23 de julho de 2014

COMO NOSSOS PAIS: ROMANCE DE UMA GERAÇÃO



Nei Duclós

É como capítulos de um romance: a canção Como os nossos pais, de Belchior, define o perfil de uma geração, a dele, a nossa, dentro da tradição oral que acabou gerando as grandes epopeias. O trovador é um catequista e um profeta, um lúcido arauto do que vê e sente, uma referência para seus contemporâneos.  Assume assim a função original da poesia, que era contar uma longa história, épica, ou seja, em que personagens se transformam ao longo da narrativa. Vamos aos capítulos:

CAPÍTULO 1: ANUNCIAÇÃO

Não quero lhe falar
Meu grande amor
Das coisas que aprendi
Nos discos
Quero lhe contar como eu vivi
E tudo o que aconteceu comigo

O trovador diz a que veio. Como um Quixote de formação erudita (os discos aqui como atualização da cultura que era livresca) partiu para a aventura, e ele é o Cervantes que escreve as memórias dessa trajetória. Avisa, adverte que sua história é única, original, pois não está disponível na indústria do espetáculo. Ele e sua memória são os fundamentos dessa história. Assim pretende fisgar o ouvinte/leitor, com a isca de algo inédito e que talvez se identifique com a experiência da plateia.

CAPÍTULO II: O DESPERTAR PARA A HISTÓRIA

Viver é melhor que sonhar
Eu sei que o amor
É uma coisa boa
Mas também sei
Que qualquer canto
É menor do que a vida
De qualquer pessoa

Em vez de imaginar sua literatura, o trovador cria a partir do vivido, que tem mais carisma do que o sonho.  A arte é imensa mas não se compara à grandeza da vida real, fonte de toda representação. E essa vida, maior do que a arte, é comum a todos. Não se trata de algo especial no canto do trovador. Ele narra o que existe ao nosso redor e dentro de nós. O que conta não está confinado à sua vivência, à sua alma. Está também em nós.

CAPÍTULO III: DESTINO É ARMADILHA

Por isso cuidado, meu bem
Há perigo na esquina
Eles venceram e o sinal
Está fechado pra nós
Que somos jovens

Para abraçar seu irmão
E beijar sua menina na rua
É que se fez o seu braço
O seu lábio e a sua voz

Nascemos para o amor, mas somos surpreendidos pela guerra. Desperdiçamos nossa vocação dian te da tirania vitoriosa, que impede o crescimento. A geração do amor é vencida pela ditadura.

CAPÍTULO IV: PROFECIA

Você me pergunta
Pela minha paixão
Digo que estou encantada
Como uma nova invenção
Eu vou ficar nesta cidade
Não vou voltar pro sertão
Pois vejo vir vindo no vento
Cheiro de nova estação
Eu sinto tudo na ferida viva
Do meu coração

A aventura leva à esperança de superação. O desconhecido é a passagem para um mundo novo, diverso da herança da repressão. O Mal vai passar, graças ao Tempo, à tendência irreversível de mudança e à disposição de abraçar o novo.

CAPITULO V: AMARGO BALANÇO

Já faz tempo
Eu vi você na rua
Cabelo ao vento
Gente jovem reunida
Na parede da memória
Essa lembrança
É o quadro que dói mais

Minha dor é perceber
Que apesar de termos
Feito tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Como os nossos pais

Nossos ídolos
Ainda são os mesmos
E as aparências
Não enganam não
Você diz que depois deles
Não apareceu mais ninguém

Você pode até dizer
Que eu tô por fora
Ou então
Que eu tô inventando

Mas é você
Que ama o passado
E que não vê
É você
Que ama o passado
E que não vê
Que o novo sempre vem

Estamos presos ao passado, apesar das promessas de mudança, dos sinais explícitos da superação. Nós somos a âncora desse navio atolado no cais. Cristalizamos hábitos, como fizeram as gerações passadas, apesar de sermos tão imbuídos da nossa ideia de revolução. Em vez de nos transformar, engessamos nossas descobertas e fomos atropelados pelo Tempo. Repetimos o erro das gerações passadas, tão combatidas. Essa é talvez a bofetada mais estridente desta grande canção..

CAPÍTULO VI: A LIÇÃO DO PASSADO

Hoje eu sei
Que quem me deu a ideia
De uma nova consciência
E juventude
Tá em casa
Guardado por Deus
Contando o vil metal

Minha dor é perceber
Que apesar de termos
Feito tudo, tudo
Tudo o que fizemos
Nós ainda somos
Os mesmos e vivemos
Ainda somos
Os mesmos e vivemos
Ainda somos
Os mesmos e vivemos
Como os nossos pais

O trovador não poupa sua ascendência e adverte a geração com a lição deixada pelo passado: quem achou que mudava acabou sucumbindo. É preciso descobrir essa realidade dura para abrir-se definitivamente para a transformação, abandonando o que nos deixa atrasados para sempre.


21 de julho de 2014

MAIS LUZ


Nei Duclós


O sol é uma estrela do seu próprio dia
assim como luz da minha alma noturna
olhar sob a sombra do chapéu de vime
nudez na parede com cal ainda virgem

cada verso combina um encontro impuro
entre a curva e o sonho solto na esquina
a urgência interfere nessa arquitetura
raízes são sobras do alimento da nuvem

corrijo o jardim à mercê dos adubos
ruído de verbos conjugados sem rima
liberei a ruína com tua fuga do Olimpo

Agora procuras, vendaval de liquens
brotas sementes em teu raro espírito
não suma de vez formosa ao crepúsculo

RETORNO -  Imagem desta edição: Marilyn Monroe.

LUGAR SEGURO



Nei Duclós

A paz é o único lugar seguro.

Nosso amor não leva a nada. Tire a roupa, lágrima.

O dia começa quando apareço girando ao teu redor.

Amanheço porque acreditas na luz, vinda de corpos noturnos.

Todas as manhãs o sol nos ensina a eternidade

Não divido a dor. Divido a sorte.

Fantasiei, à tua revelia. Não te encontrei, mas planejo a busca.

Fui secando até virar fabricante do deserto.

Quando partiste para o Outro Lado, o amor ficou de guarda no portal da tua memória.

Não arrisco mais no verso avesso, ausente. Aposto no poema que faz vento

Nem ouse não ser meu, disse ela. Não perca a noção do perigo.

Cantei o amor, tirou pedaço. Recolha os restos, descalça.

Não somos nada. Só somos o que sonhamos

Pior para nós quando o amor fica num canto esquecido. É preciso reencontrá-lo para ganharmos sobrevida.


TE QUERO

Te quero
mas não quero
que me queiras
Só se quiser


GUIA

O amor que sentes pela arte
é algo que transcende,
vive à parte

És guia do museu do Prado
modelo pop, violinista nua
teus quadros são riscos de andorinha


A LUZ RESISTENTE

A ética é transparente
e aparentemente exposta
ao comportamento invasivo

Mas ela não precisa
de muros para se impor

Tem a força imponderável
da brisa que se instaura
em tempestade
Da luz que inaugura
a trilha da coragem


CARDUMES

Sim, tua terra tem mar
tu és o mar, minha sereia
cardumes no teu olhar
sorriso de maré cheia
todos te querem voar
asa solta sobre a areia


20 de julho de 2014

AMIGA



Nei Duclós

soma de óvulo e esperma
vim de mais longe, de um olhar
no parque, um cruzar de cheiro
um morder de lóbulo

carne que se fez carne
vim de mais longe, de uma carta
oculta, uma data muda
um arder de faltas

traço explícito da genética
vim de mais longe, da curva
que o ombro levou à fonte
de um beijo doido

cabelo, cílios, testa
vim de mais longe, da pele
que o tempo veste
do arrepio de açucenas

Feito músculo e rótula
vim de mais longe, da porta
que fechou para sempre
e foi partida ao meio

risco de registro e tinta
vim de mais longe, do gesto
sobre o seio, o resto de dor
chutado pelo assombro

embalado de compostura
viom de mais longe, do caos
de uma roseira, da nuvem
chovida em ventania

sou fruto de um sonho
encarnação do divino som
do amor possível
Vim de mais longe, amiga


RETORNO - Imagem desta edição: Audrey Hepburn.

18 de julho de 2014

A LUZ RESISTENTE



Nei Duclós

A ética é transparente
e aparentemente exposta
ao comportamento invasivo

Mas ela não precisa
de muros para se impor

Tem a força imponderável
da brisa que se instaura
em tempestade
Da luz que inaugura
a trilha da coragem
 
RETORNO - Imagem desta edição: foto de Tomas May.