23 de outubro de 2014

RINCÕES



Nei Duclós

(Para Elo Ortiz, irmão
pelos seus 72 anos)

A noite campeia estrelas
A lua posta em sossego

O tempo firme no aperto
A cincha de couro e terra

Não há quem se prevaleça
do corpo que não se rende

Se bandearam os quero quero
para o mais fundo do ermo

Lá vem meu irmão trotando
pelos rincões da peleja

Quem viveu sabe onde anda
os potros da conferência

A paz que nas pedras altas
pôs mais fogo na oferenda

O coração está pleno
da mais legítima prenda

Somos nós os campeadores
o meu irmão vem na frente


RETORNO - Imagem desta edição: foto de Marga Cendón

22 de outubro de 2014

ROA: MARK CHAPMAN EM BOGOTÁ



Nei Duclós

Ao se ver na grande tela ao lado do líder, misturado à multidão de um comício, o desempregado que tinha levado mulher e filha ao cinema finalmente se enxerga. Ele deixa de ser anônimo e divide espaço visual com o candidato popular à presidência da Colômbia. Sente orgulho daquela surpreendente aparição e descobre assim sua cidadania, que estava oculta pela falta de dinheiro e de oportunidades. Começa então a misturar no seu imaginário as duas personalidades, a dele e a do famoso advogado que se identificava com a população indígena do seu país em oposição às “elites” (a cena é de 1948). Se convence que a diferença entre os dois é apenas uma questão de sorte e que bastaria achar um lugar no mundo do líder para que a justiça social fosse feita: poderia assim ocupar o espaço que o destino lhe reservava.

Para confirmar essa predisposição para o grande papel da sua vida, insiste com o amigo intelectual que lê sua mão. O velho bruxo representa a intelectualidade que procura confirmar ideologicamente os grandes destinos do povo. Apoiado pela profecia, que, mesmo dita em tom de deboche, estava desenhada em sua mão, e que ele acreditava ser grandiosa, começa a perseguir o candidato nos mínimos passos. Procura enxergá-lo para poder caber na sua vida. Espiona pela janela da rua a cena familiar, que seria idêntica à sua, pois lá está a esposa e a filha estudiosa, as mesmas personagens da sua vida privada.

Só que ele está imerso no fracasso. Por não enxergar-se no carro e no trânsito, acaba batendo o taxi do irmão que procurava ensiná-lo a dirigir. Isso inviabiliza uma das demandas para arranjar colocação junto ao advogado, pois este viu como ele bateu o carro na calçada. Expulso de casa pela mulher por ser um maluco fracassado, acaba nas mãos da máfia que tenta convencê-lo do pior: de que ele queria mesmo era matar o líder. É como Mark Chapman, o matador de John Lennon: o fã que quer substituir o ídolo no fundo quer exterminá-lo para ocupar seu lugar. Certamente ao reproduzir pela ficção os claros da biografia de Juan Roa Sierra, matador do líder popular Jorge Eliécer Gaitán, o escritor Miguel Torres se inspirou em Chapman para mostrar o obsessivo que cai nas malhas do crime político organizado e acaba se envolvendo em um homicídio totalmente manipulado.

Desesperado com a chantagem dos bandidos que o obrigam a cometer o assassinato, Roa (interpretado por Mauricio Puentes ) tenta desaparecer, sumir. Na beira da cachoeira, o velho lambe lambe pergunta se quer tirar uma foto antes de pular. Garante que custa pouco e a foto será entregue para quem for indicado. Ele consente mas em vez de se matar pede para ver a foto. É quando se vê novamente, olha para sua imagem e decide voltar para a cidade. Lá encontra emprego na difusão visual da arte popular, a do teatro, colando catazes por todas as paredes e muros. Ele é o protagonista dessa necessidade que a cidadania tem de se ver para poder existir.

Fica agradecido pelo emprego, mas acaba sucumbindo ao seu torpe destino. É linchado em praça pública no célebre Bogotazo, revolta popular desencadeada pelo homicídio de Gaitán. O Bogotazo foi dois anos antes do Maracanazo, nossa derrota para o Uruguai. O superlativo hispânico estava na moda. Alguns críticos disseram que o diretor de Roa, filme colombiano de 2013, Andrés Baiz, não filmou suficientemente o Bogotazo. Mas ele fez de propósito. Sua intenção era mostrar o que se escondia, não o que ficou explícito nos jornais e televisões do mundo todo. Ele foi atrás da história oculta do assassino, reproduzindo, com a ajuda da atriz Patricia Castaneda, co-autora do roteiro,  o livro de Torres e compondo um cenário de opressão e pobreza, que acaba no previsível desfecho de uma revolta popular.
Roa é um filme sobre a interferência visual na autoconsciência da cidadania e a exposição das suas contradições num impasse gerador de grande conflito.

21 de outubro de 2014

EXCESSO



Nei Duclós

Abusei da palavra abismo
e da palavra sonâmbulo
usei demais sereno e deserto
rimas pelos cotovelos

Incomodei com perto, estrela
exagerei horizontes,trilhas
pastora, rainha, castelo, criatura,
tempo,  mistério, delícia e doçura

Me locupletei de fantasia, sonho
adeus, escuro, arte, vontade
Enchi sonetos de Lua, dia
tempo e carruagem

Palavras como pedras no alforge
carreguei-as para longe
poemas que são como nuvens
previsíveis, soberanos

Sobre a montanha vivo
com meus pequenos rebanhos
anuncio o que não vejo
me alimento do destino






REPOUSO



Nei Duclós

Repouso o rosto no teu denso olhar
concentro em pedra o que me faz feliz
raspas o musgo que medra no cantor
tens o dom da chuva no resto do luar

Pintas o que vês filtrada pelo amor
cores misturadas de uma tarde a dois
cenas de uma dança tensa sobre o gris
ondas que retornam na hora de partir

Somos encaixes que o sonho revolveu
no tempo sem firmeza de alegria e dor
palavras que ficam para morrer depois

Areias de uma fuga ainda estão por vir
sopram despedidas no beijo que me dás
pulsa o coração que em nós se rebentou


RETORNO - Imagem desta edição: Dosfotos (Corbis) / El País

20 de outubro de 2014

STAR WARS: CONFIE NA FORÇA



Nei Duclós

Revejo Star Wars, filme encantador sobre cinema: tem capa e espada, faroeste, aventura, batalha aérea. É filme de mocinho e mocinha, de monstro, de guerra. É épico, é drama, é mistério, é ficção, é romance, é comédia. Tem até salvação da heroína por meio do uso de um cipó, como em filmes de Tarzan (claro que o cipó aqui é fibra de alta tecnologia guardada num cinto de 1001 utilidades).

É a Sétima Arte somada em todos os seus gêneros e o que é impressionante, não parece uma mixórdia, uma mistura, tem uma unidade incrível pois aposta naquilo que funciona (it works!) e o transcende, com conhecimento do mecanismo da mágica. Não por acaso é um marco, obra inesquecível. Tem um clima de filmes holywoodianos sobre o Império Romano, algo de Spartacus de Kubrick cruzado por Stagecoach de Ford. É Flash Gordon a cores e tela grande. É televisão e sessão das quatro nas salas de cinema. Um primor.

George Lucas tem a Força, um achado de clara inspiração na obra de Carlos Castaneda, dos Ensinamentos de Don Juan a Porta para o Infinito. Incorporou insights definitivos como as espadas de luz, lançou Harrison Ford para o megaestrelato e contou com o apoio de Sir Alec Guiness, ator de tantas outras obras inesquecíveis. Viramos todos discípulos do mestre Obi Wan Kenobi, torcemos por Luke e a princesa Leia, adotamos os andróides hilários e providenciais (espécie de Gordo e o Magro de lata) e lutamos contra Darth Wader. Desde Star Wars, nossa aventura começa num planeta com dois sóis.