18 de fevereiro de 2018

POEMA MIÚDO



Nei Duclós

O poema miúdo como semente
Oculto entre as pedras
Próximo rebento

Ciscas no terreno alheio
La está a palavra
plantada a esmo
Tocaia de serpente

Sonoridade sutil
De natureza extrema
Aguarde que ela cresce
traiçoeira


SERENO DE ZINCO



Nei Duclós

Converso comigo porque não tenho abrigo
Moro na rua, sereno de zinco
Falo sozinho sem testemunhas
A noite escreve na tela invisivel
O que digo sem pé nem letra

Vivo por estar decidido
Almoço o que sobra, palavras de ouvido
Depois espero a lua
Que me expulsa

Sou raio perdido na cidade imensa
Sirenes, neblina
Caminho com meus sapatos vencidos
Que ringem ocultando o assobio

O orvalho faz o serviço
Durmo no meio da avenida
Os carros confundem com um mendigo
Mas eu surpreendo levantando voo


17 de fevereiro de 2018

MESA DE MANHÃ



Nei Duclós

Café é necessário
Madrugador

O sol antes de ser sol
Esfrega os olhos de amanhecer
E sai de café tomado
para seus ofícios de pastor

O sabor sobre a mesa
E o corpo desperto
Querendo coisa

Cheiro de café
misturado à flor


13 de fevereiro de 2018

A MESMA MOEDA



Nei Duclós

Palavras ofensivas ferem profundamente
Tiram pedaço de corpo presente
Levam para o ralo tua consciência

Tentas recompor o que perdeste, mas em vão
Teu tecido luminoso aquele espaço não recupera
Pode cicatrizar, como sinais de uma guerra

Pior quando devolves na mesma moeda
A ferida então fica enorme


12 de fevereiro de 2018

ENTRE O MAR E A MONTANHA



Nei Duclós

Lutam sozinhos os que não querem conversa
Que assumem o risco por contingência
E não desistem das suas metas
Concluir a obra, salvar quem resta

São identificados no trato diário
Que a carnificina impõe, demente
Nas valas comuns de funerais ou trilhos
Estarão no trem e sobre a plataforma

São pessoas que de perto jamais se destacam
E são chamados no horror para cumprir ordens
E eles assumem sem pensar a parada

Ninguém dá apoio e nem acompanha
São criaturas sem forma
entre o mar e a montanha


11 de fevereiro de 2018

AMANHEÇO PORQUE É TEMPO



Nei Duclós

Amanheço porque é tempo
Chega na hora certa
Com seus ponteiros de aço
Aponta para que eu veja
O rosto do instante exato

Trair meu caso com a noite
Despedir-me da Minguante
Levar o lixo de estrelas
Para que o sol as recolha

Meu corpo escolhe o levante
Minhas mãos inventam fogueira
Há um despertar de esperanças
Um som de vento longínquo

Amanheço porque a vida
Assume todo o comando