10 de abril de 2010

A DÚVIDA EM AKIRA KUROSAWA


Ver Kurosawa é obrigatório: ele inventou o cinema que grandes cineastas copiaram. No seu centenário de nascimento, que se comemora este ano, é uma forma de homenagear os olhos e o espírito. E o correto é ver tudo, já que não existe Kurosawa menor. Ele sempre extrapola o que percebemos à primeira vista, pois usa sua arte como síntese e desdobramento de conflitos profundos, explícitos em cenas de grande confluência de vetores. É o caso de Anatomia do Medo (Ikimono no kiroku, 1955), de Akira Kurosawa, com Toshiro Mifune no papel do empresário que morre de medo da bomba H e tenta, em vão, levar a família para fora do perigo, o Brasil (já fomos uma vez o Eldorado).

O filme é sobre a dúvida, o medo é sua conseqüência. Há a dúvida que provoca o medo generalizado, surdo e mudo, que impede o pânico de vir à tona. Nessa doença social crônica as pessoas se iludem com a estabilidade enquanto paira a ameaça real do extermínio. “Ele está louco?” pergunta o psiquiatra da casa de repouso onde está internado o velho que pôs fogo na fundição da família para forçá-la a emigrar com ele. “Ou louco estamos nós que ficamos absolutamente impassíveis num mundo insano?” A dúvida é: devemos nos insurgir ou deixar como está, desde que não há nada a fazer? A maioria cede, mas alguns não.

O dentista interpretado por Takashi Shimura, um dos atores mais convocados por Kurosawa, junto com Mifune, sabe que o velho tem razão, mas tem dúvidas se deve ou não considerá-lo judicialmente incapaz, pois sua paranóia está provocando a ruína das finanças da família. A decisão do tribunal de pequenas causas é contra o empresário, mas isso provoca uma espiral de tragédias. É notável o detalhe de algumas cenas em que as pessoas tentam falar alguma coisa ao mesmo tempo depois de um longo silêncio. Ou quando custam a sair do lugar depois de um diálogo, como a considerar o que ainda vão dizer ou decidir.

Qual a síntese a que me referi acima nas seqüências de Kurosawa? Há vários exemplos. No início, a câmara passeia pela cidade lotada de gente, bondes, automóveis, barulho, e de repente fixa numa janela onde está o dentista que será o fio condutor da trama. No caos urbano de uma sociedade ameaçada, a vida normal da sobrevivência da classe média procura uma atividade social, que é a de participar dos julgamentos de casos familiares. O dentista que trabalha no consultório junto com o filho tem dúvida sobre essa atividade paralela e mantém com ela uma relação dúbia, de fascínio e ojeriza. Tudo isso está em poucos segundos de cinema. Kurosawa não brinca em serviço.

Num plano geral, vemos que a saga familiar é apenas um aspecto da luta de classes. O empresário que emprega dezenas de operários só pensa em salvar a família. Destrói o patrimônio que construiu ao logo da vida para tirar as pessoas próximas do perigo. “E nós?” pergunta o metalúrgico, “que vivemos desta empresa, o senhor não pensou em nós?” Flagrado no egoísmo, o velho entra em parafuso até a loucura. A própria ameaça da Bomba H é a extrapolação da luta de classes em escala mundial. Os impérios entram em choque e só a ameaça de solução final decide a parada.

Os Estados Unidos deveriam ter jogado a bomba em duas grandes cidades japonesas, onde não havia soldados, só civis, a maioria velhos, mulheres e crianças? A guerra já estava ganha, mas era preciso dar uma lição para vingar o ataque a Pearl Harbour (eles são os imperdoáveis). A bomba cairia de novo no Japão ou a antiga potência se enquadraria de vez no jogo do Ocidente? Vimos o que aconteceu. Mas em 1955, ano em que foi feito o filme, o Japão ainda se digladiava com suas dúvidas, recém egresso de um conflito que acabou com a imagem tradicional do país.

Kurosawa também teve dúvidas no inicio de carreira Queria ser pintor, mas não conseguiu porque a escola de arte era cara. Só foi para o cinema quatro anos depois que sua irmã mais velha, narradora de filmes mudos, se suicidou. Ele mesmo tentou suicídio (devo viver ou não?) numa crise de depressão nos anos 70. Cortou o pulso várias vezes. Não teve êxito. Sorte nossa, que podemos ver seus 30 filmes maravilhosos. Em relação a Kurosawa, não há dúvida: este é o cineasta maior. David Lean, meu favorito, que me perdoe.

RETORNO - Imagem desta edição: Toshiro Mifune, magistral, no papel do empresário que enlouquece em “Anatomia do Medo”, de Kurosawa.

8 de abril de 2010

DEMOCRACIA FAZ A DITADURA FUNCIONAR


A especulação imobiliária quer destruir a cidade praieira. Então convoca uma reunião para “consultar a sociedade”. Assunto: mudar o Plano Diretor, que vai permitir construir edifícios nas reservas ambientais e abrir as comportas dos morros, até agora verdes, para a construção siderada de condomínios de luxo e suas consequências, a favelização geral. As pessoas comparecem, fazem passeatas, o assunto é discutido e...as modificações sugeridas pelos tubarões são aprovadas na marra. É assim que a ditadura funciona.

Há um projeto de ficha limpa, que impediria os candidatos sob investigação ou condenados a disputarem eleições. Os deputados fazem a maior onda, comparecem em massa, acatam as assinaturas de um milhão e meio de pessoas e...adiam a votação. Resultado: o projeto será aprovado, com a diferença, imagino eu, que serão proibidos todos os que tiverem ficha limpa.

Como o país está podre, pobre e não tem para onde ir, fala-se muito em liberar milhões para áreas de risco. Liberaram. Quase a metade foi para um curral eleitoral baiano, enquanto o Rio ficou com menos de um por cento da verba. Tudo foi feito direitinho: a necessidade havia, os recursos foram liberados, os caras eleitos pelo voto direto tomaram conta e deu nisso aí. É assim que a ditadura funciona, usando todos os recursos da democracia.

Lula viaja, o vice está doente, o presidente da Câmara é candidato e não pode assumir no seu lugar. Sobra para quem? Para Sarney. alvo de denuncias pesadas na imprensa e até por livros best-sellers, como Honráveis Bandidos, de Palmério Dória. Ou seja, Sarney, egresso do PDS, partido da ditadura, que se passou para o MDB para assumir a vice-presidência da chapa com Tancredo e com a morte desse assumiu o poder sem ter direito a tanto, pois a chapa ainda não tinha tomado posse. Resultado: sua gestão aplaina o terreno para que a democracia fizesse o serviço da continuidade da ditadura. Agora ele vira presidente de novo. É assim que o regime funciona.

Alguma dúvida? Colunistas políticos falam em opção única entre Dilma e Serra, ou seja, já aparelharam as eleições nove meses antes do voto. É a ditadura dando as cartas por todo lado, na mídia, na política, nas verbas, nas tragédias. O prefeito do Rio prometeu que os carros levados pela enxurrada não serão multados. Tenha dó, tchê. Também dá a boa notícia de que as avenidas estão liberadas, apesar da má notícia de que 200 corpos devem estar debaixo dos escombros de uma aterro sanitário que virou favela. Onde estão os patíbulos públicos? Fazem falta.

Uma enxurrada de 24 horas provoca tragédia porque antes dela, por semanas e até mesmo meses choveu sem parar, preparando a terra para o deslizamento, sem que se fizesse nada a não ser correr atrás do pré-sal, dos candidatos federais, do futuro político. Quando uma tonelada de lixo sanitário trazendo casas, crianças e adultos pela frente, como aconteceu em Niterói, escancara o país que vivemos, é hora de perguntar: por que não derrubamos a ditadura?

Abaixo a ditadura e fora o imperialismo. As palavras de ordem de 1968 estão de pé.

RETORNO - Imagem desta edição: Revolução Francesa. Tirei daqui.

7 de abril de 2010

FRASES COM ECO


Tenho caprichado no Twitter, arena excelente para exercer a compulsão do texto, dentro dos parâmetros exigidos tanto pelo blog (ou microblog, como queiram),as tais frases de 140 toques, como pelo próprio jornalismo ou a literatura. Algumas frases são mais felizes e são reproduzidas por várias pessoas,o que por sua vez atrai outros seguidores. Vou colocar algumas aqui, recentes, pois com o uso na rede a origem pode ficar confusa. É precisa que se diga sempre: essas frases são de minha autoria. Quem gostar, como tem acontecido, cita a fonte. Começamos pelas mais fortes:

DIA DO JORNALISTA (7 DE ABRIL)

Jornalismo no twitter tem tamanho de legenda e força de manchete

Esta frase que criei na manhã do dia 7 de abril de 2010 teve ampla repercussão. Coloquei nela minha formação em fechamentos nas redações. Ou seja, você precisa criar titulo, linha fina, legenda etc. para o jornal ou revista ficar pronto. No Twitter, não desperdiço espaço e uso o mesmo critério rigoroso. Isso me levou a ter esse insight, que conquistou a jornalistada do Twitter.

Governo Lula é aprovado por 92% dos jornalistas. Os outros 8% foram demitidos

Jornalismo é estiva, carregar saco de carvão para o porão do navio. Glamour é desfile de moda no convés

INUNDAÇÃO NO RIO


O Brasil não foi feito para a chuva.

Sempre me pergunto o que é estado de alerta ou de emergência. Os incompetentes de sempre ficam de orelha em pé?

Ser prefeito é montar no helicóptero da Globo e pontificar para os telespectadores enquanto a cidade afunda

As inundações atípicas são previstas pela Lei de Murphy e punidas por sapateados oficiais até a chuva parar


POLÍTICA


O que seria um "embate ético" entre Dilma e Serra? Cada um bate com um volume grosso de Hegel no outro?

Hoje é moda achar que o Brasil sempre foi assim "desde que o mundo é mundo". Velho truque: transformar o Mal implantado em algo "natural" : PM Apr th via web

Hoje é moda desprezar o Brasil, mas o que existe é essa nação desconstruída pela ditadura, que acabou com a confiança no país :

Nos anos , líderes secundaristas subiam no caixote e faziam discursos citando Aristóteles, para uma massa atenta. Já fomos melhores :
Destruiram a excelência da nossa educação, que formou os gênios do Brasil, para gerar zumbis que admiram ex-BBBs :

Estudei frances, inglês, latim e música aos anos de idade, no ginásio. Tínhamos educação de qualidade, sucateada a partir de :

Eudcação em país de política econômica soberana está voltada para a formação escolar plena e não para gerar balconistas do McDonalds :

Levantar a bandeira da educção sem a contrapartida de uma política econômica soberana é tapar o sol com a peneira :

Num país soberano, a política econômica está voltada para o povo, não para meia dúzia ou para estrangeiros. E a educação, para a cidadania :

Educação não tem poder nenhum quando a política econômica é de entrega da soberania. Num país vendido, forma-se para o "mercado" :


POÉTICAS

O tempo fechou. Dois corações descalços palmilham a inundação na inútil tentativa de voltar ao que era antes

Terremoto na Lua: nove graus na escala dos corações partidos

Vou sortear duas pedrinhas de rio, numa promoção de outono clássico. Quem ganhar leva ainda um papel virtual rabiscado de memórias

Num sonho muito antigo e muito real, escorregou num poço e foi-se. O que o impressionava não era o pesadelo, mas o fato de continuar vivo

Evitava passar em frente ao próprio carro. Temia que ele mesmo, o dono ao volante, pudesse atropelá-lo. Contou para o médico, que bocejou

A coruja soluçou alto sem interrupção. Acordou. Foi ver lá fora. O portão estava aberto. Fechou. A coruja calou-se e ele voltou a dormir

RETORNO - Imagem desta edição: "Trabalhadoras gregas em plantação de chá", foto de Sergei Prokudin-Gorski. Fiquei sabendo desse trabalho pelo Twitter, que não é apenas uma frase atrás da outra, mas um conjunto de links poderosos para tudo o que é informação. Ou seja, jornalismo elevado ao infinito.

6 de abril de 2010

SERVIÇO COMPLETO



Nei Duclós(*)

Recebo um baú de fotos com cenas da família. Quase todas se referem à escola: o desfile com o uniforme do Jardim da Infância, a entrega do diploma, a reunião com os colegas, o time do ginásio, os professores conversando com os pais, as rodas das bicicletas com papel crepom, ao lado de uniformes azuis e brancos, a saída do colégio.

A vida estudantil era hegemônica antes da reforma da educação promovida pelo regime de 1964, que hoje leva a fama da excelência do estudo, quando apenas usufruiu das gerações formadas antes do golpe de estado. A aprovação por decreto, dos anos 90 para cá, e agora a imposição de cotas raciais para driblar o vestibular apenas completam o serviço.

Lembro da cartilha Caminho Suave, criada pela educadora brasileira Branca Alves de Lima (1911-2001), que alfabetizou mais de 40 milhões de brasileiros, antes da atual febre de analfabetismo institucionalizado. Aprendi a ler no primeiro ano primário com ela. As letras eram identificadas com o desenho do significado das palavras que ajudavam a formar. A barriga do b era humana, o marfim do elefante fazia parte do e, as vogais unidas às consoantes levavam às sílabas, estas às palavras até chegar à frase e ao texto.

Debocharam até derrubar o famoso “Ivo viu a uva”. Mas com apenas uma consoante e quatro vogais era possível formar uma oração completa, suprema síntese de fácil e rápido entendimento, reveladora das possibilidades da linguagem. No seu lugar, atropelaram a mente infantil com palavras completas, que não fazem sentido à primeira vista. Mas esse sistema silábico caiu há tempos de moda.

A educação que sacode afirmativamente a cabeça, de maneira muda depois de grandes frases teóricas, aguarda que a platéia dos eventos entre luminares chegue à altura dos seus conhecimentos, enquanto a estudantada entra numa espiral ágrafa. O que existe é soberba. O que inexiste são políticas publicas, a começar pela remuneração decente de quem escolheu a profissão de ensinar (ou foi empurrado para ela, diante da falta de perspectivas).

Lembro que os professores retratados nas fotos que recebi exibiam vocação, no caso dos religiosos, somada a uma situação econômica estável, entre os mestres leigos. Isso transparecia na sala de aula, lugar de respeito, onde ninguém puxava a faca no meio da lição.

RETORNO - 1. Formada professora, minha mãe, Dona Rosinha, posa com sua roupa de gala da educação brasileira de excelência. Foi nos anos 30, época do Brasil soberano. 2.(*) Crônica publicada nesta terça-feira, dia 6 de março de 2010, no caderno Variedades, do Diário Catarinense.

3. Comentário de Marcos que merece destaque aqui. Diz Marcos:

Também fui educado com o modelo antigo, que dava certo, e fiquei curioso com o modelo que estão praticando agora, o tal construtivismo. As definições não mudam muito, como diz um tal Fernando Becker:"Construtivismo significa isto: a idéia de que nada, a rigor, está pronto, acabado, e de que, especificamente, o conhecimento não é dado, em nenhuma instância, como algo terminado. Ele se constitui pela interação do indivíduo com o meio físico e social, com o simbolismo humano, com o mundo das relações sociais; e se constitui por força de sua ação e não por qualquer dotação prévia, na bagagem hereditária ou no meio, de ! tal modo que podemos afirmar que antes da ação não há psiquismo nem consciência e, muito menos, pensamento."

Esta filosofia educacional só tem como objetivo destruir tudo o que fomos, como nada está pronto, acabado, como diz a definição, o conhecimento que recebemos de nossos pais e professores, que incluía principios espirituais e morais perenes, foi substituído pelo vazio. A estratégia política por trás do crime é evidente, o bando de cabeças vazias que o sistema educacional está produzindo perpetuará para sempre os Lulas e Dilmas e sua corja de mequetrefes no comando deste espaço de terra que outrora já foi chamado de país.

4 de abril de 2010

AGITAÇÃO NO TWITTER



Dediquei o feriadão de Páscoa para assestar baterias contra a cara de pau da ditadura brasileira que forja mais uma eleição geral fajuta para reiterar o mesmo e continuar ungindo os de sempre na partilha do butim, o dinheiro público arrancado da população por meio do mais escorchante sistema de impostos do mundo. Foi produtivo: em três dias conquistei mais 26 seguidores, sensibilizados pelas frases até 140 toques disparados por mim em vários momentos do dia. Não se deve dar trégua para essa canalha. A seguir, uma seleção dos mísseis disparados a esmo:


CAMPANHA ELEITORAL E DITADURA


Vamos combinar o seguinte: elimine-se os termos petralha e neoliberal para reduzir a um décimo o volume do debate político

A sucessão de projetos furados, promessas vãs e acusações mútuas é o mais grave sintoma do pacto sinistro que nos governa em rodízio

Tomar partido por qualquer um dos lados do atual sistema bipolar é assinar a própria condenação política

É preciso que as pessoas acreditem que estamos numa democracia para que os maganos de sempre saiam com as mãos carregadas de ouro

Censurar blogs é a covardia atual do regime de cartas marcadas, onde a bandidagem disputa mais uma temporada de assalto ao butim

Jornalistas que não dizem com todas as letras a cumbuca onde todos metemos a mão não merecem exercer a profissão

Um regime que não suporta o jornalismo, tentando enquadrá-lo ou censurá-lo por meios "legais", não passa de ditadura rastaquera

Uma boa biografia jornalística pode valer mais de um milhão de reais por ano. Mientras tanto, a profissão vai para o brejo

Jornalistas de renome que usam seus portais para fazer campanha eleitoral no atual sistema de tirania são vendedores de biografias

Os institutos de pesquisa substituem o processo eleitoral. Impõem resultados previamente para manipular o voto útil (de cabresto)

Campanha eleitoral gera emprego de segurador de bandeira e distribuidor de panfleto. Quem gritar urrú para o palanque ganha extra

O único candidato que existe é o photoshop

O que mais irrita é fingir que a campanha eleitoral serve para a produção de pensamento, quando tudo não passa de conversa

Candidato que falar em saúde e educação, quando já estamos fartos de saber como funciona o esquema, leva cascudo

Levar a sério a campanha eleitoral é como se perfilar diante de um camelo

Acabou o sossego A campanha eleitoral pegou firme no twitter. Só falta agora a turma dos beijos no coração

São sempre os mesmos, que ocupam cargos com maior ou menor visibilidade. É porque a ditadura é sempre a mesma

Hoje é moda achar que o Brasil sempre foi assim "desde que o mundo é mundo" Velho truque: transformar o Mal implantado em algo "natural"

Hoje é moda desprezar o Brasil, mas o que existe é essa nação desconstruída pela ditadura, que acabou com a confiança no país

Nos anos 60, líderes secundaristas subiam no caixote e faziam discursos citando Aristóteles para uma massa atenta. Já fomos melhores

Destruiram a excelência da nossa educação, que formou os gênios do Brasil, para gerar zumbis que admiram ex-BBBs

Estudei frances, inglês, latim e música aos 11 anos de idade, no ginásio. Tínhamos educação de qualidade, sucateada a partir de 1964

Eudcação em país de política econômica soberana está voltada para a formação escolar plena e não para gerar balconistas do McDonalds

Levantar a bandeira da educção sem a contrapartida de uma política econômica soberana é tapar o sol com a peneira

Num país soberano, a política econômica está voltada para o povo, não para meia dúzia ou para estrangeiros E a educação, para a cidadania

Educação não tem poder nenhum quando a política econômica é de entrega da soberania Num país vendido, forma-se para o "mercado"

Não se trata de praticar a virgindade política. Isso não existe: somos sobreviventes Mas enxergar claro para destruir a rede d e ilusões

A hora é da verdade Quem comercia com fatos depois de inventá-los precisa ser desmascarado

A credibilidade emigrou da pose dos chamados grandes comunicadores para a mídia autoral sincera disseminada pela rede

As pessoas de bem devem dedicar este ano eleitoral para criar uma barragem de indignação efetiva contra o avanço da ditadura

Criticar é fruto da percepção e da análise, não pessimismo barato contra o "lado positivo" da vida. É o primeiro passo para a ação efetiva

Celebridades jornalisticas envolvidas na campanha eleitoral: virem essas biografias para lá, que elas não valem mais nada

Propostivos: Erradicação de todos os envolvidos em falcatruas, recuperação do patrimônio nacional, a volta do ensino de qualidade


Vamos ser propostivos: peso identico do voto nas capitais e grotões, resgate do sistema ferroviário, fim da remuneração criminosa dos juros


MISCILÂNEA


Hoje o Brasil falsifica bebida para o Paraguai revender

Beber não é problema. O que pega é pagar caro o metanol com rótulo de vodka

A natureza não existe. O que existe é cultura e comportamento Ninguém brota como um cogumelo

Nutrientes é uma palavra que empresta rigor a matérias frescas E insumo é a máscara noticiosa da matéria paga

Feriadão é aquele periodo de lazer em que as famílias saem de casa para morrer nas estradas

Ninguém é socialmente responsável num país que tem favelas e políticos visitando favelas em época eleitoral

A vida adulta foi erradicada do imaginário nacional O que temos é adolescente xingando pai em novela das nove

Filme brasileiro cacifado por dinheiro público não leva cinco minutos para alguém começar a tirar a roupa. Olhaeuaquitransando é cool

Aeronave, óbito, viatura: o jornalismo está assumindo a linguagem dos escrivães

O noticiário da TV é aquele que transmite reportagens de segundos e publicidade de várias horas

O que é pior: o robô que não sente dor, os cretinos do cervejão, a promoção sem juros com juro embutido ou o iogurte que vai aos pés?

O noticiário da Páscoa é o mesmo do ano passado: a culpa é dos motoristas, os fiéis esfolam os joelhos e a paixão usa capuz medieval

RETORNO - Imagem desta edição: obra de Ricky Bols em fotos, aquarela e photoshop.

3 de abril de 2010

IGREJA CATÓLICA: RESPONSABILIDADES E CAÇA ÀS BRUXAS



Está certa a Justiça americana em querer enquadrar o Papa Bento XVI por ter acobertado o padre pedófilo que molestou 200 crianças surdas em Wisconsin. Não está certa a Justiça americana ao permitir que os soldados do seu país matem civis diariamente no Oriente Médio, obedecendo os ditames da indústria do petróleo e da geopolítica imperial. O ex-cardeal Ratzinger pode ser apeado do trono, mas a Igreja Católica não é apenas o Papa da hora, assim como os juízes americanos não são todo-poderosos, que poderiam impedir o envolvimento político do Império por meio da guerra nos países pobres. Tanta a Igreja quanto a Justiça são instituições acima dos erros de seus membros, mesmo que sejam crimes hediondos, como acobertar ou permitir outros crimes.

Por que estão acima? Porque existem em função de princípios e ações que servem de barragem à maré alta da bandidagem internacional. Esta, já fez o serviço com os muçulmanos, desmoralizando-os ao empurrarem os mais radicais para a violência, depois de desestabilizarem as regiões onde viviam. Fez também o serviço completo com os judeus, expulsando-os da Europa depois do massacre da Segunda Guerra. Os budistas estão sob controle, confinados pela China. E os protestantes, antigos e novos, se pautam pela dispersão: eles não tem a força de uma Igreja una, duplamente milenar, que ascendeu ao poder secular quando conquistou o coração do Império Romano e assim fez parte da gênese da maioria das nações do Ocidente.

Como desmoralizar um poder que está acima dos países, que forma o caráter de populações, que faz parte da educação de milhões de pessoas há séculos, que possui em seu acervo o que há de melhor e mais significativo em arte, sem esquecer a filosofia, literatura etc.? A Igreja Católica é um sapato no poder multinacional que precisa ter o território livre para impor suas forças, que são: o sucateamento das fronteiras para que meia dúzia tenha acesso a todos os recursos da terra sem ninguém para atrapalhar; o fim da moral e bons costumes para que todos possam consumir a tralha industrial envenenada sem tugir nem mugir, apesar das campanhas milionárias da falsa correção política; a multiplicação e superconcentração dos recursos, à custa do suor de bilhões de pessoas, entre outros objetivos.

Por não possuir um Vaticano, por não ser explícito e visível, esse poder sinistro se impõe pela negação da sua própria existência. Tudo o que bate contra ele é tratado como teoria da conspiração. Sua natureza é oposta a instituições como a Justiça ou a Igreja, que são palpáveis, possuem sedes e porta-vozes e representações onipresentes no mundo inteiro. Armar o circo como se fosse obra da natureza é a especialidade desse poder que estimula uma indústria como o agronegócio, que trata as terras aráveis como matéria-prima de desertos, em detrimento da agricultura pulverizada e familiar, que gruda a população ao campo, em vez de soltá-la como rebanho louco pelas cidades em ruínas, onde ficam à mercê dos invasivos oficiais ou marginais .

Um dos grandes álibis desse poder secular que transforma em marionetes a gentinha atualmente no poder (os estadistas de estádio) é se postar ao lado da modernidade contra ao atraso das instituições. Disseminar a ilusão de que combatendo a Igreja as pessoas imediatamente se inserem no futuro da humanidade é um truque pesado que enreda muita gente. Mas o poder que instaurou o eterno presente, eliminando os tempos próprios de nações e povos, para que se consumam as porcarias que fabricam, gera apenas vazio e medo, enquanto instituições como a Igreja e a Justiça são a trincheira onde almas e corpos se abrigam para enfrentar o terror instaurado como norma.

A caça aos padres pedófilos não se restringe aos casos, inúmeros, que pipocam há tempos pelo mundo todo. Faz parte de uma ação política maior, que usa todos os recursos, inclusive a ação de outras instituições, para difundir uma nova caça às bruxas, procurando limpar o terreno ideológico e midiático e assim impor uma falsa realidade: o poder incontestável do dinheiro globalizado especulativo, da indústria de armas e do petróleo (vejam o Putin na Venezuela!) e dos genocídios por meio invenções cada vez mais sofisticadas e mortais. Quando se tentou minar a confiança no catolicismo por meio do resgate da Inquisição, o Papa João Paulo II pediu perdão, o que serviu pelo menos para impedir maiores estragos na imagem da Igreja.

Mas agora a violência é muito maior, pois a Igreja errou ao conviver intimamente com o pecado da pedofilia e ficou assim vulnerável ao ataque. Que se faça justiça, mas que se tenha claro o enfoque político da campanha, que procura negar a obra da Igreja em mais de dois mil anos, e que não é pequena. Seus erros, seus equívocos, suas distorções, suas misérias fazem parte do humano. Mas a grandeza da sua presença num mundo cada vez mais hostil é necessária e irreversível. Não se tape o sol com a peneira, mas também não se ignore que os poderes que aproveitam os pecados são eles mesmos a fonte do horror apontado em território alheio.

Diz a Igreja que a pedofilia atinge 4% os seus quadros, um índice muito maior do existente na sociedade. Não justifica nada, apenas serve para mostrar que a porção maior do catolicismo não comunga com esse crime. Colocar todos os padres na vala comum da pedofilia é o mesmo que chamar todos os muçulmanos de terroristas ou todos os americanos de invasores. Devagar com o andor que o sábado é de Aleluia.

RETORNO - Imagem desta edição: Caravaggio e o Cristo morto.

2 de abril de 2010

DOURADO E A LEI DO MAIS FORTE DA FALSA CIDADANIA



A Rede Globo precisa definir parâmetros de comportamento que sirvam para influir nos consumidores das porcarias que difunde em suas campanhas milionárias. Carros que andam em avenidas vazias nos filmecos entopem as cidades de infra-estrutura podre: essa é a situação do país do Ibope de cartas marcadas, em que a popularidade do chefe do governo atinge o patamar dos ditadores, em que não há possibilidade de defecção. Qual seria o paradigma do idiota que consome ilusões perversas? O saradão ágrafo e preconceituoso, o boquirroto que exibe cretinicie confundida com “atitude”, a palavra da moda.

Atitude é marca notória de um jovem americano que resolveu vender camisetas. A palavra certa na hora certa serviu para seu sucesso. Agora serve para definir o código de conduta da selva brasileira, onde impera a lei do mais forte. Não há lugar para fracos e perdedores, a não ser como platéia e massa de manobra para gastar a péssima remuneração da sua mais valia em caríssimos produtos feitos para estragar. Ao premiar o fortão que berra contra homossexuais e dá exemplos notórios de falta de compostura, a Rede Globo avisa que é assim que a coisa funciona: quem é mais forte pode e agüenta quem tem juízo.

Como pode uma sujeição dessas ser celebrada nas ruas como um grande acontecimento do noticiário, ou seja, como pode uma falcatrua desse quilate ser confundida com notícia? É preciso, para isso, que haja a imposição de uma rede de transmissão que pega até a mil metros abaixo do solo, nas catacumbas da floresta. O sinal chega perfeito ao grotão e impera nas cidades, deixando um pouco para as outras redes para manter o aspecto de concorrência.

A Globo, como o capital especulativo que a sustenta, tem horror à concorrência. Toda vez que uma outra rede revela um sucesso, a Globo vai lá e compra. Se for um evento, como o Oscar, tantos anos no SBT, ela não permite, paga mais. Se existir uma novela de grande impacto, como Pantanal, da velha Manchete, ela se serve de tudo, de atores a diretores. No cinema, quando há novidades na estética ou na interpretação, ela vai lá e pega. E depois impõe seus filmes produzidos com dinheiro público para que nem o cinema lhe faça concorrência. No esporte é um espanto: tudo é dela. A Globo é a lei do mais forte.

Mas como disfarçar tamanha sacanagem? É preciso gerar um novo sistema de valores. Além da atitude, do se impor não importa a quem, é preciso que as pessoas acreditem nas suas denúncias, que obedecem aos interesses da rede. Adversários políticos são enxovalhados em público, como aconteceu como Leonel Brizola. No sistema de valores do chamado politicamente correto, a Globo pega os princípios da falsa cidadania, em que os consumidores, confundidos com cidadãos, repetem as falas introduzidas pelos próprios repórteres. “Não dá mais para agüentar?” diz o repórter. “Não dá mais para agüentar”, repete a voz do povo-fala. O pior é o povo-fala com script, como aconteceu com as falsas entrevistas do Bigbrother.

Quando algo poderoso, criado fora do Brasil, claro, como a internet começa a abrigar e a difundir oposição séria à rede Globo, desviando a atenção da opinião pública para enfoques diferentes dos disseminados pelo monopólio, é hora de entrar em ação: forjar uma premiação do William Bonner no Twitter (que gracinha!), fazer a rede coadjuvante do noticiário (“Veja na nossa página da internet a tralha que não acabe aqui, no nosso espaço milionário”) ou mesmo chamar os internautas pelo primeiro nome, já que assim eles se confundem com o Zé da Couves sem sobrenome nem voz verdadeira, para dar pitacos em transmissões esportivas.

Essa é a lei do cão a qual somos submetidos. Vejo agora os saradões muito mais à vontade nos seu carrões e motos, nos supermercados e ruas, em cervejadas expostas no passeio público, mexendo com todo mundo, tomando “atitudes”. Eles estão bem representados pelo vencedor do programa sinistro que precisou pegar emprestado a credibilidade de um bom jornalista que acabou sucumbindo à tentação de ser uma ilusão do entretenimento, a de encarnar o Chacrinha, aquele herói da “Comunicação (“Quem não se comunica se trumbica”.) Cruzando o jornalista com o performer, num ambiente em que o jornalismo foi substituído pela tal Comunicação, a Globo oferece ao público a representação de sua própria natureza, a lei do mais forte da falsa cidadania.

Pedro Bial não é o problema, ele está lá apenas amealhando popularidade e será descartado quando o esquema parar de dar dinheiro. O problema é o sistema que está por trás dele e que parece indestrutível. Ficará mesmo mil anos entre nós essa ditadura da lei do cão se ninguém se insurgir de verdade. Até quem trabalha na Globo precisa que haja oposição. Não para manter a aparência da democracia. Mas porque é um pesadelo viver indefinidamente num monstro que a tudo devora porque todos se recolheram às suas casas, amuados, com medo de retaliações.

1 de abril de 2010

ÍDOLOS


Nei Duclós (*)

Estamos na maré alta da demolição de ídolos, pessoas que viraram símbolos de algo transcendente e foram representadas por estátuas, pinturas e devoções. No seu lugar entram os chamados ícones, que são mercadorias de consumo infladas pela abundância da comunicação de massa e pelo ingresso de enormes contingentes no círculo de produção e consumo de imagens e mensagens.

Ao contrário dos ídolos, que chegaram ao pódio por força da vivência de povos e nações e das lutas por princípios e sobrevivência, os ícones são destacados ou substituídos conforme seu valor de mercado. Quando alguém que fez carreira focando suas “obras” no ato sexual ultrapassa os 50 anos, é hora de aparecer alguém com menos de 20, para assumir esse exercício frenético de exposição pública que virou moda.

Um evento que cai no colo do lucro é a morte prematura de uma notoriedade. Se não era encarado como estrela de primeira grandeza, passa a ser, já que existe espaço para a celebração que movimenta a carroça da compra e venda do imaginário excessivo em volume, mas escasso em idéias. Não importa a morte de um grande professor de História, que dedicou a vida a decifrar o país continente. O que vale é o criador de produtos aparentemente transgressores, no traço ou no ruído.

Essa contrafação alimenta a ilusão da massa convencida de que está na vanguarda, palavra que sugere um espaço sagrado da demolição de ídolos, mas ao mesmo tempo de consumo desenfreado e alienado de ícones. O truque mais batido é misturar os dois conceitos, fazendo o quarto de despejo ditar as normas da praça central. Os cânones são desmoralizados e nesse vácuo entra a procissão de nulidades tratadas como se fossem reencarnações dos deuses.

Isso ficou possível porque o sucateamento da educação serviu para a explosão dos limites que definiam parâmetros da cultura e do espírito habitado pela leitura, a reflexão e o exemplo. Quando aprovam analfabetos por decreto e garantem vagas para quem não consegue vencer uma barreira obrigatória como o vestibular, é porque um contingente ágrafo consome sem criticar e reproduz o que é imposto como se fosse natural. A tragédia fica completa no momento em que jogam lama nas inspirações que resistiram à corrosão do tempo e hoje são derrubadas à força pela barbárie travestida de modernidade.

RETORNO - 1. Imagem desta edição: Fofoca, obra de Ricky Bols. 2.(*) Crônica publicada no caderno Variedades do Diário Catarinense no dia 30 de março de 2010.

31 de março de 2010

O VERDADEIRO JOHN LENNON


A foto acima, tirada no início dos anos 70, encerra definitivamente a polêmica sobre a verdadeira identidade do mais importante dos Beatles. Peço desculpas aos inúmeros aspirantes, mas o fato é que eu sou John Lennon. Escrevi todas aquelas canções com meu parceiro Paul, morto num acidente de automóvel, como todos sabem. Paul foi substituído por esse babaca que acabou fazendo os Wings e perdeu 60 milhões de dólares num casamento tardio. Depois de ver o corpo do autor de Yesterday estendido no chão, quis ir embora e deixei no meu lugar o sujeito que acabou detonando a banda e disse que o sonho tinha acabado. Clone besta.

Fugi para o Rio, mas não me dei bem lá. Muita bandeira, iriam logo descobrir quem eu era só para me esnobar. Acabaria sendo colunista do Pasquim ou pior, do JB, já que, sem poder me apresentar nos palcos, tinha de me disfarçar como jornalista e escritor. Resolvi vir para o sul, que tem um clima quase londrino, não fosse o excesso de alemães, o que sempre me deixa nervoso pois lembro da época da guerra, quando os chucrutz barbarizaram uma barbaridade.

Assumi a identidade de um poeta da fronteira, coisa que me dá trabalho até hoje porque não sei quando se deve se dizer che ou tchê. Quando me pedem para fazer mate, entupo a bomba. E como nunca fui da elite britânica, não fiz aulas de equitação. Portanto, ao me colocarem em cima de uma sela, caio, arrancando gargalhadas. No tempo em que eu estava parecido com o John ainda me desculpavam, dizendo: o cara é hippie, deixa quieto. Mas hoje, nas cavalgadas nativas, sempre me jogam no lombo de um matungo, que morre no final do evento.

É o excesso de peso que provoca esse desfecho trágico. É uma desvantagem, mas serve pelo menos para eu assumir que sou John sem ter que me preocupar com as conseqüências. Quando eu tinha a aparência da foto acima, era um perigo, a toda hora queriam que eu cantasse alguma coisa e apertasse os olhinhos por trás dos óculos redondos coloridos. Agora, por mais que eu grite que sou Lennon ninguém me dá crédito. "Ara", me dizem lá na zona do Cafarate. "John Lennon Chacreiro!" E se agacham nos pombos, aquelas grandes pedras lisas de beira de rio. Por isso sempre digo para meu inimigos que, se quiserem me atacar, passem antes lá perto da Cafarate para ver o que é bom pra tosse.

Uma coisa boa de ser ainda John Lennon, apesar da idade e de ter sofrido muito quando mataram meu clone com cinco tiros em Nova York, é que continuo a compor canções. Canto no banheiro baixinho para não assustar a família, já que perdi toda a afinação depois de uma gripe braba que peguei no mato, em pleno mês de junho. Ficou um rasqueado fanho que às vezes é confundido com as músicas de vanguarda de Lennon e Yoko. Mas como não tenho nada com Yoko, nego com veemência. Sou apenas o sujeito que mudou o mundo, mais nada. Pelo menos mereço um pouco de respeito.

A única coisa que realmente me incomoda é não ter podido ir a Woodstock. Eu já tinha decidido vir para o Brasil. Estava estudando a língua com uma professora portuguesa, o que me tornou um sujeito de fala bruta. Levei um tempo para recuperar as vogais e começar a escrever poemas nos parâmetros brasileiros. Acho que aprendi. Musicaram alguns. Mas meus parceiros atuais nem desconfiam que sou o John Lennon. É duro de admitir. Agora encontrei a prova definitiva, posso convencê-los. Meu nome é John Lennon, vou dizer. Sou o cara da foto.

O BRASIL SE DESPEDE



Nei Duclós

Vai-te embora, Brasil, navio da minha vida
És grande demais para submergir
Saia deste porto guardado em degredos
E suma cercado de sereias e apitos
No horizonte exposto como cão vencido
Leva contigo o pão e o desperdício


Vai-te embora Brasil, convés do meu segredo
Na amurada se debruçam nossos ancestrais
De ternos eternos e chapéus de feltro
Mães e irmãs vestidas de espólios
A passear nas calçadas do tempo em sépia
Quero te ver longe daqui, país da memória

Vai-te embora, Brasil, sonho que recebi no berço
Como faca de estimação, um pacto de apertos
Um corpo torto, um rio junto à ponte
Não posso mais te ver pilhado em minha frente
Quero que escapes para a ilha que um dia foste
E de lá me mande sinais, a piscar na névoa

Vai-te embora, Brasil, campo de mar, porão de gávea
Naveguei contigo, contando apenas com palavras
E teu apoio do alto, quando me vias exangue
Pai que hoje nos falta, irmão que assopre o pano
Preciso que te salves e leves contigo a coragem
De sermos maiores do que esta mina de pó e pedra

Vai-te embora, Brasil, que já é tarde
O verão fechou as portas e há terremotos
Entidades armadas se abrigam nos tornados
E o céu ofusca de gás néon a perversa idade
Preciso me despedir, fechar as portas
E aguardar o vento final que traga a trégua

Vai-te embora, Brasil, que te quero inteiro
Leva contigo o chafariz, o arroio, retretas, praças
Vidros e venezianas, espelhos do verbo
Cuida bem do que tens, barca terminal das eras
Pois um dia voltarás para este templo torpe
E poderás restaurar o que virou deserto

Vai-te embora, Brasil, idéia de um coração altivo
Mão soberana que me traz cativo
Corte fundo de um perfil que nos abriga
Céu de estrelas cadentes, flâmula de gritos
Ando contigo para habitar o espírito
Porque inventei, como tu, o meu destino


RETORNO - 1. O video é do melhor disco de samba de todos os tempos, Axé, de Candeia. Nesta época de dourado e ouropel, nada como "Ouro, desça do seu trono", de Paulo da Portela. Brasil soberano, presente. 2. Atenção, como o poema é de hoje, fiz duas pequenas modificações minutos depois de postar. Portanto, quem copiou no bate-pronto, refaça a operação. Ficou melhor. 3. 31 de Março de 1964: O Golpe Civil http://bit.ly/1aVVnG. 4. O poema de hoje segue a trilha de O país perdido, poema do meu novo livro e traduzido para o italiano por Julio Monteiro Martins e equipe.

30 de março de 2010

O JN E A DITADURA QUE GANHA O MUNDO


O Jornal Nacional, da Rede Globo, não mudou o jornalismo, ajudou a matá-lo. Concebido logo depois do AI-5, em 1969, obedeceu ao formato americano por obra de Walter Clark, o executivo da publicidade festejado como gênio, mas o conteúdo precisava de um ajuste, adaptado às necessidades da ditadura. Foi aí que entrou Armando Nogueira, prestigiado no jornalismo impresso, hegemônico, na época, na comunicação de massa, e excelente cronista. Falecido recentemente, Nogueira está sendo lembrado como o grande artífice do JN, quando a obra deve ser creditada a Clark e a José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, que no JN de ontem tentou tirar da reta atribuindo toda a responsabilidade do jornal sacana ao editor chefe.


Foi assim que se consolidou entre nós a imposição oficial das versões por meio de recursos técnicos (equipamentos e rede de transmissão, movidos a muito dinheiro) e ideológicos (o sucateamento da oposição ao regime, o que levou à divisão bipolar MDB/Arena, atualizada no tucano-petismo, que depende totalmente do poder do JN para governar).

Não por acaso o primeiro ato de Lula quando eleito pela primeira vez foi comparecer ao JN, obedecer ao William Bonner e servir de âncora para o noticiário global (aquele do “horário nobre”, ou seja, elitista), numa cena premonitória do que estava por vir, por mais que não acreditássemos. É fundamental recordar também que Armando Nogueira participou como protagonista do evento sinistro da manipulação dos resultados das eleições para o governo do Rio em 1982, quando a totalização dos votos pela Proconsult aparecia na Globo sem fazer justiça ao candidato vitorioso, Leonel Brizola. Este chamou a imprensa internacional (mais séria há 30 anos) e denunciou a patranha. Nogueira teve de comparecer ao vivo (exigência de Brizola,que não iria permitir manipulação da sua fala) diante do governador já eleito que estava sendo esbulhado nas fuças da nação mergulhada em nova fase de tirania.

Foi uma lavada. Brizola arrasou com um gaguejante Nogueira, que não teve mais condições de insistir na falcatrua. Nos bastidores do JN, lembro quando Jorge Escosteguy, grande jornalista com quem trabalhei mais de uma vez, me contou com detalhes como foi fritado na Globo depois de transformar a sucursal paulista do JN numa unidade de jornalismo da pesada. Foi fritado pelo silêncio e a lenta demissão, levando-o a uma situação desesperadora. Nunca é demais repetir que a Globo ajudou a esconder as gigantescas manifestações das Diretas Já, o que é público e notório. Mas não vou insistir no que todo mundo sabe, apesar de ficar escandalizado que ninguém se manifeste quando começam de novo a transformar o JN num fato histórico a favor da democracia, que até, veja bem, teria lutado (ah ah ah) contra os anos de chumbo. A Globo é a era de chumbo, ponto.

O que pega é o jornalismo rastaquera que tomou conta do mundo. Le Monde, que nunca fez algo aparecido, elege Lula o Homem do ano. Pois bem, sabemos que o Le Monde foi comprado pela industria de armas, não por acaso cliente do governo brasileiro. Os franceses nos vendem armas (agora são os caríssimos helicópteros) desde a época da Missão Francesa, nos anos 20 do século passado. O Wal Street Journal, por sua vez, usou o velho expediente de bater para depois cobrar a conta. Há uma semana, fez matéria sobre o excesso de corrupção no Brasil. Dias atrás, fez outra, sobre esse fenômeno que é o Brasil onde, pasmem, a corrupção é relativamente baixa comparada com outros gigantes. Os jornalões viraram jornalecos de meia pataca.

Para substituir o magnífico jornalismo impresso que tínhamos até os anos 60, por uma falcatrua metida a besta e vazia como Jornal Nacional, foi preciso fazer o serviço completo, ou seja, destruir a alfabetização e a formação escolar, bases de uma opinião pública lúcida e atuante. Mandaram para as calendas cartilhas eficientes, como a Caminho Suave, que alfabetizou mais de 40 milhões de brasileiros e colocaram no seu lugar o analfabetismo puro e simples. Como era impossível, no sistema tradicional, passar de ano sem saber ler, inventaram a aprovação por decreto. Assim está feito o público para consumir JN, em que o parâmetro, segundo o próprio Bonner, é o Homer Simpson, o idiota da série americana.

A verdade é que o grande sucesso do Brasil foi transformar um regime sinistro numa ditadura consentida com vestes de democracia. Com a crise mundial, em que os jornalões mais notórios perdem leitores e faturamento, está tudo sendo loteado e comprado. A ditadura brasileira faz a festa, como provam alguns artigos pesquisados pela equipe do Diário da Fonte. Leiam aqui e aqui. Mesmo no Translate Google, fica legível. Dá trabalho, mas não muito. É de explodir os gargomilhos. Simplesmente estamos cacifando a pirataria internacional com o aval do Banco Central, transformamos os responsáveis pelos milionários fundos de pensão em especuladores que compõem hoje uma nova elite, entre outras mumunhas.

RETORNO – Imagem desta edição: vídeo em que a voz do dono, Cid Moreira, lê uma carta de Leonel Brizola contra a Rede Globo, a mando da Justiça. Em pleno Jornal Nacional. Brizola presente!

29 de março de 2010

O FIO DO VERBO NO TWITTER



O que tenho feito além de postar sobre cinema aqui no Diário da Fonte? Tenho afiado o verbo no Twitter, onde as frases não podem ultrapassar 140 toques. Escrevo sobre tudo, dialogando com muitos seguidores, das mais variadas profissões, principalmente jornalistas, poetas, assessores de imprensa, gente do Brasil e de outros países. Uma viagem e tanto. A seguir, uma seleção de insights que publiquei lá no meu espaço @neiduclos.


MISCELÂNEA

Estava distraída. Deixou cair a saudade por um instante e viu-se de novo em frente ao desatino

No final da noite, o garçom varre para debaixo do tapete todas as estrelas

Quando perguntam se podem me dizer uma coisa, eu tenho um troço

Desconstruir é uma operação complicada Seria assim como destuitar

Vou te dizer uma coisa: não me diga coisas

A verdade é o pão da consciência que mofa por falta de uso

A versão é o carro que atropela a verdade na faixa de segurança

A verdade é apropriada pela mentira de cada um

A verdade convence, mas quem escuta faz parte de outra religião

A verdade é uma órfã expulsa de casa pelos falsos pais que fingem adotá-la

Deus toma notas, não para lembrar, mas para mostrar como prova


MÍDIA


É preciso dizer, para que se ouça É preciso ousar, para que algo fique de nós desta vida datada e prisioneira

É uma contradição deixar de viver em nome da sobrevivência

Liberdade não é dizer palavrão Palavrão apenas confirma o preconceito contra a liberdade
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Estudar aqueles que ensinam a aprender

O marketing, a política, os legisferantes, os ditadores de esquina, estão todos a postos para calar nossa boca. Pois agora chega!

Coloque seu candeeiro no alto do telhado É o que manda aquele que teve a coragem de mudar

Se com a rede podemos ser cidadãos livres, o que diremos se perdermos mais esta chance?
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Tivemos medo, deixamos nos dominar mais uma vez?

O cuidados que devemos ter nas redes sociais é de sermos civilizados, mas jamais medrosos A hora é da coragem

Internet é liberdade, a chance de expressar nossa opinião com todas as letras Não pode virar mais uma cela do medo

O twitter é uma tentação. Território livre para a abobrinha

Colunista não trabalha para governo, não vende notinha, não elogia a soldo, não critica a mando, não informa pela metade

Setorista de jornal não faz assessoria para ninguém, editor não assina contrato por fora, matéria paga tem de ser identificada como tal

Departamento Comercial não pauta, repórter não cobre festa de anunciante nem faz link em shopping, anúncio não invade texto

Credibilidade é a separação entre jornalismo e publicidade

O pior dos BBBs são os ex-BBBs, efeito colateral da endemia

O marketing prepara produtos específicos para ex-BBBs. Espelhos com câmaras Dicionário de Baixarias Edredons suados


SEÇÃO VERDE

A hora do planeta deveria ser diária, coincidindo com o Jornal Nacional

Militante sustentável viciado em internet apaga o monitor e continua tuitando

Desenvolvimento sustentável é a substituição das matas por indústrias não poluidoras

Deve-se definir tolerância zero para quem permitir a proliferação de traças em livros virtuais

Os bilhões de dólares gastos em preservação das árvores rendem créditos de papel carbono

A recuperação das matas ciliares implica a escolha das marcas cosméticas de várias procedências

A saúde é uma concessão com data de vencimento da indústria farmacêutica

O recrutamento de voluntários ambientalmente corretos deixa os gafanhotos desconfiados

A indústria de bebidas economiza água depois que joga fora

Estima-se a utilização da calota polar na Fórmula para objetivos ambientais

O aquecimento global não estimula a interrupção do banho quente no inverno

Reciclar água de uso industrial e do esgoto ajuda a repor os nutrientes das campanhas publicitárias

A biomassa da rain forest serve para fazer bolinhos de chuva

O desenvolvimento sustentável conseguiu sair de casa cedo e montar apartamento

Uma boa fonte renovável de energia é dinheiro


POLÍTICA

Não significa que precisa chutar o pau da barraca Mas pelo menoS se afastar desse tranco e criar algo sincero. O país precisa

O fato é que os artigos políticos obedecem ainda ao formato do Castelinho, a elegância consentida da abordagem oficial

Se o jornalista célebre disser o que pensa será que vai perder dinheiro, não vai poder encarar as outras celebridades nos ágapes?

Um blog não pode ser bola de frescobol, sendo jogada para cá e para lá entre Dilma e Serra É tanto medo assim de ser livre?

Blog é a oportunidade de não obedecer à pauta da mídia oficial Mas o que se nota é isso: ou blog é paga pau ou é só firula

É triste ver blog de jornalista célebre pagando pau para a mediocridade da política brasileira Blog é revolução Não vão queimar os navios?


CHATICES

A antipatia é uma das flores mais espontâneas do selvagem jardim humano É a gratuita cara de paisagem em relação a um alô

Algumas celebridades literárias estão no Twitter como estão na sociedade de classes: por cima da carne seca, sem interagir com ninguém

Texto chato é aquele que tenta colocar em passant, como se não fosse o objetivo principal do texto, as emoções da última viagem a Paris

Texto chato é aquele que tenta te convencer que Jesus te ama, que ser feliz é melhor do que criticar e que te manda beijos no coração

Texto chato é aquele que convida à reflexão, como se reflexão precisasse de convite

Texto chato é aquele que comenta o texto que está sendo escrito "Veja bem"

Texto chato é aquele que tenta levar o leitor pela mão e anuncia a toda hora que "isso veremos mais adiante"

Se a era de Peixes acabou, o que será colocado no Aquário?

RETORNO - Imagem desta edição: Afiador de facas, foto de Regina Agrella.

27 de março de 2010

A MONSTRA



Meryl Streep confunde a imprensa. Foram 13 ou 16 indicações ao Oscar? Ganhou só dois, um por "A Escolha de Sofia" e outro por "Kramer x Kramer". Deveria ganhar mais. Comete erros, como "Mama Mia", onde quis ser a Madona. Mas 99% do trabalho dela é gênio. Está na categoria dos monstros, aquele tipo de interpretação em que o ator se transforma numa criatura assustadora.

Foi assim em O Diabo Veste Prada, quando a bruxa da moda massacra uma pobre Anna Hattaway,atriz engolida junto com seu personagem. E é assim na sua magistral interprtação em Julie & Julia, quando encarna de Julia Child, a mulher de diplomata e de família rica do interior dos Estados Unidos que disseminou a gastronomia francesa em terreno estéril, a cozinha americana, onde o frango frito do fast food da esquina substitui o chato trabalho de fazer comida.

Talvez Julia Child seja a responsável por essa frescurada de reunir amigos para ágapes onde se elogia os pratos e “um bom vinho”. Esse tipo de evento, que é um rodízio de vaidades, substitui o fraco desempenho doméstico da família moderna, mais preocupada em aparecer para os outros do que trabalhar o que tem entre quatro paredes. Mas não tenho certeza. O que é certo é que Meryl Streep compôs a personagem na sua intimidade extrapolando o que aparece na televisão, num programa de culinária, para o que imaginou ser a vida “real” de Julia Child. Os cacoetes verbais e gestuais que foram vistos por milhões por muitos anos na telinha ganham vida e cor própria na luta da mulher que procurava uma ocupação na Paris dos anos 50.

Como costuma fazer normalmente, Meryl Streep devora quem a acompanha na sua performance. O marido cordato interpretado muito bem por Stanley Tucci (um ator apropriadamente apagado) ou a blogueira que a admira (Amy Adams) praticamente somem do mapa e o que aparece é a monstra o tempo todo, apesar de o filme ser bem divididod em dois tempos, um de 50 anos atrás e outro deste século. Numa entrevista para o Telegraph, Streep conta como entrou em conflito com a pessoa que inspirou seu personagem neste filme, que estaria a serviço do agribusiness e não atendeu um pedido para apoiar a agricultura e a alimentação orgânica.

Streep jura que admira Julia Child, mas sua performance magistral fundada numa caricatura (a performance televisiva da cozinheira famosa) não seria uma doce vingança pelo que o ídolo aprontou há vinte anos? Talvez, mas isso não tira o mérito da interpretação. Julia Child jamais seria a favor da comida orgânica, já que adorava tudo o que é considerado pecado contra o colesterol, como fartas porçõe s de chocolate e manteiga. Mas o que é admirável nos americanos é que eles não deixam nenhum ídolo solto, à mercê dos detratores. A indústria do cinema sempre dá um jeito de encontrar grandeza em tudo. Neste caso. Streep elogia a determinação da mulher que inventou uma profissão e aguentou tranco da perseguição ao marido proporcionado pelo macartismo. Nada demais. Falar mal dos republicanos agora é moda na era Obama.

Lembro de um filme de 1953, The President's Lady, em que Susan Hayward interpreta uma primeira dama mal afamada. Pois o filme limpa a barra da ilustre senhora, pois é assim que eles fazem: jamais permitem que o país, base da sobrevivência da população, seja atingido em sua honra. Aqui, só falta rebatizar o aeroporto Santos Dumont de Irmãos Wright. Tudo é possível, depois que substituíram o nome do aeroporto de Salvador, que era batizado com a data heróica da vitória brasileira na Guerra de Independência, Dois de Julho, e agora tem o nome do filho do ACM.

Lá a pessoa pode ser uma cozinheira de televisão cheia de maneirismos que eles não deixam barato. Podem até debochar, como acontece num quadro humorístico apresentado no filme, mas no fim das contas retratam a dignidade da pessoa que criou um caminho na gastronomia, levando oito anos para lançar seu primeiro livro. Deveríamos imitar os americanos nisso e não no frango frito comprado no fast-food da esquina.

26 de março de 2010

A TELA E O JARDIM: O OLHAR QUE LIBERTA



A dominação de classe leva à escuridão do olhar e à sua máscara: o que é negado à percepção serve de insumo para a crítica pseudovanguardista da arte, em que o breu não é breu, é o “não-branco”. Com isso, se justifica a imposição perceptiva, já que a pose intelectual encerra os agentes (o pintor e seus críticos) numa prisão ditada pela moda, ou seja, o mercado imóvel de produtos artísticos, que obedece ao movimento pseudocíclico do tempo (as exposições que se repetem). Ali, o que conta é o dinheiro aparentemente despossuído de sua brutalidade natural
de dominação e o silêncio do sufoco, como se fosse o estado natural das coisas.

Para romper essa barreira, o filme Dialogue avec mon jardinier (2007), de Jean Becker, com Daniel Auteuil, Jean-Pierre Darroussin e Fanny Cottençon, propõe uma saída clássica, dentro do materialismo histórico da dialética marxista: a adoção da cultura proletária, a que percebe por meio do domínio da natureza. Ao contratar seu amigo de infância para cuidar do jardim abandonado da família tradicional que se desfez, o pintor redescobre os laços familiares e comunitários, a tradição do fazer operário e, mais importante, sua visão de mundo, antes pautado pelo que produz (seu trabalho nas ferrovias ao longo da vida), e que é substituído pelo que cria (hortas e jardins, seu hobby que acaba virando profissão na aposentadoria).

Assim, não é o convívio “natural” com as plantas que formata as idéias sobre o que é visto, mas seu tratamento, ou seja, a mão na terra, o ato de regar, a colheita cuidadosa e o aproveitamento dos frutos. Não se trata de uma volta à natureza, mas a recuperação da capacidade de enxergar o mundo por meio da ação do trabalho não alienado, no caso, o do jardineiro liberto de sua faina proletária, que está livre para o trabalho prazeroso o dia todo, previsto por Marx quando a humanidade se libertasse de seus grilhões.

O filme, portanto, não é uma gracinha que todos admiram por ser “humano”. Mas uma exposição dos motivos marxistas da História, produzido num país que é, ou foi, o centro do pensamento revolucionário desde a Tomada da Bastilha e que, com a Comuna de Paris, insuflou Marx e Engels a produzirem sua obra que mudou o mundo. O pintor, ao adotar a visão operária, se desaliena do mundo onde estava confinado e recupera sua capacidade de ver, sentir e pintar. Não está mais a serviço das encomendas ou das frustrações de um trabalho que, como qualquer outro, apesar de ser parte da cultura, lhe provocava aborrecimentos.

A verdade é que, para recuperamos o que perdemos no comportamento, na cultura e no sonho, vemos um filme argentino. E para que possamos nos civilizar, avançar, nos conectar com o pensamento clássico da libertação humana, vemos um filme francês. O operário apaixonado pela esposa admirava os olhos do seu grande amor. No olhar está a chave do enigma. No desfecho, quando o operário parte, são exatamente os olhos da mulher que aparecem vazados, como nas estátuas gregas. Uma referência à cultura clássica, que precisamos revisitar todos os dias para não nos deixar enredar nessa soma de armadilhas que nos aguardam em cada esquina.

Cinema, o grande amor de nossas vidas, tem esse dom: nos colocar diante da criação de alto risco, a que não teme fracasso comercial e fala diretamente ao nossos olhos, que, como diz o lugar comum, são as janelas do espírito. Por essa janela entra a luz, as cores, os instrumentos de trabalho, o grande peixe cobiçado nas pescarias. Não se trata de celebrar o figurativismo tradicional, mas o de recuperar a força da percepção liberta dos ditames da sociedade do espetáculo. Tudo no fim vira produto, mas como diz o poema vendo no mercado o que liberta.

RETORNO - Imagem desta edição: Daniel Auteuil trabalha, Jean-Pierre Darroussin observa. E vice-versa.

25 de março de 2010

STRANGE DAYS E 2012: APOCALIPSE ONTEM E HOJE




O Apocalipse é uma das mercadorias do tempo, assim como o horário do almoço ou o período de férias (se formos seguir o rastro das observações de Guy Debord em A Sociedade do Espetáculo). No eterno presente, que é a imposição de tempo do sistema econômico que nos rege, férias, pausa para a refeição ou fim dos tempos são eventos com roupagem cíclica: eles se repetem sem interferir na hegemonia do tempo único imposto pelo capitalismo. São produtos como qualquer outro e obedecem à roda viva da produção e consumo, que escraviza corpos e mentes como se fosse algo “natural” e por isso, incontestável.

Nos anos 90, a proximidade do número redondo, o ano 2000, provocou um frenesi em torno do Apocalipse, que se nutria do texto bíblico de S. João e das profecias de Nostradamus. Foi uma mercadoria que ganhou intensidade conforme se aproximava a representação máxima desse final dos tempos, o reveillon da virada para o chamado novo “milênio”, a palavra que gastou de tanto uso e hoje está esquecida (mil anos passaram em menos de dez).

Como não aconteceu nada demais, como era de se esperar, o Apocalipse precisou de uma nova embalagem para continuar funcionando como mercadoria. Para isso, alimentou-se de novidades explícitas do novo século: o tsunami, onda gigante que varreu a Indonésia; a derrubada das torres gêmeas de Nova York, que interrompeu a arenga internacional sobre a integração entre nações e a Pax americana; e a profecia maia sobre 2012, uma nova data tirada do anacronismo da História transformada em arena do espetáculo. O marco próximo e assustador serve para gerar novos produtos de consumo, na indústria cultural e de entretenimento, e seu entorno, a astrologia e a ciência mutante e adaptável para a circulação de produtos.

Um dos filmes sobre o velho Apocalipse, aquele que foi desmoralizado pela besteira do reveillon 2000, é Strange Days (1995), de Kathryn Bigelow, com roteiro do seu marido na época, James Cameron. É sobre a ruptura das fronteiras das mercadorias da indústria audiovisual, pois no lugar de filmes, segundo a profecia do filme, teríamos o fluxo permanente de imagens e sons percebidos diretamente na cabeça dos compradores (o que se concretizou com a internet). Essa ilusão, pelo excesso, precisava de cada vez mais radicalidade na sua produção e é por isso que a transgressão é a lógica para seduzir os que podem pagar.

O anti-herói do filme, interpretado por Ralph Fiennes, que se chama Nero exatamente porque precisa ver o circo pegar fogo para continuar vivo, é o mercador das cenas brutais que encantam as pessoas imobilizadas no sistema. Recusa-se a vender assassinatos e mortes, mas é empurrado para isso pelas circunstâncias, onde um ex-amor faz o papel de tornassol de uma explosiva combinação química, quando entra de tudo, desde estupro até execução sumária nas ruas de Los Angeles.

Qual a diferença dos antigos filmes com essa realidade de imagens sem forma que tomam conta da paisagem? No cinema ultrapassado, havia um fim, um the end, diz a ex-namorada, interpretada por Juliete Lewis. Esse alívio não existe mais. A esperança é que a virada do milênio traga o desfecho do pesadelo. Mas o que acontece é apenas a resolução de um crime, graças à intervenção de uma mulher apaixonada por Nero, a motorista de limousine interpretada por Angela Bassett . Tudo se reduz a um caso policial com final feliz e com direito ao beijo deslumbrado.

2012 (feito em 2009 e dirigido por Roland Emmerich) joga mais pesado. É a fantasia americana de se livrar do resto da humanidade e ficar com a parte nobre do planeta, o Terceiro Mundo sem seus habitantes para atrapalhar. A arca que salva os eleitos que pagaram para sobreviver revela as imagens do estrago que a destruição provocada pelas manchas solares provoca por toda parte. Para nós, brasileiros, sobra o deboche: é o único lugar onde o Apocalipse desencadeia uma corrida suicida aos mantimentos, já que somos mesmo esses macacos famintos, na visão deles.

A derrubada do Cristo Redentor acompanha a destruição de todos os símbolos da civilização que se esvai: a Basílica de São Pedro (os americanos jamais vão perdoar o catolicismo), a Torre Eiffel (jamais vão perdoar a defecção francesa no Iraque), o monastério budista encravado no alto da montanha (toda devoção será castigada). Resta apenas a família que estava separada e se une na tragédia, já que o Apocalipse cuidou de levar o sujeito que ocupava o lugar do pai das crianças (este, interpretado pro John Cusack). E fica também aquela porção da humanidade milionária ou feita de alguns outros espécimes que acabaram inundando a arca nos minutos finais: todos eles vão reconstruir o mundo agora livre do excesso de gente pobre.

O novo Apocalipse é um alerta para a sucessão de eventos que estão matando em massa por toda parte (como, recentemente, no Haiti e no Chile). É demais o número de terremotos e furacões e tsunamis. Algo está errado. O clima tem sido usado como arma, essa é uma evidência que os cientistas sérios já admitem, apesar da incredulidade dos eternos desconfiados de teorias conspiratórias. Parece que a idéia é fazer uma limpa geral, onde só sobrariam umas 500 mil pessoas. A pergunta é: como vão sobreviver os donos do mundo sem escravos para sustentá-los?

A diferença entre os dois filmes é radical: Bigelow é cineasta da pesada e faz um thriller de prospecção de comportamento coletivo numa época de intensa manipulação do medo da população, enquanto 2012 é uma bobagem avassaladora que deixa no chinelo todos os outros filmes de catástrofe. Uma onda que atinge o pico do Everest é o sinal da demência absoluta que tomou conta de Hollywood na sua faina de produzir mercadorias que o tempo dissolve na primeira curva.

RETORNO - Imagens desta edição: a primeira é John Cusack com Morgan Lily em "2012" e a segunda é Ralph Fiennes e Angela Basset em "Strange Days".

EXTRA: FOI-SE O GRANDE MESTRE

Morreu István Jancsó, grande historiador da USP, nascido e criado húngaro mas brasileiro por escolha e devoção. Foi torturado e preso, mas voltou. Tive a sorte e o privilégio de ser seu aluno em mais de um curso de História Colonial. Já o citei aqui várias vezes. "É complicado" dizia sempre quando abordava um assunto, principalmente da nossa História. O Brasil é complicado. Escasseiam seus decifradores, suas grandes cabeças. Seu livro "Na Bahia, contra o Império", é um clássico.

24 de março de 2010

ATUALIDADE DE GUY DEBORD: REVOLUÇÃO CONTRA IDEOLOGIA



Nei Duclós

O livro A Sociedade do Espetáculo, de Guy Debord, lançado em 1967, foi a base para as ações da ala mais radical do Maio de 1968 na França. Trata-se um milagre teórico, pela sua extrema atualidade e clareza na abordagem de um tema complicado que costuma enredar os scholars. Escrito numa sucessão de aforismas precisos e geniais, Debord decifra o mundo contemporâneo gerado pela abundância e as contradições do capitalismo na era da mass media. Vi o filme de 1973 que ele produziu com o mesmo título, que é o seu livro ilustrado por imagens, filmes, publicidade, acrescido da experiência vivida na revolução operário-estudantil francesa de maio de 1968.

Nesse filme fica claro que aquela foi uma revolta não apenas contra o capitalismo, mas contra seus novos aliados: a ideologia de esquerda engessada em sindicatos e partidos comunistas ou socialistas (soa familiar?). Debord explica que a abundância da sociedade do espetáculo – que é uma relação social entre pessoas numa sociedade de classes e não um acúmulo de imagens - anexou a indignação como mercadoria. As instituições representativas do operariado também entraram nesse círculo, participando do sufoco de um sistema que provoca a divisão e o vazio. Os gestos dos concertos musicais para multidões, que representariam a revolta contra ao sistema, também fazem parte dessa impostura da indignação.

Debord acerta sempre pois usa (sem se deixar cegar pela burrice da leitura datada), de maneira lúcida, radical e criativa, as principais lições extraídas das obras de Karl Marx, uma fonte magistral do pensamento que hoje, por ignorância, é atacada como se tivesse a culpa da existência dos imbecis que a invocam. Reproduzo aqui alguns aforismas que tirei do filme e escrevi de memória: "A mercadoria fetichizada da sociedade do espetáculo perde seu valor quando entra na casa dos consumidores". Quantas vezes não nos encantamos com uma roupa na vitrine e quando chegamos em casa vemos que tudo não passava de ilusão? Também some a idéia de originalidade ao notarmos o uso massivo do que nos seduziu.

"Stalin foi descartado como mercadoria obsoleta da sociedade do espetáculo concentrado, o capitalismo burocrático". Entendemos assim como o stalinismo foi jogado fora para a Rússia continuar tendo o direito de invadir a Chechênia. Confirmamos também que os militares no Brasil foram colocados à margem do poder pelo mesmo motivo, já que a presença da farda não atendia mais aos propósitos do capitalismo da sociedade do espetáculo difuso, o do Ocidente. A nova situação se pautava pelo Consenso de Washington, o que inventou as falsas democracias atuais, totalmente dependentes da pirataria internacional e focado na derrubada das fronteiras nacionais.

"O capitalismo se apropriou de todo espaço urbano, que ficou tão sujo, feio e barulhento quanto uma fábrica". Sabemos agora porque não dá para passear nas cidades brasileiras, elas se transformaram num enorme esgoto industrial, principalmente da indústria imobiliária, que ocupou todo o território ou desvirtuou o urbanismo clássico para que coubesse o automóvel, a mercadoria fetichizada por excelência. Vemos também que foi exatamente esse nicho do supra-sumo do fetiche da mercadoria automotiva que surgiu o atual presidente do Brasil, que assumiu o papel atribuído a ele pela esquerda engessada nos sindicatos, denunciada por Debord. Claro como água.

Na França, o Maio de 1968 foi uma composição de forças entre os estudantes que se rebelaram contra o engessamento da cátedra e de um sistema educacional obsoleto, e os operários que se insurgiram contra a falsidade de suas representações. É esclarecedor o fato de os sindicatos dos trabalhadores serem a favor da polícia e da repressão às manifestações, que tomaram conta da França e incendiaram o imaginário do mundo, tornando-se referência de uma revolução legítima, que atacasse a totalidade do problema e não se deixasse enredar pela armadilha proporcionada pelo capitalismo mutante.

O tempo como mercadoria é uma das maiores sacadas de Debord. O eterno presente, que falamos sempre aqui, nada mais é do que a padronização do tempo da mercadoria e da produção, imposto para o mundo inteiro, à revelia dos tempos pessoais e comunitários ou nacionais. O tempo pseudociclico, ou seja, o turismo e as férias e as festas durante o ano apenas mascaram esse tempo único e hegemônico, pois funcionam como um carrossel do Mesmo que gera a insatisfação permanente e a revolta surda, que acaba um dia explodindo.

Aqui no Brasil,1968 foi essencialmente estudantil e como revolta estudantil se esvaziou. A insurgência operária foi falsa, pois manipulada pelos sindicatos. Gerou um líder falso, que acabou assumindo a presidência. Não há limites para a tragédia brasileira.

RETORNO - É possível ler o livro de Debord neste link, em português de Portugal.

PERSONA



Nei Duclós (*)

Somos personagens no teatro das percepções mutantes e, muitas vezes, inconciliáveis com nossa própria essência. Precisamos da aparência e seus sinais e, principalmente, de script. Ser autor do próprio roteiro requer fôlego e ajustes ao longo do tempo. Temos a ilusão de que publicamos nossas inúmeras versões nos eventos principais, mas elas se definem nos detalhes. Se você é visto num mau dia por alguém influente, assim será difundido para determinadas platéias. Por isso, dizem ser necessário nos preparar cada instante do dia, pois a Fortuna não avisa quando vai passar.

A forte intensidade das expectativas convive hoje com possibilidades reais proporcionadas pela tecnologia disseminada na sociedade do espetáculo (que inclui bem mais do que apenas a indústria cultural ou a do chamado entretenimento). Tudo parece estar à mão e nos vemos impulsionados para várias direções, certos de que seremos vistos conforme as máscaras que formatamos para cada ocasião, todas elas, acreditamos, girando em torno de um eixo imutável, a personalidade que adquirimos pelo hábito e com a idade.

O jogo é pesado e nos perguntamos então qual é nossa essência. Acredito que ela também dança conforme a música da época. Mudar de rosto nos anos 1960 significava sofrer o impacto de estímulos exógenos num ambiente coletivo formatado por uma herança educacional conservadora. Isso aconteceu de maneira mais ou menos igual para inúmeras pessoas. Quando lemos os depoimentos de quem começou a sentir e a pensar diferente de uma hora para outra, depois de ter acesso a portas até então desconhecidas do conhecimento, vemos as mesmas situações replicadas constantemente. Todos, no mínimo, acreditam ter apertado a mão de Deus.

Hoje, quando a proliferação de estímulos sobra, não existe mais aquela base que recebia e elaborava o choque. Há uma banalização geral, com resultados perigosos. O aceno de uma “cura” piora a situação. Isso nem é visto com nitidez e uma tragédia familiar pode destampar o caos obscurantista que permeia a vida nacional.

Para neutralizá-lo, nada como o bom e velho racionalismo. Temos a eternidade para sermos espíritos. Vamos aproveitar essa vida para formar uma concretude que nos falta. Precisamos ser reais, como um grande e portentoso jequitibá, e não enredados, como um cipó.

RETORNO - 1. Imagem desta edição: obra de Ricky Bols da série "Some Girls na linha" 2. (*) Crônica publicada no dia 23 de março de 2010 no caderno Variedades, do Diário Catarinense.

23 de março de 2010

ALICE ADULTA TROCA WONDERLAND PELO IMPÉRIO



Tim Burton projetou Alice in wonderland, seu mega sucesso deste início de ano, para a solução de um impasse: a menina que cresceu precisa revisitar suas fantasias para se jogar numa aventura maior, real e que esteja acima das representações da infância. É assim que ele mergulha no buraco de seu inconsciente para lembrar (fazer o balanço) do seu imaginário gerado pela orfandade, quando, ao perder o pai, o mundo virou pelo avesso e o absurdo tomou conta das cenas cotidianas.


Essa sessão psicanalítica nasce de uma fuga da mulher adulta que é pedida em casamento por alguém que ela detesta, um noivo que é a promessa de uma vida tranqüila e rica. Ela prefere navegar na lama do jardim atrás de um personagem animado, um coelho que fala e que a atrai novamente para o núcleo do conflito deixado para trás, sem resolução.

Esse conflito é uma luta do Bem, a rainha Branca, exilada pelo Mal, a rainha vermelha, a famosa que manda cortar cabeças. Trata-se de uma divisão entre a virtude e o pecado e a necessidade de reentronizar a virtude, derrubada por esse universo partido, inaugurado pela morte do pai. Sua participação no conflito é a mistura de História Sem Fim (1984), o clássico infantil alemão de Wolfgang Peterson (as viagens em cachorros gigantes voadores são idênticas) e filmes antigos de capa e espada, onde Alice vira um Errol Flyn misturado com Rainha Cristina, a Greta Garbo de vestes masculinas e de rosto impassível.

Ela conta com a ajuda de um pretendente, o Chapeleiro Louco, que á a transgressão usada para derrubar a rainha má, o mágico que a carrega para centro da arena. Feito o serviço, ela se livra desse outro noivo imaginário para colocar ordem no mundo real. Habitada por sua experiência, em que erradicou o pecado e o caos (não por acaso vermelho), colocando no seu lugar um reino harmônico e belo (não por acaso branco), ela parte para a definição dos papéis, dela mesma e de quem a rodeia.

É assim que se livra do pretendente rico e propõe uma investida colonial em terras distantes, assumindo a função abortada pela morte do pai, o da expansão do império colonial. Mas Alice vai extrapolar os planos antigos do pai morto, já que faz parte de uma novas geração, espichando as fronteiras da dominação britânica para os confins da China. Ela é o elemento que irá realizar essa ação pioneira, já que está livre das cartas marcadas do relacionamento previsível, o que seria um perigo para o Império, pois estagnaria. Ela parte para uma aventura de verdade, encarnando os princípios da dominação de sua civilização sobre o resto do mundo, por meio da navegação, do comércio e eventualmente da guerra.

Alice Kingsley já teve seu batismo de sangue ao derrotar o monstro em Wonderland. Foi ela quem cortou a cabeça do grande pesadelo que tinha se formado em sua vida. E se alimentou do seu sangue para voltar a si, ao buraco do jardim de onde tinha se enfiado. Tim Burton compõe essa metáfora da dominação, solucionando o pesadelo de Wonderland pela perspectiva da conquista de um mundo exótico, distante e lucrativo. Trata-se de uma artista a serviço da civilização que o gerou. Faz isso de forma consciente, usando um clássico da literatura, criado pela pedofilia platônica de um gênio da linguagem, Lewis Carrol, que inventou a história para as garotas que estavam aos seus cuidados.

Johnny Deep faz um Chapeleiro circense pós-moderno, que dança funk e tem um humor minimalista e cerebral. Mia Wasikowska faz uma Alice angelical, que fica nua ao crescer ou diminuir demais, colocando assim em risco suas virtudes ao experimentar drogas que a espicham ou a encolhem. Helena Bonham Carter, mulher de Tim Burton, onipresente em seus filmes, faz uma rainha má impressionável e, portanto, vulnerável. Sua queda do trono fica previsível, pois o espetáculo arma tudo para que o Mal perca a batalha.

Todos ficam felizes e vão para casa com os olhos cheios de efeitos visuais. Mas na essência, no núcleo vazio do espetáculo, que é a especialidade de Tim Burton, fica essa fidelidade ao poder dominador do império que é o seu berço. Ali, os estilhaços da linguagem são as ruínas da fantasia infantil que virou pesadelo e as frases contundentes no final são a nova cartilha que vai orientar as pessoas em suas novas responsabilidades.

RETORNO - Imagem desta edição: Alice (Mia Wasikowska), antes de mergulhar na viagem do seu inconsciente, a memória de um pesadelo infantil, provocado pela orfandade do pai.

21 de março de 2010

LOKI: UMA HISTÓRIA DE AMOR



As palavras rodeiam Arnaldo Batista, o gênio musical de Os Mutantes reconhecido tardiamente pelos ingleses e, de tabela, pelo Brasil (que o havia esquecido), mas jamais conseguem alcançá-lo: rock, psicodelia, pop, música brasileira. No documentário Loki, de Paulo Henrique Fontenelli para o Canal Brasil, até bossa nova girou ao redor da luz que emana de sua personalidade. Mas a palavra mais apropriada, e que cabe nele em todas as fases de uma vida criativa, explosiva, exilada, complicada e que encontrou a ressurreição e a glória, é amor.

O amor de Arnaldo por sua primeira namorada e esposa, Rita Lee, toma conta de uma bom trecho do filme e quase o confina num rodopio autista (tanta gente sem importância falando sobre o que se passou entre eles...). Mas o que se sobressai, se sobrepõe, se impõe, se destaca é o amor de sua atual mulher, Lucinha Barbosa, que o pegou no chão, na pós-tentativa de suicídio e o retirou da roda vida paulistana para fazê-lo reintegrar-se consigo mesmo num lugar isolado. Essa relação sustenta e costura o filme, provando que a mulher escolhe o homem e este, quando é escolhido, pouco ou nada lhe resta a fazer, enquanto ao tentar escolher, descobre quem dá realmente as cartas.

Mas a palavra amor tem uma amplitude maior, já que Arnaldo Batista colocou a busca da espiritualidade em primeiro plano, deixando de lado a carreira e nem querendo viver do que tinha feito na juventude. Só o que ele produziu junto com o irmão Sérgio, a mulher Rita, e os músicos que os acompanhavam, o colocaram no mais alto pódio da música internacional. “Melhor do que os Beatles”, disseram nos depoimentos dois músicos. “Querem escutar algo que os deixará abismados?” pergunta outro. “Os Mutantes sintetizavam todos os gêneros numa só frase musical, diferente dos Beatles, que faziam uma colagem de gêneros”, diz mais um.

Foi sorte nossa a existência desse amor tardio, mas providencial, da atual esposa, e desse amor eterno, do som que sai dele para o deslumbre geral. Fez com que voltasse à tona, depois que o Brasil tinha resolvido enterrar mais um dos seus grandes talentos, a sina do país que se auto-devora, como se a grandeza fosse nossa principal culpa. Dá dó ver figuras vazias fazendo caras e bocas para falar de Arnaldo, umas estrela que brilha além das arqueadas de sobrancelhas e o fechar de olhos para reforçar abobrinhas. Dá dó ver um dos músicos dos Mutantes achar graça do fim do casamento e da banda.

Ao mesmo tempo, é um alívio ver Kurt Cobain ou Sean Lennon falarem um tempão sobre a importância e a qualidade de um brasileiro que fez História. É uma vocação que não temos, o de admirar os outros, de reconhecer, de lutar para que sejam vistos e ouvidos pelo público. A tendência no Brasil é eleger meia dúzia de imbecis para gritarem décadas nos palcos como se fossem grandes artistas, quando não passam de contrafações. Enquanto isso, nossos criadores amargam o exílio interno, como aconteceu com Tom Zé (que trocou várias vezes de roupa nos seus depoimentos para o documentário para representar as muitas fases da vida de Arnaldo), até que de novo os estrangeiros vissem nele todo o valor que aqui tinha sumido pelo ralo.

O amor, em Arnaldo Batista, junto com sua formação (a mãe, concertista de piano, aparece pouco no filme, infelizmente) o leva por todos os gêneros numa só frase musical, e pontua sua obra melodiosa, tocante, profunda. Pessoa querida por todas, cruzou os umbrais dos preconceitos. Quem o chamava de louco, agora tem de enxergar o gênio. O criador sem carreira é o mais bem sucedido, pois é aclamado por onde se apresenta (as novas gerações brasileiras quiseram saber quem era esse músico que tinha feito tanto e estava no limbo). O que parecia psicodélico era apenas liberdade criadora. O que dizem ser rock era uma composição e interpretação sem rótulos. O que tem tudo para ser brasileira, é apenas a recriação do que há de mais forte no mundo todo, inclusive no Brasil. Por isso as pessoas se curvam diante do menino grande, com a cara marcada pela dor. Por isso quem fala sobre ele no filme diz que ama esse artista único.

Um dia fui ver um show dele em São Paulo. Estava a serviço da Ilustrada, da Folha de S. Paulo. Entrevistei-o em 1977 (ou será que foi 1978?), na época em que ele tinha uma banda, o Patrulhas do Espaço, que achei fraca. Elogiei a performance chapliniana no palco, pois ele fazia questão de surpreender todas as expectativas para mostrar algo silenciosamente hilário. Tocou pouco, e também falou pouco na entrevista no seu apartamento de janelas todas fechadas.

Estive frente a frente com essa mansidão reticente, esse invólucro que guarda o melhor de nós e às vezes sai para a rua a brilhar como uma supernova.