23 de abril de 2015

AMARGO MEL

Nei Duclós

Entrei no mar. O horizonte dava nos joelhos.

Chuva é rio que volta às origens.

Ventou o dia todo. Nuvens pesadas, um pouco de frio, árvores se retorcendo. O inverno mandou um telegrama.

Tão lisa que escorrega para o mar. A areia bruta não consegue segurar. Tem vocação de sereia de escama e sal. Doçura de um amargo mel.

O amor esclarece. Vemos tudo o que a razão esquece.

Conseguimos nos reconhecer pelas palavras que dispomos em rede para  coragem e sonho. Solidários espontâneos, sem pose.

Leve para o trabalho o sonho que te alimenta. Ele parece desconfortável, mas se adapta e cresce, contaminando o mundo.

Não somos vitrines, somos solidão inconformada, pássaros que se anunciam depois de longa travessia pelo mar adentro.

Expomos o que somos, escassos além da conta, em humano esforço de reconhecimento.

Todos te fazem carinho, porque reinas no Olimpo. Só eu conheço a trilha para  teu mel e vinho.

A natureza é limitada em eventos para os versos. Vulcões extintos, tufões, outonos. Preciso prestar atenção no desmaiar das pétalas, as que se depositam em teu colo.

Nenhum truque da palavra vai contornar esse abismo. Nenhuma flor medrará batida pelo vento.
 Agora nem podes mais implicar porque está vedado o verso para ti. Pior para nós, que escolhemos ser desumanos.

Para isso compartilhamos tanta coisa por anos. Para acabar por uma besteira sem identificação.

Éramos incompatíveis, como navegar na internet e ao mesmo tempo cozinhar sem queimar a comida.

- Você sabe tudo, disseram.
- Só o mecanismo do que está dito e escrito, disse o poeta. Leio o código e decifro. Só que isso não serve para nada. Há sempre uma nova charada renascendo das ruínas.

- De onde você tira os poemas? perguntaram.
- Eu quebro o DNA das palavras, disse o poeta.
  
- Esse eu já tenho, disse ela.
Poema é como figurinha repetida.

Autores ainda querem "transgredir", um conceito centenário. A transgressão virou cânone. É um carrossel: a vanguarda acaba na rabeira.

RETORNO - Imagem desta edição: foto de Vicente Jorge Silva. 


21 de abril de 2015

ENIGMINAS: TRÊS POEMAS



Nei Duclós

Uma seleta do meu livro PAMPABISMO & ENIGMINAS: CONVERSOS, a propósito do 21 de abril.

TEJO

Minas, não me meto.
Deixo o encargo para quem
nasceu e se criou num gueto
de silêncios. Nasço para o

berro. É quando despenco
ao me debruçar demais sobre
o que não lembro. Queria fazer
parte desse apreço, ser de Minas

como esses monumentos, ser
talhado pelo estro destroçado
das igrejas. Ser como o percurso

entre Gonzaga e Tiradentes
Ter razão quando defende a terra
de ancestrais vindos do Tejo

CENTRO

Minas, qual o preço da
derrama em sólido
isolamento? Longe da
vileza que é viver entre

irmãos, soma de espelhos,
e encarar do alto apenas
o rosto herdado em desavença.
Medo de ser menos do que

Minas, mais do que precisa
E ficar condenado a existir
Sem outra comunhão a não

ser consigo mesmo. Tonsura
sem encanto na presença e a
inútil queda sobre o centro

MIRAGEM

Minas, assim mesmo te canto.
Enigma que me diz o quanto
nada saberei nesta linhagem
Representar o impossível amor

cevado pelo poema diante do
nada é a maneira de esquecer
a dor premeditada. Quero ser
teu, mesmo que isso custe a vida

Ninguém me disse o que fazer
Nem me mostraram o lugar
onde a revelação se pronunciava

Remendei os fios da fuselagem
no cosmo dessa nave. Minas
não há, apenas sua miragem

NEI DUCLÓS

13 de abril de 2015

PÓLVORA SECA



Nei Duclós

Minha devoção é a palavra
a trato mal, como a um santo
comprado na feira
Vivo na fronteira do rio
que a banha. Faço manha
nos pedidos. Quero viver
sem compromisso, sem cantar
o hino, sem compartilhar o vício

Sou agnóstico de suas rezas
apenas gosto da teologia
seus sermões, suas sonatas
Tenho com a palavra a memória
da serenata, o grito da janela
quando partimos para a capital
jogando a infância fora

Sei onde ela mora, no templo
construído no ar, sopro de vela
cristais e guizos, vociferar de balas
Palavra quando quer faz a guerra
No front carrego para a arrancada
rumo ao monte castelo da neve
penetro na casamata, lá a musa
dorme o sono de pólvora seca


RETORNO - Imagem: obra de Victor Gabriel Gilbert




12 de abril de 2015

DISTRAÍDA



Nei Duclós

Pergunto por ti ao amanhecer. Estás distraída com as flores.

Economizo as imagens que me deste. Assim ficam comigo mais tempo antes de cobrirem a margem dos versos que se espalham pelo vento.

Te amo na madrugada, quando os anjos dormem.

Emoções se esvaem como água da chuva que por um tempo ficou presa na terra limitada de um canteiro. Desiste de alimentar a flor que demora.

Soa artificial o que parecia amoroso, vazio o que sugeria espírito habitado. É quando os laços entre os corações se rompem.

Escrevo para que me esqueças. Um dia lembrarás, açucena.

De qualquer tempo ficará o poema. Palavra sobrevivente, rastro de estrela.

Vejo você distante e não acredito. Tive a chance mas morri tentando.

Há tempos não escrevo os versos que eletrizam. Perdi o estímulo que vinha da tua fonte.

Caímos na vala comum dos amores que se partem. Somos mendigos de um sentimento que tinha o perfil da arte.

Achei que esperar fazia parte da magia. Mas era entulho atrapalhando a carruagem movida a suspiros.

Agora que decretamos o corte oficial da nossa liga, posso dizer eu te amo na solidão infinita.

Tinha esperança, mas o adeus foi definitivo. Ainda nos falamos, cintura de delírio.

Amor é como a flor oportunista que medra em planta alheia. Uma ilusão dentro da outra, a vida escondida na areia

Te espero em outra encarnação, quando formos desconhecidos. Nesta estamos próximos demais, a anos luz da sintonia.

Não faça pouco do sentimento. Depois de rir na frente dos outros, choras em teu quarto jogado às traças.

Pela vida, passamos lotado. Só nos damos conta quando o ponto fica para trás. Aí descemos, na estrada escura da eternidade.

Escolhi as palavras no mercado. Estavam meio passadas, mas serviram. Com elas montei um alçapão para apanhar o Tempo, que insiste em fugir pelos matos

Monitorar o sentimento alheio é a pior espécie de violência.

Seremos melhores, quando o amor retomar o posto no nosso coração sem esperança.

A chuva forte torna o sábado menos culpado. Podemos nos recolher ao livro que ainda não escrevemos.

Discordo de ti até o osso. Mais um motivo para estarmos juntos.


 
ABRIL AZUL

Bom dia, abril, mês bonito. Vens do leste, da brisa. Não sinto vergonha da poesia que despertas sem conflito. Escorres, mel do clima.

Quando não tenho o que dizer, digo céu azul.

Não sei se você viu a lua. É um pinguinho branco no miolo do azul.

Farinha de nuvem na mesa firme do fim de março.

Falo por nuvens. Ela responde por céu azul.

Perfil escuro de folha em dia claro no muro.

A romã toma um banho de nuvem.

O céu azul escreve em nuvens

O.  azul do céu é uma ilusão. O cosmo é frio. A forja do sol é tempo bom?





POEMAS MÍNIMOS

Não sei quem é
mas vou descobrir
Basta que um de nós
pronuncie a palavra
amor
*
Não é questão de gostar ou de querer.
Ou mesmo de amar.
É não poder viver sem.
É diferente.
*
Não mando
Cartas
De amor
Obedeço
*
Limpinho
O poema
Sem riscos
Só a poeira
Invisível no bolso
Interno do delírio
*
Desafias o mar,
mas ele está em outro patamar.
O mar cultiva teu canto de sereia
em vez de gestos radicais.

9 de abril de 2015

CATIVA



Nei Duclós

Amor não é realejo
Meu coração não passa o chapéu
para esmolar o beijo

Vê se encontra em outra praça
o que esperavas escutar
no meu concerto. Só toco fugas

Fuligem da solidão se deposita
na calçada. Escuto teu ruído
mas ele não me alcança

Errei a partitura. És arisca
e negaste a sedução da graça
Meu rosto desmaia em tua pintura

Livrei a paixão do jugo
e acordei numa confusão de espelhos
eram lembranças do nosso cativeiro



REFÚGIO



Nei Duclós

A percepção dispensa artifícios para se expressar.
Diga na lata, com palavras conhecidas e texto limpo.

Não prepare o leitor para saques da próxima página.
Ninguém aguarda truques autorais cobertos de pó

Teça algo que vista o corpo nu de abandono
Prepare um pano que sirva de bandeira ou vela

Não perca tempo raspando o granito de uma obra
o galho seco de um palco, o vazio do reconhecimento

Fale o que for preciso e se mande sem pedir retorno
para seu refúgio ao pé das grandes montanhas.