22 de outubro de 2017

MARCUS ACCIOLY (1943 - 2017)

Nei Duclós

Depois que publiquei em 2009 um ensaio sobre seu livro Daguerreótipos, que reproduzo abaixo, o poeta Marcus Accioly tornou-se assíduo no meu telefone, batendo longos papos sobre sua amada Recife e querida Itamaracá, sobre seu pai longevo com mais de cem anos, sobre a vida literária no país e sobre seus inumeráveis livros de poesia, já lançados e outros  ainda inéditos. Morreu hoje de causa não divulgada e foi tachado no jornalão como "ícone da poesia regional", o que combina ignorância com injustiça.

Autor ambicioso, me enviou vários lançamentos seus, entre eles um vasta poema sobre essa América.mítica, a do Sul e ficava combinando encontros que jamais tivemos. Adorou o texto que fiz e disse que ele seria a apresentação da reedição de Daguerreótipos. Foi-se aos 74 anos. Pelo muito que tencionava fazer, foi embora: cedo demais nesta vida de desperdícios.

Alô meu poeta do Recife: cultivaste a sintonia entre os pares, fazes parte do Brasil que nos criou e formou e tua obra resiste!.


O ELEVADOR NO ABISMO
Nei Duclós

Sobre o livro Daguerreótipos, de Marcus Accioly

Não é no soneto, mais de duzentos, do seu novo livro, Daguerreótipos (Escrituras, 222 páginas) que se situa a poesia de Marcus Accioly. Nem nos seus personagens malditos, de Lennon a Homero, de Maiakóvsky a Sylvia Plath, de Souza Cruz a Keats, que povoam esta obra, assustadora em todos os sentidos. Nem mesmo no Mal e na Dor, destino manifesto do gênio, segundo a sucessão de suicídios, enforcamentos, cortes, sangue e morte que impregnam os poemas. Tampouco na erudição, admirável, do poeta que dialoga em versos com os grande autores e no posfácio explica as fontes do seu ambicioso livro, citando os Mestres da linguagem, de Santo Agostinho a John Milton.

Sua poesia usa todas essas máscaras não para se esconder, mas porque o desespero de toda poesia é utilizar os instrumentos mais eficazes para se revelar. O excesso da dose aponta para o disfarce. Marcus Accioly procura contrapor seu vasto conhecimento às camisas de força de sua biografia, a de poeta pernambucano da geração de 65 saudado pelos maiores escritores da língua. “Daguerreótipos” prescinde do estro, do cânone, mesmo que dele se alimente. Usa o soneto como andaime para um edifício sem utilidade, idêntica à estrutura absurda do filme Oito e Meio, em que um Mastroiani/Fellini fugia das perguntas enquanto distraía a atenção geral com uma torre que enfim não servia para nada.

A poesia de Accioly usa de todos os ardis: a clonagem, a citação, a releitura, o resgate, o remorso, a maldição. Intensifica o tráfego entre a palavra e a sugestão, entre o verbo e a tempestade, entre a Queda e salvação. Prega as tábuas do seu edifício com rimas sólidas, com sintonias de música de câmara, com apelos de sinfonias, com ritmos complexos ou redundantes (a repetição de palavras funcionam como a percussão de perfis colhidos pelo sofrimento). Enrodilhado no verso, que cai em si como gotas de chuva numa paisagem de tambores expostos, ele encarna a imagem que os grandes criadores fazem de si e assume um narrador que é a verbalização desse encontro sobrenatural: “Ó Emily Brontë, sou Heathcliff/ e serás, para sempre, Catarina:/ amor que leva o coração à ruína/ amor que eu não pensava que existisse”.

Isso dá grande eloqüência aos poemas, que exibem uma exuberância de teatro grego clássico, em que as invocações trabalham as tragédias traduzidas pelo talento. Ao mesmo tempo, foge do artificialismo com que o soneto foi encarado por muito tempo, até ser recuperado pelos próprios modernistas e ter chegado até hoje com uma performance admirável, como comprovam obras como “A Imitação do Amanhecer”, de Bruno Tolentino. Em Accioly, o soneto é o elevador que aproxima a luz do abismo, a morte da redenção, a loucura da lucidez.

O poeta não precisa das leituras que faz, da linhagem a qual pertence, das origens ou de suas vitórias. O poeta nada possui e por isso é livre para tecer o canto como o lugar comum (de todos) que não existe a não ser como arrebatamento provocado pelo domínio absoluto da linguagem. Emociona em Accioly sua brasilidade, natureza morta em outras paragens, já que a soberania do país entrou em profunda depressão. Aqui, ela existe porque assim decide o poema, quando vibra: “Tu, Augusto dos Anjos e Demônios/ aos miasmas da noite, em teu Pau-Darco/ como um batráquio dentro do seu charco,/ gastas a multidão dos teus neurônios”.

Mas essa nacionalidade não se amarra à pobreza das consciências datadas. Antes, procura sintonias de extrema contundência: “Tu, que foste feroz (ele foi bravo)/ tu (dele dizem mercador de escravo)/ que a escravidão rompeste a gritos (salve):/ pois tu és o Brasil (ele é a França)/ pois é ele o destino (és a esperança)/ porque ele é Rimbaud e és Castro Alves!” Accioly sabe que o poema é o exagero e não teme ser confundindo com a hipérbole, ele que recupera a solenidade, hoje enterrada pela linguagem em ruínas. Trata-se de uma voz grandiosa sem ser grandiloqüente, uma presença poderosa numa nação que se tornou mesquinha.

Seus sonetos encontram na precocidade da maioria dos personagens essa fúria insana que não se adapta à mediocridade e se consome num cosmo frio que só pode se revelar totalmente pela morte, procurada com paixão pelos incendiários de um verbo estelar, que verte de fontes misteriosas: “Pois, quando um carroceiro a cada estalo/ do seu chicote os lombos de um cavalo/ dilacerava com vergões do mal/ tu, – são do instinto e da razão doente- / choraste, Nietsche, convulsivamente/ abraçado ao pescoço do animal”.

O esforço que Accioly faz para entender o Mal, aceitá-lo, detectá-lo, não resiste à sua vocação solar, denunciada pela música aberta e redonda dos poemas. As labaredas da perdição não fazem parte da sua paciente urdidura poética, que prescinde de suas admirações mais chegadas. A prova são os sonetos, gloriosos porque perfeitos, belos porque chegam ao destino sem se perder nas armadilhas do percurso e reveladores de algo que é anterior à maldição: o talento infinito de quem produziu a Arte e a Beleza sem se socorrer do verniz literário, das mentiras históricas ou da fuga ao que realmente importa, a de que somos criaturas mortais, mas nem por isso submissas à brevidade física.

O poeta é o anjo que ganha a parada, pois enxerga a violência de estar vivo e encara a brutalidade de ser eterno. Sua poesia está em nenhum lugar, a não ser nessa “sobra”, quando se desbastam todos os disfarces e ressurge, crua, a loucura do talento pousado nas costuras aparentemente efêmeras. Como no poema para Tchaikovsky: “O inferno atrai e queima a mariposa/ e uma asa de seda – um véu de esposa – /cobriria o teu rosto, além do pranto”.

Isso pode soar estranho quando estamos à mercê da superficialidade cultural produzida industrialmente. Mas se nos colocarmos na maré alta das transformações que hoje varrem o mundo, podemos notar, num escriba veterano, aquela transcendência arrebatadora das profecias, quando os povos eram lembrados do pó a que pertenciam. A poesia que invade a praça cheia despertando a emoção morta é a luz que contém o mundo num pequeno grão. Neste caso, num livro soberbo.

Marcus Moraes Accioly nasceu no Engenho Laureano, município de Aliança, Pernambuco, a 21 de janeiro de 1943. Foi integrante da Geração 65 e do Movimento Armorial. Publicou 15 livros de poesia. Daguerreótipos foi lançado em 2008.

WALLANDER, O EFICIENTE DETETIVE TERMINAL





Nei Duclós

Detetive sueco de pequena cidade do interior descobre que tem Alzheimer aos 55 anos, doença degenerativa herdada do pai, o que o inviabiliza para o árduo métier. Os lapsos de memória atrapalham as investigações num momento em que ele é suspenso por ter esquecido sua arma na cadeira de uma lanchonete. Esse é apenas o desfecho da brilhante série da BBC Wallander, que quase desisti no primeiro episódio porque achei clichês demais (o cara sonado e solitário com barba por fazer tentando decifrar as ações de um serial killer). Por sorte o Mario Medaglia me recomendou e eu fui até o fim.


A série aborda todos os temas pesados da atualidade, como espionagem, terrorismo, depressão, conflitos familiares, suicídios, fundamentalismo, imigração, numa série sufocante de assassinatos. O pobre do Wallander sabe que quando toca seu celular é mais um corpo que foi encontrado por sua equipe. Ele esclarece os casos por meio da concentração, da memória, do raciocínio e da sensibilidade. Acaba se envolvendo com as pessoas que investiga, sendo que mais de uma vez acorda na cama com as viúvas dos caras encontrados duros e frios em lugares ermos.

São impecáveis a produção, iluminação, interpretação, ritmo narrativo, com o irlandês shakespeareano Kenneth Branagh arrebentando no papel do detetive Kurt Wallander, depressivo e brilhante, que decifra os crimes quase morrendo em cada episódio por ser veterano, fora de forma, exausto, divorciado e impaciente. Ele mora só numa casa isolada junto a um labrador e recebe visitas esporádicas da belíssima Jeany Spark, britânica formada em Oxford e detonadora de talento e charme, no papel da filha, Linda Wallander.

 

A série tem quatro temporadas com quatro episódios de uma hora e meia cada uma e está toda no Netflix. Três foram lançadas entre 2008 a 2010 e a última em 2016. Como os produtores de séries são loucos, usaram a mesma fonte, a literatura do sueco Henning Mankell, - autor do personagem e da trama, que morreu em 2015, e que na TV recebe o trabalho coadjuvante de alguns escritores contratados - para fazer outra série, sueca, chamada também Wallander e com o ator Krister Henriksson no papel principal (e que brigou com a produção). E na mesma época, de 2009 a 2015. Vai entender. Eu só vi a britânica, na Netflix. Muito boa.

A série é um exemplo de como produzir literatura boa a partir de um gênero que parece ter esgotado seus recursos, atribuindo aos personagens todas as fraquezas que não existiam nos pares anteriores. Ele está sempre em desvantagem no trabalho, na família, diante dos criminosos. Tem tudo para ser um perdedor, mas vence em cada etapa da atribulada vida.

Perde a guerra por ter feito pouco diante da enormidade dos crimes e por estar doente e velho. Mas ganhou todas as batalhas com seu ar ausente, sua voz que raramente se destempera, com os gestos travados, mas com a independência dos bravos que sabem que vão morrer e nem por isso se dão por vencidos.


21 de outubro de 2017

A FORTUNA TE VISITA



Nei Duclós

A Fortuna te visita. Te assustas
mas é só o começo, ela nem entrou
na sala. Poderias fechar a porta,
seria uma injustiça, temes a sorte
quando ela se instala

Deixe-a entrar, mas com cerimônia
não permita que faça pouco caso
da casa onde habitas, privacidade
que por longo tempo preservas
em liberdade

Tens o poder, mais do que beldade
és o espírito sólido da poeta
a que escreve sem pensar na festa
que fazem para cegar o talento
Voas, folha que dribla o vento

O que chega em ti é o destino
por tantas vezes adiado
tardes sem fim e noites em silêncio
amores partidos e solidão eterna
É o momento da luz, abra tua alma

Esse rosto que cativa, esse milagre
esse templo que comove e nos devasta
Rainha sem ter cetro, bela pássara
Assuma o infinito em teus redutos
Faça por nós, súditos da tua graça


DA NATUREZA DO OFÍCIO



Nei Duclós

Não cabe atribuir ao autor que atingiu a excelência do ofício o obscuro papel de mágico das palavras ou ilusionista das letras.Nada se tira da cartola para driblar a percepção do público quando se trata de alta literatura.

Antes, é preciso reconhecer a árdua conquista do conhecimento dos meandros da linguagem que permite, em dado momento do exercício racional da técnica e suas armadilhas, um salto quântico do encantamento.

A flor nasce das raízes no barro e da água corrente que soma limpidez de fonte com os materiais espessos do leito e das margens.


SBH SOBRE CABRAL: O RITMO CONTRA O FORMALISMO



Nei Duclós

Parafraseando a canção, leio devagar porque já tive pressa e acabei acumulando detritos na percepção, nos conceitos, na cultura pessoal. Por isso li várias vezes o ensaio de Sergio Buarque de Holanda sobre João Cabral de Melo Neto, que pode compensar o tempo perdido. Ao mesmo tempo, se isso serve de consolo, nos revela como a massa crítica que se forma em torno de alguns grandes autores acaba reproduzindo, até sem dar o crédito, o que SBH diz em 13 páginas do seu livro Cobra de Vidro (Perspectiva, 1978).

SBH confessa que ficou desconfiado com os primeiros livros de Cabral, Achou que poderia ter um truque em tanto rigor e disciplina na raspagem vocabular em busca de um ritmo que quebrasse a monotonia do equilíbrio herdado pelo cânone da poesia. Um consenso consolidado principalmente a partir do Renascimento, que inventou nova ilusão ao tratar a superfície como terceira dimensão, sob o pretexto que estava rompendo com a velha hierarquia das formas na arte.

Foi no livro sobre Joan Miró, de Cabral, que caiu a ficha de SBH, pois tamanho rigor e dedicação não resistiria a uma contrafação. Ele defende a ideia de que a crítica serve para estabelecer pontes, como entre a prosa e a poesia, tida como intransponível. Sabe que é uma tarefa árdua, mas vale-se do seu mestre, Max Weber ao dizer que "a única sabedoria ainda compatível com nossa fraqueza humana esta em tentar chegar o mais perto possível da meta ideal". Justifica-se ao definir a certeza absoluta sobre algo como uma armadilha dupla: por não estar ao alcance da mão, é abandonada, ou se está sob aparente domínio então não há necessidade de alcançá-la.

Usando o texto sobre Miró como farol para iluminar a grande poesia de Cabral, ele encontra provas contra o aparente formalismo, que era o equívoco costumeiro da crítica sobre os primeiros livros do poeta. Não há formalismo pois há busca incessante do ritmo, limpando as heranças e as ferrugens da linguagem até chegar à essência, fora da tradição e da descoberta para inaugurar um processo permanente de invenção.

Não é complicado, apenas complexo, sofisticado. SBH neste ensaio e no de Drummond, que estou relendo, invoca muito a inteligência na poesia, para que essa arte alcance seu ponto máximo num país que costuma se entregar ao versejar fácil. Lições dos mestres que não devemos esquecer jamais.

Nei Duclós

DEDICATÓRIA



Nei Duclós

Com a palavra do momento
te dedico a eternidade
Fica o recado na frente
e o verso na outra margem

Depois esqueço a encomenda
pois continuo na faina
matéria que forjo a tempo
com impulsos de viagem

Guardas quando surpreendo
esse abraço sem retorno
puro perfume de um clima
água que desce do morro