4 de julho de 2011

HOBSON´S CHOICE: DAVID LEAN E A ESCOLHA OBRIGATÓRIA


Nei Duclós

O criador inglês Thomas Hobson (1544–1631) permitia que seus clientes escolhessem qual cavalo iriam levar, desde que fosse o da próxima baia. Não havia outra opção, só essa. Senão, nada feito. Isso evitava que fossem levados os melhores exemplares e o encalhe ficasse para o dono do haras. Trata-se de uma situação específica, que se diferencia de outras semelhantes, como a escolha de Sofia, o dilema em que há duas opções onde a desistência acarreta a morte de quem é preterido. A Hobson´s choice (a escolha de Hobson) foi adotada por Henry Ford quando dizia que o carro poderia ser de qualquer cor, desde que fosse preto.

A expressão foi levada à literatura pela primeira vez, segundo o Oxford English Dictionary, por Samuel Fisher em 1660. E se consagrou no uso popular. Em 1916, uma peça de Harold Brighouse gerou uma série de desdobramentos: um musical da Brodway e dois filmes estão entre eles. O primeiro é de 1931 e o segundo, que vi ontem, é de 1954, dirigido por David Lean. Hobson´s Choice, do mestre absoluto,com Charles Laughton no papel do viúvo dono da sapataria que explorava seus operários e filhas para beber tudo num pub, onde debochava dos seus subalternos para falsos amigos, é um filme antológico,como tudo o que David Lean fez. O gênio não dá folga, é o tempo todo.

Numa rápida visita às resenhas disponíveis sobre o filme, principalmente as que foram feitas quando foi lançado o DVD, noto que falam em comédia deliciosa de costumes, entre outras fatuidades. É outra coisa, claro. O operário explorado que vivia no porão fazendo botas femininas primorosas é escolhido pela filha mais velha do dono, uma solteirona, para declarar independência do pai que não queria perder a mão-de-obra escrava de empregados e família. Trata-se um retrato arrasador da perda de poder do pater familias, pressionado pelas imposições econômicas e sociais, diante da emergência de novos protagonistas, como o trabalhador e a mulher.

O novo empreendimento, que fará concorrência ao negócio tradicional onde todos perdem, menos o beberrão poderoso, é a solução encontrada para romper as amarras sociais. O papel da aristocracia, encarnada na cliente que reconhece o trabalho do mestre de ofício, fica em oposição ao proprietário pré-industrial (baseado no artesanato) de comportamento burguês (que vive da mais valia expropriada do trabalho alheio e da clientela rica). Pois a madame é quem cacifa o novo negócio por meio de juros de 20% ao ano (a história se passa no século 19, antes que a indústria financeira tomasse o poder). Ou seja, é um filme sobre luta de classes, que denuncia o cinismo das relações sociais, já que o patrão quer manter as filhas solteiras para não perder a mordomia, enquanto toma todas.

A cena do delirius tremens de Laughton, assustadora, e a sequência em que, completamente bêbado (foto acima), tenta pisar na lua refletida em poças de água na rua, são absolutamente antológicas. John Mills, no papel do sapateiro que sobe na vida graças à gerentona, a filha mais velha do patrão (Maggie, interpretada por Brenda De Banzie), que casa com ele e monta o novo empreendimento, é outro destaque obrigatório. Seus gestos travados, formatados na vida dura no porão trabalhando por miséria e vivendo num bairro pobre, dizem tudo da escravidão do mundo que começava a dar o salto para a idade industrial. O personagem ascende socialmente e acaba repartindo o negócio com seu ex-patrão, que não tem outra escolha senão ceder. O nome do homem que perde sua hegemonia é exatamente Hobson, como o antigo e impositivo criador de cavalos.

Ou seja, está longe de uma divertida comédia de costumes. Não se trata de um vôo de pássaro de um mestre do cinema - para muita gente, o melhor de todos os tempos. É um mergulho na sociedade inglesa, interpretado pelos seus melhores talentos e por meio de imagens absurdamente genais, inesquecíveis. Filme para chato cinéfilo puxar a manga de multidões dizendo: vejam, vejam, olhem, não esqueçam como se fazia cinema nos anos 50, quando ainda não tínhamos perdido a embocadura da genialidade na Sétima Arte.

Você pode escolher o que quiser ver, desde que seja Hobson´s Choice, de David Lean.


RETORNO - As informações para fazer este post foram pesquisadas na magnífica wikipedia em inglês e no site de cinema IMDB.

2 comentários:

  1. Acabei de ver o filme. Uma prazer que há muito tempo não experimentava. Excelente resenha, Nei. Obrigado!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Eu que te agradeço a leitura,

      Excluir