7 de fevereiro de 2016

O DIA NASCE PERFEITO



Nei Duclós

O dia nasce perfeito
forjado em luz sem retoques
jasmim em nuvem pequena
no céu puro e transparente
Verão que cedo revela
o que o clima compensa

Nasci na estação extrema
em que o olhar se sustenta
e vejo o sol que se enreda
nas plantas de verde forte
até que enfim prevaleça
o rumo de um jogo bruto

É quando entorta o começo
e o mormaço se apresenta
a tarde inventando moda
pressão que gera o sufoco
inconformada com a sorte
do que já estava previsto

É quando o sonho se perde
em outra cena imponente
em vez do tempo sem corte
só com a lâmina do espanto
chega a carga da memória
que a nossa espécie suporta

Mas só importa o momento
em que a flor aqui se acerta
com suas cores ao vento
a brisa, melhor dizendo
que vem de farto horizonte
talvez do amor que ainda resta

O poema é o sentimento
reflete a manhã suprema
quando os corpos recuperam
um destino mais de perto
a vida que merecemos
numa feliz coincidência


6 de fevereiro de 2016

JOGOS DE PORCELANA



Nei Duclós

Hoje é o dia de ontem, que se liberta
do futuro.  O tempo é peso pluma
Borra a leitura na exaustão do rosto
Estrofes ainda verdes na bagagem

Revejo a agenda que me embarcou
no estranho trem cruzando túneis
a sair da sombra aflorando versos
Limpo o sereno no vidro indevassável

Primeira estação: a primavera
Jogue no mar o desejo sem retorno
Receba de volta a flor que perseguiu
o vento e aporta na ilha deserta

Contas momentos para guardá-los,
tontos, em jogos de porcelana,
secreta coleção de sonhos,
som de um involuntário realejo


5 de fevereiro de 2016

OS COMBATENTES



Nei Duclós

Estudei os reis condecorados da História
havia sangue nos uniformes da coragem
e bandeiras aos trapos sendo celebradas
Folhei páginas onde troavam os canhões
das batalhas reproduzidas em cores épicas
e as espadas tiniam nas provas finais
tínhamos orgulho da saga que nos excluía

A nós eram reservados os reis folclóricos
imperadores que empreendiam a fuga
e cruzavam o mar corridos pela pólvora
e sentavam no trono mais ignóbil
que ao puxar a espada viravam piada
e não mereciam a admiração mais tênue
pois em tudo conseguiram fazer errado

Não sabíamos que dentro de casa tínhamos
heróis anônimos de inúmeras guerras
as que nunca foram estudadas no colégio
e ignoradas pelo tempo afora, como se fossem
uma espécie de doença contagiosa
Assim ficamos à parte da linhagem secular
das lutas do país feito a fogo e ferro

Sorte que tínhamos os serões na noite alta
o que já era uma transgressão pois a infância
devia por lei deitar cedo. Era como se nós
estivéssemos no acampamento de campanha
com aquele cheiro pesado de lona do exército
tapeando os mosquitos e ficando em claro
agarrados aos fuzis atentos ao inimigo

Pai e tio contavam os causos do tiroteio
abrindo os braços em arco e fazendo caras
de profunda sobriedade, expressões duras
dos meninos que foram cruzando as terras
enfrentando as madrugadas perigosas
vendo os companheiros tombarem
em gestos que jamais saíram da memória

Assim eram os bravos da nossa nação
usavam chinelos depois que tudo passou
olhavam para o rio e lembravam a refrega
e tentavam nos assustar com as palavras
Foi isso que aprendi dos narradores do pampa
os homens que o Brasil esqueceu para sempre
e que dormem o sono justo da eternidade

RETORNO - Imagem desta edição: meu pai, à direita, de bigode, deitado, ao lado da criança, em 1930.

4 de fevereiro de 2016

FLORES DA MEMÓRIA

Nei Duclós

Uma flor não diz muito além do momento
só sua memória permanece intacta
a que guardamos em vasos imaginários
as que colhemos em tardes de ventania

Salvamos as pétalas do desaparecimento
pois na planta elas se vão, como os dias
e reunidas em ramos também não duram
mesmo que algumas porções sobrevivam

Abrimos um livro antigo e lá estão elas
sem a cor original, mas com nova consistência
são de uma seda cevada em velho pergaminho

Se esfarelam, se não tivermos persistência
a não ser que escolham uma alma por moradia
nas paredes internas de uma eterna vigília



HITCHCOCK E HOPPER: TOTAL IDENTIFICAÇÃO



Nei Duclós

Hitchcock era um fã absoluto de Edward Hopper. Toda sua obra está colada no mestre da solidão.  Edward Hopper fazia cinema e Alfred Hitchcock pintava quadros. O foco principal da obra dos dois gênios é a solidão.  Este site mostra a total identificação entre eles, a sobreposição das imagens aparentemente diversas fica clara e inegável. Hitch filmou Hopper o tempo todo.


 Minha descoberta foi tardia, depois de ver pela décima vez O Homem Que Sabia Demais. Fiquei invocado com a sequência memorável da aproximação de James Stewart na capela onde está seu filho sequestrado. As ruas vazias, as casas rígidas em suas cores dominadas por uma sinistra neutralidade, o terno e o chapéu do protagonista dentro de um cenário de abandono e dúvidas. Selecionei duas fotos, uma do filme e outra de um quadro de Hopper para ilustrar essa percepção.




Os filmes de Hitch são uma sequência de outsiders: o médico cínico que receita antidepressivos para a mulher ingênua e está de férias no Marrocos e acaba sendo vítima de uma trama internacional; o fotógrafo expulso do seu ofício devido a um acidente profissional e que fica imobilizado observando a vizinhança, onde se desenvolve um crime; o solitário que se afasta de tudo e todos e enfrenta a fúria dos ex-inocentes pássaros; o delinquente isolado  que se fantasia com as roupas da mãe para cometer assassinatos; a mulher de dupla face que leva o admirador que sofre de vertigem para o alto do campanário; a ladra com problemas psicológicos. Os personagens principais de Hitch sofrem da mesma síndrome de Hopper, são observadores de cenários vazios e acabam se envolvendo no deserto que parecia estar fora deles. São, antes a expressão acabada do lugar onde vivem, onde estão gravadas as formas impressionantes de uma arte sem concessões.

As paisagens ocas e inóspitas, o casarão no alto do morro, a igreja no subúrbio, a capela com o pastor sinistro são como as paisagens de Hopper, que nos fisga pela força da criação e a dureza do olhar rigorosamente clássico numa cena que é a véspera do horror. É tudo tão rígido e genial que Hitch resolve brincar com sua maestria. Tenta até fazer comédia pastelão quando filma a cena do taxidermista, uma pista falsa que acaba em sururu digno dos irmãos Marx. Suas breves aparições, marca registrada do autor, são também momentos lúdicos que abrem brechas no clima opressivo das narrativas.

Ele podia se dar a esse luxo, proibido para Hopper, que conta apenas com um frame para mostrar tudo o que imagina e vê. Mas sua obra é tão intensa que a aparente imobilidade de cenários e personagens acaba virando cinema puro e simples, Bem antes de Hitchcock filmar. O mestre do suspense teve apenas o trabalho de acrescentar os quadros para que houvesse movimento. Mas em ambos os casos, é a mesma fonte, que transcende o tempo e nos desafia a novas leituras toda vez que olhamos para a criação magistral do inglês que torturava loiras e o americano que colocava seu país no deserto do real.

3 de fevereiro de 2016

ESCONDIDO



Nei Duclós

Já tive visão de tudo
Que a palavra proporciona
Profecia majestática
Vanguarda ocupando o trono

Também fiz da vil modéstia
Glória pesando o ombro
Tirei fotos com o cânone
Na esperança de mais fama

Mas perdi, para minha sorte
O lugar que me cabia
Encontrei o que era norte
Apontando a estrela guia