28 de março de 2011

Diário da Fonte
QUATRO LINHAS NA ARGILA


Nei Duclós

A leitura de toda a vida depende da relação afetiva que adquirimos na hora da alfabetização, normalmente feita na primeira infância. O amor ao ensino, fruto do carinho de quem alfabetiza, se transfere para a linguagem. Lemos porque gostamos, mas isso não significa que procuramos apenas divertimento. É gratificante a conquista do conhecimento, especialmente se ele for árduo. Não queremos passar lotados pelo que nossos olhos e mentes aprendem com tanta disposição e tempo. Algo fica e isso acaba fazendo parte da nossa identidade.

Por mais que existam apelos para a leitura fácil, ou diversidade oferecida por todas as mídias disponíveis hoje, é ainda certo que a âncora dessa formação é o livro. É ele que consolida a cultura e não precisam ser muitos, basta que sejam bem lidos e significativos. O bom é reler, já nos diziam Drummond e Borges, que acabavam sempre voltando para seus autores favoritos. Não faço parte dessa tribo que refaz o caminho percorrido por grandes escritores. Leio pouco e espaçadamente e por isso não posso me deter num volume mais do que uma vez.

Aprendi na faculdade de História que um documento - no caso aqui, o livro – precisa ser visto pelo que ele é. Parece uma obviedade. Talvez seja, mas exige atenção. Já resenhei vários lançamentos sem ter lido nada antes do mesmo escritor. Peguei apenas o que vi naquele momento e dali parti para a análise. Não me reportei a resenhas feitas por outros, nem quis saber o que disseram os pares do resenhado. Simplesmente me ative ao que estava escrito e com essa técnica consegui contribuir com alguma coisa para o que acabara de ler.

Aconteceu várias vezes. A primeira resenha que fiz para a Veja era sobre um autor então desconhecido, Darcy Ribeiro. Ele acabara de voltar de longo exílio e era conhecido como educador, sociólogo e político, mas não como romancista. Sua estréia na literatura deu-se com Maira, grande romance que tive o prazer de analisar para a mais prestigiada revista semanal dos anos 70. Escrevi sobre o livro e só depois descobri quem Darcy era. Ao meu redor, ninguém sabia. Não havia a facilidade de hoje, em que a wikipédia e inúmeros sites e jornais on line te dão o serviço completo sobre autores e obras. Era tudo feito no acervo pessoal, visita a bibliotecas, compras raras de livros etc.

Outro autor do qual nunca tinha lido nada foi o poeta Rainier Maria Rilke. Fui convidado pela Editora Globo para fazer a apresentação do seu clássico Cartas a um jovem poeta. O resultado foi gratificante: o texto é citado em vários trabalhos acadêmicos e foi saudado pela grande imprensa como uma análise certeira. Apliquei a técnica que aprendi na História: um tablete de argila é tudo o que temos sobre uma civilização e é nele que devemos nos concentrar para entendê-la. Se o documento tem apenas quatro linhas, é isso que devemos analisar.

Mas quando nos deparamos com escritores maravilhosos, o acervo oferecido em algumas páginas é mais do que suficiente para viajarmos no espaço que ele nos abre. Assim, podemos contribuir com algo original sobre aquelas obras, graças a essa relação afetiva que adquirimos lá na mais profunda infância, quando somos despertados para o universo da leitura.


RETORNO - Crônica publicada no jornal Momento de Uruguaiana.