7 de novembro de 2019

NA PONTA DA LÍNGUA

Nei Duclós


Não use palavras mortas
Que perderam o sentido
Assassinadas pelo obscurantismo
Mas as antigas que ressuscitam
Ou as novas que sobrevivem
Ao domínio da gíria

Use a língua culta
Alfabetizada pelo ensino
E que serve em todos os nichos
Inclusive nos lugares que a criticam

Faça versos que não temem
Qualquer inimigo



6 de novembro de 2019

FECHAMENTO

Nei Duclós


Estavam todos vivos até há pouco
o Tarso com seu jeito louco
o Scotch com a barba de Cuba
o Bi arregalando o olho
juntando laudas com Sergio de Souza

Estavam todos vivos até há pouco
o Múcio sempre nervoso
o Fortuna com cara de ogro
o Marcão Faerman e seus rebanhos
Markito e Gaguinho, que se foram cedo

Estavam todos vivos até há pouco
nas redações de telefone preto
nas teclas de duro alfabeto
nos papéis errando a cesta
nos gritos, gargalhadas, canetas

Estavam todos vivos e nem eram moços
tinham quilometragem em carne e osso
gastavam tudo pois não havia posse
apenas a fúria de escrever uns troços
que eram a vida inteira em papel impresso

Estavam todos vivos ao redor do fogo
que jamais morria por falta de histórias
havia algo maior acima dos armários
ou das madrugadas na ponta do lápis
talvez a eternidade sem se darem conta

Eu estava no meio, aprendendo o ofício
querendo ser útil, um irmão mais novo
um recém chegado ainda sem pouso
recebido como um igual e não era o caso
fui apenas o sujeito que ficou por último

Estive com eles até há pouco
meus irmãos de esquinas e encontros
títulos definitivos, páginas em branco
textos com precisão de linha de tiro
sons de baterias metralhadas ao longe

Por isso mostro hoje esse andar aéreo
como quem procura aquela dúzia de tontos
talvez eu esteja ainda lá, perto da meia noite
quando o mundo explode e não há mais tempo
Não tem por onde sair na hora do fechamento



ASTUTOS

Nei Duclós


Os demônios são astutos
Incorporam a crítica
e atribuem o que são
aos quem os caça
De raposa para cavalo
De onça para atiradeira

Os demônios são fajutos
Mas assumem a nobreza de espírito
Fraque sobre o lixo
Medalha de corruptos

Os demônios são batutas
Vanguarda em falsa cultura
Modelo de terror com brilho
Tortura em capa de revista

Os demônios são redutos
Ninho de correção esdrúxula
Olimpo de extrema feiura

Acham-se impolutos
E não inoportunos
40 dias no deserto
Resistem os justos



4 de novembro de 2019

TEMPORADA

Nei Duclós


O que é feito fica
Obra que te visita
Após o desmanche

O que posto some
verbo pastel de vento
Conversa posta fora

O que esqueço volta
Memória que não mereço
História fora de hora

O que escrevo queima
Temporada de incêndio
Leitura abaixo de bala



31 de outubro de 2019

ÂNCORA

Nei Duclós

Estávamos à deriva.
Quando nos encontramos eu lancei âncora.
Mas era alto mar
E continuaste à disposição dos ventos

Agora é cais
E me cobras posição
Não temos mais razão
Para aportar
Já me acostumei a te procurar
Em vão


27 de outubro de 2019

PERDIDO

Nei Duclós


Tantas vezes te perdi
Mudaste de identidade
Mas sempre foi o mesmo amor que desisti

Vai-te embora de mim disseste
Coração sem pouso cais submerso
Teto derrubado sítio sem cercas
Migrante no vento

Nada medra no teu áspero cultivo
Amante perdido sem memória



AMARRAS

Nei Duclós

É frágil o vinculo de qualquer matéria
Aço ferro ouro ou madeira
E nas amarras virtuais também se parte
O eterno amor ou o dom da arte

Tudo a morte iguala
Mesmo em vida decepção ou assombro
Existir é uma defecção sem norte
So se manifesta e por isso explode

Milhares de gerânios em tua janela
Enquanto eu for teu o mundo se move



CARIDADE

Nei Duclós


Tudo o que me falta eu reparto
Flor que não recebo
Beijo que me negam
Palavra que me escapa

De ti não quero nada
Amor que foi embora
Doçura hoje amarga



26 de outubro de 2019

FRONT BRUTO


Nei Duclós

Quebras quando chego ao limite
E me derramo, grama no granito
Rompendo o dique no risco da fronteira
Vocação amorosa que escolhe o crime
Volúpia de uma espera, flor que se demora

Não explico a fala que dói no entendimento
Peça socorro a quem te afastou, sorrindo
Enquanto eu ficava sério no front bruto e avesso



16 de outubro de 2019

LUGAR

Nei Duclós


Achei que aguentava
Que resistiria
O que é um amor
senão uma fantasia?

Mas me enganei
Fiquei onde estava
No lugar do adeus
Onde poderás achar
O que para sempre
Se perdeu



NÃO FAZ SENTIDO

Nei Duclós


Não faz sentido tanto desperdício
Por isso acredito no momento único
Tudo é simultâneo, virtude e vício
Ruas antigas cruzando edifícios
Avenidas em camadas, cidades nas nuvens
O tempo recriado em minutos paralelos
Convergindo para o mesmo núcleo

Onde existes e voltas para mim
Musa abraçada ao meu ofício



15 de outubro de 2019

SEM ARESTAS, A EXPOSIÇÃO 2


Ao longo de outubro de 2019 está exposta no Centro Cultural de Uruguaiana, RS, um trabalho feito a quatro mãos: fotos da artista plástica, escritora, poeta e fotógrafa Marga Cendón, com poemas meus feitos especialmente (com exceção de dois, já publicados em livros) para estas imagens. A seguir alguns exemplares da mostra. 


SUDOESTE

O sol se despede a sudoeste
Sob a bênção das águas e dos bichos
Acena, terminal, sem a fronteira
Que a terra impõe como destino

Ele mergulha em nuvens e pintura
No convênio entre a hora e a criatura
Pois se há um Deus Ele confessa
Sua vocação de artista e de poeta

Nei Duclós
Sobre foto de Marga Cendón
Da exposição SEM ARESTAS
NO Centro Cultural de Uruguaiana.




CAMPANHA 

O brete acompanha o campo
Perdizes ficam atentas
O medo aos solavancos
Atiça o voo rasteiro

Memórias marcam encontro
Antes que chegue a tormenta
A cerca divide o mundo
A solidão se concentra

Nei Duclós
Sobre foto de Marga Cendón
da exposição SEM ARESTAS
no Centro Cultural de Uruguaiana


SOSSEGO 

O quintal da casa é o Continente
Território próprio de São Pedro
O gado e a mata são extremos
Extensões do braço e do sossego

Não está perdida esta presença
No centro do mundo fica o ermo
Quem vive ali tem companhia
A obra do amor com a natureza

Nei Duclós
Sobre foto de Marga Cendón da Exposição SEM ARESTAS no Centro Cultural de Uruguaiana

SEM ARESTAS, A EXPOSIÇÃO 1


Ao longo de outubro de 2019 está exposta no Centro Cultural de Uruguaiana, RS, um trabalho feito a quatro mãos: fotos da artista plástica, escritora, poeta e fotógrafa Marga Cendón, com poemas meus feitos especialmente (com exceção de dois, já publicados em livros) para estas imagens. A seguir alguns exemplares da mostra. Segue no próximo post. 


ROMPANTE

Flor é penugem do campo
Amacia o rosto bruto
Parece água à distância
Diante do céu se maquia

Um outro cheiro cavalga
O dorso do pasto pobre
Cobre de luz a moldura
De uma paisagem sem nome

Fico perto porque assoma
Algo maior nestes ermos
Um rompante feminino
Na garupa de um perfume

Nei Duclós
Sobre foto de Marga Cendón
Da exposição SEM ARESTAS
No Centro Cultural de Uruguaiana.

Nei Duclós
Sobre foto de Marga Cendón da exposição SEM ARESTAS





QUERÊNCIA


Imenso, é a palavra do campo
Sem limites no seu corpo verde
Cabe nela o tesouro vasto
Feito de amor à primeira vista

Percorro sua luminosa especiaria
Querência, torrão de sentimento
Nenhum ouro vale tanta herança
Pertença por nascer em seus domínios
E morar em sua essência todo dia

Longe, como alguém que vai embora
Próxima para todos os instantes
Chego em ti quando respiro fundo
Sou tua voz que escuto em boa hora

Nei Duclós
Sobre foto de Marga Cendón da exposição SEM ARESTAS



BARCOS NA MARGEM nei

Não é preciso muito para a travessia
Remos ocultos no chão das chalanas
Dar as costas para a arquitetura

E esperar a noite, quando a ponte dorme
E sua sombra não reflete a lua
Cruzar no remanso a favor da correnteza
Levar no dorso o que a pesca desconfia

A margem do rio tarde se acostuma
Aos barcos imóveis imersos e duros
Mas eles escapam e cruzam a aduana
São ligeiros como piavas na linha

Nei Duclós
Sobre foto de Marga Cendón
Da exposição SEM ARESTAS
no Centro Cultural de Uruguaiana

14 de outubro de 2019

QUALQUER COISA

Nei Duclós


Qualquer coisa pode substituir um poema
Um encontro uma lembrança um emprego

Palavras sonoras não são necessárias
Versos estrofes sonetos
Essa é uma arte obsoleta

Exerço porque assim me expresso
Sonho de Arlequim dominando a cinza


POEMA SEM RETORNO

Nei Duclos


Arrisco a obra que de obra não tem nada
Já que não me cobra a majestade do espólio
E se oferece na feira sem os valores canônicos
Nem por isso deixa de ser o acervo que cultivo
Com o piso do mercado ou seja nada
Pois o poema está vivo e recusa o vicio
De ser um caso especial no mundo dominado por mendigos

O fato é que a poesia é como batida metáfora
Flor selvagem nascida nas fendas do martírio
Que medra livre ante os pontapés da fúria
Não por ter perfume mas por ser o que não morre
Composta do risco de criá-la em sacrifício
Sem dar retorno a não ser dizer que existo




ANTES DO VERBO

Nei Duclós


Antes de alguém escrever o Gênesis Deus não existia
Ele passou a Ser a partir do primeiro testemunho
Mesmo que o texto reporte os primeiros atos divinos
a existência de Deus não é retroativa

Deus disse faça-se a luz e a luz foi feita
Significa Deus só agora passa a existir
porque temos consciência disso pelo relato

O que era feito de Deus antes das primeiras linhas da Biblia?
Falar de deidades ancestrais não vale
São outros deuses
Não o Uno onisciente e onipotente

Terá ele poder sobre a literatura da sua origem?
Há controvérsias. Disso se aproveitam os ateus
E os poetas



8 de outubro de 2019

A VIAGEM DE AFRODITE


Nei Duclós



Vieste do mar a bordo de um naufrágio
E no cais de Nápoles oficiais te carregaram
Os homens de joelhos diante da tua beleza
As mulheres pediram flores do teu regaço

Foste conhecer os templos e monumentos
Que sustentam Veneza e Firenze
Ardias mais do que o sol da Sicília
Os príncipes duelaram até o ferimento

Mas partiste para paisagens nórdicas
De ombros cobertos e proteção na cabeça
Teus cabelos não mais esvoaçam em Roma e Milano
Teu ano sabático quase nos partiu ao meio

Estás voltando, deusa que o amor inventa
Na garupa de um poema que riscamos na bandeira
Desta nação que te ama e te pertence
Itália, que abraça a Deusa
E celebra tua cama ornada de ouro
No Olimpo eterno, nossa devoção sacrossanta



28 de setembro de 2019

CAVALEIRO DE AVENTURA

Nei Duclós


Não quero, pastora, ser teu vassalo
Amarrado ao amor pela cintura
Cerzir versos no inverno da planura
Nosso campo com clima de deserto

Prefiro rasgar o chão e sonhar trigo
A ficar embevecido na beldade
Para tanto renunciei à minha cidade
Pois de festas e salões estava farto

Leio Camões em exigua biblioteca
Para ferir canções no pinho antigo
Isso depois de semear e fazer fogo
Para teu rosto iluminar parede e teto

Quanto mais perco mais pesado fico
Deveria ser o contrário disso
Estaria leve por sofrer martírios
Mas sou um xucro cavaleiro de aventura

Fui poeta agora sou mendigo
Vivo das plantas que à força medram
E para não me limitar ao esses redutos
Amo-te sem razão porque sou loucura



21 de setembro de 2019

NOVO MUNDO

Nei Duclós


Reconstruímos o mundo
Nas ruínas depois do cataclismo
Dele ficaram essas pedras retorcidas
Monumentos sem rosto
Esculturas de gigantes
Perfis de um enigma
Sem retorno a nos perguntar
Quem somos nós
Criaturas geradas em águas profundas
Ou pelo fogo fátuo das estrelas?



20 de setembro de 2019

INVASÃO

Nei Duclós


Não me entenda mal, a tua beleza não é o motivo
De me aproximar com tanto esmero
Fico longe pois conheço que sou número
Entre tantos que sobram pelos cantos

Mas fico à vista, a esperança é a grande fantasia dos cativos

É o teu jeito, tua auto estima
Que projeta essa postura de estadista
Como se fosses dona do meu reino
E eu um pobre cavaleiro andante

Por isso arrasas sendo apenas o que vives
Com esses atributos de escultura
Houvesse uma religião minha devoção
Teria a força de um templo dos romanos

Deixo meus exércitos fora da cidade
Como ordenam as leis dos sacerdotes
Mas a insurreição parece inevitável
Deusa do Olimpo que invadiu o Capitólio



19 de setembro de 2019

SAÍDA


Nei Duclós

Poucas palavras bastam para cobrir a fuga
Uma senha que encontre a saída
Uma porta de entrada
E basta para despir as roupas antigas
Ganhar outro nome
Viver de brisa



BARCO PEQUENO


Nei Duclós


Talvez precise, mas não devo recitar o poema
Dizê-lo em praça pública
Ou confiná-lo em salas de leitura
Ou sussurrar versos em pérfida epifania
Ou mesmo inseri-lo em discursos

Devo abster-me
Como se estivesse sempre mudo
Ele estará recolhido em conchas
Ou velhos livros
Enquanto me mantenho à deriva
No mar que é meu segredo
Barco pequeno que rema contra o Tempo



ARGONAUTA

Nei Duclós


A maior aventura é o conhecimento
É o que me anima, máquina do tempo
Não para saber, que é pilha nas estantes
Mas descobrir, navio dos argonautas

Ver pela primeira vez é o assombro
Terras ignotas, gigantes de granito
Crônica em papiro, diários de bordo

Voltar então com o olhar devassado
Por ter cruzado o mar de estrela distante
Marco polar, aurora permanente
Mais de um sol, luas delirantes

A grande aventura é conhecer-te
Amor, mulher madura, coração ainda verde



16 de setembro de 2019

ENSINO


Nei Duclós


Você me ensinou os poemas de amor
Me aceitou, me quis
Foi e voltou como as estações
Depois me exilou

Na solidão medito nessa consagração
Que me devolveu o sentimento
Que ao contrário de você
Ficou


14 de setembro de 2019

AMARRA

Nei Duclós


Escreveste na pedra para que eu não esqueça
Mas não decifro rabiscos ou hieroglifos
Fico na mesma, não te compreendo
Sou leitor desatento, homem sem brilho

Herdaste dos deuses a inteligência
És de outra estirpe, talvez de outra espécie
Sobrevivente de um cataclisma
Mas que sucumbiu com algo mais forte
Meu desamor, tosca linguagem
De poemas forçados diante da deusa

Sou arauto da dor, sumida princesa
Preciso reler teu alfabeto
Talvez eu encontre o que nos separa
E costure uma ponte e aperte essa amarra



NO BALCÃO


Nei Duclós

Por acaso nos encontramos num café, em lugares opostos no balcão.
Ela se mostrou surpresa pois achava que tinha sumido de vez do alcance do meu sonho.
Ficamos nos olhando longamente, chamando a atenção de quem estava ao redor.
De repente eu disse num murmúrio, arrancando dela um sorriso profundo:
- Eu te amo.

A mulher que estava de olho grudado em nós na extremidade do balcão, chorou.



13 de setembro de 2019

LAÇO DE CATIVO

Nei Duclós


Só você não leu o que te escrevi
Exausto da solidão, que é viver sem ti
Já pedi perdão, já me arrependi
Estenda sua mão que ainda estou aqui

Não pense que sumi apenas que sofri
E continuo teu como nunca estive
O amor é uma emoção, laço de cativo
Não nasce em vão, não ache que morri

Me dê uma razão, volte para mim
Posso imaginar se acaso te perdi
Mas não hei de passar por essa traição
Pois tens o punhal beldade de um verão
E podes machucar mais do que já errei



AFRODITE

Nei Duclós


Te roubei do altar onde um oportunista
Quase te levou do meu convívio
Queria te expor como um bibelô
E não pelo que és, glória feminina

Nasceste porque Deus chegou ao limite
Da sua obra, esplêndida Afrodite
Ele se apaixonou mas deixou-te livre
Já que não é Zeus e numa sarça ardente
Disse-me que eu não deveria perder-te
Que eu não sou Odisseu que abusou da sorte
E quando voltou ainda tinha a bela
Que a todos resistiu ao tecer destinos

Te roubei do altar, momento de perigo
Com meu cavalo branco que foi do imperador
Soldados nos seguiram fazendo a segurança
E logo depois casamos, o povo estava em festa

Jogaste as flores para mill mulheres
E o mundo te amou, noiva que me deste
A felicidade por ter corrido o risco



ESCONDERIJO


Nei Duclós

Não tenho mais acesso, levantaste um muro
Pelo crime de eu ter dito o que não devia
Foi em vão a carga de poesia
Que te de dediquei de maneira explícita

Resolveste te ofender, plena de vurtudes
E eu pecador, com meu jeito rude
Sem jeito de tentar uma nova chance

Foste embora por um erro de cálculo
O tempo é meu aliado, não o meu verdugo
Fico melhor no amor correspondido
Mas não perco o prumo, mesmo tão sozinho

Perguntam porque exibo este rosto triste
Acham que perdi o gosto pela vida
Nisso não aposte noiva em sóbrio exilio
Posso não sorrir mas serei forte
Busco onde estiver teu esconderijo
Do deserto vim, rastreador indígena



11 de setembro de 2019

TUS OJOS

Nei Duclós


Tus ojos tienen el frescor de las mañana
Tu cuerpo es árbol, agua de montaña
Soy tu pájaro que sube hasta las nubes
Dices amor e el mundo se transforma
Es la primavera muy temprana