11 de maio de 2021

AMARRA

 Nei Duclós 


Dispensei teus cuidados respondendo positivo 

Logo depois te despedes com figurinhas

Voltamos à infância no colégio

Divides a merenda me olhando sério 

Sou o cara dos teus sonhos, há séculos 

Armarraste meu  destino ao teu vestido 



10 de maio de 2021

INSONIA

 Nei Duclós 


Não durmo se você não me responde

Aguardo a noite toda seu boa noite

Como criança que segura o  sono 

Até vir o beijo do amor no rosto


Não sei porque demora esse simples gesto 

Como se houvesse esforço em retribuir o aceno

O pior é  ter de sofrer calado

Senão passo por carente ou bobo


Pensando bem estou pouco me lixandio

Vou dormir assim mesmo sem cobertor no inverno

Depois vais saber que passei frio e fome

E aí te arrependerás tarde demais, por certo


Na noite seguinte tudo recomeça 

Amar sem retorno é viver de insônia 

A não ser que venhas mesmo no sonho 

E me diga durma, seu grande teimoso



9 de maio de 2021

MINHA MÃE

 Nei Duclós 


Minha mãe se foi cedo, aos 62

Para mim, que hoje sou dez anos mais velho

ela era uma anciã, de lentes grossas devido à catarata

E ficava em pé cada vez mais frágil

Nunca vi minha mãe  correndo

Andava devagar e a tudo observava

Parada e só como árvore isolada no pampa


Criou sete filhos, sendo quatro marmanjos que lhe deram trabalho

e cada um jura que era o favorito

Levava as gurias para os bailes e a todos encaminhava nos estudos


Lecionava multidões de alunos que iam dividir o café da tarde conosco

Só sei até o ginásio, dizia

E isso bastava


Tecia puloveres com mangas enormes pois cresciamos e a lã durava mais de um inverno


Decifrava charadas dos jornais usando dicionário Lello

E foi a primeira leitora das minhas poesias

Aos dez anos eu já era um intelectual e dizia para ela

Fiz um poema mas acho que tu não vai entender

Ela achava a maior graça e contava para as amigas


Foi assim que eu não sendo nada virei coisa

Pela mão de quem representava a divindade na terra


ENIGMA

Nei Duclós 


Dormem os monumentos em formas incompreendidas

Deuses, animais, reis, altares velam nas pedras desse enigma


Talvez em sonho saibamos do que se trata

Mas acordados nossa lucidez está cega


Tateamos no escuro em plena luz do Sol


Desconhecer é  o verdadeiro abismo

Nas montanhas sagradas


Nei Duclós

6 de maio de 2021

ABERTA

 Nei Duclós 


As palavras apodrecem dentro de nós 

E isso nos adoece

Precisamos mudá-las de lugar


Levá-las para o alto mar

Com novas velas 

Escutar suas raizes

Livres das perdas


Elas vivem debaixo do teu olhar 

Amiga certa 

Teu coração enxerga 

Pulsam em tua veia poética 

Motor da circulação 


Venham, diga para elas

Aves de arribação 

Na vida aberta 



PERFUME

 Nei Duclós

Escrevo em teu vestido com letra imperceptível. Para leres depois, ao te despires. Levarás o verso ao rosto como se fosse perfume.

ARMADILHA

 Nei Duclós 


Teu corpo é  a roupa que revela

A oculta curva e os detalhes

Um só  brinco nenhuma costura

O véu que desce até mostrar o joelho


Parece  falsa essa cobertura

Por ser de seda e cor púrpura

Mas é a pele legítima em voo de  conquista 


Perdes o ar de musa e ajeitas a cintura

Arrumas um cisco no olho por disfarce

Deixas nus os ombros  pois todos   consentem

Sem saber que neles está  a armadilha


O golpe final é  o xale que providencias

Para depois tirá-lo frente ao príncipe

Que bobo se ajoelha por saber de sobra

que a única majestade 

é  a beleza feminina


A tua, tigra


OBRIGATÓRIO

 Nei Duclós 


Assuma o compromisso, me dizem

Para o tempo não parar no lixo 

Mas já conheço o resultado disso

O que é  obrigatório  vira confisco


Melhor deixar para lá 

Como na canção dos Beatles 

Sem pretensão à  sabedoria


Não me aconselhe

Nem siga meu caminho 

Faço tudo o que devo

Na fantasia que exerço com rigor

Todos os dias



OVERDOSE

 Nei Duclós 


Vou deixar passar essa foto 

Faz de conta que não vi 

Nem sempre suporto a beleza exposta por ti

Overdose de amor pode ferir

Guardo meu olhar para o que não esqueci



OUTRO LUGAR

Nei Duclós 


Parece indiferença mas é  solidão 

Deixo passar o gesto da paixão

Se pudesse voltar , mas não 

Já estás em  outro lugar, coração



RODIZIO

 Nei Duclós 


Só penso bobagem 

Não perco mais tempo  com coisa séria 


Não tem mais viagem 

Não vendo meu tempo para tirar férias 


Saiu da janela 

Não passa  mais gente querendo conversa


Não vou ao   cinema

Ninguém quer ficar só na plateia


Não quero notícias 

Ler vozes  no escuro dispensando a lanterna


Durmo de  dia

Para acordar com teu beijo sob o mesmo teto 


29 de abril de 2021

CHARADA

 Nei Duclós 


Por mais que você mostre 

Faça  posts publiquei fotos

Compartilhe direitos  e  assuma compromissos 

E diga força ou meus sentimentos

E agradeça e proponha adicione ou bloqueie

permanecerá  o enigma


És a sombra do que dizes



27 de abril de 2021

PEDIDO

 Nei Duclós 


Pedi um amor para a Lua

Ela ficou de pensar

Toda noite te insinuas

Nas sombras do meu olhar


Seu tempo já foi embora

Disse alguém lá por de trás 

Perdeste o trem e a hora

Agora não serves mais 


Mas continuo presente

Nas viagens de alto mar

Sereias são confidentes

Dos teus segredos de amar 


Pedi um amor para a Lua

Ela ficou de pensar

Mas por  ciúmes não te avisa

Que estou louco para voltar



CICLO

 Nei Duclós 


Repartir a palavra

Não em sílabas

Mas em quem a multiplica 

Intacta, distribuída

Pela colheita infinita


Trigo que se recicla

Na fome desassistida

Não é o pão que consome

Mas o amor que pega firme 



26 de abril de 2021

PEQUENA

 Nei Duclós 


Vejo você, pequena

Que nas fotos desconheço

Vestido simples em sala sóbria 

A sorrir baixinho antes que acordem


Batom sem brilho, cabelo frente ao espelho

Não sai de casa  a não ser quando há  Lua

Olha para o céu e murmura que ainda é  dia 


Eu sinto as palavras que projetas obscura

Somos amantes nesta pandemia 

Fazemos amor, eu na cama impura

Onde fantasio nossa  entrega 

E tu, cabeça mas nuvens

A sonhar comigo, desejo sem limite 

Suja de terra e purpurina



21 de abril de 2021

PAREDES

 Nei Duclós 


Derrubamos as últimas paredes desta prisão hedionda

Teu  corpo desmoronou com estrondo de orgasmo 

Restamos em ruínas de um prazer tonto

O que fazer do amor, bicho teimoso

A esconder-se nos matagais deste sonho?


DATADOS

 Nei  Duclós 


Éramos moços

Adotados pelo Tempo

Pai emprestado

Que nos fazia as vontades

Ficamos mal acostumados

A uma falsa eternidade 


Achamos que podíamos alcançar o Tempo e seu poder

Mas estamos órfãos, adultos datados


Hoje o Tempo é  apenas um velho

Não cuida de nós, impõe

limites da idade  na terra insuportável 


De moço temos nosso ofício

Arma que nos mantém acesos

No fogo da arte 



20 de abril de 2021

TRIGAIS

 Nei Duclós 


Estou aqui de novo ao pé da cama 

Não tenho para onde ir, cruzar fronteiras

Sala copa quarto varanda

E o tempo repetido no seu drama 


Sonhei com o futuro e ele se recolhe

Como um cão numa caixa de papelão 

Enquanto a dor se derrama

Num funeral sem orações 


Estou aqui de novo

Acenda a luz, me faça companhia 

Juntos poderemos mudar o destino?

Já que ele não é  Deus será dobrado 

Como vergam os trigais antes do grão 



17 de abril de 2021

CONCERTO

Nei Duclós 


A palavra perfeita é  mais que perfeita 

É feita de luz, equilíbrio e beleza

Postura de voz colocada no jeito 

Notas e acordes, canção  de repente


Cantas de pé no salão sem espelhos

És de um tempo de paz, vida contente

Tua saia plissê,  blusa transparente

Eu escuto no sonho,  profundo concerto 



GRANIZO

 Nei Duclós 


Não se aproxime, vivo sozinho 

Acostumei o dia ao espinho

Posso ferir, por não ser humano 

Nem fazer parte de plantas ou bicho


Nasci numa lua de remoto capricho

E fui despejado em tosca planície

Caço nas noites de chuva e granizo

Afio as garras em falsos sorrisos 


Nem chegue perto, amor  que eu preciso



15 de abril de 2021

VERDADES

Nei Duclós 


Você sabe que é  mentira

Assim mesmo navega

No mar antes da treva

No amor que o tempo não  nega 


Sabes, mas não te flagram 

Acham que o mundo te cega

Que és feita apenas de entrega

Que desconheces a terra 


Mas é  teu jeito de fera

Teu passo de puma alerta

Teu bote oculto na relva 


Verdades não tiram férias 

Trabalham mesmo que finjam

Derrubam quando te quebram

28 de março de 2021

SESTA

Nei Duclós 


Retorce o corpo na sesta

Barra da saia na altura

Renda suada, perna nua 


Deixas que tudo aconteça

sonada a expor delicias

O calor ferve o capricho

Da pele cheia de manha


Olho o fruto proibido

Mas isso já faz  um tempo

Eras moça de família

Que em meu quarto me tortura


27 de março de 2021

CONVÍVIO

Nei Duclós 


Rubra flor  que tdns no fundo

Que não atinjo nem em pensamento 

E que representas num jardim remoto

Tua alma, exposta em chuva e vento


Não tem nome esse teu rebento

Sem  caule ou pétala ou fruto sem colheita

É só flor, puro conceito

De uma teoria de cânone furtivo


Sou de amianto, metal proibido

Erradicado à força do convívio 

Passo por cima, onde o céu me aceita

Lá és a planta que brota e me redime 



26 de março de 2021

SURPRESA

 Nei Duclós 


Recebo teu amor, desconhecida 

Surpresa para quem não esperava

Me acostumei

ao teu rosto debruçado 

Tua blusa aberta, teus cabelos

Olho arregalado de tesão 

Coração que sangra, intensa 

Represa antes da vazão 


Como resistir à  mulher que mostra o que não deve

Sua alegria crua, sua verve

E esse corpão oculto, que se rasga


Amo tu, ela me diz sem nenhum reclame

Feminina flor selvagem presa num rochedo

No topo do penhasco agarro teu perfume



MARCA

 Nei Duclós 


A marca do teu sofrimento

No gesto e no corpo

Não desaparece com o perdão 

Mas cede espaço a uma nova  criatura 

Feliz idade, mulher madura



25 de março de 2021

CANÇÃO

Nei Duclós 


Nao me  chame de amigo

Não faço parte da tua carta de vinhos 

Do teu jantar depois de demitido 

Dos parabéns arrasados toda vida


Não use esse jargão como artifício 

Não celebre lembranças  pifias

Nada temos em comum, exércitos de solidão

Sincericidios


Cante aquela velha canção 

Desconhecida

Balada de irmãos

que nunca se viram


24 de março de 2021

ESTANTE

 Nei Duclós 


Lembro que eu não esperava você terminar a estante

Rolávamos ali mesmo até os pés da cama

Era lua de mel a durar mais tempo 

Não havia como desperdiçar o momento


Depois piorou

Hoje você nem chega às gavetas

E as prateleiras estão há anos

Derrubadas de consemtento 



GRUDE

Nei Duclós 


Não quero ouvir o entorno que te assedia

Tua vida única e hegemônica

Seleciono os limites que definem

Teu perfil de pura fantasia


Assim deixas lá fora teus tesouros

E vem a mim, pobre argonauta

Que aporta  num jardim de pomos de ouro

Como nas histórias mais remotas


Aconselham a desistir dessa lorota

Que eu tome jeito e fique maduro

Mas eu navego em outro leito

Com tua mão em mim sem nenhum medo


Gostar de ser mesmo por um momento

Venha em meu colo graça que venta

Tormenta de amor solo estrago de corpo ausente

Apenas a ideia de um sentimento

Melado de sonho, grude que arrebenta


19 de março de 2021

TREINO

 Nei Duclós 


Olho meu rosto ao longo do dia

Por falta do teu, rosa perdida

O amor se escondeu, ficou a poesia

Ainda no espelho restos de batom


Raspo com a unha um risco no vidro 

Vermelho de dor como cicatriz

É a solidão  que agora eu consumo

Na pele marcada pelo tempo vivido


Foste a paixão, minha cara confessa

Desde a manhã  até o fundo breu 


Treino a expressão de um encontro futuro

Estou sem traquejo, talvez não consiga 

Corrijo, quem sabe aconteça  o mesmo

Com tua imagem, na mesma prisão 



17 de março de 2021

ESTRAGO

 Nei Duclós 


O alvo do desejo desconhece a abordagem remota


Por isso não retribui o toque não consolidado

Mas é  possível imaginar a cereja do bolo se contrair até perder a forma

E o mel como um rio pela perna abaixo


E o convite para que se debruce sobre o móvel  amigável

Acontece quando todos se retiram

E cedes enfim navio de frutas maduras

Sumo a encher minha boca como um seio próximo 

Teu respirar inocente que estrago com a língua nos dentes

Do meu olhar