18 de outubro de 2018

ÁGUA DA MONTANHA

Nei Duclós


Tudo apontava para a doçura
A vida em comum, o amor em obras
Ficamos amargos na cinza dos minutos
A suspeita, os entraves, rupturas

Tudo conflui para o desfecho
Este sol que devorou a lua
Esse vento sobre as dunas
Esse impossível recomeço

Nada perdura. É como as poças de chuva
O que fica é a passagem sem retorno
E o teu rosto, água da montanha
Que alimenta o tempo
Para que nos surpreenda

Tudo está conforme o vento
Invisível, rastro de espuma
A carne provisória e o eterno espírito
Nossa inteligência, única alegria



17 de outubro de 2018

UM QUARTO DE LUA

Nei Duclós


Sou outra pessoa, a que ganhou o mundo
E o perdeu, por ter ficado à toa
Não entendeu que a fase boa
É uma só, como um quarto de lua

Hoje estou só por não saber ao certo
Se sou o mesmo, o que faz o verso
Ou o mendigo, que escolheu a rua

Gêmeo de um sonho, sou minha memória
Risquei a página que ficou em branco
Tenho uma prenda no corpo ainda vivo
Pedra brilhante que escolhi ser tua



16 de outubro de 2018

O RISCO DA DIÁSPORA


Nei Duclós


És proibida, eu sei, de chegar mais perto
Assim mesmo arriscas, flor rude do cacto
A censura não impede o ferimento
que mostras para mim, decisiva prova

Não prestas atenção, me dizes, pura lágrima
Ficas na sombra porque o sol se posta
Entre a criatura que ficou de fora
E coração como biruta em tempestade

Mas conservas a vontade, como um pecado
Que a virtude adoça na intensa espera
Bastará um gesto, talvez no acaso
Para romper o selo de tamanha diáspora


SONHO DE SALTIMBANCO


Nei Duclós

Tão ocupada. O dia pleno de detalhes
Retalhos do tempo, flor dilacerada
entre pedra e vento
Enquanto entorno
a luz dos teus momentos
Afiando a voz cada vez mais longe

Meu canto está em outra freguesia
Na feira livre da estação vizinha
Precisas de um trem no próximo horário
Para chegar sem fôlego no meu expediente

Tenho espaço nos intervalos
Para um encontro à beira da calçada
Isso é só um sonho pois o saltimbanco
É quem viaja por concessão da amada



15 de outubro de 2018

IMPULSO


Nei Duclós

Cada palavra conta
São como pedras
Que a infância colhe
E separa pela cor e a forma

Minha gaveta tinha tantas
Oferta do esforço em surpreender-te
Quando passavas precisando
De um colar de conchas, de um impulso

Meu tesouro daria o mesmo brilho
Que ostentam as estrelas

Joguei todas para o ar
Refletindo o néon da lua cheia
Leste então o que o céu apronta



12 de outubro de 2018

COLEÇÃO DE ESTRELAS

 Nei Duclós


Num só dia pinto as paredes do edifício
Abrigo os retirantes do deserto
Arrumo a estrutura dos andares
Abro todas as janelas para a Lua

Depois me retiro
Alguém que está por perto pergunta:
É seu endereço?

Só por dever de ofício, digo
Ainda falta bordar o céu noturno
Com minha coleção de estrelas


NO MEIO DA TORMENTA

Nei Duclós


Valei-nos Nossa Senhora Aparecida
Livrai-nos do vazio e dos corações de pedra
Da tentação do mal, que é a violência
Lembrai-nos do amor no meio da tormenta

Que tenhamos fé, contra todas as suspeitas
Que possamos transcender no livido sofrimento
E entender quem vive com diferente rosto
Que sejamos solidários em nossas solidões

Mãe de Deus, que tua presença
Em nosso espírito seja a tolerância
E possamos seguir sem que os ferimentos
Impeçam a formação de um tempo generoso



10 de outubro de 2018

POESIA


Nei Duclós


A poesia não está a serviço da política nem de nada ou de ninguém. Também não compactua com as posições de ter lado ou ser isenta. Ela é onívora, encarna tudo o que é humano. Está acima, abaixo, distante, próxima de tudo o que existe, nasce, morre. É feita de palavra, das suas origens e transformações, dos usos e abusos. Não pode ser enquadrada pela mediocridade dos interesses provisórios ou permanentes. Não combina com cartilhas nem palavras de ordem.

Sua força é a liberdade impulsionada pela sonoridade. É música, com e sem partitura. Tesouro de nações, perfil de espíritos intensos. Combativa e recolhida, explícita e no resguardo, cinza e de todas as cores. É preto no branco, é tranco e barranco. Não a esqueça na gaveta, não finja indiferença. Não é supérflua, comportada nem simples transgressão. Pode ser sóbria, assombrosa, leve, forte. Incorpore sua natureza selvagem, marca de uma civilização.

Poesia. Porção de eternidade no universo frio e de pedra. Forja de criaturas. Insanidade e lucidez. Dor e transcendência. Amor e conflito.


FATO É LINGUAGEM – O CASO OVNIS


Nei Duclós

INTRODUÇÃO - O fato existe como linguagem e importa pelo impacto que provoca na percepção coletiva. Isso o torna refém das versões. A solução é mapear a trajetória da linguagem para definir os contornos do fato sem entregá-lo para a dispersão e o desmentido. Portanto, nenhum fato que tenha sido rastreado pelas marcas que sua linguagem deixou no imaginário social perde sua veracidade. Ele é o que provoca no confronto entre seu movimento e a observação e vivência social. Ao curvar o espaço tempo do cenário coletivo ganha peso de realidade. Isolado é apenas um evento suspeito de não ter acontecido.Essa é uma Introdução ao estudo de fatos divididos entre a verossimilhança e a falsificação. Vamos pegar um exemplo:

OVNIS - É um assunto interessante por ser um fenômeno de massa exposto ao preconceito. Não importa se existem ou não, importa que esse evento pode ser dividido em tempo, lugar e protagonistas. O tempo são as fases em que o fato, a linguagem, provocou na percepção coletiva.

Vamos abordar no início do fenômeno, 1947 (a pré-história, a dos marcianos fica de fora aqui, não faz parte dos Ovnis, já que as naves e os seres vinham de Marte e não de qualquer lugar, com raras exceções). A primeira fase, nessa abordagem de tempo, é a surpresa, a descoberta. É a era Roswell, do provável acidente de naves no Novo México, com a polêmica captura de seres e os desmentidos militares.

Segue-se a intensificação do mistério, das interrogações e da ocultação das visualizações e abduções, que coincide não por acaso com a Guerra Fria. Dos anos 60 aos 80 é a época de Aquarius, a lenda dos seres que vinham para anunciar a paz e a concórdia e uma nova idade de ouro para a humanidade, o que gerou a inocência do filme ET ou a esperança dos Contatos Imediatos de III Grau, de Spielberg. É o tempo por excelência dos planetas de outras dimensões e dos gurus virtuais que falam por telepatia. Essa época foi substituída pelo fim de século, apocalíptico, em que os OVNIss eram ameaças de guerra e os aliens, monstruosos.

Chegamos enfim a este século, em que há vários vetores em destaque. Um deles é a abertura dos arquivos secretos, que coincide com a abertura dos papéis da segurança da CIA via Edward Snowden, mesmo que não haja ligação direta. A Nasa e outras agências oficiais admitem a existência dos OVNIs e os avistamentos se multiplicam graças aos celulares e suas câmaras fotográficas e de vídeo, oferecendo vasto espectro de casos por canais do You Tube.

Esses são os impactos de tempo. Nos de lugar, e seus respectivos protagonistas, temos os avistamentos primeiro das agência espaciais, ainda com escassas informações mas com registros importantes; a dos pilotos das forças armadas ou dos aviões comerciais, com testemunhos e perseguições e até mesmo acidentes e capturas de seres de outros mundos; depois temos os acontecimentos em terra. Primeiro no interior, onde a cultura inocente dos protagonistas entra em contato com a sofisticação dos extraterrenos. No interior sobram exemplos de viagens espaciais inspirados em literatura de ficção de segunda, com líquidos protetores para cruzar o espaço nas naves, cidades utópicas e perfeitas em constelações distantes, seres amigáveis etc. Nas cidades a barra é mais pesada. Os ETs se metamorfoseiam para conviver entre nós, coincidindo com uma literatura de ficção mais sofisiticada. E há os avistamentos no mar e na montanha, com naves mergulhando ou se estabelecendo em lugares remotos.

Temos então um fato suspeito – a existência de inteligências de outros planetas – e seus impactos sobre nós. O fato é linguagem que impacta o imaginário. Existem de fato? O que importa é que sim, existem nessa interação com o imaginário coletivo.

Nei Duclós

PROVA DOS NOVE

Nei Duclós


Voou teu anjo, voou
Bem no alto precisaram dele
Você perdeu tudo
Eras uma porção de quem se foi

Sim ao remorso e ao desespero
Mas não reprove
Neste teste final
Só passamos se formos humanos
A vontade de Deus
é sua prova dos nove



6 de outubro de 2018

TÁBUA

Nei Duclós


Estavas suada como um animal exausto
Eu te pus numa tábua do mar revolto
Navegamos orientados pelas três de Órion
Balançavas com perigo em direção ao fundo
Ferida de paixão, rasgo sobre a espuma



RISCOS NO DESERTO

Nei Duclós

Trilhas do tempo na pele do braço,
riscos no deserto,
expostos nas dobras dos gestos.

De onde vieste,
peregrino de outro mundo?
Água é insuficiente.

Só o respeito à sede de Deus
nos mantém acesos

4 de outubro de 2018

CRUEL CICLONE

Nei Duclós


Mar é onde mora o vento
Vela ao relento
Naufrágio de monstros

Praia sem sossego
Corais afiados
Ondas do medo

Céu é só o que não vejo
Mísseis de Zeus
Nuvens avessas

Primavera, cruel ciclone
Vulcões, tsunami
Flor é só o que não tenho



TODA PERDIÇÃO


Nei Duclós


Sou tua perdição
No dia seguinte sentes remorso
Mas em vão

Nada apaga o fogo
que arde por vocação

Basta uma nota
para extrair todo o roquenrol
Uma letra para a versão integral
da Marília de Dirceu


2 de outubro de 2018

ÚMIDO VOO

Nei Duclós


No cenário seco da minha história
trouxeste uma flor no bico
para depositar em minhas garras

Para preservá-la
caprichei nos cuidados com tuas águas

Foi assim que sobrevivi,
arrulho de raizes úmidas



30 de setembro de 2018

FLOR OCULTA

Nei Duclós


Não é o que eu pego
Mas o que escapas
Na lisa curvatura da conversa
O teu requebro
Que me deixa segurando o ar
Do pobre verbo

Treino antes do encontro
Mas não produzo
A mínima sensação de movimento
Fico mudo
Pois tens o domínio do contorno

Volto com as mãos vazias
Meu sonho é puro vento
No outdoor ris do mau momento
Em que tentei seduzir a flor oculta

Ninguém sabe onde fica tua vontade
Se na pele, no ventre, na coragem
Chego em casa e lá está a bela
Lendo um livro, e a lua na janela




OFERENDAS

Nei Duclós


É de fundo falso minha caixa de mágicas
Onde retiro os dons e o poder das palavras
E que te sobra por transbordar o jarro
Água que inunda como as tempestades

Pergunto se há limite para tua sede
Já que a minha cabe na fonte mais óbvia
Se é possível o convivio, tu no fio da espada
Eu a paisana, vestido como os pássaros

Jamais estaremos na mesma sintonia
Não procuro a trilha onde te disfarças
Porque sou da natureza, voo a céu aberto

Levo a uva que vai gerar o vinho
Não mato o cordeiro, o sangue derramado
A mesa é o espaço do fruto solidário
Espessa é a fome que se serve do ciúme

Quem está por perto é Deus e sua fibra
Que providencia a força, impulso dos cardumes
Nossas oferendas são o pão e a carne
E a noção do que faremos depois do crime



AMOR EXATO

Nei Duclós


Não sinta vergonha, curta o carinho

Matemática é quando a logica tira os números para dançar
O amor também pode se dar o luxo de ser exato

O corpo enxuto abriga a lágrima
O impulso pousa na pintura
A palavra solta se abriga
O arrepio prepara o grito






29 de setembro de 2018

AMOR PENDENTE


Nei Duclós


Flor não emociona mais

Dentro do teu peito, a lua
No teu voo meu encanto
Tua saia na ventania
Meu coração na montanha

Por quem viajas, poesia?
Será que ainda chegas de viagem?
Tua mala de couro, teu corpo
A única paisagem

Dormirás conforme o tempo
for abrindo as janelas
Lá estou eu amor pendente
Pendurado em teu sonho


UM RECADO

Nei Duclós


Somos distantes
como sistemas solares de galáxias opostas
Tu no centro do cosmo
Eu viajando na borda mais extrema

De vez em quando uso um cometa para enviar um poema
E dizer eu te amo



CÂNTARO

Nei Duclós

Pus a mão no jarro de água
Era de barro
Era de pétala
Tinha a pele dourada
Como a tua, ao sol deserto

Pus a mão no cântaro da bela
Ela me olhou
Como quem desmaia


26 de setembro de 2018

CANTOS DA TERRA

Nei Duclós


Quando eu voltei, com versos novos
Da missão que por acaso abracei
Pois fui levado sem saber ao certo
O que deveria fazer
Senti que eram leves as palavras
Apesar do front onde fiquei

Encontrei as pedras em poemas tristes
De quem viveu na vida a distância
Nao havia voos que em mim flutuam
Como plumas depois de um sopro
Espalhadas pelos cantos da terra

Evitar o perigo pode ter um custo
Abraçar o risco traz além do susto
A noção exata da primavera



SONHAR

Nei Duclós


Deixa eu sonhar
Sem os contrabandos
do real
Imaginar a física do amor
Com as leis da solidão

Não precisa chegar
Acostumei ao que jamais existirá
Sei o que há
Quando te ponho de prontidão

Na cadeira que dá para o mar
Onde navego o coração



24 de setembro de 2018

PALAVRA DE DESPEDIDA

Nei Duclós


Palavra de despedida
Silente, como um aceno
Porque não cabe uma vida
No intervalo de um sino

Na última batida
Subiste o degrau extremo
Teu rosto ainda se vira
Para meu pranto suspenso

Porque não damos bandeira
Quando o amor é impossivel
Você parte e eu fico
Os corpos já não se entendem

No entanto não se assuste
Ao olhar pela janela
Na areia do faroeste
Eu cavalgo minha pressa

Levo um recado supremo
No sujo chapéu de feltro
Digo em sinais de lenço
O adiado compromisso

Nem sempre o coração vibra
No diapasão do poema



PURO CORAL

Nei Duclós


Mostro o que sou
Para que vejas o que não aparece
Minha devoção, que brilha no rosto exausto

E que revela os túneis da fantasia
Tu sem disfarce a me fazer companhia
A esperar a manhã, iluminação mais fina
Puro coral da íntima alegria


ALÉM DA MOLDURA

Nei Duclós


Teu olhar está pedindo socorro
O sorriso não disfarça, antes reforça
É o desperdício que te põe para baixo
Tanta beleza nos limites do óbvio

Não que precises posar de estrela
Isso já és, sem fazer esforço
Mas é o destino de brilhar intensa
Mesmo anônima, jóia preciosa

Noto que olhas muito além da foto
Presa na moldura que a vida modela
Procuras uma porta, uma janela
Pudera estar eu no alvo dessa rota



SEM CONSERTO

Nei Duclós


No momento em que ela é sua
Você a perde
Seu caminho agora é a rua
Mais cedo ou mais tarde

Mulher nada a segura
Nem a própria vida, que joga para o alto
Queres guardar a lua numa redoma
Mas em qual fase será que escapa?

Orgulho da caçapa quando a pões nua
Mal sabes que a conquista é o início da derrota
Mantenha-se no espaço que o amor rabisca
Não queira fazer disso uma pintura

Ela voará, ave sem conserto
E só pousará se lhe der na telha



22 de setembro de 2018

DESCENSO

Nei Duclós


É como se o corpo pedisse arreglo
Provando que não tenho mais conserto
A perna que há anos se atormenta
Com a pele em fogo de bruta bactéria
A visão cada vez mais sem resistência
O coração fora do ritmo e a cabeca
A tontear conforme avança o inverno

As engrenagens ringem nos tropeços
Os dentes que se foram sem ser substituídos
E o ouvido a se ressentir com os silêncios

Qual é a moral da história?
Recuperar os movimentos
dançando um tango após o diagnóstico?

Que seja. Dance comigo E não tema.
Contigo é a unica maneira
De eu viver sem ter um troço



MAIS TARDE

Nei Duclós


A realidade desmoraliza
Coloca tua profecia no chinelo
Faz tua análise provocar engulhos
Descarta a poesia e as velhas fantasias

Te reduz ao pó de onde jamais saímos
Somos testemunhas, jamais protagonistas
Nossa vida mendiga latas usadas para a reciclagem
Enquanto completam o serviço: fazem caridade

Você quer dormir e eles te acordam
Com a sopa do discurso e o cobertor da miséria
Muito bom o que escreveste, dizem eles
Só que não tivemos tempo de ler
Guardamos para mais tarde



MELIANTE


Nei Duclós


Cachorro descobre teu próximo lance
Faz o diagnóstico do teu pensamento
Segue o movimento antes que aconteça
Sintoniza na mente como os predadores

Chega junto em todos os instantes
Não por ser dono, mas por ser semelhante
És o cão que ele formata ligeiro
Oriente as orelhas, enterre o osso

Ele domina a casa e mija nas roupas
Esfrega o focinho na tua comida
És seu refém, o monstro meliante
jamais sente pena de quem sequestra

No fim do dia chegam as crianças
E enchem de mimo o ditador dengoso
Ele te olha lânguido imaginando
O que fará contigo no dia seguinte