22 de abril de 2014

Diário da Fonte
CEREJA



Nei Duclós

Teu vulcão ativo submerso
forma ilhas onde me conservo
em lava fertilizada pelo incêndio

Mais fogo do que água
trazes sal no íntimo desejo
derrama de sol comigo dentro

Pego de surpresa na inocência
fantasia solta de sereno
dose que repito a cada volta

Chocolate branco no ambiente
da cereja, és quem não aguento
por ter me acostumado ao medo

Repões o movimento, ficas trêmula
sabendo que não passa de momento
essa erupção de sonho em oceano

Jugo soberano, liberdade em termos
um ao outro, doce reconhecimento
exercemos a arte da excelência

RETORNO - Imagem desta edição: Maureen O´Hara

20 de abril de 2014

Diário da Fonte
DENSIDADE

Nei Duclós

Incorporamos a esperança,
mesmo sem resultados.
Vale a densidade do sonho,
a arquitetura projetada
e o impacto desse hábito
no exercício do passo
escasso.

Somos fruto
dessa mesa posta
em qualquer data.

Feliz Páscoa,
ressurgida palavra
no canteiro imediato
de fôlego e promessa

19 de abril de 2014

Diário da Fonte
A LUZ QUE ME DESTE



Nei Duclós

Amor é quando o prazer se mantém no dia seguinte.

Já fui barro, hoje sou celeste. Sopro de volta a luz que me deste

Sempre que te amo saio correndo. Por isso percorri toda a galáxia. Me viram em Andrômeda, água de cheiro.

Só tomo sol na Lua cheia.

Fui proibido de te amar. Então decidi treinar solidão com os faróis e as ilhas de coral.

O poema é o amor que eu não declaro, que jogo como semente, tombo na manhã imensa.

Mantos cobrem teu sonho. O vento do deserto bate neles e voas, cabelos soltos, olhos de amêndoa.

Sou amigo de Afrodite. Tu, sonho do Olimpo.

Faço versos noturnos para cercar teu brilho. Assim reinas, poderosa eclipse

Não te procuro porque já cumprimos a escrita. Agora somos uma leitura tardia de falas esquecidas.

O amor vem antes. Viver fica para depois.

És uma civilização, a que não foi perdida, porque encontrou abrigo no meu coração.

A única moeda de valor é a Lua cheia. Ela nasce no cofre do horizonte rútila como um olho de ouro.

Tens parte com a divindade, mas não percebes. Tateias algo com a maquiagem, mas é o andar natural e o gesto inspirado no súbito sonho que te faz acima das criaturas da terra.

A poesia toma o rumo que bem entende. Você é o guia cego, orientado pelo ruído das palavras. A todo instante, te aproximas do precipício.

Melhor não ciscar no acervo acumulado pelos anos. Deixe fluir o esquecimento. A memória é uma ficção, merece ser escrita no capricho.

O tempo não nos afasta. Já éramos estranhos em qualquer época. Apenas descobrimos ciclicamente, a cada tentativa de reencontro, os motivos da distância.

Não há sintonia. Nossos cultivos não combinam. A não ser que, livres, possamos estabelecer uma outra semeadura.

Não queres ouvir, cansaste do poema,por isso me calo. Guardo a semente em território sem água, o coração deserto. Um dia ela medra, pela exaustão do bocejo.

Sou romântico por contingência. Você tem ombros...

Épocas se tocam no tempo que se dobra. Curto espaço do que parecia infinito.

No elogio, desconfie. Pode ser sincero.

 

JACK E A SEREIA NA PAIXÃO

- Por que não posso passear no mar na semana santa? perguntou a Sereia.
- Por prudência, minha deusa, por prudência, disse Jack o Marujo. As redes estão famintas.

- Vou fazer camarão para esta sexta-feira, disse a Sereia.
- Não tens um pingo de solidariedade, disse Jack o Marujo, bêbado.

- Eu não sou peixe! disse, chorando, a Sereia. Sou mulher, viu, mulher!
- Os marinheiros sabem disso, disse Jack o Marujo. Mas gostam mais das escamas.

- Não fique ofendida, disse Jack o Marujo para a Sereia. Consulte meu signo. Sou de Peixes.



Diário da Fonte
SENTIDOS



Nei Duclós

Vamos perdendo a força dos sentidos
por uma questão de lógica.
Precisamos nos afastar
antes da despedida.

Neblina nos olhos, sussurro no ambiente,
tudo vira manifestação de pássaros
e cores desfocadas de flores ao acaso.
Até que uma surpresa te desperta.


18 de abril de 2014

Diário da Fonte
ULTRASSOM



Nei Duclós

Solidão: você não se reconhece
não existe, não está presente
Seu contorno não acontece
no limite do Outro, sua pista

Implosão da identidade mista
entre o que somos e a ilusão
Imagem que se forma, rima
ou consonância, alma gêmea

Confusão: quem nos habita
quando estamos em fila?
Onde fica o sujeito que some
no gesso da sala sem paredes?

Invisível mas não fantasma
alegoria em fundo infinito
alvo branco na nuvem de algodão
seta sem Cupido, jogo de pião

Rodamos sós no piso sem ruído
emitindo inaudível ultrassom
sinal que estamos lá, e só o cão
com seu ouvido, isolado percebe

Somos a distância entre o visto
e o que passa em vão, nascemos
para nenhuma vida e de repente
o espelho ignora o que reflito


17 de abril de 2014

Diário da Fonte
FAGULHA



Nei Duclós

Amor sem nada emotivo
cruza de cinza e neblina
intenso gelo em fagulha
feno com cheiro de crina

Amor de ruiva no exílio
reduto ao redor da ilha
nenhum radar captura
planta avessa a clorofila

Sardas em ponto de fuga
palha molhada na curva
corpo que não adivinho

Palavra posta no esporro
charada escrita com sebo
chama na linha do escuro