1 de dezembro de 2009

Diário da Fonte
DRAMA NA ÚLTIMA RODADA


O Grêmio não vai entregar o jogo contra o Flamengo. Ao contrário, vai lutar como um leão solto na arena depois de uma temporada de estio. Vai resolver assim a sinuca de bico preparada pela tabela do campeonato Brasileiro, que colocou nos pés dos jogadores do tricolor gaúcho o destino de seu arqui-rival, o Internacional de Porto Alegre.

De minha parte, quero que o Flamengo seja campeão. O técnico Andrade, Peticov e todos os outros craques merecem esse título. Mas isso não quer dizer que vá se basear na rivalidade gaúcha para fazer graça na hora de levantar a taça. Se vencer, deverá ser de maneira justa. É isso, acredito, que esperam os jogadores, dirigentes e torcedores do time carioca. Pois não teria graça ganhar de bandeja a vitória contra o Grêmio só porque existe uma coisa chamada Grenal, que todo o Brasil aprendeu a dizer que é a pior rivalidade futebolística do mundo. Não é. A pior é nós contra os argentinos.

O problema é que, para quem acredita na obrigatória marmelada, não existe uma coisa chamada honra, um nome a zelar. O que os colorados deveriam fazer, em vez de ficar colocando obrigação no Grêmio, é cuidar do Santo André, que, caindo pelas tabelas, poderá surpreender no último minuto. Não descuidem do adversário nessa partida final, não contem com a galinha antes do ovo. Talvez levem uma chapuletada. Seria engraçado se o Grêmio vencesse e o Internacional caísse de quatro diante dos paulistas.

Se torço para o Flamengo para o título, acho que o Palmeiras foi o grande injustiçado neste campeonato. Era líder com folga e foi se abatendo até chegar exausto na última rodada. Problemas internos, brigas de foice no claro e no escuro, ruptura entre técnicos e jogadores, estrelismos ou afobamento puro e simples deitaram tudo a perder. Mas ainda há chances. Talvez os palmeirenses ganhem a parada e possam enfim comemorar esse título. No mínimo, André Falavigna, que desde a puberdade não levanta o troféu nacional, teria assim sua grande desforra e poderia gritar úúúú levando as mãos na cabeça como uma manifestação de alívio e não de lamento pelo título perdido. O gol do meio do campo no domingo foi um sinal de que pode acontecer um milagre?

Resta falar do São Paulo, eterno candidato a vencedor. O São Paulo tem carisma, tem time e tem sorte. Rogerio Ceni se machucou mas voltou em forma. Ronaldo se machucou e caiu junto com o Corinthians. A barra andou pesada pelo lado corintiano. Mas é sempre leve para o lado do tricolor paulista. Por que será? Na penúltima rodada, os sampaulinos saíram da liderança para a lanterna do G-4. Talvez voltem ao topo. Mas esse não é o drama da última rodada.

O drama está no pampa. Lá em Uruguaiana, como estará o clima? Colorados e gremistas, que vi lado a lado num final de campeonato, quando o Grêmio venceu e não saiu pancadaria nenhuma, ao contrário, famílias inteiras uniformizadas com as camisetas de seu time foram à praça ver a bagunça. O Rio Grande é maior do que dizem. É uma terra de bravos. Como provar que somos essas pessoas de fibra que não fazem jogo sujo? Basta nossa palavra. E nossa história. Portanto, fiquem atentos. São dois jogos à parte. Se os dois times vencerem, torço para que ambas as torcidas enfim encontrem um denominador comum, a paz tão sonhada, nem que seja por uma tarde, no chão conflagrado da nação aos pedaços.

RETORNO - Imagem desta edição: tirei daqui.


EXTRA: ROBIN WILLIAMS CONTRA O BRASIL

Não é a primeira vez que o ator Robin Williams (na foto acima, rodeado de garotinhos) falta com o respeito ao Brasil. Costuma dizer barbaridades, como se tivesse o direito de esculachar o país. Agora ele opôs a sieredade das mulheres americanas, Oprah e a primeira dama Michelle, às "strippers" brasileiras, que teriam sido ofertadas ao Comitê Olimpico Internacional junto com meio quilo de pó.

No fundo, ele se acha uma velha senhora respeitável e deve lamentar não ter um corpinho vagabundo, que lhe permitiria fazer o trotoir. Velho cheirador assumido, o rapaz usa os próprios países baixos como referência. Quando olha seu busanfan no espelho, ele acha que vê o Brasil, mas vê apenas o espetáculo (que deve ser medonho) da sua derrière. Em todos os seus filmes, o cara sempre aparece na sua faina obsessiva, a de fazer sua personalidade fake e freak uma espécie de monumento do show bizz.

Gracioso, costuma subir em mesas e sofás e dar gritinhos. Não fosse o aspecto físico bisonho, irrelevante se não costumasse nos ofender, ele poderia se candidatar a ser uma das strippers que denuncia. Bobalhão.

Diário da Fonte
ABIGEATO



Nei Duclós (*)

As confusões em que nos metemos com a língua portuguesa têm a ver com problemas reais. Desconfio que o trágico desaparecimento do hífen, um acasalamento impróprio de vocábulos não afins, está relacionado com o amontoamento coletivo nas cidades. Não existem mais portões confiáveis, que nos separavam da vizinhança. Hoje há um prolongamento habitacional que é o fim da hifenização urbana, ou seja, da privacidade.

Quando a morte começou a correr risco, no lugar da vida, imagino que houve uma troca substancial de papéis. As pessoas não vivem mais, portanto não correm mais risco de vida. Com milhares de assassinatos, acidentes de trânsito, epidemias, enchentes, furacões, balas perdidas, a morte banalizada às vezes pode perder a parada. É o risco que ela corre de alguém sobreviver.

São tantas as transgressões, especialmente as oficializadas, que sumiu o hábito de discutir soluções gramaticais. O vale-tudo das modificações funciona como agente desagregador, estimulado pelos truques da informática. Não brigo mais com a revisão, mas com o word. Ele completa palavras, destrói frases, insiste em soluções que abomino. Quem inventou essas ferramentas deve ter incorporado o espírito mau dos que fiscalizavam o uso da linguagem para que ela não deslanchasse.

Quando tudo é feito para facilitar, a encrenca é certa. Daqui a pouco eliminam a crase, que é tão sofisticada quanto a lei do impedimento no futebol. Vamos imaginar um jogo de bola que permita a banheira, aquela covardia de atacantes isolados se prevalecendo de goleiros indefesos. Seria tão desastroso quanto não permitir a soma de conceitos (artigo, preposição) na primeira letra do alfabeto.

A marginalização social tem seu representante no abandono de conjugações, como o subjuntivo; de construções elegantes, como a mesóclise; ou de palavras estranhas, como abigeato que, como dizia o velho diretor de redação para os jovens repórteres de vanguarda, “todo mundo sabe que é roubo de gado”. Não significa que devemos nos entregar à heterodoxia excessiva, mas é bom preservar alguns tesouros perdidos, pois assim estaremos promovendo a alteridade, a sustentabilidade, a inclusão, atitudes que estão na moda. Só que, gastas de tanto uso, podem ser empurradas para o mesmo destino do abigeato.

RETORNO - 1. Imagem desta edição: tirei daqui. 2. (*) Crônica publicada nesta terça-feira, dia 1º de dezembro de 2009, no caderno Variedades, do Diário Catarinense.

30 de novembro de 2009

Diário da Fonte
O HERÓI DA LENDA


Nei Duclós

Permaneci muito tempo calado
Antes desta época eu não tinha voz
Agora posso professar o indizível
Costurar o incosturável
Abraçar o espanto, celebrar o sol

Meu trigo selvagem cresce todo dia
Sou convocado por uma insana compulsão
De me expor inteiro para os indiferentes
De publicar memórias em pílulas amargas
E dar pitacos sobre o que nunca entenderei

Deveria deixar tudo a cargo dos experts
Que com expertise comprovariam espertezas
Sem jamais compartilhar suas divindades
Eles poderiam continuar impunes até o final
Formando opiniões como se fossem faraós

Sou o excluído além das teses, a impávida chama
de dizer verdades vindas das estrelas
Tanto lutaram para tanto que aqui estamos
Efeito colateral de um acordo entre facínoras
A mirar no alvo das mentiras elegantes

Somos a luta contra falsos gênios e ladrões do talento
O que eles ostentam, em nós sobrou e virou lixo
Temos algo mais valioso, palavras cultivadas no horizonte
na preguiça ancestral contra religiões de espuma
Somos os fundamentalistas da falta de estilo

Estamos atentos para os crimes contra nosso canto
Se nos proibirem de falar sairemos como rebanhos
soltos no campo a devorar a idade dos tiranos
Pois agora em que somos livres para errar
Não vamos voltar à estupidez das estufas

Queremos ser uma avalanche soterrando o Olimpo
Onde compartilham a ambrosia do silêncio
Enquanto vomitam jargões do ventre da violência
Tão brilhantes que parecem diamantes lapidados
Que formam catedrais onde todos devem ir rezar

Pois sou o herege, o cara mau que invade a cerimônia
Interrompo o sermão bordado a ouro, esse latim finório
Trago o patuá sem brilho, gírias do medo, a dor de ser outro
Sei que jamais vão dizer: eis alguém que mereça ser ouvido
Por isso grito e parto os vitrais com a brutalidade do carisma

Serei esquecido e minha vingança é a minha presença
A que acossa os mandarins, e sobe nas torres de marfim
Sou uma academia de equívocos, antologia de flores duras
Não tenho perfume, apenas a potência do que digo ao coração
Porque tenho um coração, mas dispenso o amor entre as ruínas

Vai, cala meu gesto, me chama do que não deveria ter nascido
Assim mesmo medrarei como plantas em megalópoles tétricas
Atrairei pássaros do deserto, que sobreviveram comendo cactos
Trarei besouros improváveis, lagartos de cal, mortas borboletas
Troféus que ofereço de pé, porque eu sim sou o herói da lenda

RETORNO - Imagem desta edição: Ogro, obra de Ricky Bols.

Diário da Fonte
O CATCHORRINHO


O catchorrinho é um personagem trágico. Não ele em si, mas o que representa. Vamos pegar o exemplo do técnico Andrade, do Flamengo. Por muitos anos ele foi preterido do cargo em favor do catchorrinho. Toda hora pintava a vaga e colocavam Andrade de tampão, mas em seguida o substituíam. Nunca era efetivado no cargo porque a prioridade sempre era para o catchorrinho. Até que um dia caiu a ficha ou faltou opção e no lugar do catchorrinho deixaram Andrade como técnico. Bem, ele é quase campeão. Falta pouco. Assim mesmo, periga ele levantar a taça e voltar ao ostracismo. Alguém vai provar que o mérito é do catchorrinho, que agiu nos bastidores.

Você mesmo deve ter passado por algo semelhante. Alguém no seu trabalho quer saber alguma coisa, num tema que você domina, é especialista. Aí as pessoas ao teu redor começam a perguntar de maneira feérica para a cortina, a janela, a porta e o catchorrinho, jamais fazem a pergunta para ti, pois poderás responder e assim serão desmoralizados, pois as pessoas estão abraçadas, apaixonadas pelas suas duvidas e não dão colher de chá para ninguém. Só para o catchorrinho.

Na políica, então, nem se fala. Poderíamos ter bons candidatos, mas eles sempre são colocados de lado em favor do catchorrinho. Au, au, votem em mim. E as pessoas votam, não há opção. Aí o catchorrinho faz aquele estrago no sofá do país e todos colocam a culpa no povo. Viu? Foi votar no catchorrinho. Isso se repete sempre. O pior é que a corrupção, quando consegue ser flagrada e derruba alguém no Parlamento, quem é o substituto? Claro, ele de novo, o catchorrinho. Ruarr ruarr.

Para não dizer que estou implicando, vou lembrar outros casos. Imagine uma feira do livro inédita em Conceição de Mato Dentro. Enfim os escritores locais, o prefeito conseguem arrancar uma verba preta da publicidade e eis que há uma boa bufunfa para o evento. Quem eles convidam como participante especial? Alguma dúvida? Lá está o catchorrinho dando autógrafos. E isso se repete nas grandes bienais. Só o catchorrinho aparece nas matéria. Aqui estamos na mega plus extra Bienal de São Paulo e vejam quem está ao redor dos seus leitores e fãs? O nosso convidado especial. Diga alguma coisa, vai. Blau blau.

É insuportável como nas provas dos concursos não fazem perguntas pertinentes, como por exemplo “pode-se chamar de ditadura um governo eleito por assembléia constituinte, como aconteceu em 1934?” Eles fazem outra pergunta” Diga porque o catchorrinho fez doutorado em ditadura nos anos 30”. Pobres estudantes.

No noticiário, seja qual for o assunto, jamais chamam os verdadeiros especialistas, os caras que dominam a matéria. Sempre chamam o catchorrinho. “Precisamos criar um circulo virtuoso”, diz o canino. “A qualidade de vida é fundamental. O desenvolvimento sustentável pode muito bem se sustentar. O aquecimento global exige que tunguemos mais verbas”. É ele, o catchorrinho dando entrevista. É que nos ágapes noturnos, encastelados em palácios suntuosos, os donos do poder jogam os restos para alimentar o catchorrinho. É por isso que não temos chance.

RETORNO - Imagem desta edição: tirei daqui.

29 de novembro de 2009

Diário da Fonte
COMO ERRADICAR ABOBRINHAS


Recebo inúmeros e-mails com montes de asneiras. A principal delas é que tudo é culpa dos brasileiros, que se aqui houvesse respeito, seria diferente. Isso se espalha nos textos metidos a políticos, esotéricos, filosóficos etc. Acho que há muita falta de estudo. As pessoas ou não lêem o básico ou passam lotado pelo pouco que lêem. Há uma ansiedade para emitir opinião, quando tudo se resolveria não apenas com o bico calado (economiza energia), mas com uma leitura atenta ao be-a-bá das ciências humanas. Elas estão a mil sempre se renovando, mas a idiotia paira como algo transcendental e metafísico acima de todas as evidências. Proponho alguns princípios, fundados em leituras, para erradicar as abobrinhas

As pessoas não são, por natureza, éticas ou anti-éticas. A ética faz parte da cultura e a cultura não está no sangue nem nos países baixos. Você forma a cidadania nas pessoas que nascem zeradas, por meio de políticas públicas corretas. Não pode deixá-la à mercê da Xuxa, incentivá-lo a ser top model, ou jogá-la nas garras dos marmanjos milionários e depois vir cobrar atitude.

A corrupção não é uma verruga do brasileiro, é uma imposição do sistema para que a sacanagem possa funcionar. Não adianta fazer campanha para mudar a cabeça das pessoas, elas estão amarradas aos seus algozes. Só quando os algozes forem eliminados ou tirados de circulação haverá alguma chance.

Os governantes não são eleitos por nós, eles são impostos por um esquema perverso da política engessada (sem mobilidade). O voto útil, a manipulação das urnas e a mentira sob todos os disfarces são formas de terceirizar a responsabilidade para a massa. A culpa é deles, mas fica sendo nossa.

O Jesus que os fanáticos pregam nas praças e nas portas da nossa casa não existe. É uma contrafação, um personagem para arrecadar dinheiro e os loucos exercerem sua loucura. Jesus é outra coisa, está nos textos do Novo Testamento, lidos com olhos livres, ou à luz da melhor teologia e não sob a peneira da imbecilidade fundamentalista.

As grandes potências são ricas não porque as pessoas que vivam nelas sejam honestas e trabalhadoras, ou pertençam às raças superiores (conceito ainda vigente, apesar de desmoralizado), mas porque um sistema de arrecadação, formatado há séculos por meio de muita guerra e carnificina, tunga os recursos mundiais, que são carreados para as principais praças financeiras do mundo. É por isso e não porque aqui todos queiram levar vantagem em tudo.

A violência é fruto da luta de classes, intensificada pela crueldade do sistema. Não é porque as vítimas mereçam levar ou os direitos humanos só defendam bandidos. Quando não há distribuição de renda, os despossuídos tomam à força. É assim que funciona.

A toda hora alguém me manda um beijo no coração. Já disse que coração não se beija, suja a boca de sangue. Beije o catchorrinho, o cacto, a sarjeta, não o coração. Se tem uma abobrinha recorrente é essa.

Lula comete erros crassos e está levando o país à ruína. Não adianta tapar o sol com a peneira e dizer que tudo nele é muito engraçado. Trata-se de um sujeito sinistro, assim como quem o admira e o apóia. Isso se estende para a maioria dos outros políticos brasileiros, de FHC a Sarney. Eles não são frutos do Zé Povinho, são agentes da tunga internacional, anti-Brasil e anti-povo.

RETORNO - 1.Imagem desta edição: bonde de Santa Teresa, cheia de povo brasileiro dentro. 2. Cesar Benjamin feriu de morte o esforço de transformar Lula num líder messiânico. Foi na hora certa. A história é de autoria do próprio Lula, foi divulgada por Benjamin na Folha e confirmada por Silvio Tendler, que defendeu o presidente dizendo que tudo era piada. O que deixou Tendler furioso foi a declaração de Benjamin de que "não lembrava" do seu nome. Isso é mortal para um marqueteiro. 3. Caiu enfim a ficha. "Descobriram" que a ditadura foi civil-militar. Agora todos podem falar o que digo há anos aqui no DF, pois existe "gancho": o documentário Cidadão Boilesen, sobre o executivo do grupo Ultra que financiou a tortura junto com outros empresários na Operação Bandeirantes.

28 de novembro de 2009

Diário da Fonte
FRASES PARA O PEQUENO COMÉRCIO


Atender um balcão é uma prova de resistência no Brasil. Já tive essa experiência e a instabilidade econômica acena sempre para uma recaída. Como essa é uma atividade que envolve milhões de pessoas, resolvi destacar algumas frases de grande utilidade para criar algum acordo entre quem vende e quem compra.

NÃO TENHO PATRÃO. PORTANTO, SEJA GENTIL

SE EU NÃO TIVER O QUE PROCURAS, NÃO VOU TE EMPURRAR O QUE PRECISO VENDER

JAMAIS DIREI “FIQUE À VONTADE” E SÓ ATENDEREI SE FOR SOLICITADO

NÃO VOU CONVERSAR COM FORNECEDOR NA HORA EM QUE VOCÊ PRECISAR DE ATENÇÃO

NÃO VOU DAR PRIORIDADE À CHAMADA TEELFÔNICA NO MOMENTO DA VENDA

NÃO VOU TE OLHAR COMO SE FOSSES UM INTRUSO INVADINDO MEU ESTABELECIMENTO

JAMAIS DAREI SORRISO FORÇADO.TAMBÉM NÃO VOU FECHAR A CARA

NUNCA VOU PROCURAR TE CONVENCER A LEVAR UM NÚMERO MENOR OU MAIOR

NÃO VOU MANTER PRODUTOS VENCIDOS NA PRATELEIRA

NÃO VOU ENCARAR AS CRÍTICAS COMO UM ATENTADO PESSOAL

DAREI TODA INFORMAÇÃO SOLICITADA, MESMO QUE BENEFICIE OS CONCORRENTES

NÃO MOLHAREI A MÃO DE FISCAIS

NÃO COLOCAREI A CULPA DOS INSUCESSOS NOS OUTROS

NÃO PERMITIREI OLHO GORDO NA PROSPERIDADE

NÃO DEIXAREI DE CUMPRIR PRAZOS, A NÃO SER QUE HAJA ACORDO ENTRE AS PARTES

NÃO VENDEREI PRODUTOS FABRICADOS PARA ESTRAGAR

NÃO INVEJAREI QUEM QUER QUE SEJA EM QUALQUER SITUAÇÃO

NÃO DAREI PASSOS MAIORES DOS QUE AS PERNAS

VOU CORRER RISCOS, MAS COM RESPONSABILIDADE

SEMPRE ME COLOCAREI NA PELE DE QUEM ENTRA PARA COMPRAR

NÃO VOU EXPLORAR FUNCIONÁRIOS NEM PERMITIR FALTA DE RESPEITO

VOU RESERVAR UMA PARTE DOS LUCROS PARA OBRAS SOCIAIS

NÃO VOU ESCORRAÇAR QUEM PEDE FIADO

RETORNO - Imagem desta edição: foto de Daniel Duclós.

27 de novembro de 2009

Diário da Fonte
SEM PALAVRAS







Diário da Fonte
A REALIDADE VISTA PELO AVESSO


Não costumo me atualizar sobre política, pois acredito que tudo vai num tranco só, sem mudar nada. O que me deixa a par do que realmente acontece é a propaganda institucional, tanto do governo quanto dos partidos. É verdade, a desfaçatez é tão grande que eles acabam entregando tudo. Ontem, por exemplo, vi uns trechos do programa do PMDB. É um assombro. Fico sabendo que a soberania nacional está a cargo do PMDB. Claro, se o Nelson Jobim é o Ministro da Defesa, faz sentido. Forças Armadas nem são citadas como protagonistas, já que ocupam lugar subalterno no enfoque adotado pelo partidaço (o partido que deixa o Brasil aos pedaços). Ou seja, ficamos sabendo como as Forças Armadas são tratadas.

Também notei tardiamente que o maior volume de verbas dos ministérios está nas mãos do PMDB. A Previdência, Minas e Energia, a Saúde, é tudo com eles. Assim o PT governa de um lado, deixando uma grande parte do butim na mão da turma. Lá está o ministro do Apagão com gestos de catequista incurável enquanto na Folha, Palméria Doria, ao comentar seu best-seller Honoráveis Bandidos, da Geração Editorial, coloca o dito na lista da “gente da pesada” da turma do presidente do Congresso. No mesmo dia em que o sujeito é denunciado, ele aparece como o grande desenvolvimentista, o ministro dos traques de Tupã no ermo.

As notícias da desfaçatez são generosas. Em Santa Catarina, anunciam mais “36 leitos” nos Hospitais, parece que são uns 15% do que vai ser distribuído no resto do país. Ora, meia dúzia de “leitos”. É preciso mais mil hospitais, mais um milhão de leitos. Basta pegar o dinheiro gasto pelo Lulinha e sua turma num avião da FAB (quanta cara-de-pau!) e jogar na saúde. O que pensam os militares que tiveram de ir para o fundo avião para a tchurma assumir seus lugares? O que pensam os militares, no uso legítimo do serviço, terem de voltar abruptamente dez minutos antes de aterrisar em Brasília, para São Paulo, para pegar o filho do cara-de-pau mor? O que pensam os militares?

O que pensar sobre a corja internacional que o Brasil está reunindo, do fraudador do irã ao decano ditador Kadhafi, de Chavez a Zelaya, contrariando o bom senso e a paz mundial, pois só o Brasil incentiva um louco a usar energia nuclear? O que pensar de uma política exterior que não vai reconhecer as legítimas eleições de Honduras e que mantém numa falsa embaixada (já que não temos representante lá) um sujeito perigoso que tentou dar um golpe via plebiscito? O que pensar desse pesadelo que atrai para cá os piores elementos e tira todo o cacife que acumulamos em séculos de vida e luta, pois temos um território gigantesco reconhecido por todos (por enquanto) graças à coragem e à credibilidade de nossos antepessados, um patrimônio que está sendo esbagaçado pelo atual estágio da ditadura brasileira?

Outro sintoma da defaçatez é a pose de estadista do FHC, que ressurge maquiado de seu personagem favorito, o grande estadista culto que livrou o Brasil da inflação. FHC entregou o país, sucateou o patrimônio da nação, "deu" o que tínhamos de melhor (da Vale para cima), foi beneficiado por uma operação financeira pesada para se reeleger, conforme denuncia de Greg Palast, do The Guardian, num livro que jamais foi comentado na grande imprensa A melhor democracia que o dinheiro pode comprar (só a Cartacapital deu destaque). FHC se apresenta também com o maridão carinhoso que tinha a socióloga ao seu lado, o cara que era “o acompanhante de Ruth”, quando se sabe que a frase “sou apenas o acompanhante de Jackie em Paris” é do John Kennedy. Ambos maridões exemplares, como todo mundo sabe.

Na era dos softwares que tornam toda fuça murcha numa pele de pêssego, em que biografias são maquiadas para a próxima eleição, em que a falta de escrúpulos na política é considerada paradigma, em que temos a opção de votar entre o safado e o sem-vergonha, em que as pessoas morrem na fila do SUS por falta de “leito”, em que qualquer vento ou chuva derruba as casas como se fôssemos os clones daquele porquinho da fábula que tinha sua moradia soprada pelo Lobo Mau, em que, no maior desplante os pré-candidatos se apresentam com a mesma cara lavada falando em educação, saúde e geração de emprego e renda, em que estamos por aqui desses crápulas, precisamos ficar firmes e não nos deixar abater pela desesperança.

Só para encher o saco, vamos ter esperança. Não essa esperança que custa milhões de dinheiro público nas propagandas. Não neles ou no que eles possam fazer de diferente, porque não vão fazer. Mas em nós, os eternos cidadãos despossuídos do Tempo instável. Como dizia o general Giap sobre o Vietnã, “ganha a guerra quem agüenta mais cinco minutos”.

RETORNO – Imagem desta edição: tirei daqui.

26 de novembro de 2009

Diário da Fonte
SOMOS (40 ANOS DE UM POEMA)


Nei Duclós

O cinismo é o nosso destino
a desilusão nosso início
a paz nossa inimiga

Investe quem sobrevive
sorri quem acredita
na vitória tardia
(a única disponível)

Nascemos para ser assassinados
somos uma espécie de fim da tarde

RETORNO - 1. Este poema foi escrito em 1969. Reproduzido em pincel atômico (tinta preta) em cartolina branca, foi exposto nas praças da Alfândega (Porto Alegre), da República (São Paulo) e General Osório (Rio), no mesmo ano, e publicado no Caderno de Sábado do Correio do Povo, de Porto Alegre. Desde 1975, faz parte do meu livro Outubro. São 40 anos de uma profecia. Não queria ter acertado tanto.

2. Imagem desta edição: o assassinato de Edson Luís em maio de 1968. Sobre esse crime escrevi, na época:

CANTO PARA EDSON LUÍS, O MENINO MORTO

Nei Duclós

"Cortinas de grosso veludo
nas janelas do mundo
olhos claros se apagam
com rajadas de chumbo

Foi um corpo que tombou
onde corpos tombam
numa guerra em desassombro:
façam fogo

Enterramos nossa espera
Teu corpo flechado
morreu com ela

Caminhamos cobertos de luto
as facas da dor
abrem sóis no veludo
".

Diário da Fonte
CENSURA À IMPRENSA, CRIME HEDIONDO



A ditadura brasileira achou um caminho “legal” de censurar a imprensa: por meio da Justiça! Assim, faz quase quatro meses que o Estadão está proibido de publicar suas matérias sobre falcatruas de notória família política; o blog Tijoladas do Mosquito, aqui de Floripa, está novamente sob o tacão de decisão judicial que proíbe publicar algumas denúncias; o jornal Já, de Elmar Bones vai à falência porque foi obrigado a pagar indenização milionária por ter feito matéria em 2001 sobre desvio de verba pública no RS, e por aí vai.

Depois falavam que a censura da época “militar” era isso e aquilo. A censura da ditadura é a mesma desde 1964, na marra, mas agora sob o manto da rigorosa punição judicial. Engraçado, soltaram o facínora que acabou matando Tim Lopes; soltam a toda hora bandidos que tomam conta do tráfico e da marginalidade; elementos do mais baixo nível saem pela porta de frente da cadeia; o sujeito dá dois tiros pelas costas da ex-namorada, mata, é julgado, condenado e continua solto. Para tudo tem um jeito, menos para a imprensa. Essa tem que entrar sonoramente pelo cano. Por que acontece isso?

Porque o jornalismo é uma profissão perigosa e foi destruída para, no seu lugar, triunfar o marketing de eventos noticiosos, o dossiê plantado por interesses em jogo, a abobrinha lancinante e recorrente, a suíte eterna, o tatibitati da linguagem em ruínas, a legenda para cego, a má remuneração dos profissionais da imprensa, a celebração das nulidades, o latifúndio de espaço para maus elementos de todos os calibres disfarçados de articulistas. Enquanto isso, grandes jornalistas amargam o ostracismo e a sacanagem impune triunfa e se mantém eternamente no poder.

Sem falar em inúmeros jornalistas assassinados nos grotões. Não se pode fazer jornalismo no país em que tudo se rouba, de merenda escolar a dinheiro para o lixo, conforme constata o trabalho insano e magnífico do Ministério Público. Esses dias vi uma foto em que o sorridente ministro de portentoso tribunal de Contas bebericava junto com um grandalhão da política. Era um ágape, que depois foi esticado para um lounge, resort, ou que sei eu dessas palavras estrangeiras que dominam a vida nacional. Como pode alguém que decide sobre verbas públicas celebrar junto com um político?

Um juiz deveria dar exemplo de ascetismo e não ficar exibindo alegria etílica diante das câmaras. Quem julga os juizes? Quem faz auditoria sobre esses atos de censura à imprensa? Quer dizer que um tribunal tem o poder inconstitucional de calar a imprensa? Se é assim, então retirem o rótulo de democracia de uma vez, porque há muita perda de tempo nesse troço de achar que estamos numa democracia. Se houvesse democracia, teríamos imprensa! E não censura.

Mas você consulta o jornal e lá está a Madona. Liga no noticiário e lá está o ratinho sendo torturado pelos pesquisadores (não suporto mais tanta matéria de saúde). Espera chegar a reportagem e atura tudo que é evento, desde a comilança de polenta e beberança de vinho do santo agapito até a oportunidade de quem tem sangue “puro” ensinar alemão para as crianças, que assim acabam falando português com sotaque. E dele matéria do transito, de como as pessoas perdem tempo dentro dos ônibus e como isso provoca stress. Mientras tanto, a mulher que teve ataque agudo de pancreatitie, em Lages, agonizou por horas a fio na fila do SUS e acabou morrendo. E a matéria tão aguardada é reduzida a cinco milissegundos. A "reportagem" ocupa menos espaço do que a chamada.

Se temos um sistema de saúde seletivo, que escolhe quem vai morrer, e uma Justiça que censura a imprensa, então isso nem mais é ditadura. É o que vem depois dela, quando ela triunfa. Uma espécie de III Reich sem a vitória russa em Stalingrado. Algo como um mundo sem o dia da Vitória na França em 1945. Vivemos num país que recebe ditadores com alegria, com nosso presidente roçando barba a barba e sorrindo levantando os braços. Somos um país que censura a imprensa e joga jornalista no lixo. E que usa os meios de comunicação para difundir mentiras sobre a situação social.

Chega, porra.

RETORNO - Imagem de hoje: o ministro da propaganda do nazismo, Joseph Goebells, olhando para o futuro e pensando: "Eu vou pegar vocês amanhã". Brrr.

25 de novembro de 2009

Diário da Fonte
PALAVRAS FORMATAM UM PARADIGMA


Para trafegar impunemente pela chamada comunicação, é preciso submter-se a um consenso formado pelo círculo de palavras aceitas e que são voláteis, pois quando elas se cristalizam, em seguida outras são jogadas na roda para que os emissores vocabulares possam manter o ar cool e exclusivo de quem forma opinião. Como cansei dessa turma, vou elencar algumas palavras que, me parecem, fazem parte do atual paradigma.

FORTEMENTE - Serve para cimentar opiniões quebradiças. Se você diz que Lula está fortemente implementando uma política externa independente, você mascara a realidade, pois a política externa independente faz parte do Brasil desde San Tiago Dantas, com antecedentes ilustres, como o Barão do Rio Branco, que aumentou o território nacional sem disparar sua cartucheira, apenas na base da negociação e da firmeza. Só que na época ninguém dizia que o velho Barão estava fortemente viabilizando o Brasil. Ele estava e pronto, sem advérbios.

FERRAMENTA – Não se trata de foice e martelo, nem de serra. Ferramenta é tudo o que brilha no escuro e serve para você dizer que se trata de uma ferramenta. O word, por exemplo, ou o Google. Também são ferramentas o just-in-time, a qualidade total, a terceirização, entre outros exemplares da tralha corporativa. Você pode estar na maior pindura, sem perspectivas, cheio de dívidas, mas se disser que usa as ferramentas adequadas talvez alguém acredite e te pague uns pilas por você estar tão up-to-date.

PERRENGUE E MARRENTO – Essa dupla siamesa já está em descendo na moda, mas pode ser citada como ferramenta para expressar o ar blasé de quem está por dentro. Se você, por exemplo, produz um filme com alguém marrento, dá o maior perrengue. E se você armar um perrengue vão fortemente te chamar de marrento. É simples.

POLÊMICO - Você pode cometer as maiores barbaridades, mas desde que tenha grana ou acesso ao cofre, o que dá mesma, você será um cara polêmico. Matou cinco revoltosos que protestavam contra as eleições fraudadas? Você é polêmico. Negou o holocausto, condena a existência de homossexuais e diz que seu programa nuclear é um trem sem freios? Polêmico, polêmico. Não é ditador, nem oportunista, nem psicopata. É um cara polêmico, entende? Colocou a bola com a mão para dentro do gol? Vai ser polêmico assim na final da copa de 98. E já vou avisando: Platini, nós vamos te pegar!

SINERGIA, CONVERGÊNCIA E PARADIGMA – Sinergia é o que acontece no apagão, quando todas as linhas de transmissão entram em colapso porque Tupã deu um traque na selva. Convergência é a identificação de propósitos e objetivos como acontece atualmente entre o Grêmio e o Flamengo. E paradigma é quando você não tem nada o que fazer e inventa um paradigma. É assim que funciona.

RETORNO - Imagem desta edição: o time do Grêmio em 1957, quando era outro o paradigma, e ninguém era marrento nem provocava perrengue. No centro, abaixado, o uruguaianense Gessi, que fez um monte de gols no estádio da Bombonera, entre outros feitos, o cracaço que virou dentista aos 26 anos e nunca mais jogou. Isso sim é que é ser polêmico.

24 de novembro de 2009

Diário da Fonte
PARECE MENTIRA


Nei Duclós

As melhores histórias são as que fogem do rema-rema diário. O fabuloso existia em qualquer cidade, quando figuras populares encantavam platéias narrando aventuras que trafegavam entre o assombro e a gargalhada. Como aquela, mais tarde reunida em livro, do sujeito que afiou uma moeda de um cruzeiro numa pedra lisa, colocou-a num bodoque e lançou-a em direção a doze pombas que estavam postadas num só fio. Todas fora degoladas. Ninguém acreditava, mas todos escutavam até o fim.

Essa linhagem era muito considerada nos ermos do Brasil profundo. Os autores tinham nomes folclóricos. Conheci um Oscar Mentira, que matou um capincho a remadas na época de seca. Há o Candinho Bicharedo, imortal personagem de Urbano Lago Vilela, colecionador e criador de preciosidades. Hoje, quando todos batem no peito jurando dizer a verdade, nunca se mentiu tanto. Perdeu-se o visgo da ficção dos antigos contadores. Num lugar de longo inverno, fogão a lenha, gente amontoada em galpões ou acomodada em salas generosas regadas a chimarrão ou vinho, eles confortavam os ouvintes, dando-lhes guarida num mundo hostil e sem imaginação.

Recentemente perdemos um contador de “causos” de supremo talento, o cineasta maior Anselmo Duarte. Ficaram célebres suas histórias, difundidas primeiro no antigo Pasquim e depois em várias entrevistas. A que mais me emocionou foi quando, celebrado como o vencedor da Palma de Ouro de Cannes em 1962 pela sua obra-prima “O Pagador de Promessas”, ele foi levado aos estúdios da Universal em Hollywood. Lá encontrou, logo na entrada, servindo de porteiro, um antigo cineasta que no Brasil tinha lhe dado lições valiosas.

Antes de assinar contrato com os americanos, Anselmo Duarte exigiu que contratassem o velho guru como seu assistente. Os executivos ficaram chocados: como um gênio poderia ter sido aluno do porteiro do estúdio?

A história, absolutamente verdadeira, parece até mentira nos dias que correm, pois ninguém abre mão de uma carreira internacional só para prestar homenagem a um amigo. Só mesmo um brasileiro, o cidadão que tem na alma a grandeza dos heróis antigos, os que eram protagonistas de sagas que ficaram na memória dos povos. Eles eram a prova de que somos maiores do que as gavetas onde a mediocridade tenta nos enquadrar.


RETORNO – 1. (*) Crônica publicada nesta terça-feira, dia 24 de novembro de 2009, no caderno Variedades, do Diário Catarinense. Imagem de hoje: Anselmo Duarte e Ilka Soares, ao lado do então prefeito de Salto, Vicente Scivittaro, no dia da inauguração do Parque Infantil, 1º/05/1953 (arquivo pessoal de Ettore Liberalesso). Tirei daqui. Eu tinha a idade dessas crianças quje aparecem na foto e um dos meu ídolos era Anselmo Duarte.

23 de novembro de 2009

Diário da Fonte
O JORNALISMO EDIFICANTE


Todos lembram como surgiu o jornalismo edificante. Com o bordão “isto é uma vergonha”, que de tão repetido, caiu no vazio. Tudo continuou uma vergonha e ficou por isso mesmo. Mas a ditadura precisa desse tom de ninar o Papa, desse lento caminhar ongueiro reportando bufunfas desviadas dos recursos públicos para cacifar a defesa das tartarugas, a importância fundamental da capoeira ou da sustentabilidade do mico leão dourado (se fosse mico leão negão não causava tanto frisson entre os gringos).

A tal sustentabilidade levou ontem Sting e Raoni a um show em São Paulo, onde todos aplaudiram a necessidade de salvar a Amazônia, que continua firme sendo desmatada. Aliás, para isso existem as campanhas, para manter ativa a devastação da selva, pois assim a destruição continua mas o público fica confortado pelas boas intenções das figuras carimbadas.

O tsk tsk tsk permanente de apresentadores e repórteres nos levam sempre para as imagens maquiadas das ruínas. O bairro está morto, sujo, podre, dá para ver em qualquer detalhe. Mas se o morador vestir uma camiseta com mensagem edificante, tudo se ilumina. As pessoas reunidas em frente às câmaras são flagradas mudas naquele instante que antecede a falsa reportagem. A uma ordem, todos então entoam em uníssono alguma coisa para ficar na História, manifestam sua alegria em ser pobre, de estar condenado mas assim mesmo resiste porque é brasileiro e não desiste nunca.

Mas como não se pode mal acostumar “essa gente” (que significa classes despossuídas), então chega a vez dos comentaristas ferozes do jornalismo edificante, os que babam simplesmente na gravata insurgindo-se contra o câncer ou os que usam o tom admoestador e advertinte catequista, que lembram a todos que a democracia é uma concessão que pode ser retirada se não se comportarem direito. Por enquanto vai algumas palmadas-frases, mas daqui a pouco vem chumbo grosso, cuidado.

Tudo isso acontece porque o monopólio não cede, a distribuição de renda é uma campanha publicitária e nada é feito pela nação aos pedaços. Vejam os marmanjos se rebentando no final do jogo, as crianças sendo mortas a tiros em brigas pífias de trânsito, os assassinos hediondos recebendo benefícios da justiça, as cadeias sem condições de higiene nem para porcos. Tudo isso convive ou é fruto de uma política que se arma para a grande disputa do butim federal em 2010, o vale-tudo da desfaçatez e da falta de escrúpulos, quando teremos a liberdade de escolher entre mal encarados mentirosos, corruptos sorridentes, idiotas destemperados e vagabundos fazendo pose de estadistas.

Esse ambiente hostil ao raciocínio, à sensibilidade, à cultura e à inteligência precisa do jornalismo edificante, que é seletivo e invasivo. Eles te olham bem fundo nas fuças e mentem deslavadamente ou expressam abobrinhas inomináveis embaladas no papel celofane da correção absoluta. Nenhuma migalha de realidade. O país afunda com qualquer chuva, os ventos varrem as cidades sem que nunca ninguém pense em como redirecionar os projetos de construção, como implantar políticas públicas de urbanização que leve em conta as novas manifestações da fúria do clima. Tudo fica ao deus dará, como se estivéssemos em terra de ninguém, onde prevalece o improviso e a incúria.

Mas não se desespere. Basta ligar a televisão ou abrir o jornal para ver os articulistas do Bem, os editorialistas do óbvio, as gracinhas dos direitos, os eventos étnicos e outros exemplares da tralha da idiotia que nos domina. Fazem de tudo para você se sentir à vontade enquanto a população consome comida industrial suspeita, eletrodomésticos de última categoria e móveis que se autodestroem no final da prestações. “Perdi tudo” diz a cidadania ferida de morte para seguradores de microfone do jornalismo edificante.

É verdade. Perdemos tudo, principalmente a capacidade de reagir a essa infâmia geral no país sem soberania.

RETORNO – Imagem de hoje, um exemplo de “sustentabilidade”, tirei daqui.

22 de novembro de 2009

Diário da Fonte
TRANGRESSÃO E MORALIDADE NO CINEMA


Vi Les Hauts Murs (Entre os Muros da Prisão, 2008), de Christian Faure, filme baseado no livro homônimo e autobiográfico de Auguste Le Breton, o órfão de guerra (o pai, palhaço, morreu em 1915, quando ele, Auguste, tinha dois anos) que do reformatório foi jogado nas ruas de Paris, onde aprendeu tudo. O que o salvou foi a Segunda Guerra, quando era uma pedra no sapato da Gestapo da ocupação alemã na França (e por isso em 1945 foi condecorado). É de Le Breton a série de novelas com a marca Rififi, adotada depois do megasucesso "Rififi Chez Les Hommes", que ninguém queria filmar até chegar Jules Dassin, expulso dos Estados Unidos pelo macartismo, e fazer da história um filme memorável.

Por que este filme, o Hauts Murs, muito bem realizado, é um anacronismo? Poderia ter sido feito nos anos 30, quando se passa a história do garoto fujão que enfrenta a repressão e a brutalidade de uma prisão para menores, vendida para a sociedade como uma escola de correção. É, inclusive, de propósito, a adoção do cenário, do clima e até mesmo da interpretação dos atores. Tudo lembra o cinema clássico francês, especialmente os de Jean Vigo em "Zéro de conduite", René Clair em "A nous la liberté", e Marcel Carné em Cais de Sombras. Mas por que o anacronismo hoje? Vamos relevar o fato, importante, de os cineastas homenagearem Vigo, Clair, Carné ou Le Breton, glórias da cultura francesa. O foco deste comentário é a sobrevivência de um tipo de enfoque sobre a transgressão.

A tradição aponta para filmes como o próprio Rififi, em que existe um código de ética entre os bandidos. E vimos isso em Inimigos Públicos, em que Dillinger é apresentado como um herói charmoso. Diferente, claro, das injustiças sofridas pelo personagem menino na prisão de Hauts Murs. Mas ambos os casos nos remetem a um fato: será que já não dobrou o cabo da Boa Esperança a abordagem recorrente e canônica de que os transgressores são inocentes ou vítimas do sistema e que por isso se justifica sua reação, o crime (no caso do garoto, o furto, no de Dillinger, o assassinato e o roubo a mão armada)?. Havia um tempo em que a platéia torcia pela transgressão, pois esta estava calçada num conjunto de valores e princípios.

A vítima tinha sofrido uma injustiça, a orfandade, o abandono dos pais, a prepotência dos adultos, a pobreza, a marginalização, e partia então para a vingança. Era flagrado e ia para uma instituição brutal, injusta, sempre com um algoz lapidar, desses vilões que dirigem os cárceres e se transformaram, na literatura e no cinema, em paradigmas do Mal (em contraposição aos humanos seres dentro das celas). O Bem estão migrava para o encarcerado e sua reação era punida com a morte, o que arrancava lágrimas do público. Todos se emocionavam com a saga que, forçosamente, não poderia dar certo, pois a censura no cinema sempre foi pesada e não se podia simplesmente eleger o vício como virtude, mesmo que todos saibam que esses conceitos muitas vezes se misturam. Mas a armadilha funcionava e enchia as salas de multidões que se identificavam com as vítimas.

Mas aos poucos os transgressores acabaram vencendo em vários filmes. Lembramos como os bandidos acabam indo mesmo para o Rio (deveriam ir para Washington, terra de assassinos, mas eles preferem, claro, o Rio de Janeiro, capital do Brasil soberano, que virou Meca da impunidade no imaginário mundial), ou para o México (que no cinema americano, é a mesma coisa que o Rio ou o Caribe), junto com mocinhas esplendorosas. Há o caso de Um sonho de liberdade, em que Tim Roibbins e Morgan Freeman conseguem fugir da prisão e vão viver juntos, felizes para sempre, numa praia longínqua, em algum lugar do “planeta” (tudo o que é fora das fronteiras americanas é o planeta, terra de ninguém).

No caso de Hautes Murs, não há o que discutir: os órfãos dos soldados da guerra são tratados com violência e merecem mesmo reagir, fugir. No caso de Tim Robbins, quem resiste ao charme do fujão genial que, preso por uma injustiça, bola por vinte anos uma rota para ele e seu grande amor escapar das paredes que impedem o relacionamento proibido? Dillinger, de Inimigos Públicos, já vai mais longe, pois o psicopata é absolvido por seus problemas psicológicos e sociais. A transgressão assim migra para a moralidade e alimenta a indústria de espetáculos.

O sistema prisional continua bruto e injusto e não é reformulado, pelo menos no Brasil, porque não interessa e dá preguiça e também porque faz parte do fosso entre as classes sociais. Bandidos de colarinho branco vivem em iates e jatinhos enquanto a massa despossuída apodrece nos porões da ditadura sem fim. Uma abordagem adulta é a de Carandiru , de Hector Babenco, que faz a denúncia mas não endeusa os prisioneiros. O que já fez água é insistência de apresentar assassino como mocinho e presidiário como alguém com direito à liberdade. Pode não ter esse direito. Isso não significa que mereça ser punido de maneira torpe, com cadeia imunda e corrupta.

Ninguém deseja cadeia para quem quer que seja. Ou pena de morte. O que se discute aqui é o vício de apresentar o criminoso como herói. Hoje, sabemos, com tanto crime à solta, que não se sustenta mais manter o mesmo enfoque. Talvez por isso se lance mão do anacronismo, pois assim funciona o velho esquema de confinar a virtude pra que ela escape e denuncie a opressão. Esse recado já foi dado. Agora é a vez de fundir a cuca para encontrar novas soluções de roteiro. Ou daqui a pouco teremos traficante perigoso sendo apresentado como gente bem. Já existe alguns antecedentes.

O assassino italiano acobertado no Brasil é um deles. O matador venezuelano Chacal, que curte uma prisão perpétua na França, está sendo defendido por Chavez. Sem falar no inglês que roubou milhões e fugiu para o Brasil e só quando estava agonizando decidiu voltar. O ladrão se refugia no Rio, mas na hora da morte se entrega nos braços da sua velha Albion. Como dizia Martin Fierro: “Infierno por infierno, prefiro el de la frontera”.

RETORNO - Imagem desta edição: cena de "Hauts Murs" - os bandidos são os carcereiros.

21 de novembro de 2009

Diário da Fonte
CAIXA CORAL


Nei Duclós

Adiei o mundo que no escuro
preparava o bote – coral na caixa
preta do destino

Sem descobrir
o código – cobertor de ruído
sobre o túnel –
acordei diante do trem
em direção ao corpo
preso na ferrugem

Nenhum desvio
salvou-me do som
despedaçado do violino
Adeus dos outros,
feito pão mofado
na mesa posta de um cortiço

Acolheu-me a musa
no lado oposto à vida
com o olhar mortiço
para quem ficou encarando
a minha sorte

Ela escolhe e fisga o coração
de quem não morre
Para o resto – o inconformismo
em mar de inveja repulsivo –
ela tem o olhar que petrifica

Fósseis na mira da Medusa
fogem do Tempo, rosto final
do Medo, que assoma
como surda carruagem

Enquanto somem, a seiva
interminável cobre o sonho
que guardei no bolso
Carne oferecida à eternidade

RETORNO - 1. Poema do livro (ainda) inédito Partimos de Manhã. 2. Imagem desta edição: Homemarvore, de Ricky Bols.