28 de março de 2011

PAJARITOS


Nei Duclós

Éramos pregos, a mais baixa qualidade humana no colégio dominado pelos adultos. Por isso nos coube o pífaro, o estranho e insignificante instrumento da banda que estava sendo formada. Era um canudo preto cheio de furinhos. Não tivemos chance na disputa por bumbo, tarol, tuba, clarim, surdo. Por impossibilidade física, não brilharíamos na bateria ou no sopro nobre das afiadas cornetas, a que assustava os pássaros e as avós. Cabia a nós soprar melodias melífluas e anódinas para o deboche da bagacerada que não tinha aderido à moda, ou da turma de desocupados que se postava na rua para se divertir não apenas com o rififi do pífaro como do uniforme de gala espalhafatoso, que incluía calça branca, casaco brilhante azul e um quepe com penacho amarelo, parecido com as imagens dos bonecos das latas de flit, o inseticida da época.

Hoje todos cuidam para não traumatizar os petizes. Naquele tempo não havia misericórdia. Até dentro de casa sofríamos com a gargalhada dos mais velhos, vizinhos inclusive. Compadres, irmãos, tias e pais de riso solto tiravam sua lasca. Como nossa música recorrente, a única que aprendemos de verdade, dizia “canta canta pajarito”, minha mãe apelidou a turma pré-adolescente dos trinados mínimos de pajaritos. Era cruel demais. O pior é que em pouco tempo cresci mais do que meus companheiros de infortúnio e arquei com dose extra de anedotas, pois não adiantava me curvar sobre o instrumento para disfarçar: minha altura já batia no teto e eu media o dobro em relação ao meu entorno.

Implorei a migração para a ala das cornetas, no que fui atendido depois de ameaçar deixar a banda, o que causaria uma tragédia, pois ninguém mais queria ter o privilégio de participar da troupe. Pior para eles, pois nos divertíamos nas excursões, onde meninas de Libres ou Alegrete aglomeravam-se para ver os bravos rapazes da banda uruguaianense, garbosos em seus uniformes e arrancando suspiros generalizados.

Quando minha ameaça deu certo, me deparei com novo problema: eu não sabia tocar aquele troço, o clarim. Não tinha pulmão, não conseguia tirar uma nota sequer, que dirá um dobrado. Jamais chegaria aos pés dos bambas da área, verdadeiros virtuoses que sustentavam todo o esplendor sonoro daquele grupo de alunos sem talento e improvisados de músicos. Mas como diz o ditado, “não tem tu, vai tu mesmo”, acabei ficando, sem deixar de ser um enganador nessa fase obscura de minha vida escolar. Não fazia mais parte dos competentes intérpretes do canta canta pajarito que, mal ou bem, já era um hit na cidade. Tentava desempenhar minha nova função, mas não dava nem para o gasto.

Um dia me invoquei e resolvi enfrentar o impasse. Numa solenidade importante, decidi que extrairia o som mais espetacular, fruto do meu esforço e vocação sem reconhecimento. Foi baixarem a baliza para eu sair mandando mecha no bocal. Mas tive sorte. Não saiu um pio, como era natural, o que me salvou de um vexame, pois o sinal era para o bumbo, não para nós, do sopro.

Depois dessa, encerrei minhas atividades de músico. Decidi tocar apenas rádio. Nisso, sempre fui um especialista.


RETORNO - 1. Imagem desta edição: alunos em frente ao Colégio Caetano de Campos, em São Paulo. Época da formação escolar. 2. Crônica publicada no jornal Momento de Uruguaiana.

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