5 de setembro de 2014

AQUÁRIO FOI ONTEM



Nei Duclós

Revi trechos do datado Hair (1979), de Milos Forman. Filme tardio para o que reporta, o desbunde americano na virada dos 1960. Pelos cálculos, a profecia sobre a era de Aquário coincidiria com nossa época agora. É de matar de rir. Ou chorar. Vivemos exatamente o oposto do que o previsto.

Uma nova conjunção de astros traria uma época de ouro para a humanidade. Vimos no que deu. O fato é que a era de Aquário foi aquele comportamento anunciador, aquela cultura que explodiu na época. Foi a vida imaginada que instaurou uma nova realidade, que passou, como tudo passa. Algo ficou em mudanças radicais, mas os efeitos colaterais são mais visíveis.

A música praticamente acabou depois que foi implodida. Ficaram aqueles hits, hoje clássicos, enquanto prolifera a falta de talento forjada em celebridades, apesar da sobrevivência de algumas ilhas de criatividade. O consumo de drogas se espalhou para todos os estamentos sociais. O lado místico, que gerou tanta coisa bonita em todas as artes, ganhou foros de epidemia, facilitando a penetração de religiões emergentes cada vez mais obscurantistas. Vestir-se de maneira não tradicional acabou em desleixo puro e simples.

Como retroceder é impossível, nos resta manter a esperança de que as coisas realmente vão mudar para melhor nas próximas gerações, quando se esgotarem tanto os revivals do mundo caduco quanto a ilusão de que podemos instaurar um novo tempo fundado na astrologia. Tenho visto inúmeros exemplos de talentos precoces explodindo nas redes sociais. São intérpretes mirins que assombram pela qualidade da voz, instrumentistas ainda na primeira infância que deslancham em suas performances, crianças pensando coisas originais e contundentes.

Talvez esteja surgindo uma nova geração de gênios. Que ao chegarem à vida adulta poderão criar algo diferente do que foi imaginado ou deixado para trás. Mas não estarei mais aqui para ver. Continuo morando naquele lugar, na poesia feita para costurar o mundo em frangalhos e dita de forma clara para se identificar com uma vida que nos transcenda, num exercício árduo de véspera da eternidade..


Um comentário:

  1. Anônimo2:12 AM

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