31 de março de 2012

COMÉDIA ROMÂNTICA: TRUMAN CAPOTE REFILMADO



Nei Duclós

Mulher solteira e independente não quer compromisso amoroso e só se relaciona por meio do sexo, mas acaba se apaixonando e cede ao convite de uma vida em comum com o homem que a ama. É o tema de Sexo Sem Compromisso (No Strings Attached , 2011), com Natalie Portman. Exatamente o mesmo de Bonequinha de Luxo (Breakfest a at Tiffany´s, de Blake Edwards, 1961), com Audrey Hepburn. Portman é a médica ocupada e Audrey a garota de programa que quer fisgar um ricaço. Ambas a mesma personagem, com direito à cena final de arrependimento e romantismo. Vi entrevista do diretor do filme de 2011, Ivan Reitman, falando que adorou o script. Sim, é totalmente chupado, mas isso ele não disse.

Passaram-se 50 anos. A história foi adaptada sem sustos e soa ser ultra-moderna, mas já existia há meio século. Isso significa que a idéia do script tem consistência. Pudera, a autoria é de Truman Capote. Aí fica fácil, não dona Elizabeth Meriwether, “autora” do script do Sexo Sem Compromisso? Mas uma história não pode ser refilmada, adaptada? Claro que sim, desde que citem a fonte. Parece que os artistas de hoje criam do nada e não fazem justiça a quem criou de verdade. Vejo aí um sintoma de que a originalidade foi expulsa e no seu lugar vieram os chupadores, que tomaram conta de tudo. A cópia é uma exigência da indústria, que não quer arriscar nada.

No filme de 1961, o ricaço cobiçado por Audrey é o brasileiro José da Silva Pereira. Incrível como a presença do Brasil é forte na história. Naturalmente, com a confusão de sempre: José é identificado com as touradas espanholas, já que do Rio Grande para baixo tudo é hispânico. O ator, José Luis de Vilallonga, por coincidência, nasceu em Madri. Mas Audrey aprende e fala algumas frases em português no filme e tece uma roupa sob a cabeça de um touro, já que José é fazendeiro e portanto, tem a ver com touros espanhóis, naturalmente. O filme homenageia Nova York e esculacha a América do Sul. Normal.

Natalie Portman não chega aos pés de Audrey Hepburn. Acho Natalie um exemplo de desperdício de talento, revelado precocemente em O Profissional (de Luc Besson, 1994), quando ela tinha 12 anos. Estava bem em alguns filmes bons, como Um Beijo Roubado (de Kar Wai Wong, de 2007) e Closer ( de Mike Nichols, 2004). Mas em Cisne Negro ( de Darren Aronofsky, de 2010) está over, não convence, apesar de tantos elogios. Me parece sempre meio esforçada demais, não tem aquele aplomb natural de Hepburn, encantadora com sua sexualidade ao mesmo tempo explícita e sob controle. Audrey é bem mais sexy vestida da cabeça aos pés do que Natalie se atirando em Ashton Kutcher em clips de trepadas sem fim. É como diz o ditado. Quem tem, tem, quem não tem não se conforma.

Outra coisa chupada são os bizarros personagens coadjuvantes. Em Tiffanys, Mickey Rooney faz um oriental atrapalhado e dedo duro, um papel http://www.blogger.com/img/blank.gifque deixou furioso Bruce Lee numa sessão de cinema, que se viu retratado de maneira grotesca. Em Strings há a ótima Lake Bell, que rompe a mesmice narrativa com uma personagem atrapalhada querendo conquistar o galã. Neste link, Lake Bell conta como aconteceu seu envolvimento com o filme.

Vejo todas as comédias românticas. Só a cena do beijo final na chuva com o gato entre Audrey Hepburn e George Peppard vale todos os ingressos.

RETORNO - Imagens desta edição: em preto e branco, o casal Peppard-Hepburn; em cores, Kutcher-Portman.

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