17 de abril de 2014

Diário da Fonte
FAGULHA



Nei Duclós

Amor sem nada emotivo
cruza de cinza e neblina
intenso gelo em fagulha
feno com cheiro de crina

Amor de ruiva no exílio
reduto ao redor da ilha
nenhum radar captura
planta avessa a clorofila

Sardas em ponto de fuga
palha molhada na curva
corpo que não adivinho

Palavra posta no esporro
charada escrita com sebo
chama na linha do escuro


16 de abril de 2014

Diário da Fonte
NARRATIVA



Nei Duclós

A Lua na altura
do horizonte
sob a lâmpada
de mercúrio
lia-me
como um romance

Cíclope de olhar
a furo
a Lua me põe
em dia
com meu próximo
capítulo

Depois brilha
liberta
dessa leitura
Sobe ao céu
como aluna
no recreio

Não vivo
sem ver a Lua
quando se assume
de cheia
é quando repasso
minha narrativa





Diário da Fonte
ESPÓLIO



Nei Duclós

A arte que fazemos não se refere ao tempo,
aos elementos, ao físico, ao que transcende.
Espécie em descenso, ascese e lamento,
corporificação e trama, esporo de amianto.

Arte de chutar o balde, quando nos importamos,
 tela de arame, a cidade uma ruína que dividimos
sem pensar na herança. Somos vitrais no deserto,
ferrugem de sonhos, lagartos imóveis, pedras soltas

Maná desperdiçado em manuscritos de barro
em livros ilegíveis. Rabiscos de luzes mortas
painéis de venenos, virtudes passadas a limpo
águas ferventes, toco de vela trêmulo no espólio


15 de abril de 2014

Diário da Fonte
OFERENDA

Nei Duclós

Não fico pensando a palavra
feita de oferenda.
Ela já é o próprio mergulho
anterior ao entendimento.

Deixe esse serviço para os anjos,
tocadores de cítaras,
intermediários do vento.

Poesia é oração com Deus atento,
diferente das rezas sem propósito.

Diário da Fonte
SUOR DE ECLIPSE



Nei Duclós

A Lua cheia sangra, mancha
vermelha sobre sua testa
avança na noite alta, redoma
de estrelas tensas de mistério

A sombra percorre a esfera
e toma conta do seu voo
a Lua então cai com o peso da cor
adventícia, enviada pela Terra

O Sol se faz de inocente, mas é ele
que manobra o rolo salobro
do eclipse estranho, entorna o caldo
em mecanismos fora de controle

Quase no horizonte, a nova criatura
se apresenta como alguém antes
de um baile, maquiada de desejo
objeto de sua luz reflexa e tonta

Depois some, nos deixando pasmos
com as imagens extraídas
do seu entorno suado por alguma
coisa além do entendimento


RETORNO -  Imagem desta edição: foto de Marga Cendón. 

14 de abril de 2014

Diário da Fonte
CAMPO ABERTO



Nei Duclós

Em segredo sabemos o que pega
Paredes da fantasia nos cercam
A esperança passa na janela  
O rosto da doçura se completa

Navegamos em águas remotas
A palavra se morde na hora certa
É quando se solta, verve, verbo
feito pedra onde bate a maré

Como ninguém vê, estamos sós
planície que no teu corpo medra
e eu colho, ceifador de violetas

Corte de campo aberto, sebe
hectares de uma terra insana
floresta no ar roxo, esparramo  


Diário da Fonte
SAGARANA 55: DESTAQUE PARA SALMAN RUSHDIE

Recebo correspondência da redação da Revista SAGARANA sobre a edição número 55, onde foi incluída a tradução para o italiano de um conto meu, ASSOMBRO (SGOMENTO), do meu ebook recém lançado MÁGICO DESERTO - CONTOS FORA DE FORMA:

"É com satisfação que anunciamos a presença on-line, a partir de hoje, do n° 55 da revista Sagarana, em língua italiana. O link é www.sagarana.net . A capa desta edição é dedicada a Salman Rushdie, escritor inglês de origem indiana, com o belíssimo conto “I buoni consigli sono più rari dei rubini”.

Este novo número contém também diversos ensaios e artigos. : “Il caso Matteotti”, de Ivo Andrić, “Esilio e letteratura” de Roberto Bolaño, “Drummond de Andrade”, de Antonio Tabucchi, “Tutte le notti un giaguaro”, de Loretta Emiri, “Il fiore prezioso della democrazia, il bene raro della libertà”, o quinto artigo publicado a partir de uma convenção entre a Sagarana e Amnesty International, e outros.

O editorial desta edição, de Julio Cesar Monteiro Martins, , “Sul mito dell’immortalità letteraria”, fala da relação ao mesmo tempo fértil e dramática entre o escritor, o passar do tempo e a morte.

Em Narrativa, além do conto de Rushdie, temos as traduções de contos e trechos de romances de Irène Némirovsky, Javier Cercas, Nick Hornby, Ana Maria Machado, Somerset Maugham, Elena Ferrante e Elie Wiesel, além de inéditos de Marouba Fall, Nei Duclós, Monica Dini e muitos outros.

Em Poesia, as traduções do “Sonetto” da poetisa ucraniana Lesja Ukrajinka, poesias de Edoardo Sanguineti, Ester di Izaguirre, Alfonso Gatto, Ruth Miller, Angelo Barile, “Tutte le lettere d’amore sono ridicole” de Fernando Pessoa, Camillo Sbarbaro, “Sentimento del mondo” de Carlos Drummond de Andrade e Cesare Zavattini, além do “Cantico dei drogati” de Fabrizio de André, e poesias de Giorgio Caproni, Alfred Corn, Pina Piccolo, Luis Benítez e Fatima Na’ut. Em outra seção, Vento Nuovo, são presentes os contos e as poesias de novos autores, além de trechos e contos extraídos de vários livros publicados recentemente na Itália, na seção Nuovi Libri.

Neste mesmo endereço telemático encontrarão a atualização da seção Il Direttore, com o conto L’onda d’urto, de Monteiro Martins.

Esperamos que os ensaios, os contos, as poesias e os trechos de romances selecionados possam oferecer-lhes muitas horas de agradável leitura. Cordialmente, A Redação de Sagarana"

http://www.sagarana.net/home.php