7 de novembro de 2009

Diário da Fonte
ANSELMO DUARTE: HISTÓRIAS LAPIDARES


Morreu Anselmo Duarte, o ator e diretor que honra o cinema brasileiro e a nação que ele ajudou a inventar. É tarde demais para homenagens, depois que seu filho Ricardo Duarte anunciou sua morte neste sábado. Já escrevi sobre Anselmo algumas vezes, como neste texto sobre sua obra-oprima, "O Pagador de Promessas", e neste sobre o trabalho de Wendel Martins, da UFSC. O que nos resta é resgatar algumas de suas histórias lapidares. Selecionei duas, tiradas daqui, que nos trazem um pouco do que perdemos agora e que nos fará falta sempre.

METEORO EM HOLLYWOOD

"Eu estive em Hollywood. Fui levado pelo presidente e o vice-presidente da Universal. Eu tinha ganhado cinco festivais internacionais e os americanos pegam diretores assim e levam para lá. Iam fazer isso comigo. Não que eu não quisesse. Quer fazer, faça. Iam pagar em dólar. Mas é que eu briguei antes do tempo, antes de receber o primeiro salário. O presidente e o vice-presidente da Universal me colocaram numa limusine que parecia um ônibus e fui conhecer os estúdios da Universal. Chegando lá, eu vi aquele portão largo, de ferro, muito alto, trabalhado, escrito Universal Pictures em cima. Quando eu estava entrando, olhei para o porteiro, fardado, de quepe, um coitado de um velho, que abriu a porta. Eu passei rente a ele e levei um susto quando vi a cara dele. Gritei: “Stop! Stop the car! Stop!” O carro parou, eu abri a porta e saltei. Cheguei pro porteiro e falei: “Bernoudy, como vai você?” Ele foi meu diretor na Atlântida! O Luís Severiano Ribeiro, grande exibidor do Rio, quando comprou a Atlântida, contratou o Bernoudy, que era produtor em Hollywood, para vir melhorar a Atlântida. Ele veio pro Rio, trabalhou, organizou a Atlântida. Dirigiu meu primeiro filme lá, Terra violenta. Ed (Edmond) Bernoudy adorava o Brasil, adorava o Rio. Ficou dois anos no Rio, já falava português. Foi assistente do John Ford. Era um bom diretor. Eu conversava muito com ele, aprendi muito com ele. E aí eu o vejo de farda e de quepe na porta da Universal. Eu saltei e perguntei: “Mas o que é que você está fazendo com essa farda aqui?” Meu professor, meu diretor, mas que coisa! A essa altura ele já estava com uns 80 anos. Eu tirei o quepe dele, joguei fora e falei: “Você não vai ser porteiro aqui, não! Mas que país é esse? Você foi diretor e lhe jogam aqui?! Deviam lhe aposentar pelo menos! Vamos embora!” Fiquei chateado. Daí eu cheguei no carro e falei para o tradutor: “Fala que esse homem não vai mais trabalhar aqui na portaria. Que ele vai ser o meu primeiro assistente. E ele vai no carro conosco”. O presidente da Universal virava a cara para ele. Quando eu saí de lá, falaram que ficava para depois o acerto do meu contrato. E sabe o que eles alegaram? “Mas como?! Nós estamos contratando um gênio” – porque, para eles, ganhar aqueles prêmios todos era ser gênio – “estamos contratando um gênio para melhorar nosso estúdio e ele foi aluno do nosso porteiro?!!” Acabou. Não me contrataram. A minha carreira foi a mais curta de um diretor em Hollywood."

O INVENTOR DO CINEMA NOVO

"Eu inventei o Cinema Novo. Como? Eu estava fazendo o meu primeiro filme, o Absolutamente certo, que foi saudado quando saiu. Ninguém esperava nada do “galã”. Toda a imprensa acha que galã é burro. E saiu que o Absolutamente certo era o cinema novo brasileiro. Ainda não existia o Cinema Novo. Depois veio O pagador de promessas. No livro do ano de Cannes tem sempre a justificativa do porquê eles deram a Palma de Ouro para aquele filme. E lá dizia que “esse filme, sem dúvida, marca um cinema novo do Brasil”. O pessoal do Cinema Novo já estava fazendo um filme. Eram cinco diretores que estavam fazendo o Cinco vezes favela. Tinha um guru da imprensa, o Alex Viany, guru dos jovens. Escritor, jornalista, foi diretor também. Então ele veio falar comigo: “Anselmo, tem uns garotos aí que eu estou lançando e que estão fazendo um filme que se chama Cinco vezes favela. E nós soubemos que seu filme foi selecionado para Cannes e o do Ruy Guerra para (o Festival de) Berlim. Nós queríamos assistir os dois filmes”. E daí passaram os filmes. Nessa sessão estava toda a rapaziada que viria a ser o Cinema Novo: Cacá Diegues, Leon Hirszman, Glauber Rocha – que já me conhecia de Salvador, de quando eu estava filmando O pagador de promessas –, Gustavo Borges, uns 10 ou 12 diretores do início do Cinema Novo. Quando terminou, aplausos e mais aplausos. E todo mundo falava: “Anselmo, você vai ganhar algum prêmio. É o melhor filme já feito no Brasil!” Todos falavam a mesma coisa. Mas, na verdade, eles nunca poderiam imaginar que eu ganharia a Palma de Ouro. Achavam impossível ganhar em Cannes."

RETORNO - Imagem desta edição: Anselmo Duarte atrás da câmara em 1970.

Diário da Fonte
QUATRO EM CENA



Um padre progressista acusado de pedófilo (Philip Seymour Hoffman), uma freira fundamentalista que mente para descobrir a verdade (Merryl Streep) estão no filme A Dúvida, de John Patrick Shanley. Um velho lutador de luta livre ainda em atividade (Mickey Rourke) e uma stripper que trabalha para sustentar o filho e se mudar para longe (Marisa Tomei) estão em O Lutador , de Darren Aronofsky. Os dois filmes são de 2008 e os quatro atores e atrizes citados concorreram ao Oscar. Junto com Sean Penn, já abordado aqui, que venceu com Milk, é o que de melhor pode o cinema contemporâneo nos oferecer em matéria de interpretação.

Seymour, Streep, Rourke e Tomei são do ramo, ou seja, não fingem, compõem criaturas verossímeis para expressar conflitos, biografias, performances, memórias. Não é uma humanidade admirável o que eles representam, ao contrário. É uma sucessão de tragédias pessoais, manipuladas pela indústria cultural. Reiteram certezas da civilização a qual pertencem, a americana, que jamais relativiza. A América inclui, encara, reporta, mas jamais perdoa ou abre mão do que considera irremovível. Anexa, emociona, seduz, mas jamais deixa de lado o papel que o destino lhe reserva.

Que destino é esse? Os quatro em cena nos dão uma pista. O padre e o lutador são como o escorpião de piada, que pede carona para cruzar o rio e, na outra margem, pica de morte o salvador. “Por que fez isso?” pergunta a consciência. "Porque é da minha natureza", responde o escorpião. O padre tenta se justificar num escudo de compaixão, idéias arejadas, preocupação com os alunos, mas de paróquia em paróquia ele continua o mesmo, sempre ao redor de seus objetos de desejo. Seu oposto é a freira que se comporta como uma bruxa, interpretada por esse monstro que é Merryl Streep (basta ameaçar franzir o rosto, olhar ou debruçar-se rapidamente para ela definir seu papel em poucos frames).

A freira tem uma missão e não são as ilusões do amor ou da racionalidade que vão desviar de seu caminho, sua meta. Ela fará qualquer coisa , até seguir seus instintos, para provar que o padre embriagou um garoto e o seduziu, transtornado a mente do aluno. Comporta-se como o olho humano diante das fraquezas dos outros e jamais com a solidariedade religiosa, que no fundo é o que une padres , párocos e arcebispos, todos sob suspeita neste filme sobre a dúvida. A Igreja Católica, ligada ao mundo hispânico, derrotado pelos Estados Unidos no século 19 com a tomada de Cuba, recebe de Hollywood as mais violentas obras e ataques. Não há perdão para a religião do crucificado.

Seymour é um exagero. Mergulha no papel como se fosse a última vez que fará um personagem. Ele se coloca à altura do enfoque: a pantagruélica refeição de carne crua que ele divide com outros padres é a visão asquerosa de seu comportamento e atitudes. O que ele faz contrasta com a excelência de seus sermões. No fundo, o filme fala que o texto bem articulado pode esconder um caráter duvidoso e, mais importante do que a parábola ou a lição de moral, é a pergunta incisiva, insistente, que vai no osso: “Você embriagou o aluno?”

Mickey Rourke atrapalhou-se na vida quando achou que atuar era dar um sorrisinho cool e virar símbolo sexual, como acontece no execrável 9 e meia semanas de amor. Ou quando tenta imitar Marlon Brando montando uma motocicleta. Mas em O Lutador ele se supera e traz a gana de um veterano que volta ao centro do ringue. Sua obsessão é a profissão que exerce, levada até o desenlace. Suas tentativas de mudar de rumo são apenas desvios de conduta, pois no fundo não está interessado em reatar com a filha ou formar família com a stripper. Ele quer mesmo é se acabar dando e levando porrada, pois só assim se sente vivo. Fazer o trabalho, cumprir a missão, a meta, como Streep e seu hábito negro. É como disse Nixon filmado no clássico “Corações e mentes”: “O importante é que os pilotos foram lá e cumpriram seu dever” (did the job). O “trabalho” era jogar bombas no Vietnã.

Marisa Tomei é a inteligência que vai no osso da personagem sem se entregar a frescuras. É uma atriz determinada, que encarna de maneira perfeita a profissão que simula o sexo e trata os amigos como clientes. Criou para si uma armadura anti-emoção e é punida por isso. Ela tem o objetivo de saltar fora daquela vida e por isso sacrifica sua chance de ter alguém ao seu lado. É a América envolvida com suas próprias contradições, em que a grana é caçada para a liberdade, mas a liberdade verdadeira, o sentimento , foge dos espíritos que viram pedra.

Quatro grandes profissionais de primeira linha em cena: bom demais para quem vive num ambiente hostil à arte e em que as pessoas ainda insistem em “jogar conversa fora”, talvez a pior expressão do mundo em pedaços.

6 de novembro de 2009

Diário da Fonte
OS VENCEDORES


Imagino que seria mais sincero na noite do Oscar anunciar assim: “E os perdedores são...” Seria justo com a maioria, aquela que fica com cara de sabão enquanto o ganhador faz estrepolias, pula como macaco, beija a Jennifer Lopez (tudo é possível nessa noite) e chega dançando o fox trot ao microfone, onde tartamudeia suas abobrinhas para o encanto fake da platéia, formada por um grande números de pessoas putas da cara, porque não estão lá no palco. Os vencedores seriam aclamados por eliminação, depois da cerimônia, numa festa íntima, para não chocar os que não levaram.

O Brasil está sendo celebrado como “player” internacional e, dizem, todos voltam os olhos assombrados para o fenômeno. Não consigo entender tanto entusiasmo. A não ser que tenham mudado os critérios. Tudo pode ser desde o momento em que os colégios incentivaram a compram de tridentes vermelhos. As estradas e cidades são pulverizadas pelas tormentas, as ruas inundam, as pessoas morrem aos milhares todos os dias, os assassinatos são uma indústria, a massa ataca os policiais que matam inocentes, as propinas correm soltas, o grevismo aparelha os serviços públicos contra a população e a favor da campanha eleitoral etc.

É um caso idêntico ao dos americanos, que declaram vitória quando perdem. O Brasil está igual: o país afunda, mas acenamos para o mundo dizendo: vencemos! O enigma é: por que eles acreditam? Será porque pagamos os juros obscenos que aumentam o rombo do país enquanto os atuais espertalhões se enchem de dólares?

Por uma estranha coincidência, os times que ocupavam liderança folgada no Brasileirão foram perdendo tudo, de uma hora para outra, permitindo que os adversários chegassem e os estádios continuassem cheios. É um esforço conjunto entre perdedores. Se já tivéssemos um campeão, e com a proximidade do verão, ninguém mais iria cheirar sovaco em estádio.

Por falar em verão, o calorão chegou e com ele o grande número de turistas por aqui. Para ser um vencedor neste verão, um player das areias, fique atento a três itens dos costumes locais. Se seguir direitinho as instruções, poderá fingir que é daqui.

HORÁRIO DE ALMOÇO - É a única religião fundamentalista da ilha. Não respeitar o horário do almoço é como negar a existência de Sarney no Maranhão. Funciona do meio dia às duas. Nesse intervalo sagrado de tempo, não pense em solicitar qualquer serviço ou tentar comprar qualquer coisa, até mesmo almoço. Pois, nos restaurantes, o horário de almoço é reservado para os garçons.

NADA EXISTE FORA DO GELO – Não tente comprar um refrigerante ou qualquer outra bebida que não esteja pelando no freezer. Nem sugira que possa haver alguma latinha ou pet perdidos no depósito, fora da temperatura estupidamente gelada. Também não invente de defender seu ponto de vista, de que possa existir algo fora dessa situação obrigatória. O conceito de temperatura ambiente não existe. O que não é hipergelado é, invariavelmente, “quente”. Se você insistir muito, eles te servem café. Que corre o risco de vir morno.

CORREIO SÓ PARA FORA - Jamais diga que vai colocar uma carta no correio para a pessoa que more na ilha. Trata-se de uma impossibilidade. Se você tem uma correspondência para a pessoa que se situa a 70 quilômetros da sua casa, mas dentro da cidade, então você tem que ir pessoalmente entregá-la. Não existe essa de colocar no correio, mesmo que você argumente que é mais prático, rápido e barato. Isso será encarado como ofensa sem perdão.

Diário da Fonte
TOCAIA


Nei Duclós

Armar o bote na tarde
de olho na estrada
e na morte

Cercar a cidade sólida
e apontar em todas as portas

Engatilhar o corpo e a alma

Avançar, quando é água
Ficar, quando é terra
Recuar, só com ordens
de guerra

Repartir o mapa
da longa viagem
Marcar encontro
nas pedras

Fazer fogo na hora certa

RETORNO - 1. Poema do livro "No meio da rua (L&PM, 1979). 2. Imagem desta edição: foto de Daniel Duclós feita em Paris.

4 de novembro de 2009

Diário da Fonte
OS FORMADORES DE OPINIÃO


Os formadores de opinião tem a opinião formada. Eles dispõem de uma fôrma (precisa acento diferencial), dessas de plástico, que imitam patinho, e com ela pressionam a areia várias vezes, para fazer uma sucessão de patinhos. Sai então todo mundo fazendo qüém-qüém (só funciona ressuscitando o trema). Por exemplo: a ditadura foi só militar, não civil, e já acabou. qüém-qüém . As torturas de presos filmadas em Santa Catarina é um absurdo numa democracia. qüém-qüém . Isso é inadmissível no Estado de Direito. qüém-qüém . Até vir nova evidência de que continuamos sob a tirania. Aí a coisa se repete. Pode ser com outra forma: a de cachorrinho, por exemplo. Saímos da crise e estamos crescendo (é o novo milagre econômico). Au, au.

Os formadores de opínião tem pânico da opinião alheia, porque isso os desemprega. Para que ser pago para formar opinião se todo mundo é opiniático e caga e anda para o que os outros dizem (a não ser os onomatopaicos reprodutores de sons emitidos pelos formadores de opinião)? Sabemos que toda opinião é desnecessária, pois ela serve aos partidos. Para um petista, não apenas o universo conhecido, como todos os outros universos paralelos, tudo se resume a uma palavra: Lula. Digam o que disseram, haja o que hajar, como dizia o outro, nada escapa à presença maciça, hegemônica, imperdível, inenarrável, eterna do presidente Lula. Não adianta espernear, criticar, falar qualquer coisa, mudar de assunto. Tudo volta ao Lula. É como nos drogados: nada importa a não ser aquilo.

Fora de Lula, é o tucanato. Quem procura uma alternativa fora do Lula cai no FHC, no Serra. Tudo se resume ao Serra, ao Alkmin, ao FHC e, até antes do tapa, ao Aécio. Porque os tucanos isso e os tucanos aquilo. Não importa PMDB, PV, PQP, tudo é PSDB, ou seu clone, o PT. Então, para que opinião, se o que importa é cafungar? Tente dizer qualquer coisa sobre qualquer assunto. Serás avaliado se isso impede ou não da Dilma chegar à presidência, se participas ou não da imprensa golpista. O mais legal dos formadores de opinião é que eles mudam de opinião conforme a música, ou a caixa registradora.

Depende de quem paga e o cliente sempre tem razão. Se o FHC contrata um formador de opinião, este será FHC até o final dos tempos, ou melhor, da verba. Quando a coisa aperta, ou seja, o poder muda de mãos e o formador de opinião fica sem a bufunfa para o leitinho com conhaque, então é a hora da independência. Vimos isso a toda hora. Depois de anos e anos servindo ao tucanato, o grande formador de opinião agora meio que atira para todo lado, pois está sem pouso. Sua vítima atualmente é a internet, essa coisa horrorosa em que todo mundo mete a colher.

Basta comparar os textículos dos articulistas da imprensa pátria bem nutrida com os milhares de textos de qualidade que podem ser acessados pela rede e que são produzidos no estrangeiro, para ver como somos tacanhos em nossa mesmice. Não temos espíritos verdadeiramente livres, os que escrevem sem ser pagos pelos podres poderes. Temos formadores de opinião, ligados a ongs, a partidos, a governos, a corporações. Na outra ponta, temos os anárquicos irresponsáveis, os que falam merda e se divertem e que não mudam nada, apenas contribuem para ficar tudo como está.

Qual a solução? Desmoralizar os patinhos, os cachorrinhos, os vampiros de almas. Quebrar as formas, libertar e habitar o espírito. Grrrrrrrr.

RETORNO - Imagem de hoje: peguei daqui.

3 de novembro de 2009

Diário da Fonte
SER DAQUI


Nei Duclós (*)

“Você não é daqui?” é a pergunta recorrente que acompanha o adventício onde ele for. Ser daqui faz parte da natureza e a toda hora é preciso definir quem pertence a esse grupo homogêneo, dedicado a uma preocupação obsessiva pelo assunto. Mas descobri alguns segredos sobre o estranho costume. Uma pessoa confidenciou, em conversa no ônibus, que fingia ser daqui para evitar aborrecimentos. Não que sofresse hostilidades, mas estava cansada de dar explicações.

Um dia, notei que o famoso chiado de chaleira, acompanhado do erre gutural, que em tese definiria os cariocas, era no fundo exercido pelo pessoal de fora, que tinha a imagem errada sobre a pronúncia no Rio de Janeiro. Os nativos exerciam outro sotaque, mais sofisticado e musical, que só de longe se identificava com alguns aspectos do patuá alienígena inventado pelos que vinham de outros lugares, secos para adotarem a cidadania da então capital da República.

O fato é que esse enigma, o brasileiro, não pertence mais a lugar nenhum. A nação dividida em nichos, territórios fechados, celebrações regionalistas, não consegue mais ser sintetizada por sinais de unidade. A bandeira e a seleção de futebol são insuficientes para enfrentar a maré alta de orgulhos confinados em vivências tornadas familiares pelo excesso de devoção. A situação se intensifica com a evidência cada vez maior dos males que assolam o país, da corrupção à violência. É como declarar independência de uma reserva, que pule por cima da capital nacional e entre em contato direto com outras nacionalidades.

Isso aconteceu na época em que o regime após a Revolução do Porto de 1820 quis destruir o Reino Unido, que tinha como capital uma cidade fora de Portugal, o Rio de Janeiro. Os novos senhores fizeram com que os representantes provinciais se reportassem diretamente a Lisboa. Contra isso se fez uma guerra de três anos, de 1821 a 1823. Guerra que caiu no esquecimento, pois é preciso provar que os brasileiros são um povo que não lutou para ser livre e por isso merece ser esquecido dentro de suas fronteiras.

Quando me perguntam se não sou daqui, respondo invariavelmente que sou, como cidadão brasileiro. Mas isso não convence. Basta abrir a boca para ficar explícito: sou de lá, “do sudoeste onde o Brasil termina”, como diz o velho poema.

RETORNO - 1. (*) Crônica publicada nesta terça-feira, 3 de novembro de 2009, no caderno Variedades, do Diário Catarinense. 2. Imagem de hoje: passeio na velha ponte Hercílio Luz, no tempo em que todos os habitantes da ilha eram "daqui".

Diário da Fonte
ANGÚSTIA


Nei Duclós

Angústia
Como deixá-la na jaula
Como pedir ajuda
Quando a beleza falha?

Angústia
Como escapar das suas garras?

Esperar um sinal, um assalto
Ou cavocá-lo no meio do barro?
Pedir que o nada te fale
Ou torturá-lo?

Ou melhor seria calar-me
Com esta faca no espaço
Entre minha dor e a linguagem?


RETORNO - 1. Poema do livro No Meio da Rua (L&PM, 1979).2. Foto de Sergei Prokudin-Gorski.

Diário da Fonte
FLERTE


Nei Duclós

Sei que não mereço
Mas ao te olhar
Emagreço

Imagino o teu desprezo
Mas nada pesa
O desejo

O coração ainda é o mesmo
Flutua quando estás
Perto

Se me perguntas por quê
Em vez de correr
Escrevo

É para não mais te perder
Minha quarta folha
De trevo

1 de novembro de 2009

Diário da Fonte
WOODY ALLEN: FILTRO DE AREIA EM BARCELONA


Woody Allen não filma roteiros, ele escreve filmes. É um novelista de costumes, que usa a câmara como teclado. Conta uma história, baseado na sua paixão: o cinema clássico dos Estados Unidos, feito em sua maioria por europeus emigrados, que abordavam a elite para o encanto das massas sob a depressão econômica dos anos 30. Seu tema são os conflitos pessoais de uma coletividade intelectualizada e rica, um universo que não está disponível facilmente, a não ser que você faça parte dele. Talvez nem exista como é mostrado. Mas é verossímel e isso basta.

Em Vicky Cristina Barcelona, de 2008, ele apresenta um roteiro turístico de verão da Espanha de consumo, quente, romântica, sedutora, franca, anárquica, para a pseudo vanguarda ainda puritana da América. O problema não são os clichês, mas o que você faz com eles. Allen compõe sua trama com uma série de lugares comuns, como a ménage a trois estimulada pelo garanhão latino, a insatisfação das mulheres casadas em busca de aventuras, a arte como insumo para a intelectualidade vazia e superficial ou o talento perdido e desperdiçado pelo excesso de narcisismo.

Nas mãos de outro diretor, seria um a sucessão de clipes e não uma novela de costumes do século 21. A elite encarna os conflitos universais porque pode, tem dinheiro e tempo para cuidar disso, não está envolvida absurdamente na luta pela sobrevivência. Sobra energia para redirecionar rumos, arriscar relacionamentos, voltar atrás, subir num avião na madrugada em direção ao desconhecido só para ver o que vai dar. É como um conto de fadas pós-moderno, em que os sonhos são provados na realidade e acabam exaurindo os protagonistas pelo mesmo tipo de vazio que faz parte da civilização. Só que essa pretensão não está cercada de pompa.

Por filmar como escreve, Allen proporciona um lazer bizarro, pois no fundo ele trata do sofrimento, mesmo que aparentemente tudo conflua para o coquetismo e a risada inteligente. A inteligência em Woody Allen não é um arabesco, um fricote, uma ostentação, mas sua denúncia. Sua profundidade vem do distanciamento que essa abordagem provoca. O perigo é que, ao enxergar o que Allen critica, o espectador possa confundi-lo com seu objeto narrativo. Parece que Woody Allen está na balada, quando permanece na sua tradicional visão corrosiva dos fatos. Uma corrosão que, em Barcelona, é representada pelo filtro fosco e arenoso que dá o tom de todo o filme, como se o vento do deserto tivesse recém soprado sobre a aparência novaiorquina dos personagens envolvidos com as tentações hispânicas.

O filtro é sua forma de ambientar o filme num passado inexistente, como se ele quisesse ser realmente visto daqui a cem anos. Quando houver nostalgia da nossa época, Allen será (imagina ele) o favorito cult que captou como ninguém a humanidade envolvida nas suas querelas de sempre. Talvez nem lembrarão que Allen, como queria Borges, inventou seus predecessores e que seu cinema faz parte das obras maravilhosas do início, quando os filmes começaram a falar. Filmes da sua infância, que jamais abandonou.

Aqui, Barcelona é o Rio, destino final das aventuras que empurravam os personagens para grandes enrascadas e só fugindo para um lugar quente para resolvê-los. É como se Greta Garbo, Clark Gable, Gary Cooper, entre tantos outros, viajassem para o sol da Espanha no início e não no fim do filme. Lá, eles desfrutam do tesouro acumulado, mas a surpresa é que o paraíso também aperta as tenazes nas vidas humanas jamais saciadas.

RETORNO - Imagem desta edição: Javier Barden, Penelope Cruz e Scarlet Joahansson diante de Woody Alen nas filmagens de Vicky Cristina Barcelona.

Diário da Fonte
DILLINGER, O SURRADO CHARME DO PSICOPATA


Privilégio é crime (“toda propriedade é um roubo”, segundo Proudhon). O objetivo do crime é ter acesso ao privilégio (“meu cartão de crédito é uma navalha”, segundo Cazuza). Essa é a fonte do carisma dos criminosos, herdeiros de Robin Hood, mesmo que roubem para si e não para distribuir, como fazia o lendário bandido. Quando privilégio e seu acesso se tornam mais escassos – numa grande depressão, por exemplo – a criminalidade é uma das poucas possibilidades de se chegar ao topo (ou pelo menos, assim pensam os criminosos e seus admiradores).

Quando o marginal pertence às classes subalternas, não há novidade, faz parte da “natureza” das coisas. Mas se, como John Dillinger, é de classe média e tem o sorriso cool dos galãs de cinema, algo muda. Dillinger foi um dos primeiros ladrões inventados pela mass media. Ele estava no miolo de uma briga de comunicação. O ascendente FBI e seu líder, Edgar Hoover, queriam ganhar a batalha na rádio e nos jornais. Mas os jornais criaram seu avesso, o sujeito que fugia da prisão, não roubava correntistas, apenas banqueiros e se movia rápido como numa seqüência cinematográfica.

Dillinger alimentou o mito do bandido charmoso, uma linhagem que vem de Clark Gable em Manhatan Serenade (anos 30) e passa por Bonnie and Clyde (anos 70), de Arthur Penn. Mas basta ver suas fotos para notar que o sorrisinho maroto contrastava com os olhos do psicopata facinoroso, o olhar sampacu dos indiferentes. Dillinger matou sete pessoas e é celebrado como herói no filme de Michael Man, Inimigos Públicos,que usa mal todos os clichês do gênero e ainda chupa um filme famoso para fazer seu grand finale.

O filme famoso é Isadora, de Karel Reisz, de 1968, com Vanessa Redgrave, em que a grande dançarina, ao se enforcar na sua echarpe nas rodas de um irresistível carro esportivo de luxo da marca Bugatti, morre ao som de Bye bye blackbird (música de 1926 de Ray Henderson, com letra de Mort Dixon). É a mesma canção que encerra Inimigos Públicos, num close demorado no rosto parado da namorada de Dillinger. Como em Isadora, com o rosto em pânico de Vanessa embalado pelas notas de Blackbird (traduzido por graúna). Os cineastas acham que nós não lembramos dessas coisas? Ou sabem disso e nem dão bola?

Dillinger é apresentado por um fraco Johnny Depp como o machão sem igual, líder e durão, que conquista a moça na base da porrada, colocando-a contra a parede e socando quem se atravessa no caminho do seu desejo. O filme justifica a violência dizendo que ele perdeu a mãe aos três anos de idade e não tinha acesso ao que mais queria, dinheiro, poder e mulher. Isso não justifica nada. O cara era bandido e não merece o trato desse cineminha comercial no pior sentido, o de não arriscar nada e assim tentar atrair a simpatia do público.

A verdade é que deu para a bola com esses assassinos frios apresentados como seres humanos que merecem nossa consideração. O truque é sempre mostrar alguma deficiência desse herói fajuto, para humanizá-lo. O pistoleiro que não sabe nadar (Robert Redford em Sundance Kid), que é manco (Warren Beatty em Bonnie and Clyde) ou é simplesmente patético e bronco como o velho James Cagney são maneiras de dizer como são fofos. Merecem cadeia eterna, por mais que tenham sofrido injustiças ou tenham levado surras de policiais e políticos tão bandidos quanto eles. O antídoto do mal (o poder) não é o charme dos robin hoods, os que fazem justiça por conta própria, mas a própria Justiça, quando funciona.

Mas seria pedir demais da indústria de entretenimento, que enterra milhões numa porcaria e precisa da simpatia da crítica oficial. Eu acho um fiasco. Um milhão de vezes Paul Newman em Cool Hand Luke, num personagem que não era assassino, tendo sofrido mais do que dez Dillingers. Tribunais, cadeias, investigações: é preciso que haja ética na sociedade para julgar e manter o perigo à distância. Mas sabemos em que nível estamos. No meio de uma fábrica de facínoras.

RETORNO - Imagem de hoje: o verdadeiro Dillinger e Johnny Depp, que imita bem o sorriso mas dança ao não reproduzir a brutalidade do olhar.

31 de outubro de 2009

Diário da Fonte
A VÉSPERA DE TODOS OS SANTOS


O Brasil importou a festa de Haloween dos americanos, que ganharam de presente dos imigrantes irlandeses, que por sua vez herdaram dos ritos pagão, celtas, sei lá (a noite dos tempos é quando as lendas rezam e todos se perdem). É comemorada no dia 31 de outubro. O nome vem All Hallows Eve (de evening), ou Véspera de Todos os Santos, que nos tempos idos do Brasil católico era feriadaço (desta vez cai no domingo). A Igreja católica usou rituais e templos de outros povos e crenças para implantar sua doutrina. No Brasil, esta era uma época de contenção e concentração, mas agora virou balada.

Vi várias crianças com os chifrinhos do dito-cujo. Garotas vestidas de bruxas. Tridentes, capas vermelhas e tudo mais. Aos poucos, a data vai se firmando, impulsionada pelo ambiente favorável às representações do Mal. Não que a festa seja pecado. Este, está por toda a parte. Mas a banalização das transgressões não beneficia o convívio social. O Bem, como se sabe, é essa coisa babaca que todos fogem. O certo é passar rasteira, tungar o próximo, atropelar no trânsito, matar a esmo, roubar bastante, fazer todo tipo de crueldade. A inocência é estimulada a achar que o Mal é legal (o traficante viril, o ladrão gentil, o espertalhão boa praça) pois no fundo a inocência está sendo solenemente erradicada. Ferrar literalmente o próximo, sugar seu sangue com dentes pontiagudos, fervê-lo em caldeirões, eis a mensagem do Haloween.

Faz sentido. Basta consultor o noticiário. Jovem de 14 anos baleia um de onze. Menina de onze esfaqueia a amiga de oito anos. Garoto de 14 anos é chefe de boca do tráfico em São Paulo. Professores levam o maior pau dos alunos. Lembro bem quando começou todo esse troço. Quem ia à Igreja era ridicularizado. Comungar era coisa de bobalhão. Confessar para o padre, então, piada certa. Com a onda de denúncias comprovadas sobre pedofilia na Igreja Católica, a desmoralização chegou ao auge. O certo é condenar o catolicismo ao inferno e pregar um novo paraíso, que, descobrimos agora, é o emprego garantido para quem é do partido. Ou então, elevar as trevas como o novo passaporte para a felicidade.

Ficou fácil, pois quem defende a tradição costuma babar na gravata. Leio ainda textos de extrema direita falando mal de Cuba, como se fosse justo julgar o regime cubano cercado pelo império, boicotado economicamente, perseguido de todas as formas. Isso não significa inocentar a ilha de Fidel, mas não se pode cuspir em alguém que está todo amarrado. O problema é que o exemplo de Cuba serve para a nova safra de caudilhetes latino-americanos, que se perpetuam no poder por meio da farsa democrática. Chavez obrigando todo mundo a se vestir de vermelho e tiranizando cada vez mais seu país me parece uma festa de Haloween permanente, o ano todo.

É complicado falar nisso porque o oposto, aparentemente, é o puritanismo, a outra face do Mal. Não acredito que vida espiritual seja exclusividade do fundamentalismo, tanto da direita quanto da esquerda. Não que o ideal seja uma devoção de centro, de tolerância para com os extremos. A religiosidade , como parte das realidade culturais, não deve interferir na prática política. Não se deve exigir que o político pape hóstia, mas também que não se comporte como um belzebu. Não se pode querer que a juventude assista a missa, mas também não precisa empurrá-la para a bunda arrebitada do hip-hop, a consagração da droga nos baticuns da transgressão, ou os chifrinhos vermelhos no final de outubro desde a infância.

Ok, o carnaval. Quando eu era moço, participava do cordão da gloriosa escola Os Rouxinóis, de Uruguaiana. Ia junto com a massa, embalado pela mais bela bateria de todos os tempos. Não era, como vemos hoje na TV, a exibição da celulite e da exposição das celebridades globais. Ou, como acontecia um tempo atrás, o congraçamento dos bicheiros, quando eles tinham poder. O carnaval era fantasia de trapos, máscara feita em casa, lança-perfume argentino (que, descobri depois, era usado para cheirar, dar barato; enquanto nós, as crianças, usávamos porque era perfumado e divertido, jamais acertávamos o olho de alguém).

Ouçam as antigas marchinhas, vejam aquelas fotos antigas. Sim, tinha fantasia de diabos e tudo mais, era um tempo de descompressão social, de desmascaramento dos poderes. Foi tratado como alienação e depois caiu na vala comum da tirania do comércio e da repressão sexual. Pois num país tão sexy, como disse recentemente o dono do Twitter, como pode um monte de marmanjos estudantes quase lincharem uma garota que usou vestido tubinho vermelho mini na escola? É atraso de vida, é espírito medieval de grupo, é caça às bruxas. É o que dá transformar sexo em mercadoria, eliminar a inocência, incentivar a baixaria. Vamos para trás, enquanto a publicidade oficial baba no colarinho da verba pública.

Se a garota do vestido vermelho queria celebrar o Haloween, viu onde estava metida: a farsa do Mal cercou-a aos berros, porque não há parâmetros diversos aos que estão sendo implantados. Num território hostil, a festa bruxólica também dança para a maldade pura e simples. No fundo, não importa bruxa ou fada. O que pega é a bandidagem, exposta em todos os espíritos.

RETORNO - Imagem desta edição: Bordadeiras, foto de 1979 do Mestre Walter Firmo.

30 de outubro de 2009

Diário da Fonte
FROST/NIXON: A PAUTA IMPROVÁVEL


Atualidade absoluta: os americanos fazem um filme que resgata os crimes de Nixon, com o objetivo de acusar a gestão Bush, mas está sob medida para o Brasil. Temos casos idênticos, como Collor, que também renunciou à presidência para escapar de ser deposto, ou Lula, que também nada sabia sobre o que faziam seus assessores. Só essas sintonias já justificam tratar como obrigatório o filme Frost/ Nixon (2008), de Ron Howard, baseado em peça do mesmo nome de Peter Morgan e que recebeu cinco indicações para Oscar (Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator - Frank Langella, no papel do ex-presidente -, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Montagem).

A pauta era improvável, já que ninguém queria saber de Nixon a não ser que fizesse um mea culpa em público. As grandes figuras carimbadas do jornalismo americano não queriam pagar esse mico, arriscar sua credibilidade caindo nas armadilhas de Nixon, que poderia sair fortalecido do embate. Talvez, e nisso acreditavam os que tinham muito a perder na mídia americana, em vez de ser destruído publicamente num balanço da sua presidência, o ex-presidente poderia recuperar espaço e fazer um retorno humilhante para seus adversários, como aconteceu aqui depois dos grandes escândalos, quando vimos antigos acusados gargalhando juntos nos palácios republicanos.

O desastre quase aconteceu para o jornalista britânico David Frost e sua brava equipe. Mas lá existe imprensa, opinião pública, preparo, fôlego. Os Estados Unidos são outra coisa. Não quer dizer que foi uma tarefa fácil. A seriedade, a responsabilidade, a coragem encontraram dificuldades. Pois a entrevista, para a televisão, de 12 horas que Frost fez com o ex-presidente em 1977, cinco anos depois da sua renúncia em função do escândalo de Watergate, tinha tudo para dar errado.

O entrevistador não era do ramo, acreditavam, já que amargava um exílio na Austrália, fazendo show de entretenimento depois de meteórica passagem por Nova York. Enquanto Nixon era considerado do ramo, tinha manha televisiva, e iria esmagá-lo. Esqueceram que a especialidade do jornalista é o jornalismo, não a política ou qualquer outro assunto. E que um político, em frente as câmaras, por mais experiente e vivo que seja, sempre será uma fonte, jamais um jornalista, que no seu meio está em vantagem.

O filme foi concebido como uma luta de boxe, decisão do título de campeão dos peso pesados. As equipes jogavam a toalha, interrompiam, falavam na cara do lutador na hora do intervalo. Os contendores escutavam, recuperavam o fôlego, se preparavam para mais um round. O estudo detalhado das fitas gravadas do caso Watergate, a pesquisa minuciosa, a elaboração exaustiva de cada pergunta, o exercício de dramaturgia que tentava adivinhar o que o adversário iria dizer, fazem do filme uma sucessão de golpes com o único objetivo de destruir o adversário.

Os dois personagens principais se superam na briga. Nixon, que vinha de uma derrota absoluta, a condenação geral da nação e amargava um isolamento que o deixava exasperado, começa a ganhar pontos nas primeiras horas de entrevista, quase levando o entrevistador a nocaute. Foi um detalhe importante, conseguido pelo pesquisador interpretado pelo excelente Sam Rockwell, autor de quatro livros sobre Nixon, que descobriu a prova do crime. Ou seja, de que o presidente sabia da invasão do prédio onde funcionava o Partido Democrata e que tentou obstruir a justiça por meio do suborno das testemunhas.

Isso foi fatal para virar o jogo. De cara no chão, o entrevistado confessa que errou, mas se recusa a pedir desculpas e a se humilhar. Arrosta toda a responsabilidade e exibe, no final, o rosto demolido de sua grande derrota, que era o que a população queria ver. O sucesso da entrevista foi tremendo. Enriqueceu os poucos investidores que ajudaram a cacifar os 600 mil dólares de custo, cobrados por Nixon para falar. E devolveu Frost para o centro do mundo. Hoje ele continua em destaque em Londres, onde é Sir.

Grandes atores em cena nos mantém em atenção constante ao longo da narrativa. Além de Langella, soberbo, há Mike Sheen no papel de Frost (ele tem um ar de Tom Cruise). E além de Sam Rockwell, há Oliver Platt, hilário na equipe de Frost, e Kevin Bacon, no papel de um oficial da Marinha e confidente de Nixon.

Frost/Nixon: ver para aprender como se faz. Mais do que obrigatório, antológico.

RETORNO - Imagem desta edição: Mike Sheen (Frost) e Frank Langella (Nixon): quem vai a nocaute?

29 de outubro de 2009

Diário da Fonte
TÊNIS, REFRIGERANTE E SABÃO EM PÓ NA CABEÇA


O Data Folha acha que a mente das pessoas se ocupa de marcas notórias. Para isso faz todo ano o Top of Mind, destaque na edição de hoje do jornalão. Coca-cola, Omo e Nike são os tesouros mentais da população à mercê do massacre publicitário. Se a mesma grana preta fosse carreada para a cultura, as cabeças estariam envolvidas com Alejo Carpentier, por exemplo, que em livros como O reino deste mundo e Os passos perdidos nos deslumbra com sua capacidade de colocar cada palavra no lugar exato, em textos deslumbrantes, e com isso transformar nosso espírito pela magnitude da sua arte.

Mas cultura no universo do Top of Mind (que deve significar Topo da Mente, não sei, sou monoglota) é o celebrado poeta Arnaldo Antunes (marca notória do imaginário imposto pela indústria cultural) contratado para dar pulinhos no palco envergando um terninho, além da agora onipresente Fernanda Lima para fazer as apresentações dos responsáveis pelo grande feito de colocar tênis, refrigerante e sabão em pó goela abaixo da população sem defesa. Quanto custa um evento desses? E por que vão de pessoa em pessoa fazendo o inventário dos resíduos que a publicidade deixa no povo, quando deveriam se preocupar com cultura e não com os efeitos sinistros das práticas de Pavlov, o inventor do reflexo condicionado?

Vou falar sobre as marcas premiadas. Antes aviso que, como é proibido dizer qualquer coisa contra elas (por força da ditadura não declarada em que vivemos), fiquei sabendo disso por terceiros e não revelo as fontes. Coca-cola é o purgante que todos conhecem. Faz mal à saúde, é um torpedo de calorias composto por elementos desconhecidos, muito bem guardados por fórmula secreta, já que ninguém pode descobrir o que realmente tem dentro. Possuía algum charme quando vinha em garrafas especialmente desenhadas, mas agora, com os horrendos pets rombudos, não passa de um licor brabo que, dizem, vicia.

O sabão Omo é caríssimo, talvez a mais cara marca na praça. Paga-se os tubos para jogá-lo pelo ralo. É um case famoso de condicionamento. A letra O repetida no início e no fim representa os olhos grandes da mãe coruja. Omo é um sigla de Old Mother Owl, a velha mamãezinha americana. O tênis Nike, com a pirataria, pode ser encontrado em qualquer esquina, mas quem garante a autenticidade? E todo mundo lembra o Michael Moore desmascarando o executivo da Nike que contratava baratinho mão-de-obra no Terceiro Mundo. Mas não importa. O que vale é que estão investindo na “qualidade da marca”, como disseram os sujeitos com cara de porquinho Chon-Chon que dão entrevista sobre o assunto.

Aos 61 anos, completados hoje, dia 29 de outubro, noto que, com o tempo, aumenta minha capacidade de distribuir cascudos. Não se trata da ranzinzice de quem ultrapassa as seis décadas de vida. É simplesmente o senso de justiça que se aguça, o conhecimento acumulado, a percepção mais afiada, a despedida em todos os sentidos, pois já perdemos a esperança de que nos aceitem, já que nunca aceitaram, por mais que te batam nas costas e digam que você é o cara. O que vale é a amizade sincera, a admiração agradecida, a convivência pacífica e o trato civilizado. Não são raros na nossa vida, pois somos maioria, só não estamos no poder.

O poder foi empalmado pela má-fé, a burrice, o cinismo e a barbárie. Ficamos isolados, em nossos vastos latifúndios de gratidão mútua, quando nos identificamos pelo gesto solidário, as brigas fraternas eventuais e passageiras, os abraços profundos e as palavras que nos embalam, estimulam, habitam e confortam. Muito obrigado a todos pela leitura atenta, pelos comentários e por tantos votos de continuar na luta. Somos nós, o horizonte.

28 de outubro de 2009

Diário da Fonte
O HEROISMO EM “OS FALSÁRIOS”


Herói é aquele que abre mão do heroísmo, mas não da sua humanidade. Uma essência indestrutível apesar do horror e que, no final, contrariando as aparências e as evidências, o devolve à ação solidária e ética que o redime. O herói não aparece e compartilha sua glória em segredo com alguém muito próximo. Vimos isso no clássico Casablanca, em que Ricky é o mercenário sem coração que acaba fazendo o gesto supremo de abrir mão do seu grande amor em favor de alguém que ele não conhecia, mas que merecia escapar. Vemos isso no artista judeu de Os Falsários, do austríaco Stefan Ruzowitzky, que ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro em 2008.

Mas não é tão simples assim. Salomon Sorowitsch (ou Sally, interpretado por Karl Markovics ) é convocado pelos nazistas, que o fizeram prisioneiro, para falsificar libras e dólares e assim ajudar a financiar a guerra dos alemães, além de tentar desestabilizar a economia dos aliados. Ele se submete para sobreviver e com isso ajuda todos os seus companheiros, que compartilham da confecção das notas falsas. Seu oposto é Adolfo Burger (August Diehl) personagem inspirado no autor do livro, de onde foi tirado o roteiro e que virou consultor das filmagens.

Burger é o protótipo do herói consciente e explícito, reconhecido como tal, que boicota a confecção do dinheiro por questão de princípios. Não se submete, mas isso ameaça todo o projeto e em conseqüência a vida dos companheiros. Quem é o herói? Burger, que com sua ação acabou prejudicando os nazistas, que não conseguiram inundar de dólares a economia de guerra? Ou Sally, que conseguiu chegar aos objetivos do programa e assim manteve todos vivos? Para quem toma conhecimento da história no final, quando os aliados chegaram, sem dúvida que é Burger. Sally se afasta e vai amargar sua solidão em Monte Carlo.

O dinheiro falso que leva consigo é arriscado, ou melhor, jogado fora integralmente na roleta. Assim ele recupera sua humanidade perdida, depois de anos sob o jugo dos carrascos e tendo que fazer o jogo deles. Lembra até o pequeno grande poema de Manuel Bandeira, que aponta para a única solução do irremediável: dançar um tango argentino. É o que Sally faz, com uma prostituta que se encanta com seu desprendimento, depois de ser atraída pelo dinheiro falso. Sally é um artista, que no lugar de fazer arte para ganhar dinheiro, preferiu fazer dinheiro diretamente.

Essa era sua ocupação antes da guerra e por isso foi preso. O mesmo policial que o prendeu, Friedrich Herzog (Devid Striesow), acaba localizando o especialista entre os campos de concentração e o convoca para o projeto. Herzog é o retrato da indiferença criminosa, a mesma que temos no Brasil, em que milhões de pessoas vivem sob o terror, dentro e fora das prisões, enquanto perdemos tempo com futilidades. A esposa do carrasco, que vive numa casa enorme e confortável com o marido e os três filhos, é um poço ridículo de preconceitos. A carnificina não a atinge, ela que vive cercada pelo luxo e mergulhada na alienação e na inconsciência. Seu cinismo é revelador e atualíssimo.

“Os falsários” foi celebrado como um filme inovador sobre a Segunda Guerra, pois mostra um tema nunca explorado até agora e não perde tempo com crueldades inúteis. A brutalidade é humana e chega no seu grau mais intenso no nazismo. Mas faz parte de todos. Os próprios prisioneiros, que não experimentaram as regalias do grupo de falsificadores, queria matá-los, achando que eram nazistas. O que os salvou foram os braços marcados por todos os que passaram por Auschwitz. Pela primeira, vez, aqueles números sinistros serviram para salvar vidas.

Não há heróis, dirão. Certamente que há. Mas o heroísmo não é a cerimônia com fanfarras. É antes a semente imortal da criatura que se recusa a passar impunemente pela terra. Deixa sua marca no coração dos contemporâneos, mesmo que esses nem se dêem conta do bem que foi praticado em seus nomes.

Como Ricky/Bogart, que explica para a amada os motivos da sua renúncia e por isso emociona, pela grandeza do gesto, assim também o personagem interpretado por John Wayne em "O Homem que matou o facínora", de John Ford, que mata o vilão, mas deixa o crédito para o seu amigo. Só quando ele morre é que emerge o herói oculto com toda a sua integridade. O heroismo de Sally, como o de Bogart e Wayne, pauta-se pelo exemplo, não pelas medalhas.

RETORNO - Imagem desta edição: Karl Markovics desenha a representação do falso heroismo nazista para conseguir sobreviver.

27 de outubro de 2009

Diário da Fonte
RÉQUIEM PARA O JORNALISMO IMPRESSO


State of Play pode ser traduzido por “a situação atual”. É o que pretende mostrar o filme com esse nome (aqui, Intrigas de Estado), baseado numa série da TV inglesa, mas que foi totalmente adaptada. A trama fica um pouco confusa, com alguns pontos cegos, mas isso não importa. Eu não tenho muita paciência para seguir os detalhes das intrincadas conexões da espionagem ou da corrupção, mas desta vez os gringos me dão razão, pois há algumas ocorrências na rede dizendo exatamente isso, que nem sempre as coisas ficam claras no que é apresentado.

Prefiro ver State of play por aquilo que seu diretor Kevin McDonald definiu no making off: um réquiem para o jornalismo impresso, representada pela sequência final, quando máquinas pesadas de uma realidade analógica imprimem enfim a edição definitiva que traz toda a trama decifrada. A história gira em torno da privatização da segurança dentro dos Estados Unidos, denunciando o que já temos entre nós: um exército privado movimentando muito dinheiro. Uma corporação desse ramo está sob investigação e começa a ocorrer uma série de assassinatos aparentemente sem relação um com o outro.

É um bom filme, se for visto assim como um thriller a que Hollywood está acostumado a fazer. Mas fica melhor se o virmos como uma reflexão sobre o atual estágio do jornalismo, em que os grandes jornais e os grandes jornalistas, apesar de necessários e fundamentais para a democracia, estão morrendo, aparentemente engolidos pela revolução digital, mas no fundo sucateados pela ditadura financeira global, que tem horror à concorrência e às denúncias. O filme mostra uma redação tomada por computadores, mas ao mesmo tempo soterrada de papel e de bagunça. É um ambiente de trabalho que ainda não assumiu a atual assepsia das redações brasileiras e mantém aquele clima saudável do bom e velho jornalismo.

O Washington Globe, o veículo fictício, está sob pressão de novos proprietários, que querem lucros, o fim do jornalão de qualidade, mas deficitário. Para faturar, é preciso ser rápido e centrar na fofoca. Contra essa tendência luta o repórter interpretado pelo excelente Russel Crowe, um cara que sempre gosto de ver atuando, pela força que imprime em seus personagens. Talvez seja hoje o único ator que define um caminhar próprio, como fizeram John Wayne e Robert Mitchum. Crowe anda do mesmo jeito, seja repórter ou o matemático pirado de Mente Brilhante. Pés para dentro, meio curvado, apressado, meio torto. Muito bom.

Esse personagem, o repórter investigativo bagunçado, tem seu paradigma em Dustin Hoffman, do clássico Todos os homens do presidente. E boas relações com outros tipos inesquecíveis como Clint Eastwood no filme que luta contra a direção do jornal para livrar um condenado à pena de morte. Em State of Play, Crowe é daqueles antigos do “parem as máquinas”, que faz ironias com a blogueira que, segundo a editora (Helen Mirren, ótima) prduz uma matéria por hora. Está formada a dupla de ataque, o grande repórter e a foca do noticiário superficial. A segunda aprende com o primeiro e vê como fiscalizar, pesquisar, informar, tudo junto, mentir quando necessário para chegar ao objetivo, fazer concorrência com os investigadores policiais, tudo o que uma boa reportagem exige em meio a perseguições, tiroteios e diálogos pesados.

“Sou jornalista, não publicitário”, diz Crowe para sua editora. "Tem gente que ainda confia no jornalista que arrisca a vida para dizer a verdade". Eis o que passa o filme que mostra a necessidade de existir todas as formas de comunicação, tanto o jornalismo online quanto o impresso e que é preciso, para termos democracia, existir grandes jornalistas, assim como grandes juristas e grandes políticos. No Brasil, houve época em que tivemos tudo isso. Tínhamos Tarso de Castro e Barbosa Lima Sobrinho, tínhamos Darcy Ribeiro e Teotônio Villella, tínhamos Raymundo Faoro e Sobral Pinto. Em que espelho deixamos perdidos nossa face? como diria Cecília Meireles.

O repórter que asssina sua matéria fundamental depois de colocar a assinatura da foca, esse cara ético que consegue sobrepor a vocação e o ofício acima dos interesses pessoais e da amizade, esse é o cara que encerra o expediente sob o olhar admirado dos seus pares. Não há glória maior nesta profissão que nada nos dá, a não ser a sensação do dever cumprido, quando fazemos jus às responsabilidades num tempo de guerra.

RETORNO - 1. Imagem de hoje: Russel Crowe em State of Play. Ele contracena com Ben Affleck, Jason Bateman, Rachel McAdams, Robin Wright Penn, Jeff Daniels, além da citada Helen Mirren.

2. A propósito: Observatório da Imprensa entrevista Joshua Bento. Trecho:

"O.I. - Você acredita que o jornalismo em outras plataformas (impresso, tevê, rádio) migrará totalmente para a web?

J.B. – Tudo vai mudar. Veja o exemplo do rádio: se você voltar no tempo uns 60 ou 70 anos, o rádio ocupava lugar expressivo na veiculação de notícias em todo o mundo. Em seguida veio a tevê, mas o rádio não sumiu, ele apenas se adaptou. Tevê, rádio e jornais impressos sobreviverão, mas terão que mudar. Eu não acho que os jornais estão indo embora. Talvez não sejam mais produzidos em massa, talvez se dirijam a um público mais focado, talvez sejam mais analíticos, talvez circulem apenas três vezes por semana em vez de serem diários."