20 de novembro de 2017

PAPEL DE EMBRULHO



Nei Duclós

O convívio te desloca
para onde perdes a noção
Quem sou eu depois de tanta estrada?
O bom é que o perfil sem forma
se adapta a qualquer parada

Cruzas invisível a guerra entre irmãos
Não lembram de ti
alma de outras terras
Anônimo coração em postas
nos corredores de sombra

Sobes numa caixa para ver melhor
a multidão em busca de um rosto
Entras no galpão para tomar café
e te confundem com o entregador de pão
Quero dois, dizem, precisamos comer
para seguir viagem

Com um lápis e papel de embrulho
escreves uma canção
Façam barulho, dizes, criem coragem
Gritem do trem em movimento
Voltamos ao front
da nação sem identidade


SOMOS SUBMERSOS



Nei Duclós

Somos submersos
Ambiente sem ruído
Dentro de nós, tudo combinado
Fora dos limites reais da superfície

Vir à tona é empurrar a roda emperrada na lama
Raspar a mão no muro
Para romper a faísca e interromper o mergulho

Esforço de lava que extrai a rocha do abismo
E rege o coral das ilhas com incêndio
Escândalo após o foro íntimo

Trazemos do fundo essa ilusão, a vida
Para assombro da pedra e do conflito
Inventamos do pó a linhagem e a língua
E depois repousamos na Criação aflita


O ADEUS



Nei Duclós

O adeus serviu-me de alimento
Providenciei a mesa e o expediente
Arrumei a casa em nova estampa
Fechei-me em copas e hábitos de monge

Revejo as cenas do tempo tão recente
Em que cuidamos do amor, cria do vento
Eras o espaço que hoje está sobrando
Sala de pé alto, quintal imenso

Sou outra pessoa. Não tenho mais correio
Esqueci a TV em algum canto
Faço a comida e disponho os pratos
Vai que você volte pela mão de um anjo


19 de novembro de 2017

A CHAVE DA TERRA



Nei Duclós (*)

Vinho é território, o sabor
gerado pela História
mas o tempo, em excesso
não comporta o que só a poesia
nos contempla

Fronteira lusitana, lugar
que os povos inauguram
numa sucessão de espadas
e de gestos misturados
tantas raízes e nenhuma pista
do que é dito e fica oculto

Cobrimos o rosto com a neblina
Da memória. A paisagem varrida
pelos que nos formaram
hoje é descampado, o sol a pino
e outros momentos de convívio
traçam o perfil deste resgate

É sóbrio o encontro entre o sonho
e a realidade. Nem aos deuses
permitem usar a chave
Perplexos, os contemporâneos
se dividem diante do mistério

No fundo não é o que bebemos
mas algo anterior, que nos inspira
concentrado no mosto, síntese
de uma herança ainda viva
pré determinada pela técnica
e mais além, a narrativa

Tudo no fim some para sempre
Fica a palavra, pairando no tempo
que é a nossa nação, a língua,
pátria afetiva, beijo e sangue
ninho de um espólio, a terra
portuguesa e seu esplendor
o Alentejo

 


RETORNO - (*)Dia 18/11/2017 foi o lançamento da antologia DO MOSTO À PALAVRA, da Editora Chiado, de Lisboa, que reúne poemas selecionados sobre o Alentejo, escritos especialmente por autores convidados. .Adianto aqui a minha participação, com este poema:

FURACÃO



Nei Duclós

É limitado o que foi escrito
corpo datado entre espíritos
não viram a explosão dos ares
que são a base e os princípios

Não sabem o que veio agora
em que tudo em si se devora
nem a luz escapa desse vórtice
o presente que enfim danou-se

Passado e futuro ficam na masmorra
o momento é rei e nos esbagaça
viver é arruaça, a mente se ofende
os livros se atiram do alto da estante

Ponho um bilhete na redoma de vidro
e jogo no ar, entre os resíduos
o furacão o leva para uma estrela
lá vive um amor, feito de memória



18 de novembro de 2017

PROFUNDO VENENO



Nei Duclós 
 
Quando alguém te cerca
com palavras de desconforto
como "inveja do bem"
e outros troços marotos
não releve os sinais
não faça pouco dos brutos

Não finja que estás acima
e não combinas com o alvo
Que isso é só o que mostram
do mal que tão fundo escondem

Mantenha-se à distância
de dois tiros de escopeta
pois uma hora te atingem
com seu profundo veneno