16 de setembro de 2014

NÉVOA

Nei Duclós

Triste é o Tempo
quando fecha a grade
e nos vemos fora
do pátio, na cela
que a surpresa montou
sobre a vértebra

O trágico dança
nos muros da memória
densidade que salta
no lírio da tarde
e o rosto se quebra
no escárnio

Poucas palavras
não fazem uma obra
semeamos pérgulas
na ilha deserta
pasto de unicórnio
no porão da página

Perco os sentidos
no abrir da cancela
gesto tardio não salva
Mando a mensagem
que a nuvem improvisa
na máscara da névoa


14 de setembro de 2014

A PRAIA DO POEMA



Nei Duclós.

Não disponho de sabedoria. Ocupo o poema com poesia

A praia do poema é para nós, solidão a dois.

Não entender nada do assunto é uma vantagem. Obriga a abordagem prudente e bem embasada. Evita o chute e a charada, frutos da vaidade.

Não desisti do amor. Só não sei onde deixei.

A curiosidade é uma necessidade da percepção em dívida com a realidade

Consumidor substituiu o cidadão. Por isso na hora do voto temos produtos de prateleiras.

Amor, há tempo não dizia. Perdi o hábito,  mas não o que sentia.

Peguei a flor emprestada, peguei carona em teu beijo, mantive o verso na estrada, molhei-te com teu sereno numa valsa enluarada.

É cedo demais para ativar o sonho., disseram É preciso então que o remorso se manifeste quando for tarde demais?

Não insista no amor, dizem todos. Estamos ocupados em perder tempo.

A palavra perdeu os sentidos. Acordou em outra vida, em que não existimos.

O sentimento posto na estante apodrece de um dia para outro. Leve-o para tomar sol, jardineira errante.

Fico exausto. Tenho fôlego curto e respiração boca a boca não funciona a distância.

Sinto falta da lua. A que nasce em ti, musa.

Mistura de superlua e crepúsculo tardio, o mês capricha em ser diferente. Mas de que serve se continuas em silêncio?

Sobra dia no avanço de setembro. O sol se espicha querendo atingir a primavera.

O amor não dura para sempre. Dura só um pouquinho, sempre.

Não te quero mais, lua. Te devolvi ao mar.


FOI-SE O DIA


Foi-se o dia, pintando o céu
com pincel de nuvem.
De um lado há promessa
de estrelas, do outro de neblina.
É como o coração dividido
entre a solidão e a festa.



13 de setembro de 2014

VAGA



Nei Duclós

Um gesto não se apaga
O adeus se estabelece
quando o amor
abre uma vaga

A planta permanece
no fecho da aldrava
A porta recupera
a madeira em queda

A matéria é eterna
só migra de estado
hoje sou teu corpo
amanhã teu carma

Corrijo ao som da corda
o estirão da primavera
pinto o que me nega
teu rosto incerto

A semente apodrece
só o vento nos resta
vibra de olho atento
a vontade na espera

RETORNO – Imagem desta edição: obra de Henrique Pousão.

11 de setembro de 2014

REPARTE

Nei Duclós

Quem lê pouco, cita. Gosta
de repartir o que lhe falta.
Quem lê muito se cala. O peso
do que foi dito lhe avassala

Quem gosta de ouvir não escolhe
a fonte de onde brota a narrativa
A surdez inviabiliza a lenda
que se perde em fogueiras extintas

A oferta de leitura desmascara
o ágrafo convicto, biombo da fala
o cultivo do vazio é letra morta
cemitério das páginas sem nada

Bastam poucas vozes e está pronta
a afeição pelo toque de silêncio
imóvel é a atenção no fim da tarde
quando o dia inútil se despede

Aprender é a tocaia do detalhe
treino o fôlego cada vez mais curto
aprendo menos, ensino o mesmo
outras vidas virão com biblioteca


RETORNO - Imagem desta edição: obra de Fabio Hurtado

10 de setembro de 2014

COR TARDIA



Nei Duclós

Os versos parecem bons, quando recém colhidos.
Depois sofrem com a idade. Exibem cicatrizes,
falta de ritmo. Perdem a embocadura
ou somos nós que acordamos para os seus ruídos?

Sofro se recito. Me parecem órfãos do sopro
que lhes deu vida. Escuto os ecos de vagidos
que punham em dúvida a certeza do ofício.
Quem sabe tinham razão, os maus espíritos?

Visito paisagens antigas em busca de resposta
elas encerram o tempo em ânforas de vidro
perfumes que se esfumam, gestos repetidos

Mas é a cor que persiste, submissa ao sonho,
ao confisco da mão firme que rabisca o futuro
no delírio do destino, acima da vil literatura


RETORNO -  Imagem: obra de Augustus Walcott

9 de setembro de 2014

ÚLTIMA LUA

Nei Duclós

A Lua cheia pula no limite
da paisagem, equilibrista suja
de horizonte, Ilumina o ventre.
do tempo inventando a manhã

Varre o piso do céu noturno.
Rola o olhar rútilo sobre amantes
ocultos. Dura até o sol precisar
de óculos escuros.Chispa de vez

como se jamais tivesse aparecido
sendo a última, acesa no bairro
improvável de corações impuros

Quando formos ritmo e não letra
cadência ou melodia da viagem
que fazemos à toa pelas nuvens



7 de setembro de 2014

PLANTO POR PLANTAR



Nei Duclós

Planto por plantar, por puro êxtase
para ver crescer o talo da semente,
a flor imprevista, a folha sob a chuva

A colheita é o que lento transfigura
a terra que vesti com as mãos e água
o piso da mistura no calor da pétala

Os bichos aproveitam, levam à toca
o desperdício do contemplar à toa
são meus confidentes, antena e asas

O jardim é o desleixo natural do corpo
corri demais e agora fico à sombra
formigas me carregam para ver a lua

Não é sabedoria esse vagar sem prumo
que palmilho prudente por gravetos
é só o sonho de viver além da conta



RETORNO - Imagem: foto de Eliane Fogel.