20 de julho de 2018

NO COMANDO

Nei Duclós


Preferi ficar quando todos se foram
A lua é a mesma em qualquer lugar
Há céu no remoto porto
ilhas que os vulcões revelam
E por todo lado há mar

Não quer dizer que restei na espera
Estou no comando, atento
Atraio, na distante Andrômeda
o coração da terra em movimento



URGÊNCIA

Nei Duclós


Passa da hora em que a obra informal da tua palavra
precisa de um mínimo contorno, nem carece ficar pronta

Porque estamos em guerra
e a poesia é a porta de emergência
Onde se concentram a cirurgia e outros procedimentos
Que precisam do verso para enxugar o suor que manipula o bisturi
E haja sonoridade, e portanto clareza
para fluir o sangue nos dutos certos

E não apenas o verso
mas a estrofe que gruda na memória
quando o paciente apaga
Para que possa se acordar com a cura pousando na janela
Enquanto os anjos recitam o poema inteiro
E repercuta nos gestos como um molejo
Que exercita as articulações do resgatado e doloroso movimento

Passa da hora porque urge a fila dos ferimentos
E o que compões em silêncio em meio ao alarido
pode fazer a diferença



18 de julho de 2018

NA GRUTA

Nei Duclós


A lógica perversa contamina até mesmo seu antídoto
De qualquer lado as palavras são serpentes
Mentes como cestas de vime
que guardam presas traiçoeiras

Só a vocação bem resolvida
num ofício que atinja a maestria
poderá nos tirar da gruta

O mergulho incide no ninho
onde guardamos a inocência
É preciso atingir a saída
para o sol que nunca vemos



SOPRO DE FRENTE


Nei Duclós

Quando canso de pensar, faço o poema
Nã por ser obscuro ou obsceno
Que se alinhe ao vinho ou ao feno
Ou tenha preguiça e quer se recolher

Mas porque nele a palavra se apruma
Respira fundo antes das palestras
Faz exercício para entrar em cena
Escolhe o destino do verso perfeito

Esvazio a mente para que o verbo
Encontre ambiente ao levantar âncora
Navega, meu canto, no mar da poesia
Sopra de frente na rosa dos ventos



RETORNO -  Do ebook PALAVRA NA PEDRA, de Nei Duclós, Edição do Autor, 2017

FRUTAS TEMPORÃS

Nei Duclós


Frutas temporãs vem de outra dimensão
De árvores gêmeas às suas, de bizarras estações
De pomares que os deuses cultivam
em canteiros imaginários

Elas escapam por túneis quânticos
E surgem penduradas nos galhos mais altos
Inacessíveis às colheitas humanas

São traídas pelo amarelo ocre do seu amadurecimento
E se destacam em meio às folhas verdes e flores brancas

Trazem sabores ocultos, gomos da infância
Pois não sofrem o ataque dos venenos
Elas são orgânicas e matam a sede cíclica de gerações



16 de julho de 2018

BRISA E VENTANIA

Nei Duclós


Brisa é vento mulher
Namora os ventos alísios
Um de cada vez

Estufam velas de pano
Combinam viagens de mar
Trocam beijos no convés


BELEZA INSONDÁVEL

Nei Duclós


Gostei do teu rosto triste
Que nada promete
E me desconhece

Os olhos de um fogo remoto
Menos para ver e mais para serem vistos
E teus cabelos num tom de espera
Em atitude lisa, meio arisca

Não quero decifrar teu mistério
De foro íntimo
Nem ficar na superfície
Toda imagem é completa pelo que sugere
Ou esconde, explícita

Também não ouso feri-la
Com minha pobre fantasia
Sou o que passa e vê sem compromisso
O que expões, profunda, por desconhecer o caminho
Que poderia preservar tua beleza
Insondável, submarina



14 de julho de 2018

RARA

Nei Duclós 


Foi descoberta recentemente
uma planta rara
de onde germina
a flor mais bela

De todas as existentes
perenes, provisórias
Entre tantas pintadas, cantadas, esculpidas
narradas em amores literários
Esta se destaca

Por concentrar o que em potes se conserva
E o que se perde em momentos sem memória
Ela surge, sem a pompa da vitória régia
Ou a flacidez das homenagens

Viva e frágil
Cuidai para não matá-la de inveja



LANCE

Nei Duclós


Não se aproxime, dizemos para quem se afasta
Teu adeus me arrasta para perto do crime
Fuja sem me levar junto na bagagem
A viagem termina quando viro as costas

O último olhar é o amor sem volta
Por isso embarque antes que eu te alcance
Não dê chance ao corpo que diz a palavra
Capaz de lembrar o lance mais extremo
O abraço fundo que a solidão derrota



12 de julho de 2018

RESUMO

Nei Duclós


Não há roupa que me sirva
Nem refeição que me agrade
Nem morada que me abrigue
Nem conheço uma cidade
Onde possa ter vivido
Sem remorso nem saudade

Assumo o chão que imagino
Ser de fato minha coragem
Corpo impuro de campanha
Banho de luz amarga
Nação nascida no pulso
Flor com força de vontade



CONTORNO

Nei Duclós


Aumentaste a distância
Periga voltarmos ao início
pois tudo o que se afasta, contorna

Cuide para não cair na armadilha
se é que procuras a ruptura

Talvez queiras o retorno
mas sem o empecilho da memória
Esquecer para que prevaleça
o que nunca morre

Desista, flor do desperdício



SEM ABRIGO

Nei Duclós


Cada momento tem sua companhia
Um amor, um cão, um amigo
A solidão faz parte do convívio
Somos um tempo enorme sem abrigo

Nos vemos por meio de filtros
Melhores do que somos ao vivo
Você é tão linda, eu sou convicto
Mais tarde marcaremos encontro

O inverno avança enquanto isso
Sentimos medo porque não sabemos
O que de fato foi perdido

Em cada minuto dobra o sino
Você me encanta, eu te assusto
Sinta minha mão, madeira fria
Temos um coração, peregrina



9 de julho de 2018

MAIS NADA

Nei Duclós


Bons sentimentos não fazem um poema
Não se sinta bem com versos corretos
É tudo lixo, assim como a crueldade

Poesia é só palavra e mais nada
A mais sólida solitária da manada
A que fica antes do estouro e investe sem propósito

Guarde seu bom coração
ou a sede de vingança
Para fora das estrofes
O desafio é deslocar o eixo
Sem perder o prumo

Saber o rumo que a humanidade joga fora



MIGRANTES

Nei Duclós


Crescer é ver tudo pequeno
Os monumentos, o destino humano
Os ídolos rolam no barro
O tempo nos torna gigantes

Mas não grande coisa
Somos idênticos ao que descobrimos
Vida sem brilho, amor só de ontem

Desapegamos, num treinamento estranho
Iremos para onde, grãos sem serventia?

Para qual olimpíada nos preparamos
A correr em círculos, a levantar peso?

Por muito menos as aves não perguntam
Fazem seus ninhos, viram migrantes

Elas reúnem forças
Vivem o momento, cruzam o oceano



8 de julho de 2018

DE NOITE

Nei Duclós


A noite abafa o campo
mas não o som do inseto e o puma
O brilho verde como dois vagalumes
Cercam o rosnado que avança

E estás só na casa isolada pela herança
Enquanto a onça pisa o charco na cerca próxima

Tens uma arma que não usas
Teu celular está mudo e não é só medo
Mas pavor que a solidão apronte
Antes do amanhecer

Tua horta sente frio sobre as verduras
e a pata da criatura se aproxima

De repente se afasta a nuvem
e esplende a lua cheia de pólvora

Tu e o bicho então flagrados pela aventura
Dividem a varanda iluminada como a escuridão
quando alguém acende um fósforo



6 de julho de 2018

ÁGUA NO PEITO

Nei Duclós


É cedo para dizer
se essa arte provocará
efeito
encontrando gerações lá adiante
quando houver cansaço deste tempo

Talvez recolham os luminosos restos
do que agora fazemos sem noção da sombra
que nos aperta sempre
sol que implode lento

Ou nos esquecerão, falsos herdeiros
satisfeitos com o que perderam, fogo extinto

Se souberem que não importa a estação
mas os seus frutos
bastará para a roda reencontrar seu eixo:

Este poema que não fiz direito
mas que me consumiu, água no peito
de um rio que alimentou a infância
e deságua no rosto frio do nosso esforço




ESTREITO

Nei Duclós


O que você rejeita
por estar ocupado
Um dia cobra a conta
e descobres o pecado

Aceite o que não cabe
no dia sem espaço
No fim tudo se ajeita
no estreito corpo amargo


RUÍDOS

Nei Duclós


Passei a vida fora do circuito
Achando que vivia, mas era o esquecido
Hoje quando vejo os que partiram
de todos os lugares onde estive
Pergunto o que eu fazia nesta vida triste
Enquanto festejavam a mesa dos momentos

Talvez eu não enxergue o material do mundo
E fiquei dando voltas na periferia
Procurando a palavra para marcar o tempo
Mas ele era o rebanho situado além da cerca

Meu pai me levou para caçar perdizes
Remou no barco até os confins do mato
Fisgar dourado na remota corredeira
Só que eu me perdi na longa trilha
Na linhada que sofre a solidão da espera

Fiquei para trás a escutar ruídos
Que o mistério faz entre o chão e a estrela



4 de julho de 2018

ADEUS ANTES DA AURORA

Nei Duclós


Paguei o preço desse amor que a vida jogou fora
Drama previsível, adeus antes da aurora

Rima pobre de almas em rodízio
A dividir os corpos, capítulos invisíveis
de um tempo ainda verde, o sonho de um mistério

Dormi na vigília e esqueci o deus desperto
Numa cama de nuvens, diálogos sem dança

Reencontrei mais tarde o que me dava sorte
Tinhamos a música, âncora da glória

Lembramos porque havia nos restos da esperança
O brilho dos teus olhos
cobrindo minha vergonha



VER DO CAIS

Nei Duclós


Aves não são a paisagem
Mas asas, olhar vazado

Enxergam o que não vê
o turista grudado
no contorno do cais

Pássaros ao mar
se despedem
Vozes de pura água



ENSINO SEM QUERER


Nei Duclós


Ensino sem querer
o que aprendo com esforço
Busco o conhecimento
que a todos serve na mesma mesa
Alunos e professores em rodízio do alimento
e suas sobras e raízes

É assim, bruto e claro
ao redor da fogueira
como num acampamento
que dividimos o pão, milagre diário
farinha e fermento


2 de julho de 2018

IMPÉRIO

Nei Duclós


A poesia despe o discurso
e revela a dimensão do monstro
Mostra que se negocia quando parece debate
A força bruta decidindo tudo
E as necessidades dos poderes em prontidão

Combustíveis e palavras fósseis
Águas cercadas, saídas para o mar
Ar que ninguém respira
Em acordos provisórios e conflitos definitivos

A História aliada à política busca uma solução em mapas mutantes
Sem atentar para a morte e o sangue
Barcos de migração expulsos nas brigas por territórios
Invasões práticas e utopias obsoletas
Enquanto a poesia observa tentando desarmar a bomba posta no trilho
E se escuta o comboio cheio de gente e bicho em extinção
cada vez mais próximo

O que poderá o artífice com sua escultura
em praças tomadas pelas tropas da sólida argumentação
da dor e do silêncio?

Basta ao poeta a lucidez sem volta que queima navios
e avança em direção ao coração do Império



ÁCIDO PERFUME

Nei Duclós


Faltou doçura para encerrar o dia
Deitamos por hábito num piso de espinhos
Um ácido perfume oculta a lua

Não te localizo
Estás nas nuvens, a espreitar cardumes
Sinto vibrar o corpo em mergulho

Tudo está tenso e submerso
à espera de uma estrela
que aflore por força do vulcão que cultivamos
no núcleo da galáxia extrema



1 de julho de 2018

A QUEDA, EM MAD MEN

Nei Duclós


A abertura visual, com os créditos, da série Mad Men incorpora a mesma sequência de imagens do início de Vertigo, de Hitchcock. É a queda, a derrocada, o mergulho sobre o abismo.

O gênio da criação publicitária, ao atingir o topo do sucesso, perde familia, amores, carreira, clientes. Os executivos rodam sucessivamente para baixo enquanto as agências os enganam com falsas promoções. "Mais um cargo desses e vamos atender telefones", diz um deles.

Os clientes também experimentam a derrocada. Mudanças radicais dos anos 60 deixam desarvorada a velha geração, que vê seus herdeiros perderem o que foi acumulado.

Tudo se dirige para o ralo. O sucesso leva ao fracasso. Cada fase da queda é pontuada por filmes famosos, desde It's a wonderfull life, de Capra, a Godzilla, dos filmes românticos aos documentários políticos, do filme noir aos dramas familiares.

Uma narrativa primorosa, uma obra prima. Sem tiros, nem perseguição de automóveis, com detalhes sutis desmascarando os comportamentos e diálogos brilhantes e precisos, sem pretensão nem artificialismo.



30 de junho de 2018

COURAÇA

Nei Duclós


Mostrei o poema que do frio se abriga
(da indiferença que inaugura escola)
Ele não gostou da ferida exposta
(seu amor, ultrapassada criatura)

Temia o deboche dos vícios da vanguarda
Ou a imitação barata de rimas a galope
O que preferia era a ciência exata
Crua arquitetura de múltipla couraça
Caixa de ressonância de jóias sem grife
Sangue que circula em nós, e isso basta



TENHO ENCOMENDA

Nei Duclós


Não perco mais tempo, faço poesia
Abandonei o eito para os predadores
Espantalho feito de palha e panos
Exibo a gargalhada dos loucos de circo

Quando te aproximas por algum engano
Escutas o mármore sob o cinzel tirano
Vês que uma deusa assume os contornos
Ao som de flautas e cantos gregorianos

Sou eu, artesão sem nenhum aprumo
Focado no fogo do ofício insano
Tenho encomenda a partir dos anos
Em que me dedico à arte sem retorno



29 de junho de 2018

RECESSO

Nei Duclós


Uma parte da safra se perde
Muita palavra tira pedaço
Corta a navalha um risco no rosto
Amarga conversa se impõe como um jogo

Onde guardar a melhor recompensa
O amor que excede em tontos contornos
Qual a esperança que nasce da treva
Quem poderá surpreender um encontro?

Vimos de longe, de um tempo adverso
Somos marcados nos corpos em brasa
Falta confiança nos passos reunidos
Em torno de um fogo ainda em recesso



ANDORINHA NA MONTANHA

Nei Duclós


Enfim este amor repousa
Não te cobra retornos a horas tantas
Podes exercer a tua liderança
Sem a sombra de uma agenda

Fomos sinceros
Mas quem diz que prendo
O que parecia ser pomba
Pelo arrulho e plumas na garganta
E era apenas o oposto

Uma andorinha que inventa o voo
Pandorga na montanha
Na ponta de uma corda
Que a conduz pelo indecifrado cosmo



28 de junho de 2018

OFERTÓRIO

Nei Duclós


Serão versos antigos
os que ficarão comigo
Dirão: já foram lidos
pertencem ao passado
Eu estarei contrito em modo de ofertório
Recitando talvez o que não foi escrito

Na areia onde existir o mudo sacerdócio
não haverá lembrança do que manteve viva
a página do livro, a fala em rosto imóvel

Será só a estrita comunhão de um rito
Que dividirei com os anjos e os mendigos
Serão os versos livres da concentração mesquinha
Gotas do oceano, flores de um abismo



27 de junho de 2018

DUAS PONTAS

N ei Duclós


A vida começa cedo
todos os dias

Moço ou antigo
A hora do fim é segredo

Cada aceno pode virar
despedida

O tempo puxa o freio
Ou finca a espora