técnica. Não pode ser feito de improviso, amadorismo, ideologismo, voluntarismo.

Falta nas redações a edição clara, bem planejada, o texto limpo não redundante e com informações precisas e básicas.

Temos um espaço público de mídia nas redes sociais. Perder tempo e gastar latim à toa ajuda a manter os equívocos que nos assolam. Capriche.

Ponho no noticiário local. Previsão do tempo. No nacional: clima, temperatura. Volto ao local: sol vento chuva. Jornalismo meteorológico.

"Quem é assinante lê mais e vive mais" diz o jornal portugês @publico. Apelaram, avozinhos. Menos.

HISTÓRIA

Há décadas gastamos milhões num instituto de reforma agrária e o  latifúndio está cada vez mais poderoso.

Costumo dizer que se, em vez da  Lei Áurea, tivessem fundado um Instituto Contra a Escravidão, ainda  estaríamos com navios negreiros

Faz parte da desconstrução do país corroer o sentimento de pertença atacando seus mitos para propor novas mistificações.

Anatemizar a origem do país serve a políticas sem escrúpulos. Ótimo para falsos salvadores da Pátria."Somos assim mas agora será diferente"

Costuma-se dizer: isto é Brasil. O certo é: isto é o que fizeram do Brasil. É um erro atribuir a culpa à origem e não aos fatos.

O mau uso da História leva à manipulação dos fatos passados em função de interesses escusos atuais. Anacronismo é praga crescente.

POLÍTICA

O presidente se baseou em discurso do chanceler Oswaldo Aranha em 1957,quando o Brasil se posicionou como país independente.Exemplo clássico

Acusado de desviar merenda escolar, superfaturando suco de laranja foi afastado por motivos de saúde e encontrado em bar tomando uísque!!!

O espírito desabitado escorrega fácil para a violência. Ou cultivamos a palavra impregnada de lucidez e amor ou permaneceremos em guerra.

Homem matando mulher pelo Brasil afora. A violência virou nossa única linguagem. Palavra de amor foi substituída pelo xingamento e o tiro.

Transformação virou apenas transgressão, que quer ter o mesmo status de virtude. Transgredir está mais para o crime, a contravenção.

Não quero mais falar esta língua que nunca aprendi direito, disse o exilado. Quero voltar ao nascimento da minha palavra.

Honesto é quem rouba, inocente é quem comete crime, culpado é quem estuda,  bandido é quem trabalha. Ja idiota é idiota mesmo.

COMPORTAMENTO

Fazem pouco do que representas no teatro de todos os dias. Mas tens o roteiro de um drama mais profundo. Recitas para o novo mundo.

Camarada é quem permanece ao lado quando o dia arrebenta. Mais do que amizade, decisão trespassada pela coragem

Somos a surpresa do tempo, que nos cerca com suas correntes. De nós renasce o pássaro que pousa no lugar mais alto.

Não estamos de passagem. Viemos para ficar, mesmo que o trem nos leve para outras paragens. Somos um bilhete para a eternidade.

Quando te colocarem num beco sem saída lembre que tens o dom da palavra cheia de vida. Ela rompe o muro com um golpe súbito.

Reme contra tuas certezas, para que navegues em águas ainda em formação. Há outro mar gerado em cada nova estação.

Convide quem não participa, não para tirá-lo da concentração, mas para escutar a resposta que ele dará ao recusar a escrita

Defenda-se quando te enquadram nas generalidades. Insurja-se com sua originalidade, que é a soma do que o espírito verte no exercício árduo

Palavras de conforto provocam imobilidade. Mova-se em direção à liberdade carregando o feixe de versos que irão alimentar a fogueira

Não diga o que você pensa, território do Mesmo. Diga o que provoca dúvida. Busque palavras no ermo, na solidão das perguntas.

Tudo o que sonhas leve ao ar, trabalhado com eficiência pelo talento e o pensamento.

Eu não tenho voz ativa, mas tenho a minha palavra.

POESIA

Eu estava longe quando vi a estrela. Era um aviso da primavera. Segui em frente para reencontrar o dia que o sonho desenha.

Já estivemos aqui, com outra roupagem. Ganhamos a nova chance de um deus que se despede.

Escute a vogal, soe a consoante. Forje o fôlego amante. Tens assim o poema, representação da beleza que te encanta.

Estou onde inventas a primavera.

Estás perdida. Obra das armadilhas que encaras como profecias. Volte ao seu aprisco, o poema límpido, a prosa como luar e neblina, tua alma

Amor, antes que me esqueça. Amor, antes que feneça. Amor, sempre que floresça.

Vem do fundo o amor que negamos.Como vulcão extinto que escuta o chamado de um pássaro de luz dourada


RETORNO - Imagem desta edição: foto de Eliane Fogel.

17 de setembro de 2016

ESTANDARTE



Nei Duclós

Confino a voz aos redutos físicos
Como pão de forma com escasso trigo
Repartido em porções de fôlego curto
Pânico na barca quando o vento surta

Não entendes o corisco das nuvens
O ciclone morno, bafo de primavera
Raios de um aviso de bandeiras confusas
É o sol impresso no pano que te mantém viva

Jogas o estandarte do teu declínio
Expões a arte, rosto de pintura
Guardas o talismã em caixa mágica
Teu corpo ainda dócil, perfil de Joana D' Arc