17 de março de 2011

TIAS


Nei Duclós

Tia Maria era professora de escola primária do subúrbio. Dura, vestia-se com extrema sobriedade e jamais sorria. Solteira a vida toda, morava em um apertado quarto de hotel, completamente tomado por vidros e caixas. Todos com tampa. “É para quando a gente precisar”, dizia ela. Mestra tradicional, não dava colher para aluno, mas a proximidade com a miséria a emocionava. Contava sempre a história do garoto problema que um dia estava absorto. “O que te aconteceu?”, perguntou Tia Maria. “Hoje estou feliz por causa que eu comi”, respondeu o aluno. O detalhe era o “por causa que”, proibido naqueles tempos, quando o rigor do ensino não permitia defecções. O defeito carregava ainda mais o drama da confissão espontânea.

Tia Sarinha era a que tomava o pileque tradicional de Natal e acabava dizendo o que ninguém deveria ouvir, principalmente as crianças. O escândalo datado e doméstico não provocava grandes conseqüências, mas era aguardado com entusiasmo, principalmente pela gurizada, que adorava rebuliço. Por muito tempo trabalhou no Palácio Piratini. “O Perachi é tão lindo!” costumava dizer nos saraus etílicos permitidos, declarando o amor platônico pelo seu chefe, o folclórico governador que veio da Brigada Militar.

Tia Ceci, ao contrário das outras, dividia o mesmo teto conosco. Não construiu uma biografia muito evidente, apenas memórias de um noivado desfeito com o vendedor ambulante e galanteador popularmente conhecido como “Sapato Perfumado”. O tal escafedeu-se e deixou a noiva só e agregada .

Na sua avoação vocabular, Tia Ceci era capaz de grandes feitos. Ensinou palavrões para nossa caturrita, a Lorita, enquanto tomava mate na varanda. Também foi o primeiro ser humano próximo que nos falou na mudança das estações, provocada “pelos russos e os americanos com suas bombas atômicas”. Dizia também que os discos voadores eram coisas deles e isso chegou quase a ser comprovado em vários vídeos que descrevem experiências com naves espaciais desde a época dos nazistas. Suas profecias eram devidamente celebradas como delírios e por isso, talvez, tenha sido uma precursora das teorias conspiratórias.

Havia ainda a Tita, uma geração acima das demais. Ela não me contava a histórias dos meus avós, que nunca conheci – e as pistas que nos deixaram sobre eles são muito nebulosas. Mas me chamava carinhosamente de meu poeta. Morava numa casa típica italiana com grande quintal forrado de uvas. Para lá íamos, compensar nossa vontade de devorar o mundo. O local estava à altura: era o espaço gastronômico mais amplo que conhecíamos.

A fala carinhosa, o tom professoral, a língua solta tinham assim representantes que ajudaram a me formar. De todas, Tia Maria foi a mais importante. Era minha madrinha num batizado clandestino, sem padrinho. Foi preciso jogar água benta no pagão já taludo, com três anos, mas de maneira que o pai, ateu, não desconfiasse. Ele permitia a religião da esposa e filhos, desde que a prole não fosse batizada, como se isso fosse possível. Por muitos anos, debocharam do relato que fiz depois da cerimônia, imitando meu gesto inocente e a boca mole, no tom afetivo a que fui acostumado com tanta mulher adulta ao redor, contrapondo a presença maciça do mundo masculino, feito de encontrões.


RETORNO - Imagem desta edição: Cena de escola básica integrada em Springer, Oklahoma, em 1958. Tirei daqui. O mundo era assim.

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