PAPAI NOEL CHACREIRO
Um Papai Noel muito pobre e mal vestido, meio trancucho de tanta canha (cachaça) , acabou caindo lá na zona do Cafarate. A gurizada logo se agachou nos pombos (pedras grandes e redondas) e disparou uma saraivada de pombaços, aos gritos de:
- Papai Noel Chacreiro, Papai Noel Chacreiro.
Naquele tempo, o Cafarate era a zona mais perigosa, pior que a do Porto. Perto dela, a nossa, em frente ao colégio dos padres, era “de rico”.
Aconteceu com gente que decidiu aparecer por lá de cabelo comprido. Os pombos eram os mesmos. O grito mudou:
- Ronnie Von Chacreiro! Ronnie Von Chacreiro!
No Natal, fazia-se em casa salada de fruta com guaraná. Tomava-se uísque Cavalinho Branco, comprado da Argentina (com malte licoroso), em copos altos de cristal, com as marcas das doses. Minha mãe tudo guardava numa cristaleira. Dentro, tinha louça inglesa e faqueiro de prata. Se sumia uma colher, ela punha toda a casa a procurar.
Meu primeiro “fogo” (bebedeira; era também marca de tempo: “há quantos fogos não te vejo” costumava-se dizer) foi no Natal. Vomitei na calça de nycron. Todo mundo cagou de rir. Tinha 14 anos.
- Aprenda a beber em casa e não com os bagacêra da rua, catequizava o seu Ortiz.
Quando todos foram embora, minha mãe estendia a grande toalha branca na mesa vazia e ficava lembrando o tempo de casa cheia.
Todos os familiares vinham nos visitar (meu pai estava rico naquela época). Chegando o Ano Novo, seu Ortiz ia para o quintal e descarregava o revólver para o céu.
-O pai está matando o Ano Velho, dizia eu, muito compenetrado e entendido das coisas.
Meu pai não mata mais o ano velho. Os anos se acumulam no quintal inexistente. O monturo do tempo pode, de repente, desmoronar:
- Redepente redeteu e redamou toda aquela banha, diria a vizinha de uma tia velha.
A Tita, tia avó italiana (não conheci nenhum avô ou avó), doente, me pegava na mão e dizia, com a cara muito enrugada, muito grande, muito amorosa:
- Meu poeta, meu poeta.
O quintal da Tita estava cheia de uvas.
Blog de Nei Duclós. Jornalismo. Poesia. Literatura. Televisão. Cinema. Crítica. Livros. Cultura. Política. Esportes. História.
6 de setembro de 2003
5 de setembro de 2003
O GRANDE POETA OCULTO
O GRANDE POETA OCULTO
Apresento aqui o poeta Marco Celso Viola, que nos anos 60 cruzou comigo o Rio Grande do Sul no lombo de caronas inverossímeis e que me ensinou a ter coragem de expor a poesia na rua. Selecionei um dos poemas dele, que faz parte do seu livro que ainda está para ser editado. Entre tantos, Marco Celso Viola é, como poucos, poeta verdadeiro.
Os poetas não são deste mundo
Marco Celso Viola
Aqui onde você tem que fazer a coisa certa
Aqui onde você tem que saber de tudo...
este não é o mundo dos poetas
eles não são deste mundo, meu amigo
eles são de outro mundo, de outros mundos
eles caem por aqui como as estrelas cadentes
Aquelas estrelas que sem saber porque você cada vez que vê formula um pedido
são elas que trazem os poetas a este mundo.
Enquanto você acredita que não erra
só os poetas sabem que estão sempre errados, são estrelas errantes
quando todos sentem frio eles tremem de calor
quando todos riem eles sentem uma tristeza tão enorme que nada , mas nada
mesmo é capaz fazer com que ela desapareça.
É assim aquele poeta
apenas aqueles que são feitos da mesma música conseguem
sentir o que ele sente
rir sozinhos no escuro
caminhar em caminhos que ninguém conhece
beber o hidromel e todas as bebidas que bebem os que estão sozinhos.
Assim são os poetas
conversam com seres que ninguém vê e ainda olham para a lua, para a lua!
São desagradáveis ao tato e ao paladar.
Vire-lhe as costas.
Eles podem estar mentido
Não existe nada do que dizem, não confirmam nada do que dizem
Ora, lua, lua, lua,
O que significa isto?
Touros como rosas escuras espiam por entre as frestas do mundo para falar
com você, ele diz.
Isto não existe
Existe o que eu vivo e o que os outros pensam
Mas o amor , onde está o amor ?
Será apenas o sonho de um poeta que não sabe que é poeta?
Ele diz que você ainda vai sonhar como ele quando toda as palavras, não
conseguirem mais fazer sentido
Para finalizar, é preciso advertir estes seres que se dizem poetas: Cuidado!
Pense no caminho e que nunca , mas nunca mesmo pense que o poema é um ser
sozinho.
Assim são os poetas, têm palavras preferidas e vocabulário pequeno,
restrito, aliás, são seres assim, que pouca coisa os alimenta , um pouco de
vento, o ruído de uma asa de pássaro e talvez, só talvez, uma onda de mar,
talvez, também, quem sabe um seio, um olhar , ou mesmo os olhos daqueles que
passam na rua, porque eles sabem que neste mundo tem passagem estreita não
importa o quanto vivam, até porque o tempo não tem a mesma medida para eles
eles já vem com a saída garantida, a mesma estrela cadente se apresenta na partida, com um sorriso, um gesto, uma mentira, que só, mas só o poeta sabe o que significa.
Apresento aqui o poeta Marco Celso Viola, que nos anos 60 cruzou comigo o Rio Grande do Sul no lombo de caronas inverossímeis e que me ensinou a ter coragem de expor a poesia na rua. Selecionei um dos poemas dele, que faz parte do seu livro que ainda está para ser editado. Entre tantos, Marco Celso Viola é, como poucos, poeta verdadeiro.
Os poetas não são deste mundo
Marco Celso Viola
Aqui onde você tem que fazer a coisa certa
Aqui onde você tem que saber de tudo...
este não é o mundo dos poetas
eles não são deste mundo, meu amigo
eles são de outro mundo, de outros mundos
eles caem por aqui como as estrelas cadentes
Aquelas estrelas que sem saber porque você cada vez que vê formula um pedido
são elas que trazem os poetas a este mundo.
Enquanto você acredita que não erra
só os poetas sabem que estão sempre errados, são estrelas errantes
quando todos sentem frio eles tremem de calor
quando todos riem eles sentem uma tristeza tão enorme que nada , mas nada
mesmo é capaz fazer com que ela desapareça.
É assim aquele poeta
apenas aqueles que são feitos da mesma música conseguem
sentir o que ele sente
rir sozinhos no escuro
caminhar em caminhos que ninguém conhece
beber o hidromel e todas as bebidas que bebem os que estão sozinhos.
Assim são os poetas
conversam com seres que ninguém vê e ainda olham para a lua, para a lua!
São desagradáveis ao tato e ao paladar.
Vire-lhe as costas.
Eles podem estar mentido
Não existe nada do que dizem, não confirmam nada do que dizem
Ora, lua, lua, lua,
O que significa isto?
Touros como rosas escuras espiam por entre as frestas do mundo para falar
com você, ele diz.
Isto não existe
Existe o que eu vivo e o que os outros pensam
Mas o amor , onde está o amor ?
Será apenas o sonho de um poeta que não sabe que é poeta?
Ele diz que você ainda vai sonhar como ele quando toda as palavras, não
conseguirem mais fazer sentido
Para finalizar, é preciso advertir estes seres que se dizem poetas: Cuidado!
Pense no caminho e que nunca , mas nunca mesmo pense que o poema é um ser
sozinho.
Assim são os poetas, têm palavras preferidas e vocabulário pequeno,
restrito, aliás, são seres assim, que pouca coisa os alimenta , um pouco de
vento, o ruído de uma asa de pássaro e talvez, só talvez, uma onda de mar,
talvez, também, quem sabe um seio, um olhar , ou mesmo os olhos daqueles que
passam na rua, porque eles sabem que neste mundo tem passagem estreita não
importa o quanto vivam, até porque o tempo não tem a mesma medida para eles
eles já vem com a saída garantida, a mesma estrela cadente se apresenta na partida, com um sorriso, um gesto, uma mentira, que só, mas só o poeta sabe o que significa.
3 de setembro de 2003
DIA DO REPÓRTER FOTOGRÁFICO
DIA DO REPÓRTER FOTOGRÁFICO
Soube já no fim do dia, mas segundo o Comunique-se, hoje é dia de cumprimentar o Marcelo Min, o Hélcio Toth, o Walter Firmo, o Thomas May (que me ligou hoje), o Luiz Machado, o José de Anchieta, o Raffaele Sgueglia, a família Bittar, com a qual tenho longa e extensa história, desde meus 13 anos, o Antonio Gaudério e tantos outros. Lembrar o JB Scalco, que hoje é nome de sala no sindicato (ou era, não sei mais), e com quem trabalhei na Caldas Junior e no Jornal de Santa Catarina e que morreu depois de fazer aquela belíssima reportagem de denúncia para o Coojornal junto com o Luiz Cláudio Cunha e que me contava histórias maravilhosas do lendário repórter Ruwer, de Porto Alegre, que um dia parou um avião para poder enviar uma matéria. Era um avião pequeno de uma pista pequena. O Ruwer foi assassinado e tinha sido o autor de uma série de reportagens sobre prostituição no Rio Grande do Sul. Scalco era muito vaidoso e curvava o corpo e o rosto para admirar-se e adorava ser citado pelo Ruwer nas reportagens.
Mandar um abraço para o Gaudério me trazendo fotos sobre a pauta Negócios na favela, feita há tanto tempo e que agora é um assunto carne de vaca até no Jornal Nacional. Tentar lembrar o nome daquele repórter fotográfico que um dia foi comigo numa favela em Portinho e fortografou um homem sendo apunhalado. Lembro o homem posando para a câmera mostrando o furo na barriga vertendo sangue. Lembro o fotógrafo chegando no jornal – Folha da Tarde - e sendo alvo da inveja geral e tendo suas magníficas fotos reduzidas na edição seguinte. Lembrar o Ayrton de Magalhães, que de tão sumido virou legenda, o primeiro repórter fotográfico a fotografar os travestis paulistas e autor da célebre foto da Marilia Pêra dando de mamar para o Pixote, que fez parte da matéria que publiquei na IstoÉ, a primeira (furo internacional) sobre o filme de Hector Babenco, pois Ayrton era still e sabia tudo e tudo me contou (foi uma baba fazer a matéria).
Lembrar da conversa de gênio do Walter Firmo, que foi praticamente quem lançou essa mania de se falar sobre o Olhar, tema acadêmico que na palavra de Firmo teve a atualidade jornalística necessária para tomar de assalto a imprensa. Ontem Firmo, comentando sua exposição maravilhosa sobre a nobreza da música popular, diz que as fotos que fez dos grandes artistas fazem parte da identidade dele, fotógrafo, o que revela o quanto ele é um dos membros dessa família que fotografou. Chamar Marcelo Min de gênio, não só por ser verdade, mas principalmente para vê-lo constrangido, já que não existe alguém mais democrático. Rir com Toth e Sgueglia, dois pândegos fantásticos, Toth chegando ao esplendor da sua arte com fotos que viraram linhas e texturas, repórter de rua e de calçada que nos revela a Sampa que não prestamos atenção; e o Sgueglia, que ainda vou prefaciar seu livro imprescindível, “30 anos de mãos em X”, só para zoar com ele e suas fotos sobre a indústria e os empresários. Descobrir com Min esse fotógrafo, o Egberto Nogueira, que tem fotos incríveis, que parecem fazer desandar toda a estética do Sebastião Salgado. Dizer que todos os fotógrafos consagrados, com Sebastião à frente, não valem uma só foto dessas pessoas que eu citei e outras com as quais trabalhei.
Mandar um abraço para as fotógrafas como Regina Agrella, olho atento sobre a cidade e a arte, Cristina Villares e Ana Luiza, de tantas redações, Andréa Felizolla com suas fotos inacreditáveis sobre o futebol, Eneida Serrano que do Sul nos envia as melhores imagens. Lembrar meu amigo recente e já um dos meus fotógrafos favoritos, Anderson Petrocelli, que faz chover em Uruguaiana com suas fotos da fronteira, absolutamente maravilhosas. Lembrar do inesquecível Uda, ou Leonid Strelaiev, que virou teste para quem quiser trabalhar em fotografia: “Conhece o Uda? Qual o verdadeiro nome dele?” Se souber, está empregado, se não souber vá procurar saber.
Dizer para eles: que Dia do Repórter Fotográfico coisa nenhuma, onde estão as fotos que encomendei e porque não estão na Arte, todas identificadas? Ou seja, estão todos demitidos e só admito novamente se for convidado para uma baita rodada de chope, na qual eu entrarei apenas com minha sede.
Soube já no fim do dia, mas segundo o Comunique-se, hoje é dia de cumprimentar o Marcelo Min, o Hélcio Toth, o Walter Firmo, o Thomas May (que me ligou hoje), o Luiz Machado, o José de Anchieta, o Raffaele Sgueglia, a família Bittar, com a qual tenho longa e extensa história, desde meus 13 anos, o Antonio Gaudério e tantos outros. Lembrar o JB Scalco, que hoje é nome de sala no sindicato (ou era, não sei mais), e com quem trabalhei na Caldas Junior e no Jornal de Santa Catarina e que morreu depois de fazer aquela belíssima reportagem de denúncia para o Coojornal junto com o Luiz Cláudio Cunha e que me contava histórias maravilhosas do lendário repórter Ruwer, de Porto Alegre, que um dia parou um avião para poder enviar uma matéria. Era um avião pequeno de uma pista pequena. O Ruwer foi assassinado e tinha sido o autor de uma série de reportagens sobre prostituição no Rio Grande do Sul. Scalco era muito vaidoso e curvava o corpo e o rosto para admirar-se e adorava ser citado pelo Ruwer nas reportagens.
Mandar um abraço para o Gaudério me trazendo fotos sobre a pauta Negócios na favela, feita há tanto tempo e que agora é um assunto carne de vaca até no Jornal Nacional. Tentar lembrar o nome daquele repórter fotográfico que um dia foi comigo numa favela em Portinho e fortografou um homem sendo apunhalado. Lembro o homem posando para a câmera mostrando o furo na barriga vertendo sangue. Lembro o fotógrafo chegando no jornal – Folha da Tarde - e sendo alvo da inveja geral e tendo suas magníficas fotos reduzidas na edição seguinte. Lembrar o Ayrton de Magalhães, que de tão sumido virou legenda, o primeiro repórter fotográfico a fotografar os travestis paulistas e autor da célebre foto da Marilia Pêra dando de mamar para o Pixote, que fez parte da matéria que publiquei na IstoÉ, a primeira (furo internacional) sobre o filme de Hector Babenco, pois Ayrton era still e sabia tudo e tudo me contou (foi uma baba fazer a matéria).
Lembrar da conversa de gênio do Walter Firmo, que foi praticamente quem lançou essa mania de se falar sobre o Olhar, tema acadêmico que na palavra de Firmo teve a atualidade jornalística necessária para tomar de assalto a imprensa. Ontem Firmo, comentando sua exposição maravilhosa sobre a nobreza da música popular, diz que as fotos que fez dos grandes artistas fazem parte da identidade dele, fotógrafo, o que revela o quanto ele é um dos membros dessa família que fotografou. Chamar Marcelo Min de gênio, não só por ser verdade, mas principalmente para vê-lo constrangido, já que não existe alguém mais democrático. Rir com Toth e Sgueglia, dois pândegos fantásticos, Toth chegando ao esplendor da sua arte com fotos que viraram linhas e texturas, repórter de rua e de calçada que nos revela a Sampa que não prestamos atenção; e o Sgueglia, que ainda vou prefaciar seu livro imprescindível, “30 anos de mãos em X”, só para zoar com ele e suas fotos sobre a indústria e os empresários. Descobrir com Min esse fotógrafo, o Egberto Nogueira, que tem fotos incríveis, que parecem fazer desandar toda a estética do Sebastião Salgado. Dizer que todos os fotógrafos consagrados, com Sebastião à frente, não valem uma só foto dessas pessoas que eu citei e outras com as quais trabalhei.
Mandar um abraço para as fotógrafas como Regina Agrella, olho atento sobre a cidade e a arte, Cristina Villares e Ana Luiza, de tantas redações, Andréa Felizolla com suas fotos inacreditáveis sobre o futebol, Eneida Serrano que do Sul nos envia as melhores imagens. Lembrar meu amigo recente e já um dos meus fotógrafos favoritos, Anderson Petrocelli, que faz chover em Uruguaiana com suas fotos da fronteira, absolutamente maravilhosas. Lembrar do inesquecível Uda, ou Leonid Strelaiev, que virou teste para quem quiser trabalhar em fotografia: “Conhece o Uda? Qual o verdadeiro nome dele?” Se souber, está empregado, se não souber vá procurar saber.
Dizer para eles: que Dia do Repórter Fotográfico coisa nenhuma, onde estão as fotos que encomendei e porque não estão na Arte, todas identificadas? Ou seja, estão todos demitidos e só admito novamente se for convidado para uma baita rodada de chope, na qual eu entrarei apenas com minha sede.
1 de setembro de 2003
TRÍPLICE FRONTEIRA: URUGUAIANA É A MAIOR
TRÍPLICE FRONTEIRA: URUGUAIANA É A MAIOR
É mais um vício da imprensa: quando falam em triplice fronteira, todos os telejornais correm para Foz de Iguaçu. Esquecem que existe uma tríplice fronteira (Brasil, Uruguai, Argentina) muito mais importante. Vejam o que diz o Diário da Fronteira, de Uruguaiana, reproduzida no imprescindível www.portaluruguaiana.com.br:
O ponto rodo-ferroviário de Uruguaiana é o mais importante do Brasil e o movimento comercial sobre rodas aqui existente é dois terços maior do que o de Foz do lguaçu. Ao revelar esse dado na palestra que fez quinta-feira (28) na Câmara de Vereadores de Uruguaiana, o delegado da Receita Federal, Josemar Dalsáchio, enfatizou que o movimento portuário local é uma das maiores indústrias do Estado, no setor da prestação de serviços. Ele revelou também que a atividade na área da Ponte Internacional Uruguaiana/Paso de Los Libres tem a participação direta de quatro mil pessoas e que o envolvimento indireto de outros profissionais "é algo incomensurável".
Enfatizando que o comércio exportador e importador de mercadorias é seguramente o maior segmento econômico do município, Dalsóchio revela que por esta fronteira passa cerca de 5% de todo o comércio exterior brasileiro, só perdendo em movimentação para o porto de Santos, que detém 22% das exportações. Uruguaiana compete em pé de igualdade com os portos de Vitória, no Espírito Santo, e do Rio de Janeiro e ainda com os aeroportos de Guarulhos e Campinas.
Depois de registrar que a movimentação no porto rodoviário local apresenta crescimento médio de 10% ao ano, ao contrário de outros recintos alfandegários do país. "Uruguaiana apresentou crescimento contínuo, mesmo nos momentos de crise mais aguda". Dalsóchio registrou que vêm aumentando as exportações para o Chile, que já responde por 35% da movimentação de mercadorias no porto local, ficando 10% por conta do Uruguai e outros países e os restantes 55% com a Argentina. Desse movimento, de 30 a 35% correspondem a cargas perigosas, assunto que Dalsóchio gostaria de ver tratado com maior conhecimento de causa, "evitando-se opiniões nem sempre embasadas por critérios técnicos".
É mais um vício da imprensa: quando falam em triplice fronteira, todos os telejornais correm para Foz de Iguaçu. Esquecem que existe uma tríplice fronteira (Brasil, Uruguai, Argentina) muito mais importante. Vejam o que diz o Diário da Fronteira, de Uruguaiana, reproduzida no imprescindível www.portaluruguaiana.com.br:
O ponto rodo-ferroviário de Uruguaiana é o mais importante do Brasil e o movimento comercial sobre rodas aqui existente é dois terços maior do que o de Foz do lguaçu. Ao revelar esse dado na palestra que fez quinta-feira (28) na Câmara de Vereadores de Uruguaiana, o delegado da Receita Federal, Josemar Dalsáchio, enfatizou que o movimento portuário local é uma das maiores indústrias do Estado, no setor da prestação de serviços. Ele revelou também que a atividade na área da Ponte Internacional Uruguaiana/Paso de Los Libres tem a participação direta de quatro mil pessoas e que o envolvimento indireto de outros profissionais "é algo incomensurável".
Enfatizando que o comércio exportador e importador de mercadorias é seguramente o maior segmento econômico do município, Dalsóchio revela que por esta fronteira passa cerca de 5% de todo o comércio exterior brasileiro, só perdendo em movimentação para o porto de Santos, que detém 22% das exportações. Uruguaiana compete em pé de igualdade com os portos de Vitória, no Espírito Santo, e do Rio de Janeiro e ainda com os aeroportos de Guarulhos e Campinas.
Depois de registrar que a movimentação no porto rodoviário local apresenta crescimento médio de 10% ao ano, ao contrário de outros recintos alfandegários do país. "Uruguaiana apresentou crescimento contínuo, mesmo nos momentos de crise mais aguda". Dalsóchio registrou que vêm aumentando as exportações para o Chile, que já responde por 35% da movimentação de mercadorias no porto local, ficando 10% por conta do Uruguai e outros países e os restantes 55% com a Argentina. Desse movimento, de 30 a 35% correspondem a cargas perigosas, assunto que Dalsóchio gostaria de ver tratado com maior conhecimento de causa, "evitando-se opiniões nem sempre embasadas por critérios técnicos".
DESDE QUE O MUNDO É MUNDO
DESDE QUE O MUNDO É MUNDO
Disse hoje ao vendedor do Carrefour:
- Por que vocês acreditam nessa técnica de vendas, que atordoa o cliente com som alto? Vocês acham que as pessoas, ao ficarem atordoadas, compram mais? Te garanto que é ao contrário: dá vontade de sair correndo daqui.
Resultado: cinco minutos depois, todas as televisões estavam desligadas e consegui fazer as compras em paz.
Disse à queima-roupa ao Antonio Abujamra, que apareceu de repente certa manhã em frente à sede da Fiesp:
- Por que você recita apenas os poetas consagrados? Te enviei o poema O País Perdido e você nem aceitou a provocação.
Abujamara foi saindo de fininho, argumentando que recebia e-mails demais. Hoje, domingo, ele criou um quadro para responder e-mails no seu Provocações, da TV Cultura. Claro que nada tem a ver uma coisa com outra.
Para o homem da banca de jornais e revistas:
- O sr. não tem troco para dez reais numa compra de quatro e quarenta?
Para a balconista da padaria:
- Não adiantou apontar para os pães mais torrados, você colocou todos os pães brancos dentro do saco.
Para a caixa da farmácia:
- Por que você está interrompendo seu atendimento para conversar com a colega?
Dois segundos depois ela quis me dar o troco novamente. Fui em cima:
- Eu poderia pegar seu troco de novo, já que você se distraiu.
Para a gerente do banco:
- Por que o telefone tem precedência sobre mim?Quem liga depois precisa esperar que você me atenda.
Para o açougueiro do supermercado:
- Pedi um quilo e você colocou um quilo e 150 gramas.
- Mas é só um bife a mais!
- Mas vai sobrar. Me venda o que eu pedi.
Para o dono do botequim da praia:
- A gente viaja mil quilômetros para chegar aqui e escutar o som do mar e não o seu som alto e de má qualidade.O silêncio é de ouro. Se o sr. trabalhar em silêncio, vai juntar gente. Tem poucas pessoas aqui porque o seu som é inconveniente.
Para dois balconistas:
- Desculpe interromper a conversa, mas você poderia me dizer onde encontro algodão e água boricada?
Passo o dia assim. Os vendedores estão estressados, indiferentes e mal pagos. Os clientes furam a fila e são mal educados. Minha catequese é despropositada. Preciso parar de ser consumidor. É sempre assim, “desde que o mundo é mundo”. Essa é talvez a pior expressão da terra. O mundo não era mundo e no momento em que se tornou mundo, tudo o que é porcaria surgiu. Pelo menos é o que entendo da frase. E como surgiu, ficou. Para sempre.
Minha abordagem inclui gerentes, vendedores, balconistas e empresários. Entrevistei um empresário de Piracicaba e ele me veio com essa:
- Esse pessoal veio do Nordeste e agora fundou um monte de favela na cidade.
- Mas quem chamou os nordestinos? perguntei. Não foram os empresários, que precisavam construir, ampliar a cidade e os negócios? E eles vieram, fizeram o serviço e deveriam voltar como foram? Pois ficaram, sem que ninguém fizesse plano nenhum para eles. Foram abandonados e agora viraram dor de cabeça. Culpa de vocês.
Eu sempre fui assim. Desde que mundo é mundo.
Disse hoje ao vendedor do Carrefour:
- Por que vocês acreditam nessa técnica de vendas, que atordoa o cliente com som alto? Vocês acham que as pessoas, ao ficarem atordoadas, compram mais? Te garanto que é ao contrário: dá vontade de sair correndo daqui.
Resultado: cinco minutos depois, todas as televisões estavam desligadas e consegui fazer as compras em paz.
Disse à queima-roupa ao Antonio Abujamra, que apareceu de repente certa manhã em frente à sede da Fiesp:
- Por que você recita apenas os poetas consagrados? Te enviei o poema O País Perdido e você nem aceitou a provocação.
Abujamara foi saindo de fininho, argumentando que recebia e-mails demais. Hoje, domingo, ele criou um quadro para responder e-mails no seu Provocações, da TV Cultura. Claro que nada tem a ver uma coisa com outra.
Para o homem da banca de jornais e revistas:
- O sr. não tem troco para dez reais numa compra de quatro e quarenta?
Para a balconista da padaria:
- Não adiantou apontar para os pães mais torrados, você colocou todos os pães brancos dentro do saco.
Para a caixa da farmácia:
- Por que você está interrompendo seu atendimento para conversar com a colega?
Dois segundos depois ela quis me dar o troco novamente. Fui em cima:
- Eu poderia pegar seu troco de novo, já que você se distraiu.
Para a gerente do banco:
- Por que o telefone tem precedência sobre mim?Quem liga depois precisa esperar que você me atenda.
Para o açougueiro do supermercado:
- Pedi um quilo e você colocou um quilo e 150 gramas.
- Mas é só um bife a mais!
- Mas vai sobrar. Me venda o que eu pedi.
Para o dono do botequim da praia:
- A gente viaja mil quilômetros para chegar aqui e escutar o som do mar e não o seu som alto e de má qualidade.O silêncio é de ouro. Se o sr. trabalhar em silêncio, vai juntar gente. Tem poucas pessoas aqui porque o seu som é inconveniente.
Para dois balconistas:
- Desculpe interromper a conversa, mas você poderia me dizer onde encontro algodão e água boricada?
Passo o dia assim. Os vendedores estão estressados, indiferentes e mal pagos. Os clientes furam a fila e são mal educados. Minha catequese é despropositada. Preciso parar de ser consumidor. É sempre assim, “desde que o mundo é mundo”. Essa é talvez a pior expressão da terra. O mundo não era mundo e no momento em que se tornou mundo, tudo o que é porcaria surgiu. Pelo menos é o que entendo da frase. E como surgiu, ficou. Para sempre.
Minha abordagem inclui gerentes, vendedores, balconistas e empresários. Entrevistei um empresário de Piracicaba e ele me veio com essa:
- Esse pessoal veio do Nordeste e agora fundou um monte de favela na cidade.
- Mas quem chamou os nordestinos? perguntei. Não foram os empresários, que precisavam construir, ampliar a cidade e os negócios? E eles vieram, fizeram o serviço e deveriam voltar como foram? Pois ficaram, sem que ninguém fizesse plano nenhum para eles. Foram abandonados e agora viraram dor de cabeça. Culpa de vocês.
Eu sempre fui assim. Desde que mundo é mundo.
24 de agosto de 2003
O PORTAL ÚMIDO
O PORTAL ÚMIDO
Nei Duclós
Talvez pintem outras idéias
e o quarto se reacenda
e voltem meus companheiros
e a terra ainda me entenda
e o campo seja colheita
e o mar início da veia
e o sol me reconheça
como amigo verdadeiro
e que eu retome a batalha
nesta arapuca de espelhos
e de miragem, apenas
o que de fato não queira
Talvez pintem outras verdades
e um clima de terra alheia
novos poemas, o óbvio
de uma canção de fronteira
(Do livro "No Mar, Veremos", Ed. Globo, 2001)
Nei Duclós
Talvez pintem outras idéias
e o quarto se reacenda
e voltem meus companheiros
e a terra ainda me entenda
e o campo seja colheita
e o mar início da veia
e o sol me reconheça
como amigo verdadeiro
e que eu retome a batalha
nesta arapuca de espelhos
e de miragem, apenas
o que de fato não queira
Talvez pintem outras verdades
e um clima de terra alheia
novos poemas, o óbvio
de uma canção de fronteira
(Do livro "No Mar, Veremos", Ed. Globo, 2001)
21 de agosto de 2003
20 de agosto de 2003
Primeiro, incorporar. Depois, reescrever, reescrever.
Primeiro, incorporar. Depois, reescrever, reescrever.
19 de agosto de 2003
SERGIO VIEIRA DE MELLO
SERGIO VIEIRA DE MELLO
(1948-2003)
O Brasil perde seu maior estadista
Ninguém ficou sabendo, claro, a não ser meia dúzia de pessoas, mas eu lancei Sergio Vieira de Mello para a presidência do Brasil no auge da campanha do ano passado. Cheguei até a fazer um cartaz, para surpresa dos que me rodeavam. “Ah, aquele da ONU”, diziam. Eu estava já convencido em votar no Lula, mas desconfiava que Lula não tinha o estofo de estadista de Vieira de Mello, um especialista em conflitos e o mais brilhante brasileiro da minha geração. Nesta altura das trapalhadas do governo Lula, a perda de Vieira de Mello na guerra estúpida inventada pelo Bush é mais do que uma tragédia, é uma revelação.
Por acaso vocês viram, antes da sua morte, alguma vez na televisão uma entrevista com Vieira de Mello? Mas com o pessoal do Karametade, viram, pois não? Já leram alguma vez o Vieira de Mello falando sobre o Brasil na imprensa brasileira? Mas sobra entrevista com as nulidades de plantão. Pois agora perdemos nosso grande estadista, o brilhante diplomata cheio de coragem, doutor em filosofia pela Sorbonne, que soube reiventar o Timor Leste do nada. Agora é a hora de cobrir os espaços da mídia com sua biografia, já que nossa imprensa é incapaz de reconhecer seus maiores contemporâneos e só descobre a verdadeira grandeza depois que a perdemos.
Vieira de Mello era meu candidato à presidência em 2006. Perdemos mais esta. Para a brutalidade de Bush e para a violência do Oriente Médio, que só acabará quando erradicarem o petróleo do topo da lista de prioridades energéticas.
A seriedade, coragem e inteligência de Sergio Vieira de Mello são fontes permanentes de inspiração para nós, que aqui ficamos. Ele era o Brasil que precisamos ser. Foi-se no auge da sua vida e deixa no mundo a imagem de seriedade que nós podemos ter na comunidade internacional.
É hora de abraçar as pessoas que realmente contam, dar-lhes crédito e não deixá-los ir sem que saibam o quanto os admiramos.
Agora, dou crédito ao Jamil Chade, da Agência Estado, transcrevendo sua reportagem quando Vieira de Mello deixou tinindo o Timor Leste:
Diplomata preparou
Timor para novo país
Brasileiro Sérgio Vieira de Mello atuou dois anos e meio como o chefe da missão das Nações Unidas
Jamil Chade
Agência Estado
No último dia 20, o Timor Leste se tornou o mais novo país do mundo. Para muitos diplomatas e funcionários da ONU, um dos principais responsáveis pela transição dos timorenses para a independência foi o diplomata brasileiro Sérgio Vieira de Mello, que por dois anos e meio atuou como o chefe da missão das Nações Unidas no Timor.
"Sérgio Vieira de Mello não foi apenas o governo do Timor por mais de dois anos. Foi ele quem conseguiu estabelecer as regras para a formação do novo governo, conseguiu a confiança da comunidade internacional e comandou um dos maiores sucessos da ONU nos últimos anos", afirma um assessor das Nações Unidas no Timor. Com a independência do país, Sérgio Vieira de Mello foi substituído pelo diplomata indiano Kamalesh Sharma, que terá a função de, nos próximos 12 meses, ajudar a nova administração do Timor a operar.
Críticas
Uma das críticas à atuação da ONU era de que a organização estaria deixando o Timor na condição de um dos dez países mais pobres do mundo, com um PIB per capta de somente US$ 478 por ano, expectativa de vida de apenas 57 anos e com metade da população vivendo com menos de US$ 0,55 por dia. As Nações Unidas, porém, afirmam que o mérito do brasileiro não foi no campo econômico, mas no fato de ter transformado um país arrasado pela guerra em um local onde a cada dia o poder Judiciário e a democracia se fortalecem.
"Em 1999, 400 mil timorenses deixaram o território fugindo da violência. A população que ficou se refugiou nas montanhas. Hoje, começamos a ver uma sociedade civil se organizando, uma polícia civil, um parlamento e uma constituição aprovada", afirma um de seus ex-colaboradores. Para outro funcionário da ONU no Timor, viver hoje em Díli (capital do novo país) pode ser mais seguro que morar em uma cidade brasileira.
A missão de Vieira de Mello teve como objetivo organizar a população e os líderes locais para a criação de um Estado.
Problemas humanitários
não foram solucionados
Sérgio Vieira de Mello, conhecido no meio diplomático pelo seu conhecimento sobre filosofia clássica, foi o responsável por estabelecer ministérios, programas para ajudar a população a votar, incentivar debates políticos e coordenar a segurança militar do novo país.
Para agravar ainda mais a situação, era exigido do diplomata que atendesse os pedidos dos vários grupos do território, entre eles a minoria muçulmana. "Vieira de Mello teve a possibilidade de construir um país", afirmou seu ex-colaborador.
Os problemas que o brasileiro enfrentou, porém, não foram apenas internos. O diplomata, que por muito tempo atuou ao lado do secretário-geral da ONU, Kofi Annan, foi obrigado a praticamente formular a política externa do Timor. De um lado, necessitava manter boas relações com a Indonésia, antiga inimiga, mas responsável por grande parte do fluxo de comércio do novo país. Do outro lado, Vieira de Mello teve que negociar um acordo de exploração do petróleo do Mar do Timor com os australianos, que há vinte anos estavam na região.
Refugiados
Os problemas humanitários do Timor, porém, não foram todos solucionados com a administração de Sérgio Vieira de Mello. Ainda existem mais de 50 mil refugiados timorenses na Indonésia, que fugiram de suas casas em 1999 temendo a violência das milícias armadas. "Mais da metade possivelmente nunca mais voltará à sua região", reconhece um assessor do Alto Comissariado da ONU para Refugiados.
Para que o novo governo de Xanana Gusmão possa começar a funcionar, a comunidade internacional continuará apoiando o Timor. Para os próximos três anos, o Timor contará com US$ 440 milhões que serão destinados a uma estratégia para reduzir a pobreza, melhorar a educação e o acesso à saúde por parte da população.
Enfim, Sérgio Vieira de Mello termina seu mandato com uma das melhores reputações entre os funcionários da ONU e já está sendo cotado para ocupar o cargo de Alto Comissário da ONU para Direitos Humanos, no segundo semestre do ano. "Ele deu um toque brasileiro à ONU e à forma de atuação da comunidade internacional. Só mesmo um brasileiro, com o sentido de tolerância, poderia ter sido indicado para esse cargo", completou um funcionário da ONU em Genebra. (JC)
(1948-2003)
O Brasil perde seu maior estadista
Ninguém ficou sabendo, claro, a não ser meia dúzia de pessoas, mas eu lancei Sergio Vieira de Mello para a presidência do Brasil no auge da campanha do ano passado. Cheguei até a fazer um cartaz, para surpresa dos que me rodeavam. “Ah, aquele da ONU”, diziam. Eu estava já convencido em votar no Lula, mas desconfiava que Lula não tinha o estofo de estadista de Vieira de Mello, um especialista em conflitos e o mais brilhante brasileiro da minha geração. Nesta altura das trapalhadas do governo Lula, a perda de Vieira de Mello na guerra estúpida inventada pelo Bush é mais do que uma tragédia, é uma revelação.
Por acaso vocês viram, antes da sua morte, alguma vez na televisão uma entrevista com Vieira de Mello? Mas com o pessoal do Karametade, viram, pois não? Já leram alguma vez o Vieira de Mello falando sobre o Brasil na imprensa brasileira? Mas sobra entrevista com as nulidades de plantão. Pois agora perdemos nosso grande estadista, o brilhante diplomata cheio de coragem, doutor em filosofia pela Sorbonne, que soube reiventar o Timor Leste do nada. Agora é a hora de cobrir os espaços da mídia com sua biografia, já que nossa imprensa é incapaz de reconhecer seus maiores contemporâneos e só descobre a verdadeira grandeza depois que a perdemos.
Vieira de Mello era meu candidato à presidência em 2006. Perdemos mais esta. Para a brutalidade de Bush e para a violência do Oriente Médio, que só acabará quando erradicarem o petróleo do topo da lista de prioridades energéticas.
A seriedade, coragem e inteligência de Sergio Vieira de Mello são fontes permanentes de inspiração para nós, que aqui ficamos. Ele era o Brasil que precisamos ser. Foi-se no auge da sua vida e deixa no mundo a imagem de seriedade que nós podemos ter na comunidade internacional.
É hora de abraçar as pessoas que realmente contam, dar-lhes crédito e não deixá-los ir sem que saibam o quanto os admiramos.
Agora, dou crédito ao Jamil Chade, da Agência Estado, transcrevendo sua reportagem quando Vieira de Mello deixou tinindo o Timor Leste:
Diplomata preparou
Timor para novo país
Brasileiro Sérgio Vieira de Mello atuou dois anos e meio como o chefe da missão das Nações Unidas
Jamil Chade
Agência Estado
No último dia 20, o Timor Leste se tornou o mais novo país do mundo. Para muitos diplomatas e funcionários da ONU, um dos principais responsáveis pela transição dos timorenses para a independência foi o diplomata brasileiro Sérgio Vieira de Mello, que por dois anos e meio atuou como o chefe da missão das Nações Unidas no Timor.
"Sérgio Vieira de Mello não foi apenas o governo do Timor por mais de dois anos. Foi ele quem conseguiu estabelecer as regras para a formação do novo governo, conseguiu a confiança da comunidade internacional e comandou um dos maiores sucessos da ONU nos últimos anos", afirma um assessor das Nações Unidas no Timor. Com a independência do país, Sérgio Vieira de Mello foi substituído pelo diplomata indiano Kamalesh Sharma, que terá a função de, nos próximos 12 meses, ajudar a nova administração do Timor a operar.
Críticas
Uma das críticas à atuação da ONU era de que a organização estaria deixando o Timor na condição de um dos dez países mais pobres do mundo, com um PIB per capta de somente US$ 478 por ano, expectativa de vida de apenas 57 anos e com metade da população vivendo com menos de US$ 0,55 por dia. As Nações Unidas, porém, afirmam que o mérito do brasileiro não foi no campo econômico, mas no fato de ter transformado um país arrasado pela guerra em um local onde a cada dia o poder Judiciário e a democracia se fortalecem.
"Em 1999, 400 mil timorenses deixaram o território fugindo da violência. A população que ficou se refugiou nas montanhas. Hoje, começamos a ver uma sociedade civil se organizando, uma polícia civil, um parlamento e uma constituição aprovada", afirma um de seus ex-colaboradores. Para outro funcionário da ONU no Timor, viver hoje em Díli (capital do novo país) pode ser mais seguro que morar em uma cidade brasileira.
A missão de Vieira de Mello teve como objetivo organizar a população e os líderes locais para a criação de um Estado.
Problemas humanitários
não foram solucionados
Sérgio Vieira de Mello, conhecido no meio diplomático pelo seu conhecimento sobre filosofia clássica, foi o responsável por estabelecer ministérios, programas para ajudar a população a votar, incentivar debates políticos e coordenar a segurança militar do novo país.
Para agravar ainda mais a situação, era exigido do diplomata que atendesse os pedidos dos vários grupos do território, entre eles a minoria muçulmana. "Vieira de Mello teve a possibilidade de construir um país", afirmou seu ex-colaborador.
Os problemas que o brasileiro enfrentou, porém, não foram apenas internos. O diplomata, que por muito tempo atuou ao lado do secretário-geral da ONU, Kofi Annan, foi obrigado a praticamente formular a política externa do Timor. De um lado, necessitava manter boas relações com a Indonésia, antiga inimiga, mas responsável por grande parte do fluxo de comércio do novo país. Do outro lado, Vieira de Mello teve que negociar um acordo de exploração do petróleo do Mar do Timor com os australianos, que há vinte anos estavam na região.
Refugiados
Os problemas humanitários do Timor, porém, não foram todos solucionados com a administração de Sérgio Vieira de Mello. Ainda existem mais de 50 mil refugiados timorenses na Indonésia, que fugiram de suas casas em 1999 temendo a violência das milícias armadas. "Mais da metade possivelmente nunca mais voltará à sua região", reconhece um assessor do Alto Comissariado da ONU para Refugiados.
Para que o novo governo de Xanana Gusmão possa começar a funcionar, a comunidade internacional continuará apoiando o Timor. Para os próximos três anos, o Timor contará com US$ 440 milhões que serão destinados a uma estratégia para reduzir a pobreza, melhorar a educação e o acesso à saúde por parte da população.
Enfim, Sérgio Vieira de Mello termina seu mandato com uma das melhores reputações entre os funcionários da ONU e já está sendo cotado para ocupar o cargo de Alto Comissário da ONU para Direitos Humanos, no segundo semestre do ano. "Ele deu um toque brasileiro à ONU e à forma de atuação da comunidade internacional. Só mesmo um brasileiro, com o sentido de tolerância, poderia ter sido indicado para esse cargo", completou um funcionário da ONU em Genebra. (JC)
18 de agosto de 2003
A PLENOS PULMÕES

Transcrevo aqui um trecho magistral do poema de Maiakovski, poeta insuperável da revolução russa, numa tradução primorosa de Haroldo de Campos. Leia até o fim, vale a pena. Especialmente quando ele fala: "No túmulo dos livros,/ versos como ossos,/ se estas estrofes de aço/ acaso descobrirdes,/ vós as respeitareis,/ como quem vê destroços/ de um arsenal antigo,/ mas terrível." Maiakoviski foi o poeta que nos jogou em praça pública em 1969. Na versão abaixo, fiz pequenas modificações, já que convivo há tanto tempo com este poema que me dei a liberdade.
A PLENOS PULMÕES
(Primeira Introdução ao Poema)
Vladimir Maiakovski
Caros camaradas futuros!
Revolvendo a merda fóssil
de agora,pesquisando
estes dias escuros,talvez
perguntareis por mim.
Ora,começará vosso homem de ciência,
afagando os porquês
num banho de sabença,
conta-se que outrora
um férvido cantor
a água sem fervura
combateu com fervor(1).
Professor, jogue fora
suas lentes de arame!
A mim cabe falar
de mim
de minha era.
Eu, incinerador,
eu sanitarista,
a revolução
me convoca e me alista.
Troco pelo front
a horticultura airosa
da poesia
fêmea caprichosa.
Ela ajardina o jardim virgem
vargem
sombra
alfombra.
"É assim o jardim de jasmim,
o jardim de jasmim do alfenim."
Este verte versos feito regador,
aquele os baba, boca em babador,
bonifrates encapelados,
descabelados vates
entendê-los,
ao diabo!, quem há-de...
Quarentena é inútil contra eles
mandolinam por detrás das paredes:
"Ta-ran-tin, ta-ran-tin,
ta-ran-ten-n-n..."
Triste honra,
se de tais rosas
minha estátua se erigisse:
na praça
escarra a tuberculose;
putas e rufiões
numa ronda de sífilis.
Também a mim
a propaganda
cansa,
é tão fácil
alinhavar
romanças,
Mas eu
me dominava
entretanto
e pisava
a garganta do meu canto.
Escutai, camaradas futuros,
o agitador, o cáustico caudilho,
o extintor dos melífluos enxurros:
por cima dos opúsculos líricos,
eu vos falo como um vivo aos vivos.
Chego a vós, à Comuna distante,
não como Iessiênin,
guitarriarcaico.
Mas através dos séculos em arco
sobre os poetas
e sobre os governantes.
Meu verso chegará,
não como a seta
lírico-amável,
que persegue a caça.
Nem como
ao numismata
a moeda gasta,
nem como a luz
das estrelas decrépitas.
Meu verso
com suor
rompe a mole dos anos,
e assoma
a olho nu,
palpável,
bruto,
como a nossos dias
chega o aqueduto
levantado
por escravos romanos.
No túmulo dos livros,
versos como ossos,
se estas estrofes de aço
acaso descobrirdes,
vós as respeitareis,
como quem vê destroços
de um arsenal antigo,
mas terrível.
Ao ouvido
não diz
blandícias
minha voz;
lóbulos de donzelas
de cachos e bandós
não faço enrubescer
com lascivos rondós.
Desdobro minhas páginas
tropas em parada,
e passo em revista
o front das palavras.
Estrofes estacam
chumbo-severas,
prontas para o triunfo
ou para a morte.
Poemas-canhões, rígida coorte,
apontando
as maiúsculas
abertas.
Ei-la,
a cavalaria do sarcasmo,
minha arma favorita,
alerta para a luta.
Rimas em riste,
sofreando o entusiasmo,
eriça
suas lanças agudas.
E todo
este exército aguerrido,
vinte anos de combates,
não batido,
eu vos dôo,
proletários do planeta,
cada folha
até a última letra.
O inimigo
da colossal
classe obreira,
é também
meu inimigo
mortal.
Anos de servidão e de miséria
comandavam
nossa bandeira vermelha.
Nós abríamos Marx
volume após volume,
janelas de nossa casa
abertas amplamente,
mas ainda sem ler
saberíamos o rumo!
onde combater,
de que lado, em que frente.
Dialética,
não aprendemos com Hegel.
Invadiu-nos os versos
ao fragor das batalhas,
quando, sob o nosso projétil,
debandava o burguês
que antes nos debandara.
Que essa viúva desolada,
glória
se arraste
após os gênios,
melancólica.
Morre, meu verso,
como um soldado
anônimo
na lufada do assalto.
Cuspo
sobre o bronze pesadíssimo,
cuspo
sobre o mármore viscoso.
Partilhemos a glória,
entre nós todos,
o comum monumento:
o socialismo,
forjado na refrega
e no fogo.
Vindouros,
varejai vossos léxicos:
do Letes
brotam letras como lixo:
"tuberculose",
"bloqueio",
"meretrício".
Por vós,
geração de saudáveis,
um poeta,
com a língua dos cartazes,
lambeu
os escarros da tísis.
A cauda dos anos
faz-me agora
um monstro,
antediluviano.
Camarada vida,
vamos, para diante,
galopemos
pelo qüinqüênio afora(2).
Os versos para mim
não deram rublos,
nem mobílias
de madeiras caras.
Uma camisa
lavada e clara,
e basta,
para mim é tudo.
Ao Comitê Central
do futuro ofuscante,
sobre a malta
dos vates
velhacos e falsários,
apresento
em lugar
do registro partidário
todos
os cem tomos
dos meus livros militantes.
RETORNO - O poema foi escrito entre dezembro 1929/janeiro 1930. Notas: 1. Maiakóvski escreveu versos de propaganda sanitária. 2. Alusão aos Planos Qüinqüenais soviéticos. (Tradução e notas de Haroldo de Campos). Do livro "Maiakovski - Poemas"/Editora Perspectiva, 1982.
17 de agosto de 2003
DOIS POETAS


“Horizonte de esgrimas”, de Mario Chamie (à esq.) e “O Mundo como Idéia”, de Bruno Tolentino são livros dos dois mais importantes poetas do Brasil. Há outros poetas, também fundamentais, o que seria desnecessário citar, mas a confusão crítica é tanta que deve-se colocar tudo preto no branco: Ferreira Gullar, Hilda Hilst. Prefiro Chamie e Tolentino pelo que conseguem construir, pela proposta das suas intervenções.
São diferentes um do outro, claro. Chamie é o poeta de poetas, o inventor de uma rede, o compositor de inovações que se estendem ao infinito, sem jamais demonstrar cansaço. Chamie é alquimia, Tolentino é arquitetura. Chamie é um processo, Tolentino é uma Obra, a mais bem sucedida por conseguir tornar-se próxima da própria ambição.
Tolentino construiu um castelo, Chamie uma cidade. Para habitar Tolentino, só com brasões herdados ou fazendo uma visita de turista. O detalhe é que o anfitrião jamais aparece. Ele se recolhe nas passagens secretas da sua torre e lá comporta-se muito mal, como um ogro condenado à forca. Chamie criou uma infra-estrutura, estendeu ruas, calçadas e pontes e administra sua urbis com o dedo em riste. Você cruza Chamie, e fala com ele, e de lá sai transformado.
Chamie é mestre de Avis, o burguês que virou rei, Tolentino é Dom Sebastião, o rei que virou mito e jamais aparece, mas deixa atrás de si uma coleção de monumentos imaginários. Em Chamie, percorremos uma avenida de atrações e caímos na tentação da poesia graças à sua oficina exposta em vitrines claras.
Dois impérios, um industrial e outro pertencente à arte da cavalaria, estocam a poesia brasileira derramada em milhões de poetas anônimos.
16 de agosto de 2003
MANHÃ
MANHÃ
Nei Duclós
Depois de limpar os pés
no portal da aurora
a noite se recolhe
É quando a manhã nasce
para ver-me forte
Acordo a casa, abro a porta
e a brisa vem bater na carne clara
da mulher que eu gosto
deitada em paz e glória
Tenho o que sonhei
e custou-me caro
esta firmeza de me tornar belo
A espera curvou levemente as costas
mas um forte azul
coloriu-me os olhos
A tristeza se foi
como um parente chato
que abandona o quarto dos hóspedes
E é no amanhecer
que tudo isso enxergo:
o lençol manchado de amor
e o barulho dos meus versos
nas folhas do caderno
(Do livro Outubro, IEL/RS-A Nação, 1976)
Nei Duclós
Depois de limpar os pés
no portal da aurora
a noite se recolhe
É quando a manhã nasce
para ver-me forte
Acordo a casa, abro a porta
e a brisa vem bater na carne clara
da mulher que eu gosto
deitada em paz e glória
Tenho o que sonhei
e custou-me caro
esta firmeza de me tornar belo
A espera curvou levemente as costas
mas um forte azul
coloriu-me os olhos
A tristeza se foi
como um parente chato
que abandona o quarto dos hóspedes
E é no amanhecer
que tudo isso enxergo:
o lençol manchado de amor
e o barulho dos meus versos
nas folhas do caderno
(Do livro Outubro, IEL/RS-A Nação, 1976)
A ZERO HORA
A ZERO HORA
A moda pegou: a Zero Hora é o único jornal com nome feminino que tem um artigo o na frente. Todo mundo agora está falando o Zero Hora, o que é errado. Ninguém diz o Folha ou o Tribuna ou o Gazeta. Nestes casos, todo mundo fala certo: concordam o nome feminino com o artigo a. É a Folha, a Triibuna , a Gazeta. Por que não a Zero Hora?
A culpa é do maldito o, de Zero. Estima-se que deve-se concordar com Zero, o que é um eqúivoco, já que, como se dizia a Ultima Hora, diz-se também a Zero Hora, ou a Hora Zero.
O nome do jornal, traduzindo, é a Primeira Hora, ou a Hora Zero. É uma coisa tão simples que qualquer vendedor de jornal do Rio Grande do Sul berra corretamente: olhaaa aaaa Zeeero Hooora!
O Zero surgiu quando a Zero deixou de ser conhecida apenas no Rio Grande do Sul e virou referência nacional, especialmente depois da passagem do Augusto Nunes por lá. Já escrevi para um monte de gente para alertar sobre isso, mas ninguém dá bola. E continuam falando o Zero. Então, tá.
A moda pegou: a Zero Hora é o único jornal com nome feminino que tem um artigo o na frente. Todo mundo agora está falando o Zero Hora, o que é errado. Ninguém diz o Folha ou o Tribuna ou o Gazeta. Nestes casos, todo mundo fala certo: concordam o nome feminino com o artigo a. É a Folha, a Triibuna , a Gazeta. Por que não a Zero Hora?
A culpa é do maldito o, de Zero. Estima-se que deve-se concordar com Zero, o que é um eqúivoco, já que, como se dizia a Ultima Hora, diz-se também a Zero Hora, ou a Hora Zero.
O nome do jornal, traduzindo, é a Primeira Hora, ou a Hora Zero. É uma coisa tão simples que qualquer vendedor de jornal do Rio Grande do Sul berra corretamente: olhaaa aaaa Zeeero Hooora!
O Zero surgiu quando a Zero deixou de ser conhecida apenas no Rio Grande do Sul e virou referência nacional, especialmente depois da passagem do Augusto Nunes por lá. Já escrevi para um monte de gente para alertar sobre isso, mas ninguém dá bola. E continuam falando o Zero. Então, tá.
15 de agosto de 2003
O JURAMENTO
O JURAMENTO
O título do terceiro filme de Sean Penn foi traduzido para A Promessa, mas o mais adequado é O Juramento. O detetive interpretado por Jack Nicholson jura pela salvação da sua alma que vai encontrar o assassino de uma menina. A mãe o obriga a isso colocando nos seus olhos a cruz feita pela vítima. O juramento é a garantia de que uma possibilidade, a justa punição, seja concretizada. O jogo perigoso entre ficção e realidade costura o filme e surpreende o espectador, pois esta narrativa clássica da investigação de um crime, apesar de manter intactos todos os detalhes tradicionais, fustra todas as expectativas com um happy end pelo avesso.
O que é considerado realidade – a versão policial do crime – revela-se ficção. E o que é considerado fantasia – as pistas deixadas pela menina e a lógica do detetive – é a realidade que jamais emerge para a credibilidade. Enquanto a verdade é desviada do seu caminho, atropelada, incendidada e esfaqueada, a ficção goza de boa saúde. A fantasia – a verdade sobre o assassinato e as histórias infantis – estão confinadas no mundo dos velhos e das crianças. A exclusão pela faixa etária permite o acesso à impunidade. A verdadeira punição só é feita pelo Acaso, mas esse detalhe ofusca para sempre a verdade.
O resultado é a insanidade de quem apostou sua vida na investigação correta. Por isso o filme não faz brincadeira com ninguém. Baseado em Fury, filme de 1936 de Fritz Lang sobre linchamento, Penn recria a cena das galinhas – que no filme de Lang remete à reprodução em massa da versão errada – colocando no lugar uma criação de perus – que além de um resgate visual da homenagem revela a disponibilidae das criaturas para o abate.
O detetive jura reverter esse quadro, impor a verdade como antídoto à injustiça – já que o suspeito é praticamente linchado na delegacia. Mas a ficção enraizada na certeza cômoda das instituições exclui investigador e vítimas para o limbo da falta de juízo.
O título do terceiro filme de Sean Penn foi traduzido para A Promessa, mas o mais adequado é O Juramento. O detetive interpretado por Jack Nicholson jura pela salvação da sua alma que vai encontrar o assassino de uma menina. A mãe o obriga a isso colocando nos seus olhos a cruz feita pela vítima. O juramento é a garantia de que uma possibilidade, a justa punição, seja concretizada. O jogo perigoso entre ficção e realidade costura o filme e surpreende o espectador, pois esta narrativa clássica da investigação de um crime, apesar de manter intactos todos os detalhes tradicionais, fustra todas as expectativas com um happy end pelo avesso.
O que é considerado realidade – a versão policial do crime – revela-se ficção. E o que é considerado fantasia – as pistas deixadas pela menina e a lógica do detetive – é a realidade que jamais emerge para a credibilidade. Enquanto a verdade é desviada do seu caminho, atropelada, incendidada e esfaqueada, a ficção goza de boa saúde. A fantasia – a verdade sobre o assassinato e as histórias infantis – estão confinadas no mundo dos velhos e das crianças. A exclusão pela faixa etária permite o acesso à impunidade. A verdadeira punição só é feita pelo Acaso, mas esse detalhe ofusca para sempre a verdade.
O resultado é a insanidade de quem apostou sua vida na investigação correta. Por isso o filme não faz brincadeira com ninguém. Baseado em Fury, filme de 1936 de Fritz Lang sobre linchamento, Penn recria a cena das galinhas – que no filme de Lang remete à reprodução em massa da versão errada – colocando no lugar uma criação de perus – que além de um resgate visual da homenagem revela a disponibilidae das criaturas para o abate.
O detetive jura reverter esse quadro, impor a verdade como antídoto à injustiça – já que o suspeito é praticamente linchado na delegacia. Mas a ficção enraizada na certeza cômoda das instituições exclui investigador e vítimas para o limbo da falta de juízo.
PRAÇA DOS SONHOS
PRAÇA DOS SONHOS
Nei Duclós
Fabrício Carpinejar, que tem uns 30 anos, já é nome de prêmio na sua cidade, São Leopoldo. O Lindolf Bell, que conheci em 1971 em Blumenau, quando participei do lançamento do Jornal de Santa Catarina, é nome de espaço cultural. Luis de Miranda, poeta conterrâneo e vulgo Libisca, pode ser patrono da próxima Feira do Livro de Porto Alegre. Tabajara Ruas, que me deu o privilégio de ler em primeira mão, ainda datilografados, seus primeiros romances, daqui a pouco ganha o Nobel. Caio Fernando Abreu, do qual guardo cartas magníficas (e que não foram publicadas ainda porque ninguém me perguntou se eu tinha), é ícone literário. Caco Barcellos, que conheço desde a época em que ele era repórter (e eu redator) da Folha da Manhã em 1975, em Portinho, e que cruzou comigo inúmeras vezes nas redações da vida, é quase Sir.
Só eu continuo no meu início. Ainda estou à cata de quem edite minha enorme gaveta. Procuro também novo emprego. Mas minha vingança é que meu desejo um dia vai se concretizar: quero ser praça. Ou praça, ou nada. Nela, meus amigos irão escutar os passarinhos no fim da tarde (pois os pássaros vão se refugiar lá, quando ainda houver fim de tarde). Vão namorar em algum banco, pegar sombra depois do almoço. Nela, meus filhos irão matar a saudade. Nessa praça, haverá quietude e ninguém será visto como mendigo. Estarei lá, em algum canteiro, arrancando erva daninha e cheirando flor. Não prometo plantar alguma coisa. Mas será praça com flora variada, porque nela todos sentirão vontade de adotar uma folha, uma pétala, uma fruta sem serventia.
Essa praça vai precisar de um coreto, que faça música em poucos dias do ano, para uma platéia atenta e mansa. Coreto colorido como os antigos enfeites de papel crepom que meu tio avô fazia para comprar cachaça. Ele enrolava o papel em arames fininhos, fazendo pequenas hastes-tubos e depois colava, com grude de farinha e água, devagarinho, levando a tarde toda, na borda dos porta-retratos que vendia por uma micharia. Depois ordenava:
- A Elvirinha gosta que se péla de uma cervejinha, mas não gelada. Vai lá no Mirotti comprar para o teu tio.
Minha irmã Elvira, que Deus a tenha, estava com uns nove anos naquela época e detestava ir no bolicho do Mirotti.
Na praça que levará meu nome, farei rodas de conversa em cadeira preguiçosa em noites de lua, com a Elvira, minha mãe e meu pai e tias, que já se foram, mas que estão sempre comigo. Também os futuros escritores farão suas visitas. Os pequerruchos (porque são crianças os futuros escritores) sentirão um perfume estranho no ar. O cheiro de uma antiga loucura, aquela que tinha sol nos sessenta, aquela que viu minha juventude nascer.
A praça com meu nome será abraçada pelos amigos de sempre. Caio, Gick (com tanta vida para tão poucos anos), Fortuna, Tarso. Aliás, vou apresentar o Tarso para meu pai. Eles vão dar boas gargalhadas.
Um dia viro praça. Só então serei eterno.
Nei Duclós
Fabrício Carpinejar, que tem uns 30 anos, já é nome de prêmio na sua cidade, São Leopoldo. O Lindolf Bell, que conheci em 1971 em Blumenau, quando participei do lançamento do Jornal de Santa Catarina, é nome de espaço cultural. Luis de Miranda, poeta conterrâneo e vulgo Libisca, pode ser patrono da próxima Feira do Livro de Porto Alegre. Tabajara Ruas, que me deu o privilégio de ler em primeira mão, ainda datilografados, seus primeiros romances, daqui a pouco ganha o Nobel. Caio Fernando Abreu, do qual guardo cartas magníficas (e que não foram publicadas ainda porque ninguém me perguntou se eu tinha), é ícone literário. Caco Barcellos, que conheço desde a época em que ele era repórter (e eu redator) da Folha da Manhã em 1975, em Portinho, e que cruzou comigo inúmeras vezes nas redações da vida, é quase Sir.
Só eu continuo no meu início. Ainda estou à cata de quem edite minha enorme gaveta. Procuro também novo emprego. Mas minha vingança é que meu desejo um dia vai se concretizar: quero ser praça. Ou praça, ou nada. Nela, meus amigos irão escutar os passarinhos no fim da tarde (pois os pássaros vão se refugiar lá, quando ainda houver fim de tarde). Vão namorar em algum banco, pegar sombra depois do almoço. Nela, meus filhos irão matar a saudade. Nessa praça, haverá quietude e ninguém será visto como mendigo. Estarei lá, em algum canteiro, arrancando erva daninha e cheirando flor. Não prometo plantar alguma coisa. Mas será praça com flora variada, porque nela todos sentirão vontade de adotar uma folha, uma pétala, uma fruta sem serventia.
Essa praça vai precisar de um coreto, que faça música em poucos dias do ano, para uma platéia atenta e mansa. Coreto colorido como os antigos enfeites de papel crepom que meu tio avô fazia para comprar cachaça. Ele enrolava o papel em arames fininhos, fazendo pequenas hastes-tubos e depois colava, com grude de farinha e água, devagarinho, levando a tarde toda, na borda dos porta-retratos que vendia por uma micharia. Depois ordenava:
- A Elvirinha gosta que se péla de uma cervejinha, mas não gelada. Vai lá no Mirotti comprar para o teu tio.
Minha irmã Elvira, que Deus a tenha, estava com uns nove anos naquela época e detestava ir no bolicho do Mirotti.
Na praça que levará meu nome, farei rodas de conversa em cadeira preguiçosa em noites de lua, com a Elvira, minha mãe e meu pai e tias, que já se foram, mas que estão sempre comigo. Também os futuros escritores farão suas visitas. Os pequerruchos (porque são crianças os futuros escritores) sentirão um perfume estranho no ar. O cheiro de uma antiga loucura, aquela que tinha sol nos sessenta, aquela que viu minha juventude nascer.
A praça com meu nome será abraçada pelos amigos de sempre. Caio, Gick (com tanta vida para tão poucos anos), Fortuna, Tarso. Aliás, vou apresentar o Tarso para meu pai. Eles vão dar boas gargalhadas.
Um dia viro praça. Só então serei eterno.
14 de agosto de 2003
TAÍ, PORTANTO
TAÍ, PORTANTO
Esse é o título de uma possível coluna sobre esportes. Notem: sempre dizem “Taí, portanto”, nas transmissões esportivas. Assim como esta expressão recorrente, há também duas manifestações sagradas. Uma é a pergunta “como é que é” e a outra a resposta “com certeza”.
- Como é que é essa coisa de ganhar medalha? Como é que é que você se sente? Como é que é estar aqui e não lá?
- Com certeza, mas com certeza mesmo eu tenho certeza que temos certeza.
É uma síndrome, uma espécie de doença coletiva que toma conta da nação apalermada.
Parece que o universo corre perigo e pode cair, descambar, perder seu prumo a qualquer momento se todos não disserem a cada segundo “com certeza”. Se é dito, então, o universo fica momentaneamente salvo. Mas dali a pouco...
Nunca houve tanto idiota falando tanto ao mesmo tempo. Como sou o rei do zap, passo em revista a quantidade de abobrinhas que são ditas em todos os canais, enquanto pessoas que realmente tem o que dizer jamais aparecem na televisão. O que existe na frente das câmeras, principalmente, são os comentadores oficiais, que tomam conta de todo o espaço e não deixam os fatos e as pessoas que importam aparecerem. A TV não convoca a inteligência.
Vocês, por exemplo, já viram uma vez sequer nos últimos anos, uma imagem atualizada do maior compositor do Brasil, Edu Lobo? Ele aparece em algum lugar cantando, falando sobre seu maravilhoso trabalho, tocando? Não, o que oferecem é esse tal de Daniel todo o santo dia. Vocês já viram o maior crítico do Brasil, Roberto Scharwz, autor de obras-primas como “Um Mestre na periferia do capitalismo”, falar em algum canal, mesmo alternativo? São só dois exemplos. Enquanto isso, sobram imbecilidades.
Esse é o título de uma possível coluna sobre esportes. Notem: sempre dizem “Taí, portanto”, nas transmissões esportivas. Assim como esta expressão recorrente, há também duas manifestações sagradas. Uma é a pergunta “como é que é” e a outra a resposta “com certeza”.
- Como é que é essa coisa de ganhar medalha? Como é que é que você se sente? Como é que é estar aqui e não lá?
- Com certeza, mas com certeza mesmo eu tenho certeza que temos certeza.
É uma síndrome, uma espécie de doença coletiva que toma conta da nação apalermada.
Parece que o universo corre perigo e pode cair, descambar, perder seu prumo a qualquer momento se todos não disserem a cada segundo “com certeza”. Se é dito, então, o universo fica momentaneamente salvo. Mas dali a pouco...
Nunca houve tanto idiota falando tanto ao mesmo tempo. Como sou o rei do zap, passo em revista a quantidade de abobrinhas que são ditas em todos os canais, enquanto pessoas que realmente tem o que dizer jamais aparecem na televisão. O que existe na frente das câmeras, principalmente, são os comentadores oficiais, que tomam conta de todo o espaço e não deixam os fatos e as pessoas que importam aparecerem. A TV não convoca a inteligência.
Vocês, por exemplo, já viram uma vez sequer nos últimos anos, uma imagem atualizada do maior compositor do Brasil, Edu Lobo? Ele aparece em algum lugar cantando, falando sobre seu maravilhoso trabalho, tocando? Não, o que oferecem é esse tal de Daniel todo o santo dia. Vocês já viram o maior crítico do Brasil, Roberto Scharwz, autor de obras-primas como “Um Mestre na periferia do capitalismo”, falar em algum canal, mesmo alternativo? São só dois exemplos. Enquanto isso, sobram imbecilidades.
12 de agosto de 2003
OTHON BASTOS
OTHON BASTOS
Nei Duclós
A elite gera seus clones para manter-se, e encontra farta matéria-prima do seu endêmico autoritarismo no povo brasileiro. Em Othon Bastos, o Brasil pobre e mestiço que assume o exercício da repressão e da intolerância costuma ser punido. O pé rapado que consegue, por meio da agiotagem e da crueldade, tornar-se proprietário de terras em São Bernardo, de Leon Hirzmann, fica só no meio do nada. O pai que interna o filho no manicômio público em O Bicho de Sete Cabeças, de Laís Bodansky, acaba o filme chorando ao lado do filho catatônico, destruído pelas internações e os falsos médicos. O cangaceiro Corisco, de Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, que quer matar o povo para privá-lo da fome, é dilacerado pela loucura da miséria e da dupla identidade.
Othon Bastos é, em A Hora Marcada, de Marcelo Taranto, o milionário que presta contas de suas falcatruas ao visitar o inferno. Othon Bastos é o Mal – o Brasil repressor e rico, em oposição ao Bem - o Brasil oprimido e pobre.
Ao contrário de Lima Duarte, que pune a ingenuidade popular por meio da caricatura - onde encarna o desprezo intelectual pelo que o povo deixa de fazer (Sassá Mutema, Zé Bigorna) -, Othon Bastos assume a natureza da opressão que garroteia o povo dentro do povo.
Othon Bastos é a alma dilacerada pela culpa por ter assumido o instrumento que faz doer, o martelo que fecha o caixão, a pá de cal. Seu desespero é a visão do Irremediável e sua atuação expõe o Mal por meio da consciência do espectador.
Lima Duarte é a consagração do que a elite precisa fazer, é a constatação do que o povo é, uma essência provisória tornada definitiva pela determinação do ator. Lima Duarte tem certeza que o povo nunca deixa de ser o que é, e que sua performance lança luz sobre essa maldição. É uma atuação sem esperança. O que faz é chumbar em praça pública o Zé das Couves que jamais deixa de lado o que determinaram para ele.
Já Othon Bastos, por escolher outro caminho da denúncia, arranca de si a transfiguração dos papéis, portanto sua superação. Seu Corisco enfrenta o espectador no que ele tem de falso, convoca o público (persona do povo que recria na tela) para uma guerra sem fim, em direção à maturidade da nação. Seu Senador Feitosa em Mauá, o Imperador e o Rei, de Sérgio Rezende, é o gesto amarrado vociferando contra a ação, é a âncora reacionária, é o fuzilamento do progresso. Seu pai repressor de O Bicho de Sete Cabeças é a tragédia das certezas.
Por isso Othon Bastos é o maior ator brasileiro de todos os tempos. Porque aponta para um futuro cravado de guerras intermináveis, mas necessárias, e por seu inconformismo diante da herança fechada de uma elite pequena, mas poderosa. Por isso Othon Bastos é insuperável e sua gana é a metralhadora que gira na nossa cabeça durante e depois de cada filme. Seu trabalho parece ser apenas talento, mas no fundo é missão e destino.
Nei Duclós
A elite gera seus clones para manter-se, e encontra farta matéria-prima do seu endêmico autoritarismo no povo brasileiro. Em Othon Bastos, o Brasil pobre e mestiço que assume o exercício da repressão e da intolerância costuma ser punido. O pé rapado que consegue, por meio da agiotagem e da crueldade, tornar-se proprietário de terras em São Bernardo, de Leon Hirzmann, fica só no meio do nada. O pai que interna o filho no manicômio público em O Bicho de Sete Cabeças, de Laís Bodansky, acaba o filme chorando ao lado do filho catatônico, destruído pelas internações e os falsos médicos. O cangaceiro Corisco, de Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, que quer matar o povo para privá-lo da fome, é dilacerado pela loucura da miséria e da dupla identidade.
Othon Bastos é, em A Hora Marcada, de Marcelo Taranto, o milionário que presta contas de suas falcatruas ao visitar o inferno. Othon Bastos é o Mal – o Brasil repressor e rico, em oposição ao Bem - o Brasil oprimido e pobre.
Ao contrário de Lima Duarte, que pune a ingenuidade popular por meio da caricatura - onde encarna o desprezo intelectual pelo que o povo deixa de fazer (Sassá Mutema, Zé Bigorna) -, Othon Bastos assume a natureza da opressão que garroteia o povo dentro do povo.
Othon Bastos é a alma dilacerada pela culpa por ter assumido o instrumento que faz doer, o martelo que fecha o caixão, a pá de cal. Seu desespero é a visão do Irremediável e sua atuação expõe o Mal por meio da consciência do espectador.
Lima Duarte é a consagração do que a elite precisa fazer, é a constatação do que o povo é, uma essência provisória tornada definitiva pela determinação do ator. Lima Duarte tem certeza que o povo nunca deixa de ser o que é, e que sua performance lança luz sobre essa maldição. É uma atuação sem esperança. O que faz é chumbar em praça pública o Zé das Couves que jamais deixa de lado o que determinaram para ele.
Já Othon Bastos, por escolher outro caminho da denúncia, arranca de si a transfiguração dos papéis, portanto sua superação. Seu Corisco enfrenta o espectador no que ele tem de falso, convoca o público (persona do povo que recria na tela) para uma guerra sem fim, em direção à maturidade da nação. Seu Senador Feitosa em Mauá, o Imperador e o Rei, de Sérgio Rezende, é o gesto amarrado vociferando contra a ação, é a âncora reacionária, é o fuzilamento do progresso. Seu pai repressor de O Bicho de Sete Cabeças é a tragédia das certezas.
Por isso Othon Bastos é o maior ator brasileiro de todos os tempos. Porque aponta para um futuro cravado de guerras intermináveis, mas necessárias, e por seu inconformismo diante da herança fechada de uma elite pequena, mas poderosa. Por isso Othon Bastos é insuperável e sua gana é a metralhadora que gira na nossa cabeça durante e depois de cada filme. Seu trabalho parece ser apenas talento, mas no fundo é missão e destino.
10 de agosto de 2003
ESQUINA
ESQUINA
Nei Duclós
Procuro alguma coisa bela
na rua que perdeu a alma
a lua, alguma coisa nova
Procuro alguma coisa séria
a prova de que estou na terra
a estrela que não for loucura
Procuro alimentar os olhos
com a luz que brota na calçada
na curva de uma esquina clara
Procuro aquilo que me espera
o corpo que recusa o escuro
a mão que enfim me desamarra
(Do Livro No Mar, Veremos, Ed. Globo, 2001)
Nei Duclós
Procuro alguma coisa bela
na rua que perdeu a alma
a lua, alguma coisa nova
Procuro alguma coisa séria
a prova de que estou na terra
a estrela que não for loucura
Procuro alimentar os olhos
com a luz que brota na calçada
na curva de uma esquina clara
Procuro aquilo que me espera
o corpo que recusa o escuro
a mão que enfim me desamarra
(Do Livro No Mar, Veremos, Ed. Globo, 2001)
A ANATOMIA EM HUDSON DE SOUZA
A ANATOMIA EM HUDSON DE SOUZA
Só hoje, domingo, dia 11/08, vi o VT da vitória do nosso medalha de ouro Hudson de Souza nos cinco mil metros. Tinha me chamado a atenção ( e me preocupado), quando assisti ao vivo sua esplêndida vitória nos 1.500 metros: na reta final, ao olhar para trás em direção ao seu mais próximo adversário, temi que perdesse preciosos centésimos de segundos com essa virada brusca de pescoço. Hoje notei (com atraso, já que sou um amador em esportes) que isso faz parte de sua perfomance, composta de uma série de procedimentos (palavra ótima, muito usada em vôos – “estamos iniciando nossos procedimentos de pouso”, avisa o comandante).
Além de olhar cada concorrente, para monitorá-los, ele olha no relógio para verificar seu ritmo o andamento da prova, e não se importa com a posição que ocupa antes do fim da penúltima volta. Nessa altura, ele carrega no passo e transforma-se, em segundos, num arranque digno dos cem metros rasos.
Baixo, muito magro, fino (se tivesse altura, poderia servir de modelo para uma pintura de Modigliani) ele cabe numa paródia de um verso de Maiakovski, que diz: “Em mim a anatomia ficou louca, sou todo coração”. Hudson é todo pulmão, que conta com a ajuda de pernas-palitos firmes, além de enormes pés que servem de pás de impulsão. O Brasil, com Hudson de Souza, cria uma tradição olímpica nas corridas de longa distância, já que manteve a escrita inaugurada pelo pioneiro Joaquim Cruz.
Só hoje, domingo, dia 11/08, vi o VT da vitória do nosso medalha de ouro Hudson de Souza nos cinco mil metros. Tinha me chamado a atenção ( e me preocupado), quando assisti ao vivo sua esplêndida vitória nos 1.500 metros: na reta final, ao olhar para trás em direção ao seu mais próximo adversário, temi que perdesse preciosos centésimos de segundos com essa virada brusca de pescoço. Hoje notei (com atraso, já que sou um amador em esportes) que isso faz parte de sua perfomance, composta de uma série de procedimentos (palavra ótima, muito usada em vôos – “estamos iniciando nossos procedimentos de pouso”, avisa o comandante).
Além de olhar cada concorrente, para monitorá-los, ele olha no relógio para verificar seu ritmo o andamento da prova, e não se importa com a posição que ocupa antes do fim da penúltima volta. Nessa altura, ele carrega no passo e transforma-se, em segundos, num arranque digno dos cem metros rasos.
Baixo, muito magro, fino (se tivesse altura, poderia servir de modelo para uma pintura de Modigliani) ele cabe numa paródia de um verso de Maiakovski, que diz: “Em mim a anatomia ficou louca, sou todo coração”. Hudson é todo pulmão, que conta com a ajuda de pernas-palitos firmes, além de enormes pés que servem de pás de impulsão. O Brasil, com Hudson de Souza, cria uma tradição olímpica nas corridas de longa distância, já que manteve a escrita inaugurada pelo pioneiro Joaquim Cruz.
30 de julho de 2003
CHEGA DE MORRER
CHEGA DE MORRER
Nei Duclós
Isto quer dizer
chega de perder a voz
chega de engolir a dor
Isto quer dizer
chega de se defender
chega de esperar
Isto quer dizer
chega de deixar morrer
chega de matar
(Do livro No Mar, Veremos, Ed. Globo, 2001)
Nei Duclós
Isto quer dizer
chega de perder a voz
chega de engolir a dor
Isto quer dizer
chega de se defender
chega de esperar
Isto quer dizer
chega de deixar morrer
chega de matar
(Do livro No Mar, Veremos, Ed. Globo, 2001)
18 de julho de 2003
MARCHA
MARCHA
Nei Duclos
Eu só preciso de uma coisa:
contar toda a verdade
e esperar pela resposta
Repetir este verso em cada porta
Procurar sinais de revolta
Eu só preciso avançar
de alguma forma
Nei Duclos
Eu só preciso de uma coisa:
contar toda a verdade
e esperar pela resposta
Repetir este verso em cada porta
Procurar sinais de revolta
Eu só preciso avançar
de alguma forma
17 de junho de 2003
SALVAÇÃO
SALVAÇÃO
Nei Duclós
(www.consciencia.org/neiduclos)
Estar a salvo
não é se salvar
Como um navegador
que vai até onde dá
você tem que ser livre
para o que pintar
Nenhuma pessoa é lugar de repouso
juntos chegaremos lá
(Do livro Outubro, IEL/RS-A Nação, 1975)
Nei Duclós
(www.consciencia.org/neiduclos)
Estar a salvo
não é se salvar
Como um navegador
que vai até onde dá
você tem que ser livre
para o que pintar
Nenhuma pessoa é lugar de repouso
juntos chegaremos lá
(Do livro Outubro, IEL/RS-A Nação, 1975)
7 de junho de 2003
CHEGA
CHEGA
Nei Duclós
(nei@consciencia.org
www.consciencia.org/neiduclos)
Não conheço, não sei, não me lembro
não estou, não insista, não escreva
não quero, não entregue, não me leve
não comece, não sorria, não acene
não comente, não cutuque, não aponte
não bafeje, não me inveje, não me mate
não lamente, não evoque, não me venda
(De "No Mar, Veremos", Ed. Globo, 2001)
Nei Duclós
(nei@consciencia.org
www.consciencia.org/neiduclos)
Não conheço, não sei, não me lembro
não estou, não insista, não escreva
não quero, não entregue, não me leve
não comece, não sorria, não acene
não comente, não cutuque, não aponte
não bafeje, não me inveje, não me mate
não lamente, não evoque, não me venda
(De "No Mar, Veremos", Ed. Globo, 2001)
17 de maio de 2003
CARTADA
CARTADA
Nei Duclós
(nei@consciencia.org)
Não me olha mais na cara
não apaga minha lágrima
Não passa a língua no corpo
não chora quando se acaba
Não curte nenhum namoro
não perdoa minha falta
Não me envolve em sua trama
não chama quando estou pálido
Já não traduz sua linguagem
não bota fogo na palha
Não pede mais o cigarro
nem sente ciúme, nem fala
Não estoca minha ferida
nem ri, quando o sangue jorra
Desencarnou da costela
jogou a última carta
(Do livro No Mar, Veremos, Ed. Globo, 2001)
CAVALEIRO NEGRO
(Um poema perdido: este poema, que fiz há muito tempo - bota muito nisso - estava completamente perdido. Foi-me resgatado pelas mãos talentosas de Ricky Bols, artista da pesada de Porto Alegre, que o recuperou de um exemplar da antológica publicação marginalísssima Pedra Mágica)
CAVALEIRO NEGRO
Nei Duclós
(www.consciencia.org/neiduclos)
eu tenho um pedaço de medo guardado como revólver
no bolso de um menino. meu tesouro são dez revistas
usadas que levo ao mercado para matar todo mundo de inveja
costurei o sol no lado direito do coração comido. alinhei
dez mil frases sem sentido e fiz elas marcharem como
soldados perdidos no meio da neve.
eu tenho um ninho comestível, uma gilete blue blade usada,
um cavaleiro negro, um círculo mal feito
a lápis na parede suja da casa perdida,
uma bola de pano,
uma fantasia tão real como um sonho ou uma bicicleta,
uma lata de lixo
e coisas que jamais acharei:
um pão
um abraço
um laço
um traço
a lágrima,
a carne,
a morte,
marte,
etecétera
CAVALEIRO NEGRO
Nei Duclós
(www.consciencia.org/neiduclos)
eu tenho um pedaço de medo guardado como revólver
no bolso de um menino. meu tesouro são dez revistas
usadas que levo ao mercado para matar todo mundo de inveja
costurei o sol no lado direito do coração comido. alinhei
dez mil frases sem sentido e fiz elas marcharem como
soldados perdidos no meio da neve.
eu tenho um ninho comestível, uma gilete blue blade usada,
um cavaleiro negro, um círculo mal feito
a lápis na parede suja da casa perdida,
uma bola de pano,
uma fantasia tão real como um sonho ou uma bicicleta,
uma lata de lixo
e coisas que jamais acharei:
um pão
um abraço
um laço
um traço
a lágrima,
a carne,
a morte,
marte,
etecétera
15 de maio de 2003
O CARTEL DA DUBLAGEM
O CARTEL DA DUBLAGEM
Nei Duclós
(nei@consciencia.org)
É incrível como as pessoas sofrem, sem reclamar, com os horrores da dublagem nas televisões brasileiras. Nas poucas vezes em que o assunto vem à tona na mídia, é para elogiar. Um especialista chegou a dizer que a dublagem brasileira é muito respeitada no exterior. Pudera: lá ninguém entende português.
É natural que haja silêncio sobre o assunto, pois esse mercado é dominado por poucos privilegiados. Existem outras empresas, mas é como se fossem uma só: todas cometem os mesmos erros. Todo cartel é tremulamente respeitado no Brasil, onde qualquer tipo de concorrência ainda é encarada como crime. O mais impressionante dos depoimentos dos dubladores é que eles se julgam artistas e possuem teorias sobre interpretação. É por isso que eles “se esforçam” e nos oferecem sacadas geniais como, por exemplo, a voz brasileira fanha do James Stewart. Outra: como confessou um dos envolvidos, a voz de Marlon Brando não está à altura da sua estampa, por isso é substituída por um trinado de galã.
Não é demais lembrar os horrores infantis e geriátricos. Todos os velhos, sem exceção, possuem uma voz trêmula. As crianças, bem, Carrossel basta como exemplo. Mas como todo mundo fica quieto, eles vão em frente e chegamos ao absurdo de assistir o Burt Lancaster, num filme intitulado ‘Rochedo Gibraltar” sendo aterrorizado por netinhos com voz de melodrama do SBT.
Os franceses e alemães que falam inglês com sotaque no original, coitados, são homenageados por erres guturais e guinchos de chucrutz. E de Jack Nicholson a Jack Palance triunfa, poderosa, a voz do Kojak. Esse é mais um sintoma do cartel: apenas meia dúzia de vozes fazem tudo, numa linha de montagem que passa por cima da sensibilidade, da lógica, da arte.
Cenas de multidão são um desastre: juntam meia dúzia para gritar qualquer coisa, transformando momentos drmáticos de massa numa mixórdia. E o que dizer dos sotaques espertinhos dos jovens, os exagerados gemidos femininos e os suspiros gerais? Pior do que os sussurros sem nexo, porém, são as vozes estridentes que rebentam qualquer cena. É inesquecível o exemplo da destruição de uma obra-prima como “El Cid”, de William Wyler. No momento em que Charlton Heston é pressionado para se decidir pela guerra, sua mulher - a pobre da Sophia Loren - começar a guinchar, fanhosamente, implorando para que ele não vá. É de chorar.
Mas como todo mundo fica quieto - “fazer o quê? É o nosso slogan - o guincho asqueroso volta em tudo que é filme, fazendo “arte”, para horror do bom senso. Mas não é só isso. Os programas especiais maravilhosos da BBC
são editados com os dubaldores imitando o que eles imaginam ser o clima dos depoimentos. Um ex-combatente russo, por exemplo, sofrido e pausado em suas ponderações, é massacrado com um tom doentio e inaudível porque o dublador, ao ver aquele cansaço todo, “interpretou" como se o personagem estivesse internado numa UTI. O pior é a perseguição ao movimento dos lábios. Como o velho fala devagar numa outra língua, o dublador espicha as falas e faz entonações falsas para suas frases entrarem a fórceps no depoimento original.
Não podemos esquecer de outros escândalos. Negros, por exemplo, sempre tem aquela voz bem grossa, aranhada, tremida. Não existe um só negro com voz límpida na dublagem brasileira. A não ser o Eddie Murphy, que fala esganiçado. Falando nisso: e os comediantes, como Jerry Lewis e Woody Allen, precisam dizer suas piadas daquele jeito imbecil?
Os dubladores, naturalmente, não tem tempo para ver os filmes. Eles precisam trabalhar muito para o cartel. Se houvesse concorrência real - e como mudar isso se as redes de TV, e seus epígonos na TV a cabo, também são grandes monopólios? - a situação seriaa diferente. Haveria um mínimo de preocupação pela qualidade e o convite a artistas de verdade - atores, e não locutores sem talento dramático.
A culpa é sua, telespectador, que sofre em silêncio a mutilação do resto de lazer que nos cabe - ver televisão, enquanto o Brasil vai se acabando. O som original corresponde à metade de uma obra cinematográfica e não pode ser suprimida e substituída por uivos, muxôxos e interjeições. Está na hora de ligar em massa para as empresas de dublagem e os números de atendimento ao telespectador que estão surgindo e impor um pouco mais de respeito.
Nei Duclós
(nei@consciencia.org)
É incrível como as pessoas sofrem, sem reclamar, com os horrores da dublagem nas televisões brasileiras. Nas poucas vezes em que o assunto vem à tona na mídia, é para elogiar. Um especialista chegou a dizer que a dublagem brasileira é muito respeitada no exterior. Pudera: lá ninguém entende português.
É natural que haja silêncio sobre o assunto, pois esse mercado é dominado por poucos privilegiados. Existem outras empresas, mas é como se fossem uma só: todas cometem os mesmos erros. Todo cartel é tremulamente respeitado no Brasil, onde qualquer tipo de concorrência ainda é encarada como crime. O mais impressionante dos depoimentos dos dubladores é que eles se julgam artistas e possuem teorias sobre interpretação. É por isso que eles “se esforçam” e nos oferecem sacadas geniais como, por exemplo, a voz brasileira fanha do James Stewart. Outra: como confessou um dos envolvidos, a voz de Marlon Brando não está à altura da sua estampa, por isso é substituída por um trinado de galã.
Não é demais lembrar os horrores infantis e geriátricos. Todos os velhos, sem exceção, possuem uma voz trêmula. As crianças, bem, Carrossel basta como exemplo. Mas como todo mundo fica quieto, eles vão em frente e chegamos ao absurdo de assistir o Burt Lancaster, num filme intitulado ‘Rochedo Gibraltar” sendo aterrorizado por netinhos com voz de melodrama do SBT.
Os franceses e alemães que falam inglês com sotaque no original, coitados, são homenageados por erres guturais e guinchos de chucrutz. E de Jack Nicholson a Jack Palance triunfa, poderosa, a voz do Kojak. Esse é mais um sintoma do cartel: apenas meia dúzia de vozes fazem tudo, numa linha de montagem que passa por cima da sensibilidade, da lógica, da arte.
Cenas de multidão são um desastre: juntam meia dúzia para gritar qualquer coisa, transformando momentos drmáticos de massa numa mixórdia. E o que dizer dos sotaques espertinhos dos jovens, os exagerados gemidos femininos e os suspiros gerais? Pior do que os sussurros sem nexo, porém, são as vozes estridentes que rebentam qualquer cena. É inesquecível o exemplo da destruição de uma obra-prima como “El Cid”, de William Wyler. No momento em que Charlton Heston é pressionado para se decidir pela guerra, sua mulher - a pobre da Sophia Loren - começar a guinchar, fanhosamente, implorando para que ele não vá. É de chorar.
Mas como todo mundo fica quieto - “fazer o quê? É o nosso slogan - o guincho asqueroso volta em tudo que é filme, fazendo “arte”, para horror do bom senso. Mas não é só isso. Os programas especiais maravilhosos da BBC
são editados com os dubaldores imitando o que eles imaginam ser o clima dos depoimentos. Um ex-combatente russo, por exemplo, sofrido e pausado em suas ponderações, é massacrado com um tom doentio e inaudível porque o dublador, ao ver aquele cansaço todo, “interpretou" como se o personagem estivesse internado numa UTI. O pior é a perseguição ao movimento dos lábios. Como o velho fala devagar numa outra língua, o dublador espicha as falas e faz entonações falsas para suas frases entrarem a fórceps no depoimento original.
Não podemos esquecer de outros escândalos. Negros, por exemplo, sempre tem aquela voz bem grossa, aranhada, tremida. Não existe um só negro com voz límpida na dublagem brasileira. A não ser o Eddie Murphy, que fala esganiçado. Falando nisso: e os comediantes, como Jerry Lewis e Woody Allen, precisam dizer suas piadas daquele jeito imbecil?
Os dubladores, naturalmente, não tem tempo para ver os filmes. Eles precisam trabalhar muito para o cartel. Se houvesse concorrência real - e como mudar isso se as redes de TV, e seus epígonos na TV a cabo, também são grandes monopólios? - a situação seriaa diferente. Haveria um mínimo de preocupação pela qualidade e o convite a artistas de verdade - atores, e não locutores sem talento dramático.
A culpa é sua, telespectador, que sofre em silêncio a mutilação do resto de lazer que nos cabe - ver televisão, enquanto o Brasil vai se acabando. O som original corresponde à metade de uma obra cinematográfica e não pode ser suprimida e substituída por uivos, muxôxos e interjeições. Está na hora de ligar em massa para as empresas de dublagem e os números de atendimento ao telespectador que estão surgindo e impor um pouco mais de respeito.
11 de maio de 2003
CINZAS E DIAMANTES - URGENTE
Nei Duclós
(nei@consciencia.org)
Escrevo sobre a obra-prima de Andrzej Wadja no domingo (11) à noite, depois de assistir esse filme no Cinesesc. Há mais uma chance amanhã, segunda-feira, dia 12, às 19 horas. Fui conduzido para a seção de hoje pelas mãos enciclopédicas e obstinadas do meu amigo Luiz Carlos Merten, crítico de cinema do Estadão. Merten é um fenômeno de difusão cultural. Seu trabalho vem de longe, dos anos 60, quando surgiu no caldo de uma cidade (Porto Alegre) cheia de cinemas e de autores de textos primorosos sobre cinema, que eram publicados diariamente na imprensa local. Helio Nascimento e Goida eram alguns que se destacavam e Merten faz parte dessa linhagem de jornalistas destinados ao cinema e que nos deslumbram com seus conhecimentos.
Mas não é só isso. Merten hoje é uma âncora cultural: suas referências, seus paradigmas estão solidamente instalados num vasto acervo de grandes cineastas e respectivas obras-primas. Basta Merten se referir a um deles para nos sentirmos convocados, de maneira decidida e suave (pois não há pessoa mais gentil do que o nosso Merten) para irmos ao cinema.
Foi assim com Cinzas e Diamantes. Filme de 1958, em preto e branco, com legendas em espanhol, é uma avassaladora obra-prima, mãe de muitas outras. Podemos ver nela a luz que iluminou Fellini (especialmente em Oito e Meio), a força visual e dramática que jogou Glauber Rocha no meio das pedras do sertão e do lixo urbano, a inspiração de Costa-Gravas em Missing (a sombra dos tanques projetadas no muro em meio à noite sinistra) etc.É um filme como poucos, de uma clareza brutal, de uma complexidade reveladora, de uma solidez incomparável e de uma honestidade a toda prova.
Não perder é a palavra de ordem.
CINZAS E DIAMANTES - URGENTE

Nei Duclós
Escrevo sobre a obra-prima de Andrzej Wadja no domingo (11) à noite, depois de assistir esse filme no Cinesesc. Há mais uma chance amanhã, segunda-feira, dia 12, às 19 horas. Fui conduzido para a seção de hoje pelas mãos enciclopédicas e obstinadas do meu amigo Luiz Carlos Merten, crítico de cinema do Estadão. Merten é um fenômeno de difusão cultural. Seu trabalho vem de longe, dos anos 60, quando surgiu no caldo de uma cidade (Porto Alegre) cheia de cinemas e de autores de textos primorosos sobre cinema, que eram publicadso diariamente na imprensa local. Helio Nascimento e Goida eram alguns que se destacavam e Merten faz parte dessa linhagem de jornalistas destinados ao cinema e que nos deslumbram com seus conhecimentos.
Mas não é só isso. Merten hoje é uma âncora cultural: suas referências, seus paradigmas estão solidamente instalados num vasto acervo de grandes cineastas e respectivas obras-primas. Basta Meten se referir a um deles para nos sentirmos convocados, de maneira decidida e suave (pois não há pessoa mais gentil do que o nosso Merten) para irmos ao cinema.
Foi assim com Cinzas e Diamantes. Filme de 1958, em preto e branco, com legendas em espanhol, é uma avassaladora obra-prima, mãe de muitas outras. Podemos ver nela a luz que iluminou Fellini (especialmente em Oito e Meio), a força visual e dramática que jogou Glauber Rocha no meio das pedras do setão e do lixo urbano, a inspiração de Costa-Gravas em Missing (a sombra dos tanques projetadas no muro em meio à noite sinistra) etc.É um filme como poucos, de uma clareza brutal, de uma complexidade reveladora, de uma solidez incomparável e de uma honestidade a toda prova.
Não perder é a palavra de ordem.
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