13 de outubro de 2003

AQUELE RÁDIO INESQUECÍVEL


Meu maior presente de aniversário, num longínquo outubro de 1958, foi um potente e pequeno rádio de cabeceira Phillips Mullard, que meu pai me deu num rompante. Liguei na tomada, deixei as válvulas esquentarem e me conectei com o mundo. Numa cidade construída no meio do pampa, paisagem lisa e aberta, todas as ondas desciam pela antena até chegar ao meu travesseiro. Foi quando despertei minha vocação para o jornalismo. E fiz minha vida ser orientada pela música.

OURO PURO – Minhas estações favoritas eram: a Bandeirantes, onde pontificavam grandes radialistas, como Walter Silva com seu Bóssessenta e cinco, que no início da tarde não só tocava música brasileira da melhor qualidade, como trazia grandes intérpretes e músicos para entrevistas; e a Tupi de São Paulo, onde Fausto Canova me ensinava jazz das 11 à meia noite. Mas gostava também da Guaíba de Porto Alegre, que não tinha (não sei se agora tem) propaganda gravada e era uma escola de locução; a rádio Jornal do Brasil, com sua majestade de grande emissora; e a rádio São Miguel, de Uruguaiana, que tocava de manhã à noite só bossa-nova e a partir das 21 horas a maravilhosa música italiana, que sumiu para sempre, levando para o éter infinito melodias e cantores e cantoras sem igual. Adorava música francesa, de Edith Piaf a Jacques Brel, música mexicana de verdade (não essa gritaria de hoje, mal assimilada pelos pseudo-sertanejos), boleros, tangos, samba-canção, música romântica americana. Havia melodia, ritmo, harmonia. Tudo isso antes da hecatombe mundial da cultura, conhecida como rap, que é agressão pura e simples, como se o pobre ouvinte precisasse pagar pedágio por todas as injustiças. Havia a rádio Nacional de Montevidéu, que só tocava música clássica, a rádio General Madariega de Paso de Los Libres, na fronteira da Argentina, que tocava o folclore do país, maravilhoso, especialmente os hilários chamames, dramáticos e rascados; a rádio Belgrano de Buenos Aires, retrato da civilização do Prata, que estava no auge. Mas havia mais, muito mais.

TODAS AS LÍNGUAS – Escutava as transmissões em português da rádio Pequim, da rádio Moscou e da Voz da América, que tinha vozes maravilhosas como Leonardo de Castro e Gaspar Coelho. Havia também a BBC de Londres, que gostava de escutar em inglês, mas tinha também transmissão em língua pátria. As ondas curtas eram maravilhosas, o sinal ficava claro como o dia, de repente sumia, para voltar daí a segundos. Eram assim as transmissões esportivas. Na minha cidade, escutávamos a Cadeia Verde-amarela Norte-sul do País, com Fiori Gigliotti, da Bandeirantes, mas tínhamos também radialistas maravilhosos, como Mario Pinto (cronista da cidade), Mario Dino Papaléo (recentemente falecido, com todas as merecidas homenagens), Degrazia (o maior narrador esportivo do mundo) e o excepcional João Carlos Belmonte, que ganhou prêmios de melhor repórter de campo em três copas do mundo trabalhando para a Guaíba (sim, todos são de Uruguaiana). Esses radialistas da terra faziam parte da dinâmica Radio Charrua, totalmente baseada na clássica Radio Nacional, do Rio , inclusive com programa de auditório e produção própria de radionovelas. Posso garantir: o jogo de futebol era melhor escutado do que visto hoje, quando pernas de pau judiam da bola, como aconteceu nos falsos clássicos.

Os meninos dos anos 40 e 50 (época do nosso estadista maior, Getúlio Vargas), aprendiam futebol na escola, na rua, no campinho da esquina. Tão simples assim. Sobrava craque para todo lado. Para se destacar, só sendo um Pelé. Garanto que o primeiro time do Colégio Santana, com Abeguar à frente, daria de 10 a zero no atual Corinthians. Sem falar em Paret (do EC Uruguaiana) Xirunga (do Sá Viana), Nick (do Ferrocarril), Altamir (que só tirava a bola da área de puxeta, com estilo) Ademir (irmão de Abeguar) e os grandes goleiros Barbosa (que só dava voadora) e Nicanor (que um dia adiantou-se demais, mas voou de costas, virando-se no ar para cair com a bola encaixada). Esse era o Brasil de Getúlio Vargas, o estadista mais caluniado de todos os tempos.

JOGOS – Naquela época, eu me recostava na cadeira preguiçosa para olhar o céu, contar satélites que passavam e ver estrelas cadentes, além do lento subir e descer da lua. Todos na minha casa tinham direito a uma cadeira preguiçosa. Apagávamos as luzes para ver melhor as estrelas (isso depois de um crepúsculo no rio Uruguai encantador) e ligávamos a eletrola Hi-fi da sala, onde tocávamos nossos discos, de Luiz Gonzaga a Liberace, de Os Gaudérios a Trio Los Panchos (“Pasarán más de mil años, muchos más”). Hoje, quando o grande compositor José Gomes, arranjador e maestro, que ajudou a fazer de Os Gaudérios um dos maiores fenômenos musicais do Brasil, provocando uma revolução que infelizmente não teve continuidade, coloca música em dois poemas meus, fico pensando na magia no mundo.

Escrevendo para nosso conselheiro editorial Moacir Japiassu, abordei um tema muito comum naquela calçada, a brincadeira do diabo rengo. Rengo, naquelas lonjuras, quer dizer coxo. A brincadeira se dava assim: uma fileira de crianças tentava passar para o outro lado (da rua, da calçada) mas tinha que driblar o diabo rengo, ou seja, aquele outro que, com uma perna levantada (para aumentar a dificuldade e portanto, a graça) tentava pelo menos tocar em algum dos passantes para livrar-se da maldição e transferir para o atingido o papel de diabo rengo. Quando conseguia, o antigo diabo então somava-se aos felizes cruzadores, que de um lado para outro divertiam-se em não ser o condenado pegador. A complexidade de uma brincadeira tão simples é arrebatadora. Há uma condenação no meio do caminho na figura de um demônio. Mas este tem uma desvantagem: não consegue alcançar ninguém se não se esforçar muito, pois tem uma só perna funcionando. Ou seja, só se a pessoa que tenta chegar ao outro lado da vida prevaricar muito será alcançado por um pobre diabo. Se cair na armadilha, por distração, falta de velocidade ou de estratégia, assumirá toda a herança bandida. Será sua vez de tentar agarrar um inocente para conseguir sair do seu inferno.

O que espanta é a radicalidade do jogo. Não existe duplo papel simultâneo dos figurantes: ou você está livre, ou está condenado. Se estiver livre, precisa correr, driblar, aproveitar as brechas para poder passar. Se não for ladino o suficiente, ou corajoso, será agarrado pela terrível maldição. Então, ao se transformar no indigitado, livrará o outro da sua impostura, libertando-o para a inocência. Há queda, mas há perdão. Há rodízio democrático de papéis.

Simplesmente uma maravilha. Um verso de um poema meu, “não há como enganar o diabo rengo” aborda essa maldição: há tempos, fomos condenados, não conseguimos passar para o outro lado, cumprir nosso destino. Só há um jeito de mudar a situação, e nós sabemos qual é. Sendo o mais eficiente cruzador, o mais bravo, o mais clarividente, o mais lutador. E o que é mais importante: contando com a solidariedade alheia, pois se não houver amigos para distrair o perigo, não há como enganar o diabo rengo. Depois que você cruza, você precisa voltar de onde partiu e enfrentar de novo o problema. A vida é feita dessas corridas de um lado a outro, junto com os companheiros, a família, vencendo a sombra que se atravessa. Naquele tempo, a brincadeira tinha hora de acabar. Hoje, não temos a mesma sorte: não há recreio no acampamento de guerra. E o que é mais grave: não dispomos mais de todo o tempo do mundo. Perdemos o que é extremamente valioso e insubstituível: a eternidade nas nossas vidas.

12 de outubro de 2003

A INVENÇÃO DA REALIDADE


A mídia não divulga fatos, impõe percepções coletivas. A mentira exaustivamente repetida, que torna-se realidade, não limita-se ao que os interesses ditam, mas ao que os jornalistas acham que entendem. O que vai para baixo do tapete é o que interessa aqui, neste espaço da imaginação, que propõe o resgate do Brasil que foi para o lixo, em substituição ao Brasil que não nos serve e nos é colocado à força goela abaixo toda hora, todos os dias. Desse País do mal, abrimos mão.

WEBER - No livro “A ´objetividade` do conhecimento nas ciências sociais” (Editora Ática, 1991), organizado por Gabriel Cohn , Max Weber aborda a construção da realidade por meio do conceito do Tipo Ideal, que seria uma síntese a que se costuma dar o nome de “idéias” dos fenômenos históricos, um quadro ideal dos eventos. Melhor ainda: um quadro de pensamento que reúne determinadas relações e acontecimentos da vida histórica para formar um cosmos não contraditório de relações pensadas. Essa construção, diz Weber, reveste-se do caráter de uma utopia, obtida mediante a acentuação mental de determinados elementos da realidade.

A relação do Tipo Ideal com os fatos empíricos consiste no seguinte: “Onde quer que se comprove ou suspeite de que determinadas relações chegaram a atuar em algum grau sobre a realidade, podemos representar e tornar compreensível pragmaticamente a natureza particular dessas relações mediante um tipo ideal. Isso serve tanto para a investigação quanto para a exposição.” Como se constrói um tipo ideal? Weber explica: “Obtém-se um tipo ideal mediante a acentuação unilateral de um ou vários pontos de vista e mediante o encadeamento de grande quantidade de fenômenos isoladamente dados, difusos e discretos."

Esses dados, continua Weber, podem acontecer em maior ou menor número ou mesmo faltar por completo: "Eles se ordenam segundo os pontos de vista unilateralemente acentuados, a fim de se formar um quadro homogêneo de pensamento. Trata-se de um utopia, onde torna-se impossível encontrar empiricamente na realidade esse quadro na sua pureza conceitual". O que faz um historiador? “A atividade historiográfica determina em cada caso particular a proximidade ou afastamento entre a realidade e o quadro ideal. Desde que cuidadosamente aplicado, o conceito escolhido cumpre as funções específicas que dele se esperam em benefício da investigação e da representação.” Muito complicado? Nada, baba de anjo. Os clássicos são cristalinos. Quem complica são os pseudos. Você se inspira na realidade para construir uma utopia. Sabe que é uma utopia, mas sabe também que ela serve para entender melhor a realidade abordada. Digo aqui, pegando carona não autorizada no mestre: não só para entender, mas para intervir.

O BRASIL IDEAL – Para dizer o que pretendo, escudado agora pelo grande Weber (sempre tem um alemão pensando em tudo), reproduzo mais um pouco do livro: “A construção de tipos ideais abstratos não interessa como fim, mas única e exclusivamente como meio do conhecimento. A clareza de uma exposição não é prejudicada pelo caráter impreciso dos conteúdos, basta uma vaga concepção ou a presença difusa de uma especificação particular do conteúdo conceitual.” Pois vamos resgatar uma utopia, o tipo ideal do Brasil que queremos, mesmo que ela seja difusa.

Como o Cinema Novo, como diz Nelson Pereira dos Santos, era quando Glauber Rocha desembarcava da Bahia no Rio de Janeiro, digo que o Brasil que queremos é aquele apresentado pela série de programas do Roberto Dávila. O último foi com Fernando Sabino, que falou, entre outras preciosidades, sobre o dia em que Vinícius de Moraes dançou com Ava Gardner (tínhamos latin lovers brasileiros naquele tempo). Davila já entrevistou uma série de brasileiros fundamentais, como Paulo José, Carlinhos Lyra, Domingos de Oliveira, entre tantos outros, que a mídia não enfoca, ou divulga menos do que o necessário, pois está a serviço da ditadura e vive transmitindo a trilha sonora da repressão, que é a música pseudo-mexicana e metida a sertaneja dos Zezés di Camargos e Lucianos da vida (que representam um povo que grita desesperado no cárcere). Roberto Dávila é o Brasileiro Gentil, dono da maior empatia da produção audiovisual do Brasil.

FOTOS - O Brasil Ideal (idealizado como resgate do País que perdemos e como projeção para o futuro imediato, longe da sinistro pesadelo que nos empurraram, e não como coisa inalcançável) é também quando Marcelo Min (e centenas de outros fotógrafos maravilhosos, cada um melhor do que o outro) corre para fotografar a periferia, o rio São Francisco, o interior da Bahia. É quando decidimos fazer História (como Min diz no seu brilhante Fotogarrafa, o blog dos blogs, pai deste aqui) assumindo a liberdade. Chega de prisão, abaixo a ditadura.

Por que, por exemplo, a AllTV, no lugar de colocar seus apresentadores falando o tempo todo, não faz uma exposição permanente de vídeos criativos, de fotos que estão dando sopa na Internet, de autores que lutam por um espaço? Cito a AllTV porque acho um desperdício tanta falação e tão pouca imagem fora da conversa permanente (não entro no mérito dos debates). Não falem de custos: é custo zero divulgar o trabalho de tanta gente boa, especialmente da nova geração, essa geração que a ditadura joga no lixo, mas que esperneia, grita e abre seu caminho. Como dizia Oswald de Andrade: “O gênio é uma grande besteira. Viva a rapaziada!”

RETORNO - 1. Imagem desta edição: Max Weber em 1917. 2. O poeta Soares Feitosa, de Fortaleza, nos brinda, no seu espaço magnífico de inclusão poética, o Jornal de Poesia, com textos suculentos no endereço http://www.secrel.com.br/jpoesia/francisco201.html. Soares Feitosa é instaurador de utopias e graças ao seu empenho e talento, conseguiu revelar para o mundo milhares de poetas que estavam escondidos ou eram apenas emergentes. Posso dizer também que o Brasil Ideal é quando Soares Feitosa exerce seu ofício de inventor cultural. Pois cultura é o que os outros produzem para nos tornar melhor do que somos. Insistam no http://www.secrel.com.br

11 de outubro de 2003

TRABALHAR COM LIBERDADE

A disciplina é o método mais eficaz para exercer o ofício com liberdade. Disciplina não é punição, assumida ou imposta, e não medra na solidão, mas na solidariedade. Como no cinema, o jornalismo é trabalho coletivo e precisa reverter a atual situação, em que o discurso ético é pregado nas escolas, mas na prática o que se vê é a reprodução infinita do sistema de ditadura civil.( Leia o perfil de sábado: hoje é Mino Carta).

DEMOCRACIA, ONDE? - O Canal Universitário (CNU) apresentou extensa reportagem sobre a profissão, com destaque para uma aluna que falou exatamente o que está acima: a de que na faculdade os professores destacam o caráter ético da profissão e basta colocar o pé para fora para descobrir o óbvio: violência explícita nos horários, remunerações, relações de trabalho, abordagem dos assuntos. Os hierarcas que pontificam e a “massa” que fica pastando. O tremendo enxugamento que foi conseguido com os avanços da tecnologia foi repassado para recuperar o tempo perdido do poder: em vez de os jornalistas usufruírem do dinheiro que foi economizado com os novos custos de gráfica e com a acumulação de tarefas (um repórter hoje pode ser pauteiro, redator, fotógrafo), serviu para brutalizar as criaturas. O CNU também veiculou um programa assustador sobre o MST . Um dos líderes do movimento falou com todas as letras que “parece o tempo da ditadura militar” pois a repressão invade a sede de um movimento social sério para efetuar prisões. A resposta está sendo insistentemente colocada nesta coluna: não estamos mais na ditadura militar, mas na ditadura civil. Não temos democracia, temos a imposição brutal da repressão em todos os estamentos da sociedade. Perguntem ao Fernando Gabeira, que foi humilhado ontem pelo José Dirceu. O maquiavelzinho de província marcou com Gabeira (possivelmente seu desafeto desde a época do movimento estudantil), mas deixou-o esperando por uma hora para depois não recebê-lo. O Deputado Gabeira agora sabe o que é fazer parte do grosso dos cidadãos sem importância do País. Recebeu uma lição do governo que arrega para os ruralistas transgênicos e deixa importar pneu velho do Paraguai. Lembro sempre do Tarso de Castro, que dizia, ao ver esse tipo de coisa: “Dá vontade de pedir cidadania de cachorro paraguaio”.

LIBERDADE, AQUI – Pode-se argumentar que hoje conseguimos dizer o que bem entendermos. Não é verdade. Vai dizer o que pensa na grande imprensa, para ver o que é bom para a tosse. Só se escreve com liberdade quando há uma decisão pessoal para isso, esteja a pessoa numa ditadura ou não. Não vi na falsa democracia de hoje nada parecido ao que foi publicado na época do regime autoritário civil/militar (1964/1985). Não estou falando das denúncias, essa prática que serve de trampolim para voto e que nunca dá em coisa nenhuma, já que o que prevalece é a manopla de urso com garras da truculência. “Não acontece nada” dizia ontem na TV um deputado inconformado com os assassinatos das testemunhas do crime organizado. Escrever com liberdade não é fazer denúncia, é fazer papel de bôbo. Nada mais ridículo do que você dizer o que pensa, mostrar nossa precariedade humana, nossa vida datada, nossa falta de esperança ou nosso otimismo sem base. Escrever com liberdade é conseguir publicar e morrer de arrependimento depois, porque a autocensura nos pune sempre que a desmoralizamos. Escrever com liberdade é queimar-se em praça pública, pois o mercado é composto de reis da cocada preta, todos sérios e compenetrados, maduros na sua capacidade de mentir a si mesmos. As análises de alguns articulistas da política e economia me parecem uma defesa dos seus próprios investimentos. Aquela “seriedez” toda, de olho nos números e nas tendências, lembra o ímpeto potencial de colocar a grana pessoal no primeiro banco suíço. Quando o saldo é portentoso, as pessoas ficam tremendamente complicadas. E dançam conforme a opereta: o vento vira, mas seus textos costumam ser arrivistas, ou seja, querem chegar primeiro em tudo.
Escrever com liberdade é ficar no fim da fila. Não é um bom programa, mas que é um remédio magnífico contra a hipertensão, lá isso é.

Perfil do sábado – Mino Carta

Na redação do Mino, escrevi o que quis e me arrependi algumas vezes, quando me deixava tomar por fantasmas, no lugar de me disciplinar melhor, e viver aquela situação democrática com mais responsabilidade. Quando se aproximava o dia do fechamento (sempre às quartas-feiras) começava a tremer. Era o medo de não estar produzindo à altura do espaço que ele me abriu na sua redação, que enquanto Mino esteve lá, foi a melhor do País.

Maior jornalista do Brasil, o melhor de Mino é impublicável:
- As coisas no Brasil costumam ser a mistura de QI baixo com sacanagem, dizia na redação da revista Senhor, nos anos 80.
Cansado dos nossos erros, fazia mais uma das suas provocações ao País que adotou:
- Precisamos deixar de ser tão brasileiros.
Sobre os colegas de profissão, era fulminante:
- Os jornalistas brasileiros são um bando de cretinos.
Claro que ele falava de seus desafetos, que, acredito, não são muitos.
Suspirava fundo em todos os fechamentos, amaldiçoava a sorte e concluía:
- Este é o balanço.
Nas reuniões de pauta, sacudia os óculos enquanto passava os olhos por todos:
- E então? Nenhuma migalha de uma idéia? desafiava.
Quem tivesse a idéia, assumia o encargo. Por isso, a moita geral.
Mas não havia ninguém mais correto e com mais coisas para ensinar, o que costumava fazer com suas tiradas:
- Você não pode tentar enganar o leitor, que ele descobre. A legenda tem de obedecer a ordem das pessoas da foto, quem estiver na esquerda é citado primeiro. A foto precisa entrar na página em que a pessoa é citada.
São princípios básicos, que nunca eram obedecidos nos outros veículos e que, sob a supervisão do Mino, eram implantados naquela redação.
Pintor de primeira, desenhava toda a revista:
- A estética contém a ética.
Tudo parecia óbvio, mas era apenas clássico.
Fazia a revista com classe, que traz de formação e de berço. Eu achava, antes de conhecê-lo, que um grande jornalista tinha outro tipo de comportamento, que conseguia as coisas de outra forma. Mas ele mostrou que o caminho é simples. O difícil é seguir reto nele.
Para ajudar, dispunha de um imã natural, que faz acontecer as coisas à sua volta. Quando viajava, nenhuma pauta dava certo. Era só voltar, que tudo acontecia.
Parecia mágica.
Gostava de dividir os corações:
- Afora Fulano, que trabalha como um cachorro, o que fazem os outros?
Entrei para a equipe do Mino Carta de maneira transversa. Fechava sozinho a Senhor quinzenal, dirigida pelo Múcio Borges da Fonseca, que um dia me anunciou:
- O Mino vai assumir a revista e você não vai ficar.
Um jornalista sem importância não acredita em destino. Decidi:
- Vou ficar, sim.
Ofereci a seção de livros, que estava praticamente montada, faltava apenas o principal: os colaboradores.
- Vamos fazer uma seção significativa, disse Mino, depois de me aceitar, graças à intervenção de Wagner Carelli. Com a indicação de Luiz Gonzaga Belluzzo, montei a equipe de colaboradores, todos acadêmicos.
Até a Zélia Cardoso de Mello publicou resenha lá. Mas o melhor era Luís Salinas Fortes, o filósofo, que morreu do coração logo depois.
Salinas custava a desovar a resenha. Tinha excesso de autocrítica.
Foi o trabalho mais importante de um jornalista sem importância. Graças ao Ogro.
- Não fale assim com o Mino, advertia Carelli, escandalizado com minha ingenuidade no trato com o poder.
Carelli, especialista em Mino, olhava para os lados enquanto dizia isso. Acho que era para me assustar.

RETORNO – Roberto Nogueira chama a atenção para o excelente artigo de Paulo Nogueira Jr., uma das exceções do comentário econômico e político, sobre as posições do Brasil em relação à Alca e as pressões que estão se desencadeando contra. Escreveu Nogueira Jr na Folha de São Paulo do dia 9: “É o que sempre acontece. Toda vez que algum governo ousa defender com firmeza os interesses brasileiros, os estrangeiros e os seus aliados tupiniquins armam uma tremenda intriga.”

10 de outubro de 2003

O LEITOR NEM IMAGINA


É costume abrir reportagens ou artigos apostando na ignorância de quem lê ou na sua incapacidade de imaginar qualquer coisa. Isso também se estende aos personagens da matéria. O jornalista que comete essa gafe “não imagina” que informação não pode servir de demonstração de força, nem que a articulação do pensamento não pode ser vista como uma exclusividade de quem escreve, ou que o leitor não merece ser tratado como um indigente mental.

FÓRMULAS – Uma das construções escolhidas é “Fulano jamais poderia imaginar que...” É uma conclusão vazia colocada no início de um texto jornalístico, o que é uma contradição, pois como você pode concluir antes de propor? Normalmente, o repórter não pergunta se o Fulano imaginou ou não. Não se trata de um fato, mas de solução de linguagem, de pseudo-criação. Outra coisa recorrente é o “leitor desavisado”. Como você pode garantir que o leitor não está prevenido? Acho que não existem leitores desavisados, eles estão bem conscientes que estão lendo a matéria, super atentos aos seus erros e normalmente informados sobre o assunto. Pois informação não é mão única, é algo compartilhado. Não existe, portanto, motivos para arvorar-se numa ascendência sem base. Mais uma: o repórter propõe uma pergunta que em tese demandaria uma resposta óbvia. Então ele tasca: “Certo?” E depois surge com sua magnífica intervenção: “Errado!”. Com perdão da palavra, acho esse tipo de coisa de uma babaquice total. Sempre me irrito com isso. Por que não fala logo em vez de tentar criar suspense e demarcar bem o território do gênio que escreve e o bobalhão que lê? Na televisão, esses lugares comuns são um assombro de redundância. Sem falar no dedinho apontado para o telespectador e o sarrinho implícito que há quando se referem ao “sofá”. Com o se o telespectador quisesse apenas folgar, estivesse ali no sofá à mercê dos jornalistas que levam sua comidinha informativa na boca. Quando falam em sofá, tenho urticária. Depois da invenção do zap, as pessoas que aparecem na TV deveriam ter mais compostura.

ESCUTAR - Fala-se muito que o jornalista precisa escutar, que todo mundo precisa ouvir, mas não dizem como. Escutar é uma atividade em desuso. As pessoas falam ao mesmo tempo e estão sempre pensando no que vão dizer, por isso fecham-se em copas. O que há são falsas expressões de atenção, enquanto o pensamento voa longe. Numa sociedade de escravos como a nossa (em que todo mundo é senhor) escutar é encarado como um ato passivo de servidão. O escravo escutava o feitor de cabeça baixa e nem abria a boca. Para insurgir-se contra essa herança até hoje vigente – o da servidão absoluta em plena ditadura – as pessoas se revoltam abrindo o bico a toda hora. Escutar é como escrever um texto, é compartilhar com o leitor, ou com quem fala, de algo que é comum à humanidade. Para escutar é preciso limpar a mente de todo pensamento, exercitar-se em entender o que o Outro está dizendo, abrir-se com vontade, apostando que você vai aprender com ele, ou também como uma forma de boa educação. Não se deve cair na armadilha de ficar repetindo o que o outro diz simplesmente para esvaziar a frase dele de qualquer poder, para checar se o interlocutor está dizendo agora o que disse ontem ou há alguns minutos. Escutar é um exercício ético. É preciso, por isso, deixar de tentar completar as frases do Outro, como se você fosse um serviço digital automático, como se a pessoa que fala não tem mais nenhuma surpresa para você.

APROPRIAÇÃO DA FALA - Muita gente só escuta se consegue apropriar-se da fala. Funciona assim: um diz e o outro boceja. De repente, algo parece ser muito interessante. Finge-se que não se está prestando atenção, mas daí a pouco a pessoa vem e aplica exatamente o que foi dito. Como se o Outro jamais tivesse dito nada. Se você reclamar, aí mesmo que não será escutado. E se você espernear, fica com fama de reclamão. Isso acontece todo o dia. Sinal de que vivemos no meio do desprezo à pessoa humana, como acontece em todos os setores da atual ditadura civil em que nos encontramos. O rapaz que foi assassinado depois de derrubar o radar, diz uma testemunha, levou o tiro de alguém que nem mostrou arrependimento. “Matou como se tivesse matado um passarinho” disse a testemunha na Band ontem. Pois não escutar e apropriar-se da fala alheia é também um crime contra as pessoas. Gente da elite intelectual faz parte da ditadura quando se apropria da fala dos outros. São os mesmos que desmoralizaram o termo Direitos Humanos no Brasil, deixando que a direita tome conta desse assunto (o cacete do presídio Ary Franco, que matou o chinês, era apelidado de Direitos Humanos). E mais uma testemunha contra os exterminadores dançou. A ditadura assim peita as autoridades internacionais dos Direitos Humanos na maior cara de pau. Num país que despreza o semelhante, nada mais natural.

RETORNO – Ontem o professor Carlos Chaparro obteve ampla repercussão no Comunique-se abordando a necessária separação entre jornalismo e da publicidade. Escreve Chaparro: “Jornalismo não é melhor nem pior que publicidade. São apenas linguagens diferentes, para interações sociais organizadas por expectativas diferentes. Mas, embora convivendo em espaços comuns, publicidade e jornalismo não devem se misturar.” No dia 21 de setembro, o Diário da Fonte também deu sua contribuição ao assunto: “Credibilidade de um veículo não-corporativo é a separação entre jornalismo e publicidade. Nos corporativos, as duas atividades podem ocupar o mesmo espaço, desde que se preserve, no jornalismo empresarial, alguns princípios básicos. O anúncio e o marketing precisam ser aliados, mas não cúmplices nem inimigos das redações”. Esse é um tema que precisa ser bastante discutido, pois pega firme nas redações.

9 de outubro de 2003

O VEÍCULO CORPORATIVO

Um jornal ou revista, ou um programa de rádio ou televisão, não deve ser escravo da corporação que representa. Um produto de comunicação é a parte mais visível da família de uma entidade ou empresa, e jamais deve ser tratado como um serviçal, um subalterno, uma lata de lixo de vaidades. O que deve predominar é o jornalismo, que define a credibilidade do veículo e serve de vitrine das ações do patrocinador, sem se entregar a alguns lugares comuns que não passam de mesquinharias do velho marketing.

A CHAVE DO ENIGMA – O marketing já está bem servido da área comercial, da publicidade, dos eventos e das relações públicas. Deve respeitar o jornalismo feito dentro de casa, que é ofício à parte, específico, e demanda grande dose de experiência (e que, na sua especificidade, está a serviço do marketing, mas sem fazer parte deste como um capacho asqueroso). Um jornalista é especializado em jornalismo, não no assunto que aborda. Quem é especializado no tema das reportagens são as fontes. O trabalho do repórter ou editor é arrancar da fonte a chave do enigma, fazer com que ela decodifique a linguagem que domina, para que possa ser veiculada para o maior número possível de públicos. Nesse território minado, o jornalista, coitado, pisa em ovos. Primeiro, porque tem sempre alguém mais entendido em comunicação do que ele, alguém que confunde alfabetização ou mesmo formação superior com capacidade profissional jornalística, o que é um equívoco. Para muita gente poderosa dentro das corporações, a presença de um jornalista – tido sempre como um analfabeto, alguém que costuma errar o que veicula – é uma ameaça ao seu status de gênio. Normalmente, um diretor ou presidente gosta de desovar sua fala exigindo que ela seja integralmente veiculada como saiu. No máximo, pedem para (argh!) “dourar” a pílula, como se o jornalista fosse passador de verniz em sapato alheio. A engenharia da linguagem é a mais terrível das especialidades, pois praticamente desmascara as linguagens corporativas e as joga para os leigos com eficácia, derrubando assim torrezinhas de marfim e colocando pseudo-biografias nos seus devidos lugares.

MISSÃO POSSÍVEL – Pode-se argumentar que essa é uma missão impossível, já que os veículos corporativos servem para colocar o presidente na capa, o diretor com cara de conteúdo tergiversando sobre alguma abobrinha de plantão e funcionários sorridentes, em grande parte das vezes preservando tartarugas e ensinando capoeira (ah, a responsabilidade social, essa moda que serve para dar esmolas às massas desprovidas de direitos, que se estivessem bem servidas, as massas, colocariam a correr todos os bem intencionados que ficam distribuindo gestos de amor em frente às câmaras). Mas o jornalista, para cravar seu trabalho, precisa ser um estrategista. O truque é fazer tudo o que pedem, para poder fazer tudo o que se deve. O importante é como fazer: o que poderia ser uma notinha pífia de oba-oba pode se transformar numa bela reportagem, com repercussão certa na grande imprensa (que faz a festa sem jamais, claro, citar os veículos corporativos, já que estes “não são jornalismo”) . Pedem para dar destaque num evento festivo? Pois esse evento também está cheio de informação, basta saber fazer. Um diretor escreve algo ilegível? Reescreva, baseado no que ele disse, e mostre o resultado. Ele vai gostar. Uma reunião da consultoria aconselhando o óbvio para assustados funcionários que morrem de medo de perder o emprego? Vá atrás do que a consultoria tem no acervo, faça uma matéria com estatísticas, perfis de comportamento etc. Aproveito para lembrar o que fazem as inúmeras emissoras de televisão corporativas, como as TV Senado, Câmara, Assembléia: ficam mostrando as figuras engravatadas falando o tempo todo. Mas que desperdício! Façam televisão! Televisão não é parlamento, é comunicação. Contribuam para democratizar a informação, lutem contra a ditadura civil.

DITADURA CIVIL – Preciso aqui reforçar o conceito de ditadura civil, que uso para encher o saco dos eternos “heróis” (os verdadeiros morreram) que “lutaram” contra a ditadura militar (para mim, um regime civil/militar autoritário). Lembro que ela foi inaugurada com a morte de Tancredo Neves, quando o presidente Figueiredo não quis passar a faixa para o ex-presidente da Arena, José Sarney, em 1985 (símbolo do novo golpe, tanto é verdade que até hoje está no poder). Mas foi implantada de fato com o Plano Real, do FHC, que é fruto do susto do País diante dos fracassos dos planos econômicos e da visível corrupção da Nova República. A ditadura civil manifesta-se na política pelo estamento (Raymundo Faoro); na economia pela gestão dos fundos de pensão (Chico de Oliveira); na ideologia pelo deslocamento das idéias em relação à realidade brasileira (Roberto Schwarz); na mídia pela concentração de poder em poucos donos e pela crise permanente, que serve para mantê-la sob jugo (Mangabeira Unger); na prática pela corrupção e pela violência; e no marketing pela cara anódina do ministro Palocci, serviçal do FMI, no “nóis-neste-país” do presidente Lula (que já cansou o mundo com sua arenga) e na postura de maquiavel de província de dois Josés, Genoíno e Dirceu. Enquanto isso (ou “mientras tanto”, como dizem os hispânicos) o ruralismo reacionário debocha com os transgênicos, José Rainha e Deolinda estão no cárcere, o coronelato e o resto da direita deita e rola, com a boca na botija, pronta para recuperar o marketing desta ditadura, que tão brilhantemente montaram a partir da apropriação da fala e da frustração da revolta popular.
Que esperavam? Que eu falasse só de jornalismo corporativo hoje? Tenham dó!

RETORNO – Ontem o Diário da Fonte completou um mês de edições ininterruptas e foi agraciado com uma súbita, embora modesta, alta das visitas. Sinal que o blog, se for tratado seriamente, pode um dia se transformar num veículo importante de comunicação, apesar de ainda sofrer preconceitos da parte, digamos, mais “nobre” da mídia. Falando nisso, é bom assistir ao Boris Casoy neste sábado, quando irá ao ar uma matéria sobre blogs, com destaque para a fotógrafa Regina Agrella, do http://www.fotoblog.blogger.com.br/

8 de outubro de 2003

TELEVISÃO O TEMPO TODO


Assim como o Google é a universidade do pobre, a televisão é um banho diário de cultura audiovisual. Internet e TV desempenham hoje um papel anti-isolacionista que serve para lambuzar o cidadão com dados nunca dantes navegados e, pela importância, são alvos da mais cerrada blitz do conservadorismo. Ficar atento à destruição do caráter democrático desses veículos faz parte da luta pela emancipação humana.

CANAL 21 - Essa rede tem acertado numa programação viável, mas peca por alguns erros primários. Primeiro, apresentar o genérico da testosterona, o execrável Antônio Banderas, a cada cinco minutos chupando uma pobre criatura, além de ser de um mau gosto atroz, revela o pouco caso dedicado ao telespectador. Não é preciso lembrar a toda hora que a emissora é “de qualidade” e por isso exibe o atorzinho em exercício de sugação. Segundo, colocar o finado Casal 20 em horário nobre, durante uma hora, das 20 às 21, e deixar o Larry King com legendas para alta madrugada, é simplesmente jogar dinheiro fora. Larry King é bamba em jornalismo e poderia peitar tranqüilamente o Jornal Nacional, sempre às voltas com os mesmos temas, como se a realidade fosse uma suíte permanente dos interesses da emissora, intercalados pelas terríveis “materinhas humanas”, praga que se alastrou na mídia junto com a proliferação de ONGs – uma síndrome que eu chamo, sem entrar no mérito de nada nem de ninguém, de “preservar tartarugas e ensinar capoeira”. Outro erro do Canal 21 é repetir no seu noticiário as mesmas coisas já exaustivamente exploradas pelo Boris Casoy, o Jornal da Band e o JN. Horário alternativo de noticias, em emissora alternativa, tem de apostar, não numa pose de credibilidade, mas na ousadia total. É só investir no inusual, no oculto e parar com essa história de falar sempre no início do noticiário que o jornal “está começando”. Por que dizem sempre isso? É lei? E por que cumprimentam o telespectador (isso todos fazem) depois de dizer as manchetes? Então você primeiro fala com o cidadão e depois dá boa noite? Outra coisa que o 21 deveria fazer é investir mais em cinema. Ontem passou O Destino do Poseidon. Até quando, meu Deus? Por que não fazem um Festival Sundance Film, evento que há décadas revela cineastas do mundo todo?

PROVOCAÇÕES – Ontem, o melhor programa da televisão brasileira, Provocações, do Antônio Abujamara, foi ao ar pela TVE, do Rio, com uma entrevista com o Miguel Arraes. O ex-governador de Pernambuco disse coisas decisivas. Primeiro, de que o PT nunca deu a atenção devida à História, como se a política prescindisse desse dado. Arraes é da opinião que devemos achar nosso caminho a partir das lições da História, uma coisa que está esquecida, com as conseqüências visíveis, onde vivemos presos num eterno presente fantasmagórico. Também é da opinião de que o golpe de 1964 no Brasil (que, para mim, foi dado para acabar com as conquistas da revolução de 30) foi preventivo, pois os Estados Unidos precisavam garantir uma América Latina em estado de arrocho político, sem ebulição, para que pudessem abrir uma frente de guerra com o Vietnã. A redemocratização no Brasil, disse Arraes, coincide com o período posterior ao fim da guerra vietnamita. Os americanos se deram conta, segundo Arraes, que à força não poderiam subjugar os povos, pois levaram uma surra no Vietnã. Decidiram então apostar na mídia como o caminho mais eficiente de manter as nações subjugadas. Até quando essa dominação por esse meio vai durar, não se sabe, disse Arraes. Mas pela política atual dos Estados Unidos, vê-se que esse barco está fazendo água e a pressão vai aumentar.

CONCENTRAÇÃO - A Internet nasceu na Guerra Fria sem centro, para evitar que um ataque nuclear acabasse com o sistema de uma só vez. Como não tem centro até hoje, virou uma mídia democrática, a mídia das mídias. A atual tendência é vilanizá-la: a toda hora, no noticiário televisivo, a Internet engravidou alguém, é culpada de algum crime. Se uma garota foge com o mariner, a culpa, claro, é da Internet e de mais ninguém. A Microsoft proibiu seus chats porque era um flanco aberto para o assédio. A rede de prostituição, com menores inclusive, em todo mundo, nem é motivo de preocupação. Isso existe a céu aberto. Outra evidência é colocar toda informação da Internet debaixo de algum endereço poderoso, que serve como guarda-chuva, onde toda informação deverá ficar abrigada (uma rede “confiável”?) Não existem mais links na televisão? Isso é gravíssimo. Para terminar a coluna de hoje: ontem, também pela TVE, vi uma longa entrevista com o Geraldo Carneiro, importante poeta do Rio de Janeiro. Mais poesia na TV é a nossa reivindicação. Sorte que Abujamara sempre nos brinda, no seu Provocações, com um longo e maravilhoso poema.

RETORNO - Miguel Duclós (que mantém há anos o site www.consciencia.org) me apresenta um texto de Robert Stam sobre o filme de Glauber, Terra em Transe, publicado numa antiga revista filosófica Discurso, e fico impressionado. Vou para o Google e descubro maravilhas no site do Estadão: “Bob Stam tem dois de seus livros editados no Brasil -- O Espetáculo Interrompido – Literatura e Cinema de Desmistificação (Paz e Terra/81), e Bakhtin: Da Teoria à Cultura de Massa (Ática/85). Neste ano, mais quatro novos livros de sua autoria estão sendo lançados em língua portuguesa. A Papiros edita Introdução à Teoria Cinematográfica. Depois será a vez de Crítica do Eurocentrismo, que sairá pela Cosac & Naify. A Edusp estuda a publicação de Multiculturalismo Tropical – O Negro no Cinema Brasileiro e a Editora da UFMG avalia A Literatura através do Cinema – Realismo, Magia e Arte da Adaptação. Apaixonado pelo cinema brasileiro (em especial por Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade, e Terra em Transe, de Glauber Rocha), Bob conquistou respeito acadêmico pela consistência e ousadia de seus estudos sobre literatura e cinema. Além de D. Quixote, de Cervantes, o pesquisador norte-americano mergulhou na obra literária, teatral ou cinematográfica de Rabelais, Sterne, Fielding, Brecht, Jarry, Godard, Glauber e Ruy Guerra.”

7 de outubro de 2003

O MUNDO ALÉM DA JANELA


Redação é exílio e a maneira mais eficiente de ficar longe da vida e dos acontecimentos é passar a vida batucando em teclas, de cabeça baixa, trabalhando linguagens alheias e obedecendo a mil imposições dos poderes da mídia. Há, nesse deserto gelado, lugares por onde é possível respirar. Mas a paisagem vista dessas aberturas é sempre sinistra. Só o coração pode tornar-se a nau capitânea que irá te resgatar em meio à névoa.

LÁ FORA - Pode-se argumentar que um repórter vive mais do que um redator ou editor, mas seja qual for a função exercida dentro de uma redação ? de jornal, revista, rádio, televisão ? a maior parte do tempo é dedicada ao ofício bruto, à produção de milhões de linhas ou imagens para o consumo. Por mais vibrante que seja a vida do jornalista, o que pega mesmo é a ?cozinha?, e isso serve para todo mundo. Ontem, revi o início do clássico Todos os Homens do Presidente, e cheguei à conclusão que esse é o único filme americano em que os jornalistas trabalham de verdade. Nos outros, eles vivem aventuras, conquistam princesas, espionam, lutam, atiram. Mesmo uma redação completa como nos filmes de Super-Homem não serve para nada (tanto, que o vilão Lex Luthor, ao destruir tudo, revela que aquilo não passa de um aquário de luxo). Clark Kent é perfeito como repórter : tem certeza que é o Super-Homem, mas não passa de um panaca. Nunca está trabalhando, está sempre sendo desviado para loucas escapadas (como o Tintim, outro repórter que jamais escreveu uma linha). Vendo Redford e Hoffman colocando laudas nas máquinas, tirando papéis amassados do bolso, me deu uma infinita tristeza, não a tristeza dos poetas, como alerta Mario Quintana, daquele tipo ?que em vez de se matar, faz versos? (Quintana é mortal!). Mas repassei as milhões de horas em que fiz aquilo, pressionado pela História. Lembro Mino Carta me dando uma reportagem que ele não gostou e que eu devia reescrever inteira para ?descer? à gráfica em poucos minutos. Era uma reportagem enorme, sobre o enterro do Tancredo Neves. Tive que bolar uma estrutura (a partir do que estava escrito, criei, para costurar a matéria, o tema ?o funeral serviu de teste político para seus organizadores e principais participantes?). Enquanto ia escrevendo, Mino ia lendo e passando a caneta. Tremo só de pensar naqueles minutos terríveis.

VOCAÇÕES - O jornalismo, pelo que tenho visto, é uma vocação rara e a maioria está lá por contingências. Mino, que é um grande pintor (e que desenhava cada edição da revista Senhor), fala muito sobre isso. Conheci poucas vocações. Uma delas é Caco Barcelos, que fez, entre milhares de outras matérias, a magnífica ?Sabotamos a central nuclear!?, com chamada de capa na revista Repórter Três. Caco virou operário em Angra dos Reis e em plena época do regime autoritário civil/militar levou uma máquina fotográfica dessas descartáveis e provou que esteve lá dentro e que, assim, qualquer um poderia entrar - a segurança era furada. O editor da Repórter Três era outro vocacionado, Hamilton Almeida Filho (ninguém mais fala dele? mas que escândalo!). E tem uma lista boa, muitos aqui citados, mas lembrei do Pena Branca, repórter policial e ídolo do Caco. Para não me acusarem de saudosista, quero dizer que a ditadura civil, vitoriosa em 1985, com a morte de Tancredo, e que até hoje dá as cartas, eliminou o jornalismo verdadeiro do Brasil, de uma maneira muito eficiente: cortando a sucessão natural nas redações. Eliminaram-se os grandes repórteres, que sumiram sem deixar vestígios. Sobrevivem alguns poucos, todos ótimos, e formam-se novos, alguns promissores, mas nenhum ainda com aquela grandeza. O ponto de mutação foi a desastrada greve dos jornalistas em 1979, quando o patronato descobriu que poderia fazer jornal sem jornalistas. As redações foram às ruas, cruzaram os braços e... os jornais noticiaram a greve. Foi um erro colossal, sem o apoio dos gráficos. A partir daí, o cargo de diretor de redação ficou restrito às famílias proprietárias (com algumas exceções). Somam-se a necessidade do coronelato político de manter o garrote na nação inerme (desarmada), os negócios mal feitos das empresas de comunicação e temos o quadro tremendo de desertificação.

ESPÓLIO - Os jornalistas que se formaram nos anos 60 e 70 amargam exílio não apenas pela idade ou a morte, mas por essa brutal intervenção na mídia, em que a reportagem cedeu ao evento, a coragem ao tráfico das denúncias, o talento à mediocridade bem comportada, a ousadia à consultoria, a revelação ao compromisso. Para isso, sucumbir ao horror da ditadura civil, é que dedicamos nossa vida. Deveríamos desconfiar: em pleno autoritarismo dos 60 e 70, apesar de tantos sonhos e alguns momentos de euforia, a maior parte do tempo estávamos às voltas com a censura. Ela então, sob a forma do politicamente correto, desceu sobre nós como um anjo mau. Com o agravante apontado hoje pelo obrigatório Mangabeira Unger, na Folha: "A mídia está quase toda quebrada e dependente do governo. Sobram poucos espaços livres". O que nos resta é resistir, de coração em guarda, e contrariar tudo o que aqui escrevi, tomando contato com a mídia que hoje nasce democrática na Internet e lutando para que a grandeza do jornalismo brasileiro volte com tudo às redações e deixe de ser, nelas, uma exceção. Hoje, os jornalistas de verdade continuam sendo assassinados (e os líderes populares, presos). A ditadura civil não perdoa.

RETORNO - O bom de publicar no Comunique-se é que, embaixo do texto, tem sempre comentários. Isso sim é que é vida!

6 de outubro de 2003

AMIGOS, COLEGAS E CHEFES

Hoje inauguramos alguns links, comentamos o encontro com jornalistas e poetas e reproduzimos situações vivenciados nas redações com o mais temível dos colegas de trabalho: aquele que todos chamam chefe. Quem tem chefe é índio, dizem. Então, os jornalistas são a mais explícita tribo do mundo.

OSMOSE - Tenho feito crítica literária e reportagens culturais ao longo das décadas e trabalho por osmose: entro na linguagem do autor para tentar decifrar um pouco a sua criação. Dois exemplos estão no ar: uma resenha (na seção Em Pauta) sobre o romance “Concerto para Paixão e Desatino”, de Moacir Japiassu, no Comunique-se (link ao lado) e o poema Folha de Vidro , sobre o livro de Fabrício Carpinejar, Biografia de Uma Árvore, já colocado no endereço http://www.carpinejar.blogger.com.br/. É uma resenha que procura navegar na linguagem de Japi e um poema que se alimenta do que as palavras de Carpinejar sugerem.

RABISCOS - Não consegui meu primeiro emprego porque resolvi rabiscar o lead a lápis, ao lado da máquina (instrumento antigo que fazia tec-tec-tec, barulho que alardeava a dedicação ao trabalho ). O chefe de reportagem viu e me dispensou antes de eu começar. Acabei passando num teste para foca na extinta Folha da Tarde, de Porto Alegre. Meu primeiro chefe de reportagem era bastante explícito. Todos os dias dizia:
- Vai lá ver o que tem e o que não tem.
As pautas eram sucintas e incompreensíveis. Ganhei prestígio quando fiz o seguinte lead, sobre um acidente no campo:
“O avião vinha vindo pelo campo e bateu numa vaca. O caso foi parar na justiça. O juiz perguntou para o piloto:
- A que altura o sr. viajava?
- Numa altura de meia vaca, respondeu o piloto.
- Então, da próxima vez, ande na altura de vaca e guampa.
O Luiz Fruet, grande jornalista que já emitia seu brilho, adorou. Era possível fazer uma abertura dessas naquela época, quando não havia manual para padronizar o texto dos repórteres e assim, por eliminação, dar destaque aos comentaristas e suas criativices, como acontece hoje. Buscava-se a criatividade. Era o tempo do JT inaugural, do Pasquim, da revista Realidade. Todo mundo queria ser de vanguarda. Mesmo rodeado de pampa por todos ao lados.
Em Vitória, na revista Agora, tive outro chefe muito sucinto nas suas recomendações. Trata-se de Rogério Medeiros, que depois virou político do Espírito Santo pelo PT. Ele entregava um rabisco onde estava escrito em garranchos:
- Ir na malária.
Até descobrir que havia um departamento governamental que cuidava da malária, onde seria desencadeado um programa de prevenção ou algo assim, o repórter pastava. Até hoje brinco com essa frase ao passar para os repórteres algum encargo cavernoso. “Ir na malária”, digo, vingativamente, para olhos abertos em pânico.
Vitória do Espírito Santo era um lugar privilegiado. Tinha semanas inteiras de feriados originais, baseados em datas desconhecidas até pelos próprios habitantes.
- Por que não tem expediente nesta semana em lugar nenhum de Vitória?
- Ah, porque quarta-feira é o Dia da Hora.
- E o que vem a ser isso?
- Sabe que eu nunca soube? Nasci em Vitória e sempre comemorei o Dia da Hora... Acho que é a hora em que Jesus subiu ao céu.
Vitória é uma cidade maravilhosa. Recebeu-me, a mim e minha mulher, de braços abertos. Lá nasceu meu primeiro filho, Daniel. Uma cidade da hora.

SARGENTO GUIMA - Chefe importante foi o Woile Guimarães. Começava um comentário de maneira macia: “Olha esse texto que você escreveu, nesta parte aqui...dizia ele mansamente, para completar: -...está cheio de lugares comuns. Isso que você escreveu aqui é uma grande b. do c.!” Eu ficava impressionado como tratavam os jornalistas nas redações de São Paulo. Por muito menos, no Rio Grande do Sul aquilo dava tiro. Como nunca tive uma arma, reescrevia. E foi assim que me livrei de um monte de fumaças e aprendi alguma coisa.
Na TV Guia, editada por Woile, decisivo foi Macedo Miranda, filho, o Rei do Texto Redondinho. Filho de romancista, ele tinha vindo do Fantástico e dava a receita:
- O texto tem que ser redondinho. Cada parágrafo liga no outro e o último liga no primeiro. A primeira frase é fundamental. Com ela você seduz o leitor para o resto do texto, que escorre como água.
Macedinho amansou Woile, que estava rosnando demais para cima de mim. Os textos que fazíamos eram sínteses de matérias de grandes repórteres como Caco Barcellos e Audálio Dantas. Tive chefes excelentes, como Paulo Torre, da Tribuna de Vitória e Nestor Fedrizzi, do Jornal de Santa Catarina. Pessoas do bem, divertiam-se por terem contratado um louco. “Não aguento mais essa tua calça jeans com grega que você usa todos os dias,” dizia Paulo Torre para mim, depois de me ungir editor de Nacional. Na época, essa vestimenta era complementada por um cabelo que o mar de Vitória tinha feito um nó górdio.
Fedrizzi tinha história no jornalismo, que eu desconhecia. Foi um dos pilares do sucesso da Última Hora, em Porto Alegre. Montou o Jornal de Santa Catarina com um bando de gaúchos, todos metidos a revolucionários. Sofreu bastante.
Mas, pelo menos, não teve que aturar minhas piadas, como aconteceu com Woile. Para me vingar, depois que me aceitou graças à intervenção de Macedinho, fiz uma série de cartuns sobre a criação do mundo. Um pobre Deus enunciava: “Faça-se a luz” e um caricato Woile argumentava: “Nossa, uma ênclise logo no lead”. Deus, com o rosto conformado, criava o homem e Woile tascava: “Capricha nesta matéria que ela vai dar capa”. Deus criava a Terra e Woile: “Tá ruim, tá ruim, achata um pouco nos pólos”. Quando, no sétimo dia, Deus resolvia descansar, Woile tascava: “Calma lá, amigão, vamos mandar o pau para o segundo número.” Woile foi decisivo: na redação dele, virei jornalista. Glória eterna ao bom chefe.

RETORNO – Nasceu Manuela, filha de Luiz Moraes, diretor de arte de primeira linha e com quem é um privilégio trabalhar. Antenor Nascimento (quando a palavra chega ao topo) me escreve elogiando o Diário da Fonte (claro, é meu amigo!) e querendo relembrar ao vivo velhos sucos de manga para curar ressaca. O número de links aqui da coluna vai aumentar, mas o bom mesmo é quando eu conseguir colocar fotos e mais fotos. Assim, aborreço menos os meus dez leitores.

5 de outubro de 2003

VIOLÊNCIA FORA DE CAMPO


A eliminação física do Outro começa com o mau uso de adjetivos, verbos, substantivos, conjunções e advérbios. Xinga-se antes de matar, mas o que é mais grave, engendra-se pensamentos tortos por meio de palavras viciadas para justificar ações violentas. Uma boa solução é acompanhar o noticiário esportivo, que é uma arena de representação do conflito e de promoção do equilíbrio.

DEBATE – Numa lista que deveria ser fina, de pessoas cultas e educadas, e que defendem teses acadêmicas importantes, chamei a atenção contra essa tentativa de excluir o interlocutor por meio das mais baixas vilanias. Criminalizar o debate é uma tentação, principalmente nesta época de e-mails, que é fácil, veloz e não dispõe da presença física de outra pessoa. A tentação de “acertar” alguém está disseminada por todo lado. Ontem mesmo, num estacionamento de um shopping quase fui atropelado por um automóvel desses de luxo, e fui salvo porque duas pessoas gritaram e bateram na lataria alertando a motorista . Passei então pela experiência de testemunhar a reação da jovem e audaz volante, completamente errada, mas cheia de razão (duas coisas que andam de mãos dadas), furiosa porque tinham passado a mão no carrinho dela. Foi mais uma prova de que muitas pessoas, no seu pequeno mundinho de conforto, gostam de tratar o resto da humanidade como lixo. Não sou um bom exemplo de equilíbrio na hora do pega, mas a idade me fez ser mais prudente e muitas vezes entro para apartar, para tratar o evento como transitório e que não deve deixar seqüelas. É que entrei em brigas homéricas por nada e fui parar em lugares terríveis, coberto de sangue. Morrer por ninharias não é um bom programa de vida. O destempero não é um bom conselheiro. Melhor é envolver-se com esportes, que mesmo atraindo grandes paixões, sempre deixa espaço para a análises mais elaboradas, como prova a presença de grandes jornalistas como José Trajano, Juca Kfouri, Armando Nogueira, Luciano do Valle e o magnífico (e cada vez mais ausente) Juarez Soares, sem falar no rei dos bordões, Sílvio Luiz, e no antológico Fiori Gigliotti (autor do maior verso do esporte mundial: "Lá vai a lua branca rolando num céu de grama"). A seguir, um texto que tem alguns anos, mas que gosto demais.

CHUTES A GOL - Chute a gol tem nome. Chedinho, por exemplo, é quando a bola pega na veia e evolui, sutil, colocada, como faz hoje Marcelinho, às vezes Sávio (lembram do Sávio?) e antigamente Neto. O chedinho faz parte de uma linhagem que tem como divindade a folha seca.
O oposto do chedinho é o bostaço, capitaneado por especialistas como o aposentado Branco, Célio Silva e Roberto Carlos. Bostaço nem sempre é gol, mais é marca na barreira, trajetória para a arquibancada e, muitas vezes, arma. Teve gente que já morreu em conseqüência de bostaço, mas é muito raro. O normal é furar a rede, como faziam Pepe ou Quarentinha.
Às vezes, até Juninho dá seus bostaços, e ele também já fez muito gol de chedinho. Mas sua especialidade, o gol espírita, como a obra-prima na diagonal e em curva contra o Uruguai, no Pré-Olímpico, merece uma nova definição. A proposta é dar a esse tipo de chute a gol o nome do próprio autor. A característica de um juninho é a surpresa absoluta, que emudece por um milissegundo o estádio, os adversários, os companheiros, os telespectadores e, pasmem, Galvão Bueno.
Nesse lance, nossa visão estava dividida entre o erro previsto - a bola parecia ir para a linha de fundo - e o objetivo reconhecido pelo próprio Juninho, que eram os pés de Caio. Mas por ser um gol com nome de batismo, que obedece ao Espírito do goleador - e não à sua razão - ele cria o hiato, surpreende a câmara, dribla o olho, confunde os torcedores.
Com o gol contra o Uruguai, a platéia de argentinos, que, como sempre, secava, muda radicalmente de comportamento, humaniza-se, entrega-se, enfim, ao Outro, esta entidade que sempre soube negar.
A comemoração de um gol argentino ou uruguaio é um ritual de vingança, é a euforia de ter dado uma facada certeira, a celebração de um assassinato. Diante de um juninho, as mãos perdem a rigidez e, no final do jogo, aplaudem seus inimigos de camisa amarela.
A civilização platina reconhece assim, não a hegemonia adversária - que isso seria contrariar princípios gravados em bandeiras brancas e azuis -, mas a sagração de uma outra cultura. Os jogadores brasileiros transformaram-se, com seu virtuosismo, em instrumentos de uma religião, o futebol da camisa canarinho, e toda a religião que faz milagres merece, pelo menos, respeito.
O juninho é, como o chedinho, uma oração contrita de um ritual que, em dia de inspiração, pode converter o gentio. Já o bostaço, grife da era Dunga, é o chicote que paga com a mesma moeda a incrompreensão da barbárie.
Aquele chute de Pelé do meio do campo contra a Tchecoslováquia, na copa de 70, é uma espécie de síntese histórica dessas três manifestações. À distância, parecia um bostaço, pelo efeito, foi quase um chedinho, mas pela lenda que criou, já era uma espécie de pai de um juninho.

PAZ – Um dos poemas do meu novo livro, que tem uma parte toda dedicada à paz, centrada na figura do nosso grande Sérgio Vieira de Mello: Não digo fatalidade/ Quando a vontade decide/ Não está nas mãos de Deus/ O caminhão de explosivos// Não digo fazer o quê/ Quando matam o estadista/ Não me coloco à mercê/ Das imposições do crime// Não me conformo perder/ o que de fato já tínhamos/ Não posso me recolher// Quando a metralha se anima/ A História mais uma vez/ Não me protege, me obriga.

RETORNO – O jornalista Roberto Nogueira, que revelou-se um fotógrafo de mão cheia além de ser um repórter magnífico, gostou das observações que fiz sobre a intervenção estatal na mídia. Diz ele: “Estou lendo vários textos sobre ética e imprensa, teoria das comunicações, tendências atuais, media setting etc. Se tiver algo ou alguma fonte de consulta, por favor, me informe.” Eis um apelo também para os leitores desta coluna, que nos últimos dias têm estado em número cada vez mais decrescente e bem que poderiam dar um sinal de vida.

4 de outubro de 2003

INVENÇÕES EM BUSCA DE INDÚSTRIA

Esta coluna aproveita o sábado de primavera para lançar sua primeira edição de Ciência e Tecnologia, destacando idéias que poderiam dar samba em chão de fábrica e que são consideradas malucas pelos que tomam conhecimentos delas. Destaque para a sinistra televisão descartável que zapeia sozinha e o fofíssimo Porta-Focinho.

REVOLTA – Antes de mais nada, não posso deixar de destacar a carta de repúdio publicada hoje na Folha de S. Paulo ao artiguete (que defini aqui como “diatribe extravagante” na coluna de 30 de setembro) do tal de Nelson Ascher (pronto, citei o cujo) contra esse grande intelectual que é Edward Said. A carta tem 152 assinaturas, entre elas as de Roberto Schwarz, Antonio Candido e Celso Furtado. A grande imprensa precisa repartir o espaço editorial com o maior número possível de intelectuais e não deixar que, impunemente, meia dúzia de eleitos deitem e rolem no jornal, publicando abobrinhas insuportáveis. Omitir é mentir e a meia dúzia que é dona de espaços gigantescos ajuda a enterrar vivos autores que possuem obra importante e tornada desconhecida por esse tipo de política suja. A direção da Folha precisa se penitenciar: em vez de encarar o fato como “democracia”, é melhor cair a ficha e reduzir o espaço de tanto pseudo-pensador, abrindo mais suas portas para os enterrados vivos, os que possuem obra importante e foram excluídos da mídia. Quem sabe desse jeito publicam alguma resenha sobre meu livro de poemas No Mar, Veremos, lançado em 2001 pela Editora Globo e apresentado pelo mais importante poeta vivo do Brasil, Mario Chamie? O que é preciso fazer para ter vez nesse espaço público que é a imprensa?

PIPA DIGITAL – Agora vamos às invenções, para cumprir minha promessa de não destilar tanta crítica (esforço quase sempre em vão). A TV descartável que zapeia sozinha é o pior dos pesadelos: ela liga e desliga quando quer, muda o canal (sempre procurando anúncios pré-programados) e impõe o tipo de coisa (isso mesmo, coisa) que você "precisa" ver. É um ibope invasivo, que conquista o telespectador pelo aparente custo zero e precisa ser substituída a toda hora, já que as campanhas publicitárias mudam. Não é terrível? Outro pesadelo é catraca em elevador: pedágio para subir ao terceiro andar. Mas nem tudo é horror. Vejam o caso do Porta-Focinho, uma invenção que grita para ser fabricada em série. Quem tem cachorro sabe: eles estão sempre procurando um lugar para descansar seus focinhos, fator permanente de desequilíbrio na hora da sesta (e como dormem!). Qual será o melhor material: tecido, plástico? E o enchimento? Espuma?
Para as crianças, imaginei a Pipa Digital: o eterno brinquedo agora manobrado pelo zap. Dizem que é inviável. Não sei, não. Acho que dá para fazer: não levantam helicópteros, muito mais pesados? O que custa levantar uma pipa com tecnologia digital? Teria que ser de baixo custo, para ser fabricada em massa, com todos os tipos de design e cores. Daria também para fazer com que um só zap manobrasse mais de uma pipa, inventando coreografias. O marketing iria adorar!
Há anos “invento” um jogo de aros, desses que se jogam em feiras, mas compacto. Ou seja, feito de aros plásticos que se encaixam e se diferenciam pelas cores, cada cor valendo determinado número de pontos (os maiores com menos pontos, claro). Vem dentro de uma caixa: você puxa o dito pelo centro dos aros encaixados, onde sobressai uma pequena bola de plástico. O jogo vira um cone, com os aros em volta. Você tira os aros e deixa o cone a certa distância (que pode ser definida no manual). E aí joga para ver se encaixa. A seqüência deve ser obrigatória, de maior a menor, até o último aro, que vale mais. Não é bom?

ELÉTRONS A ESMO – Minha desconfiança com os parâmetros da ciência e tecnologia ganhou status acadêmico quando li em Thomas Kuhn que o motor das revoluções científicas não é o racionalismo, mas o obscurantismo. Ele explica: quando uma teoria não responde mais às perguntas importantes, uma parte da comunidade científica dedica-se ao problema. De repente, num sonho ou num insight supremo, um desses pesquisadores tem uma idéia genial, que ajuda a resolver o impasse. Só que o resto da comunidade já fez carreira com a velha teoria e a novidade leva décadas e até mesmo um século, como aconteceu com Newton , para ser aceita e se consolidar. Então a ciência avança não porque os luminares se convençam, mas porque morrem! Só uma nova geração é capaz de assumir integralmente os novos parâmetros. É por isso que numa certa manhã, há muito tempo, quando abria mal-humorado o portão para começar meu dia, e meu vizinho reclamou do fícus que tomava conta da minha casa dizendo “isso aí, seu Nei, atrai os elétrons!”, respondi muito prontamente para esse vizinho que é muito católico (como eu):
- Pois o senhor saiba que eu acredito em Deus, mas não acredito no átomo.
Até hoje não sei o que ele quis dizer com atração de elétrons pelo ficus. Esse negócio de partículas girando em redor do núcleo como se fossem planetas nunca me convenceu. Mas cada um com seu cada qual. Não acredito também no big-bang (agora está caindo a ficha de todo mundo), nem no magma (que história é essa que o centro da terra é uma lava derretida?) nem nas placas tectônicas (os continentes deslizando na superfície do magma, quá, quá, quá). Contem outra.


Perfil – Samuel Wainer

Pequena contribuição para lembrar o jornalista que mudou a imprensa com sua Última Hora. Chamado de Profeta por Getúlio Vargas (sua manchete “Ele voltará” fez História), Samuel ganhou uma biografia com texto final primoroso de Augusto Nunes. Ler Augusto Nunes basta. Mas, para os amigos, coloco um pouquinho das minhas lembranças.

- Você é editor? perguntou Samuel na lata, antes de me cumprimentar. Porque eu estou precisando é de um editor.
Eu ainda era redator, mas menti que sim. Tinha vindo da extinta TV Guia, da Abril e quem me indicou foi o Woile Guimarães. O jornal era o semanário Aqui São Paulo, onde Samuel insistia nos velhos jargões do jornalismo depois de brigar com uma redação cheia de grandes jornalistas como Sergio de Souza, Hamilton Almeida Filho e Myltainho (o texto total). Colocava manchetes com o General Inflação, para lembrar do velho General Inverno da Segunda Guerra, lugar comum que tinha sido enterrado pelo Paulo Francis no Pasquim.
Foi a única pessoa que me levou para o noticiário policial. Fiz duas matérias de polícia enquanto fechava o jornal e montava uma equipe para Samuel.
Ele tinha olho de cobra. Ficava na boca da máquina, pegava o primeiro exemplar, folheava e arrepiava-se com os erros:
- Meu Deus, que cagada, dizia a cada página do tablóide.
Samuel parecia ter 80 anos aos 60 e poucos (era final dos anos 70). Grandes sobrancelhas brancas, voz muito rouca pelo cigarro, chegou até a me dar uma coluna sobre “jovens” (eu acreditava nessas coisas na época), mas desisti. Samuel lamentava ter perdido seu império jornalístico. Dizia ter sido o cassado número 1 do país. Perguntava sobre a Zero Hora, que surgiu do espólio da Última Hora, fechada pelo regime da ditadura civil/militar.
- Eles fizeram um império com o jornal, não é? dizia Samuel, profundamente magoado. Deus levou-o com as costas cravadas de lutas memoráveis, que devem ser conhecidas por todos os jornalistas. Leiam Augusto Nunes.


RETORNO – O conselheiro do Diário da Fonte, Moacir Japiassu, impressiona-se que eu tenha visto sua entrevista na TV Assembléia. É que sou o rei do zap, Japi, e procuro pepitas enterradas no gigantesco monturo da programação.

3 de outubro de 2003

A REVOLUÇÃO DE OUTUBRO


Hoje é dia de comemorar a revolução de 3 de outubro de 1930, um evento riquíssimo da historiografia brasileira, que gerou livros seminais que devem ser lidos urgentemente. Um divisor de águas com reflexos diretos e indiretos na mídia até hoje e um espaço de disputa política que envolve no mínimo dois partidos (PDT e PTB) e uma massa poderosa de votos. Isso significa que todas as tentativas de erradicar a revolução de 30 da memória brasileira foram em vão.

O NOVO DIP – O assunto é "agigantamento do noticiário oficial" , denúncia dos jornalões contra o que eles chamam de o Departamento de Imprensa e Propaganda da era Vargas adaptado ao século 21. O presidente Vargas hoje é o papel higiênico da ignorância histórica. Costuma-se vê-lo como um personagem sem nuances, um ditadorzinho qualquer, uma espécie de caudilho latino-americano. Qualquer problema que exista no País é coisa do Getúlio. Se o PT erra, é porque está imitando o Vargas, não porque esteja errando por conta própria (e como erra!). A CLT do Getúlio, todos sabem, é obsoleta (estão gostando da terceirização? voltamos à República Velha, quando não havia férias, nem jornada de oito horas e quando as crianças trabalhavam sem parar?). O jornalista, antes de embarcar em canoas furadas, precisa estudar História. Existem vários Vargas, dois deles eleitos pelo voto. Em 1934 ele assumiu a presidência eleito pela Assembléia Constituinte e em 1950 ele deu um a lavada gigantesca de voto popular nas urnas. Como “ditador” existem outros dois momentos: quando assumiu o governo provisório em novembro de 1930, depois da revolução vitoriosa (que teve intensa participação do povo, inclusive pegando em armas, como aconteceu no Rio Grande do Sul) e em 1937, com o golpe do Estado Novo, quando continuou no poder amparado pelas Forças Armadas. Ou seja, existem muitas mudanças numa trajetória de 25 anos (interrompida com o suicídio em 1954, quando o povo saiu às ruas quebrando tudo, como aconteceu no Rio de Janeiro e em Porto Alegre).

RESPOSTA EM ITENS – Quanto à traição petista de encher de dinheiro seus marketeiros, enquanto o desemprego e a violência avançam, devo compartilhar com a preocupação, mas também defender a necessidade de uma intervenção do Estado na atual situação caótica da mídia, palco de grandes crises e instabilidade permanente, em que meia dúzia de gigantes fazem o que bem entendem (inclusive tentando destruir o jornalismo de bairro com encartes ridículos que só servem para dar malhos regionais). Acho o seguinte:
1. Só os grandes grupos privados, as famílias tradicionais, a máfia internacional e os aventureiros podem concentrar mídia nas mãos. O governo não pode, a mídia proíbe.
2. A fase de ouro do rádio brasileiro coincide com a maciça presença estatal na radiofusão.
3. A Ultima Hora, jornal subsidiado pelo governo, provocou uma revolução na imprensa brasileira que a era Collor-FHC ajudou a enterrar.
4. O subsídio governamental deve servir para regular a televisão (sim, regular, impedir por exemplo que eles interrompam a programação a cada dois minutos com intervalos comerciais de 10 minutos, onde veiculam basicamente mídia interna, ou seja, propaganda dos programetes deles – principalmente nas emissoras da TV a cabo, que é paga!); colocar de volta a música de qualidade na rádio e televisão, interrompendo o execrável ciclo hegemônico dos chororões daniéis alexandrespires (que chorou ontem nos braços do Bush, que vergonha, meu Deus) e tchans (a genitália rebolante 24 horas por dia); e ajudar a criar mais concorrência nos quadros jornalísticos, valorizando o talento e obrigando os jornalões e revistonas a pagar melhor e contratar mais gente competente para poder peitar a máquina estatal.
6. Subsidiar a mídia não quer dizer obrigatoriamente criar notícias favoráveis, mas contribuir para criar um ambiente mais competente no noticiário e na programação (desde que seja uma política orientada pela ética).

LIVROS - Precisam ser lidos, no mínimo: Outubro, 1930, de Virgílio de Melo Franco; A Verdade Sobre a Revolução de Outubro, de Barbosa Lima Sobrinho; A Revolução de 30, de Boris Fausto; e Oswaldo Aranha, de Stanley Hilton. Para quem gosta de Uruguaiana (e quem não gosta?), entende-se melhor a revolução de 30 lendo Lusardo, o Último Caudilho, um livro de História do Brasil do século 20 escrita pelo talento e a competência desse jornalista fantástico que é Glauco Carneiro. O livro (em dois volumes, sendo o primeiro uma obra-prima) de Glauco foi minha introdução à História que as escolas escondiam.

RETORNO - Já me aconselharam a baixar a bola aqui na coluna e não emitir tanta crítica, mas normalmente não consigo evitar. Amanhã volto à poesia e às técnicas jornalísticas. Hoje eu estava comemorando a revolução de 30, que teve a participação de um soldado de apenas 18 anos. Esse soldado passou a vida contando histórias da revolução vitoriosa e posso garantir, pelo seu relato: correu bala como nunca. Não foi um passeio. Ele se chama Ello Ortiz Duclós, meu pai. Devo-lhe a minha vida.

2 de outubro de 2003

O DIA DE ATRAVESSAR A RUA


Chega o momento em que a grande imprensa fecha as portas e você se vê numa assessoria em frente a um telefone, pronto para jogar pelo fio toda a sua biografia. Ninguém mais se importa em cruzar esse umbral, mas para aqueles que ainda enxergam a revolução como um retrato doendo na parede, fica difícil entender que o outro lado reserva surpresas, às vezes gratificantes.

BORDÕES – Minha saída das redações consideradas “normais” (jornais, revistas e emissoras de rádio e televisão de empresas de comunicação) coincidiu com o encontro de um amigo novo, autor de formidáveis bordões e um dos que me deram a oportunidade de criar veículos de informação no universo do jornalismo focado nas empresas. Publisher e diretor da revista Sala do Empresário, Dorival Jesus Augusto é um crítico do imobilismo da vida brasileira e um apaixonado pelas atividades criadoras, pela negação do ócio. Inspira-se no acervo acumulado empiricamente dentro das empresas e cria (ou reproduz criativamente) verdadeiras jóias da cultura brasileira. Uma delas é “despesas não tiram férias”, uma crítica à quantidade de hiatos na vida produtiva, como o prolongado verão, os seguidos feriadões e o adiamento das decisões para depois do Carnaval. Diante das dificuldades de liquidez que assola o País há décadas, ele tem outra frase da sua antologia: “Você já ganhou, só falta marcar a data”. Significa que o pagamento vem, pode demorar, mas o importante é que você já merece a remuneração. Com suas idéias, Dorival poderia ser um grande gerador de atividades jornalísticas se vivesse num ambiente mais propício para os negócios. Mas ele nasceu no Brasil e está em missão cívica. Assim mesmo, com as limitações que se interpõem em seu caminho, ele consegue milagres. E se o jornalismo costuma parar, problema do jornalismo. Dorival continua tocando sua dinâmica e bem sucedida Hífen, um modelo de gestão em época de crise. Voltarei às suas frases nas próximas edições.

CRIAR VEÍCULOS - Nas empresas não especializadas em comunicação, você tem a oportunidade de gerar veículos com grande liberdade de criação, às vezes até mais do que na vitrina de vaidades, a grande imprensa. Há um diferencial importante, que é o convívio direto com outras profissões (o que não acontece nas redações normais), como engenheiros, consultores, administradores etc. O bom senso e a seriedade existente nesses ramos profissionais ajudam a disciplinar sua natural tendência ao caos. Isso pode ser adaptado criativamente, especialmente quando se trata de trabalhar a informação. Num departamento de comunicação ou numa assessoria de imprensa, você pode aproveitar para mergulhar em assuntos candentes sem a pressão da superficialidade diária da cata de notícias. Essa informação aprofundada, abordada eticamente, pode ser repassada para os jornalistas como insumo valioso de coberturas. Nisso se inclui a coleta de dados que sobram em alguns eventos, por exemplo. Um evento é síntese de linguagens e painel de informações e quase sempre é tratado de maneira superficial, focado na grande personalidade presente ou em alguma frase bombástica que dê manchete (muitas vezes, a manchete é acertada previamente entre jornalistas de veículos concorrentes). Uma assessoria ou um veículo empresarial pode e deve tratar com mais profundidade esse tipo de acontecimento.

PISAR EM INFORMAÇÃO – Essa é uma imagem que um jornalista me passou e que acho super pertinente. Tem gente que pisa em informação sem se dar conta. Um profissional de imprensa atento desencava informação guardada (por preguiça ou excesso de cautela) nas gavetas e a trata de maneira eficiente, arrancando exclamações de espanto pelo que consegue fazer. Há também na comunicação empresarial um trabalho que equivale ao departamento de editorialistas de um jornal, que é o da confecção de textos institucionais. Todo discurso ou artigo assinado por alguém representativo é ético, portanto é no universo da ética que um jornalista especializado em texto final de qualidade pode desenvolver diversos temas. Claro que existem pressões para escrever o que você não acredita. Mas isso existe em qualquer lugar. Muitas vezes, numa redação considerada combativa, a censura em nome da liberdade é mais violenta do que a censura em nome da obscuridade. Ambas têm o mesmo efeito: fazem você lamentar não ter escutado seu pai e sua mãe e feito um bom e velho concurso público.

RETORNO – Como todos são meus amigos, os membros do Conselho Editorial do Diário da Fonte festejaram de maneira generosa o convite que fiz aqui para eles. “Tou nessa, tou nessa. Não vai haver outro conselho em que achem que meu conselho presta” disse Wagner Carelli. ”Teu convite me fez lembrar Barthes em sua famosa aula no Collège de France. É mais uma alegria que uma honra pois a honra pode ser imerecida, a alegria não”, disse Zélia Leal Adghirni. “Agradeço a honra de integrar tão nobre galeria”, disse Francisco Karam. “Aceito sem restrições, consideradíssimo amigo; disponha deste sertanejo já velho, porém ainda pleno de projetos e certos devaneios”, disse Moacir Japiassu. Todos foram advertidos que não poderiam contrariar o delírio de um inconformado.

1 de outubro de 2003

A ARTE DE SER APROVADO


Aprovar é fácil: é só deixar o sujeito ajoelhado no milho, manter uma cara impassível enquanto lê a matéria, fazer gestos de impaciência no uso compulsivo da caneta, dar mais atenção a qualquer interferência, especialmente se for insignificante e, no final, soltar um quase imperceptível ok. O díficil é convencer o editor que o texto que ele tem nas mãos é o menor dos seus pesadelos.

MAGIA – Chega outubro, o mês maior, e com ele a possibilidade de realizações de muitas promessas. Para quem nasceu no extremo sul, esse é o mês da redenção, quando o inverno enfim dá uma trégua, e o sol se manifesta pelo poema. Outubro é o mês de morder levemente a caneta e olhar para o horizonte, qualquer horizonte. É quando podemos incorporar o mistério da linguagem, esse recurso que é uma invocação dos deuses, que nos socorre para definir nossas vidas, tornadas mesquinhas não fosse o trabalho que desenvolvemos com as palavras. Outubro é o mês de sair um pouco mais na rua e verificar a capacidade que velhas árvores têm ainda de florir e provocar espanto. Nada de babaquices de primaveras parnasianas, mas de renovação, de resgate e de sonho. Mesmo que esteja nublado, que faça um vento frio, que ainda não tenhamos alcançado os objetivos a que nos propusemos, outubro chega como uma nova chance. Eis que veio outubro, o mês que nos leva pela mão para a redescoberta do mundo.

SUSPENSE – Ser aprovado é agir estrategicamente. Não basta escrever “bem”. Não basta “gostar” de escrever (essas duas coisas brandidas como definitivas para a escolha da profissão). Precisa ser uma espécie de dramaturgo, incorporar linguagens alheias, acertar nos detalhes, encarar cada frase como se fosse a mais importante de todas. Não passe ao largo de uma oração, mesmo de uma palavra. Cada letra conta. Não se concentre no que você tem a dizer, mas no que você está escrevendo de fato. Quem é mídia (meio) não “diz” nada, pelo menos não dá bandeira do que está dizendo. Quem é mídia constrói arduamente sua ponte, coloca o granito e o asfalto na sua estrada, abre túnel em montanha, leva saco de sessenta quilos nas costas. Quem é mídia escuta, e escreve não aquilo que escuta, mas o que produz de pensamento orientado pela escolha das palavras. Pode parecer esotérico, mas a advertência aqui é você não perder tempo com a tralha da matéria, aquilo que deve ser jogado no lixo antes que o editor o faça. Surpreenda-o colocando apenas o essencial. Um truque é evitar coisas como “dão-conta-de-que”. Como tem gente dando-conta-de-que ultimamente! Acho que nada no mundo dá-conta-de-que, só nas construções medíocres dos textos dispensáveis e ilegíveis.

COLO – Notem como nos títulos da imprensa todos “sinalizam”. Esse é o tipo de verbo recorrente horrendo, porque serve para qualquer coisa. Um verbo verdadeiro, que esteja à altura da sua matéria, é pepita rara que exige garimpo. Exercite-se na busca da palavra certa. Mas não vá usar “exatos” tantos-anos. É outra mania, essa de “exatos”. É como usar “a rigor”: imediatamente, a matéria ficaria rigorosa, pois não? Para escolher a palavra adequada (não a mais bonita, a mais estilosa, a mais explícita do seu infindável e ainda não reconhecido talento), é preciso raciocinar escrevendo. Sabemos o que estamos pensando ou percebendo se conseguirmos formatar o texto certo. O que você cria na linguagem é o que você consegue produzir de pensamento. Se você entender realmente o que está produzindo, o leitor irá também entender. Não transfira enigmas para o leitor. Não diga: ah, isso todo mundo sabe. Todo mundo não existe. Nem o leitor, nem as palavras são seus escravos. As palavras não obedecem ao que você previamente fica matutando. Você tem um insight, uma frase forte de abertura na cabeça, ou o perfil do seu esqueleto imantado, a prévia estruturação do texto vista através da névoa. Pois coloque no papel, no micro, e deixe que essa idéia te leve no colo. Para isso, precisa não só gostar de escrever ou escrever bem. Precisa ser soldado na guerra, aquele recruta faminto e solitário depois do bombardeio, que descobre uma batata num monturo e a devora antes que soe novamente a metralha. Se você for um desses, nenhum editor irá desprezá-lo. Quando você chegar com o texto, ele vai suspirar de alívio. “Enfim”, pensará, “algo publicável”. Mas não espere sorrisos dele. Um editor é, antes de tudo, um general que viu sua tropa morrer em seus braços. Ele sempre espera o pior.

RETORNO – Um dos membros do Conselho Editorial do Diário da Fonte, o professor Francisco Karam, da Universidade Federal de Santa Catarina, informa que seu colega Eduardo Meditsch (que esteve recentemente em Portugal num encontro sobre jornalismo) enviou os seguintes endereços de blogueiros especializados no ofício:
*José Orihuela (Prof. Univ. Navarra) jlori@unavi.es
www.ecuaderno.com
* Manuel Pinto (Universidade do Minho) mpinto@ics.uminho.pt
jornalismo e comunicação.blogspot.com
* António Granado (Jornal Público) icsamsc@leeds.ac.uk
ciberjornalismo.com/pontomedia.htm

30 de setembro de 2003

A ESTRATÉGIA DA OMISSÃO

Omitir é mentir. Enterrar vivos autores e idéias (ou seja, não citar, para poder roubar impunemente), como se faz hoje na imprensa, é o caminho para a cultura de araque, onde o destaque excessivo dos parceiros de negócios convive com a super-exposição do que não tem importância. Fica-se assim por cima da carne seca, enquanto o "resto" medra no ostracismo.

SETE VÉUS - Graças ao site de Rimarah Hare, descubro agora que a Dança dos Sete Véus é uma invenção do Ocidente e que foi imposta como manifestação do Oriente. Fica assim mais apropriado o título A Dança dos Sete Véus - e o enfoque que eu dei ao meu trabalho acadêmico sobre o livro Orientalismo, de Edward Said, que está há anos disponível na Internet, no endereço eletrônico ww.consciencia.org/neiduclos/historia/orientalismo.html e tem um link no site da editora Conrad. É um texto extremamente visitado. Foi reescrito três vezes para agradar minha exigente orientadora de pós-graduação, a professora doutora Nanci Leonzo, da USP (que tem um magnífico trabalho, ainda praticamente inédito, sobre as Forças Armadas na época colonial). Pois bem. Ontem, num grande jornal (fica bem assim? vamos também pecar pela omissão? está na moda?), um autor considerado e que assina uma diatribe extravagante contra Said, desqualificou o que ele chamou de "a dança acadêmica dos sete véus" do grande autor. Meu texto contém uma crítica a Said, mas importa-se mais em analisar o magnífico trabalho desse intelectual, que morreu recentemente de leucemia. O referido (como assim referido? acabo de omitir o nome dele!) autor, que é um dos poetas super-expostos do jornal em questão (estou me especializando na omissão!) usou a metáfora dos sete véus para o trabalho de Said sem citar a fonte. Com isso, ele manteve o recorde: tenho um trabalho acadêmico há anos na Internet, que jamais foi citado na imprensa. Claro que o álibi da coincidência pode ser brandido nesse caso. Mesmo assim, se existe um texto acadêmico com esse título sobre o assunto em questão, e se foi usada a metáfora (só para desancar sem dó um autor maravilhoso), por que não dizer que o texto existe na Internet? Porque não, naturalmente.

DESATINO - Outro exemplo: ontem vi na emissora de TV da Câmara paulista (que, se os responsáveis quiserem, pode tornar-se um grande canal regional) uma entrevista com o consideradíssimo Moacir Japiassu, um dos escritores brasileiros mais importantes da atualidade, que acaba de lançar uma obra-prima, Concerto para Paixão e Desatino, uma lição de narrativa e de criação literária (daqui a pouco escrevo a resenha, Japiassu, estou no meio do tiroteio! mataram João Pessoa, considerado, mataram o presidente da Paraíba!!). Japi falava para seus entrevistadores sobre a "conspiração do silêncio" da grande imprensa em relação ao seu livro. Claro que Japi, um homem acima de toda essa mediocridade, falou isso com a grandeza que o define, sem ressentimentos, até com bom humor. Mas é um escândalo que não tenham reservado, como fizeram com autores menores, grandes espaços para o livro de Japi (só citar não vale, é preciso resenhar, é obrigação do jornalismo cultural, que não pode omitir fatos) . Por que? Para mim, os responsáveis por isso moitam para poderem chupar. Só pode ser isso. Se existe um consenso (pois é uma armação, pois não?) sobre determinados autores, o objetivo é cassar sua palavra para poder pontificar com ela. Gostaria que me contrariassem, que tornassem esta edição do Diário da Fonte obsoleta e publicassem resenhas sobre Japi, por exemplo, amanhã. Ficaria super satisfeito!

AZEITONA - Lembro que, quando trabalhava na Ilustrada, os Novos Baianos estavam proibidos na grande imprensa. Furei o bloqueio. Na IstoÉ, tratei Rita Lee como assunto cultural importante (o que era um fato, na época), para espanto geral. Hoje, volto a perguntar: nada, absolutamente nada sobre o maior compositor vivo do Brasil, Edu Lobo? Quando o cara se for (que Deus nos livre!) vão veicular apenas aquelas imagens em preto e branco dos anos 60 (cobertas de necrológios pífios). Não filmam o cara, não vão atrás dele, não pedem para ele tocar e cantar em frente as câmaras, não o entrevistam! Nada sobre o Edu Lobo e tudo para o, digamos, Chitãozó e Chororinho, Súnior e Jandy. Fica explícita a omissão a serviço de objetivos escusos quando um repórter de TV fala em "uma empresa", sem citar o nome da dita. É uma maneira de forçar as empresas a pagar para aparecer, via anúncios (quando não por outros caminhos escusos). Desconfio que, na área cultural, as redações estão cheias de "concorrentes" medíocres, com a mentalidade de para-quê-colocar-azeitona-na- empadinha- alheia. Vi pseudo-autores, que ocupam lugares chave nas redações culturais, posarem com seus lançamentos, tendo atrás uma grande estante cheia de livros, olhando significativamente para câmara, enquanto seus pares pastam no anonimato. Sorte que eles não omitem o poeta Fabrício Carpinejar, que hoje lança sua antologia Caixa de Sapatos, no Bar Canto Madalena (Medeiros de Albuquerque, 471, 19 horas). Carpinejar é uma flor de pessoa e estarei lá para conhecê-lo pessoalmente e dar-lhe um abraço.

RETORNO - O poeta Mauro Mendes conta como funciona o Brasil: "Ontem, ia comprar a Folha de SP para ler o artigo de Schwarz que me indicaste, mas, infelizmente, aqui em Salvador, o jornal não vem com o Mais!. As distribuidoras fazem muito isto, tiram determinados encartes para diminuir peso no avião, o que é um absurdo!"

29 de setembro de 2003

PROJETO ABRE-GAVETA


Escrever é uma atividade que não deve ficar obrigatoriamente restrita ao universo das redações. Assim como fotografar deve ser o desenvolvimento de uma arte e não apenas o ato de cumprir pautas e fazer coberturas. O talento, recurso natural não renovável, precisa deixar de ser desperdiçado. Na edição de hoje, algumas idéias para ajudar a resolver o impasse.

LIVROS – O Projeto Abre-Gaveta precisa ser uma iniciativa de um grupo de jornalistas interessados em fazer valer o direito fundamental do profissional do ramo, ou seja, trabalhar no sentido de alcançar a permanência do que produz. Se houver apoio do Sindicato e das empresas de comunicação, melhor. Deve ser uma ação sem fins lucrativos e que trabalhe a favor do que temos dentro dos jornais, revistas, rádios e televisões. E mesmo fora desse circuito, entre os jornalistas autônomos (muitos deles, procuram achar uma saída com seus próprios recursos, o que costuma ser um processo demorado e muitas vezes doloroso) . A idéia é simples: ter uma equipe mobilizada para detectar o que se faz entre os jornalistas e que tenha permanência. Podem ficar de fora os autores que já possuem editora, que já dispõem de uma carreira nessa áreas e que portanto não precisam disso, já que sabem se virar sozinhos. O objetivo é alcançar não só os estreantes, mas os veteranos que por muito tempo acalentam a vontade de ter um livro publicado e não conseguem. Primeiro, é importante ir atrás do que já está pronto: quantos romances, livros de reportagens, peças de teatro, poemas, existem na gaveta? A equipe do projeto iria atrás desse acervo para ajudar a viabilizar, digamos, o “produto”.

REPERCUSSÃO – Por que falo nessas coisas? Primeiro, pouca gente lê esta coluna. Segundo, parece que advogo em causa própria, o que não é verdade. Meu trabalho como escritor vive altos e baixos, mas já tenho alguma coisa publicada. Penso nos grandes talentos que, com o tempo, desistem, deixam para lá, esquecem, ou simplesmente escutam o canto de sereia do deboche, do pragmatismo (“isso é coisa de amador! Você não vai conseguir!") ou da complexidade do trabalho. O Projeto Abre-Gaveta, depois de ajudar a editar (em parceria com editoras ou por conta própria) os livros prontos, iria atrás dos projetos e ajudaria o autor a se dedicar a eles, por meio de apoio. Como seria esse apoio? Falo em tempo, espaço e recursos. É preciso que o jornalista reserve uma parte do seu tempo oficial de trabalho para se dedicar aos seus projetos. Como nossas empresas de comunicação não dispõem nem de uma biblioteca, vai ficar difícil que isso aconteça. Mas como esta coluna, repito, é um exercício de imaginação, penso na possibilidade de implantar espaços específicos para os jornalistas desenvolverem seus projetos. Ganhariam xiz expedientes por mês para fazer isso. Essa providência ajudaria a discipliná-los para um trabalho que normalmente fica para outro dia.

RESGATE - O espaço pode ser fora da redação, num lugar à escolha do autor, que fosse ajudado a desenvolver seu trabalho alternativo. Lembro de um economista que retira-se por um mês (acho que é o Eduardo Giannetti da Fonseca) num pequeno hotel em Minas para escrever um livro. E sempre dá certo. Pois esse autor poderia passar um tempo (fora do seu direito de férias) retirado, por exemplo e voltaria com seu projeto pronto. Aí receberia apoio da equipe mobilizada para esse fim para colocá-lo na praça. Todo mundo tem a lucrar. As empresas, que assim fariam algo significativo na área de recursos humanos. Os autores, por motivos óbvios. E o mercado, que teria novos produtos, de autores traquejados na lide diária. Serve também para uma série de livros de fotografia, por exemplo. Serve para alguém dedicar-se a resgatar grandes reportagens do passado e lançar uma coleção. Serve para ajudar novos autores, para dar algum retorno aos antigos, para recuperar e tornar permanente o talento que nem sempre é usado no dia-a- dia. O Projeto Abre-Gaveta seria também um estímulo para que o talento volte ao exercício da profissão. Seus produtos serviriam de parâmetro, diferente daquelas leis inspiradas no pão-pão-queijo-queijo.

RETORNO – Enorme alegria em receber e-mail do meu amigo Antenor Nascimento, escritor e jornalista de primeiro time, homem de Veja e de tantos outros veículos importantes, de texto impecável e índole pacífica, que me aturou por algum tempo na Istoé do final dos anos 80 e que lembra os fechamentos nas nossas “madrugadas intermináveis, das máquinas olivetti Lexicon, e do gim tônica no Gigetto.” Tinha esquecido, Antenor, que a Olivetti era a Lexicon. Como isso foi possível?

28 de setembro de 2003

UMA ALIANÇA COM A TEORIA

Teorizar deve deixar de ser nome feio. A visão clara sobre a complexidade dos fatos é uma aliada decisiva no trabalho jornalístico, que precisa estar atualizado com as idéias e análises dos nossos melhores intelectuais. Por exemplo: qual a relação entre o artigo seminal de Roberto Schwarz, hoje, no Mais!, sobre Francisco de Oliveira, e o trabalho de alguns talentos da fotografia?

EM ESTADO DE DICIONÁRIO - Antes de fazer essa ligação entre Roberto Schwarz e Hélcio Toth, entre Francisco de Oliveira e Marcelo Min, entre Celso Furtado e Regina Agrella, entre Sérgio Buarque e Walter Firmo, entre Raymundo Faoro e U. Dettmar, quero destacar a vocação autóctene desta coluna, que divulgou ao longo dos últimos vinte dias uma série de conceitos sobre o exercício da profissão e que precisam ser recapitulados. Como a Internet é uma mídia simultânea, 24 horas no ar, não vou chover no molhado. Apenas lembrar que são fruto de reflexão própria as definições de “jornalismo-de-breque, esqueleto imantado, jogral das fontes, marketing da pressa, distribuidor de positivos, síndrome da moita, pauta rotativa e ditadura civil”. Além de bordões como “olho branco não reverte, o feminismo é fanho, credibilidade é a separação entre jornalismo e publicidade e não existe Kurosawa menor”. Faça um control F e descubra detalhes de todas essas sacadas, se for um leitor recente. Se estiver entre os dez privilegiados que acompanham a coluna desde o seu início, nem precisa.

VITRINES REAIS – A honestidade e o brilhantismo de Roberto Schwarz, o maior intelectual do país, autor do obrigatório “Um Mestre na periferia do capitalismo”, sobre Machado de Assis, é um privilégio para nosso país tão à mercê da mediocridade. Ele lança luzes seminais sobre o deslocamento existente no Brasil entre as idéias – vindas do exterior e assimiladaas à nossa feição – e a realidade espúria a qual pertencemos. Ele defende a tese de que esse deslocamento foi necessário para que, no século 19, o capitalismo desse certo no mundo, pois nosso atraso alavancou a prosperidade alheia. No artigo hoje do Mais!, o melhor caderno jornalístico do País, bênção dos domingos e festa do conhecimento, ele comenta a intensidade da tese de Chico de Oliveira sobre o fato de o petismo oficial ser a outra face da mesma moeda do pseudo-neoliberalismo tucano. Essa é uma teoria que, sem ser citado, vai nas águas do Raymundo Faoro, autor de “Os Donos do Poder”, sobre a hegemonia do estamento (a elite burocrática oficial) que mantém a mentalidade atrasada no Brasil atrelado ao colonialismo internacional.

MOTORES DA MISÉRIA - O que me chama a atenção para o trabalho de Francisco Oliveira, comentado brilhantemente por Schwarz, é o enfoque criativo sobre o papel da miséria do Brasil. O trabalhador informal, a pessoa que está fora do sistema produtivo legal e que constrói sua casa no mutirão e ganha o pão vendendo bugiganga nas ruas – ou produtos a preços acessíveis para uma população tão carente quanto ele – é que é o motor do desenvolvimento nacional. Já que indústria se contenta em ser reprodutora de know-how alheio, montadora de automóveis e radinhos, é na força produtiva dos marginalizados que o País encontra forças para seguir em frente. Pois isso tudo está no trabalho do Tomás May, do Marcelo Min, do Hélcio, da Regina e de tantos outros! São esses fotógrafos que estão no front e que bebem da mesma fonte que alimenta a teoria. Unam-se , portanto, criem vasos comunicantes entre si. O jornalismo obedece a uma teoria fajuta, dualista, em que uma parte do país ( a oficial) é enfocada com seriedade e a outra (a informal) é vista de cima para baixo, como se a primeira tivesse que repassar esmolas para a segunda. Pois é o Brasil de pé no chão, a que luta para sobreviver sem nenhum apoio e que tem sua cultura própria, sua dinâmica, e sua própria iconografia, que dá lições à economia formal. O buraco é muito mais embaixo e a água vem de baixo para cima. Os jornalistas precisam acessar o que há de mais criativo e fecundo na teoria para que as pautas deixem de ser babacas, tipo “veja que beleza essa ONG que preserva as tartarugas e ensina capoeira”. Ninguém quer esmola nem demonstrações de boa vontade. Queremos política justa, fim da corrupção e jornalismo sério. Pouca coisa.

RETORNO – Roberto Nogueira, jornalista ponta firme, atualmente em Brasília, escreve dizendo : “Estou me deliciando com o seu texto. Parabéns pelo blog. Os temas abordados são muito, muito atuais.” E o excelente poeta Mauro Mendes (jmaurom@terra.com.br), da Bahia, envia poema Náutica que acaba assim: “Velejarei num mar de versos,/ onde me reconheço,/ onde o campo é minado/ e cada palavra sabe a sua cicatriz.”

27 de setembro de 2003

A SÍNDROME DA MOITA

Tornar-se invisível, guardar segredo sobre seus pensamentos, aturar estoicamente chefes e colegas e aguardar melhores dias faz parte da sobrevivência nos empregos. O importante é que a estratégia não vire vício ou defina sua personalidade. E, principalmente, que não seja usada contra os outros ou apenas para garantir seu espaço de maneira mesquinha.

OLHO BRANCO – Quando alguém mais poderoso joga pesado contra você, ignora-o propositadamente, escuta-o só para ordenar tudo ao contrário, não o convida para as reuniões, dá ordens diretas para a equipe que está a seu comando sem consultá-lo, ri toda vez que você fala sério e desvia o assunto quando você tenta contar uma piada, é sinal que você está condenado. Essa tendência não costuma reverter, já que o poder colocou o chamado “olho branco” em você, um olhar frio, distante e que o torna anônimo dentro do seu espaço profissional. “Olho branco não reverte” é a lei nessas situações. É hora de você ir procurar sua turma, encontrar outra ocupação em outro lugar. Costuma-se culpar o excesso de visibilidade, que atrairia o empurrão negativo do poder sobre você. É comum perguntar-se: e se eu permanecesse quieto no meu canto, sem dar muita bandeira, e se eu sacudisse afirmativamente a cabeça (com o cenho carregadíssimo de seriedade) nas reuniões, sorrisse na hora certa e obedecesse em todos os detalhes, mesmo que eles contrariassem o bom senso, seria diferente? É possível , mas essa é uma possibilidade virtual e remota, pois como mudar a própria personalidade? Quando o embate é frontal, fica mais fácil lidar. O grande problema é quando o teu chefe é mestre da moita, e te engana direitinho. Quando você menos espera, vira estatística.

GESTOS – O comportamento numa redação tem muitos gestos. Um eles, clássico (deve estar em desuso), é composto por mangas arregaçadas, gravata um pouco frouxa, casaco na cadeira, punhos fechados, ambos sobre a mesa, braços esticados e olhar penetrante para alguém na frente, um texto em cima da mesa ou para o infinito. Outro é cenho levemente carregado, um leve roçar da mão sobre a face (se tiver barba confiável, ou seja, trabalhada, melhor) e palavras certeiras ditas num tom casual. É cool. Os grandes mestres do gesto certo em redação são os mineiros, que tem muito a ensinar a nós, gaúchos, que caímos em várias armadilhas. Coisa de gaúcho é o andar duro, uma só mão no bolso e um ombro mais baixo do que o outro (como faz o rei da cocada preta, o Tarso Genro). Mas hoje todas as nacionalidades brasileiras se igualam na moita, ninguém dá mais bandeira. Foi-se o tempo em que o Tarso de Castro entrava com uma vassoura e uma enxada na redação e gritava, sacudindo alternadamente cada um dos objetos: “Este é o Médici! E este é o Geisel” ou coisa que o valha (nem lembro se eram mesmo vassoura e enxada, mas essa cena eu vi). Uma coisa que deve-se atentar são os ombros: não mostre seus ombros abaixados, senão você está identificado com a preguiça ou a velhice. Vi muito peru e perua subir na vida sacudindo os ombros enquanto falavam. Transmite sinal de sempre-alerta.

VOZES - O machão é rouco, a feminista é fanha. Falar ao mesmo tempo em que o seu “concorrente” (aquela pessoa derrubável) tenta dizer alguma coisa, é uma maneira de afastá-lo. Transmitir recado como se passasse uma bola quadrada, também. Pedir desculpas depois de sentar em cima de um pedido, esperar estourar o prazo e só terceirizar a encomenda minutos antes da data, é a maneira mais eficiente de acabar com alguém. Tornar obrigatória a saída conjunta para o almoço e forçar visitas de fim de semana fazem parte do cerco a alguém que tem algo para oferecer no emprego. Todos esses expedientes, execráveis, foram apresentados para mim durante décadas. Acumularam-se na minha cabeça de maneira tal que, para me livrar, tive de sair várias vezes para não estourar. O gesto maior numa redação é o sorriso sincero. Tive essa experiência com meu amigo Dorival Pacheco, já citado aqui, e a quem dediquei meu segundo livro de poemas, No Meio da Rua. Num deles, dedicado a esse que se foi antes do tempo, intitulado “Poema gritado da janela do ônibus”, anuncio os “ventos da mudança”. Não mudou nada, ainda, Dorival. Não mudou nada, meu querido amigo. O que permanece é a tua generosidade. Você, que me recebeu sorrindo depois de um longo e tenebroso desemprego, que sentou na minha frente durante meses e que repartiu comigo a vida dura de uma redação apertada, mal paga, mas vibrante, na Folha da Manhã, de Porto Alegre.


Perfil – Reginaldo Fortuna

A CHAMA DO GÊNIO – Por ser ético e jamais usar nenhum expediente para se promover ou derrubar alguém, e principalmente por ser gênio, Fortuna fez História no jornalismo brasileiro. Não era apenas um desenhista primoroso, um chargista, um humorista. Era um diretor de arte, um inovador e Mestre. E escrevia magistralmente.

Quando conheci Fortuna no final dos anos 70, época em que foi chamado por Tarso de Castro para fazer o Folhetim, da Folha de S. Paulo, não cheguei a me tornar amigo dele. Só em 1988, quando fui assessor de imprensa e precisei de um diretor de arte para lançar o Softpress, é que me aproximei bastante desse gênio brasileiro, que amargou longo exílio interno depois de tanto fazer pelo jornalismo. Fortuna era muito mais que um cartunista seminal, mestre do traço e da piada política. Escrevia como poucos e, leitor de Gutemberg, era criador visual de primeira, com extrema lucidez no olhar, capaz de detectar um desvio de meio milímetro num fio mal colocado (antes da computação). Fortuna queixava-se bastante da injustiça que fizeram ao Tarso em relação ao Pasquim. Para Fortuna, o Pasquim foi obra de Tarso e não dos outros colaboradores, que eram apenas coadjuvantes.
É preciso destacar também o trabalho revolucionário de Fortuna na imprensa empresarial, onde criou vários projetos gráficos. Por exemplo: como diretor de arte do jornal Softpress, entre 1988 e 1990, ele contribuiu para mudar a concepção gráfica dos jornais empresariais, sepultando definitivamente a fase do amadorismo visual do setor. Antes de Fortuna, havia consenso de que jornal empresarial deveria ser feito sem a excelência gráfica da grande imprensa (não falo dos projetos especiais, como a maravilhosa revista da Good-year, falo das newsleters e dos house-organs ) . Ele também mudou isso. Num dos Prêmios Aberje, do qual fui um dos jurados, pude verificar dezenas de exemplos de "filhotes" do projeto gráfico de Fortuna.
Como diretor de arte, Fortuna se considerava, com justa razão, um clássico, que se inspirava nos clássicos. "Minha diagramação é suíça", costumava dizer, definindo-se como adepto da linha reta e do visual enxuto e preciso. "O projeto gráfico do Pasquim deu certo porque eu fazia a diagramação suíça e o Jaguar estragava tudo desenhando o Sig." Citava Gutemberg (o original) e lembrava que as margens dos livros foram feitas para colocar o polegar. Escandalizava-se com a falta de cuidado com que são confeccionados os livros hoje ("não dá para abrir", dizia). No lançamento do seu livro "Acho tudo muito estranho", onde fiz o texto de apresentação, quase ninguém compareceu. No Brasil "democrático", Fortuna amargou seu verdadeiro exílio. Mas nunca deixou de criar. Onde estivesse, ele era o Mestre.


RETORNO – Duas belas notícias. O nascimento do primeiro neto do meu irmão Elo (o rebento é neo-zelandês e chama-se Erik) e do primeiro filho do meu amigo Anderson Petroceli (é uruguaianense e chama-se Leonardo). Evanildo Silveira, do Estadão, gaúcho dos quatro costados, quer marcar um chope pampeiro, junto com o Antônio Gaudério. Vai sair chispa de facão. Cuidado. Vai misturar Uruguaiana, Santiago e, acho eu, Porto Alegre. Uma coisa é certa nessa chopada: ninguém vai moitar.