28 de março de 2017

OUTRO TEMPO



Nei Duclós

Nem estavas vivo
quando eu já tinha crescido
Meu pai punha chapéu para ir ao centro
A mãe voltava ao meio dia trazendo histórias do povo em fila na medicina pública
Ela atendia os doentes fazendo as fichas
enquanto o doutor se demorava

O país ainda existia
e jogávamos bola nas aulas de educação física
Quebrando geada e vendo o craque Abeguar, nosso colega, driblar todo o time adversário
E depois o próprio time para fazer gol

Iamos ao baile dançar com as gurias e nosso terno bege era escasso e, como nós, tímido

Era outro tempo
que mora em nós
mesmo depois de toda a humanidade ter nascido


CHAMA




Nei Duclós


Sábado é quando o tempo bate no teto
Não tem mais para onde ir e fica circulando
entre a rua e o sonho como um animal tonto
Você até tem programa mas não importa
Há o momento de encarar o pânico

Véspera de domingo e lá se vão os anos
Você cruza a madrugada com insônia
No dia seguinte o céu azul te chama
Estavas só, mas já é outono

LIBERDADE

 Nei Duclós

Fazemos tudo pela liberdade
Abandono de emprego, viagens
Driblar as armadilhas, bobagens
no lugar de coisas sérias

Somos aéreos, queremos paisagens
vistas de longe, vontades
que jamais se saciam
Queremos o canto quando temos o topo
a fama em pleno anonimato
Queremos o voo quando mergulhamos
e respirar em planetas bizarros

Sermos livres, situação utópica
Pois temos algemas de perdida chave
Até descobrir que as paredes são de vento
Sopra a verdade se houver calmaria
Há poesia no laço mais forte




UMA BÊNÇÃO



Nei Duclós

Há quem conserte ou venda
Quem construa ou planeje
Há quem fique entre mesas
Ou busque no campo a semente
Os que vivem no mar ou na aldeia
Os que pegam pesado, os que se aposentam
depois de uma vida plena

Para cada ocupação há um destino
Como ao poeta há a comunhão do ofício
Onde exerce a convocação de vozes
Posse da memória que as profissões abarcam
no acervo coletivo de uma bênção:

A vida a ser feita conforme as mãos mergulham
no tempo, essa contradição entre o sonho e o nascimento


PROVISÓRIO

Nei Duclós

Não me deixo levar pela amargura
Só por um trecho, fardo provisório
Depois me liberto de um fel impróprio
Embora fique o rescaldo sem nenhum açúcar

Memória da dor gravada em velho muro
Ficou para trás, alma sem consolo
Ficou para trás... por que então o choro?
Por que não sigo leve depois de tanto voo?
Talvez porque esse seja o único vínculo
que eu tenha com a vida que eu decidi ser minha