30 de junho de 2016

AVE MARINHA



Nei Duclós

Ave marinha, cheia de espaço
bendito é teu voo entre os mastros
anuncias a terra que a gávea adivinha
recebes a barca expulsa da treva

Não é mais segredo, Deus é bonito
apoio de amor nas redes de arrasto
praia infinita posta em sossego
asas que o tempo não contamina

Calor de fogueira, farol de encomenda
tudo o que vive vira poema
sombras de nuvens seduzem o peixe
ave marinha, breve roteiro

Já estou partindo, vim muito cedo
busco o festejo dos navegantes
amantes crismados no sal do desejo
por tua imagem batida de vento


29 de junho de 2016

ESQUEÇA



Nei Duclós 

Esqueça.
Assim você limpa a área
Nenhum contratempo vale a pena

Lembre
o que a imaginação contempla
o melhor das tardes sem remédio

Conceda
a existência fora dos teus olhos
que te ignora de maneira esplêndida


CLAUSURA



Nei Duclós 

Vens para perto, a uma distância segura
não queres a colheita, fina flor madura
amores se acumulam sem saber direito
o quanto determinas o espaço da clausura

Já rejeitaste reis, doutores e arquiduques
fê-los desistir com a mais sólida postura
preferes os estudos, grossos pergaminhos
volumes de leitura, papéis de mil registros

É nobre o caminho da árdua formatura
em altos tribunais decidirás destinos
menos o amor, que deste tens resguardo

Apostas no futuro, que te deu motivo
para decidir a vida em tempos de infortúnio
eu serei apenas o aplauso demorado


25 de junho de 2016

ENSAIOS DE LITERATURA E HISTÓRIA



Nei Duclós

Os ensaios reunidos neste livro, AS RUÍNAS DO DISCURSO, foram publicados desde 1976 em revistas impressas, como Veja, IstoÉ, Senhor (da Editora Três), virtuais, como Cronópios, Revista Bula, Digestivo Cultural, em jornais como Estadão, Folha de S. Paulo, Zero Hora, Jornal Opção, Diário Catarinense, em prefácios para editoras como a Globo Livros etc. A diversidade da divulgação nesse largo espaço de tempo tem um vetor principal: são textos fundados na abordagem literária não tradicional, adaptando as descobertas de grandes mestre sobre a linguagem, como Barthes, Foucault, Borges, Ezra Pound, e ousando imaginar um território fecundo de ideias sobre a prosa, a poesia e a História.


UMA SELETA DO NOVO LIVRO

 Um copo de cólera, de Raduan Nassar 

A oposição fundamental que existe neste pequeno texto de Raduan Nassar não é entre um homem (desiludido e de meia idade) e uma mulher ( jornalista e liberada) È, antes, um duelo entre a linguagem e o discurso, entre o corpo e a cólera. São dois elementos que, aparentemente feitos da mesma matéria-prima, possuem rituais diferentes e evoluem em espaços desiguais.

O corpo ( a linguagem) é a redenção permanente, o desdobramento do prazer através da proximidade, do detalhe oculto numa vitrine de formas. A cólera ( o discurso) cabe num copo: sua arma é a transparência e o seu desespero é a própria limitação.


Os Passos Perdidos, de Alejo Carpentier

O romance, ofício maior da literatura, é a aventura humana num território hostil. É a busca das fontes mais poderosas dessa arte, por meio dos rastros (as palavras) deixados pelos passos perdidos de tempos simultâneos, fases de civilizações superadas que coexistem a pouca distância do que se considera o presente. Por meio de guias, do instinto, das revelações, dos cheiros, da chuva, do granito, das criaturas de todas as formas, o autor parte para o Incriado, onde medram plantas que se recusaram a servir de alimento e deuses que jamais foram nomeados e que desaparecem sem deixar vestígios.


MacBeth, de Shakespeare

O enigma principal é saber se a trajetória humana determinada pelo Absoluto pode servir de repasto para o livre arbítrio. No momento em que a vontade se impõe e faz acontecer, ela estaria apenas cumprindo a escrita ou se transformando, por meio da transgressão, numa volúpia, a de desobedecer o sagrado, que até as bruxas adivinham?      


AS RUÍNAS DO DISCURSO
Ensaios
ebook em PDF
135 Pgs
Edição do Autor
2016

Peça seu exemplar que eu envio por email.
Escreva para mim aqui no face ou por email neiduclos@gmail.com
O valor é opcional, de zero reais a 30 reais.

23 de junho de 2016

FOTO ANTIGA



Nei Duclós

Posso ser qualquer um na foto antiga
o primeiro do fundo, o que faz figa
o que está rindo para fora da janela
o que deixou barba e raspou o cabelo

Posso ser o primo, o irmão, o marido
o menino que brinca com a garota ruiva
o tio empinado porque lutou na guerra
o pai que se foi, o filho que não volta

Esse gosto aflito e amargo de memória
a perda, o dia de celebração ou choro
e que nos desafia: onde estou nessa hora
de formatura? quando foi tanto aniversário?

Foi há tempos. Mais de uma vida se acumula
em retratos avulsos de sótãos diversos
baús que convidam a lembrar das histórias
e a noção que temos de que não há futuro