24 de setembro de 2018

PALAVRA DE DESPEDIDA

Nei Duclós


Palavra de despedida
Silente, como um aceno
Porque não cabe uma vida
No intervalo de um sino

Na última batida
Subiste o degrau extremo
Teu rosto ainda se vira
Para meu pranto suspenso

Porque não damos bandeira
Quando o amor é impossivel
Você parte e eu fico
Os corpos já não se entendem

No entanto não se assuste
Ao olhar pela janela
Na areia do faroeste
Eu cavalgo minha pressa

Levo um recado supremo
No sujo chapéu de feltro
Digo em sinais de lenço
O adiado compromisso

Nem sempre o coração vibra
No diapasão do poema



PURO CORAL

Nei Duclós


Mostro o que sou
Para que vejas o que não aparece
Minha devoção, que brilha no rosto exausto

E que revela os túneis da fantasia
Tu sem disfarce a me fazer companhia
A esperar a manhã, iluminação mais fina
Puro coral da íntima alegria


ALÉM DA MOLDURA

Nei Duclós


Teu olhar está pedindo socorro
O sorriso não disfarça, antes reforça
É o desperdício que te põe para baixo
Tanta beleza nos limites do óbvio

Não que precises posar de estrela
Isso já és, sem fazer esforço
Mas é o destino de brilhar intensa
Mesmo anônima, jóia preciosa

Noto que olhas muito além da foto
Presa na moldura que a vida modela
Procuras uma porta, uma janela
Pudera estar eu no alvo dessa rota



SEM CONSERTO

Nei Duclós


No momento em que ela é sua
Você a perde
Seu caminho agora é a rua
Mais cedo ou mais tarde

Mulher nada a segura
Nem a própria vida, que joga para o alto
Queres guardar a lua numa redoma
Mas em qual fase será que escapa?

Orgulho da caçapa quando a pões nua
Mal sabes que a conquista é o início da derrota
Mantenha-se no espaço que o amor rabisca
Não queira fazer disso uma pintura

Ela voará, ave sem conserto
E só pousará se lhe der na telha



22 de setembro de 2018

DESCENSO

Nei Duclós


É como se o corpo pedisse arreglo
Provando que não tenho mais conserto
A perna que há anos se atormenta
Com a pele em fogo de bruta bactéria
A visão cada vez mais sem resistência
O coração fora do ritmo e a cabeca
A tontear conforme avança o inverno

As engrenagens ringem nos tropeços
Os dentes que se foram sem ser substituídos
E o ouvido a se ressentir com os silêncios

Qual é a moral da história?
Recuperar os movimentos
dançando um tango após o diagnóstico?

Que seja. Dance comigo E não tema.
Contigo é a unica maneira
De eu viver sem ter um troço



MAIS TARDE

Nei Duclós


A realidade desmoraliza
Coloca tua profecia no chinelo
Faz tua análise provocar engulhos
Descarta a poesia e as velhas fantasias

Te reduz ao pó de onde jamais saímos
Somos testemunhas, jamais protagonistas
Nossa vida mendiga latas usadas para a reciclagem
Enquanto completam o serviço: fazem caridade

Você quer dormir e eles te acordam
Com a sopa do discurso e o cobertor da miséria
Muito bom o que escreveste, dizem eles
Só que não tivemos tempo de ler
Guardamos para mais tarde



MELIANTE


Nei Duclós


Cachorro descobre teu próximo lance
Faz o diagnóstico do teu pensamento
Segue o movimento antes que aconteça
Sintoniza na mente como os predadores

Chega junto em todos os instantes
Não por ser dono, mas por ser semelhante
És o cão que ele formata ligeiro
Oriente as orelhas, enterre o osso

Ele domina a casa e mija nas roupas
Esfrega o focinho na tua comida
És seu refém, o monstro meliante
jamais sente pena de quem sequestra

No fim do dia chegam as crianças
E enchem de mimo o ditador dengoso
Ele te olha lânguido imaginando
O que fará contigo no dia seguinte


EXPOSIÇÃO DE ARTE

Nei Duclós


Perguntas pela flor, sendo a mais bela
Como se fosse obrigação da primavera
Providenciar o que te sobra
És a obra
Não perguntes pelo que deslumbra nossos olhos

E não importa se isso está fora de moda
Te comparar ao que a natureza aprova
Esse bordado de cor e forma
Que cobre as pedras da rua onde moras

Passo a passeio
Carrego rosas
E noto que me espias da janela
Nenhum de nós domina tanta corte
Oferecer a flor para quem não sabe
O quanto expõe de sua própria arte



20 de setembro de 2018

ESTÁTUA

Nei Duclós


Terra para mim é água
Riacho onde o pampa acaba
E o mato inaugura a obra:
Barco e tralha de pesca

Acampados no barranco
A linhada bem na boca
A rede onde faz a curva
O surubi ressabiado

O rio que banha a cidade
O barro cobrindo as pedras
O assobio da piava
Dourado passando ao largo

Nunca estive a cavalo
Nem fui à carga de lança
Os causos quando criança
Falavam de outra fauna

Faca só para as escamas
Tiros se houvesse festa
Mas às vezes as perdizes
Chamavam de campo aberto

Carregando a espingarda
Chumbo grosso para a janta
O cachorro viu primeiro
Virou estátua na hora

Desisti e virei ponte
Onde tudo recomeça.



19 de setembro de 2018

ADÃO E EVA

Nei Duclós


Não foi o vício
que nos expulsou do paraíso
Mas o ofício para ficar inteiros
depois da Queda, o pior batismo

É o que nos faz humanos
Tua doce pétala apagando o remorso
Meu espirito atento com sabor de pólvora

Adão e Eva, a inventar família
Lavrar o afeto nos filhos opostos
Essa linhagem sem Deus de sentinela
Sua voz de trovão fora da conversa

Aqui não entra a espada, que ficou de guarda
Temos o fogo, coração do inverno
E nossas mãos, que a Criação adora



18 de setembro de 2018

LENTES

Nei Duclós


Conheço as fotos que pões ainda
Como se fossem hoje e são antigas
E que a todos atingem pela beleza
Mas não sabem que agora és diferente
Mais sóbria nas linhas do desejo

Talvez não interesse e insistem no mesmo
Como se fosse eterno teu perdido momento
E não enxergam o que só eu vejo
Pelas lentes do amor, confessor do tempo



16 de setembro de 2018

TARDE DEMAIS

Nei Duclós


Inútil a palavra depois que morre
o som de uma conversa de amor
E medra o horror plantado entre nós

Suspendo o verbo, escuto os passos armados
pelas vozes que agora se escondem

Quando se manifestaram sem freios
já era tarde demais




PLENITUDE

Nei Duclós


Teu recato faz parte da personagem
Memória da moça que nasceu há tempos
E ainda tem o ar do teu começo

Poderia ser falso já que és madura
Mas ainda é tua essa atitude certa
Flor da plenitude, passo de açucena



RELÓGIO

Nei Duclós



Nítida no céu a líquida estrela
Se desfaz em luz que molha a noite
Silêncio do sereno em íntimo descenso
A pousar no chapéu que já não tenho

Fim de estação em teu olhar de feltro
Retumba o coração na sala do mistério
Plena de amor ainda sem apoio
Nenhum dom à vista no ofício da pele

Sobe a lua cheia assombrada pelo medo
Ela não pediu para entrar nesse universo
Pertence sabe-se a quem, criatura sem retoque
Origens talvez no que jamais tem preço
Esse sino que é o tempo nas dobras do relógio



12 de setembro de 2018

MEU NOVO ROMANCE PELA AMAZON


Nei Duclós

A fronteira no final dos anos 30: uma investigação, um crime, um tesouro enterrado, uma derrama de dinheiro falso, um trem noturno, um pescador, um adivinho, um mandalhete que pretende entrar para a polícia, uma mulher de vestido prateado, uma viúva, um casamento, as heranças, os conflitos, os gângsters.

A DURA LUZ DO SUBÚRBIO é uma história da fronteira escrita entre 2016 e 2017 e que reúne personagens da mocidade dos meus pais misturados às minhas próprias lembranças. Um clima de filme noir com drama e comédia policial revela o carismático e elegante Leva e Traz, o mandalhete da máfia que queria ser investigador. Entre outros destacados personagens.

Uma ferrovia imaginada pela memória contém elementos de um confronto na fronteira do Rio Grande do Sul no final dos anos 1930. O popular Leva e Traz, personagem de pouca altura que se veste com terno e chapéu de feltro, levando sempre uma arma na cintura, usa o trajeto para entregar em mãos pacotes suspeitos de potentados da região e por isso enfrenta diversos contratempos. Precisa explicar para bandidos menores o que faz com tanto esmero de lá para cá, enquanto esconde seu hobby, a busca de tesouros perdidos no pampa. Na trama se destacam personagens marcados por tragédias familiares, como a perda de um pai, de um emprego, da mocidade, da paz. Desfila no romance uma galeria de personalidades marcantes, como a viúva mãe de mpças em idade de casar, o delegado que fica às voltas com derrame de dinheiro falso e por isso não atende direito o Leva e Traz, que sonha em ser detetive da polícia, a beldade do cabaré de vestido prateado. Num texto impregnado pelo clima direto e franco do lugar onde se desenrola a trama – uma cidade e as aldeias ao redor, as casas e ruas e escritórios luxuosos em oposição ao campo aberto onde se esconde um cadáver e pessoas perdidas como o velho pescador dos arroios ou o benzedor e adivinho que mostra onde há ouro enterrado.Num crescendo, a ação chega ao desfecho jogando os protagonistas no ermo de uma literatura de sóbria carpintaria.    

Romance
Nei Duclós
Ebook Kindle
76 pgs
R$ 25



TESOUROS

Nei Duclós


Não temos valor quando estamos vivos
Só depois, ao ser distribuídos
Os pertences que passam sem compromisso
Uma escova de dente de marfim antigo
Uma enxada de prata para lavrar estrelas
Um tapete persa tecido no sótão
Uma camiseta assinada pelo craque esquecido

E os livros! Insurrectos de Emílio Salgari
A Guerra dos Mascates, o Mundo da Criança
E o acervo de capa verde de Lobato

Tudo caindo aos pedaços, folheados por gerações
em profundos invernos
Uma cestinha de vime para que a mãe guardasse
Suas lãs e alfinetes e um enorme rosário

Talvez fique num canto sem propósito
Tesouros que agora somem no depósito
O que fica é o toque de mãos invisíveis
Que um dia foram nossas e agora não existem



11 de setembro de 2018

LÓGICA E MISTÉRIO

Nei Duclós


É uma questão de lógica, apesar do mistério
De sobrevivência do nosso pobre espírito
Confiar que exista Deus, marca do infinito
Na mente fechada em seus limites

Para não haver solidão, sólida contingência
Na hora final quando a alma grita
E o poder soberano então escuta
A tempo de ver o que o destino apronta
Quando tudo no universo é só clausura
E o pai que nada pode contra o destino
De ver a morte certa ceifando trigo

Não há misericórdia, acreditar ou não
É o mesmo desenlace
Então é o coração o último refúgio
Chamam de amor mas é pura tempestade



VENTO SECRETO

Nei Duclós


Sonhei com o vento secreto
Ninguém sabe que ele venta
De onde vem sua tormenta
Para onde vai quando deita

Não descobrem sua agenda
Escrita em fiapos de estopa
Se sopra por contingência
Nos barcos que perdem tempo

Na guerra ele representa
O movimento silente
Canhões antes do comando
Naufrágios de uma bandeira

Ao marcar a sua ausência
Roçando a pele ainda quente
De quem perdeu o momento
Quase entrega sua existência

Sua solidão é aparente
Por não ter corpo presente
Mas se uma vez te apaixonas
Sentirás o seu segredo



9 de setembro de 2018

EXPOSITORA

Nei Duclós


O poema te define
És verbo feito carne trêmula
Que habitou entre nós

Não a lei ou aforisma
O projeto, o estribilho
Mas a estrada mais firme

Vocação de cantoria
Expositora de espinhos




FOLGADOS

Nei Duclós


Morrer de amor, ah êxtase profundo
Quem dera o mundo
fosse assim pequeno
Que coubesse numa cama e de veneno
Só provasse o sabor da nossa entrega

Nessa refrega somos combatentes
Em missão urgente em cima da derrama
Contemos sentimento em cada dobra
Do corpo em convulso movimento

Depois a paz! e o mar rugindo ao fundo
Quer participar, monstro salgado
mas ele é espuma e nós bem sorridentes
Temos a cara de dois baita folgados

Morrer de amor, mas só de onda





BEM PASSADO

Nei Duclós


Com a idade enxergamos com a memória
Onde pus a caneta? Se não lembro não vejo
Não ouvimos o suficiente
Para entender, imaginamos
Nem sempre com bons resultados

Sonhamos caminhar como em outros tempos
Em que trilha e degraus não impediam
A respiração normal e o riso aberto
Ficamos concentrados na calçada
Ou o que resta dela, hoje entregue às bicicletas

Dirigir se transforma num perigo
Melhor a carona ou o assento disponível
Do público serviço de transporte

Com a alta pressão somos quase inválidos
Somada à catarata completa o quadro

Para piorar usamos um boné
Que nos identifica pela imagem
Não olhamos para o lado
Para evitar quem passa indiferente
Tenho histórias para contar, mas já saiu no
blog

Por isso entro na farmácia conformado
Quero um almoço bem passado
Digo no balcão dos antibióticos
Não lembro onde estou, fico confuso
Substitui os sentidos por desplante

O tempo me aprontou, embora antes
eu tenha abusado da bebida
É a vingança, mas só saio da farmácia almoçado




MATINA

Nei Duclós


O dia que nasce por acaso
Impondo seus redutos de domínio
De luz colhida em espaços físicos
No ritmo de um risco calculado
E te convida não por terapia
Mas porque arrasta a vida para seu lado
E te desafia a ter cuidado
De não partir antes da hora

Esse é o sopro de uma profecia
Que afasta teu sonho da preguiça
Chama-se levante e vem do leste
A celebração que aguardas por um século
E no entanto a teus pés se deposita
cada matina em que negas sua existência

Mas ela insiste nesta sina repetida
Com sua túnica de impuro azul celeste





5 de setembro de 2018

INSANO

Nei Duclós


Poesia é aquilo que faz falta
Fatia rara apesar de tanta oferta
E que reclamas quando minha overdose
Descansa um pouco para retomar o fôlego

Num acesso idêntico a Baudelaire
Que perguntava: e o lado belo da vida?
Ao vidraceiro que não tinha o colorido
No seu produto, insosso e irrefletido
Assim me jogas na cara ao ser omisso
E esquecer do amor, que é o meu ofício

São flores de um mal súbito estes versos
Que cobrem tua doçura de acalantos
Eles te mal acostumam, musa ansiosa
E não dão trégua ao trovador insano



1 de setembro de 2018

APRONTO

Nei Duclós


Sou livre no que imagino
Transbordo no paraiso
Depois volto ao que limita
O velho espaço mesquinho

Faço meu próprio filme
Único protagonista
História é o que se combina
Acordo de sobrevida

Não há lei na fantasia
Costuro sem ser punido
Escondo minha terra à vista
Do alto da gávea minto

A não ser que a poesia
Escancare em estribilho
O que apronto sem ter sido
Rosnar de leão faminto



FOI O EXAGERO

Nei Duclós


Não queres mais me ver
Talvez foi o exagero
Do meu amor sem freio
Que rompeu o enredo

Mas não me importo
Para não dar motivo
Posso tudo, viver sem ti
É o verdadeiro privilégio

Se acaso me consultas
Por mera coincidência
Sobre algum problema
Da ciência ou da política

Serei solícito e atento
Não confunda,meu medo
É que notes desconforto
Da minha perna trêmula



30 de agosto de 2018

SHERLOCK E OS BASTIDORES DO OLHAR


Nei Duclós

O criminoso fica nos bastidores do olhar. Não é notado, mas enxerga todo mundo e escolhe suas vítimas aproveitando-se dessa indiferença coletiva. Nas ruas, por exemplo, no meio da multidão, o motorista de taxi é muito solicitado, mas ninguém presta atenção nele; num casamento, todos são registrados nas lentes do fotógrafo, que fica atrás das câmaras sem ninguém saber quem é .

A invisibilidade do criminoso é a área de Sherlock Holmes, que para enxergar o que ninguém nota precisa usar seu palácio mental (baseado nas capacidades do gênio sérvio das grandes inovações, Tesla, de projetar tudo o que imagina na sua frente, como um filme), o microscópio onde detecta as mínimas pistas do que as pessoas fazem, a busca pela internet e os arquivos secretos do governo. O poder, representado pelo irmão do detetive, Mycroft, trabalha com a invisibilidade, concorre portanto com o criminoso. Por isso precisa de Sherlock, para descerrar o véu e dominar a situação.

A série Sherlock ( BBC, Netflix, ficha técnica no site IMDB) é fiel à minha máxima Todo filme é sobre cinema. Pois tudo é falso na Sétimas Arte: os roteiros, os diálogos, os personagens, os cenários. Menos o cinema, que é o único evento real, está exposto na nossa frente num acordo entre a obra e o espectador. Posto isso, há total e extrema liberdade para se fazer o que quiser com as histórias de Sir Conan Doyle, desenvolvendo a complexa relação entre o detetive e seu braço direito, Dr. Watson, seu arquiinimigo Moriarty, e alguns coadjuvantes como a sra. Hudson, dona do endereço famosos Baker Street 221B, Molly Hooper a especialista em cadáveres, a rede de mendigos que são seus aliados fiéis e impossíveis de rastrear e hackear, entre outros.

Há certeza da predominância do Mesmo na relação entre os homens. Todos apostam que Sherlock e Watson são um casal, velha releitura pelo menos desde os anos 1960, e muitas cenas parecem confirmar essa ligação homo. E há a identificação total entre o histérico Moriarty, que disputa, pelo crime, a posse de Sherlock contra o “casamento” deste com Watson. Faz parte da trama da invisibilidade: o que parece ser um segredo está na vista de todo mundo. Não é um crime, apenas faz parte do universo do detetive.Watson é o contraponto do olhar pesquisador do detetive. Watdson, médico de guerra, vislumbra o que aprendeu a ver. Ele não enxerga a trama qure está sendo investigada, reforça a invisibilidade do criminoso, mas serve de âncora para Sherlock na sua saga dispersiva e caótica, em que a dedução procura colocar uma ordem no caos.

A súbita notoriedade de Sherlock devido ao sucesso de suas investigações e as histórias escritas sobre ele e publicadas por Watson, contradiz a necessidade de ficar invisível para se misturar aos criminosos e assim poder decifrá-los, identificá-los e mandá-los para a Scotland Yard. Mas o extremo ego do detetive explicitamente psicopata não consegue segurar essa fama, que acaba o envolvendo e traindo. Ele enfrenta perseguição, prisão, exílio e morte (aparente, claro, pois tudo é falso no cinema).

Veloz, brilhante, contraditória. Uma série para ser seguida pela inteligência e a criatividade



28 de agosto de 2018

TUAS PALAVRAS

Nei Duclós

Gosto de saber por tuas palavras

Que não são tuas, são por onde andavas
E foste recolhendo pelo arrasto
Como o pescador que teima em sua arte

Escolhes as melhores, não as mais bonitas
Pois as falas ornamentais são enjoadas
Vale as que se prestam ao tom da narrativa
Que é teu dom, contador de rudes causos

Encilhas a história no trote da manada
(o mundo em que vives e pões um teto)
Todos os moços já fizeram roda
É o tempo que pousa em teu velho pala

Muitos silêncios pontuam junto ao fogo
Por prudência para lembrar toda a verdade
Confundem com suspense , mas não finges
És como farpa de mourão costeando a tropa

Na noite profunda o mistério se aproxima
Quer ouvir o desfecho, o final na encruzilhada
O tinir da espada, o amor que na garupa
estende o corpo sobre o cavaleiro alado

Há sinos e sopro de valsas e marchas
Uma aventura deixou um claro rastro
E tu, gigante, tudo nos confessa
Trancamos a respiração em tuas águas

Nei Duclós

27 de agosto de 2018

O INTRUSO

Nei Duclós


Você é uma outra pessoa
Que já existia sem que eu visse
Agora descubro o papel estranho
Desempenhado pelo amor, o intruso

Você faz jogo de cena
Distribui diálogos sem testemunhas
A toda hora me corrige para manter distância

Procuro lembrar a origem do meu engano
Foi o teu rosto, tua vertigem
E eu que sempre temi altura

Hoje passo em vão por tua rua
Um cão vagabundo me persegue
Escuto palmas, alguém se manifesta
Depois emudece, como o coração à toa não se aproxima



ÚNICO TESOURO

Nei Duclós


Recolho-me ao silêncio, único tesouro
Que o mundo perdeu em criminosa obra
Encontrei-o depois de árdua resistência
Estava em mim, num bosque da memória

O fim do barulho coincide com a prece
Gritos do remorso viajaram para fora

A palavra só vinga se houver vitória sobre o habito
Em usá-la no tempo sem moldura própria

Lacônico, prestes a mergulhar na sorte
De ser silente para cerzir a barra
Que se esgarçou de tanta repetir-se em sol
Me concentro dentro do que sou mais forte

Mas estou vazio e a criação espera
Que eu encontre a nota primordial
Levará tempo, talvez depois que a alma
Perder essa grossa camada de retórica



25 de agosto de 2018

FINA FLOR

Nei Duclós


Acostumada à lisonja
Leitura que confunde o meu assombro
frente à fina flor da tua beleza
Reinas agora no ritmo das grandezas
Tendo perdido o vínculo de um acordo
Que chamamos de amor, mas era equívoco

Não adianta tentar reverter a ruptura
que tornou teu trem ponto de bala
Nem rir do que fiz, tão sem aprumo
Misturando meu querer com tuas prendas

Tenho pena de quem hoje alimenta
O ego que tomou um outro rumo
Em vez de fibra, mulher de voz brilhante
Viraste demagoga da tua imagem

Lamento ainda mais a minha sina
De ter interferido por conquista
Hoje amargo os despojos de um conflito
O sonho de sentir longe do alvo