7 de dezembro de 2016

O SENTIDO

Nei Duclós

Não vejo mais sentido
enterraram o país vivo
e ele se debate dentro de mim
como se eu fosse o mar
do seu naufrágio

Nada cicatriza
os dias se esvaem, frios
o sonho tornou-se proibido
Existir cobra pedágio
O troco é esse vazio

Perdemos alguém íntimo
as estações competem
nas catástrofes
O mundo não vira o disco
e nos imobiliza

Haverá esperança
como num tempo havia?
Qual mecanismo a trará de volta?
Inútil o silêncio e o grito
Precisamos de algo mais alto

O que ignoramos, talvez
quando tínhamos tudo
A resistência de granito
que passava desapercebida
O amor vestido de soldado

Nei Duclós

MÁXIMAS DO CHEF COMUNISTA



Nei Duclós

- Vamos interditar seu restaurante, disse o fiscal. Contraria as leis da higiene.
- Faço trabalho social, disse o Chef Comunista. Cobro caro por pratos condenados. Gero emprego e renda apenas com a aparência. Queria que eu passasse sabão na codorna ao vinho rosé?

- O sr. faz piada com o socialismo, mas na hora do paredón quero ver, disse o militante.
- Estou deixando crescer a barba e comprando caixas de puros baianos, disse o Chef Comunista. Não fuzilam quem tem barba e fuma charuto.

- Por que os garçons não atendem em vez de ficarem balançando bandeiras? perguntou o freguês.
- Estamos em campanha, disse o Chef Comunista. Todo poder aos soviets.

- Parabéns! Está uma delícia este suflê de quiabo com jerimum, disse o admirador de pratos exóticos.
- É nossa meta política, disse o Chef Comunista. O Nordeste em Paris.

- O sr. está publicando suas frases nas redes sociais, disse o seguidor. Se acha muito engraçado?
- De maneira alguma, disse o Chef Comunista. É que depois de tanta asneira política me senti no direito de dar minha contribuição.

- O sr. é uma contradição ambulante, disse o psicólogo. Como pode ser comunista dono de restaurante chic?
- Alguns são mais iguais do que os outros, disse o Chef Comunista. E aproveito a clientela para estudar a decadência do capitalismo, principalmente na hora de receber a conta.

- Duvido que o sr. tenha lido o Capital, de Marx, disse a scholar.
- Verdade, não li, disse o Chef Comunista. Mas conto as notas todo fim de expediente.

- O sr. gostaria de viver na época do Império Romano? perguntou o historiador.
- Depende do lugar que vou ocupar, disse o Chef Comunista. Como escravo, nem pensar.

(piada do meu amigo barbeiro de SP, o inesquecível Giuseppe, que atendia ao lado do parque Trianon).

- O sr. faz parte do lixo da História, disse o capitalista.
- Mas sou reciclável, disse o Chef Comunista. É como o prato caríssimo que lhe servi: voltou do monturo nos braços do povo.

- O sr. sonha em tomar o poder? O que vai fazer com ele? perguntou o cético.
- Vou manter a escrita, disse o Chef Comunista. Desviar tudo, mas em nome do povo e do estado de direito.

- Quando o sr. saiu da cadeia? perguntou o repórter.
- Fui anistiado, disse o Chef Comunista. Mas tive que roubar para continuar solto e agora eles querem me pegar de novo.

- Não vou pagar a conta, disse o senador.
- É justo, disse o Chef Comunista. Nem vou chamar o juiz para não acabar preso.

- Meu pedido está demorando, disse o militante.
- Tivemos antes que derrubar o Kerenski para só depois invadirmos o Palácio do Inverno, disse o Chef Comunista. Mas depois que vier o sr. não se livra mais dele.

- Onde está o almoço? perguntou o comerciante rico.
- O st. já consumiu, disse o Chef Comunista. É aquele resto de mais valia que o sr. confundiu com acepipes e que ganhou uns galhinhos de ervas finas em cima para provar que é chic.

- Isto aqui é uma gororoba metida a besta, disse o poeta reclamando da sopa.
- É como poesia ruim, disse o Chef Comunista. É intragável, mas ganha prêmio.

O condenado pediu filé com fritas.
- Só temos carne de gado confinado, disse o Chef Comunista. E as batatas estão por vir. Foram encomendadas por decreto.

- O que prega o Manifesto? perguntou o Chef Comunista para o aspirante a ajudante de cozinha.
- A democracia do proletariado, disse o garoto.
- Está contratado, disse o Chef Comunista.
-
- Este peixe está estragado, disse o freguês.
- São anchovas de Stalingrado, disse o Chef Comunista. Para serem consumidas depois do quinto mês do cerco. Tem coisa pior, quer experimentar?

O Conde foi jantar no restaurante do Chef Comunista.
- Feijão com arroz? estranhou o Conde.
- A la Sierra Maestra, disse o Chef Comunista.

5 de dezembro de 2016

UM OFÍCIO




Nei Duclós

O poeta não vira cinza
como o tirano
Não beija a lona
quando se fina

O poema fica, inesquecível
Não toma tempo
como o discurso
Não diz mentira
para ser visto

Sua palavra é suja
por ser humana
E ruge sem puxar
o gatilho

O poeta exerce um oficio
Carpinteiro de nuvens
pedreiro de sílabas


30 de novembro de 2016

SILÊNCIO POR UM MINUTO



Nei Duclós

Silêncio por um minuto
É preciso teto
para o pouso

Para que o corpo
aterrise fora dessa dor
que nos surpreende

Mesmo por um segundo
para que as orações
funcionem

Silêncio por um tempo
sem limite na agenda
para que alma vença

E enfrente o mudo motor
em pane e possa
superar a montanha

Para que todos escutem
o sonho driblando
o pânico

Para que permaneça conosco
esse abraço depois do gol
que  levanta voo


 RETORNO - Imagem desta edição: foto de Jokas Madruga/Futura Press.

SOU TEMPORAL



Nei Duclós

Sou temporal, clima imperfeito
não me leve a mal, já perdi o jeito
não sei mais dizer o que de fato sinto
basta saber que ainda estamos perto