28 de janeiro de 2015

NADA É MEU



Nei Duclós

Nada é meu, nenhum canto
desta terra firme
por isso sou do mar, do rio
lar que me negaram

Possuo o ar quando respiro
os raios do sol no navio
de onde se avista
o sal de uma sereia

O que me pertence é o mel
que compartilhas
na hora apropriada, quando
pássaros saem do teu seio

Nada é teu, exceto o tempo
que dedico à flor
Vida é o canteiro que cultivo
pétalas de esplendor



RETORNO - Imagem desta edição: Rio Uruguai, foto de Marga Cendón.

26 de janeiro de 2015

CAPA E ESPADA

Nei Duclós

Não fazia parte da turma
tinha asma
ficava de cama enquanto
jogavam o campeonato

Me colocavam de goleiro
que era quase um gandula
alguém da arquibancada
uma testemunha

No baile estavam ocupadas
as principais chances
terno marrom amassado
chupando soda laranja

Na profissão busquei a calandra
aquela máquina enorme
alvo de gargalhadas
batucando com cara de tacho

Na literatura entrei pela janela
as portas estavam fechadas
Errol Flyn, ai de mim
poeta de capa e falsa espada

A única aventura é a interminável
história que me contei em silêncio
quando assumi o papel principal
Vida escrita no meio das balas

Hoje me contento com a lua
quando aparece descalça
sobre as poças da chuva
que molham minha calçada

23 de janeiro de 2015

TREINAMENTO



Nei Duclós

Nenhum amor me apetece
nenhuma flor que floresça
animal sombrio da floresta
rasgo o coração das árvores

Nenhum pássaro me comove
nenhuma luz me contempla
o dia esconde meus rastros
corto a direção dos ventos

Corrijo a solidão, sou gigante
preencho os vazios do ermo
alguém me fez, um deus louco
em desavença com o tempo

Não me atraia com teu canto
não diga que há conserto
desequilibro os acordos
rosno para escutar o eco

Se por acaso apareço
diante dos olhos da fada
melhor que fuja correndo
minha linguagem é o medo

Nenhuma cor do horizonte
amanhece em meu destino
nasci quando me escolheste
morri quando foste neve

És o inverno, princesa
hiberno em minha conversa
treino para o momento
por te querer me preservo


22 de janeiro de 2015

AS QUATRO FACES



Nei Duclós

As quatro faces
da Lua
Quatro estações
se misturam
os quatro cantos
do dia
as quatro pontas
das cruzes

Quatro beijos
na cintura
quatro folhas
do teu trevo
quatro cadernos
de prosa
quatro quilos
de uma estrela

quatro estrofes
numa feira
quatro varais
com tuas rendas
quatro cores
de uma aliança
mais quatro potes
de ouro

quatro ventos
no deserto
as quatro forças
sinceras
quatro caixas
de Pandora
quatro sonhos
em teus seios



RETORNO - Imagem desta edição: obra de Tracy Adams (Magritte revisitado)

TENTATIVA



Nei Duclós

O mistério é dispor de palavras comuns
para o que nos escapa

revirar o fundo de um poço
com as unhas

expor os minerais não catalogados
com nomenclatura de alfarrábios

Perder o fio das revelações
por escassez de versos

Circular na mesma órbita
pela cidade depois da guerra

e tentar recompor o suor e a festa
com gravetos unidos pelo barro

Descobrir que mudaste de bairro
e sumiste sem misericórdia


RETORNO - Imagem desta edição: obra de John Constable.





19 de janeiro de 2015

SERGIO LEONE, SOBRE CINEMA



Nei Duclós

Vejo doc sobre Sergio Leone na TV Cultura e ele diz que o cinema serve para expressar ideias etc. Fico sempre invocado para descobrir onde fica, entre os cineastas, minha abordagem de que todo filme é sobre cinema. De repente Leone começa a falar de Era uma vez na América e diz:
- O título deveria ser Era uma vez uma forma de fazer cinema.
Bingo!

No doc, um crítico lembra que certa vez foi convidado por Leone para conversar sobre seus filmes. O crítico não gostava da falta de relação dos faroestes italianos com a História do Oeste. O jantar foi um fracasso, pois o crítico tentou deitar sabedoria sobre o que ele considerava sua especialidade. Só muito tempo depois descobriu que não havia relação entre os faroestes de Leone e o passado americano. Era fabulas na forma de faroestes. Certamente. Os filmes não são História, são apenas cinema.

Leone conta que Henry Fonda, considerado por ele o maior e mais importante ator do cinema americano, chegou na Italia para filmar Era Uma Vez no Oeste todo amorenado, com grandes costeletas e lentes de contato marrons. Aos poucos Leone foi convencendo Fonda a tirar aquela fantasia do que o ator imaginava ser uma caracterização latina. Queria filmar um vilão impiedoso com os olhos azuis dos mocinhos americanos. Só então caiu a ficha de Fonda.

Sem Charles Chaplin, diz Leone, ele e muitas cineastas nem existiriam. Sempre acabamos passando por ele, diz.

Leone morreu em 1989 de um ataque cardíaco, na véspera de filmar o cerco de Leningrado, projeto que deu um trabalhão danado durante anos. O documentário acaba com a fala de Clint Eastwood em Três Homens em Conflito: "Isso depois que salvei sua vida várias vezes".