Nei Duclós
Decisão por penalty intensifica a dependência dos jogadores
ao desconforto da esfera. Vimos isso ontem, dia 11/07/2013, no jogo entre
Atletico de MG e o argentino (de Rosário, Santa Fé) Newell's Old Boys no estádio Independência
em Belo Horizonte. É difícil encontrar o equilíbrio ideal para o chute na hora
de bater. É complicado aprumar a bola com as mãos antes de chutar, chegar a um
acordo entre duas naturezas geométricas, a esfera e o retângulo, no território
irregular onde falta luz e tudo acaba se espichando muito além da grade
regulamentar da televisão.
Qualquer deslize que desloque a posição acertada pelo
batedor na marca branca interfere no resultado. Vários pênaltys foram
desperdiçados ontem, de ambos os times, e costuma-se colocar a culpa no nervosismo
e no cansaço. Mas é apenas o descompasso entre essa decisão de encontrar o
ponto ideal de um objeto que tende ao deslize, por natureza e vocação, e o modo
como o pé encontra o couro (ou qualquer outro material desta época
megaindustrial).
Antes mesmo dos chutes regulamentares que iriam decidir o
vencedor (que foi o Atlético, classificado para a final da Libertadores) , vimos
ao longo do jogo empatado (impasse que pode ocorrer pela soma de gols em mais
de um encontro) a atenção exagerada exigida pela bola, especialmente nos
detalhes, nos gestos dos jogadores. Vimos como, numa lateral , o atleta trocou
de bola, pois ao apalpá-la sentiu que havia um problema. Estava meio murcha, dirão.
Mas é algo mais profundo. É o desconforto da esfera, que se desdobra num
comportamento de relatividade e salto quântico em oposição ao ambiente onde
trafega, o gramado retangular ao longo de 90 minutos, que é uma concepção
newtoniana. Espaço e tempo, em Newton, são divididos, mas os jogadores precisam
lidar com o espaçotempo, a quarta dimensão do universo relido pela Física. Por
isso estão sempre no meio desse embate entre a jogada e a perfeição do
instrumento do jogo.
O pé precisa de solidez no empurra empurra que decide vidas.
Alguns batedores, como Ronaldinho Gaúcho, que fez o tento decisivo na disputa
por pênalty, surra várias vezes a marca branca com seu pé, numa terraplanagem
prévia onde poderá depositar seu ovo de serpente com segurança. Ele não pode
arriscar. Não pode permitir que, ao colocar a esfera no falso plano (que visto
de perto é puro conflito), ela gire alguns milímetros. Faz parte da natureza
dos objetos. Eles procuram o máximo conforto para não se desperdiçar no
ambiente hostil. O craque sabe disso e impõe sua vontade, não de maneira
impositiva, mas negociada.
Ele precisa fazer com que o ovo permaneça em repouso no
ninho da coruja. Não pode permitir que, voltando-lhe as costas para tomar
distância, algum movimento jogue a bola para o lado, tirando assim a
concentração do pé, que nessa hora é quem produz pensamento. O pé deve tocar o
ponto sensível onde o biroço vai tomar o impulso necessário em determinada
direção. É incompreensível que a obviedade de alguns chutes da máxima
penalidade, que é cumprida sem barreira, direto, num gol a gol que resgata os jogos
improvisados e precários da infância, ganhe de graça a conivência dos goleiros.
Isso tem a ver com a complexidade da trama que estamos abordando.
O batedor bate a meia altura bem no meio do arco e o
goleiro, de maneira incompreensível, se joga para um canto, abrindo assim
caminho para o gol do adversário. Por que ele faz isso? Porque confia na
competência do inimigo, acha que ele domina o desconforto da esfera e tentará o
lance mais difícil, o canto extremo onde é praticamente impossível chegar, por
mais que um goleiro se espiche. Essa decisão é tomada no momento em que o pé
toca a bola, pois ela voa na velocidade da luz. Não há tempo nem espaço no
espaçotempo, há vitória ou derrota.
Vimos assim que há uma oposição entre o cuidado do jogador
em colocar a esfera na posição correta e ideal para o chute perfeito, e o
esbagaçamento verificado em vários penaltys, quando foi tudo para o alto, a
trave ou a linha de fundo. Os poucos que conseguiram fazer gol tinham
conseguido resolver o problema. Souberam evitar a surpresa da bola que desafia
o pé e jogaram para o fundo da rede. Por isso a cada lance bem sucedido havia
aqueles gestos brutos de braços furando pedra, como a impulsionar máquinas,
espécie de comemoração de um assassinato, que nos foi ensinado pelos argentinos.
Estes, confiavam na classificação, mas foram traídos pelo destino, no caso,
Guilherme, que conseguiu no último minuto fazer o segundo gol do Atlético e
adiar a decisão para os minutos seguintes.
Esse bate bate que mata todo mundo do coração já não faz
mais parte da ordem natural das coisas,como o resto do jogo e do campeonato.
Nem é uma loteria, pois depende de complexas operações da sabedoria e
experiência do corpo e a presença de espírito que define as partidas. Não
adianta fazer mandinga, como os torcedores argentinos a socar o ar com a mão
compulsivamente como a querer expulsar a má sorte. Futebol não depende dos deuses dos estádios,
que jamais existiram. Depende da capacidade de um jogador na hora de acomodar a
bola para o chute. É quando ele consegue enfrentar com sucesso o desconforto da
esfera e vira a expectativa pelo avesso, acordando a torcida.
Futebol é guerra e o comportamento da bola, trabalhada pela
inteligência dos craques, a sua extrema estratégia.
RETORNO - Imagem
desta edição: Ronaldinho Gaúcho (foto Goal).