31 de agosto de 2026

Compromisso

Compromisso Foi por compromisso Que fiquei escuro Achei que era de lei Caminhar duro Esquecido que o sol Nasce atrás do morro E banha o pampa Ou deita no rio Pintor de nuvens Longe da infância doce E do moço aventureiro A vida nos ensina Da pior maneira Por isso volto à poesia Clara como flor sem dono Nasci para ser novo Sendo antigo Nei Duclós

27 de agosto de 2026

DESEJO

Nei Duclós Para que serve o desejo? Mascarar corpos de gelo Driblar a verdade plena Viajar em ventos de gênero Impedir o desespero Da carne em clima de medo Passar pano em sofrimento Abrir o que fecha cedo Para isso serve o desejo Lustrar piso e parede Cultivar prazer na rede Brincar de fazer poema Nei Duclós

26 de agosto de 2026

TERMINAL

Nei Duclós Viver é morar no banheiro É o dinheiro que falta A doença que permanece É perder os parentes É dar adeus aos empregos É ser alvo de pena É chorar de medo É descobrir que o passado É presente E o futuro é o tempo perdido Junto com os dentes

TEMPORAL

Nei Duclós Tudo faz parte do passado Tua mente inquieta Teu corpo exausto Nada tenho no presente Rotina bruta Imposto caro Sempre jogo no futuro Vida sem fundo Virtual amarra Nei Duclós

A FUGA DO MAR

Nei Duclós O mar voltou para o mar Saudoso do próprio sal Levou junto meu olhar Das praias imemoriais Deixou apenas deserto Sem ninguém morando perto Navios que não chegam mais Ventos com falta de ar Rios desviam o caminho Buscam um outro lugar Gaivotas pousam no mato Não há convivio no cais Só quando o mar voltar Com o luar na garupa Vou pedir que permaneça Esqueça todas as fugas Nei Duclós

REGISTROS

Nei Duclós Escrevo escondido para ninguém saber o que eu digo. Minha literatura sofre de insônia . Durmo na poesia. Publiquei quando decretaram a morte dos livros. Viver é uma atividade irreconhecível. Lembro só o que não repito. Cobro de mim as dívidas que ainda não contraí. Perdi o momento certo porque não era divertido. Aprendi quando deixei a lição de lado. Caminho em oposição à ventania. Exagerei na loucura ao fingir que estava vivo. Confesso que voltei quando deveria ir. A palavra é o principal disfarce. Nei Duclós

LIVRE

Nei Duclós Meu escudo é o livre arbítrio Contra o jogo sujo Do extremismo Faço o que me dá na telha De divina argila Resguardo em dia de chuva Vontade que vive sem vícios Solidão cercada por mãos Do Espírito Vou por aqui quando me ensino A ser o que não decidem Conte comigo Sou antigo morador Do infinito Nei Duclós

CONTAINER

Nei Duclós Cada vez mais me vejo como um corpo estranho Enquanto o mundo segue sem meu tamanho Abandonado como um container De uma estrada no subúrbio Os carros passam elétricos sem motorista Sou uma ausência de algoritmo O que digo ninguém digita Não respondo quem me pesquisa Criatura feita de ferro vencido Fico junto às plantas ralas Roçado sem nenhum fruto Alvo de tornados e granizo O destino é enferrujar as juntas Que ringem nas salas de espera Para mais um exame de vista Não me enxergo no espelho do teto Pertenço a outro universo O que estava aqui e mudou de rumo Permaneço como teimosa fera Existo porque sou do ramo Nei Duclós