28 de maio de 2017

OGRO



Nei Duclós

Todo trabalho do ogro
Em obscura oficina
Malhando durante o dia
Queimando cobre no escuro

Era para ser o encontro
Com alguém que compartilha
Hoje um acervo longínquo
Autores que se apropriam
Da atenção que ele dedica
Ao compor verso preciso

Que mistério desorienta
O que era posto em destino
Que cansaço experimenta
A musa bem definida
Ao escolher outro rumo
Depois de jurar o vinculo?

Será culpa do poema
Gestado em ambiente lúgubre
Ou a aparência do mestre
Aos cuidados da insolência?

Ele confia na sorte
E nenhum sinal escuta
O crocitar da surpresa
De tocaia em seus redutos

Quando enfim se resolve
Está só diante da lua


27 de maio de 2017

DAMOS EXEMPLO



Nei Duclós

Pequeno é o que vemos de cima
No topo da trilha, mirante em montanha
Nosso olhar é vasto no mundo mesquinho
O ar que escasseia nos inspira

No alto somos arautos da sabedoria
Repartimos a luz com quem vem da planície
Temos algo de sagrado, sacerdote e pitonisa

A ilusão se desfaz quando há poesia
E deixamos de lado toda soberba
Acendemos o fogo rodeados de magia
A que veste o espírito, não a que o condena

Abraçamos o sonho e não a maestria
Damos exemplo ao escolher o abismo


FIBRAS SOLTAS



Nei Duclós

Corte a corda e descubra
as fibras soltas em pânico
Quando se recolhem hirtas
em espirais de espasmos

Assim é a ruptura no amor
que parece firme
e amarra o laço
E quando algo interrompe
há esse redemoinho
dos momentos em comum agora sem espaço

É a contingência, mais do que o abandono
que define o fim, e nos põe na rua

Por isso perdoa quando há retorno
o que está disperso sempre se costura
Descobri que no primeiro encontro
dividimos uma senha, a mesma música


CERCO



Nei Duclós

É feio dizer quando não há rodeio
Na fala direta de potro sem freio
Quando não nos civilizamos
E levantamos uma casa na pressão do inverno

É uma fala aos gritos ou num tom de aboio
Madeira sem artifice, mármore ainda bruto
Material de obra que não se completa
E fica atirada, roupa já sem uso

No caso do poema é quase uma tragédia
Rifar a palavra em tosco acampamento
O verso se vicia como garoto lerdo
Envolvido no jogo dos calaveras

Nem sempre é possivel escrever bonito
Ainda mais quando o ofício é compulsivo
Brota a estrofe feito gado xucro
No acervo virado em latifúndio

Não espere flor, chorinho ou arabesco
O cantor pampeiro trova enquanto luta
Tem a missão de manter coeso
O espírito disperso de um pais sem rumo

Isso exige pulso e uma voz liberta
Cerco de cruzada, tropel de um Deus reiúno


25 de maio de 2017

HORA DE AÇÃO

Nei Duclós

Exponho o corpo ao frio para que saiba
o quanto de cosmo há no clima ameno
recado físico trazido por cometas
em conluio com o gelo de outros sistemas

Os poros agradecem, depois de torrar na areia
no verão interminável e sem sossego
a pele gosta do arrepio bem no começo
antes que o inverno venha em seu recesso

Outono é assim, nos mantém alertas
o ano não tem mais álibi contra compromissos
é hora de ação, inaugurar o espaço
que estava oculto e agora se apresenta


DECISÃO



Nei Duclós


A dúvida na autoestima
quando só somos meninos
espalha-se na idade adulta
como se fossem raízes

Isso mantém submissa
a vontade na armadilha
permanecemos convictos
superficie do destino

A não ser que venha um dia
O amor que contraria
as lições da confraria
os ditames da familia

Você consegue é o lema
doce despertar sem vínculo
com as amarras do nó cego
Esse amor é que decide