23 de agosto de 2016

ESPLENDOR E PÂNICO



Nei Duclós

É o poema que me revisita
faz o balanço no autor antigo
folheia seu espírito decano
observa o estilo do espanto

Deduz que assim estava escrito
o poeta que decidiu ter dito
o que parecia mais do que estranho
e hoje aguarda o verso na varanda
composto quando era quase criança
e que tinha a vasta sabedoria
da sonoridade em demasia
e a profecia feita sem segredo

Bastou tocar a túnicA do anjo
para ouvir o que a gruta escondia

É o primeiro livro que vê o poeta
em sua alegoria de mais idade
e confirma a árdua maturidade
do moço que agora se recolhe
com suas vestes de amor e cobre
em densa estátua de carne
e penugem e gosto de pétala
que traz em sua boca de prata
corpo presente, alma lavada
a recitar o assombro navegante
seu fermento, braço de um tempo
junto com o olhar semelhante

Pois todos são vistos nessa obra
e fazem parte do esplendor e pânico

RETORNO - Imagem desta edição: obra de Van Gogh

22 de agosto de 2016

DOMINGO DE OURO



Nei Duclós

Não tive condições cardiovasculares de acompanhar a prorrogação. Obedecendo a alguns sinais, me recolhi, mas assim mesmo vi os minutos finais. Nos pênaltis, só assisti os replays. Descobri depois que o goleirão Weverton fez o mesmo, deu as costas para o pênalti decisivo batido por Neymar. Ficou olhando a torcida e só aí ganhou coragem para se virar e comemorar. Galvão entregou que o Arnaldo Cezar Coelho também não olhava a batida dos pênaltis. É preciso se preservar.

No fim deu tudo certo. Houve desperdício do momento de grandeza, como o jogador alemão que fez com os dedos o 7 do nosso vexame na Copa. E um pouco também de Neymar que repetiu Zagallo dizendo que vão ter que o engolir. Ou seja, não se pode criticá-lo quando joga mal? Empatar com o Iraque, país bombardeado em guerra, foi o máximo. Depois da visita do Tite e do puxão de orelhas coletivo da crônica esportiva e dos torcedores, eles deslancharam.

Os mesmos torcedores que vibraram com o ouro criticaram no início do torneio. Faz parte do jogo.;Não nos conformamos em ser eliminados na primeira fase, como aconteceu na Copa América. E corremos esse risco nesta Olimpíada Chega de pagar mico. Somos pentacampeões e os atuais campeões olímpicos por mais quatro anos.

O mérito é de toda a seleção. Destaque para o goleiro que pegou o pênalti e para Neymar,que fez aquele golaço por cobertura, de falta, na gaveta. E que não tremeu na hora de decidir definitivamente. O goleiro foi fundamental, mas Neymar foi o grande protagonista. Isso ninguém tira dele.

É preciso comentar também a porção espiritual do espetáculo. A bandana branca com 100% Jesus de Neymar e a declaração de Weverton que Deus deu uma segunda chance ao Brasil devem ser levados em consideração. Estamos aqui de passagem. Somos responsáveis por nossos atos, mas estamos à mercê do destino, do imponderável. O travessão poderia nos trair. A paradinha antes do chute poderia não funcionar. Não que Deus jogue ou fiscalize. Mas deve prestar muita atenção. Olhando os lances de frente, espero.


21 de agosto de 2016

FICA



Nei Duclós

Quero de volta Gisele ao som de Garota de Ipanema, Paulinho cantando o hino, a massa dizendo o campeão voltou.

Quero de volta Isaquias medalhando a canoagem,Thiago pulando acima de tudo,judocas repartindo ouro.

Quero vencer na água, no campo, na quadra. Quero correr mais, suar mais, viver mais. Quero a bandeira do Brasil ascendendo ao topo.

Quero respeitar quem nos dá o exemplo vindo de longe. Quero saltar em parafuso como o chinês, voar como o jamaicano, dançar com a pequena ginasta maior

Quero lutar vindo do sertão, da selva, do subúrbio, das capitais, do litoral, das montanhas, das planícies. Quero ser recebido em casa como um herói

Quero acertar o alvo, sacar e bloquear, bater o pênalti, gritar, aplaudir e chorar. Quero de volta o país soberano, sepultado por um tempo, mas que retorno,impávido colosso.

Fica, espírito olímpico, fica entre nós. Estamos necessitados de grandeza, de vitórias, de mostrar a nós mesmos do que somos capazes. Fica.





19 de agosto de 2016

VERDADES E MENTIRAS NO ESPETÁCULO



Nei Duclós

Americanos são especialistas em mentir. Essa é a sua essência como civilização. O espetáculo foi inventado como representação da realidade e dos sonhos, mas serve para a mentira e a patriotada. Americanos manipulam os fatos com as versões que os colocam como os bam bam bam do mundo. É preciso porém atender às expectativas do público, pois o show precisa de dinheiro. Assim, os nadadores aproveitaram eventos anteriores (é sempre uma refilmagem), da violência carioca, para compor o roteiro do assalto no Rio sem lei. Colocaram-se como protagonistas de um filme de ação, onde seriam as vítimas e os heróis medalhados à mercê da barbárie do mundo pobre. Foram desmascarados.

Agora a mídia e as fontes oficiais dos Estados Unidos querem provar que esses mentirosos não são a essência deles. Pois são. Vejamos o caso de Santos Dumont. A diplomacia americana pressionou o Aero Clube de Paris para incluir, de última hora,  os irmãos Wright entre os primeiros pilotos com brevê. Armaram então uma demonstração do voo do Flyer, que teria sido o pioneiro dos voos (ate Santos Dumont voar, eles estava mudos). Pois bem. Funcionava assim: o avião estava ligado a um peso, o pylon, que era puxado por uma fila de homens, apelidados de os barqueiros do Volga pelo humor parisiense. Quando soltavam o peso o aviãozinho ganhava impulso para voar. Não era o que tinha feito Santos Dumont depois de muitos anos de pesquisa e mostrado, nas fuças no mundo, filmado e fotografo, como levantar o mais pesado que o ar, um mecanismo até hoje vigente na indústria aeronáutica.

Há outros exemplos notórios. Como a injustiça a Nikola Tesla na implantação do parque energético, como devassaram seu escritório roubando documentos, como se apropriaram dos seus inventos relegando o inventor ao ostracismo e ao esquecimento. Há também a versão cinematográfica de que foi o John Wayne (eles, os gringos) que ganhou a Segunda Guerra, quando se sabe que os russos fora decisivos na batalha de tanques de Kursk. Americanos passearam na Europa derrotada e filmaram a alegria e os alivio dos povos “libertados” pelo charme ianque, que nos filmes sempre “comem” as mulheres dos outros povos, de qualquer nacionalidade. São os paus de ferro do mundo.

Só que não. Perderam inclusive, nesta Olimpíada, além do carisma de suas vitórias com o evento da mentira dos nadadores, a própria experiência de marcar um espetáculo com criatividade. Isso coube ao jamaicano Usain Bolt, que além das medalhas de ouro usou um gesto antigo da mitologia para definir e identificar suas grandes vitórias. Nesse caso, o espetáculo (o gesto vitorioso do corpo e o braço apontando o infinito) cumpre seu papel de representação ética dos fatos. Coisa que os americanos perderam, há tempos. E ao apontar com os dois polegares para seu peito, não está sendo ególatra, mas mostrando que pertence a um país, a Jamaica, gravado em sua camiseta.

Enquanto os gringos emporcalharam suas medalhas de ouro com a atochada homérica, o Brasil tem se saído bem, revelando novos ídolos em esportes pouco cultivados entre nós. Vem aí, se soubermos aproveitar e deixarmos de ser um país de atordoados, novos atletas de pulo, remo, boxe, judô etc.


15 de agosto de 2016

CARNE CRUA



Nei Duclós

O que fazer com a limitação?
Muro mais alto do que o pulo
canal oculto em diagonal
do dente que inflama
sem aparente motivo?

A falha intelectual do estudo
análise sem base, perspectiva
em design duro, metálico som
fora do concerto de violino?
A medíocre serenidade muda?

Tentar tapeá-la com expedientes
frios, dourar a pílula do jugo?
Confiscar a vergonha de ser vil
ou encará-la como algo humano
álibi perfeito de quem compactua

O que fazer com a solidão
de não participar da aventura
ficar aquém das promessas
e rondar a vida como um lobo
faminto a fuçar restos de lixo?


Concentro-me na chance
de dar a volta por cima. Aposto
no que enxergo apesar de tudo
É única essa linha que inauguro
cânone de mendigo, carne crua

RETORNO - Imagem desta edição: obra de Carlos Reis