25 de julho de 2026

VIDA SOCIAL

Nei Duclós Não fomos feitos para durar tanto Batemos o ponto além da validade Última idade, fim da fantasia De que vivíamos na eternidade Sermos datados era só um detalhe Nada a ver com nosso presente Morrer era para quem foi marcado Nosso destino era escapar contentes Hoje o medo morde os calcanhares O que aconteceu? exclamo atônito Um anjo te observa, és uma vaga Na terra lotada de velhos anônimos Mas ainda tenho vida , lenha no paiol Sinto vontades, e uma vida social Que são os exames e consultas de monte Brinco que não tenho os cabelos brancos Nei Duclós Nei Duclós

VOCAÇÃO

Nei Duclós Tudo o que me ocorre Dorme no poema A vocação não morre Na cama me aconselha Não deixo sumir O mote de campanha O pote do arco-iris Tesouro da montanha Canto porque tenho gana De você me ouvir Na região serrana Onde corre o rio Durmo em dia frio Desperto em noite alta Você é quem faz falta

ENCONTRO

Nei Duclós Cada momento é eterno Pulsa através do tempo Na praia foi nosso encontro Que brotou em três rebentos Num século foram crianças No outro jovens insones Todos com o dom do verbo Linhagem que vem de longe Foi o mar de areia branca Que forjou a vida errante Contamos com pura sorte Nas peripécias do ramo Nei Duclós

ARTESANATO

Nei Duclós Poucas palavras uso em meu verso São como peças de artesanato Trago para perto, ponho no alto Para que eu possa ficar desperto Parecem lâmpadas de outra época Ou miniaturas de navio em garrafa Representam deuses de argila rara Ou joias de pedras que dão em riacho Brilham sem demonstrar soberba É algo mais fosco , bibelô de feira Mas é só um disfarce de notório poder Esses objetos sujeitos a poeira Fica assim o poema sem querer ser coisa Criatura pequena em situação de lua Encanta por estar sempre presente Num canto qualquer onde o coração pula Nei Duclós

OS LIVROS

Nei Duclós Um dia os livros voltarão à tona Como zonas ancestrais de tempos submersos Boiarão nas praias de leitura ágrafa Incomodando os banhistas do mundo mala Só os pescadores saberão do que se trata São medalhas de lata, dirao certeiros De sereias cegas que fizeram a guerra Não servem como peixe essas misérias Nei Duclós

23 de julho de 2026

COMANDO

Nei Duclós Quando perguntam qual é meu comando Respondo que não é de poder, não é de mando É de cantil e não de fogo É mais do coração do que do gatilho É da comunhão e nâo da ferida Também não é morno nem tampouco brando Tenho mão pesada sobre meu canto Meu front é feito de tiros precisos Barro de batalha e amor coletivo Sigo as ordens que nos mantem vivos Perfil de orações e sonhos mendigos Um braço que luta um olhar que perdoa Beijo na boca as promessas do Espírito Nei Duclós

COLHEITA

Nei Duclós Treino a memória Lembro onde deixei os óculos Monitoro as chaves Não esqueço o fim da validade dos produtos do armário Mas nesse exercicio diário encontro porções do passado Pequenas histórias Viagens no lixo Amores datados Coleções de palavras Loucos momentos Ofícios do vento Em cantos guardados Poesia e prosa A vida não passa dessa maravilhosa perda de Tempo Colhemos de graça O que nunca plantamos Nei Duclós

19 de julho de 2026

DESTINO

Nei Duclós Meu coração dá bandeira Contra a dor obsoleta Azul e branco do mar Verde e amarelo da terra Nasci vasto continente Para o mundo prego peças Metade de mim sou a selva Pampa pantanal e serra Todos me invadem, pudera Tenho ouro corpo e árvores Confundem com patriotada Mas é destino sincero Meu coração dá bandeira Agitada nos estádios Marcho com passo de fera Vivo do que me condenam Nei Duclós

DESPERTAR

Nei Duclós Acordam tarde os passarinhos No frio da manhã escura Para alimentar os meninos Precisa esquentar as plumas Eu cá não durmo direito No plantão a revelia Só com o sol adormeço Entre cobertas de espuma Depois, na hora do almoço Num cardápio de improviso Eles se chegam travessos Querendo um pouco de alpiste Mas sou turrão e expulso Visitantes da preguiça Não querem enfrentar trabalho No expediente por conida Eles se viram os meliantes Em algazarras de bicos Encontram frutas perdidas Enchem o papo de gramíneas Dormem cedo porque é tempo De descansar do esforço Eu cá desperto exausto Na solidão do meu ninho Nei Duclós

PROFECIA

Nei Duclós Escrevo para o povo cantar No dia em que assim decidir A palavra toma o seu lugar Quando o tempo parar de mentir As nações precisam sonhar Antes que cheguem ao limite Só existe um caminho, lutar Corpo pronto para a profecia Pois antes do mundo existir Desenhou-se o perfil do conflito Dele não há o que fugiir Vocação de humano destino Sou a voz dessa hora escura Servirá de poder e aviso Não é feita de pólvora ou chumbo É apenas o que já foi escrito Nei Duclós

12 de julho de 2026

ENCARTE

Nei Penso, logo existes Esqueço, que sou triste Fantasio, assim sorrio Espero, árduo caminho Aguardo, no tempo livre Chegas, sem nenhum convite Nei Duclós

LETRA E MELODIA

Nei Duclós Agora que estás no auge da beleza Que foi desenhada por um Deus ourives Decides escolher a ruptura Por não haver escolha do caminho E que provou do mal mais escondido Situado ao lado, longe do inimigo Anuncias que voltarás ao antigo aprisco Mas ninguém que já provou da aventura De ser seguida por multidões em um só grito Se conforma em assumir o tempo ido Neste cruzamento do destino Esplendes a luz contra a calúnia Pois de treva todos estão servidos És de uma canção letra e melodia Perfil de um amor que está no início Nei Duclós

11 de julho de 2026

BIKE

Nei Duclós Amor quando se quebra Faz barulho de bicicleta velha Que se estraga na estrada Rompe a correia Perde os pedais E as rodas afundam no barro da véspera Da chuva torrencial que veio da serra Os pneus murchos raspam as pedras Enquanto os carros passam Desviando rápidos do que sobrou Nossas lágrimas, pobre choro Pois estamos a pé E o dia ficará escuro Nei Duclós