15 de abril de 2017

DELMAR MARQUES NO PAÍS FALSO




Nei Duclós

Hipertenso? Compre o remédio de um laboratório sério. O placebo é distribuído de graça. Só para os fortes.

Lembro que meu saudoso amigo e baita repórter Delmar Marques me contou como denunciou a máfia dos remédios falsos no Diário do Grande ABC. Pauta logo em seguida apropriada pela grande mídia, que jamais lhe deu crédito.

Delmar morreu no HC de SP na fila do transplante de coração. Internado, me ligou ainda com esperança. Não teve chance.

Depois de ser queimado pela inveja e prepotência de quem não o aturava, o recebi de braços abertos na revista da Fiesp, que eu editava, onde fez grandes reportagens. Uma delas, sobre a indústria têxtil, deixou o sindicato patronal do setor em polvorosa. Falei para o assessor de imprensa: aqui estão os gráficos e tabelas usados pelo repórter. Anexei breve currículo de Delmar. Uma das linhas era o premio Esso que ganhou ao denunciar o Montepio da Familia Militar em Porto Alegre. Em plena ditadura. Quase o mataram num farol vermelho, quando escapou manobrando sua moto. Esse era o cara.

Jornalista, romancista e autor de peças de teatro, Delmar partiu com sua verve, seu jeito espalhafatoso, sua gargalhada de dobrar a esquina, suas histórias de cavalos e ginetes e a maneira desprendida de chegar nas pessoas mais importantes e tratá-las como seus iguais.

Era absolutamente insuportável. Humano da melhor qualidade.

Ah. O assessor do sindicato me ligou mais tarde e disse que não usaria as páginas da revista para contestar a reportagem de Delmar. Os dados estavam certos. Não eram falsos.O marketing patronal não queria admitir que havia crise no setor. Havia. Delmar provou cruzando dados do governo federal e dos pesquisadores da Fiesp.

Mais tarde comentei com ele: só tu, Delmar, para fazer matéria de denúncia na revista da Fiesp. Ele espichava seu queixo proeminente e ria perdendo o fôlego: glarf glarf glarf. E isso que nem contei tudo o que descobri, dizia ele.

Mas era muito metido. . ..


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