O rodízio bem remunerado de algumas cabeças coroadas do jornalismo coincide com a crise cíclica nos veículos de comunicação. Parece que fechar redações é a especialidade de alguns profissionais que cometem sempre os mesmos erros, levam de um lado para outro as mesmas pessoas e acabam sendo os cortadores oficiais de empregos. Qual será o segredo de sempre serem chamados para assumir cargos importantes, já que costumam fracassar?
INVENTAR O EMPREGO – Um cargo de alto nível é acertado em território neutro, um restaurante de luxo, um escritório no milésimo andar. A argumentação convincente numa mesa de negociações normalmente nada tem a ver com a realidade de uma redação. Diz-se o que se quer ouvir, acertam-se valores, firmam-se pactos. A identificação mútua vem do chamado capital simbólico, acervo acumulado numa imagem pública que nem sempre tem a ver com sucesso, mas com credibilidade. É preferível, segundo esse raciocínio, alguém que já esteve em algum cargo importante do que arriscar em outro sem essa experiência. Para que mudar? Existe muito dinheiro em jogo e também leva-se em conta a repercussão de uma indicação. Sofre-se antecipadamente com a possibilidade de o indicado ser alguém sob algum tipo de suspeita, como “revoltado”, ou o mortal “muito competente, mas...” Há também o link com a publicidade: um nome de peso pode transmitir sossego no mercado, ajuda a manter a carteira de clientes. Isso tudo acaba em tragédia. O que está em jogo é a responsabilidade dos jornalistas num projeto comercial. Se existem pessoas do ramo consideradas confiáveis, então elas são ungidas nas suas novas atribuições. Se não existem, então coloca-se alguém da outra área: do marketing ou, o que tem sido comum, do próprio patronato.
O MEDO DA CONCORRÊNCIA - O dinheiro reservado à remuneração dos jornalistas tem trocado de mãos ultimamente, pois as empresas de comunicação meteram-se em negócios gigantescos, fora do seu nicho, atraídos pela ambição de grandes ganhos e iludidos pelo horror natural que no Brasil se tem à concorrência. Todos correram para amealhar mais poder e acabaram transformando seus calcanhares em areia e seus pés em barro. Os veículos que os projetaram entraram numa espiral de decadência e alguns sofrem intervenções do capital financeiro. A solução é trazida também de fora das redações, intensificando os erros. As consultorias, que muitas vezes são remuneradas pelo número de cabeças que cortam, colocam suas grandes patas de urso nas redações demitindo gente qualificada e cortando a relação produtiva que deve existir entre veteranos e estreantes (que é garantia de transmissão de competência de uma geração para outra). Dá-se poder aos menos capacitados porque são mais baratos e mais dóceis. Resultado: ficam na rua quadros magníficos, que fariam inveja em qualquer redação do mundo, enquanto os veículos, que enriquecem profissionais de outras áreas, continuam em crise. Esse tema está sendo destacado hoje no Comunique-se, que veicula matéria sobre o Seminário Internacional de Jornalismo. O destaque é um consultor português que não aconselha o corte nas redações. Parece que estão acordando. Será que vão seguir o conselho?
CORTE DE LUCROS - A crise do jornalismo vem da falta da qualidade. Não dá vontade de comprar jornal ou revista na banca, a não ser por hábito (mas aí a pessoa assina). Os jornalões são iguais e as revistas, em sua maioria, péssimas nas suas superficialidades. Isso abre espaço para experiências alternativas. Proliferam atualmente inúmeros veículos, de toda parte do Brasil, e essa é uma tendência saudável, mas muito fragmentada. É preciso reunir um monte dessas publicações para compor um pacote razoável de leitura. Nesse nicho também não foi encontrada uma solução, pois volta e meia alguma revista fecha ou fica confinada a um alcance regional. O problema é que existe muita experiência e talento dando sopa na praça, dispersos em trabalhos free-lances, desconcentrados e muitas vezes amargurados. Enquanto isso, triunfa a barbárie das demissões em massa, da mesmice das reportagens e colunas, dos erros repetidos até a exaustão. A solução é chamar os competentes de volta, resgatar a escola informal das redações – que sempre foram capacitadas para treinar seus quadros – criar novos projetos fora da idolatria publicitária dos segmentos, das linguagens “jovens”, e das abordagens “você-é-tão-sacana-que-merece-o-veículo-que-está-lendo”. Deve-se atrair leitores com textos e fotos de primeira linha, fazer parcerias com os veículos alternativos e jogar na lavoura o grupinho de jornalistas que fecham ou desestruturam jornais e revistas. Não se pode mais continuar punindo quem consegue gerar empregos nas redações (por serem autores de projetos bem sucedidos) e premiando aqueles que só sabem fazer cortes, inclusive dos lucros. O problema é que acertar o veio não é levado em consideração: o importante é o que se fala no restaurante de luxo ou na reunião do milésimo andar. Aí mora o perigo.
RETORNO – A estudante de jornalismo da UFRJ, Larissa Grutes, escreve me corrigindo: nos correspondemos via e-mail desde quando ela tinha 15 anos e não 17. Diz Larissa: “Acho fundamental ter um espaço que esclareça os que estão pensando em ser jornalistas, os que já estão na faculdade, os que já o são e os simpatizantes da profissão. Achei interessante que no Diário você discute temas variados e complexos, mas de uma maneira muito clara e simples, coisa de quem domina a escrita.”
Blog de Nei Duclós. Jornalismo. Poesia. Literatura. Televisão. Cinema. Crítica. Livros. Cultura. Política. Esportes. História.
26 de setembro de 2003
25 de setembro de 2003
O CONSELHO EDITORIAL
Há dois tipos de conselheiros. Os que usam o cargo para prestígio pessoal e pouco contribuem para a redação, limitando-se a defender seus interesses e a destacar os amigos, e o verdadeiro conselheiro, aquela pessoa que não está confinada no jornalismo e pode salvar as reportagens da mesmice com seu conhecimento de assuntos e fontes.
CLOSE-UP E PLANO GERAL – Um telespectador ou alguém em frente ao computador costuma estar bem mais informado do que um repórter atazanado sobre matérias intermináveis. O zap ou o mouse são instrumentos do tempo disponível de um consumidor, muito maior do que o expediente de quem produz. Não basta cultivar as fontes, ter experiência no assunto tratado, traquejo na redação diária. É preciso que alguém contribua para a matéria sem que se envolva nela. Para isso, esse alguém, o conselheiro, possui a chave de muitos enigmas, as pessoas certas na vanguarda dos fatos, abrindo as portas para o insumo mais importante, que é o ineditismo da abordagem, o aprofundamento de detalhes fundamentais, o esclarecimento de pontos obscuros. Um conselheiro é o que o nome diz e não um editor ranzinza a cobrar posturas e prazos. É a pessoa indicada inclusive para ser acordada alto da noite, quando tudo parece perdido. Pode ajudar na análise do que está sendo tratado, fazer um balanço do que o repórter conseguiu, apontar caminhos para o editor convocar mais gente e ampliar o trabalho. O conselheiro é, a meu ver, a principal fonte, pois sabe aproximar-se de um fato o suficiente para aprofundá-lo, ou então vê-lo em perspectiva, para que repórter e leitor relativizem as conclusões e assim se aproximem mais do que podemos entender como verdade.
PÓLVORA - A informação urgente, apressada, que chega na frente, não é o insumo mais importante do jornalista, já que informação hoje sobra e nem sempre ela flui do trabalho da comunicação, mas das próprias fontes, que colocam no ar o que sabem, sem precisar de intermediários. Acabou a profissão de jornalista como entendíamos em séculos passados – e que alguns apresentadores insistem em manter, anunciando que o repórter vai “trazer a informação para você”, como se estivesse fazendo um grande favor ou revelando a inédita existência da pólvora. O insumo principal é o que jornalista pode entender sobre o que está veiculando, é a percepção dele que vale, o que cria (em termos de linguagem eficiente, e não de ficção) para esclarecer os fatos. A fidelidade canina aos fatos é no fundo a fidelidade canina à ética e à coragem pessoal e profissional. São os valores que contam no mar de acontecimentos que nos rodeiam. O paradoxo é ser isento sem deixar de ser engajado. Essa é uma pedreira que pode parecer utópica para quem lida diariamente com os fatos pressionados pela ambição e a brutalidade. Mas esta coluna, como falei ontem, é um exercício de imaginação.
VALE PARA TODOS – Um conselho editorial não pode ser implantado por motivos políticos – para submeter as matérias ao crivo desse fórum – mas práticos. A cravada é, portanto, saber escolher os conselheiros. O cargo dignifica quem é convidado e o escolhido repassa o carisma do seu nome e a força do seu conhecimento ao veículo de comunicação que o convidou. Pode-se argumentar que o Conselho serve para uma revista importante ou um grande jornal, mas não para os pequenos. Aí reside o erro. A diferença entre um veículo importante e um pequeno é, primeiro, a credibilidade, e segundo, o detalhe que diferencia. Na concorrência de hoje, você ganha a parada por um nariz, um pescoço, um tufo de cabelo. Um Conselho Editorial servirá para amparar o pequeno jornal ou revista a virar-se com muito mais desenvoltura, a acertar mais, a destacar-se e a crescer. Mas não deixe esse poder na mão de pessoas incompetentes. Afaste os nocivos, escolha a nata, os nomes acima de todos, os melhores. Não tenha medo: convide o bam-bam-bam. Ele, surpreendentemente, vai gostar. Não aposte por baixo. Nivele por cima. Seja jornalista, seja herói.
RETORNO – Às vezes o espaço para comentários não carrega e não me perguntem por quê, mistérios dos servidores. Mas tenho recebido e-mails. Um da Larissa Grutes, estudante de jornalismo que conheço desde quando ela tinha 17 anos e que me escreveu antes de entrar na faculdade - está hoje na UFRJ. Larissa, que periodicamente me informa sobre seus estudos e trabalhos, é uma das pessoas responsáveis pelo Diário da Fonte, pois para ela comecei a desenvolver por escrito com mais freqüência o que eu só costumava dizer. Do portoalegrense Jorge Freitas, que agora vive no Rio, muitas revelações: “Fiz mestrado em Comunicação com Nilson Lage, na Eco/UFRJ, escrevendo sobre a entrevista; depois dei aulas na graduação, no início dos anos 90 e fui por muitos anos da Gazeta Mercantil, no Rio, onde trabalhei com grandes homens e jornalistas – como Riomar Trindade, Paulo Totti e José Antônio Severo. Quando cheguei no Rio, nos anos 80, trabalhei na falecida Última Hora, com Jeferson Barros, ilustríssima figura.”
24 de setembro de 2003
O PODER DA IMAGINAÇÃO
Os que sonham acordados mudam pelo menos as próprias vidas. Parece sub-literatura de auto-ajuda, mas não é. Projetar na mente a viabilização do seu trabalho no veículo ideal, com as pessoas que você admira, pode concretizar sua vontade quando você menos espera. São necessárias algumas posturas básicas: confiar no próprio taco, acreditar que a oportunidade vai chegar, preparar-se e exercer o otimismo como fonte de mudanças.
ALEGRIA – Quem me deu a pauta da coluna de hoje foi o responsável pelo excelente http://www.circodoabsurdo.blogger.com.br/ e que se assina Palhaço. Com o seu comentário sobre a fé que tem no jornalismo brasileiro, notei que, ao fazer um diagnóstico sobre o trabalho autoral na imprensa, minhas críticas pesavam mais do que meu otimismo, que nunca foi pequeno. O comentário despertou boas lembranças. Vindo do interior, tendo como formação apenas o ginásio e o colegial (o que não era pouco em relação o que existe hoje na educação), sem nada a não ser duas mãos e o sentimento do mundo, fora da faculdade devido à bruta intervenção do AI-5 no movimento estudantil, aportei em São Paulo e imediatamente quis trabalhar na Ilustrada de Tarso de Castro. Em poucas semanas eu estava assinando matéria de capa do suplemento. Além do empurrão providencial do Jorge Escosteguy, foi a decisão de vir para cá, de conectar-me com o que havia de mais criativo e importante na imprensa e sonhar com os textos que eu publicaria, é que um belo dia me vi cara a cara com este que é um dos jornalistas que mudaram a imprensa e revolucionaram não só os veículos, mas o comportamento geral no Brasil. Trabalhar com Tarso foi uma experiência única, em plena ditadura, quando todos os sonhos estavam proibidos. O mesmo aconteceu quando fiquei impactado pela capa da Istoé onde aparecia a manchete “Lula e os trabalhadores do Brasil”. Sonhar com a redação de Mino Carta foi o caminho mais curto para eu chegar lá, onde aportei pelas mãos do Wagner Carelli.
ESPELHO – Quem realiza um sonho, dá a mão para outros sonhadores. Quem se frustra, faz tudo para que os demais não consigam cumprir seus destinos. Um dos maiores obstáculos para conseguir o que você quer é entregar-se à imobilidade da falsa seriedade. Meu amigo Eduardo San Martin (de tanto citá-lo, quem sabe ele responde meus e-mails) costuma dizer que uma pessoa que, ao acordar de manhã, não ri da própria cara quando se olha no espelho, não é sério. O Hélcio Toth, que era fotógrafo e agora é artista de primeira (falta só uma exposição de arromba e uma crítica do Jacob Klintowitz) colocou num desses dias no seu obrigatório http://www.espinha.blogger.com.br/ um texto sobre os horrores do mau humor. Depois tirou, talvez por achar demasiado sério para seu espaço super-para-cima. Só para lembrar o seguinte: toda vez que vi um trabalho importante na imprensa, o ambiente era o mais alegre possível. Haviam os ruídos, as brigas, claro, mas no geral era uma gargalhada só. E não era suficiente: depois do expediente, tinha sempre a confraternização. “Parar de tremer” ou “afinar as veias” eram palavras de ordem minutos após o fechamento. Significa que um ambiente saudável só pode ser acessado se houver otimismo e bom humor, senão você não conecta. Não vá atrapalhar as pessoas com sua admiração séria, mas também não vá rir por qualquer coisa. Bom humor significa inteligência. Para seres datados como nós, é sempre a melhor solução.
EQUIPE VIRTUAL – Sem eles pedirem, prometi ao Hélcio e ao Marcelo Min (autor do magnífico http://www.fotogarrafa.blogger.com.br/) que montaria uma equipe virtual para o Diário da Fonte, um veículo imaginário que trabalha com a inclusão. Vou montar ao longo das colunas, à revelia ou não dos escolhidos. Sou suspeito, pois tenho um projeto que está pronto, com uma equipe montada, e não consigo deslanchar o patrocínio, mas como sou assim mesmo, aos turnos, confio na fé que nos une. Para começar, um departamento fotográfico que não tenha o Marcelo, o Hélcio e meu amigo uruguaianense Anderson Petroceli não pode ser digno desse nome. Nele, incluo o premiadíssimo Antônio Gaudério, que se bem me lembro, é de Santiago de Boqueirão. Como patrono, o sumido e imprescindível Leonid Strelaiev, o famigerado (de famoso) Uda, fotógrafo maior. E se houver bom comportamento, colocaria também o Tomás May. Outros nomes virão. Aceito sugestões. Na redação, por enquanto monto uma parte do Conselho Editorial: os jornalistas e escritores Wagner Carelli e Moacir Japiassu, e os jornalistas e professores Francisco Karam e Zélia Leal Adghirni. A reportagem é gigantesca e deixo para uma das próximas edições. A mim, me reservo o papel de animador cultural. Estão todos admitidos.
RETORNO – Recebo um aceno do jornalista Jorge Freitas, que lembra de mim nos anos 70 em Porto Alegre. Naquela época, trabalhei na Folha da Manhã, da Caldas Junior, que exibia em seus quadros jornalistas como José Onofre (o texto dos textos), Luis Fernando Veríssimo, Carlos Urbim, Caco Barcelos, José Antonio Simch da Silva, entre tantos outros, ótimos, como Dorival Pacheco, que era meu colega no copy-desk e foi-se prematuramente, com seu grande sorriso e seu abraço largo.
23 de setembro de 2003
TODAS AS CENSURAS
É hipocrisia falar em “volta da censura”. A censura está mais ativa como nunca, embutida no jornalismo, como se fosse uma instituição, ou pelo menos, uma situação de fato. Há vários tipos. Todos depõem contra a prática da profissão que precisa de liberdade para sobreviver.
DITADURA CIVIL – Nos tempos do AI-5, a censura era feita não apenas da forma como ficou conhecida. O censor dentro da redação, a substituição de informação por receita de bolo e outros eventos fartamente noticiados, eram apenas a parte “nobre”, vamos dizer assim, do assunto. O importante é saber que a censura funcionava como sempre funcionou a escravidão: disseminada em todos os estamentos sociais, no caso da redação, em todos os níveis. Havia a consciência de que você não podia criticar o governo, mas isso era só a casquinha do problema. Você não podia, por exemplo, noticiar determinado acidente, que envolveu o filho de figura pública conhecida. E quem avisava a redação, diretamente para o editor (nem passava, às vezes, pelo diretor de redação) era alguma “otoridade” de plantão. Havia portanto a massificação da censura, que somava a auto-censura e a proibição pontual de todo tipo de evento considerado prejudicial, a nível local, regional ou federal. Como nossa abertura democrática foi um arranjo de poderes, essa prática, instalada na comunicação manteve-se, mas sob outras formas.
É BEM ASSIM - Hoje é comum o fato de algumas pessoas colocarem um “não” à frente do que realmente querem dizer, pretensamente para não dar bandeira da abobrinha ou barbaridade proferida. A pré-emenda fica pior do que o sub-soneto. Já vi na TV alguém dizendo: “Não é que a gente fique desconfiado, mas a gente fica com o pé atrás”. A mania também serve para contrariar os outros. Se você diz algo que realmente conhece ou acredita, sempre tem alguém sacudindo o dedinho dizendo que não é bem assim. Pois é bem assim. A censura do chamado Estado de Direito (onde o crime organizado está mais forte e atuante do que nunca) é muito mais sutil e poderosa, pois quem manda na redação apropriou-se do discurso democrático. Como sou mais antigo do que andar a pé, noto que são sempre os mesmos que mandam, só que com rótulos diferentes. Se vem a reengenharia, são os primeiros reengenheiros; se vem a qualidade total, eles são os mais cheios de qualidade do que todos; se vem o atendimento preferencial ao cliente, eles é que atendem o cliente como ninguém. A farda muda, mas a essência é a mesma. Com a democracia, são os mais democratas, os mais cheios de “passados de luta”. Acrescento: os mais eficientes censores. Nos anos 70, eu costumava brincar que você podia falar mal do presidente Figueiredo, mas jamais do Henfil. Já se manifestava, naquela época de anistia, o perfil da censura que estava se instalando. Nota: nada contra o Henfil, só implicava com o fetiche ao redor dele.
TALENTO, FORA! – Vamos elencar algumas práticas de censura: o colunista que mostra a lista dos bacanas envolvidos no grande crime de colarinho branco, mas não diz nenhum nome; o repórter à frente de uma fábrica e que não identifica a empresa, a não ser que seja noticiário policial; ignorar alguma posição correta de um governo mal visto pela direção; impedir que o repórter ou editor dê voz a pessoas importantes, mas desconhecidas da mídia (a falsa lei da agenda rotativa, sempre com os mesmos nomes falando das mesmas coisas); a divulgação de dossiês armados contra inimigos dos autores do dossiê, sem que a reportagem seja transparente o suficiente para mostrar as implicações da sua fonte; a negociação das denúncias; o poder da mediocridade sobre o talento; o mau uso dos manuais. Os manuais podem ser úteis se não se transformarem no Manual do Escoteiro Mirim, aquele dos sobrinhos do Pato Donald que regulava tudo e informava sobre qualquer coisa. Manual pode ser um parâmetro, especialmente nas pedreiras gramaticais ou nos procedimentos éticos do jornalismo, mas não pode regulamentar aberturas de texto, títulos ou tipos de reportagens. Só posso atribuir a mesmice dos textos da imprensa à imposição dos manuais. Ou à soma de todas as censuras. Mas o realmente trágico é que a liberdade de expressão é apropriada pelos mais desqualificados sujeitos, muitos deles fora do jornalismo, que "testam" (ou seja, desmoralizam) a democracia. Esses tipos lutam pela volta da censura explícita e total, esticando a corda até rebentar, impedindo, com sua nociva influência, que a liberdade tenha chances de se manifestar.
RETORNO – Transcrevo a parte de um poema meu sobre o fim do inverno: “Hoje começa a primavera, com o azul que eu perdera e o som de despertar a terra. “
DITADURA CIVIL – Nos tempos do AI-5, a censura era feita não apenas da forma como ficou conhecida. O censor dentro da redação, a substituição de informação por receita de bolo e outros eventos fartamente noticiados, eram apenas a parte “nobre”, vamos dizer assim, do assunto. O importante é saber que a censura funcionava como sempre funcionou a escravidão: disseminada em todos os estamentos sociais, no caso da redação, em todos os níveis. Havia a consciência de que você não podia criticar o governo, mas isso era só a casquinha do problema. Você não podia, por exemplo, noticiar determinado acidente, que envolveu o filho de figura pública conhecida. E quem avisava a redação, diretamente para o editor (nem passava, às vezes, pelo diretor de redação) era alguma “otoridade” de plantão. Havia portanto a massificação da censura, que somava a auto-censura e a proibição pontual de todo tipo de evento considerado prejudicial, a nível local, regional ou federal. Como nossa abertura democrática foi um arranjo de poderes, essa prática, instalada na comunicação manteve-se, mas sob outras formas.
É BEM ASSIM - Hoje é comum o fato de algumas pessoas colocarem um “não” à frente do que realmente querem dizer, pretensamente para não dar bandeira da abobrinha ou barbaridade proferida. A pré-emenda fica pior do que o sub-soneto. Já vi na TV alguém dizendo: “Não é que a gente fique desconfiado, mas a gente fica com o pé atrás”. A mania também serve para contrariar os outros. Se você diz algo que realmente conhece ou acredita, sempre tem alguém sacudindo o dedinho dizendo que não é bem assim. Pois é bem assim. A censura do chamado Estado de Direito (onde o crime organizado está mais forte e atuante do que nunca) é muito mais sutil e poderosa, pois quem manda na redação apropriou-se do discurso democrático. Como sou mais antigo do que andar a pé, noto que são sempre os mesmos que mandam, só que com rótulos diferentes. Se vem a reengenharia, são os primeiros reengenheiros; se vem a qualidade total, eles são os mais cheios de qualidade do que todos; se vem o atendimento preferencial ao cliente, eles é que atendem o cliente como ninguém. A farda muda, mas a essência é a mesma. Com a democracia, são os mais democratas, os mais cheios de “passados de luta”. Acrescento: os mais eficientes censores. Nos anos 70, eu costumava brincar que você podia falar mal do presidente Figueiredo, mas jamais do Henfil. Já se manifestava, naquela época de anistia, o perfil da censura que estava se instalando. Nota: nada contra o Henfil, só implicava com o fetiche ao redor dele.
TALENTO, FORA! – Vamos elencar algumas práticas de censura: o colunista que mostra a lista dos bacanas envolvidos no grande crime de colarinho branco, mas não diz nenhum nome; o repórter à frente de uma fábrica e que não identifica a empresa, a não ser que seja noticiário policial; ignorar alguma posição correta de um governo mal visto pela direção; impedir que o repórter ou editor dê voz a pessoas importantes, mas desconhecidas da mídia (a falsa lei da agenda rotativa, sempre com os mesmos nomes falando das mesmas coisas); a divulgação de dossiês armados contra inimigos dos autores do dossiê, sem que a reportagem seja transparente o suficiente para mostrar as implicações da sua fonte; a negociação das denúncias; o poder da mediocridade sobre o talento; o mau uso dos manuais. Os manuais podem ser úteis se não se transformarem no Manual do Escoteiro Mirim, aquele dos sobrinhos do Pato Donald que regulava tudo e informava sobre qualquer coisa. Manual pode ser um parâmetro, especialmente nas pedreiras gramaticais ou nos procedimentos éticos do jornalismo, mas não pode regulamentar aberturas de texto, títulos ou tipos de reportagens. Só posso atribuir a mesmice dos textos da imprensa à imposição dos manuais. Ou à soma de todas as censuras. Mas o realmente trágico é que a liberdade de expressão é apropriada pelos mais desqualificados sujeitos, muitos deles fora do jornalismo, que "testam" (ou seja, desmoralizam) a democracia. Esses tipos lutam pela volta da censura explícita e total, esticando a corda até rebentar, impedindo, com sua nociva influência, que a liberdade tenha chances de se manifestar.
RETORNO – Transcrevo a parte de um poema meu sobre o fim do inverno: “Hoje começa a primavera, com o azul que eu perdera e o som de despertar a terra. “
22 de setembro de 2003
A DIGNIDADE DO CRÉDITO
“A César o que é de César” deve ser a lei de uma profissão totalmente exposta ao público. Reconhecer e identificar o trabalho alheio é um exercício de inclusão num país que costuma jogar fora o que produz de melhor. Nas redações, sobram exemplos de apropriação indébita, reproduzindo a estrutura social que determina quem é o maior e quem deve ficar limpando o chão.
GRIFES – Concentração excessiva de crédito em redor de alguns nomes, figuras carimbadas e detentores de vastos espaços na mídia, significa que a personalidade em evidência depende de uma equipe, muitas vezes anônima, para aparecer. Humanamente, ninguém tem condições de levantar uma montanha por dia. Numa importante revista semanal, descobri que existia a figura do “maçaneta”, aquele que trazia informação para alimentar os textos finais dos editores. Eram estagiários ou recém formados. Muitas vezes, o autor do texto final assinava a matéria, punham um asterisco e lá embaixo, uma quantidade enorme de gente citada. Havia, portanto, uma hierarquia do crédito para um trabalho feito em conjunto. Mas esses casos são menos condenáveis do que o plágio puro e simples (facilitado agora pela Internet), ou mesmo a assinatura, na maior cara de pau, de um trabalho feito por outra pessoa. No açodamento informativo de hoje, quando portais e canais de TV com 24 de horas de notícias correm atrás do furo por questão de segundos, o que está em jogo é exatamente isso: o crédito para quem veicula o fato primeiro. Crédito, portanto, vale ouro. A maior armadilha é obrigar alguém a reivindicar crédito. É o caminho mais curto para a vítima da fraude ganhar fama de "reclamão". O que incomoda é que roubo de crédito pode até dar status, dependendo do nível (sempre alto) da disposição de aplaudir os espíritos-de-porco.
O MARKETING DA PRESSA – O grande cronista Lourenço Diaféria, que por muito tempo foi a estrela maior da crônica em São Paulo e que continua exercendo seu talento, um dia nos contou na redação da Ilustrada o caso de alguém que tinha outro emprego, mas a direção do jornal não sabia (já existia, a partir dos anos 70, a preocupação de tornar a profissão mais conseqüente e acabar com a imagem que ela tinha, de “bico”, atividade secundária para reforçar o orçamento doméstico e fazer lobby). Então o personagem dessa história do Diaféria chegava às seis horas da tarde e imediatamente pedia um lanche. Quando o diretor da redação descia do Olimpo para dar uma vistoriada, lá estava o sujeito comendo apressado seu sanduíche empurrado por iogurte. “Como vai, chefe? Hoje nem tive tempo de almoçar!” Descobri também num emprego que as pessoas aceleravam propositadamente o passo (que virava seu andar “natural”) para projetar a imagem de eficiência, trabalho insano e dedicação. São maneiras de receber crédito, nem sempre indevido, pois pode ser que o autor do marketing da pressa seja mesmo dedicado e eficiente, só que não se satisfaz em trabalhar, prefere demonstrar publicamente. Ler os gestos dos colegas é uma maneira de conhecê-los melhor. Peça para seus amigos imitarem seu andar: você vai descobrir o que faz com o corpo para impressionar os outros. Quem por exemplo, depois de alguns anos de profissão, não exibe uma curvatura, leve que seja, nas costas, não merece muito crédito: esse gosta mais de mandar do que pegar no pesado.
ASSINATURA - Assinar as matérias é uma maneira de deixar registrado a sua criação, mas quando alguém é editor ou redator, como provar? Uma das saídas é eventualmente escrever algo assinado, só para manter a escrita, como se diz. Outra é incluir-se numa assinatura coletiva, sem destacar seu nome. Mas normalmente quem trabalha na cozinha fica sendo conhecido apenas no seu meio. Parece que hoje a cozinha está meio em desuso, pois o repórter coleta os dados, escreve o texto final, revisa, às vezes tira até foto, faz o título, a linha fina, as legendas e os olhos. Acabou a figura do copy-desk, o que é uma pena , pois sempre encarei esse ofício como edição de texto. Para mim foi uma escola. Ter ao seu lado numa redação editores de texto (próprio ou alheio) como Ricardo Vespucci (o imbatível Bi), Antenor Nascimento (quando a palavra atinge o topo), Genilson César (perfeição em todos os detalhes), Humberto Werneck (enciclopédia de recursos da linguagem), Wagner Carelli (que faz o País tremer toda vez que escreve), Moacir Japiassu (que me deslumbra com seu romance “Concerto para Paixão e Desatino” e me tira a vontade de terminar o livro para poder continuar vivendo na sua criação), entre muitos outros, que citarei sempre nesta coluna, é mais do que um privilégio, é uma festa do talento, é uma pós-graduação sem burocracia nem pose. São jornalistas que honram a língua portuguesa e, esses sim, merecem ser nomes de escolas de jornalismo.
RETORNO - Leio tardiamente o comentário do Fábio Murakawa, que destaquei na minha edição sobre a grandeza da reportagem. Diz ele que não considera seu trabalho no Agora um primor, com exceção de duas reportagens. Pois para mim bastam. Pode soar exagerado, mas classifiquei como primor porque conheço-o pessoalmente e por escrito e repassei minha admiração para o que ele fez no jornal de onde teve de sair. Fabio fala do editor que disse para ele: "Seu texto é ótimo, muito acima do padrão da redação, mas eu não preciso de um armando antenori aqui. eu preciso de alguém que... que... (disse isso e estralou os dedos)". Já respondi para o Fabio: o editor queria alguém de texto ruim, à altura das pautas pífias que impunha na redação. Continua Fabio: "Os editores pedem a mediocridade porque o jornal não acredita em si próprio, porque a imprensa escrita não acredita no poder do texto. Temo que o problema não seja apenas má-fé, o que é grave, mas corrigível. O problema é ignorância." Fábio é um cara seríissimo e não aceita elogio superficial. Mas o que eu quis dizer é o seguinte: talentos como o dele, raros, precisam de ambiente favorável na mídia para cumprirem seu destino. E que ele faz parte da linhagem dos grandes repórteres, faz. Mesmo que não tenha tido oportunidade de mostrar integralmente a que veio. Minha afirmação baseia-sem em Martin Fierro: "El diablo sabe por diablo, pero más sabe por viejo".
GRIFES – Concentração excessiva de crédito em redor de alguns nomes, figuras carimbadas e detentores de vastos espaços na mídia, significa que a personalidade em evidência depende de uma equipe, muitas vezes anônima, para aparecer. Humanamente, ninguém tem condições de levantar uma montanha por dia. Numa importante revista semanal, descobri que existia a figura do “maçaneta”, aquele que trazia informação para alimentar os textos finais dos editores. Eram estagiários ou recém formados. Muitas vezes, o autor do texto final assinava a matéria, punham um asterisco e lá embaixo, uma quantidade enorme de gente citada. Havia, portanto, uma hierarquia do crédito para um trabalho feito em conjunto. Mas esses casos são menos condenáveis do que o plágio puro e simples (facilitado agora pela Internet), ou mesmo a assinatura, na maior cara de pau, de um trabalho feito por outra pessoa. No açodamento informativo de hoje, quando portais e canais de TV com 24 de horas de notícias correm atrás do furo por questão de segundos, o que está em jogo é exatamente isso: o crédito para quem veicula o fato primeiro. Crédito, portanto, vale ouro. A maior armadilha é obrigar alguém a reivindicar crédito. É o caminho mais curto para a vítima da fraude ganhar fama de "reclamão". O que incomoda é que roubo de crédito pode até dar status, dependendo do nível (sempre alto) da disposição de aplaudir os espíritos-de-porco.
O MARKETING DA PRESSA – O grande cronista Lourenço Diaféria, que por muito tempo foi a estrela maior da crônica em São Paulo e que continua exercendo seu talento, um dia nos contou na redação da Ilustrada o caso de alguém que tinha outro emprego, mas a direção do jornal não sabia (já existia, a partir dos anos 70, a preocupação de tornar a profissão mais conseqüente e acabar com a imagem que ela tinha, de “bico”, atividade secundária para reforçar o orçamento doméstico e fazer lobby). Então o personagem dessa história do Diaféria chegava às seis horas da tarde e imediatamente pedia um lanche. Quando o diretor da redação descia do Olimpo para dar uma vistoriada, lá estava o sujeito comendo apressado seu sanduíche empurrado por iogurte. “Como vai, chefe? Hoje nem tive tempo de almoçar!” Descobri também num emprego que as pessoas aceleravam propositadamente o passo (que virava seu andar “natural”) para projetar a imagem de eficiência, trabalho insano e dedicação. São maneiras de receber crédito, nem sempre indevido, pois pode ser que o autor do marketing da pressa seja mesmo dedicado e eficiente, só que não se satisfaz em trabalhar, prefere demonstrar publicamente. Ler os gestos dos colegas é uma maneira de conhecê-los melhor. Peça para seus amigos imitarem seu andar: você vai descobrir o que faz com o corpo para impressionar os outros. Quem por exemplo, depois de alguns anos de profissão, não exibe uma curvatura, leve que seja, nas costas, não merece muito crédito: esse gosta mais de mandar do que pegar no pesado.
ASSINATURA - Assinar as matérias é uma maneira de deixar registrado a sua criação, mas quando alguém é editor ou redator, como provar? Uma das saídas é eventualmente escrever algo assinado, só para manter a escrita, como se diz. Outra é incluir-se numa assinatura coletiva, sem destacar seu nome. Mas normalmente quem trabalha na cozinha fica sendo conhecido apenas no seu meio. Parece que hoje a cozinha está meio em desuso, pois o repórter coleta os dados, escreve o texto final, revisa, às vezes tira até foto, faz o título, a linha fina, as legendas e os olhos. Acabou a figura do copy-desk, o que é uma pena , pois sempre encarei esse ofício como edição de texto. Para mim foi uma escola. Ter ao seu lado numa redação editores de texto (próprio ou alheio) como Ricardo Vespucci (o imbatível Bi), Antenor Nascimento (quando a palavra atinge o topo), Genilson César (perfeição em todos os detalhes), Humberto Werneck (enciclopédia de recursos da linguagem), Wagner Carelli (que faz o País tremer toda vez que escreve), Moacir Japiassu (que me deslumbra com seu romance “Concerto para Paixão e Desatino” e me tira a vontade de terminar o livro para poder continuar vivendo na sua criação), entre muitos outros, que citarei sempre nesta coluna, é mais do que um privilégio, é uma festa do talento, é uma pós-graduação sem burocracia nem pose. São jornalistas que honram a língua portuguesa e, esses sim, merecem ser nomes de escolas de jornalismo.
RETORNO - Leio tardiamente o comentário do Fábio Murakawa, que destaquei na minha edição sobre a grandeza da reportagem. Diz ele que não considera seu trabalho no Agora um primor, com exceção de duas reportagens. Pois para mim bastam. Pode soar exagerado, mas classifiquei como primor porque conheço-o pessoalmente e por escrito e repassei minha admiração para o que ele fez no jornal de onde teve de sair. Fabio fala do editor que disse para ele: "Seu texto é ótimo, muito acima do padrão da redação, mas eu não preciso de um armando antenori aqui. eu preciso de alguém que... que... (disse isso e estralou os dedos)". Já respondi para o Fabio: o editor queria alguém de texto ruim, à altura das pautas pífias que impunha na redação. Continua Fabio: "Os editores pedem a mediocridade porque o jornal não acredita em si próprio, porque a imprensa escrita não acredita no poder do texto. Temo que o problema não seja apenas má-fé, o que é grave, mas corrigível. O problema é ignorância." Fábio é um cara seríissimo e não aceita elogio superficial. Mas o que eu quis dizer é o seguinte: talentos como o dele, raros, precisam de ambiente favorável na mídia para cumprirem seu destino. E que ele faz parte da linhagem dos grandes repórteres, faz. Mesmo que não tenha tido oportunidade de mostrar integralmente a que veio. Minha afirmação baseia-sem em Martin Fierro: "El diablo sabe por diablo, pero más sabe por viejo".
21 de setembro de 2003
O LUGAR DA PUBLICIDADE
Credibilidade de um veículo não-corporativo é a separação entre jornalismo e publicidade. Nos corporativos, as duas atividades podem ocupar o mesmo espaço, desde que se preserve, no jornalismo empresarial, alguns princípios básicos. O anúncio e o marketing precisam ser aliados, mas não cúmplices nem inimigos das redações.
DOMINGO – Deve-se estranhar uma conversa tão trabalhosa num domingo, mas no momento em que você está impregnado de uma tarefa, não existem limites de tempo. Cada assunto abordado aqui é fruto de reflexão muito antiga, que é dinamizada sempre a partir do dia anterior em que vai ao ar. Comunicação é encarada como vício, mas eu prefiro abordá-la como missão. Nem sempre nascemos para o ofício, somos desviados de nossos sonhos para encarar a dura vida da mídia. Um texto primoroso sobre isso está na Carta Capital deste fim de semana, em que o Mestre aborda a tragédia que levou-lhe um parente muito próximo e querido. Em contraste com a dignidade estampada na melhor revista do Brasil (que tem uma matéria de capa assustadora sobre corrupção), temos em mãos a edição de domingo dos jornalões, em que a Prefeita sorri como noiva, acompanhada ao fundo pelo primeiro casal investido de padrinho. Tratado como coisa normal, o fato merece repúdio não pelo evento em si, mas pelo evidente dinheiro gasto nele, e por expressar, pelo menos para mim, a indiferença do Poder em relação ao País que pretendeu salvar-se pelo voto elegendo os principais participantes da cerimônia.
CONTRABANDO – Na semana passada, em substituição ao dono da Folha de S. Paulo, o editor Fernando Barros e Silva colocou o dedo na ferida comentando as edições de dois veículos que estampavam a intimidade da prefeita e a colocavam como imbatível nas próximas eleições. Um pouco antes, a mesma Folha publicou extensa matéria de Fernando Rodrigues sobre as “reportagens” pagas no Paraná. É um item que faz parte do nosso tema hoje. O Observatórtio da Imprensa insiste que não deve haver matéria paga de jeito nenhum e que não basta identificá-la, visualmente, como não pertencente ao corpo jornalístico. Como militei em todas as áreas da comunicação, considero esse um assunto espinhoso que deixo para os especialistas. Prefiro ater-me ao básico e simples. Você, como editor, diretor de redação (um cargo que, parece, fugiu para sempre da mão dos jornalistas depois da gestão Pimenta Neves, do Estadão) ou repórter, precisa agir estrategicamente para anular os malefícios de uma publicidade mal dirigida, ou simplesmente enganosa. Todo veículo de comunicação faz parte de uma empresa, portanto “jornalista de empresa” aplica-se a qualquer um. Com a diferença de que uma empresa de comunicação deve manter a isenção do que veicula, enquanto um departamento de comunicação ou assessoria precisa veicular corretamente as informações de interesse, sem ferir a verdade ou exagerar favoravelmente os fatos. É uma vida dura, mas ninguém está aqui a passeio .
REALISMO - Mesmo na imprensa dita normal (fui testemunha disso, e olha que eu trabalhei em alguns dos mais importantes veículos de comunicação do País) existem as reportagens de interesse. Existem as listas negras, os destaques obrigatórios, as personagens sobre as quais nunca se deve escrever absolutamente nada em contrário. Qualquer redação está amarrada a um sem número de interesses, que vai desde os anunciantes (os mais poderosos) até as idiossincrasias do dono do veículo ou do editor (muitas vezes mais realista que o rei). O que cabe ao jornalista é reforçar as bases do seu ofício: escutar todos os envolvidos, trabalhar a qualidade do texto, aprimorar a abordagem para evitar conflitos inúteis, impor-se pela respeitabilidade e não curvar-se quando o equívoco é excessivamente explícito. Tenho três carteiras de trabalho (uma totalmente preenchida) devido a esse tipo de comportamento, mas posso dizer que fiquei muitos anos em alguns lugares aprendendo a trabalhar da melhor maneira possível. Mesmo numa revista corporativa, às vezes uma imposição que parece pífia pode render uma bela matéria. O importante é duvidar de suas certezas, abrir-se para a diversidade e não iludir-se nem com a virgindade nem com a hipocrisia. Pois por mais que digam o contrário na faculdade, a realidade das redações é dura, e esse tema é o principal espinho.
20 de setembro de 2003
O PIANO DO FECHAMENTO
Fechamento bem feito é o diferencial entre um veículo de qualidade e um veículo amador. Numa pequena revista ou jornal, você pode ter a melhor matéria do mundo, mas se desconhecer as bases desse ofício, tudo vai parecer de segunda mão. E não se engane: você precisa ser um virtuose desde o momento em que carrega o instrumento para o palco.
NÃO REPITA INFORMAÇÃO – O fechamento, conjunto composto de títulos, linhas finas, olhos, legendas, intertítulos e chamadas, formam um “texto” à parte, que se alimenta da matéria, mas não repete suas frases. É comum na imprensa – hoje mesmo vi um exemplo – de colocar na legenda a mesma informação do título ou da linha fina. Na maioria das vezes o fechamento é a única coisa que o leitor vai prestar atenção, portanto não perca essa chance nem desperdice espaço. Crie cada elemento desse trabalho como se estivesse escrevendo uma reportagem ou burilando um texto final. A reportagem, se for boa, possui inúmeros itens que podem ser destacados. Você pode usar o título como “isca” de leitura para o lead, a linha fina para a legenda, a legenda para o corpo da matéria e assim por diante. São vasos comunicantes que merecem ser tratados com carinho, criatividade e eficiência, e isso dá trabalho. Fechar não significa livrar-se da última etapa da edição. Ao contrário, esse é o momento mais importante, em que as coisas ficam por um fio e tudo pode ir por água abaixo. E não se esqueça que o título da matéria principal devem ser dois: um na capa e outro no miolo do jornal ou revista. Não coloque o mesmo título dentro e fora. Crie. Uma vez fiquei uma madrugada inteira para conseguir um só título. E dois expedientes comerciais para achar uma abertura de texto.
LEGENDAS – A legenda tem suas manhas. Se a foto tiver dois personagens, o que está à esquerda é citado primeiro, e não o contrário. Uma foto não pode estar fora da página em que está o personagem citado: a legenda refere-se a algo no corpo da matéria que está ali naquele espaço que o leitor está vendo. Costuma-se colocar o nome do personagem acompanhado de dois pontos, seguindo-se uma frase entre aspas ou algo que se reporte ao que ele é ou disse. Esse é um esquema bem batido, que merece ser mexido um pouco. É tão lugar comum que se coloca dois pontos quando nem é necessário. “Fulano fez vestibular”, por exemplo, às vezes aparece como “Fulano: fez vestibular”, o que é um erro. Legenda serve para identificar a foto – e é por isso que eu digo para os fotógrafos que eles não vendem fotos, vendem imagens identificadas. Nenhuma foto portanto pode vir desacompanhada de legenda, a não ser que seja um ensaio e o personagem seja um só e estiver destacado no título ou nos outros elementos que apresentam a matéria. Minha melhor legenda foi a da vinda de Frank Sinatra pela primeira vez ao Brasil. Foi na IstoÉ. O empresário que conseguiu trazer a Voz fez tanto estardalhaço que não resisti: “O famoso Roberto Medina e seu contratado. Sinatra é o da direita”.
ARTE - Como sou do tempo do past-up, e o fechamento era feito na velha Olivetti, adquiri arduamente, junto a toda a minha geração, o traquejo do fechamento. Quando veio o computador, tornou-se uma brincadeira. Mas nos velhos tempos, quando tudo era feito na base do estilete e da cola, o corte precisava ser de maneira tal que não obrigasse a arte a enviar de novo a matéria para a composição. Conseguia desempenhar-me da tarefa razoavelmente e por isso eu era aclamado quando chegava no departamento de arte da revista Senhor, dos anos 80: Thaís Rebello e João Carlos Alvarenga, os premiados Thaís e Joca, mentiam me chamando de gênio, só porque eu economizava tempo e assim permitia que eles fossem para casa mais cedo. Trabalhei com grandes editores de arte, como Reginaldo Fortuna – que enxergava o desvio de um milímetro num fio – e Luiz Carlos Moraes, que estava na equipe original de IstoÉ Gente (da qual não participei) e hoje está na Fiesp. Moraes sabe como ninguém criar um projeto visual perfeito sem fazer nenhuma pose. Trabalhar com Moraes é um privilégio para poucos fechadores.
Perfil – Múcio Borges da Fonseca
O BRASILEIRO VINDO DE LONGE - O perfil deste sábado é sobre um jornalista maravilhoso que ocupa um lugar de destaque na história da imprensa brasileira, apesar de ser pouco conhecido atualmente. Ele me escancarou as portas da Editora Três e tinha qualidades humanas e profissionais admiráveis. É uma das pessoas que me provocam saudade quando lembro as longas décadas que passei nas redações.
Conheci Múcio já safenado, caminhando muito para evitar novos transtornos do coração. Batia as palmas das mãos soprando entre elas:
- Vamos fechar, vamos fechar.
Tinha trabalhado na Última Hora do Recife e seu ídolo era Josimar Melo, tema de seu livro “Em suas veias corria tinta de jornal”. Múcio era de Bom Jardim, Pernambuco e me deu apoio quando eu mais precisava. Levou-me para o Rodeio para comemorar minha volta a São Paulo em 1981 e combinar minha contratação para a Senhor quinzenal. Lá encontrei Tarso de Castro, que estava inconformado por terem fechado sua revista Careta, outra obra feita a quatro mãos com Fortuna.
Múcio tocou a Senhor quando esta não tinha nenhum prestígio. Era o início de um veículo com o mesmo nome da revista lendária dos anos 50 e que, mais tarde, nas mãos de Mino Carta, transformou-se no mais importante veículo dos anos 80. Trabalhei com ele também como editor de texto da Brasil 21, belo projeto enterrado antes do tempo.
Quando recebeu a carta da diretoria anunciando que a revista tinha sido fechada no terceiro número, proferiu uma das frases mais humanas que conheço:
- Fracassamos miseravelmente, disse ele e o olho bom de Bom Jardim ficou cheio de água.
Como continuei trabalhando na Três, fiquei sabendo que a revista recebia cartas um ano depois de ter sido fechada. Brasil 21 é a revista que deveria voltar.
Múcio era humano demais para um ambiente excessivamente cruel. Tinha dúvidas sobre tudo e nisso nos aproximávamos. Um dia, indiquei meu amigo Eduardo San Martin ( poeta, jornalista e autor de livros memoráveis sobre pirataria, atualmente morando em Nova York), para trabalhar com ele. Durante anos, ele dizia:
- Muito boa sua indicação.
Foi o acaso que me aproximou de Múcio e de Nestor Fedrizzi, duas pessoas chave da Última Hora, jornal que fez história e foi destruído pela ditadura. Fedrizzi (que implantou o Jornal de Santa Catarina, em Blumenau) fez a Ultima Hora de Porto Alegre, onde também trabalhou Tarso de Castro. Múcio militou anos no jornalismo e foi um dos donos da Unipress, que ajudou a implantar qualidade nos veículos empresariais brasileiros.
RETORNO – Voltou o sol e decidi retomar as caminhadas, interrompidas durante a devastadora friaca das últimas semanas. Chegou a hora de os paulistas dizerem duas coisas. Primeiro, convencer-se que “São Paulo nunca faz frio”. E segundo, que eu não deveria reclamar tanto do frio pois, sendo gaúcho, deveria estar “acostumado”. É perda de tempo lembrar aos engraçadinhos que a temperatura do corpo humano é de 36 graus e que até esquimó usa pele de urso para enfrentar a neve, pois nada “acostuma” nossa natureza ao clima polar.
NÃO REPITA INFORMAÇÃO – O fechamento, conjunto composto de títulos, linhas finas, olhos, legendas, intertítulos e chamadas, formam um “texto” à parte, que se alimenta da matéria, mas não repete suas frases. É comum na imprensa – hoje mesmo vi um exemplo – de colocar na legenda a mesma informação do título ou da linha fina. Na maioria das vezes o fechamento é a única coisa que o leitor vai prestar atenção, portanto não perca essa chance nem desperdice espaço. Crie cada elemento desse trabalho como se estivesse escrevendo uma reportagem ou burilando um texto final. A reportagem, se for boa, possui inúmeros itens que podem ser destacados. Você pode usar o título como “isca” de leitura para o lead, a linha fina para a legenda, a legenda para o corpo da matéria e assim por diante. São vasos comunicantes que merecem ser tratados com carinho, criatividade e eficiência, e isso dá trabalho. Fechar não significa livrar-se da última etapa da edição. Ao contrário, esse é o momento mais importante, em que as coisas ficam por um fio e tudo pode ir por água abaixo. E não se esqueça que o título da matéria principal devem ser dois: um na capa e outro no miolo do jornal ou revista. Não coloque o mesmo título dentro e fora. Crie. Uma vez fiquei uma madrugada inteira para conseguir um só título. E dois expedientes comerciais para achar uma abertura de texto.
LEGENDAS – A legenda tem suas manhas. Se a foto tiver dois personagens, o que está à esquerda é citado primeiro, e não o contrário. Uma foto não pode estar fora da página em que está o personagem citado: a legenda refere-se a algo no corpo da matéria que está ali naquele espaço que o leitor está vendo. Costuma-se colocar o nome do personagem acompanhado de dois pontos, seguindo-se uma frase entre aspas ou algo que se reporte ao que ele é ou disse. Esse é um esquema bem batido, que merece ser mexido um pouco. É tão lugar comum que se coloca dois pontos quando nem é necessário. “Fulano fez vestibular”, por exemplo, às vezes aparece como “Fulano: fez vestibular”, o que é um erro. Legenda serve para identificar a foto – e é por isso que eu digo para os fotógrafos que eles não vendem fotos, vendem imagens identificadas. Nenhuma foto portanto pode vir desacompanhada de legenda, a não ser que seja um ensaio e o personagem seja um só e estiver destacado no título ou nos outros elementos que apresentam a matéria. Minha melhor legenda foi a da vinda de Frank Sinatra pela primeira vez ao Brasil. Foi na IstoÉ. O empresário que conseguiu trazer a Voz fez tanto estardalhaço que não resisti: “O famoso Roberto Medina e seu contratado. Sinatra é o da direita”.
ARTE - Como sou do tempo do past-up, e o fechamento era feito na velha Olivetti, adquiri arduamente, junto a toda a minha geração, o traquejo do fechamento. Quando veio o computador, tornou-se uma brincadeira. Mas nos velhos tempos, quando tudo era feito na base do estilete e da cola, o corte precisava ser de maneira tal que não obrigasse a arte a enviar de novo a matéria para a composição. Conseguia desempenhar-me da tarefa razoavelmente e por isso eu era aclamado quando chegava no departamento de arte da revista Senhor, dos anos 80: Thaís Rebello e João Carlos Alvarenga, os premiados Thaís e Joca, mentiam me chamando de gênio, só porque eu economizava tempo e assim permitia que eles fossem para casa mais cedo. Trabalhei com grandes editores de arte, como Reginaldo Fortuna – que enxergava o desvio de um milímetro num fio – e Luiz Carlos Moraes, que estava na equipe original de IstoÉ Gente (da qual não participei) e hoje está na Fiesp. Moraes sabe como ninguém criar um projeto visual perfeito sem fazer nenhuma pose. Trabalhar com Moraes é um privilégio para poucos fechadores.
Perfil – Múcio Borges da Fonseca
O BRASILEIRO VINDO DE LONGE - O perfil deste sábado é sobre um jornalista maravilhoso que ocupa um lugar de destaque na história da imprensa brasileira, apesar de ser pouco conhecido atualmente. Ele me escancarou as portas da Editora Três e tinha qualidades humanas e profissionais admiráveis. É uma das pessoas que me provocam saudade quando lembro as longas décadas que passei nas redações.
Conheci Múcio já safenado, caminhando muito para evitar novos transtornos do coração. Batia as palmas das mãos soprando entre elas:
- Vamos fechar, vamos fechar.
Tinha trabalhado na Última Hora do Recife e seu ídolo era Josimar Melo, tema de seu livro “Em suas veias corria tinta de jornal”. Múcio era de Bom Jardim, Pernambuco e me deu apoio quando eu mais precisava. Levou-me para o Rodeio para comemorar minha volta a São Paulo em 1981 e combinar minha contratação para a Senhor quinzenal. Lá encontrei Tarso de Castro, que estava inconformado por terem fechado sua revista Careta, outra obra feita a quatro mãos com Fortuna.
Múcio tocou a Senhor quando esta não tinha nenhum prestígio. Era o início de um veículo com o mesmo nome da revista lendária dos anos 50 e que, mais tarde, nas mãos de Mino Carta, transformou-se no mais importante veículo dos anos 80. Trabalhei com ele também como editor de texto da Brasil 21, belo projeto enterrado antes do tempo.
Quando recebeu a carta da diretoria anunciando que a revista tinha sido fechada no terceiro número, proferiu uma das frases mais humanas que conheço:
- Fracassamos miseravelmente, disse ele e o olho bom de Bom Jardim ficou cheio de água.
Como continuei trabalhando na Três, fiquei sabendo que a revista recebia cartas um ano depois de ter sido fechada. Brasil 21 é a revista que deveria voltar.
Múcio era humano demais para um ambiente excessivamente cruel. Tinha dúvidas sobre tudo e nisso nos aproximávamos. Um dia, indiquei meu amigo Eduardo San Martin ( poeta, jornalista e autor de livros memoráveis sobre pirataria, atualmente morando em Nova York), para trabalhar com ele. Durante anos, ele dizia:
- Muito boa sua indicação.
Foi o acaso que me aproximou de Múcio e de Nestor Fedrizzi, duas pessoas chave da Última Hora, jornal que fez história e foi destruído pela ditadura. Fedrizzi (que implantou o Jornal de Santa Catarina, em Blumenau) fez a Ultima Hora de Porto Alegre, onde também trabalhou Tarso de Castro. Múcio militou anos no jornalismo e foi um dos donos da Unipress, que ajudou a implantar qualidade nos veículos empresariais brasileiros.
RETORNO – Voltou o sol e decidi retomar as caminhadas, interrompidas durante a devastadora friaca das últimas semanas. Chegou a hora de os paulistas dizerem duas coisas. Primeiro, convencer-se que “São Paulo nunca faz frio”. E segundo, que eu não deveria reclamar tanto do frio pois, sendo gaúcho, deveria estar “acostumado”. É perda de tempo lembrar aos engraçadinhos que a temperatura do corpo humano é de 36 graus e que até esquimó usa pele de urso para enfrentar a neve, pois nada “acostuma” nossa natureza ao clima polar.
19 de setembro de 2003
EDIÇÃO, CORTE E COSTURA
Editar é tomar decisões, é apostar no talento e na capacidade da equipe, ouvir e ver o que cada um tem de melhor. Editar é virar vidraça, é arrostar os erros, é elogiar em público e criticar reservadamente. É estar presente na pauta e no texto final, na viagem e no plantão, no corte da matéria e na costura dos parágrafos.
GENTILEZA X BARBÁRIE - Meu primeiro chefe de reportagem dizia todos os dias: “Vai lá e vê o que tem e o que não tem”. Passava três pautas e no final de expediente me mandava para o aeroporto, onde eu era caçado por políticos medíocres que queriam plantar notas na imprensa. No fim, ele foi útil, pois com o seu “te vira, que estão pegando” aprendi a tomar decisões no front da profissão. Seu erro foi nunca elogiar (elogio é parâmetro) e no dia em que cometi minha primeira falha, fez um escândalo. No fundo, estava de tocaia. Mas não tinha motivos para tanta cobrança. As pautas eram tão ruins que às vezes eu não entendia nada. Um dia, enrolei tanto para fazer uma pergunta que a fonte me pediu a pauta por escrito que eu guardava no bolso (era uma fonte conhecida, sabia todos os macetes daquele jornal da província). Não tive dúvidas: repassei o bilhetinho de duas linhas. Aí fez-se a luz e ele me deu a entrevista. Em compensação, quando eu fazia algumas pautas (de vez em quando) na Ilustrada, minha gentil e sensível editora, Helô Machado, dizia com graça: “Deixa eu publicar tua pauta, o foca não vai fazer melhor do que isso”. Todo editor precisa ser como a Helô Machado, que dava vez para todo mundo e teve idéias perenes, como a de publicar resumos dos capítulos de telenovelas, coisa que existe até hoje (uma idéia simples, mas absolutamente inovadora, que atraiu grande quantidade de novos leitores). Ou como o Tarso de Castro, que faz falta, mais do que nunca, no atual estado de coisas.
ESTRATÉGIA – “Contar buracos de rua” era a tarefa dos focas naquela época. Hoje parece que está pior. Mais tarde, já adentrado nos anos, minha atenção foi chamada publicamente. Peguei a editora num canto e avisei: o elogio é público, a crítica é privada. Um editor importante uma vez tascou na redação: “Fulano conseguiu cravar a capa, e vocês, o que fazem?” Todo esse tipo de ruído pode ser evitado. O conflito bruto não deve ser obrigatório, como muitas vezes acontece. O poder da pequena tirania precisa ser erradicada da profissão. Jornalismo é como cinema, trabalho de todos e o gênio só se manifesta quando há ambiente favorável. Mas atenção: gentileza e elegância não significam amizade. Um editor sério peita a pressão sobre os repórteres, responde pela equipe e cobra suavemente. Editar é fazer parte da equipe e não ser seu algoz. Corre-se o risco da folga: alguém, sabendo que não vai ter sua atenção chamada em público e jamais será desrespeitado, começa a testar o editor para ver se ele é mesmo tão democrático e legal assim. Cada editor tem uma saída para esse tipo de problema. Costuma-se jogar umas pessoas contra as outras, para governar por meio da divisão. Outro diz gargalhando as coisas mais sérias, passa o recado radical como se fosse uma piada. Muita vezes a conversa séria no canto não resolve. Aí a única solução possível, principalmente para quem é da fronteira, é chamar o Cabo Adão. O Cabo Adão resolve.
AGULHA E LINHA – Minha especialidade é a edição de texto. Houve época em que participei da paranóia da Abril, de reescrever absolutamente tudo, perseguir o chamado texto redondinho. Quem passou por lá sabe. A Abril conseguiu uma excelência de texto por um tempo, mas o paradigma acabou gerando muita redundância. Uma pobre reportagem passar pela máquina de moer carne de quatro editores é pedir para abrir um boteco em Caxambu. Prefiro trabalhar com o estilo de cada repórter, repassando regras básicas: desentrolhar o fluxo do texto, abrir com algo realmente importante para justificar a matéria, finalizar cada parágrafo dando gancho para o parágrafo seguinte, para que se evite assim o fórceps de “na verdade” ou “por outro lado”, escrever o fecho como parte integrante do texto e não seu apêndice. Peço para reescrever quando necessário, parte da matéria ou toda. Normalmente, o problema está na concepção do tema, na seleção do enfoque, na incompreensível obrigação de fazer suíte de tudo. A praga da suíte, aquela continuação da matéria anterior, precisa acabar. Se as pessoas lêem sempre os veículos, não é necessário redundar na informação. Hoje vejo os jornais se repetindo sem parar, como se o mundo começasse do zero a cada dia.
RETORNO - Como quase ninguém me chama de mestre, certamente porque mestre não sou, sempre é bom ser tratado assim por uma jornalista como a Luciana Félix, que trabalhou comigo por dois anos na Fiesp, fazendo reportagens diárias e cravando capa da revista quando ainda nem tinha se formado na faculdade. Como ela é muito jovem, não digo que o mérito é de quem sabe ouvir e tem talento e vontade para redirecionar seus rumos. O veterano é apenas um distribuidor de positivos, que conta com a sorte. É gratificante descobrir que a linhagem do jornalismo pátrio de qualidade independe de geração e que em cada uma existem pessoas escolhidas. Quando falam mal da juventude brasileira para mim, lembro nossa geração: as exceções sofriam num mar de mediocridades. Acho até que hoje existe material humano muito mais farto. O que falta é oportunidade.
GENTILEZA X BARBÁRIE - Meu primeiro chefe de reportagem dizia todos os dias: “Vai lá e vê o que tem e o que não tem”. Passava três pautas e no final de expediente me mandava para o aeroporto, onde eu era caçado por políticos medíocres que queriam plantar notas na imprensa. No fim, ele foi útil, pois com o seu “te vira, que estão pegando” aprendi a tomar decisões no front da profissão. Seu erro foi nunca elogiar (elogio é parâmetro) e no dia em que cometi minha primeira falha, fez um escândalo. No fundo, estava de tocaia. Mas não tinha motivos para tanta cobrança. As pautas eram tão ruins que às vezes eu não entendia nada. Um dia, enrolei tanto para fazer uma pergunta que a fonte me pediu a pauta por escrito que eu guardava no bolso (era uma fonte conhecida, sabia todos os macetes daquele jornal da província). Não tive dúvidas: repassei o bilhetinho de duas linhas. Aí fez-se a luz e ele me deu a entrevista. Em compensação, quando eu fazia algumas pautas (de vez em quando) na Ilustrada, minha gentil e sensível editora, Helô Machado, dizia com graça: “Deixa eu publicar tua pauta, o foca não vai fazer melhor do que isso”. Todo editor precisa ser como a Helô Machado, que dava vez para todo mundo e teve idéias perenes, como a de publicar resumos dos capítulos de telenovelas, coisa que existe até hoje (uma idéia simples, mas absolutamente inovadora, que atraiu grande quantidade de novos leitores). Ou como o Tarso de Castro, que faz falta, mais do que nunca, no atual estado de coisas.
ESTRATÉGIA – “Contar buracos de rua” era a tarefa dos focas naquela época. Hoje parece que está pior. Mais tarde, já adentrado nos anos, minha atenção foi chamada publicamente. Peguei a editora num canto e avisei: o elogio é público, a crítica é privada. Um editor importante uma vez tascou na redação: “Fulano conseguiu cravar a capa, e vocês, o que fazem?” Todo esse tipo de ruído pode ser evitado. O conflito bruto não deve ser obrigatório, como muitas vezes acontece. O poder da pequena tirania precisa ser erradicada da profissão. Jornalismo é como cinema, trabalho de todos e o gênio só se manifesta quando há ambiente favorável. Mas atenção: gentileza e elegância não significam amizade. Um editor sério peita a pressão sobre os repórteres, responde pela equipe e cobra suavemente. Editar é fazer parte da equipe e não ser seu algoz. Corre-se o risco da folga: alguém, sabendo que não vai ter sua atenção chamada em público e jamais será desrespeitado, começa a testar o editor para ver se ele é mesmo tão democrático e legal assim. Cada editor tem uma saída para esse tipo de problema. Costuma-se jogar umas pessoas contra as outras, para governar por meio da divisão. Outro diz gargalhando as coisas mais sérias, passa o recado radical como se fosse uma piada. Muita vezes a conversa séria no canto não resolve. Aí a única solução possível, principalmente para quem é da fronteira, é chamar o Cabo Adão. O Cabo Adão resolve.
AGULHA E LINHA – Minha especialidade é a edição de texto. Houve época em que participei da paranóia da Abril, de reescrever absolutamente tudo, perseguir o chamado texto redondinho. Quem passou por lá sabe. A Abril conseguiu uma excelência de texto por um tempo, mas o paradigma acabou gerando muita redundância. Uma pobre reportagem passar pela máquina de moer carne de quatro editores é pedir para abrir um boteco em Caxambu. Prefiro trabalhar com o estilo de cada repórter, repassando regras básicas: desentrolhar o fluxo do texto, abrir com algo realmente importante para justificar a matéria, finalizar cada parágrafo dando gancho para o parágrafo seguinte, para que se evite assim o fórceps de “na verdade” ou “por outro lado”, escrever o fecho como parte integrante do texto e não seu apêndice. Peço para reescrever quando necessário, parte da matéria ou toda. Normalmente, o problema está na concepção do tema, na seleção do enfoque, na incompreensível obrigação de fazer suíte de tudo. A praga da suíte, aquela continuação da matéria anterior, precisa acabar. Se as pessoas lêem sempre os veículos, não é necessário redundar na informação. Hoje vejo os jornais se repetindo sem parar, como se o mundo começasse do zero a cada dia.
RETORNO - Como quase ninguém me chama de mestre, certamente porque mestre não sou, sempre é bom ser tratado assim por uma jornalista como a Luciana Félix, que trabalhou comigo por dois anos na Fiesp, fazendo reportagens diárias e cravando capa da revista quando ainda nem tinha se formado na faculdade. Como ela é muito jovem, não digo que o mérito é de quem sabe ouvir e tem talento e vontade para redirecionar seus rumos. O veterano é apenas um distribuidor de positivos, que conta com a sorte. É gratificante descobrir que a linhagem do jornalismo pátrio de qualidade independe de geração e que em cada uma existem pessoas escolhidas. Quando falam mal da juventude brasileira para mim, lembro nossa geração: as exceções sofriam num mar de mediocridades. Acho até que hoje existe material humano muito mais farto. O que falta é oportunidade.
18 de setembro de 2003
A GRANDEZA DA REPORTAGEM
Assim como não existe Kurosawa menor – nenhum filme do mestre é de segunda categoria – não pode existir reportagem sem grandeza. O tamanho não define a reportagem, mas sua intensidade e repercussão. Num país que já teve uma revista Realidade, e que viu brilhar experiências como Repórter Três, é preciso manter aceso o paradigma que gerou os mais brilhantes jornalistas.
ARAME FARPADO - Como esta coluna não é manual, mas sim arena minada de criação, pode-se trabalhar as deficiências e tropeços com extrema transparência, contando sempre com os recursos da Internet, que nos ajudam a fazer correções de rumo sempre que necessário, como tem acontecido às vezes aqui. Ontem, no apagar das luzes do dia, fiz acertos que mudaram para melhor os textos divulgados neste espaço (hoje também, mudei o final do parágrafo colocado embaixo da manchete, que estava muito mal escrito). No veículo impresso, ou mesmo no telejornal, essa baba não está disponível: você precisa acertar o alvo, sob pena de cair na tormentosa seção Erramos, ou mesmo expor-se como um Gugu Liberato à autocrítica avassaladora. É por isso que qualquer reportagem é importante: você não pode errar, o que significa equilibrar-se em arame farpado, sem rede de segurança, com uma platéia de leitores e coleguinhas açulando pelos cotovelos. Prepare-se. Reportagem sem grandeza não merece esse nome, é amontoado de palavras.
LINHAGEM – Saudosismo é iludir-se selecionando o que houve de melhor do passado, deixando de lado a dura realidade. Mas no caso das reportagens com grandeza, não há como confundir fato com ficção: Narciso Kalili, Hamilton Almeida Filho, Marcos Faerman, Caco Barcelos, Audálio Dantas, Edenilton Lampião, entre tantos outros, são representantes de um trabalho sem igual na imprensa brasileira e precisariam ser reunidos em uma coleção de livros didáticos. Coloquei Caco e Audálio na lista, que ainda estão na ativa, mas quis ressaltar o fato de que fazem parte de uma linhagem que praticamente está sumida. Hoje, quando vejo as reportagens traduzidas ocupando vastos espaços, me pergunto porque pessoas como o Fabio Murakawa, por exemplo, que fez um trabalho primoroso no Agora, ainda não foi convocado para exercer seu ofício de grande repórter numa imprensa que prima hoje pela falta de força. Temos quadros brilhantes na reportagem, mas poucos são convocados para o que realmente interessa: fazer a matéria dos nossos sonhos, detonar com informações valiosas e textos primorosos. Para isso é preciso recursos, apoio, faro. É preciso convocar o talento para que o paradigma, arduamente conquistado e desenvolvido em décadas de arrocho, não se perca de vez.
GIGANTES E NANICOS – Quando cito alguns jornais da imprensa alternativa da época da ditadura civil/militar (a civil continua), costumo surpreender. Só Opinião, Pasquim e Movimento são conhecidos, quando muito Versus. Mas tivemos também Ex, Mais Um, Presença, Coojornal, Bondinho, Já, Enfim. A lista é imensa. Sem falar de veículos que tiveram épocas magníficas, como Veja, Istoé, Jornal da Tarde, Jornal do Brasil, Correio da Manhã. Da imprensa nanica, a grande imprensa chupou a informalidade (que se transformou em sacanagem), a denúncia (que virou tráfico de influência), a tomada de posição (que se transformou em vitrine de vaidades politicamente corretas). Chupou e jogou fora: grandes repórteres foram para a praia, a montanha, o empreendedorismo (montar restaurantes) e as assessorias (punição para colocar as coisas nos seus devidos lugares). Um grande repórter no exílio é como um centroavante aposentado não pela idade, mas pela tabela. Nos Estados Unidos, grandes repórteres envelhecem na ativa e são cultuados pelas universidades e os novos jornalistas. Aqui, quando se fala em alguém do mesmo valor, pergunta-se: Quem?
TRABALHO – Uma reportagem dá trabalho. Não se trata de acumular informações, mas de selecionar e articular. Significa saber o que ela rende, que espaço deve ocupar, quais as fontes principais. Com a Internet, fica fácil evitar redundâncias, pois tudo está registrado no universo digital. Uma pesquisa prévia ajuda a selecionar o filé do assunto, a detectar pistas, a ir atrás do que realmente interessa. Ritmo e timing são fundamentais: entregar a matéria no prazo, criar um andamento poderoso no texto, compor reflexão com narrativa, ser enxuto sem ser seco, e passar a impressão, por meio da palavra no lugar certo, de que o texto diz menos do que o repórter sabe. Isso deixa o leitor com água na boca. Eu, por exemplo, sempre abro o jornal querendo ler mais uma daquelas reportagens que fizeram a alegria das minhas retinas tão cansadas. Acho até hoje que aqueles repórteres maravilhosos sabiam muito mais do que tinham escrito, e estavam guardando esse tesouro para a próxima edição.
RETORNO – Dizem que escrevo demais nesta coluna e que fica difícil ler tanta coisa. Não concordo. É que estou economizando trabalho futuro, pois quando o Diário da Fonte virar livro, já terei material suficiente para entregar para a editora, sem precisar ficar trabalhando indefinidamente nestes assuntos. Poderei partir para a praia, finalmente. Ou para a faculdade, como todos atualmente me sugerem. Ou para as duas coisas ao mesmo tempo.
ARAME FARPADO - Como esta coluna não é manual, mas sim arena minada de criação, pode-se trabalhar as deficiências e tropeços com extrema transparência, contando sempre com os recursos da Internet, que nos ajudam a fazer correções de rumo sempre que necessário, como tem acontecido às vezes aqui. Ontem, no apagar das luzes do dia, fiz acertos que mudaram para melhor os textos divulgados neste espaço (hoje também, mudei o final do parágrafo colocado embaixo da manchete, que estava muito mal escrito). No veículo impresso, ou mesmo no telejornal, essa baba não está disponível: você precisa acertar o alvo, sob pena de cair na tormentosa seção Erramos, ou mesmo expor-se como um Gugu Liberato à autocrítica avassaladora. É por isso que qualquer reportagem é importante: você não pode errar, o que significa equilibrar-se em arame farpado, sem rede de segurança, com uma platéia de leitores e coleguinhas açulando pelos cotovelos. Prepare-se. Reportagem sem grandeza não merece esse nome, é amontoado de palavras.
LINHAGEM – Saudosismo é iludir-se selecionando o que houve de melhor do passado, deixando de lado a dura realidade. Mas no caso das reportagens com grandeza, não há como confundir fato com ficção: Narciso Kalili, Hamilton Almeida Filho, Marcos Faerman, Caco Barcelos, Audálio Dantas, Edenilton Lampião, entre tantos outros, são representantes de um trabalho sem igual na imprensa brasileira e precisariam ser reunidos em uma coleção de livros didáticos. Coloquei Caco e Audálio na lista, que ainda estão na ativa, mas quis ressaltar o fato de que fazem parte de uma linhagem que praticamente está sumida. Hoje, quando vejo as reportagens traduzidas ocupando vastos espaços, me pergunto porque pessoas como o Fabio Murakawa, por exemplo, que fez um trabalho primoroso no Agora, ainda não foi convocado para exercer seu ofício de grande repórter numa imprensa que prima hoje pela falta de força. Temos quadros brilhantes na reportagem, mas poucos são convocados para o que realmente interessa: fazer a matéria dos nossos sonhos, detonar com informações valiosas e textos primorosos. Para isso é preciso recursos, apoio, faro. É preciso convocar o talento para que o paradigma, arduamente conquistado e desenvolvido em décadas de arrocho, não se perca de vez.
GIGANTES E NANICOS – Quando cito alguns jornais da imprensa alternativa da época da ditadura civil/militar (a civil continua), costumo surpreender. Só Opinião, Pasquim e Movimento são conhecidos, quando muito Versus. Mas tivemos também Ex, Mais Um, Presença, Coojornal, Bondinho, Já, Enfim. A lista é imensa. Sem falar de veículos que tiveram épocas magníficas, como Veja, Istoé, Jornal da Tarde, Jornal do Brasil, Correio da Manhã. Da imprensa nanica, a grande imprensa chupou a informalidade (que se transformou em sacanagem), a denúncia (que virou tráfico de influência), a tomada de posição (que se transformou em vitrine de vaidades politicamente corretas). Chupou e jogou fora: grandes repórteres foram para a praia, a montanha, o empreendedorismo (montar restaurantes) e as assessorias (punição para colocar as coisas nos seus devidos lugares). Um grande repórter no exílio é como um centroavante aposentado não pela idade, mas pela tabela. Nos Estados Unidos, grandes repórteres envelhecem na ativa e são cultuados pelas universidades e os novos jornalistas. Aqui, quando se fala em alguém do mesmo valor, pergunta-se: Quem?
TRABALHO – Uma reportagem dá trabalho. Não se trata de acumular informações, mas de selecionar e articular. Significa saber o que ela rende, que espaço deve ocupar, quais as fontes principais. Com a Internet, fica fácil evitar redundâncias, pois tudo está registrado no universo digital. Uma pesquisa prévia ajuda a selecionar o filé do assunto, a detectar pistas, a ir atrás do que realmente interessa. Ritmo e timing são fundamentais: entregar a matéria no prazo, criar um andamento poderoso no texto, compor reflexão com narrativa, ser enxuto sem ser seco, e passar a impressão, por meio da palavra no lugar certo, de que o texto diz menos do que o repórter sabe. Isso deixa o leitor com água na boca. Eu, por exemplo, sempre abro o jornal querendo ler mais uma daquelas reportagens que fizeram a alegria das minhas retinas tão cansadas. Acho até hoje que aqueles repórteres maravilhosos sabiam muito mais do que tinham escrito, e estavam guardando esse tesouro para a próxima edição.
RETORNO – Dizem que escrevo demais nesta coluna e que fica difícil ler tanta coisa. Não concordo. É que estou economizando trabalho futuro, pois quando o Diário da Fonte virar livro, já terei material suficiente para entregar para a editora, sem precisar ficar trabalhando indefinidamente nestes assuntos. Poderei partir para a praia, finalmente. Ou para a faculdade, como todos atualmente me sugerem. Ou para as duas coisas ao mesmo tempo.
17 de setembro de 2003
O GARIMPO DA PAUTA
Para evitar que a pauta torne-se cíclica, repetindo-se todos os dias e, às vezes, na mesma edição, deve-se encará-la como indivíduo e não como espécie ou gênero. Descobrir pautas todos os dias é o nó cego da profissão, que precisa ser desatado com jeito, mais do que com força, na base do close-up, e não do plano geral.
CAVALO É OUTRA COISA – Implico com os americanos, que dividem as pessoas como se fossem cavalos: caucasiana, asiática ou hispânica. Como homem da fronteira, herdeiro portanto de uma luta de quatro séculos contra a “hispanidad”, fico muito fulo com o registro que os brasileiros ganham nos Estados Unidos, onde são confundidos com hispânicos (outra coisa que não existe, pois o que há são mexicanos, colombianos, argentinos etc.). E também com a tendência cultural hoje de nos identificar com a América Espanhola, o que tira nossa identidade fundamental, de América Portuguesa. Quando Carlinhos Brown torna-se Carlito Marrón ou quando Alexandre Pires coloca um chapéu para identificá-lo com o que chamam de hispânicos no fim dos Jogos Pan Americanos, estamos é abrindo mão do que temos de mais profundo, que é nossa língua e nossa História. É preciso ter cuidado com as espécies, como a “hispanidad”, que é poderosa, como notava o chanceler Oswaldo Aranha, também homem de fronteira. E enxergar nossa individualidade. Pertencemos não a uma categoria, ou a uma raça, mas a uma nação de indivíduos diversos.
BORGES – Quem notou a tragédia da pauta rotativa (mas não usou esse termo) foi Jorge Luis Borges (precisa obedecer o manual e dizer “escritor argentino”? acho que não). Ele reclamou da abordagem dos necrológios da imprensa sobre uma grande artista do seu país. Em vez de tratá-la como um indivíduo, escreveu Borges, a imprensa definiu-a como uma espécie, ou seja, como “mulher” que virou grande artista. “A mulher e...” é o exemplo típico de pauta rotativa. É como documentário sobre os anos 60: sempre aposto o momento certo em que o sonho vai acabar, pois há uma lei que obriga o sonho acabar em qualquer reportagem que se faça sobre o período. Esse tipo de enfoque, imagino, só sairá da reta aí pelo ano três mil pois virou cânone, não há como lutar contra. Quando estava na Fiesp, inúmeras vezes me sugeriram a pauta “a mulher e a indústria”. Eu argumentava que as mulheres apareciam sempre como empresárias ou pesquisadoras ou em qualquer outra atividade, e eram tratadas como são, ou seja, indivíduos com suas características próprias. O sexo ao qual pertencem não é suficiente para identificá-las.
PERGUNTAS - Pois então, onde o bicho pega? Como fazer pauta todos os dias, semanas, meses, anos, sem cair no lugar comum (outra pauta recorrente é “não-sei-o-quê-vira-mania”, muito comum em revistas)? Basta abrir as comportas, limpar os canais de acesso ao pauteiro (que não deve ser um, mas todos). Quem faz pauta deve ter uma percepção aberta, universal. Pauta é o que ninguém ainda abordou. Elas sobram no dia a dia, estão na cabeça das pessoas que nos rodeiam, são aqueles assuntos que não chamam atenção de tão óbvios e próximos e que jamais saem publicados. Pauta é também a pergunta que ninguém faz. O que realmente discutiram as duas personalidades antes da tragédia? Quem é de fato o decorador assassinado? Só existe matéria paga disfarçada de notícia no Paraná? Que tipo de produtor é esse que se comporta como espécie e planta em massa soja transgênica sabendo que está proibida?
A PRISÃO DO GANCHO – É um mau costume só fazer matéria sobre determinado assunto quando há algum evento justificando. É a prisão do gancho. Deve-se evitar o marketing da notícia. Precisamos deixar de obedecer à agenda proposta por consultorias, assessorias etc. Devemos ir diretamente na fonte, perguntar o que ela precisa saber, o que ela quer ler, o que ela tem a dizer, a propor. O jornalismo deve ser livre e essa liberdade começa na pauta. Na minha experiência como diretor de telejornal, via minhas pautas serem derrubadas em função do “barraco-que-caiu-na-Zona Leste”. Dizia: mas essa matéria já está na Globo; onde está a pauta sobre contaminação química do solo que a gente encaminhou? O chefe de reportagem derrubava, ou então o repórter, ou então o editor na ilha, ou ainda o apresentador e às vezes até o boy. Em compensação, todos estalavam os dedos dizendo que a TV era muito ágil e eu, um cara “da escrita”, não entendia nada. É por isso que até hoje, toda vez que estalam os dedos na minha frente, tenho urticária.
RETORNO - A jornalista Cibele Buoro, professora de comunicação, me escreve dizendo que está “repassando para os alunos” os textos desta coluna. Antes dela, a professora e jornalista Zélia Leal, da UNB, também tinha escrito dizendo que debateria minha nota sobre leads em aula. É uma honra para o Diário da Fonte ser avaliado pela meninada. Espero que o que escrevo aqui, fruto de longa experiência e reflexão sobre o que fazemos ou deixamos de fazer nas redações, seja útil para todas as gerações.
CAVALO É OUTRA COISA – Implico com os americanos, que dividem as pessoas como se fossem cavalos: caucasiana, asiática ou hispânica. Como homem da fronteira, herdeiro portanto de uma luta de quatro séculos contra a “hispanidad”, fico muito fulo com o registro que os brasileiros ganham nos Estados Unidos, onde são confundidos com hispânicos (outra coisa que não existe, pois o que há são mexicanos, colombianos, argentinos etc.). E também com a tendência cultural hoje de nos identificar com a América Espanhola, o que tira nossa identidade fundamental, de América Portuguesa. Quando Carlinhos Brown torna-se Carlito Marrón ou quando Alexandre Pires coloca um chapéu para identificá-lo com o que chamam de hispânicos no fim dos Jogos Pan Americanos, estamos é abrindo mão do que temos de mais profundo, que é nossa língua e nossa História. É preciso ter cuidado com as espécies, como a “hispanidad”, que é poderosa, como notava o chanceler Oswaldo Aranha, também homem de fronteira. E enxergar nossa individualidade. Pertencemos não a uma categoria, ou a uma raça, mas a uma nação de indivíduos diversos.
BORGES – Quem notou a tragédia da pauta rotativa (mas não usou esse termo) foi Jorge Luis Borges (precisa obedecer o manual e dizer “escritor argentino”? acho que não). Ele reclamou da abordagem dos necrológios da imprensa sobre uma grande artista do seu país. Em vez de tratá-la como um indivíduo, escreveu Borges, a imprensa definiu-a como uma espécie, ou seja, como “mulher” que virou grande artista. “A mulher e...” é o exemplo típico de pauta rotativa. É como documentário sobre os anos 60: sempre aposto o momento certo em que o sonho vai acabar, pois há uma lei que obriga o sonho acabar em qualquer reportagem que se faça sobre o período. Esse tipo de enfoque, imagino, só sairá da reta aí pelo ano três mil pois virou cânone, não há como lutar contra. Quando estava na Fiesp, inúmeras vezes me sugeriram a pauta “a mulher e a indústria”. Eu argumentava que as mulheres apareciam sempre como empresárias ou pesquisadoras ou em qualquer outra atividade, e eram tratadas como são, ou seja, indivíduos com suas características próprias. O sexo ao qual pertencem não é suficiente para identificá-las.
PERGUNTAS - Pois então, onde o bicho pega? Como fazer pauta todos os dias, semanas, meses, anos, sem cair no lugar comum (outra pauta recorrente é “não-sei-o-quê-vira-mania”, muito comum em revistas)? Basta abrir as comportas, limpar os canais de acesso ao pauteiro (que não deve ser um, mas todos). Quem faz pauta deve ter uma percepção aberta, universal. Pauta é o que ninguém ainda abordou. Elas sobram no dia a dia, estão na cabeça das pessoas que nos rodeiam, são aqueles assuntos que não chamam atenção de tão óbvios e próximos e que jamais saem publicados. Pauta é também a pergunta que ninguém faz. O que realmente discutiram as duas personalidades antes da tragédia? Quem é de fato o decorador assassinado? Só existe matéria paga disfarçada de notícia no Paraná? Que tipo de produtor é esse que se comporta como espécie e planta em massa soja transgênica sabendo que está proibida?
A PRISÃO DO GANCHO – É um mau costume só fazer matéria sobre determinado assunto quando há algum evento justificando. É a prisão do gancho. Deve-se evitar o marketing da notícia. Precisamos deixar de obedecer à agenda proposta por consultorias, assessorias etc. Devemos ir diretamente na fonte, perguntar o que ela precisa saber, o que ela quer ler, o que ela tem a dizer, a propor. O jornalismo deve ser livre e essa liberdade começa na pauta. Na minha experiência como diretor de telejornal, via minhas pautas serem derrubadas em função do “barraco-que-caiu-na-Zona Leste”. Dizia: mas essa matéria já está na Globo; onde está a pauta sobre contaminação química do solo que a gente encaminhou? O chefe de reportagem derrubava, ou então o repórter, ou então o editor na ilha, ou ainda o apresentador e às vezes até o boy. Em compensação, todos estalavam os dedos dizendo que a TV era muito ágil e eu, um cara “da escrita”, não entendia nada. É por isso que até hoje, toda vez que estalam os dedos na minha frente, tenho urticária.
RETORNO - A jornalista Cibele Buoro, professora de comunicação, me escreve dizendo que está “repassando para os alunos” os textos desta coluna. Antes dela, a professora e jornalista Zélia Leal, da UNB, também tinha escrito dizendo que debateria minha nota sobre leads em aula. É uma honra para o Diário da Fonte ser avaliado pela meninada. Espero que o que escrevo aqui, fruto de longa experiência e reflexão sobre o que fazemos ou deixamos de fazer nas redações, seja útil para todas as gerações.
16 de setembro de 2003
O ESQUELETO IMANTADO
Texto, para ficar em pé, precisa de espinha dorsal com poder de atrair naturalmente todas as informações. O núcleo dessa criatura difícil de domar deve possuir força suficiente para encaixar as peças sem susto e assim justificar a atenção do leitor, levando-o pela mão, sem tropeços, da primeira à última linha.
ESTÁ DIFÍCIL – Hoje você suja as mãos e pouco encontra de realmente bom para ler nos jornalões, e muito menos nas revistas. No fim de semana a tarefa é menos complicada, graças ao Mais!, da Folha, ao caderno de Cultura do Estadão e à Carta Capital, que sempre oferecem leitura de qualidade, que é o que procuramos na imprensa. “Não leio jornais, leio jornalistas” era a citação do Paulo Francis sempre que abordava o assunto. A pouca oferta nos obriga a insistir: um autor como o Drauzio Varella, por exemplo, quando acerta lava a alma, como é o caso do texto em que narra o encontro com velha figura do Carandiru e as peripécias conjugais na periferia. Outro autor irregular, mais para o acerto do que para o erro, é Mangabeira Unger, que publica na página dois às terças-feiras (hoje), na Folha. Gosto quase sempre do Walter Salles Jr., Gilberto Vasconcellos e Jânio de Freitas. E toda vida, claro, do Mino Carta (que escreve magistralmente o que pensamos, ou o que deveríamos pensar). Muitos autores não possuem talento, mas são agraciados com espaços gigantescos e injustificáveis. Não cito nomes pois cada leitor tem seus favoritos e suas implicâncias. O lamentável é que leitura boa fica reservada aos colunistas, já que o reportariado está sob o jugo dos manuais e proibidos de desenvolverem um estilo próprio. Costumo dizer que para isso servem os manuais: padronizar e sufocar o talento do repórter e assim projetar os holofotes nos colunistas e seus “diferenciais”. O que irrita são alguns cronistas, paga-paus de amigos recorrentes, eternamente citados em seus cíclicos textos, como a justificar a superficialidade que a crônica deve assumir na divisão de poderes da leitura.
ABERTURA, MIOLO E PÉ – Chamo de lead, impropriamente, o início dos textos. Lead é invenção americana que precisa responder perguntas básicas. É eficiente para evitar papo furado e treinar jornalistas iniciantes. Mas prefiro falar em abertura de texto, que não está subjugada aos ditames do lead. Seu papel é fisgar o leitor e jogá-lo para esse território improvável e pouco visitado, o segundo parágrafo. Houve tempo em que se fazia piada dizendo que um texto iniciava com o “tudo começou”, continuava com “na verdade”, no terceiro parágrafo usava-se “por outro lado”, depois para sugerir seriedade apelava-se para um “a rigor” e lavava-se as mãos no fecho com o obrigatório “resta saber”. Mas hoje esse tipo de coisa nem serve para piada, já que é trágico e assombrou a imprensa por muitos anos (mas dessas muletas ninguém está livre). É por isso que criei a figura do esqueleto imantado, em que o jornalista descobre o poder central do seu texto e usa-o como estrutura viva. O segredo é manter a objetividade do lead sem curvar-se a ele. Depois que você encontra a abertura, se der branco, faça como Hemmingway no livro “Paris é uma festa”: coloque a frase mais verdadeira que você conhece. Mesmo que ela seja eliminada depois, já que pode não fazer parte da sua matéria, use-a como instrumento de poder. O fim da reportagem não pode ser um apêndice dispensável: ele é tão importante quanto a abertura. Se tiver que cortar, corte no miolo: algo costuma soar mal, ou seja, está errado. Escreva de ouvido. Texto é música e o esqueleto imantado é a sua partitura.
MESTRE JAPIASSU - Hoje é o lançamento do livro do Moacir Japiassu, “Concerto Para Paixão e Desatino - Romance de Uma Revolução Brasileira", pelo selo Francis da W11 (brava editora do meu amigo Wagner Carelli em sociedade com a Sonia Nolasco). Será no Shopping Villa-Lobos, na Livraria Cultura, a partir das 18h30min. Japi há décadas desenvolve missão cívica no meio jornalístico, pois com humor e talento aponta os escorregões da imprensa, sem o tom ranzinza dos professores, mas com o toque elegante dos escritores. Mestre Japi é imprescindível na nossa profissão, e por justiça ocupa agora lugar de destaque na literatura. Seu livro é ambientado na sua Paraíba: “ Trata-se de um romance. É ficção, ficção que tem como cenário, como ´pano de fundo`, os acontecimentos de 1930”, diz Japiassu. A Revolução de 30, como a Guerra da Independência, ainda desafiam os historiadores e possuem acervo riquíssimo para a literatura. Já que falamos hoje em texto, é comparecendo nesse lançamento que poderemos homenagear o texto brasileiro de qualidade.
RETORNO – Altamirando Jonas é biógrafo da desimportância. Presta atenção nos detalhes mais obscuros dos seus biografados, todos eles sem nenhum lugar garantido na História. É aposentado precoce (conseguiu isso sabe-se lá como) e dedica-se a futucar a vida alheia. Encanou na minha. E o pior é que jamais se apresenta, sempre vem via texto. Como é muito chato, confirmo as suas descobertas. É a única forma de me livrar da sua presença por uns tempos.
ESTÁ DIFÍCIL – Hoje você suja as mãos e pouco encontra de realmente bom para ler nos jornalões, e muito menos nas revistas. No fim de semana a tarefa é menos complicada, graças ao Mais!, da Folha, ao caderno de Cultura do Estadão e à Carta Capital, que sempre oferecem leitura de qualidade, que é o que procuramos na imprensa. “Não leio jornais, leio jornalistas” era a citação do Paulo Francis sempre que abordava o assunto. A pouca oferta nos obriga a insistir: um autor como o Drauzio Varella, por exemplo, quando acerta lava a alma, como é o caso do texto em que narra o encontro com velha figura do Carandiru e as peripécias conjugais na periferia. Outro autor irregular, mais para o acerto do que para o erro, é Mangabeira Unger, que publica na página dois às terças-feiras (hoje), na Folha. Gosto quase sempre do Walter Salles Jr., Gilberto Vasconcellos e Jânio de Freitas. E toda vida, claro, do Mino Carta (que escreve magistralmente o que pensamos, ou o que deveríamos pensar). Muitos autores não possuem talento, mas são agraciados com espaços gigantescos e injustificáveis. Não cito nomes pois cada leitor tem seus favoritos e suas implicâncias. O lamentável é que leitura boa fica reservada aos colunistas, já que o reportariado está sob o jugo dos manuais e proibidos de desenvolverem um estilo próprio. Costumo dizer que para isso servem os manuais: padronizar e sufocar o talento do repórter e assim projetar os holofotes nos colunistas e seus “diferenciais”. O que irrita são alguns cronistas, paga-paus de amigos recorrentes, eternamente citados em seus cíclicos textos, como a justificar a superficialidade que a crônica deve assumir na divisão de poderes da leitura.
ABERTURA, MIOLO E PÉ – Chamo de lead, impropriamente, o início dos textos. Lead é invenção americana que precisa responder perguntas básicas. É eficiente para evitar papo furado e treinar jornalistas iniciantes. Mas prefiro falar em abertura de texto, que não está subjugada aos ditames do lead. Seu papel é fisgar o leitor e jogá-lo para esse território improvável e pouco visitado, o segundo parágrafo. Houve tempo em que se fazia piada dizendo que um texto iniciava com o “tudo começou”, continuava com “na verdade”, no terceiro parágrafo usava-se “por outro lado”, depois para sugerir seriedade apelava-se para um “a rigor” e lavava-se as mãos no fecho com o obrigatório “resta saber”. Mas hoje esse tipo de coisa nem serve para piada, já que é trágico e assombrou a imprensa por muitos anos (mas dessas muletas ninguém está livre). É por isso que criei a figura do esqueleto imantado, em que o jornalista descobre o poder central do seu texto e usa-o como estrutura viva. O segredo é manter a objetividade do lead sem curvar-se a ele. Depois que você encontra a abertura, se der branco, faça como Hemmingway no livro “Paris é uma festa”: coloque a frase mais verdadeira que você conhece. Mesmo que ela seja eliminada depois, já que pode não fazer parte da sua matéria, use-a como instrumento de poder. O fim da reportagem não pode ser um apêndice dispensável: ele é tão importante quanto a abertura. Se tiver que cortar, corte no miolo: algo costuma soar mal, ou seja, está errado. Escreva de ouvido. Texto é música e o esqueleto imantado é a sua partitura.
MESTRE JAPIASSU - Hoje é o lançamento do livro do Moacir Japiassu, “Concerto Para Paixão e Desatino - Romance de Uma Revolução Brasileira", pelo selo Francis da W11 (brava editora do meu amigo Wagner Carelli em sociedade com a Sonia Nolasco). Será no Shopping Villa-Lobos, na Livraria Cultura, a partir das 18h30min. Japi há décadas desenvolve missão cívica no meio jornalístico, pois com humor e talento aponta os escorregões da imprensa, sem o tom ranzinza dos professores, mas com o toque elegante dos escritores. Mestre Japi é imprescindível na nossa profissão, e por justiça ocupa agora lugar de destaque na literatura. Seu livro é ambientado na sua Paraíba: “ Trata-se de um romance. É ficção, ficção que tem como cenário, como ´pano de fundo`, os acontecimentos de 1930”, diz Japiassu. A Revolução de 30, como a Guerra da Independência, ainda desafiam os historiadores e possuem acervo riquíssimo para a literatura. Já que falamos hoje em texto, é comparecendo nesse lançamento que poderemos homenagear o texto brasileiro de qualidade.
RETORNO – Altamirando Jonas é biógrafo da desimportância. Presta atenção nos detalhes mais obscuros dos seus biografados, todos eles sem nenhum lugar garantido na História. É aposentado precoce (conseguiu isso sabe-se lá como) e dedica-se a futucar a vida alheia. Encanou na minha. E o pior é que jamais se apresenta, sempre vem via texto. Como é muito chato, confirmo as suas descobertas. É a única forma de me livrar da sua presença por uns tempos.
15 de setembro de 2003
O DESAFIO DA EQUIPE
Depois de algum tempo na profissão, fatalmente o jornalista vai enfrentar seu maior desafio: ser responsável, perante a direção, por um grupo de profissionais. Para quem não é arrogante e só sabe trabalhar dentro da ética, essa é uma tarefa extremamente delicada, pois envolve não apenas pessoas, mas destinos.
AS BASES DO SUCESSO - Há dois tipos de situação. A primeira é encontrar a equipe montada e você cai de pára-quedas. A outra é fazer acontecer, criar uma equipe afinada. Como esta coluna não é de marketing nem de auto-ajuda, vou falar em jornalismo nos termos que eu conheço, a partir do que vi e vivi. Estive quase sempre no grupo liderado e só algumas vezes precisei estar à frente do trabalho. Por isso posso dizer: não é fácil e normalmente ocorrem trombadas. Há o editor (ou simplesmente chefe, como se diz no Brasil) que, de maneira cavernosa e melíflua, vai eliminando os problemas, ou seja, os concorrentes primeiro, e depois os menos “perigosos” mas não menos confiáveis. Há o outro que resolve apostar no que tem e não possui cacife suficiente para segurar o rojão. E há o que simplesmente substitui o que existe pelo que traz no bolso do colete. Meu exemplo favorito é criar um veículo de comunicação (ou uma editoria) do nada e a partir do nada inventar uma equipe. É a melhor maneira de não tomar o lugar de ninguém, abrir mercado e virar herói. O único grande problema é acertar: na hora em que você consolida o projeto, sempre tem alguém a fim do teu lugar. Você pode considerar-se bem sucedido se estão querendo te derrubar. Mas vale a pena o risco pela emoção da criatividade nesta área tão complicada que é a liderança numa redação.
FORMAÇÃO COMPLETA - Costumo dizer aos estagiários que passam por mim que meu objetivo não é encaminhá-los para a reportagem, mas para a formação completa. Você precisa pautar, reportar, escrever, fazer fechamento, criar veículos, tudo. Para um jornalista recém formado que veio queixar-se do aperto do mercado pedi que visse a grande pilha de revistas que estava em cima da minha mesa. Falei: selecione algumas dessas revistas, tome nota dos editores e chefes de reportagens, estude o veículo, sugira pautas. Apresente soluções, coloque-se à disposição. Faça parte da equipe. Pois você jamais poderá liderar se não souber participar de algo maior do que você, ou pelo menos diferente. Toda vez que eu trazia um free-lancer importante, que tinha ocupado cargos de chefia em outras redações, sopravam no meu ouvido: “Você é louco, esse cara vai tomar o teu lugar!” Como sonho em sair desta vida há mais de dez anos, eu blefava: isso seria um favor para mim, mas o que importa é trazer para a equipe gente melhor do que você. É o único jeito de crescer, trabalhar sem rede de segurança, convocar o mundo e deixar que o processo depure, que a equipe se forme de baixo para cima.
SAIR DE CIMA - Esse é o truque: sair de cima. Aprendi isso com os grandes mestres. Quando vi o Tarso de Castro, o Samuel Wainer, o Mino Carta e o Wagner Carelli à frente de suas equipes, descobri o óbvio: eles são grandes porque apostam na grandeza alheia, porque acreditam que haja talento nos outros, porque confiam. Carelli costumava dizer na Bravo!, num falso tom de lamentação: “Vocês só fazem coisas brilhantes! Assim não dá! E eu como é que fico?” Esse era um dos jeitos de elogiar a equipe que montou na revista que era na época “a inveja da América Latina”, segundo o poeta Antonio Skármeta, autor de O carteiro e o Poeta. Mino Carta, numa reunião de pauta, escutava e só no final dava seu toque: uma fonte importante para a matéria, um enfoque diferente, uma capa. Além de conhecer o Brasil como ninguém, Mino também trabalha com Conselho Editorial, com pessoas especializadas que trazem contribuições fundamentais para as reportagens. O líder se segura, sabe o que faz, confia nos seus jornalistas e trabalha em dois tempos: um é a espinha dorsal da equipe, as pessoas-chave, os âncoras; o outro são as aquisições, as pessoas que chegam e saem, os que passam e fazem a experiência. Mino Carta, o pai da matéria, mestre de Carelli e de todos nós, não é o número 1 por acaso. Seu método de trabalho foi surpreendente, para mim, que não tinha idéia como seus maravilhosos jornais e revistas eram feitos. Ele simplesmente saía de cima, mas mantinha o rigor da liderança. Sair de cima não é omitir-se, é deixar fluir a criação e o trabalho e não deixar que a mediocridade tome conta.
Se vocês insistirem, voltarei ao tema.
RETORNO – Nenhum retorno. Repercussão zero (com as belas exceções de sempre). Obrigado, amigos. Estão todos demitidos.
AS BASES DO SUCESSO - Há dois tipos de situação. A primeira é encontrar a equipe montada e você cai de pára-quedas. A outra é fazer acontecer, criar uma equipe afinada. Como esta coluna não é de marketing nem de auto-ajuda, vou falar em jornalismo nos termos que eu conheço, a partir do que vi e vivi. Estive quase sempre no grupo liderado e só algumas vezes precisei estar à frente do trabalho. Por isso posso dizer: não é fácil e normalmente ocorrem trombadas. Há o editor (ou simplesmente chefe, como se diz no Brasil) que, de maneira cavernosa e melíflua, vai eliminando os problemas, ou seja, os concorrentes primeiro, e depois os menos “perigosos” mas não menos confiáveis. Há o outro que resolve apostar no que tem e não possui cacife suficiente para segurar o rojão. E há o que simplesmente substitui o que existe pelo que traz no bolso do colete. Meu exemplo favorito é criar um veículo de comunicação (ou uma editoria) do nada e a partir do nada inventar uma equipe. É a melhor maneira de não tomar o lugar de ninguém, abrir mercado e virar herói. O único grande problema é acertar: na hora em que você consolida o projeto, sempre tem alguém a fim do teu lugar. Você pode considerar-se bem sucedido se estão querendo te derrubar. Mas vale a pena o risco pela emoção da criatividade nesta área tão complicada que é a liderança numa redação.
FORMAÇÃO COMPLETA - Costumo dizer aos estagiários que passam por mim que meu objetivo não é encaminhá-los para a reportagem, mas para a formação completa. Você precisa pautar, reportar, escrever, fazer fechamento, criar veículos, tudo. Para um jornalista recém formado que veio queixar-se do aperto do mercado pedi que visse a grande pilha de revistas que estava em cima da minha mesa. Falei: selecione algumas dessas revistas, tome nota dos editores e chefes de reportagens, estude o veículo, sugira pautas. Apresente soluções, coloque-se à disposição. Faça parte da equipe. Pois você jamais poderá liderar se não souber participar de algo maior do que você, ou pelo menos diferente. Toda vez que eu trazia um free-lancer importante, que tinha ocupado cargos de chefia em outras redações, sopravam no meu ouvido: “Você é louco, esse cara vai tomar o teu lugar!” Como sonho em sair desta vida há mais de dez anos, eu blefava: isso seria um favor para mim, mas o que importa é trazer para a equipe gente melhor do que você. É o único jeito de crescer, trabalhar sem rede de segurança, convocar o mundo e deixar que o processo depure, que a equipe se forme de baixo para cima.
SAIR DE CIMA - Esse é o truque: sair de cima. Aprendi isso com os grandes mestres. Quando vi o Tarso de Castro, o Samuel Wainer, o Mino Carta e o Wagner Carelli à frente de suas equipes, descobri o óbvio: eles são grandes porque apostam na grandeza alheia, porque acreditam que haja talento nos outros, porque confiam. Carelli costumava dizer na Bravo!, num falso tom de lamentação: “Vocês só fazem coisas brilhantes! Assim não dá! E eu como é que fico?” Esse era um dos jeitos de elogiar a equipe que montou na revista que era na época “a inveja da América Latina”, segundo o poeta Antonio Skármeta, autor de O carteiro e o Poeta. Mino Carta, numa reunião de pauta, escutava e só no final dava seu toque: uma fonte importante para a matéria, um enfoque diferente, uma capa. Além de conhecer o Brasil como ninguém, Mino também trabalha com Conselho Editorial, com pessoas especializadas que trazem contribuições fundamentais para as reportagens. O líder se segura, sabe o que faz, confia nos seus jornalistas e trabalha em dois tempos: um é a espinha dorsal da equipe, as pessoas-chave, os âncoras; o outro são as aquisições, as pessoas que chegam e saem, os que passam e fazem a experiência. Mino Carta, o pai da matéria, mestre de Carelli e de todos nós, não é o número 1 por acaso. Seu método de trabalho foi surpreendente, para mim, que não tinha idéia como seus maravilhosos jornais e revistas eram feitos. Ele simplesmente saía de cima, mas mantinha o rigor da liderança. Sair de cima não é omitir-se, é deixar fluir a criação e o trabalho e não deixar que a mediocridade tome conta.
Se vocês insistirem, voltarei ao tema.
RETORNO – Nenhum retorno. Repercussão zero (com as belas exceções de sempre). Obrigado, amigos. Estão todos demitidos.
14 de setembro de 2003
O JOGRAL DAS FONTES
Os entrevistados parecem obedecer a uma lógica que só existe dentro da cabeça dos jornalistas. Eles “concordam” uns com os outros nos textos forçados, como se fizessem parte de um conjunto vocal que recita declarações idênticas ou complementares. E por coincidência espantosa, eles sempre “concluem” no final das matérias.
MEMÓRIA E ENCANTAMENTO – Hoje é domingo, precisamos conectar com algo muito acima de nós. Vou transcrever um trecho (curtinho) de Proust, do capítulo Combray, do livro No Caminho de Swan, de sua obra monumental Em Busca do Tempo Perdido, tradução de Mario Quintana: “Mas quando mais nada subsistisse de um passado remoto, após a morte das criaturas e a destruição das coisas, - sozinhos, mais frágeis porém mais vivos, mais imateriais, mais persistentes, mais fiéis, - o odor e o sabor permanecem ainda por muito tempo, como almas, lembrando, aguardando, esperando, sobre as ruínas de tudo o mais, e suportando sem ceder, em sua gotícula impalpável, o edifício imenso da recordação.” A França tem uma identidade definitiva, entre tantas outras: o poder encantatório de sua cultura. Servem como exemplos, além de Proust, Saint-Exupery em Terra dos Holmens e no seu poema O Pequeno Príncipe, tão amado quanto injustamente mal-afamado. No mesmo caminho, o filme “O fabuloso Destino de Amélie Poulain”, que aborda a solidariedade anônima, a timidez que procura superar-se pela tocaia amorosa e Paris pintada sobre a fotografia. O diretor do filme, muito politicamente correto, fala mal da sua obra dizendo que é preciso ter cuidado, pois Paris não é a mesma do filme. Esquece-se do encanto da cultura a qual pertence (talvez sinta vergonha do que faz parte dele poderosamente). Basta a cena do metrô vazio, com Amélie encontrando o cego com um toca-disco no colo. O filme fez o maior sucesso, o que, para muitos, depõe contra ele. Pois nem quero saber: gosto de Saint-Exupery e de Amélie Poulain, assim como gosto de Godard. Gosto da França. Quem não gosta?
TÍTULOS – “Nem tambores nem clarins “ era o título que meu amigo Wagner Carelli gostaria de usar em alguma matéria sua, o que nunca aconteceu, claro, já que Carelli, além de um magnífico debochado, é mestre da linguagem e quando decide escrever, o País treme. Mas Wagner será assunto de um perfil futuro, portanto, vamos nos concentrar nos títulos. Não sou fã ardoroso dos títulos apelativos, tipo Notícias Populares, como o clássico “Cachorro faz mal à moça”, que se referia à internação hospitalar de alguém que arriscou em comida de rua. Nem dos que clonam exaustivamente títulos literários, como o já citado aqui “Crônica de uma morte anunciada”, que dá deu para bola de tanta repetição. Título hoje, por pressão dos manuais, obedece a hábitos horrorosos. Está cheio de “quer” e “diz” e verbos intragáveis como “sinalizam “ ou “alavancam”. O melhor título que eu conheço foi feito pelo Sérgio de Souza no jornal semanal do Samuel Wainer, Aqui, São Paulo, sobre uma exposição de pintura do ex-presidente Jânio Quadros, que voltava de longo exílio voluntário: “Jânio? Quadros?” era o título magistral. O Aqui, São Paulo existiu entre 1977 e 1979, época da anistia. Foi quando conheci o Samuel Wainer, que será também pauta de um perfil de sábado (hoje estou cheio de promessas). “A volta do Setembro Negro” é um dos meus títulos favoritos da Veja, com a capa mostrando a foto granulada de um terrorista com capuz. Não parece ser um grande título, mas mexe comigo, assíduo espectador dos seriados nas matinês dos anos 50. Para variar, um título dos meus, que fiz quando estava na revista Senhor, do Mino Carta (outro que terá um perfil aqui na coluna) dos anos 80. Foi na seção de Ciência e Tecnologia e a matéria era sobre o satélite brasileiro que estava sendo lançado: “O Brasil vai para o espaço”. Este título foi bastante copiado, inclusive na própria Senhor (quando aproveitaram, sorrateiramente, umas férias minhas). Mas é de minha lavra e tenho dito. Outro que eu gosto fiz para a revista da Fiesp na inauguração do centro cultural : “Às artes, cidadãos”. Já que ninguém comenta esta coluna, por que vocês não enviam seus títulos favoritos? Vamos, participem, trabalhem um pouco. Forças!
TODOS CONCLUEM - A falta de filosofia no segundo grau tem sido o motivo das dificuldades de costura nos textos jornalísticos. Como não há formação filosófica, empilham-se declarações e o máximo que se consegue é fazer uma fonte concordar com a outra, ou, para fechar a matéria, concluir no ponto final. É muito simples: vocês conhecem alguma empresa de comunicação com biblioteca? E com bibliotecário(a) contratado(a)? Uma vez um repórter formado em comunicação me disse que jamais tinha lido um livro. Emprestei Sagarana, de Guimarães Rosa. Um ano depois, pedi de volta. Ele não tinha lido. E isso que é um livro de contos, poderia pelo menos terminar de ler uma das histórias. Num desses contos maravilhosos, O Duelo, Rosa escreveu o mais belo desfecho existente na literatura: “Depois, morreu”. Isso sim é que é final de texto. Poderia servir de lição para os repórteres.
RETORNO – Este pé de coluna não vai mais se chamar Atenção, já que não temos alto-falante. O Retorno de hoje é a bronca que eu levei do meu irmão Luís Carlos, que tem doutorado em Qualidade de Software pela USC, dos Estados Unidos. Ele reclamou que o título da minha nota sobre ele foi “Redator PC” e que isso estaria gerando deboches entre colegas. Avisei que eu é que estava envolvido com o extinto software, mas pensando melhor, até que fui muito generoso, pois poderia lembrar sua época de cartões perfurados. Mas fica o registro: Luís Carlos é doutor em Tecnologia de Informação e dá de dez em todo mundo. O problema é que, com a bronca, ele perdeu o direito a um pastel de queijo grátis, pois o brinde é apenas para quem faz comentário favorável.
MEMÓRIA E ENCANTAMENTO – Hoje é domingo, precisamos conectar com algo muito acima de nós. Vou transcrever um trecho (curtinho) de Proust, do capítulo Combray, do livro No Caminho de Swan, de sua obra monumental Em Busca do Tempo Perdido, tradução de Mario Quintana: “Mas quando mais nada subsistisse de um passado remoto, após a morte das criaturas e a destruição das coisas, - sozinhos, mais frágeis porém mais vivos, mais imateriais, mais persistentes, mais fiéis, - o odor e o sabor permanecem ainda por muito tempo, como almas, lembrando, aguardando, esperando, sobre as ruínas de tudo o mais, e suportando sem ceder, em sua gotícula impalpável, o edifício imenso da recordação.” A França tem uma identidade definitiva, entre tantas outras: o poder encantatório de sua cultura. Servem como exemplos, além de Proust, Saint-Exupery em Terra dos Holmens e no seu poema O Pequeno Príncipe, tão amado quanto injustamente mal-afamado. No mesmo caminho, o filme “O fabuloso Destino de Amélie Poulain”, que aborda a solidariedade anônima, a timidez que procura superar-se pela tocaia amorosa e Paris pintada sobre a fotografia. O diretor do filme, muito politicamente correto, fala mal da sua obra dizendo que é preciso ter cuidado, pois Paris não é a mesma do filme. Esquece-se do encanto da cultura a qual pertence (talvez sinta vergonha do que faz parte dele poderosamente). Basta a cena do metrô vazio, com Amélie encontrando o cego com um toca-disco no colo. O filme fez o maior sucesso, o que, para muitos, depõe contra ele. Pois nem quero saber: gosto de Saint-Exupery e de Amélie Poulain, assim como gosto de Godard. Gosto da França. Quem não gosta?
TÍTULOS – “Nem tambores nem clarins “ era o título que meu amigo Wagner Carelli gostaria de usar em alguma matéria sua, o que nunca aconteceu, claro, já que Carelli, além de um magnífico debochado, é mestre da linguagem e quando decide escrever, o País treme. Mas Wagner será assunto de um perfil futuro, portanto, vamos nos concentrar nos títulos. Não sou fã ardoroso dos títulos apelativos, tipo Notícias Populares, como o clássico “Cachorro faz mal à moça”, que se referia à internação hospitalar de alguém que arriscou em comida de rua. Nem dos que clonam exaustivamente títulos literários, como o já citado aqui “Crônica de uma morte anunciada”, que dá deu para bola de tanta repetição. Título hoje, por pressão dos manuais, obedece a hábitos horrorosos. Está cheio de “quer” e “diz” e verbos intragáveis como “sinalizam “ ou “alavancam”. O melhor título que eu conheço foi feito pelo Sérgio de Souza no jornal semanal do Samuel Wainer, Aqui, São Paulo, sobre uma exposição de pintura do ex-presidente Jânio Quadros, que voltava de longo exílio voluntário: “Jânio? Quadros?” era o título magistral. O Aqui, São Paulo existiu entre 1977 e 1979, época da anistia. Foi quando conheci o Samuel Wainer, que será também pauta de um perfil de sábado (hoje estou cheio de promessas). “A volta do Setembro Negro” é um dos meus títulos favoritos da Veja, com a capa mostrando a foto granulada de um terrorista com capuz. Não parece ser um grande título, mas mexe comigo, assíduo espectador dos seriados nas matinês dos anos 50. Para variar, um título dos meus, que fiz quando estava na revista Senhor, do Mino Carta (outro que terá um perfil aqui na coluna) dos anos 80. Foi na seção de Ciência e Tecnologia e a matéria era sobre o satélite brasileiro que estava sendo lançado: “O Brasil vai para o espaço”. Este título foi bastante copiado, inclusive na própria Senhor (quando aproveitaram, sorrateiramente, umas férias minhas). Mas é de minha lavra e tenho dito. Outro que eu gosto fiz para a revista da Fiesp na inauguração do centro cultural : “Às artes, cidadãos”. Já que ninguém comenta esta coluna, por que vocês não enviam seus títulos favoritos? Vamos, participem, trabalhem um pouco. Forças!
TODOS CONCLUEM - A falta de filosofia no segundo grau tem sido o motivo das dificuldades de costura nos textos jornalísticos. Como não há formação filosófica, empilham-se declarações e o máximo que se consegue é fazer uma fonte concordar com a outra, ou, para fechar a matéria, concluir no ponto final. É muito simples: vocês conhecem alguma empresa de comunicação com biblioteca? E com bibliotecário(a) contratado(a)? Uma vez um repórter formado em comunicação me disse que jamais tinha lido um livro. Emprestei Sagarana, de Guimarães Rosa. Um ano depois, pedi de volta. Ele não tinha lido. E isso que é um livro de contos, poderia pelo menos terminar de ler uma das histórias. Num desses contos maravilhosos, O Duelo, Rosa escreveu o mais belo desfecho existente na literatura: “Depois, morreu”. Isso sim é que é final de texto. Poderia servir de lição para os repórteres.
RETORNO – Este pé de coluna não vai mais se chamar Atenção, já que não temos alto-falante. O Retorno de hoje é a bronca que eu levei do meu irmão Luís Carlos, que tem doutorado em Qualidade de Software pela USC, dos Estados Unidos. Ele reclamou que o título da minha nota sobre ele foi “Redator PC” e que isso estaria gerando deboches entre colegas. Avisei que eu é que estava envolvido com o extinto software, mas pensando melhor, até que fui muito generoso, pois poderia lembrar sua época de cartões perfurados. Mas fica o registro: Luís Carlos é doutor em Tecnologia de Informação e dá de dez em todo mundo. O problema é que, com a bronca, ele perdeu o direito a um pastel de queijo grátis, pois o brinde é apenas para quem faz comentário favorável.
13 de setembro de 2003
JORNALISMO-DE-BREQUE
Professores e estudantes universitários visitam a coluna e emprestam seu prestígio com suas leituras e comentários. Neste primeiro sábado do Diário da Fonte, uma edição especial com a estréia de uma seção, a de perfis de jornalistas com os quais trabalhei.
EDUCAÇÃO ON-LINE - Zelia Leal Adghirni, da Universidade de Brasília, minha amiga de longa data, escreve dizendo que lê a coluna atentamente como professora de jornalismo. Seu doutorado é sobre o jornalismo on-line. Sua carta funcionou como uma sugestão: como devo entender desse assunto não tanto pela longevidade, mas pela insistência, decidi focar mais a coluna nessa área, poupando meus poucos, mas fiéis leitores, das “dizidas” sobre política. Publiquei a primeira matéria em 1969 (as datas não foram feitas para assustar ninguém) numa revista de Porto Alegre (que teve alguns números e um nome do qual não me lembro) e era sobre a influência da TV na educação. Começava com um fato real: uma aluna do primeiro grau levantou os olhos numa prova e implorou: “Topo Gigio, ajudai-me”, o que revela o caráter de divindidade que adquiriu um personagem, um rato, imposto goela abaixo na meninada. Contra Topo Gigio insurgiu-se o Sig, o rato do Pasquim. Sou do tempo do Pasquim, do Tarso de Castro, um inventor de jornais e sobre o qual demoram as reproduções de seus antológicos textos. Recebo inúmeras mensagens de jornalistas, estudantes e professores de comunicação e sinto que há grande falta de abordagens vivas sobre nossa imprensa. Sorte que contamos com Zélia na UNB e Francisco Karam, na Universidade Federal de Santa Catarina, dois luminosos professores do jornalismo pátrio, a quem as novas gerações devem agradecer todos os dias.
REDATOR PC – O professor Luiz Carlos Duclós, da PUC do Paraná, que orienta a pós graduação em Tecnologia de Informação, também me retribui o convite para visitar a coluna. Graças ao Luiz Carlos, meu irmão tão próximo que nos chamavam de gêmeos quando crianças (o que é uma injustiça a ele) é que entrei no mundo da informática. Posso dizer que até há pouco tempo guardei uma relíquia, meu diploma de Redator PC, assinado por ele, pois Luiz Carlos é pioneiro na implantação da cultura digital no País. Foi professor tanto em Blumenau quanto em Florianópolis, hoje dois pólos importantes em tecnologia de informação. Luiz Carlos, como empresário de serviços sob medida em software, também foi o publisher de um jornal que criei junto com o Fortuna, o gênio do traço e da arte e que infelizmente não está mais entre nós. Fizemos, Fortuna, eu e o fotógrafo/artista Ayrton de Magalhães, o Softpress, que no terceiro número ganhou (1988) um Prêmio Aberje (Destaque de Texto). Eram apenas quatro páginas, mas lembro que, ao lançarmos, a assessoria de imprensa da Microsoft nos enviou um telegrama elogiando o jornal e falando que Softpress era a melhor newsletter surgida no Brasil naquela época. Fortuna, gênio absoluto da raça, também merece ser resgatado. Foi ele, com suas duas páginas de humor no Correio da Manhã (acho que era o Correio) que revelou talentos como o Ziraldo, recém chegado de Minas Gerais, entre muitos outros. Honra e glórias eternas.
VAIDADES – Vocês notaram que, para muitos repórteres de televisão, o que importa é o crédito? Digam o que disserem, a ênfase vem sempre no final: “Fulano de Tal (pausa!), de Caixa-Prego”. A pausa também é usada no meio da reportagem. Podem notar: é um falso suspense, criado para dizer...obviedades. É o que eu chamo de jornalismo-de-breque, que faz súbito e provisório silêncio para tentar surpreender o telespectador. Ao contrário do samba, onde o breque cai muito bem, no jornalismo o recurso torna-se gasto pelo excesso de uso.
Perfil – Jorge Escosteguy
UM SOPRO NO CORAÇÃO – Escrevi este texto sobre o Jorge Escosteguy, jornalista de primeira água nascido em Livramento (terra de jornalistas) e que me abriu as portas de São Paulo me encaminhando primeiro para a Veja (onde publiquei resenhas de livros), depois para a Folha de São Paulo (onde fui redator, repórter e crítico musical da Ilustrada entre 1977 e 1979). É absolutamente inédito e inaugura minha seção de perfis .
Os cardíacos criados no pampa crescem com uma desvantagem: precisam provar que são feitos da mesma têmpera da cultura local, mais afeita à luta do que ao descanso, mais ligada ao aço do que à pena. Esse esforço gera uma energia extra no gaúcho escolhido pela natureza para defender-se mas que, por uma questão de princípios, é educado para o ataque.
Jorge Escosteguy tinha essa marca desde a infância. Sua sorte foi ter nascido em Livramento, terra de tradição jornalística, onde o principal veículo, A Platéia, acolheu-o cedo, abrindo a porta para que ele, um passional, pudesse desenvolver nas redações uma dureza rústica típica de sua terra. Por força do seu destino, aos poucos ele entregou-se à oscilação entre a rispidez e a amizade que regem as relações humanas nesta profissão demasiada humana.
Na medida em que foi mudando de emprego, em direção a Porto Alegre, Florianópolis, São Paulo, Rio de Janeiro ou o Nordeste, ele continuou lutando com essa divisão entre o coração e a couraça, na longa carreira e curta vida, bruscamente interrompidas por um enfarte, às vésperas de completar 50 anos. Seu ritmo era definido pela vontade de romper barreiras, como se obedecesse às batidas extras de uma válvula mitral prejudicada. Sua pressa era de quem procurava escapar do aviso permanente que vinha do peito. O corpo pedia prudência, mas a vocação apontava para o excesso.
Talvez viesse daí duas paixões, os cavalos e Charlie Parker. No Jocquey, ele encontrava a mesma velocidade que imprimia nas suas rotinas e, ao mesmo tempo, aprendia a conviver com o pique que o atormentava. E no jazz ele podia mergulhar num universo feito apenas de nervos estirados, fervilhando sob a beleza sonora que tinha o dom de criar equilíbrio e calma.
A paixão decisiva, o jornal diário, era o território dessa convivência entre opostos onde, por exemplo, o talento para o disfarce consegue duelar com a sinceridade crua. Assim, Scotch acabou assumindo as múltiplas faces que o jornalismo é capaz de formatar. Mas em todos os segmentos onde trabalhou - revista, assessoria de imprensa, televisão, campanha política - foi fiel ao tranco da notícia diária, imprevista, estressante. Nessa corrida, procurava escapar dos médicos, que o lembravam da mais áspera herança do pampa úmido e polar: as seqüelas da febre reumática.
A morte levou-o cedo, no auge da carreira. O coração, tantas vezes exigido, negou-lhe fogo uma única e definitiva vez. O corpo endurecido pela vida só podia cair assim de surpresa, num golpe súbito. Um cardíaco criado no pampa não pode dar-se ao luxo de entregar-se. Ele costuma estar na mira dos outros guerreiros, que ficam sempre de guarda.
Atenção: Recebi também mensagens de Ana Huffel, que é poeta, irmã do Marco Celso Viola, que continua oculto, e de Mônica Serrano, atualmente mergulhada numa monografia sobre jornalismo econômico. Como já anunciei aqui, todos os que enviaram mensagens (favoráveis) têm direito a um pastel de queijo da Pastelândia. É só apresentar o vale-Diário da Fonte que, pronto, sai na hora. Ou me convidar para uma rodada, que eu pago.
EDUCAÇÃO ON-LINE - Zelia Leal Adghirni, da Universidade de Brasília, minha amiga de longa data, escreve dizendo que lê a coluna atentamente como professora de jornalismo. Seu doutorado é sobre o jornalismo on-line. Sua carta funcionou como uma sugestão: como devo entender desse assunto não tanto pela longevidade, mas pela insistência, decidi focar mais a coluna nessa área, poupando meus poucos, mas fiéis leitores, das “dizidas” sobre política. Publiquei a primeira matéria em 1969 (as datas não foram feitas para assustar ninguém) numa revista de Porto Alegre (que teve alguns números e um nome do qual não me lembro) e era sobre a influência da TV na educação. Começava com um fato real: uma aluna do primeiro grau levantou os olhos numa prova e implorou: “Topo Gigio, ajudai-me”, o que revela o caráter de divindidade que adquiriu um personagem, um rato, imposto goela abaixo na meninada. Contra Topo Gigio insurgiu-se o Sig, o rato do Pasquim. Sou do tempo do Pasquim, do Tarso de Castro, um inventor de jornais e sobre o qual demoram as reproduções de seus antológicos textos. Recebo inúmeras mensagens de jornalistas, estudantes e professores de comunicação e sinto que há grande falta de abordagens vivas sobre nossa imprensa. Sorte que contamos com Zélia na UNB e Francisco Karam, na Universidade Federal de Santa Catarina, dois luminosos professores do jornalismo pátrio, a quem as novas gerações devem agradecer todos os dias.
REDATOR PC – O professor Luiz Carlos Duclós, da PUC do Paraná, que orienta a pós graduação em Tecnologia de Informação, também me retribui o convite para visitar a coluna. Graças ao Luiz Carlos, meu irmão tão próximo que nos chamavam de gêmeos quando crianças (o que é uma injustiça a ele) é que entrei no mundo da informática. Posso dizer que até há pouco tempo guardei uma relíquia, meu diploma de Redator PC, assinado por ele, pois Luiz Carlos é pioneiro na implantação da cultura digital no País. Foi professor tanto em Blumenau quanto em Florianópolis, hoje dois pólos importantes em tecnologia de informação. Luiz Carlos, como empresário de serviços sob medida em software, também foi o publisher de um jornal que criei junto com o Fortuna, o gênio do traço e da arte e que infelizmente não está mais entre nós. Fizemos, Fortuna, eu e o fotógrafo/artista Ayrton de Magalhães, o Softpress, que no terceiro número ganhou (1988) um Prêmio Aberje (Destaque de Texto). Eram apenas quatro páginas, mas lembro que, ao lançarmos, a assessoria de imprensa da Microsoft nos enviou um telegrama elogiando o jornal e falando que Softpress era a melhor newsletter surgida no Brasil naquela época. Fortuna, gênio absoluto da raça, também merece ser resgatado. Foi ele, com suas duas páginas de humor no Correio da Manhã (acho que era o Correio) que revelou talentos como o Ziraldo, recém chegado de Minas Gerais, entre muitos outros. Honra e glórias eternas.
VAIDADES – Vocês notaram que, para muitos repórteres de televisão, o que importa é o crédito? Digam o que disserem, a ênfase vem sempre no final: “Fulano de Tal (pausa!), de Caixa-Prego”. A pausa também é usada no meio da reportagem. Podem notar: é um falso suspense, criado para dizer...obviedades. É o que eu chamo de jornalismo-de-breque, que faz súbito e provisório silêncio para tentar surpreender o telespectador. Ao contrário do samba, onde o breque cai muito bem, no jornalismo o recurso torna-se gasto pelo excesso de uso.
Perfil – Jorge Escosteguy
UM SOPRO NO CORAÇÃO – Escrevi este texto sobre o Jorge Escosteguy, jornalista de primeira água nascido em Livramento (terra de jornalistas) e que me abriu as portas de São Paulo me encaminhando primeiro para a Veja (onde publiquei resenhas de livros), depois para a Folha de São Paulo (onde fui redator, repórter e crítico musical da Ilustrada entre 1977 e 1979). É absolutamente inédito e inaugura minha seção de perfis .
Os cardíacos criados no pampa crescem com uma desvantagem: precisam provar que são feitos da mesma têmpera da cultura local, mais afeita à luta do que ao descanso, mais ligada ao aço do que à pena. Esse esforço gera uma energia extra no gaúcho escolhido pela natureza para defender-se mas que, por uma questão de princípios, é educado para o ataque.
Jorge Escosteguy tinha essa marca desde a infância. Sua sorte foi ter nascido em Livramento, terra de tradição jornalística, onde o principal veículo, A Platéia, acolheu-o cedo, abrindo a porta para que ele, um passional, pudesse desenvolver nas redações uma dureza rústica típica de sua terra. Por força do seu destino, aos poucos ele entregou-se à oscilação entre a rispidez e a amizade que regem as relações humanas nesta profissão demasiada humana.
Na medida em que foi mudando de emprego, em direção a Porto Alegre, Florianópolis, São Paulo, Rio de Janeiro ou o Nordeste, ele continuou lutando com essa divisão entre o coração e a couraça, na longa carreira e curta vida, bruscamente interrompidas por um enfarte, às vésperas de completar 50 anos. Seu ritmo era definido pela vontade de romper barreiras, como se obedecesse às batidas extras de uma válvula mitral prejudicada. Sua pressa era de quem procurava escapar do aviso permanente que vinha do peito. O corpo pedia prudência, mas a vocação apontava para o excesso.
Talvez viesse daí duas paixões, os cavalos e Charlie Parker. No Jocquey, ele encontrava a mesma velocidade que imprimia nas suas rotinas e, ao mesmo tempo, aprendia a conviver com o pique que o atormentava. E no jazz ele podia mergulhar num universo feito apenas de nervos estirados, fervilhando sob a beleza sonora que tinha o dom de criar equilíbrio e calma.
A paixão decisiva, o jornal diário, era o território dessa convivência entre opostos onde, por exemplo, o talento para o disfarce consegue duelar com a sinceridade crua. Assim, Scotch acabou assumindo as múltiplas faces que o jornalismo é capaz de formatar. Mas em todos os segmentos onde trabalhou - revista, assessoria de imprensa, televisão, campanha política - foi fiel ao tranco da notícia diária, imprevista, estressante. Nessa corrida, procurava escapar dos médicos, que o lembravam da mais áspera herança do pampa úmido e polar: as seqüelas da febre reumática.
A morte levou-o cedo, no auge da carreira. O coração, tantas vezes exigido, negou-lhe fogo uma única e definitiva vez. O corpo endurecido pela vida só podia cair assim de surpresa, num golpe súbito. Um cardíaco criado no pampa não pode dar-se ao luxo de entregar-se. Ele costuma estar na mira dos outros guerreiros, que ficam sempre de guarda.
Atenção: Recebi também mensagens de Ana Huffel, que é poeta, irmã do Marco Celso Viola, que continua oculto, e de Mônica Serrano, atualmente mergulhada numa monografia sobre jornalismo econômico. Como já anunciei aqui, todos os que enviaram mensagens (favoráveis) têm direito a um pastel de queijo da Pastelândia. É só apresentar o vale-Diário da Fonte que, pronto, sai na hora. Ou me convidar para uma rodada, que eu pago.
12 de setembro de 2003
POSTURA DE AUTOR
POSTURA DE AUTOR
Como uma pessoa – que representa 10% dos meus leitores fixos – reclamou dos palavrões da coluna de ontem, vamos falar hoje de coisas mais amenas, mas não menos importantes. Nesta época de tantos deveres e “direitchos”, precisamos ficar atentos ao que realmente interessa. Como, apesar dos manuais, jornalismo não precisa obedecer a cânone nenhum, apenas o da eficiência e criatividade, vamos a um nariz de cera supimpa antes de chegar no lead.
IMAGEM – Quantas vezes nos flagramos falando “o brasileiro?” Muita gente já comentou isso, especialmente o João Ubaldo Ribeiro, de que o brasileiro está fora de nós, brasileiro são os outros. A origem desse embrulho é que temos duas palavras que significam a mesma coisa: povo e gente, que no inglês é uma só, people. Lá, o povo são as pessoas, aqui, o povo são as pessoas pobres. Por que o Brasil tem imagem tão ruim no Exterior? Porque nos convencemos internamente que temos um “povinho” (nós, não, nós somos ingleses, italianos, russos ou franceses). A baixa auto-estima costuma revelar-se pela patriotada. Qualquer bronze nos enche de lágrimas. Qualquer vitória apertada contra Colômbia (que deixou no banco o Arristizábal) cria uma euforia pré final da Copa de 50. Aí chega o Equador, quase empata, e todo mundo cai em parafuso. Cada país tem a imagem que projeta para o Exterior. A auto-imagem do alemão é o da competência em todas as áreas, da tecnologia à cultura. E é isso que vemos, apesar do nazismo que manchou a História da grande nação.
PATRIOTADAS - Atualmente, vivemos novo surto de patriotadas, parecida com a que tivemos na época do milagre econômico, nos anos 70, quando o Delfim Netto subornou a classe média aumentando perigosamente os níveis da dívida externa – o que continuam fazendo, alegremente, em pleno populismo de Lula, o líder que se fez a partir da crítica acadêmica do populismo trabalhista. Lula esquece que ele pôde sobreviver e fazer política graças ao velho trabalhismo – como disse o Brizola, “quando Lula chegou no ABC, o sindicato estava lá porque o Getúlio tinha garantido a existência sindical com a presença da polícia”. Não há motivos para euforias. Líderes populares estão sendo presos e falcatruas perdoadas uma atrás da outra, apesar do esforço dessa brilhante geração de promotores públicos, que se um dia assumirem o poder o Brasil terá chances reais de mudar. Na Argentina é diferente: lá eles não brincam em serviço. Eles possuem uma auto-imagem de grandeza e revoltam-se quando o governo não se comporta à altura. Não se trata de patriotadas, mas de verdadeira auto-estima, pois quando foram para o fundo do poço, mergulharam com tudo. Os argentinos olham no olho do furacão e gritam: “o que há? Vai encarar?” Isso chama-se coragem. É por isso que conseguem gerar um presidente como esse surpreendente Kirchner, que está dando banho de bola no Lula (o presidente do discurso furado, do choro fácil e do exibicionismo ridículo) .
AUTORIA – Todo esse vasto nariz de cera é para falar sobre um assunto que debati ontem com Tomás May, fotógrafo inconformado com a placidez entre nós, brasileiros, que a tudo nos adaptamos e não lutamos para mudar. Atenção: Tomás, que é uma santa criatura, falou apenas do aspecto profissional, e não do político, já que ele nada tem a ver com minhas posições aqui. Falei para ele – que me deu a honra de uma visita aqui em casa - da importância da auto-estima e de assumir a postura de autor, uma coisa muito comum na minha geração e que hoje está mais rara (a não ser é claro, entre os aproveitadores de sempre). Quero dizer o seguinte: o talento, nos anos 60 e 70, assumia uma postura autoral e tentava abrir caminho com isso. Hoje o talento está confinado na dúvida, muitas pessoas talentosas não costumam assumir essa postura, para grande prejuízo pessoal e coletivo. É preciso ter certeza sobre seu talento, sua criatividade, sem deixar de lado, claro, a auto-crítica (o que é bem diferente da baixa auto-estima). Não estou falando em vaidade, mas confiança nas próprias forças. O que repassamos aos outros são nossas certezas e dúvidas. Se você é um autor de verdade, não vá repassar a responsabilidade da avaliação do seu trabalho para os outros. Você avalia, e os outros fatalmente concordarão. Pois não há crítico maior do que nós mesmos. Nós sabemos onde o galo canta.
TUDO CONTIGO - Então não tenha dúvidas: assuma-se como artista, escritor, poeta. Seja o jornalista dos seus sonhos. Faça a foto que vai mudar o mundo. Não tenha vergonha. Projete sua auto-estima. Assuma a posição de autor. Da mesma forma: tenha certeza sobre a força do Brasil, mas não desista de criticá-lo. Não vá bater no peito e cantar o hino na frente das câmaras enquanto o povo continua sendo torturado e o governo continua o mesmo sempre.
Atenção: onde lê-se autor, leia-se também autora. Onde lê-se fotógrafo, leia-se também fotógrafa. Minha formação é pré-Sarney, antes do "Brasileiros e brasileiras". Sou do tempo do "Trabalhadores do Brasil".
Mais um atenção: quem comentar (favoravelmente, é claro, não tenho mais idade para polêmicas) estas notas, ganhará, como o pobre do Tomás May ontem, um pastel de queijo da Pastelândia como prêmio. Quem for contra, terá também direito a pastel, mas aí tem que pagar e me oferecer um.
Como uma pessoa – que representa 10% dos meus leitores fixos – reclamou dos palavrões da coluna de ontem, vamos falar hoje de coisas mais amenas, mas não menos importantes. Nesta época de tantos deveres e “direitchos”, precisamos ficar atentos ao que realmente interessa. Como, apesar dos manuais, jornalismo não precisa obedecer a cânone nenhum, apenas o da eficiência e criatividade, vamos a um nariz de cera supimpa antes de chegar no lead.
IMAGEM – Quantas vezes nos flagramos falando “o brasileiro?” Muita gente já comentou isso, especialmente o João Ubaldo Ribeiro, de que o brasileiro está fora de nós, brasileiro são os outros. A origem desse embrulho é que temos duas palavras que significam a mesma coisa: povo e gente, que no inglês é uma só, people. Lá, o povo são as pessoas, aqui, o povo são as pessoas pobres. Por que o Brasil tem imagem tão ruim no Exterior? Porque nos convencemos internamente que temos um “povinho” (nós, não, nós somos ingleses, italianos, russos ou franceses). A baixa auto-estima costuma revelar-se pela patriotada. Qualquer bronze nos enche de lágrimas. Qualquer vitória apertada contra Colômbia (que deixou no banco o Arristizábal) cria uma euforia pré final da Copa de 50. Aí chega o Equador, quase empata, e todo mundo cai em parafuso. Cada país tem a imagem que projeta para o Exterior. A auto-imagem do alemão é o da competência em todas as áreas, da tecnologia à cultura. E é isso que vemos, apesar do nazismo que manchou a História da grande nação.
PATRIOTADAS - Atualmente, vivemos novo surto de patriotadas, parecida com a que tivemos na época do milagre econômico, nos anos 70, quando o Delfim Netto subornou a classe média aumentando perigosamente os níveis da dívida externa – o que continuam fazendo, alegremente, em pleno populismo de Lula, o líder que se fez a partir da crítica acadêmica do populismo trabalhista. Lula esquece que ele pôde sobreviver e fazer política graças ao velho trabalhismo – como disse o Brizola, “quando Lula chegou no ABC, o sindicato estava lá porque o Getúlio tinha garantido a existência sindical com a presença da polícia”. Não há motivos para euforias. Líderes populares estão sendo presos e falcatruas perdoadas uma atrás da outra, apesar do esforço dessa brilhante geração de promotores públicos, que se um dia assumirem o poder o Brasil terá chances reais de mudar. Na Argentina é diferente: lá eles não brincam em serviço. Eles possuem uma auto-imagem de grandeza e revoltam-se quando o governo não se comporta à altura. Não se trata de patriotadas, mas de verdadeira auto-estima, pois quando foram para o fundo do poço, mergulharam com tudo. Os argentinos olham no olho do furacão e gritam: “o que há? Vai encarar?” Isso chama-se coragem. É por isso que conseguem gerar um presidente como esse surpreendente Kirchner, que está dando banho de bola no Lula (o presidente do discurso furado, do choro fácil e do exibicionismo ridículo) .
AUTORIA – Todo esse vasto nariz de cera é para falar sobre um assunto que debati ontem com Tomás May, fotógrafo inconformado com a placidez entre nós, brasileiros, que a tudo nos adaptamos e não lutamos para mudar. Atenção: Tomás, que é uma santa criatura, falou apenas do aspecto profissional, e não do político, já que ele nada tem a ver com minhas posições aqui. Falei para ele – que me deu a honra de uma visita aqui em casa - da importância da auto-estima e de assumir a postura de autor, uma coisa muito comum na minha geração e que hoje está mais rara (a não ser é claro, entre os aproveitadores de sempre). Quero dizer o seguinte: o talento, nos anos 60 e 70, assumia uma postura autoral e tentava abrir caminho com isso. Hoje o talento está confinado na dúvida, muitas pessoas talentosas não costumam assumir essa postura, para grande prejuízo pessoal e coletivo. É preciso ter certeza sobre seu talento, sua criatividade, sem deixar de lado, claro, a auto-crítica (o que é bem diferente da baixa auto-estima). Não estou falando em vaidade, mas confiança nas próprias forças. O que repassamos aos outros são nossas certezas e dúvidas. Se você é um autor de verdade, não vá repassar a responsabilidade da avaliação do seu trabalho para os outros. Você avalia, e os outros fatalmente concordarão. Pois não há crítico maior do que nós mesmos. Nós sabemos onde o galo canta.
TUDO CONTIGO - Então não tenha dúvidas: assuma-se como artista, escritor, poeta. Seja o jornalista dos seus sonhos. Faça a foto que vai mudar o mundo. Não tenha vergonha. Projete sua auto-estima. Assuma a posição de autor. Da mesma forma: tenha certeza sobre a força do Brasil, mas não desista de criticá-lo. Não vá bater no peito e cantar o hino na frente das câmaras enquanto o povo continua sendo torturado e o governo continua o mesmo sempre.
Atenção: onde lê-se autor, leia-se também autora. Onde lê-se fotógrafo, leia-se também fotógrafa. Minha formação é pré-Sarney, antes do "Brasileiros e brasileiras". Sou do tempo do "Trabalhadores do Brasil".
Mais um atenção: quem comentar (favoravelmente, é claro, não tenho mais idade para polêmicas) estas notas, ganhará, como o pobre do Tomás May ontem, um pastel de queijo da Pastelândia como prêmio. Quem for contra, terá também direito a pastel, mas aí tem que pagar e me oferecer um.
11 de setembro de 2003
CALCANHAR DE FRIGIDEIRA
Diário da Fonte
CALCANHAR DE FRIGIDEIRA
Hoje vamos ser mais explícitos sobre alguns assuntos, como publicidade, televisão, cinema e jornalismo. Tudo em pequenas gotas, o que não significa que sejam homeopáticas. Especialmente se elas saírem das águas da fronteira.
FORUM - Estão chamando de polêmica a publicidade da Dona Flor e Seus Dois Maridos, da Fórum. O problema não é o mau gosto de um guri de merda enrabar uma guria idem, para todo mundo achar uma gracinha, mas é o espaço que esse tipo de porcaria ocupa. Por exemplo: toda a capa da Ilustrada já foi dominada pelas imagens da campanha ridícula. Você pega o caderno para ler algo que lhe interesse na área da cultura e do espetáculo e dá de cara com a representação apelativa de um ato sexual feito por crianças mimadas. No lugar de uma reportagem, de uma foto relacionada com a informação e a cultura, o que temos é a imposição publicitária de uma escatologia. Isso não é polêmico, é só uma maneira fajuta de chamar a atenção e assim justificar a grana preta que se investe nesse tipo de droga.
A CENA DO MIJO – Agora é moda nos enfiar goela abaixo toda espécie de porcaria. No cinema americano, é obrigatória a cena do mijo: em algum momento, em algum lugar, alguém vai mijar. Ou no banheiro, ou na estrada, ou no quintal. Se a cena aparece no início do filme, fico aliviado: bem, já cumpriram a lei que obriga a ter essa cena, agora o filme vai transcorrer mais tranqüilo. Pode acontecer com o personagem principal, o secundário ou o extra: sempre tem alguém mijando. Por quê? Para quê? Parecem que eles nacionalizaram o ditado. Agora é assim: “Quando um americano mija, todos mijam”. Outra coisa intragável é a quantidade de nojeiras que os americanos fazem com a comida, com suas secreções e não vou mais entrar em detalhes, pois escrevo esta coluna na minha casa. Especialmente nas comédias, onde pontificam monstros como esse Jim Carrey. Sem falar nas bundas que pulam em close-up de um momento para outro, em filmes em que você menos espera. São cenas colocadas à força. Eles fazem questão de mostrar explicitamente o que deveria ser elegantemente sugerido. Como se sexo fosse exclusivamente físico e desse labirinto não devêssemos sair.
MAKING-OFF, A CHATEAÇÃO – Não dá mais para aturar atores falando dos seus “personagens”, referindo-se a eles na terceira pessoa como se isso fosse algo interessante. A televisão é apenas a vitrine publicitária do cinema comercial. O pior é o fingimento: todos os atores se admiram, quando não se amam. O que se destaca com isso é que nenhum deles assume qualquer responsabilidade sobre o que fazem. Vocês viram o quanto o Mel Gibson é cristão, depois de difundir a violência sem parar em inúmeros filmes apelativos?
A TV deveria mostrar menos making-off e mais filmes. Fazem-se milhões de filmes e só meia dúzia entram na programação.
CONSTRANGIMENTOS – Pobre Alex. O grande craque é obrigado a conviver com o deboche dos jornalistas que fazem perguntas como “o Kaká entrou no seu lugar e no primeiro lance fez o gol; como você vê isso?” O coitado então responde “normal”. E o senador Eduardo Suplicy, que também tem que achar “normal” (a resposta da hora) o fato de o presidente da República e a primeira dama serem os padrinhos do casamento da sua ex-mulher, a prefeita? Que casem, que sejam padrinhos, mas precisa alguém ir lá perguntar ao Suplicy? “E aí senador, como o sr. vê isso?”. O que queriam? Que o senador virasse um homem da fronteira e respondesse com os célebres versinhos: “Correntino pé de chumbo/ calcanhar de frigideira/, quem te deu a liberdade/ de casar com brasileira”? Não me perguntem o que é calcanhar de frigideira. Conheço os versinhos desde criança, mas nunca entendi a estrofe inteira, embora saiba exatamente o que ela quer dizer. Parodiando o Martin Fierro: explícito por explícito, prefiro o da fronteira.
CALCANHAR DE FRIGIDEIRA
Hoje vamos ser mais explícitos sobre alguns assuntos, como publicidade, televisão, cinema e jornalismo. Tudo em pequenas gotas, o que não significa que sejam homeopáticas. Especialmente se elas saírem das águas da fronteira.
FORUM - Estão chamando de polêmica a publicidade da Dona Flor e Seus Dois Maridos, da Fórum. O problema não é o mau gosto de um guri de merda enrabar uma guria idem, para todo mundo achar uma gracinha, mas é o espaço que esse tipo de porcaria ocupa. Por exemplo: toda a capa da Ilustrada já foi dominada pelas imagens da campanha ridícula. Você pega o caderno para ler algo que lhe interesse na área da cultura e do espetáculo e dá de cara com a representação apelativa de um ato sexual feito por crianças mimadas. No lugar de uma reportagem, de uma foto relacionada com a informação e a cultura, o que temos é a imposição publicitária de uma escatologia. Isso não é polêmico, é só uma maneira fajuta de chamar a atenção e assim justificar a grana preta que se investe nesse tipo de droga.
A CENA DO MIJO – Agora é moda nos enfiar goela abaixo toda espécie de porcaria. No cinema americano, é obrigatória a cena do mijo: em algum momento, em algum lugar, alguém vai mijar. Ou no banheiro, ou na estrada, ou no quintal. Se a cena aparece no início do filme, fico aliviado: bem, já cumpriram a lei que obriga a ter essa cena, agora o filme vai transcorrer mais tranqüilo. Pode acontecer com o personagem principal, o secundário ou o extra: sempre tem alguém mijando. Por quê? Para quê? Parecem que eles nacionalizaram o ditado. Agora é assim: “Quando um americano mija, todos mijam”. Outra coisa intragável é a quantidade de nojeiras que os americanos fazem com a comida, com suas secreções e não vou mais entrar em detalhes, pois escrevo esta coluna na minha casa. Especialmente nas comédias, onde pontificam monstros como esse Jim Carrey. Sem falar nas bundas que pulam em close-up de um momento para outro, em filmes em que você menos espera. São cenas colocadas à força. Eles fazem questão de mostrar explicitamente o que deveria ser elegantemente sugerido. Como se sexo fosse exclusivamente físico e desse labirinto não devêssemos sair.
MAKING-OFF, A CHATEAÇÃO – Não dá mais para aturar atores falando dos seus “personagens”, referindo-se a eles na terceira pessoa como se isso fosse algo interessante. A televisão é apenas a vitrine publicitária do cinema comercial. O pior é o fingimento: todos os atores se admiram, quando não se amam. O que se destaca com isso é que nenhum deles assume qualquer responsabilidade sobre o que fazem. Vocês viram o quanto o Mel Gibson é cristão, depois de difundir a violência sem parar em inúmeros filmes apelativos?
A TV deveria mostrar menos making-off e mais filmes. Fazem-se milhões de filmes e só meia dúzia entram na programação.
CONSTRANGIMENTOS – Pobre Alex. O grande craque é obrigado a conviver com o deboche dos jornalistas que fazem perguntas como “o Kaká entrou no seu lugar e no primeiro lance fez o gol; como você vê isso?” O coitado então responde “normal”. E o senador Eduardo Suplicy, que também tem que achar “normal” (a resposta da hora) o fato de o presidente da República e a primeira dama serem os padrinhos do casamento da sua ex-mulher, a prefeita? Que casem, que sejam padrinhos, mas precisa alguém ir lá perguntar ao Suplicy? “E aí senador, como o sr. vê isso?”. O que queriam? Que o senador virasse um homem da fronteira e respondesse com os célebres versinhos: “Correntino pé de chumbo/ calcanhar de frigideira/, quem te deu a liberdade/ de casar com brasileira”? Não me perguntem o que é calcanhar de frigideira. Conheço os versinhos desde criança, mas nunca entendi a estrofe inteira, embora saiba exatamente o que ela quer dizer. Parodiando o Martin Fierro: explícito por explícito, prefiro o da fronteira.
10 de setembro de 2003
ANDY WARHOL PREVIU O BLOG!
Diário da Fonte
ANDY WARHOL PREVIU O BLOG!
Esta é uma chamada apelativa para algumas notas carregadas de diamantes. É o que acontece quando vemos tardiamente um grande filme e nos lembramos de coisas que estávamos há tempos querendo falar.
MUDAR PARA FICAR – As boas frases tornam-se incompreensíveis quando modificam-se por força do excesso de vezes em que são citadas. É o caso da famosa frase de Guiseppe Tomasi di Lampedusa no seu livro O Leopardo, que virou filme de Luchino Visconti, apresentado ontem no canal 21 (numa nova fase excelente). As citações erradas dizem o seguinte: "Se queremos que tudo fique como está, é preciso que tudo mude". Ou : "É preciso que tudo mude para ficar como está". Mas, pelo que vi e ouvi do filme, o certo é: “É preciso que algumas coisas mudem para tudo continuar na mesma”, o que é bem diferente. Não se trata de mudar tudo para ficar como está, o que seria um paradoxo. Mas sim de ceder em alguns pontos para manter o essencial, o que é a velha sabedoria dos poderosos.
QUESTÃO SOCIAL - Outras citações exaustivas, apesar de serem corretas, não avaliam as suas origens. É o caso da conhecida “a questão social é um caso de polícia”, proferida pelo presidente Washington Luís nos anos 20 do século passado. Esquece-se que o presidente era homem do século 19, criado, naturalmente, por pessoas formadas na mentalidade do final do século 18. Não estou justificando nada, apenas explicando o que os livros de História me ensinaram. No clássico “D. João Sexto no Brasil” , de Oliveira Lima, fica claro que o Marquês de Pombal, que assumiu o poder em Portugal em 1774, colocou na mão da polícia do Brasil o problema social para poder esvaziar o poder dos governadores provinciais. Ele queria enfraquecer o esquema consagrado do Brasil colonial, precisava varrer daqui a força das pessoas encasteladas em cargos importantes. Maquiavelicamente, para dividir, jogou na mão da polícia a míséria, o loteamento clandestino, as epidemias. O que deveria ser tratado por políticas públicas virou caso de polícia. Essa é a origem.
FAMA MUNDIAL - Mais uma: os famosos 15 minutos de fama de Andy Warhol. O que ele disse em 1968 é que, no futuro, cada pessoa seria uma celebridade mundial por 15 minutos, e não apenas uma celebridade por 15 minutos. Ou seja, ele falou em “world famous” , já que famosos somos todos, sempre, para meia dúzia de gente. Agora, extrapolarmos o círculo de nossa fama grupal é que era a grande novidade. Ou seja, forçando a barra, só para justificar a manchete acima, Andy previu o blog antes mesmo de existir a Internet como a conhecemos hoje.
MAIS LAMPEDUSA E VISCONTI – O livro/filme não fica apenas na citação a que eu me referi. Existem outras, igualmente profundas, como a previsão de que o “humano” (tanto faz ser leopardo ou chacal) duraria ainda dois séculos e depois seria muito pior. Tenho certeza que Lampedusa falava do pós 11 de setembro de 2001. Outra grande sacada é a de que, numa região econômica periférica como a Sicília (o que também pode se aplicar ao Brasil) as mudanças não se fazem no confronto (tomada da Bastilha, decapitação do rei), mas no arranjo. Os burgueses não matariam os aristocratas, simplesmente o imitariam, comprariam seus títulos, casariam suas filhas com eles para ocupar seus lugares. A grandiosidade do filme de Visconti, cineasta de inúmeras obras-primas como “Morte em Veneza” e “Rocco e seus irmãos”, nos enche os olhos e a mente. A aparição de Claudia Cardinale, anunciada pela sombra que desenha a dor no rosto das outras mulheres é um momento único, sem falar na maravilhosa dança com Burt Lancaster. Um filme sem igual. Esse foi o esplendor do cinema. O resto é decadência.
ANDY WARHOL PREVIU O BLOG!
Esta é uma chamada apelativa para algumas notas carregadas de diamantes. É o que acontece quando vemos tardiamente um grande filme e nos lembramos de coisas que estávamos há tempos querendo falar.
MUDAR PARA FICAR – As boas frases tornam-se incompreensíveis quando modificam-se por força do excesso de vezes em que são citadas. É o caso da famosa frase de Guiseppe Tomasi di Lampedusa no seu livro O Leopardo, que virou filme de Luchino Visconti, apresentado ontem no canal 21 (numa nova fase excelente). As citações erradas dizem o seguinte: "Se queremos que tudo fique como está, é preciso que tudo mude". Ou : "É preciso que tudo mude para ficar como está". Mas, pelo que vi e ouvi do filme, o certo é: “É preciso que algumas coisas mudem para tudo continuar na mesma”, o que é bem diferente. Não se trata de mudar tudo para ficar como está, o que seria um paradoxo. Mas sim de ceder em alguns pontos para manter o essencial, o que é a velha sabedoria dos poderosos.
QUESTÃO SOCIAL - Outras citações exaustivas, apesar de serem corretas, não avaliam as suas origens. É o caso da conhecida “a questão social é um caso de polícia”, proferida pelo presidente Washington Luís nos anos 20 do século passado. Esquece-se que o presidente era homem do século 19, criado, naturalmente, por pessoas formadas na mentalidade do final do século 18. Não estou justificando nada, apenas explicando o que os livros de História me ensinaram. No clássico “D. João Sexto no Brasil” , de Oliveira Lima, fica claro que o Marquês de Pombal, que assumiu o poder em Portugal em 1774, colocou na mão da polícia do Brasil o problema social para poder esvaziar o poder dos governadores provinciais. Ele queria enfraquecer o esquema consagrado do Brasil colonial, precisava varrer daqui a força das pessoas encasteladas em cargos importantes. Maquiavelicamente, para dividir, jogou na mão da polícia a míséria, o loteamento clandestino, as epidemias. O que deveria ser tratado por políticas públicas virou caso de polícia. Essa é a origem.
FAMA MUNDIAL - Mais uma: os famosos 15 minutos de fama de Andy Warhol. O que ele disse em 1968 é que, no futuro, cada pessoa seria uma celebridade mundial por 15 minutos, e não apenas uma celebridade por 15 minutos. Ou seja, ele falou em “world famous” , já que famosos somos todos, sempre, para meia dúzia de gente. Agora, extrapolarmos o círculo de nossa fama grupal é que era a grande novidade. Ou seja, forçando a barra, só para justificar a manchete acima, Andy previu o blog antes mesmo de existir a Internet como a conhecemos hoje.
MAIS LAMPEDUSA E VISCONTI – O livro/filme não fica apenas na citação a que eu me referi. Existem outras, igualmente profundas, como a previsão de que o “humano” (tanto faz ser leopardo ou chacal) duraria ainda dois séculos e depois seria muito pior. Tenho certeza que Lampedusa falava do pós 11 de setembro de 2001. Outra grande sacada é a de que, numa região econômica periférica como a Sicília (o que também pode se aplicar ao Brasil) as mudanças não se fazem no confronto (tomada da Bastilha, decapitação do rei), mas no arranjo. Os burgueses não matariam os aristocratas, simplesmente o imitariam, comprariam seus títulos, casariam suas filhas com eles para ocupar seus lugares. A grandiosidade do filme de Visconti, cineasta de inúmeras obras-primas como “Morte em Veneza” e “Rocco e seus irmãos”, nos enche os olhos e a mente. A aparição de Claudia Cardinale, anunciada pela sombra que desenha a dor no rosto das outras mulheres é um momento único, sem falar na maravilhosa dança com Burt Lancaster. Um filme sem igual. Esse foi o esplendor do cinema. O resto é decadência.
9 de setembro de 2003
SUCESSO EM 2.103!
SUCESSO EM 2.103!
O lançamento internacional desta coluna obteve recorde de audiência ontem: meus dez leitores multiplicaram-se por quatro, o que significa que temos chance de cravar um mega-sucesso nos próximos, digamos, cem anos. Já é alguma coisa. Começo com uma mensagem que enviei ontem para o novo partido, que promete ser de esquerda.
NOVO PARTIDO - Faço votos que o novo partido, que está sendo criado por pessoas que foram excluídas, não caia no mesmo erro e aposte fundo na inclusão.
- Inclusão significa abrir mão das figurinhas carimbadas, deixar de ser o mais iguais dos iguais, não usar o socialismo como ponte de ascensão política e social.
- Exclusão quer dizer tapar os ouvidos para a diversidade de opiniões, dar as costas ao mínimo de bom senso, aprofundar o fosso entre política e cidadania.
- Incluir significa sortear candidatos para as próximas eleições, e fazer com que os principais organizadores do partido entrem no sorteio democraticamente.
- Incluir significa olhar os outros sem preconceitos, não enquadrá-los na retórica pseudo esquerdista de que todos são reacionários e só os amigos é que não são.
- Incluir significa prestar atenção às pequenas lutas, como o preço do pão, o horror das cadeias, o descaso com o espaço público, a mentira política.
- Incluir significa abdicar da tese da vanguarda da massa, os esclarecidos que tudo sabem. Hoje o conhecimento está disseminado e todos se equivalem em opinião e sabedoria. Que não haja a arrogância comum dos partidos que partem sempre para o caciquismo.
- Lutar contra significa não abraçar-se com o inimigo, não se confundir com ele, como aconteceu com o PT. Lutar contra é abrir mão de tudo o que o poder significa e procurar, na diversidade e na tolerância, um caminho realmente novo.
- Fundar um partido significa perder a auto-importância e abraçar a causa comum.
LEADS GENIAIS - A não ser que você seja o Nirlando Beirão, jamais comece seu lead com uma frase sem verbo. Por exemplo: “Um passo à frente. Este foi o resultado...” Só o chamado puta-texto (figura que está sumida das redações) poderá ser eficiente nesse tipo de abertura. Como o próprio Nirlando, com seu clássico “De repente, um tombo”, numa antológica matéria sobre o Pietro Maria Bardi.
Meus leads prediletos são os seguintes:
Marx (o rei do lead) no 18 Brumário – “Hegel observa numa das suas obras que todos os fatos e personagens de grande importância na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes. E esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”
Kafka em Metamorfose: “Numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregório Samsa deu por si na cama transformado num gigantesco inseto.”
Gabriel Garcia Márquez em Crônica de Uma Morte Anunciada (o título mais usado da imprensa brasileira) : “El día que lo iban a matar, Santiago Nasar se levantó a las 5.30 de la mañana...”
Quem me conhece, já sabe. Meu melhor lead foi para um texto sobre o Cyborg , na TV Guia, da Abril: “Todo mundo tem seu lado humano. O de Cyborg é o esquerdo”.
Vejam vocês que, no meu lead favorito, a primeira frase contém verbo. Não sou louco.
O lançamento internacional desta coluna obteve recorde de audiência ontem: meus dez leitores multiplicaram-se por quatro, o que significa que temos chance de cravar um mega-sucesso nos próximos, digamos, cem anos. Já é alguma coisa. Começo com uma mensagem que enviei ontem para o novo partido, que promete ser de esquerda.
NOVO PARTIDO - Faço votos que o novo partido, que está sendo criado por pessoas que foram excluídas, não caia no mesmo erro e aposte fundo na inclusão.
- Inclusão significa abrir mão das figurinhas carimbadas, deixar de ser o mais iguais dos iguais, não usar o socialismo como ponte de ascensão política e social.
- Exclusão quer dizer tapar os ouvidos para a diversidade de opiniões, dar as costas ao mínimo de bom senso, aprofundar o fosso entre política e cidadania.
- Incluir significa sortear candidatos para as próximas eleições, e fazer com que os principais organizadores do partido entrem no sorteio democraticamente.
- Incluir significa olhar os outros sem preconceitos, não enquadrá-los na retórica pseudo esquerdista de que todos são reacionários e só os amigos é que não são.
- Incluir significa prestar atenção às pequenas lutas, como o preço do pão, o horror das cadeias, o descaso com o espaço público, a mentira política.
- Incluir significa abdicar da tese da vanguarda da massa, os esclarecidos que tudo sabem. Hoje o conhecimento está disseminado e todos se equivalem em opinião e sabedoria. Que não haja a arrogância comum dos partidos que partem sempre para o caciquismo.
- Lutar contra significa não abraçar-se com o inimigo, não se confundir com ele, como aconteceu com o PT. Lutar contra é abrir mão de tudo o que o poder significa e procurar, na diversidade e na tolerância, um caminho realmente novo.
- Fundar um partido significa perder a auto-importância e abraçar a causa comum.
LEADS GENIAIS - A não ser que você seja o Nirlando Beirão, jamais comece seu lead com uma frase sem verbo. Por exemplo: “Um passo à frente. Este foi o resultado...” Só o chamado puta-texto (figura que está sumida das redações) poderá ser eficiente nesse tipo de abertura. Como o próprio Nirlando, com seu clássico “De repente, um tombo”, numa antológica matéria sobre o Pietro Maria Bardi.
Meus leads prediletos são os seguintes:
Marx (o rei do lead) no 18 Brumário – “Hegel observa numa das suas obras que todos os fatos e personagens de grande importância na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes. E esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”
Kafka em Metamorfose: “Numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregório Samsa deu por si na cama transformado num gigantesco inseto.”
Gabriel Garcia Márquez em Crônica de Uma Morte Anunciada (o título mais usado da imprensa brasileira) : “El día que lo iban a matar, Santiago Nasar se levantó a las 5.30 de la mañana...”
Quem me conhece, já sabe. Meu melhor lead foi para um texto sobre o Cyborg , na TV Guia, da Abril: “Todo mundo tem seu lado humano. O de Cyborg é o esquerdo”.
Vejam vocês que, no meu lead favorito, a primeira frase contém verbo. Não sou louco.
8 de setembro de 2003
DIÁRIO DA FONTE
DIÁRIO DA FONTE
Pronto, criei este nome (que, até agora, não tem nenhuma ocorrência no Google) para dizer coisas aqui no blog, esse espaço quase solitário, que não ultrapassa os dez leitores diários – e isso não é charme, é a pura verdade demonstrada pelas estatísticas. Às vezes, dez é até um exagero, como aconteceu ontem, domingo, por exemplo, com o recorde de quatro visitas - e o que é pior, desconfio que foram as minhas.
Estou falando para mim mesmo, o que não é novidade.
A Internet é, antes de tudo, a mídia das fontes, ou seja, dispensa intermediários. Por isso esta estréia mundial do Diário da Fonte, para quem tiver paciência de ler. Prometo ser sempre muito breve. Quem comparar o nome com o Diário da Corte, do Paulo Francis, leva chumbo. Não vivo em Nova York, não faço parte da história do Brasil, sou um jornalista sem importância e, à parte isso, tenho todos os sonhos do mundo. Lá vai:
11 DE SETEMBRO DE 2001, UMA TERRÍVEL FARSA – Leio livro incrível com esse título, de autoria de Thierry Meyssan, publicado pela pequena Usina do Livro (editora@usinadolivro.com), ao custo de 24 reais o exemplar. O subtítulo é “Nenhum avião atingiu o Pentágono!”. O autor baseia-se exclusivamente em documentos da Casa Branca e do Departamento de Defesa dos EUA e em declarações oficiais. O fundamental do livro é que ele defende a tese de que o núcleo da direita americana foi quem armou tudo, para ter acesso às gigantescas verbas agora liberadas para a Defesa. Como não vi ninguém comentar o livro, levei um choque quando vi o dito exposto na livraria da Edusp na Faculdade de História.
E como nunca ouvi falar do autor, não posso fingir que o conheço desde criancinha (o que é comum no jornalismo posudo de hoje). Ele atualmente preside a Rede Voltaire e edita um boletim de inteligência política (www.reseauvoltaire.net), seja isso o que for.
Talvez todos já tenham ouvido falar do livro e esteja eu aqui chovendo no molhado. Não faz mal. Chovo. (Viu só, Rubinho, como dá para conjugar este verbo?). Att.: O Rubens Toledo é, à sua revelia, o revisor oficial deste blog. Isso não quer dizer que eu vá aceitar suas intervenções.
ANGELI, O EDITORIALISTA - O mais contundente, completo e criativo editorialista da Folha é o Angeli. Seu desenho de hoje, Deserto, em que uma multidão está no meio do nada em busca de um emprego de auxiliar de escritório, vale por um milhão de colunistas. O que mais gosto em Angeli, além de seu explosivo poder de síntese, fruto da sua lucidez política e de um exaustivo exercício (basta ver seu caderno de esboços, publicado em suas tiras) , é que ele veste o desenho, ele cuida de cada ponto, de cada traço com a seriedade dos grandes artistas. Angeli não precisa de elogios. Volto a chover.
POESIA DE SEGUNDA - Não vou citar nada nem ninguém, mas a quantidade de poesia ruim que está ganhando destaque na grande imprensa está me fazendo chorar. Será possível? Tem tanta gente boa para ser divulgada! Lembro a conversa que ouvimos aqui em casa quando entramos em contato com o pessoal de um prestigiado caderno cultural. Tentávamos cravar algo sobre meu livro No Mar, Veremos, editado pela Globo e com apresentação do Mario Chamie. Não deram a mínima pelota, justificando-se que tinham lá seus critérios e que recebiam livros demais. Meu Deus, mas é muita abobrinha que está saindo nos jornalões! Estão precisando de um ombudsman de poesia.
LARRY & JERRY – Imagine se os Beatles tivessem sido batizados de Lennon, o que seria do Paul? Pois foi o que aconteceu com Larry David, co-autor da série Seinfeld. Seu parceiro Jerry Seinfeld ganhou, claro, todos os créditos, pelo menos para o público. Agora o Larry saiu atrás do prejuízo, com sua maravilhosa série Curb your enthusiasm (Refreie seu entusiasmo), que vai ao ar todos os domingos às 22 horas pela HBO 1. Ontem, assistimos a uma hilária cena em que Larry (interpretando a si mesmo) defende o personagem George Constanza, que ele criou para a série Seinfeld, considerada a melhor de todos os tempos, contra os argumentos do ator que fez o personagem, Jason Alexander. Jason não entende que ele virou o George e agora é o George que procura, em vão, emprego na TV. Ninguém dá emprego para idiota (e, pelo visto, ninguém dá emprego para mais ninguém).
Hoje vivemos o esplendor dos sitcoms. Nos anos 60, o esplendor foi o da música. Agora (dos anos 90 para cá) , é o da comédia televisiva americana. Neste último fim de semana, houve uma overdose de Seinfeld na Sony. Eu já tinha visto todos, mas revi alguns, como o clássico episódio do livro Trópico de Câncer, em que um impagável bibliotecário vai atrás de um exemplar que Jerry não tinha devolvido desde 1971. Absolutamente magnífico.
Pronto, criei este nome (que, até agora, não tem nenhuma ocorrência no Google) para dizer coisas aqui no blog, esse espaço quase solitário, que não ultrapassa os dez leitores diários – e isso não é charme, é a pura verdade demonstrada pelas estatísticas. Às vezes, dez é até um exagero, como aconteceu ontem, domingo, por exemplo, com o recorde de quatro visitas - e o que é pior, desconfio que foram as minhas.
Estou falando para mim mesmo, o que não é novidade.
A Internet é, antes de tudo, a mídia das fontes, ou seja, dispensa intermediários. Por isso esta estréia mundial do Diário da Fonte, para quem tiver paciência de ler. Prometo ser sempre muito breve. Quem comparar o nome com o Diário da Corte, do Paulo Francis, leva chumbo. Não vivo em Nova York, não faço parte da história do Brasil, sou um jornalista sem importância e, à parte isso, tenho todos os sonhos do mundo. Lá vai:
11 DE SETEMBRO DE 2001, UMA TERRÍVEL FARSA – Leio livro incrível com esse título, de autoria de Thierry Meyssan, publicado pela pequena Usina do Livro (editora@usinadolivro.com), ao custo de 24 reais o exemplar. O subtítulo é “Nenhum avião atingiu o Pentágono!”. O autor baseia-se exclusivamente em documentos da Casa Branca e do Departamento de Defesa dos EUA e em declarações oficiais. O fundamental do livro é que ele defende a tese de que o núcleo da direita americana foi quem armou tudo, para ter acesso às gigantescas verbas agora liberadas para a Defesa. Como não vi ninguém comentar o livro, levei um choque quando vi o dito exposto na livraria da Edusp na Faculdade de História.
E como nunca ouvi falar do autor, não posso fingir que o conheço desde criancinha (o que é comum no jornalismo posudo de hoje). Ele atualmente preside a Rede Voltaire e edita um boletim de inteligência política (www.reseauvoltaire.net), seja isso o que for.
Talvez todos já tenham ouvido falar do livro e esteja eu aqui chovendo no molhado. Não faz mal. Chovo. (Viu só, Rubinho, como dá para conjugar este verbo?). Att.: O Rubens Toledo é, à sua revelia, o revisor oficial deste blog. Isso não quer dizer que eu vá aceitar suas intervenções.
ANGELI, O EDITORIALISTA - O mais contundente, completo e criativo editorialista da Folha é o Angeli. Seu desenho de hoje, Deserto, em que uma multidão está no meio do nada em busca de um emprego de auxiliar de escritório, vale por um milhão de colunistas. O que mais gosto em Angeli, além de seu explosivo poder de síntese, fruto da sua lucidez política e de um exaustivo exercício (basta ver seu caderno de esboços, publicado em suas tiras) , é que ele veste o desenho, ele cuida de cada ponto, de cada traço com a seriedade dos grandes artistas. Angeli não precisa de elogios. Volto a chover.
POESIA DE SEGUNDA - Não vou citar nada nem ninguém, mas a quantidade de poesia ruim que está ganhando destaque na grande imprensa está me fazendo chorar. Será possível? Tem tanta gente boa para ser divulgada! Lembro a conversa que ouvimos aqui em casa quando entramos em contato com o pessoal de um prestigiado caderno cultural. Tentávamos cravar algo sobre meu livro No Mar, Veremos, editado pela Globo e com apresentação do Mario Chamie. Não deram a mínima pelota, justificando-se que tinham lá seus critérios e que recebiam livros demais. Meu Deus, mas é muita abobrinha que está saindo nos jornalões! Estão precisando de um ombudsman de poesia.
LARRY & JERRY – Imagine se os Beatles tivessem sido batizados de Lennon, o que seria do Paul? Pois foi o que aconteceu com Larry David, co-autor da série Seinfeld. Seu parceiro Jerry Seinfeld ganhou, claro, todos os créditos, pelo menos para o público. Agora o Larry saiu atrás do prejuízo, com sua maravilhosa série Curb your enthusiasm (Refreie seu entusiasmo), que vai ao ar todos os domingos às 22 horas pela HBO 1. Ontem, assistimos a uma hilária cena em que Larry (interpretando a si mesmo) defende o personagem George Constanza, que ele criou para a série Seinfeld, considerada a melhor de todos os tempos, contra os argumentos do ator que fez o personagem, Jason Alexander. Jason não entende que ele virou o George e agora é o George que procura, em vão, emprego na TV. Ninguém dá emprego para idiota (e, pelo visto, ninguém dá emprego para mais ninguém).
Hoje vivemos o esplendor dos sitcoms. Nos anos 60, o esplendor foi o da música. Agora (dos anos 90 para cá) , é o da comédia televisiva americana. Neste último fim de semana, houve uma overdose de Seinfeld na Sony. Eu já tinha visto todos, mas revi alguns, como o clássico episódio do livro Trópico de Câncer, em que um impagável bibliotecário vai atrás de um exemplar que Jerry não tinha devolvido desde 1971. Absolutamente magnífico.
NASCE UM CLÁSSICO
NASCE UM CLÁSSICO
O texto abaixo foi enviado por e-mail pelo Paulo Paiva, jornalista amigo que mora em Brasília. Por se tratar de crítica da mais alta voltagem e atualíssima, e por acertar na pleura central o problema maior que enfrentamos hoje no instrumento mais poderoso que dispomos, a linguagem, já pode ser classificado como um clássico.
Clássico, segundo o professor Fernando Novais, da USP significa "aquilo que merece ser estudado em classe". De todas as conceituações de clássico, essa me pareceu a melhor.
Leia o texto do Ricardo Freire e espalhe.
"COMPLICABILIZANDO"
Ricardo Freire
Não, por favor, nem tente me disponibilizar alguma coisa, que eu não quero. Não aceito nada que pessoas, empresas ou organizações me disponibilizem. É uma questão de princípios. Se você me oferecer, me der,me vender, me emprestar, talvez eu venha a topar. Até mesmo se você tornar disponível, quem sabe, eu aceite. Mas, se você insistir em
disponibilizar, nada feito.Caso você esteja contando comigo para operacionalizar algo, vou dizendo desde já: pode tirar seu cavalinho da chuva. Eu não operacionalizo nada para ninguém. Tampouco compactuo com quem operacionalize. Se você quiser, eu monto, eu realizo, eu aplico, eu ponho em operação. Se você pedir com jeitinho, eu até implemento. Mas, operacionalizar, jamais.
O quê? Você quer que eu agilize isso para você? Lamento, mas eu não sei agilizar nada. Nunca agilizei. Está lá no meu currículo: faço tudo, menos agilizar. Precisando, eu apresso, eu priorizo, eu ponho na frente, eu dou um gás. Mas agilizar - desculpe, não posso, acho que matei essa aula.Outro dia mesmo queriam reinicializar meu computador. Só por cima do meu cadáver virtual! Prefiro comprar um computador novo a reinicializar o antigo.
Até porque eu desconfio que o problema não seja assim tão grave. Em vez de reinicializar, talvez seja o caso de simplesmente reiniciar, e pronto.Por falar nisso, é bom que você saiba que eu parei de utilizar. Assim, sem mais nem menos. Eu sei, é uma atitude um tanto quanto radical da minha parte, mas eu não utilizo mais nada.
Tenho consciência de que a cada dia que passa mais e mais pessoas estão utilizando, mas eu parei. Não utilizo mais. Agora eu só uso. E recomendo. Se você soubesse como é muito mais elegante, também deixaria de utilizar e passaria a usar. im, estou me associando à campanha nacional contra os verbos que acabam em "ilizar". Se nada for feito, daqui a pouco eles serão mais numerosos do que os terminados simplesmente em "ar". Todos os dias os maus tradutores de livros de marketing e administração disponibilizam mais e mais termos infelizes, que imediatamente são operacionalizados pela mídia, reinicializando palavras que já existiam e eram perfeitamente claras e eufônicas. A doença está tão disseminada que muitos verbos honestos, com currículo de ótimos serviços prestados, estão a ponto de cair em desgraça entre pessoas de ouvidos sensíveis.
Depois que você fica alérgico a disponibilizar, como você vai admitir, digamos, "viabilizar"? É triste demorar tanto tempo para a gente se dar conta de que "desincompatibilizar" sempre foi um palavrão.Precisamos reparabilizar nessas palavras que o pessoal inventabiliza só para complicabilizar. Caso contrário, daqui a pouco nossos filhos vão pensabilizar que o certo é ficar se expressabilizando dessa maneira. Já posso até ouvir as reclamações: "Você não vai me impedibilizar de falabilizar do jeito que eu bem quilibiliser". Problema seu. Me inclua fora dessa.
O texto abaixo foi enviado por e-mail pelo Paulo Paiva, jornalista amigo que mora em Brasília. Por se tratar de crítica da mais alta voltagem e atualíssima, e por acertar na pleura central o problema maior que enfrentamos hoje no instrumento mais poderoso que dispomos, a linguagem, já pode ser classificado como um clássico.
Clássico, segundo o professor Fernando Novais, da USP significa "aquilo que merece ser estudado em classe". De todas as conceituações de clássico, essa me pareceu a melhor.
Leia o texto do Ricardo Freire e espalhe.
"COMPLICABILIZANDO"
Ricardo Freire
Não, por favor, nem tente me disponibilizar alguma coisa, que eu não quero. Não aceito nada que pessoas, empresas ou organizações me disponibilizem. É uma questão de princípios. Se você me oferecer, me der,me vender, me emprestar, talvez eu venha a topar. Até mesmo se você tornar disponível, quem sabe, eu aceite. Mas, se você insistir em
disponibilizar, nada feito.Caso você esteja contando comigo para operacionalizar algo, vou dizendo desde já: pode tirar seu cavalinho da chuva. Eu não operacionalizo nada para ninguém. Tampouco compactuo com quem operacionalize. Se você quiser, eu monto, eu realizo, eu aplico, eu ponho em operação. Se você pedir com jeitinho, eu até implemento. Mas, operacionalizar, jamais.
O quê? Você quer que eu agilize isso para você? Lamento, mas eu não sei agilizar nada. Nunca agilizei. Está lá no meu currículo: faço tudo, menos agilizar. Precisando, eu apresso, eu priorizo, eu ponho na frente, eu dou um gás. Mas agilizar - desculpe, não posso, acho que matei essa aula.Outro dia mesmo queriam reinicializar meu computador. Só por cima do meu cadáver virtual! Prefiro comprar um computador novo a reinicializar o antigo.
Até porque eu desconfio que o problema não seja assim tão grave. Em vez de reinicializar, talvez seja o caso de simplesmente reiniciar, e pronto.Por falar nisso, é bom que você saiba que eu parei de utilizar. Assim, sem mais nem menos. Eu sei, é uma atitude um tanto quanto radical da minha parte, mas eu não utilizo mais nada.
Tenho consciência de que a cada dia que passa mais e mais pessoas estão utilizando, mas eu parei. Não utilizo mais. Agora eu só uso. E recomendo. Se você soubesse como é muito mais elegante, também deixaria de utilizar e passaria a usar. im, estou me associando à campanha nacional contra os verbos que acabam em "ilizar". Se nada for feito, daqui a pouco eles serão mais numerosos do que os terminados simplesmente em "ar". Todos os dias os maus tradutores de livros de marketing e administração disponibilizam mais e mais termos infelizes, que imediatamente são operacionalizados pela mídia, reinicializando palavras que já existiam e eram perfeitamente claras e eufônicas. A doença está tão disseminada que muitos verbos honestos, com currículo de ótimos serviços prestados, estão a ponto de cair em desgraça entre pessoas de ouvidos sensíveis.
Depois que você fica alérgico a disponibilizar, como você vai admitir, digamos, "viabilizar"? É triste demorar tanto tempo para a gente se dar conta de que "desincompatibilizar" sempre foi um palavrão.Precisamos reparabilizar nessas palavras que o pessoal inventabiliza só para complicabilizar. Caso contrário, daqui a pouco nossos filhos vão pensabilizar que o certo é ficar se expressabilizando dessa maneira. Já posso até ouvir as reclamações: "Você não vai me impedibilizar de falabilizar do jeito que eu bem quilibiliser". Problema seu. Me inclua fora dessa.
6 de setembro de 2003
QUE ISSO NÃO SE REPITA!
QUE ISSO NÃO SE REPITA!
É claro que o episódio da morte do chinês que foi preso no aeroporto do Galeão e transferido para o presídio Ary Franco, no Rio, não vai se repetir. O cara morreu, entende?
Nunca mais vão poder matá-lo novamente. Seu filho crescerá sem ele. Seus parentes e amigos jamais o verão tocando seus negócios, cuidando da família. Não vai se repetir, mesmo. Parece aquela cena inesquecível da chanchada brasileira:
- Ficarei o tempo que eu quiser, disse a vedete.
- Nem um minutinho a mais, replicou o panaca.
O mais tocante são os apresentadores de TV possessos, espumando. O Brasil virtual nem chega perto do Brasil real. Este, é dominado pela brutalidade, não pelo discurso. A violência encontra farto material de justificação, especialmente quando pega carona nesse oco discursivo que toma conta de todo mundo. A questão é que ninguém chega perto quando a onça bebe água. Ela bebe e pronto. Jornalistas são assassinados, bandidos mandam e desmandam dentro e fora da cadeia, contrabandeia-se o mundo e tudo fica exposto no nariz da população e nada se faz, a não ser vociferar indignações.
- Vai ver se estou lá na esquina, dizem os brutamontes, enquanto fazem o serviço.
O que impera é a lei do mais forte. Os chamados poderosos estão muito ocupados com suas mordomias para prestar atenção no que acontece nas cadeias imundas, nas repartições faveladas, nas calçadas pôdres, nas ruas onde o asfalto ergue-se em ondas, como um mar de horrores. Há tanta incompetência que no Brasil direito humano é confundido com direito de bandido e contra essa certeza não há argumentos. É opinião geral que a correção judicial é feita apenas para defender e proteger quem é culpado e pronto. Os carrascos, escudados nesse equívoco, deitam e rolam. Vai dizer o quê?
Que isso não repita! Nem um minutinho a mais!
Ora, vão cagar pedra.
É claro que o episódio da morte do chinês que foi preso no aeroporto do Galeão e transferido para o presídio Ary Franco, no Rio, não vai se repetir. O cara morreu, entende?
Nunca mais vão poder matá-lo novamente. Seu filho crescerá sem ele. Seus parentes e amigos jamais o verão tocando seus negócios, cuidando da família. Não vai se repetir, mesmo. Parece aquela cena inesquecível da chanchada brasileira:
- Ficarei o tempo que eu quiser, disse a vedete.
- Nem um minutinho a mais, replicou o panaca.
O mais tocante são os apresentadores de TV possessos, espumando. O Brasil virtual nem chega perto do Brasil real. Este, é dominado pela brutalidade, não pelo discurso. A violência encontra farto material de justificação, especialmente quando pega carona nesse oco discursivo que toma conta de todo mundo. A questão é que ninguém chega perto quando a onça bebe água. Ela bebe e pronto. Jornalistas são assassinados, bandidos mandam e desmandam dentro e fora da cadeia, contrabandeia-se o mundo e tudo fica exposto no nariz da população e nada se faz, a não ser vociferar indignações.
- Vai ver se estou lá na esquina, dizem os brutamontes, enquanto fazem o serviço.
O que impera é a lei do mais forte. Os chamados poderosos estão muito ocupados com suas mordomias para prestar atenção no que acontece nas cadeias imundas, nas repartições faveladas, nas calçadas pôdres, nas ruas onde o asfalto ergue-se em ondas, como um mar de horrores. Há tanta incompetência que no Brasil direito humano é confundido com direito de bandido e contra essa certeza não há argumentos. É opinião geral que a correção judicial é feita apenas para defender e proteger quem é culpado e pronto. Os carrascos, escudados nesse equívoco, deitam e rolam. Vai dizer o quê?
Que isso não repita! Nem um minutinho a mais!
Ora, vão cagar pedra.
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