16 de abril de 2010

SAGARANA CONTRA A SERVIDÃO INTELECTUAL


Quando publico aqui a grande novidade do trimestre – mais uma edição da melhor revista cultural do Mundo, a Sagarana – dou sempre a palavra ao seu idealizador, editor e diretor Julio Monteiro Martins, o mais importante escritor em atividade no Exterior. Primeiro, a carta em que ele anuncia a edição número 39. Depois um trecho, seguido do link, do seu editorial contra a servidão intelectual na Itália, um exemplo que serve para todos nós. E, terceiro, meu poema Ainda o Haiti, que foi traduzido para o italiano por Julio, seguido da sua versão original em português.

Sagarana, sempre um acontecimento que merece leitura e repercussão.

ATRAÇÕES DA EDIÇÃO NÚMERO 39

"Caros amigos e amigas,
É com satisfação que anunciamos a presença on-line, a partir de hoje, do n° 39 da revista Sagarana, em língua italiana, no endereço telemático www.sagarana.net .

Esta edição apresenta apresenta uma entrevista inédita da grande escritora indiana Arundhati Roy, feita por Amy Goodman, "Persone preparate a resistere", e em ensaio do intelectual da realidade contemporânea Chris Hedges, "Ribelli, all'appello!", um artigo de Eduardo Galeano sobre o Haiti, um texto de Jacqueline Risset e um outro de George L. Mosse, além do Editorial de Julio Monteiro Martins sobre a polêmica questão dos escritores italianos que publicam pelas editoras que pertencem à família Berlusconi, "Una resa a cinque stelle".

Em Narrativa são presentes uma tradução inédita de um trecho de um romance de Ana Maria Machado e de um de Rubem Fonseca, trechos da obra de Thomas Mann, Luigi Meneghello, Erri De Luca e Christopher Isherwood, além de textos inéditos de autores contemporâneos como Daniel Galera, Gabriel Wolfson e Tullio Bugari.

Em Poesia, as "Quartine erotiche" inéditas de Assunta Finiguerra, novas traduções de Jotamario Arbeláez, Francisco Ruiz Udiel e Nei Duclós, além das de poesias de Ingeborg Bachmann, de Alda Merini e de Mario Benedetti. E estão presentes também os contos e as poesias de autores novíssimos na seção Vento Nuovo.

Neste mesmo endereço telemático poderão encontrar a seção Il Direttore atualizada, com os contos inéditos Cinque racconti brevissimi, de Monteiro Martins, e na seção Scuola todas as informações sobre os projetos da Scuola Sagarana para o 2010/2011, em Pistóia, na Itália. Ademais, na seção Archivi, estão disponíveis para leitura todos os números anteriores da revista e todas as "Lavagne del Sabato" publicadas até hoje em Sagarana.

Esperamos que os os ensaios, os contos, as poesias e os trechos de romances selezionados possam oferecer-lhes muitas horas de agradável leitura.

Cordialmente,

A Redação de Sagarana."

EDITORIAL: UMA RENDIÇÃO DE CINCO ESTRELAS


"Aqui está a pergunta inevitável, a mais incômoda nestes nossos dias, para os produtores de arte e de cultura italiana: Pode um escritor comprometido com uma visão progressista de seu país e no futuro publicar seus livros por uma editora que pertence e é dirigida pela família Berlusconi, como é o caso da Mondadori e suas "irmãs"? Minha experiência com essas "relações perigosas" me faz pensar que não, não é possível. E querer justificar este argumento é tentar forçosamente a quadratura do círculo.

Você pode imaginar que Pablo Neruda que publica por uma editora dirigida por Pinochet? Ou Che Guevara, a publicar os seus ensaios políticos em uma revista patrocinada pela CIA? Ou Pasolini pedindo a Licio Gelli, o chefe da loja maçônica P2, um adiantamento para financiar a produção de um sue filme? Difícil de imaginar… Mas na confusão e no conflito entre a coerência ideológica (totalmente ausente, no caso) e a vontade de ter grande visibilidade editorial e na mídia, muitos escritores e diretores, que hoje se apresentam publicamente como de "esquerda", aceitam este o pacto com o diabo.


Ou seja aceitam ser financiados e distribuídos pela Medusa Film, ou pela Mediaset, de Berlusconi ambos, ou publicado depois do seu "Visto. Autorizo a impressão" nas editoras das quais ele detém o controle acionário, o poder do capital que é a marca da sua ditadura, e que, eventualmente, é o poder decisivo no sistema onde estamos atolados aqui, uma ditadura agravada ainda mais nos tempos recentes pelos novos modelos de convivência espúria entre cultura, política e negócios."

Segue o editorial neste link.


L'HAITI ANCORA

Nei Duclós

L’Haiti ancora respira
Nella fossa comune dell’esplosione della roccia
Nell’urlo finale di braccia e di gambe
Nel sordo legame tomba/caverna
Nella coda affamata di una nuova guerra

L’Haiti ancora spera
Nelle strade cosparse di erbacce
Nella lotta senza tregua tra bandiere
Nella miliardaria industria della miseria
Nella mano bugiarda del mondo sterile

L’Haiti ancora coopera
Scomparendo anonima attraverso la brutale preghiera
Spreco di ovulo e di sperma
Funerale di dolore in campo aperto
Compiuta espressione della cancrena

L’Haiti ancora accenna
Come un segno dopo la tormenta
Come un porto sommerso di candido fazzoletto
Annegato nel tunnel della memoria zero
Segue in pianto i dannati della terra

L’Haiti ancora fatica
Piccione viaggiatore che migrò senza le ali
Bussola a girare sull’amaro scafo
Poema ferito nella corte dei naufraghi
Tra amici inutili come un deserto

(Traduzione dal Portoghese di Julio Monteiro Martins)


In lingua originale:

AINDA O HAITI

Nei Duclós


Haiti ainda respira
Na vala comum do estouro de pedra
No grito terminal de braços e pernas
Na ligação surda do túmulo/caverna
Na fila faminta de uma nova guerra

Haiti ainda espera
Nas ruas plantadas de daninha erva
Na briga entre bandeiras sem trégua
Na milionária indústria da miséria
Na mão mentirosa do mundo estéril

Haiti ainda coopera
Sumindo anônimo pela bruta reza
Desperdício de óvulo e de esperma
Funeral de dor em campo aberto
Expressão completa da gangrena

Haiti ainda acena
Como um sinal depois da tormenta
Como porto submerso de pálido lenço
Afogado no túnel da memória zero
Trilha de choro dos perdidos da terra

Haiti ainda emperra
Pombo correio que migrou sem asas
Bússola em rodízio no convés amargo
Poema ferido na corte de náufragos
Entre amigos inúteis como o deserto

15 de abril de 2010

APRENDIZES DE FEITICEIRO


Um terremoto por dia, mar revolto onde a água era calma, vulcão na Islândia: o que falta para entender que o uso da máquina de provocar sismos e a evolução das armas climáticas fazem parte de uma política de terra arrasada, dentro dos princípios da economia da Catástrofe, apontada pela jornalista canadense Naomi Klein? Os responsáveis querem menos gente na terra e mais lucro, por isso promoveram o genocídio do Haiti, o que foi muito bom para os negócios, como prova o comportamento americano depois do massacre, em que Bush limpa as mãos na camisa de Clinton para ficar livre da contaminação, pois tinha acabado de apertar a mão de um “nativo”. Enquanto isso, o Exército brasileiro exerce a função de polícia e assistente social no território conflagrado.

O problema é que o excesso de eventos escapa do controle dos próprios aprendizes de feiticeiro, que ganharam de troco o terremoto do Chile e agora o da China, entre outras calamidades. As ondas emitidas para provocar o estrago são infinitas e se comportam, depois de um primeiro impulso de obediência, de maneira imprevisível. Não me venha com bocejos de teoria de conspiração e preste atenção no mar carioca de ondas altíssimas, e nas ressacas além da conta por toda costa brasileira, como se tsunami fosse uma impossibilidade entre nós.

Falar em armas climáticas é péssimo para os negócios. Como os americanos poderiam posar de politicamente corretos sem a teoria do aquecimento global, que coloca a culpa na humanidade poluidora e não nos governos que poluem tudo? Se for admitido que é o Haarp, a bomba eletromagnética que está fazendo o serviço, como é que James Cameron vai posar de mensageiro do Bem ao lado de sua na´vi favorita, a candidata Marina Silva, que se identificou com os povos da floresta de Avatar, os que possuem rabo de macaco e focinho de fera, o que está claro para quem viu o filme e não apenas dele ouviu falar?

Há uma indústria do aquecimento global, essa sim uma teoria fake de conspiração, que aquece os coraçõezinhos culpados e faz todo mundo querer o Bem enquanto são carregados nos ombros por súcias de bandidos? Se existe um grupo determinado a destruir o que resta do Terceiro Mundo provocando todo tipo de catástrofe encarada como “natural” então cai por terra essa movimentação, os jogos teóricos, os apertos de mão, os abraços e as mensagens politicamente corretas que infestam a mídia como uma avalanche de mentiras.

Mas vai dizer isso nas fuças da máfia e de seus inocentes úteis, vai. Eles te enquadram e continuam insistindo no Mesmo, porque assim é que é gostoso, se convencer de uma coisa e ficar nela para sempre, até que tudo se exploda e a culpa seja atribuída ao cidadão que, desesperado, se suicida nas estradas, se entope de junk food por falta de opção ou simplesmente sucumbe numa espiral de horrores num mercado de trabalho onde tudo está devidamente focado na subjugação do talento (esse mistério da sabedoria) e na desmoralização da ética por meio do catecismo de araque da auto-ajuda e das consultorias de terno e gravata.

Talvez os caras que promovem as calamidades estejam esperando que a onda passe e se dilua no cosmo para começar tudo de novo. Ou então estão mesmo promovendo cada barbaridade assistida por nossos sentidos em pânico. Nascidos para matar, os verdadeiros assassinos se travestem de sistema oficial que finge se importar com o futuro do mundo. Eles querem que todos morram. Deve ser gostoso destruir o próximo e gargalhar diante das inúteis insurreições que pipocam pelo mundo.

Mas chega uma hora que o aprendiz de feiticeiro poderá ser engolido pela própria mágica. Basta que as vítimas se dêem conta do truque e reajam à altura, em conjunto com a disposição de vencer. Mas que essa disposição não vire mais uma carta marcada do universo político que sabe transformar a revolta em mercadoria.

RETORNO - Imagem desta ediição: Walt Disney sabia de tudo.

13 de abril de 2010

MAIS VOGAIS



Nei Duclós(*)

Países imperiais cevados no frio só descobriram as vogais quando aportaram nas terras banhadas pelo sol. Excesso de luz, brisa marinha nas palmeiras, abundância natural liberaram as emissões fonéticas de todos os obstáculos e foi assim que nações consonantais foram seduzidas por algo mais valioso do que o ouro. Levaram alguns exemplares para exibir nas Cortes junto com papagaios e índios, onde foram incorporadas em parte.

Há resquícios de vogais em línguas européias, como o português de Portugal e o alemão. Em outras nações ganharam conotações bizarras, como no francês, em que se faz biquinho na hora de emitir um u, que, como dizia meu professor de ginásio, tem o som de buzina de fordeco velho. Ou no italiano, em que as vogais se transformaram em atrações nas manifestações coletivas.

Os italianos são mestres do ilusionismo, o que ficou provado definitivamente quando juntaram milhares de fabriquetas de roupas altamente perecíveis, jogaram dentro de tonéis de tinta, fizeram campanhas publicitárias com pacientes terminais rodeados de familiares desesperados e batizaram tudo isso de design. Uma lição para quem, como nós, vive gerando escassez com o que possui de sobra .

As vogais só não conquistaram países mais remotos, naquele cinturão de asteróides étnicos que faziam parte da matéria-prima da antiga Cortina de Ferro. Para amenizar a dureza que é falar só por consoantes, eles malharam em ferro frio o que dispunham, enchendo as letras de chumbo com articulações variadas, molhando-as com arranques agudos. Amigos que visitaram recentemente um desses lugares ficaram impressionados como eles precisam de frases longas para avisar a próxima estação do trem elétrico. Ignorar vogais gera esse tipo de transtorno.

No Kirguistão, que se situa na Área Consonantal Profunda, na recente revolução popular que derrubou o governo corrupto, um engraçadinho colocou “mais vogais” na lista de reivindicações. É uma demanda justa. Vogais servem para o grito indignado em praça pública. Não se acaba com uma tirania se submetendo à ditadura das consoantes. Ao mesmo tempo, vimos entre nós que uivos não são suficientes para mandar embora os meliantes da política. Bem que precisávamos de uma cultura fonética mais concreta para fazer valer nossa vontade de mudança.

RETORNO - 1. (*) Crônica publicada nesta terça-feira, dia 13 abril de 2010 no caderno Variedades, do Diário Catarinense. 2. Imagem desta edição: o povo em sua majestade, na recente revolta no Kirguistão contra um governo traidor e corrupto. Não lembra nada, não? Quem nos dera tanta coragem! Peguei emprestado a foto para divulgar o site onde aparecem essa magnífico movimento popular. Ela foi feita por Vladimir Pirogov, da REUTERS. A cobertura visual, fantástica, está neste link.

12 de abril de 2010

O PREDADOR



“Cisnes se acasalam por toda a vida. Não somos cisnes. Somos tubarões” diz numa palestra George Clooney no papel de Ryan, o profissional contratado para demitir gente por toda a América, no filme Up on the air (Amo sem escalas, 2009). Foi indicado para seis Oscars, incluindo Clooney como melhor ator, melhor filme do ano, script (de Jason Reitman e Sheldon Turner) baseado em livro e as duas coadjuvantes, excelentes, Vera Farmiga no papel da imagem espelhada do predador e Ana Kendrick, a jovem scholar que quer informatizar o serviço das demissões. Não ganhou nenhum. O que deu errado?


Para mim, acertou no atacado – a concepção do filme é brilhante, pela atualidade do tema e dos personagens e pelo ritmo da trama, sintonizada com as inúmeras conexões necessárias para o predador se movimentar em seu ambiente e fazer estragos. Mas errou, várias vezes, no varejo. Primeiro, porque os realizadores imaginam que poderiam enganar o espectador. A mulher liberada que procura um relacionamento seguro não tem o perfil da dona de casa flagrada pelo ímpeto do amante. Na era do celular, ninguém toma uma avião para chegar de surpresa num lugar onde nunca esteve sem cair na tentação de fazer uma chamada.

Um cara escolado como Ryan jamais se deixaria enganar sem antes, pelo menos, consultar a moça em questão, tão bem sucedida . Ela faz o quê, trabalha em quê? O filme não esclarece, mas uma googlada mostraria tudo. Um noivo em dúvida jamais se deixaria levar por um argumento tão pífio quanto aceitar ter uma esposa como co-piloto, metáfora adequada ao filme, mas que não está à altura do argumento e do roteiro. O filme erra o oferecer clichês para solucionar situações complicadas.

O anti-herói no fundo é um bom moço – como já provou o sucesso do protótipo do gênero, o Ricky/Bogart de Casablanca. Mas o mundo ficou intrincado demais para suportar antigas soluções. O rapaz pronto para uma conexão com o mundo real não se deixaria levar pelas emoções, mesmo que a família tenha entrado no circuito. Os americanos no fundo não perdem os vínculos com suas patriotadas.

O profissional malvado acaba sendo um bom sujeito no trato com sua concorrente, a jovem recém formada que veio com idéias revolucionárias para a empresa dos cortadores de cabeças. O roteiro oferecia várias chances de desdobramentos, mas o diretor insistiu em alguns vícios, como a repetição exaustiva de situações – por exemplo, a rotina das conexões. Isso ficou claro nas primeiras cem vezes, precisava reiterar 800 vezes mais? Precisava também fazer um clipezinho na seqüência da festa, em que entram todos os lugares comuns, do karaokê aos hurras babacas coletivos e o banho de mar na madrugada. E ainda tem a filosofia barata de conseguir metas difíceis e na hora agá achar tudo uma besteira.

Trata-se de uma chance perdida de fazer um bom filme. Há a vantagem de o predador manter sua dignidade de um cara isolado e firme, que se entrega ao trabalho depois de fazer alguns atos caridosos. Mas desta vez, não por convicção, mas porque, como todo mundo, sofreu uma desilusão amorosa. É pouco para o personagens muito bem elaborado por Gorge Clooney, um ator que não costuma errar e um realizador que não cairia nas armadilhas que enredaram o diretor Jason Reitman.

Assim mesmo, com todos os defeitos, gostei de ver. É o que eu chamo, numa gíria doméstica, de “pororoca”. Porque uso esse termo, não me pergunte, esqueci (talvez porque promete muito e só faz marola). Mas funciona de ouvido. É uma boa pororoca.

RETORNO - Imagem desta edição: George Clooney em "Amor sem escalas".

10 de abril de 2010

A DÚVIDA EM AKIRA KUROSAWA


Ver Kurosawa é obrigatório: ele inventou o cinema que grandes cineastas copiaram. No seu centenário de nascimento, que se comemora este ano, é uma forma de homenagear os olhos e o espírito. E o correto é ver tudo, já que não existe Kurosawa menor. Ele sempre extrapola o que percebemos à primeira vista, pois usa sua arte como síntese e desdobramento de conflitos profundos, explícitos em cenas de grande confluência de vetores. É o caso de Anatomia do Medo (Ikimono no kiroku, 1955), de Akira Kurosawa, com Toshiro Mifune no papel do empresário que morre de medo da bomba H e tenta, em vão, levar a família para fora do perigo, o Brasil (já fomos uma vez o Eldorado).

O filme é sobre a dúvida, o medo é sua conseqüência. Há a dúvida que provoca o medo generalizado, surdo e mudo, que impede o pânico de vir à tona. Nessa doença social crônica as pessoas se iludem com a estabilidade enquanto paira a ameaça real do extermínio. “Ele está louco?” pergunta o psiquiatra da casa de repouso onde está internado o velho que pôs fogo na fundição da família para forçá-la a emigrar com ele. “Ou louco estamos nós que ficamos absolutamente impassíveis num mundo insano?” A dúvida é: devemos nos insurgir ou deixar como está, desde que não há nada a fazer? A maioria cede, mas alguns não.

O dentista interpretado por Takashi Shimura, um dos atores mais convocados por Kurosawa, junto com Mifune, sabe que o velho tem razão, mas tem dúvidas se deve ou não considerá-lo judicialmente incapaz, pois sua paranóia está provocando a ruína das finanças da família. A decisão do tribunal de pequenas causas é contra o empresário, mas isso provoca uma espiral de tragédias. É notável o detalhe de algumas cenas em que as pessoas tentam falar alguma coisa ao mesmo tempo depois de um longo silêncio. Ou quando custam a sair do lugar depois de um diálogo, como a considerar o que ainda vão dizer ou decidir.

Qual a síntese a que me referi acima nas seqüências de Kurosawa? Há vários exemplos. No início, a câmara passeia pela cidade lotada de gente, bondes, automóveis, barulho, e de repente fixa numa janela onde está o dentista que será o fio condutor da trama. No caos urbano de uma sociedade ameaçada, a vida normal da sobrevivência da classe média procura uma atividade social, que é a de participar dos julgamentos de casos familiares. O dentista que trabalha no consultório junto com o filho tem dúvida sobre essa atividade paralela e mantém com ela uma relação dúbia, de fascínio e ojeriza. Tudo isso está em poucos segundos de cinema. Kurosawa não brinca em serviço.

Num plano geral, vemos que a saga familiar é apenas um aspecto da luta de classes. O empresário que emprega dezenas de operários só pensa em salvar a família. Destrói o patrimônio que construiu ao logo da vida para tirar as pessoas próximas do perigo. “E nós?” pergunta o metalúrgico, “que vivemos desta empresa, o senhor não pensou em nós?” Flagrado no egoísmo, o velho entra em parafuso até a loucura. A própria ameaça da Bomba H é a extrapolação da luta de classes em escala mundial. Os impérios entram em choque e só a ameaça de solução final decide a parada.

Os Estados Unidos deveriam ter jogado a bomba em duas grandes cidades japonesas, onde não havia soldados, só civis, a maioria velhos, mulheres e crianças? A guerra já estava ganha, mas era preciso dar uma lição para vingar o ataque a Pearl Harbour (eles são os imperdoáveis). A bomba cairia de novo no Japão ou a antiga potência se enquadraria de vez no jogo do Ocidente? Vimos o que aconteceu. Mas em 1955, ano em que foi feito o filme, o Japão ainda se digladiava com suas dúvidas, recém egresso de um conflito que acabou com a imagem tradicional do país.

Kurosawa também teve dúvidas no inicio de carreira Queria ser pintor, mas não conseguiu porque a escola de arte era cara. Só foi para o cinema quatro anos depois que sua irmã mais velha, narradora de filmes mudos, se suicidou. Ele mesmo tentou suicídio (devo viver ou não?) numa crise de depressão nos anos 70. Cortou o pulso várias vezes. Não teve êxito. Sorte nossa, que podemos ver seus 30 filmes maravilhosos. Em relação a Kurosawa, não há dúvida: este é o cineasta maior. David Lean, meu favorito, que me perdoe.

RETORNO - Imagem desta edição: Toshiro Mifune, magistral, no papel do empresário que enlouquece em “Anatomia do Medo”, de Kurosawa.

8 de abril de 2010

DEMOCRACIA FAZ A DITADURA FUNCIONAR


A especulação imobiliária quer destruir a cidade praieira. Então convoca uma reunião para “consultar a sociedade”. Assunto: mudar o Plano Diretor, que vai permitir construir edifícios nas reservas ambientais e abrir as comportas dos morros, até agora verdes, para a construção siderada de condomínios de luxo e suas consequências, a favelização geral. As pessoas comparecem, fazem passeatas, o assunto é discutido e...as modificações sugeridas pelos tubarões são aprovadas na marra. É assim que a ditadura funciona.

Há um projeto de ficha limpa, que impediria os candidatos sob investigação ou condenados a disputarem eleições. Os deputados fazem a maior onda, comparecem em massa, acatam as assinaturas de um milhão e meio de pessoas e...adiam a votação. Resultado: o projeto será aprovado, com a diferença, imagino eu, que serão proibidos todos os que tiverem ficha limpa.

Como o país está podre, pobre e não tem para onde ir, fala-se muito em liberar milhões para áreas de risco. Liberaram. Quase a metade foi para um curral eleitoral baiano, enquanto o Rio ficou com menos de um por cento da verba. Tudo foi feito direitinho: a necessidade havia, os recursos foram liberados, os caras eleitos pelo voto direto tomaram conta e deu nisso aí. É assim que a ditadura funciona, usando todos os recursos da democracia.

Lula viaja, o vice está doente, o presidente da Câmara é candidato e não pode assumir no seu lugar. Sobra para quem? Para Sarney. alvo de denuncias pesadas na imprensa e até por livros best-sellers, como Honráveis Bandidos, de Palmério Dória. Ou seja, Sarney, egresso do PDS, partido da ditadura, que se passou para o MDB para assumir a vice-presidência da chapa com Tancredo e com a morte desse assumiu o poder sem ter direito a tanto, pois a chapa ainda não tinha tomado posse. Resultado: sua gestão aplaina o terreno para que a democracia fizesse o serviço da continuidade da ditadura. Agora ele vira presidente de novo. É assim que o regime funciona.

Alguma dúvida? Colunistas políticos falam em opção única entre Dilma e Serra, ou seja, já aparelharam as eleições nove meses antes do voto. É a ditadura dando as cartas por todo lado, na mídia, na política, nas verbas, nas tragédias. O prefeito do Rio prometeu que os carros levados pela enxurrada não serão multados. Tenha dó, tchê. Também dá a boa notícia de que as avenidas estão liberadas, apesar da má notícia de que 200 corpos devem estar debaixo dos escombros de uma aterro sanitário que virou favela. Onde estão os patíbulos públicos? Fazem falta.

Uma enxurrada de 24 horas provoca tragédia porque antes dela, por semanas e até mesmo meses choveu sem parar, preparando a terra para o deslizamento, sem que se fizesse nada a não ser correr atrás do pré-sal, dos candidatos federais, do futuro político. Quando uma tonelada de lixo sanitário trazendo casas, crianças e adultos pela frente, como aconteceu em Niterói, escancara o país que vivemos, é hora de perguntar: por que não derrubamos a ditadura?

Abaixo a ditadura e fora o imperialismo. As palavras de ordem de 1968 estão de pé.

RETORNO - Imagem desta edição: Revolução Francesa. Tirei daqui.

7 de abril de 2010

FRASES COM ECO


Tenho caprichado no Twitter, arena excelente para exercer a compulsão do texto, dentro dos parâmetros exigidos tanto pelo blog (ou microblog, como queiram),as tais frases de 140 toques, como pelo próprio jornalismo ou a literatura. Algumas frases são mais felizes e são reproduzidas por várias pessoas,o que por sua vez atrai outros seguidores. Vou colocar algumas aqui, recentes, pois com o uso na rede a origem pode ficar confusa. É precisa que se diga sempre: essas frases são de minha autoria. Quem gostar, como tem acontecido, cita a fonte. Começamos pelas mais fortes:

DIA DO JORNALISTA (7 DE ABRIL)

Jornalismo no twitter tem tamanho de legenda e força de manchete

Esta frase que criei na manhã do dia 7 de abril de 2010 teve ampla repercussão. Coloquei nela minha formação em fechamentos nas redações. Ou seja, você precisa criar titulo, linha fina, legenda etc. para o jornal ou revista ficar pronto. No Twitter, não desperdiço espaço e uso o mesmo critério rigoroso. Isso me levou a ter esse insight, que conquistou a jornalistada do Twitter.

Governo Lula é aprovado por 92% dos jornalistas. Os outros 8% foram demitidos

Jornalismo é estiva, carregar saco de carvão para o porão do navio. Glamour é desfile de moda no convés

INUNDAÇÃO NO RIO


O Brasil não foi feito para a chuva.

Sempre me pergunto o que é estado de alerta ou de emergência. Os incompetentes de sempre ficam de orelha em pé?

Ser prefeito é montar no helicóptero da Globo e pontificar para os telespectadores enquanto a cidade afunda

As inundações atípicas são previstas pela Lei de Murphy e punidas por sapateados oficiais até a chuva parar


POLÍTICA


O que seria um "embate ético" entre Dilma e Serra? Cada um bate com um volume grosso de Hegel no outro?

Hoje é moda achar que o Brasil sempre foi assim "desde que o mundo é mundo". Velho truque: transformar o Mal implantado em algo "natural" : PM Apr th via web

Hoje é moda desprezar o Brasil, mas o que existe é essa nação desconstruída pela ditadura, que acabou com a confiança no país :

Nos anos , líderes secundaristas subiam no caixote e faziam discursos citando Aristóteles, para uma massa atenta. Já fomos melhores :
Destruiram a excelência da nossa educação, que formou os gênios do Brasil, para gerar zumbis que admiram ex-BBBs :

Estudei frances, inglês, latim e música aos anos de idade, no ginásio. Tínhamos educação de qualidade, sucateada a partir de :

Eudcação em país de política econômica soberana está voltada para a formação escolar plena e não para gerar balconistas do McDonalds :

Levantar a bandeira da educção sem a contrapartida de uma política econômica soberana é tapar o sol com a peneira :

Num país soberano, a política econômica está voltada para o povo, não para meia dúzia ou para estrangeiros. E a educação, para a cidadania :

Educação não tem poder nenhum quando a política econômica é de entrega da soberania. Num país vendido, forma-se para o "mercado" :


POÉTICAS

O tempo fechou. Dois corações descalços palmilham a inundação na inútil tentativa de voltar ao que era antes

Terremoto na Lua: nove graus na escala dos corações partidos

Vou sortear duas pedrinhas de rio, numa promoção de outono clássico. Quem ganhar leva ainda um papel virtual rabiscado de memórias

Num sonho muito antigo e muito real, escorregou num poço e foi-se. O que o impressionava não era o pesadelo, mas o fato de continuar vivo

Evitava passar em frente ao próprio carro. Temia que ele mesmo, o dono ao volante, pudesse atropelá-lo. Contou para o médico, que bocejou

A coruja soluçou alto sem interrupção. Acordou. Foi ver lá fora. O portão estava aberto. Fechou. A coruja calou-se e ele voltou a dormir

RETORNO - Imagem desta edição: "Trabalhadoras gregas em plantação de chá", foto de Sergei Prokudin-Gorski. Fiquei sabendo desse trabalho pelo Twitter, que não é apenas uma frase atrás da outra, mas um conjunto de links poderosos para tudo o que é informação. Ou seja, jornalismo elevado ao infinito.

6 de abril de 2010

SERVIÇO COMPLETO



Nei Duclós(*)

Recebo um baú de fotos com cenas da família. Quase todas se referem à escola: o desfile com o uniforme do Jardim da Infância, a entrega do diploma, a reunião com os colegas, o time do ginásio, os professores conversando com os pais, as rodas das bicicletas com papel crepom, ao lado de uniformes azuis e brancos, a saída do colégio.

A vida estudantil era hegemônica antes da reforma da educação promovida pelo regime de 1964, que hoje leva a fama da excelência do estudo, quando apenas usufruiu das gerações formadas antes do golpe de estado. A aprovação por decreto, dos anos 90 para cá, e agora a imposição de cotas raciais para driblar o vestibular apenas completam o serviço.

Lembro da cartilha Caminho Suave, criada pela educadora brasileira Branca Alves de Lima (1911-2001), que alfabetizou mais de 40 milhões de brasileiros, antes da atual febre de analfabetismo institucionalizado. Aprendi a ler no primeiro ano primário com ela. As letras eram identificadas com o desenho do significado das palavras que ajudavam a formar. A barriga do b era humana, o marfim do elefante fazia parte do e, as vogais unidas às consoantes levavam às sílabas, estas às palavras até chegar à frase e ao texto.

Debocharam até derrubar o famoso “Ivo viu a uva”. Mas com apenas uma consoante e quatro vogais era possível formar uma oração completa, suprema síntese de fácil e rápido entendimento, reveladora das possibilidades da linguagem. No seu lugar, atropelaram a mente infantil com palavras completas, que não fazem sentido à primeira vista. Mas esse sistema silábico caiu há tempos de moda.

A educação que sacode afirmativamente a cabeça, de maneira muda depois de grandes frases teóricas, aguarda que a platéia dos eventos entre luminares chegue à altura dos seus conhecimentos, enquanto a estudantada entra numa espiral ágrafa. O que existe é soberba. O que inexiste são políticas publicas, a começar pela remuneração decente de quem escolheu a profissão de ensinar (ou foi empurrado para ela, diante da falta de perspectivas).

Lembro que os professores retratados nas fotos que recebi exibiam vocação, no caso dos religiosos, somada a uma situação econômica estável, entre os mestres leigos. Isso transparecia na sala de aula, lugar de respeito, onde ninguém puxava a faca no meio da lição.

RETORNO - 1. Formada professora, minha mãe, Dona Rosinha, posa com sua roupa de gala da educação brasileira de excelência. Foi nos anos 30, época do Brasil soberano. 2.(*) Crônica publicada nesta terça-feira, dia 6 de março de 2010, no caderno Variedades, do Diário Catarinense.

3. Comentário de Marcos que merece destaque aqui. Diz Marcos:

Também fui educado com o modelo antigo, que dava certo, e fiquei curioso com o modelo que estão praticando agora, o tal construtivismo. As definições não mudam muito, como diz um tal Fernando Becker:"Construtivismo significa isto: a idéia de que nada, a rigor, está pronto, acabado, e de que, especificamente, o conhecimento não é dado, em nenhuma instância, como algo terminado. Ele se constitui pela interação do indivíduo com o meio físico e social, com o simbolismo humano, com o mundo das relações sociais; e se constitui por força de sua ação e não por qualquer dotação prévia, na bagagem hereditária ou no meio, de ! tal modo que podemos afirmar que antes da ação não há psiquismo nem consciência e, muito menos, pensamento."

Esta filosofia educacional só tem como objetivo destruir tudo o que fomos, como nada está pronto, acabado, como diz a definição, o conhecimento que recebemos de nossos pais e professores, que incluía principios espirituais e morais perenes, foi substituído pelo vazio. A estratégia política por trás do crime é evidente, o bando de cabeças vazias que o sistema educacional está produzindo perpetuará para sempre os Lulas e Dilmas e sua corja de mequetrefes no comando deste espaço de terra que outrora já foi chamado de país.

4 de abril de 2010

AGITAÇÃO NO TWITTER



Dediquei o feriadão de Páscoa para assestar baterias contra a cara de pau da ditadura brasileira que forja mais uma eleição geral fajuta para reiterar o mesmo e continuar ungindo os de sempre na partilha do butim, o dinheiro público arrancado da população por meio do mais escorchante sistema de impostos do mundo. Foi produtivo: em três dias conquistei mais 26 seguidores, sensibilizados pelas frases até 140 toques disparados por mim em vários momentos do dia. Não se deve dar trégua para essa canalha. A seguir, uma seleção dos mísseis disparados a esmo:


CAMPANHA ELEITORAL E DITADURA


Vamos combinar o seguinte: elimine-se os termos petralha e neoliberal para reduzir a um décimo o volume do debate político

A sucessão de projetos furados, promessas vãs e acusações mútuas é o mais grave sintoma do pacto sinistro que nos governa em rodízio

Tomar partido por qualquer um dos lados do atual sistema bipolar é assinar a própria condenação política

É preciso que as pessoas acreditem que estamos numa democracia para que os maganos de sempre saiam com as mãos carregadas de ouro

Censurar blogs é a covardia atual do regime de cartas marcadas, onde a bandidagem disputa mais uma temporada de assalto ao butim

Jornalistas que não dizem com todas as letras a cumbuca onde todos metemos a mão não merecem exercer a profissão

Um regime que não suporta o jornalismo, tentando enquadrá-lo ou censurá-lo por meios "legais", não passa de ditadura rastaquera

Uma boa biografia jornalística pode valer mais de um milhão de reais por ano. Mientras tanto, a profissão vai para o brejo

Jornalistas de renome que usam seus portais para fazer campanha eleitoral no atual sistema de tirania são vendedores de biografias

Os institutos de pesquisa substituem o processo eleitoral. Impõem resultados previamente para manipular o voto útil (de cabresto)

Campanha eleitoral gera emprego de segurador de bandeira e distribuidor de panfleto. Quem gritar urrú para o palanque ganha extra

O único candidato que existe é o photoshop

O que mais irrita é fingir que a campanha eleitoral serve para a produção de pensamento, quando tudo não passa de conversa

Candidato que falar em saúde e educação, quando já estamos fartos de saber como funciona o esquema, leva cascudo

Levar a sério a campanha eleitoral é como se perfilar diante de um camelo

Acabou o sossego A campanha eleitoral pegou firme no twitter. Só falta agora a turma dos beijos no coração

São sempre os mesmos, que ocupam cargos com maior ou menor visibilidade. É porque a ditadura é sempre a mesma

Hoje é moda achar que o Brasil sempre foi assim "desde que o mundo é mundo" Velho truque: transformar o Mal implantado em algo "natural"

Hoje é moda desprezar o Brasil, mas o que existe é essa nação desconstruída pela ditadura, que acabou com a confiança no país

Nos anos 60, líderes secundaristas subiam no caixote e faziam discursos citando Aristóteles para uma massa atenta. Já fomos melhores

Destruiram a excelência da nossa educação, que formou os gênios do Brasil, para gerar zumbis que admiram ex-BBBs

Estudei frances, inglês, latim e música aos 11 anos de idade, no ginásio. Tínhamos educação de qualidade, sucateada a partir de 1964

Eudcação em país de política econômica soberana está voltada para a formação escolar plena e não para gerar balconistas do McDonalds

Levantar a bandeira da educção sem a contrapartida de uma política econômica soberana é tapar o sol com a peneira

Num país soberano, a política econômica está voltada para o povo, não para meia dúzia ou para estrangeiros E a educação, para a cidadania

Educação não tem poder nenhum quando a política econômica é de entrega da soberania Num país vendido, forma-se para o "mercado"

Não se trata de praticar a virgindade política. Isso não existe: somos sobreviventes Mas enxergar claro para destruir a rede d e ilusões

A hora é da verdade Quem comercia com fatos depois de inventá-los precisa ser desmascarado

A credibilidade emigrou da pose dos chamados grandes comunicadores para a mídia autoral sincera disseminada pela rede

As pessoas de bem devem dedicar este ano eleitoral para criar uma barragem de indignação efetiva contra o avanço da ditadura

Criticar é fruto da percepção e da análise, não pessimismo barato contra o "lado positivo" da vida. É o primeiro passo para a ação efetiva

Celebridades jornalisticas envolvidas na campanha eleitoral: virem essas biografias para lá, que elas não valem mais nada

Propostivos: Erradicação de todos os envolvidos em falcatruas, recuperação do patrimônio nacional, a volta do ensino de qualidade


Vamos ser propostivos: peso identico do voto nas capitais e grotões, resgate do sistema ferroviário, fim da remuneração criminosa dos juros


MISCILÂNEA


Hoje o Brasil falsifica bebida para o Paraguai revender

Beber não é problema. O que pega é pagar caro o metanol com rótulo de vodka

A natureza não existe. O que existe é cultura e comportamento Ninguém brota como um cogumelo

Nutrientes é uma palavra que empresta rigor a matérias frescas E insumo é a máscara noticiosa da matéria paga

Feriadão é aquele periodo de lazer em que as famílias saem de casa para morrer nas estradas

Ninguém é socialmente responsável num país que tem favelas e políticos visitando favelas em época eleitoral

A vida adulta foi erradicada do imaginário nacional O que temos é adolescente xingando pai em novela das nove

Filme brasileiro cacifado por dinheiro público não leva cinco minutos para alguém começar a tirar a roupa. Olhaeuaquitransando é cool

Aeronave, óbito, viatura: o jornalismo está assumindo a linguagem dos escrivães

O noticiário da TV é aquele que transmite reportagens de segundos e publicidade de várias horas

O que é pior: o robô que não sente dor, os cretinos do cervejão, a promoção sem juros com juro embutido ou o iogurte que vai aos pés?

O noticiário da Páscoa é o mesmo do ano passado: a culpa é dos motoristas, os fiéis esfolam os joelhos e a paixão usa capuz medieval

RETORNO - Imagem desta edição: obra de Ricky Bols em fotos, aquarela e photoshop.

3 de abril de 2010

IGREJA CATÓLICA: RESPONSABILIDADES E CAÇA ÀS BRUXAS



Está certa a Justiça americana em querer enquadrar o Papa Bento XVI por ter acobertado o padre pedófilo que molestou 200 crianças surdas em Wisconsin. Não está certa a Justiça americana ao permitir que os soldados do seu país matem civis diariamente no Oriente Médio, obedecendo os ditames da indústria do petróleo e da geopolítica imperial. O ex-cardeal Ratzinger pode ser apeado do trono, mas a Igreja Católica não é apenas o Papa da hora, assim como os juízes americanos não são todo-poderosos, que poderiam impedir o envolvimento político do Império por meio da guerra nos países pobres. Tanta a Igreja quanto a Justiça são instituições acima dos erros de seus membros, mesmo que sejam crimes hediondos, como acobertar ou permitir outros crimes.

Por que estão acima? Porque existem em função de princípios e ações que servem de barragem à maré alta da bandidagem internacional. Esta, já fez o serviço com os muçulmanos, desmoralizando-os ao empurrarem os mais radicais para a violência, depois de desestabilizarem as regiões onde viviam. Fez também o serviço completo com os judeus, expulsando-os da Europa depois do massacre da Segunda Guerra. Os budistas estão sob controle, confinados pela China. E os protestantes, antigos e novos, se pautam pela dispersão: eles não tem a força de uma Igreja una, duplamente milenar, que ascendeu ao poder secular quando conquistou o coração do Império Romano e assim fez parte da gênese da maioria das nações do Ocidente.

Como desmoralizar um poder que está acima dos países, que forma o caráter de populações, que faz parte da educação de milhões de pessoas há séculos, que possui em seu acervo o que há de melhor e mais significativo em arte, sem esquecer a filosofia, literatura etc.? A Igreja Católica é um sapato no poder multinacional que precisa ter o território livre para impor suas forças, que são: o sucateamento das fronteiras para que meia dúzia tenha acesso a todos os recursos da terra sem ninguém para atrapalhar; o fim da moral e bons costumes para que todos possam consumir a tralha industrial envenenada sem tugir nem mugir, apesar das campanhas milionárias da falsa correção política; a multiplicação e superconcentração dos recursos, à custa do suor de bilhões de pessoas, entre outros objetivos.

Por não possuir um Vaticano, por não ser explícito e visível, esse poder sinistro se impõe pela negação da sua própria existência. Tudo o que bate contra ele é tratado como teoria da conspiração. Sua natureza é oposta a instituições como a Justiça ou a Igreja, que são palpáveis, possuem sedes e porta-vozes e representações onipresentes no mundo inteiro. Armar o circo como se fosse obra da natureza é a especialidade desse poder que estimula uma indústria como o agronegócio, que trata as terras aráveis como matéria-prima de desertos, em detrimento da agricultura pulverizada e familiar, que gruda a população ao campo, em vez de soltá-la como rebanho louco pelas cidades em ruínas, onde ficam à mercê dos invasivos oficiais ou marginais .

Um dos grandes álibis desse poder secular que transforma em marionetes a gentinha atualmente no poder (os estadistas de estádio) é se postar ao lado da modernidade contra ao atraso das instituições. Disseminar a ilusão de que combatendo a Igreja as pessoas imediatamente se inserem no futuro da humanidade é um truque pesado que enreda muita gente. Mas o poder que instaurou o eterno presente, eliminando os tempos próprios de nações e povos, para que se consumam as porcarias que fabricam, gera apenas vazio e medo, enquanto instituições como a Igreja e a Justiça são a trincheira onde almas e corpos se abrigam para enfrentar o terror instaurado como norma.

A caça aos padres pedófilos não se restringe aos casos, inúmeros, que pipocam há tempos pelo mundo todo. Faz parte de uma ação política maior, que usa todos os recursos, inclusive a ação de outras instituições, para difundir uma nova caça às bruxas, procurando limpar o terreno ideológico e midiático e assim impor uma falsa realidade: o poder incontestável do dinheiro globalizado especulativo, da indústria de armas e do petróleo (vejam o Putin na Venezuela!) e dos genocídios por meio invenções cada vez mais sofisticadas e mortais. Quando se tentou minar a confiança no catolicismo por meio do resgate da Inquisição, o Papa João Paulo II pediu perdão, o que serviu pelo menos para impedir maiores estragos na imagem da Igreja.

Mas agora a violência é muito maior, pois a Igreja errou ao conviver intimamente com o pecado da pedofilia e ficou assim vulnerável ao ataque. Que se faça justiça, mas que se tenha claro o enfoque político da campanha, que procura negar a obra da Igreja em mais de dois mil anos, e que não é pequena. Seus erros, seus equívocos, suas distorções, suas misérias fazem parte do humano. Mas a grandeza da sua presença num mundo cada vez mais hostil é necessária e irreversível. Não se tape o sol com a peneira, mas também não se ignore que os poderes que aproveitam os pecados são eles mesmos a fonte do horror apontado em território alheio.

Diz a Igreja que a pedofilia atinge 4% os seus quadros, um índice muito maior do existente na sociedade. Não justifica nada, apenas serve para mostrar que a porção maior do catolicismo não comunga com esse crime. Colocar todos os padres na vala comum da pedofilia é o mesmo que chamar todos os muçulmanos de terroristas ou todos os americanos de invasores. Devagar com o andor que o sábado é de Aleluia.

RETORNO - Imagem desta edição: Caravaggio e o Cristo morto.

2 de abril de 2010

DOURADO E A LEI DO MAIS FORTE DA FALSA CIDADANIA



A Rede Globo precisa definir parâmetros de comportamento que sirvam para influir nos consumidores das porcarias que difunde em suas campanhas milionárias. Carros que andam em avenidas vazias nos filmecos entopem as cidades de infra-estrutura podre: essa é a situação do país do Ibope de cartas marcadas, em que a popularidade do chefe do governo atinge o patamar dos ditadores, em que não há possibilidade de defecção. Qual seria o paradigma do idiota que consome ilusões perversas? O saradão ágrafo e preconceituoso, o boquirroto que exibe cretinicie confundida com “atitude”, a palavra da moda.

Atitude é marca notória de um jovem americano que resolveu vender camisetas. A palavra certa na hora certa serviu para seu sucesso. Agora serve para definir o código de conduta da selva brasileira, onde impera a lei do mais forte. Não há lugar para fracos e perdedores, a não ser como platéia e massa de manobra para gastar a péssima remuneração da sua mais valia em caríssimos produtos feitos para estragar. Ao premiar o fortão que berra contra homossexuais e dá exemplos notórios de falta de compostura, a Rede Globo avisa que é assim que a coisa funciona: quem é mais forte pode e agüenta quem tem juízo.

Como pode uma sujeição dessas ser celebrada nas ruas como um grande acontecimento do noticiário, ou seja, como pode uma falcatrua desse quilate ser confundida com notícia? É preciso, para isso, que haja a imposição de uma rede de transmissão que pega até a mil metros abaixo do solo, nas catacumbas da floresta. O sinal chega perfeito ao grotão e impera nas cidades, deixando um pouco para as outras redes para manter o aspecto de concorrência.

A Globo, como o capital especulativo que a sustenta, tem horror à concorrência. Toda vez que uma outra rede revela um sucesso, a Globo vai lá e compra. Se for um evento, como o Oscar, tantos anos no SBT, ela não permite, paga mais. Se existir uma novela de grande impacto, como Pantanal, da velha Manchete, ela se serve de tudo, de atores a diretores. No cinema, quando há novidades na estética ou na interpretação, ela vai lá e pega. E depois impõe seus filmes produzidos com dinheiro público para que nem o cinema lhe faça concorrência. No esporte é um espanto: tudo é dela. A Globo é a lei do mais forte.

Mas como disfarçar tamanha sacanagem? É preciso gerar um novo sistema de valores. Além da atitude, do se impor não importa a quem, é preciso que as pessoas acreditem nas suas denúncias, que obedecem aos interesses da rede. Adversários políticos são enxovalhados em público, como aconteceu como Leonel Brizola. No sistema de valores do chamado politicamente correto, a Globo pega os princípios da falsa cidadania, em que os consumidores, confundidos com cidadãos, repetem as falas introduzidas pelos próprios repórteres. “Não dá mais para agüentar?” diz o repórter. “Não dá mais para agüentar”, repete a voz do povo-fala. O pior é o povo-fala com script, como aconteceu com as falsas entrevistas do Bigbrother.

Quando algo poderoso, criado fora do Brasil, claro, como a internet começa a abrigar e a difundir oposição séria à rede Globo, desviando a atenção da opinião pública para enfoques diferentes dos disseminados pelo monopólio, é hora de entrar em ação: forjar uma premiação do William Bonner no Twitter (que gracinha!), fazer a rede coadjuvante do noticiário (“Veja na nossa página da internet a tralha que não acabe aqui, no nosso espaço milionário”) ou mesmo chamar os internautas pelo primeiro nome, já que assim eles se confundem com o Zé da Couves sem sobrenome nem voz verdadeira, para dar pitacos em transmissões esportivas.

Essa é a lei do cão a qual somos submetidos. Vejo agora os saradões muito mais à vontade nos seu carrões e motos, nos supermercados e ruas, em cervejadas expostas no passeio público, mexendo com todo mundo, tomando “atitudes”. Eles estão bem representados pelo vencedor do programa sinistro que precisou pegar emprestado a credibilidade de um bom jornalista que acabou sucumbindo à tentação de ser uma ilusão do entretenimento, a de encarnar o Chacrinha, aquele herói da “Comunicação (“Quem não se comunica se trumbica”.) Cruzando o jornalista com o performer, num ambiente em que o jornalismo foi substituído pela tal Comunicação, a Globo oferece ao público a representação de sua própria natureza, a lei do mais forte da falsa cidadania.

Pedro Bial não é o problema, ele está lá apenas amealhando popularidade e será descartado quando o esquema parar de dar dinheiro. O problema é o sistema que está por trás dele e que parece indestrutível. Ficará mesmo mil anos entre nós essa ditadura da lei do cão se ninguém se insurgir de verdade. Até quem trabalha na Globo precisa que haja oposição. Não para manter a aparência da democracia. Mas porque é um pesadelo viver indefinidamente num monstro que a tudo devora porque todos se recolheram às suas casas, amuados, com medo de retaliações.

1 de abril de 2010

ÍDOLOS


Nei Duclós (*)

Estamos na maré alta da demolição de ídolos, pessoas que viraram símbolos de algo transcendente e foram representadas por estátuas, pinturas e devoções. No seu lugar entram os chamados ícones, que são mercadorias de consumo infladas pela abundância da comunicação de massa e pelo ingresso de enormes contingentes no círculo de produção e consumo de imagens e mensagens.

Ao contrário dos ídolos, que chegaram ao pódio por força da vivência de povos e nações e das lutas por princípios e sobrevivência, os ícones são destacados ou substituídos conforme seu valor de mercado. Quando alguém que fez carreira focando suas “obras” no ato sexual ultrapassa os 50 anos, é hora de aparecer alguém com menos de 20, para assumir esse exercício frenético de exposição pública que virou moda.

Um evento que cai no colo do lucro é a morte prematura de uma notoriedade. Se não era encarado como estrela de primeira grandeza, passa a ser, já que existe espaço para a celebração que movimenta a carroça da compra e venda do imaginário excessivo em volume, mas escasso em idéias. Não importa a morte de um grande professor de História, que dedicou a vida a decifrar o país continente. O que vale é o criador de produtos aparentemente transgressores, no traço ou no ruído.

Essa contrafação alimenta a ilusão da massa convencida de que está na vanguarda, palavra que sugere um espaço sagrado da demolição de ídolos, mas ao mesmo tempo de consumo desenfreado e alienado de ícones. O truque mais batido é misturar os dois conceitos, fazendo o quarto de despejo ditar as normas da praça central. Os cânones são desmoralizados e nesse vácuo entra a procissão de nulidades tratadas como se fossem reencarnações dos deuses.

Isso ficou possível porque o sucateamento da educação serviu para a explosão dos limites que definiam parâmetros da cultura e do espírito habitado pela leitura, a reflexão e o exemplo. Quando aprovam analfabetos por decreto e garantem vagas para quem não consegue vencer uma barreira obrigatória como o vestibular, é porque um contingente ágrafo consome sem criticar e reproduz o que é imposto como se fosse natural. A tragédia fica completa no momento em que jogam lama nas inspirações que resistiram à corrosão do tempo e hoje são derrubadas à força pela barbárie travestida de modernidade.

RETORNO - 1. Imagem desta edição: Fofoca, obra de Ricky Bols. 2.(*) Crônica publicada no caderno Variedades do Diário Catarinense no dia 30 de março de 2010.

31 de março de 2010

O VERDADEIRO JOHN LENNON


A foto acima, tirada no início dos anos 70, encerra definitivamente a polêmica sobre a verdadeira identidade do mais importante dos Beatles. Peço desculpas aos inúmeros aspirantes, mas o fato é que eu sou John Lennon. Escrevi todas aquelas canções com meu parceiro Paul, morto num acidente de automóvel, como todos sabem. Paul foi substituído por esse babaca que acabou fazendo os Wings e perdeu 60 milhões de dólares num casamento tardio. Depois de ver o corpo do autor de Yesterday estendido no chão, quis ir embora e deixei no meu lugar o sujeito que acabou detonando a banda e disse que o sonho tinha acabado. Clone besta.

Fugi para o Rio, mas não me dei bem lá. Muita bandeira, iriam logo descobrir quem eu era só para me esnobar. Acabaria sendo colunista do Pasquim ou pior, do JB, já que, sem poder me apresentar nos palcos, tinha de me disfarçar como jornalista e escritor. Resolvi vir para o sul, que tem um clima quase londrino, não fosse o excesso de alemães, o que sempre me deixa nervoso pois lembro da época da guerra, quando os chucrutz barbarizaram uma barbaridade.

Assumi a identidade de um poeta da fronteira, coisa que me dá trabalho até hoje porque não sei quando se deve se dizer che ou tchê. Quando me pedem para fazer mate, entupo a bomba. E como nunca fui da elite britânica, não fiz aulas de equitação. Portanto, ao me colocarem em cima de uma sela, caio, arrancando gargalhadas. No tempo em que eu estava parecido com o John ainda me desculpavam, dizendo: o cara é hippie, deixa quieto. Mas hoje, nas cavalgadas nativas, sempre me jogam no lombo de um matungo, que morre no final do evento.

É o excesso de peso que provoca esse desfecho trágico. É uma desvantagem, mas serve pelo menos para eu assumir que sou John sem ter que me preocupar com as conseqüências. Quando eu tinha a aparência da foto acima, era um perigo, a toda hora queriam que eu cantasse alguma coisa e apertasse os olhinhos por trás dos óculos redondos coloridos. Agora, por mais que eu grite que sou Lennon ninguém me dá crédito. "Ara", me dizem lá na zona do Cafarate. "John Lennon Chacreiro!" E se agacham nos pombos, aquelas grandes pedras lisas de beira de rio. Por isso sempre digo para meu inimigos que, se quiserem me atacar, passem antes lá perto da Cafarate para ver o que é bom pra tosse.

Uma coisa boa de ser ainda John Lennon, apesar da idade e de ter sofrido muito quando mataram meu clone com cinco tiros em Nova York, é que continuo a compor canções. Canto no banheiro baixinho para não assustar a família, já que perdi toda a afinação depois de uma gripe braba que peguei no mato, em pleno mês de junho. Ficou um rasqueado fanho que às vezes é confundido com as músicas de vanguarda de Lennon e Yoko. Mas como não tenho nada com Yoko, nego com veemência. Sou apenas o sujeito que mudou o mundo, mais nada. Pelo menos mereço um pouco de respeito.

A única coisa que realmente me incomoda é não ter podido ir a Woodstock. Eu já tinha decidido vir para o Brasil. Estava estudando a língua com uma professora portuguesa, o que me tornou um sujeito de fala bruta. Levei um tempo para recuperar as vogais e começar a escrever poemas nos parâmetros brasileiros. Acho que aprendi. Musicaram alguns. Mas meus parceiros atuais nem desconfiam que sou o John Lennon. É duro de admitir. Agora encontrei a prova definitiva, posso convencê-los. Meu nome é John Lennon, vou dizer. Sou o cara da foto.

O BRASIL SE DESPEDE



Nei Duclós

Vai-te embora, Brasil, navio da minha vida
És grande demais para submergir
Saia deste porto guardado em degredos
E suma cercado de sereias e apitos
No horizonte exposto como cão vencido
Leva contigo o pão e o desperdício


Vai-te embora Brasil, convés do meu segredo
Na amurada se debruçam nossos ancestrais
De ternos eternos e chapéus de feltro
Mães e irmãs vestidas de espólios
A passear nas calçadas do tempo em sépia
Quero te ver longe daqui, país da memória

Vai-te embora, Brasil, sonho que recebi no berço
Como faca de estimação, um pacto de apertos
Um corpo torto, um rio junto à ponte
Não posso mais te ver pilhado em minha frente
Quero que escapes para a ilha que um dia foste
E de lá me mande sinais, a piscar na névoa

Vai-te embora, Brasil, campo de mar, porão de gávea
Naveguei contigo, contando apenas com palavras
E teu apoio do alto, quando me vias exangue
Pai que hoje nos falta, irmão que assopre o pano
Preciso que te salves e leves contigo a coragem
De sermos maiores do que esta mina de pó e pedra

Vai-te embora, Brasil, que já é tarde
O verão fechou as portas e há terremotos
Entidades armadas se abrigam nos tornados
E o céu ofusca de gás néon a perversa idade
Preciso me despedir, fechar as portas
E aguardar o vento final que traga a trégua

Vai-te embora, Brasil, que te quero inteiro
Leva contigo o chafariz, o arroio, retretas, praças
Vidros e venezianas, espelhos do verbo
Cuida bem do que tens, barca terminal das eras
Pois um dia voltarás para este templo torpe
E poderás restaurar o que virou deserto

Vai-te embora, Brasil, idéia de um coração altivo
Mão soberana que me traz cativo
Corte fundo de um perfil que nos abriga
Céu de estrelas cadentes, flâmula de gritos
Ando contigo para habitar o espírito
Porque inventei, como tu, o meu destino


RETORNO - 1. O video é do melhor disco de samba de todos os tempos, Axé, de Candeia. Nesta época de dourado e ouropel, nada como "Ouro, desça do seu trono", de Paulo da Portela. Brasil soberano, presente. 2. Atenção, como o poema é de hoje, fiz duas pequenas modificações minutos depois de postar. Portanto, quem copiou no bate-pronto, refaça a operação. Ficou melhor. 3. 31 de Março de 1964: O Golpe Civil http://bit.ly/1aVVnG. 4. O poema de hoje segue a trilha de O país perdido, poema do meu novo livro e traduzido para o italiano por Julio Monteiro Martins e equipe.

30 de março de 2010

O JN E A DITADURA QUE GANHA O MUNDO


O Jornal Nacional, da Rede Globo, não mudou o jornalismo, ajudou a matá-lo. Concebido logo depois do AI-5, em 1969, obedeceu ao formato americano por obra de Walter Clark, o executivo da publicidade festejado como gênio, mas o conteúdo precisava de um ajuste, adaptado às necessidades da ditadura. Foi aí que entrou Armando Nogueira, prestigiado no jornalismo impresso, hegemônico, na época, na comunicação de massa, e excelente cronista. Falecido recentemente, Nogueira está sendo lembrado como o grande artífice do JN, quando a obra deve ser creditada a Clark e a José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, que no JN de ontem tentou tirar da reta atribuindo toda a responsabilidade do jornal sacana ao editor chefe.


Foi assim que se consolidou entre nós a imposição oficial das versões por meio de recursos técnicos (equipamentos e rede de transmissão, movidos a muito dinheiro) e ideológicos (o sucateamento da oposição ao regime, o que levou à divisão bipolar MDB/Arena, atualizada no tucano-petismo, que depende totalmente do poder do JN para governar).

Não por acaso o primeiro ato de Lula quando eleito pela primeira vez foi comparecer ao JN, obedecer ao William Bonner e servir de âncora para o noticiário global (aquele do “horário nobre”, ou seja, elitista), numa cena premonitória do que estava por vir, por mais que não acreditássemos. É fundamental recordar também que Armando Nogueira participou como protagonista do evento sinistro da manipulação dos resultados das eleições para o governo do Rio em 1982, quando a totalização dos votos pela Proconsult aparecia na Globo sem fazer justiça ao candidato vitorioso, Leonel Brizola. Este chamou a imprensa internacional (mais séria há 30 anos) e denunciou a patranha. Nogueira teve de comparecer ao vivo (exigência de Brizola,que não iria permitir manipulação da sua fala) diante do governador já eleito que estava sendo esbulhado nas fuças da nação mergulhada em nova fase de tirania.

Foi uma lavada. Brizola arrasou com um gaguejante Nogueira, que não teve mais condições de insistir na falcatrua. Nos bastidores do JN, lembro quando Jorge Escosteguy, grande jornalista com quem trabalhei mais de uma vez, me contou com detalhes como foi fritado na Globo depois de transformar a sucursal paulista do JN numa unidade de jornalismo da pesada. Foi fritado pelo silêncio e a lenta demissão, levando-o a uma situação desesperadora. Nunca é demais repetir que a Globo ajudou a esconder as gigantescas manifestações das Diretas Já, o que é público e notório. Mas não vou insistir no que todo mundo sabe, apesar de ficar escandalizado que ninguém se manifeste quando começam de novo a transformar o JN num fato histórico a favor da democracia, que até, veja bem, teria lutado (ah ah ah) contra os anos de chumbo. A Globo é a era de chumbo, ponto.

O que pega é o jornalismo rastaquera que tomou conta do mundo. Le Monde, que nunca fez algo aparecido, elege Lula o Homem do ano. Pois bem, sabemos que o Le Monde foi comprado pela industria de armas, não por acaso cliente do governo brasileiro. Os franceses nos vendem armas (agora são os caríssimos helicópteros) desde a época da Missão Francesa, nos anos 20 do século passado. O Wal Street Journal, por sua vez, usou o velho expediente de bater para depois cobrar a conta. Há uma semana, fez matéria sobre o excesso de corrupção no Brasil. Dias atrás, fez outra, sobre esse fenômeno que é o Brasil onde, pasmem, a corrupção é relativamente baixa comparada com outros gigantes. Os jornalões viraram jornalecos de meia pataca.

Para substituir o magnífico jornalismo impresso que tínhamos até os anos 60, por uma falcatrua metida a besta e vazia como Jornal Nacional, foi preciso fazer o serviço completo, ou seja, destruir a alfabetização e a formação escolar, bases de uma opinião pública lúcida e atuante. Mandaram para as calendas cartilhas eficientes, como a Caminho Suave, que alfabetizou mais de 40 milhões de brasileiros e colocaram no seu lugar o analfabetismo puro e simples. Como era impossível, no sistema tradicional, passar de ano sem saber ler, inventaram a aprovação por decreto. Assim está feito o público para consumir JN, em que o parâmetro, segundo o próprio Bonner, é o Homer Simpson, o idiota da série americana.

A verdade é que o grande sucesso do Brasil foi transformar um regime sinistro numa ditadura consentida com vestes de democracia. Com a crise mundial, em que os jornalões mais notórios perdem leitores e faturamento, está tudo sendo loteado e comprado. A ditadura brasileira faz a festa, como provam alguns artigos pesquisados pela equipe do Diário da Fonte. Leiam aqui e aqui. Mesmo no Translate Google, fica legível. Dá trabalho, mas não muito. É de explodir os gargomilhos. Simplesmente estamos cacifando a pirataria internacional com o aval do Banco Central, transformamos os responsáveis pelos milionários fundos de pensão em especuladores que compõem hoje uma nova elite, entre outras mumunhas.

RETORNO – Imagem desta edição: vídeo em que a voz do dono, Cid Moreira, lê uma carta de Leonel Brizola contra a Rede Globo, a mando da Justiça. Em pleno Jornal Nacional. Brizola presente!

29 de março de 2010

O FIO DO VERBO NO TWITTER



O que tenho feito além de postar sobre cinema aqui no Diário da Fonte? Tenho afiado o verbo no Twitter, onde as frases não podem ultrapassar 140 toques. Escrevo sobre tudo, dialogando com muitos seguidores, das mais variadas profissões, principalmente jornalistas, poetas, assessores de imprensa, gente do Brasil e de outros países. Uma viagem e tanto. A seguir, uma seleção de insights que publiquei lá no meu espaço @neiduclos.


MISCELÂNEA

Estava distraída. Deixou cair a saudade por um instante e viu-se de novo em frente ao desatino

No final da noite, o garçom varre para debaixo do tapete todas as estrelas

Quando perguntam se podem me dizer uma coisa, eu tenho um troço

Desconstruir é uma operação complicada Seria assim como destuitar

Vou te dizer uma coisa: não me diga coisas

A verdade é o pão da consciência que mofa por falta de uso

A versão é o carro que atropela a verdade na faixa de segurança

A verdade é apropriada pela mentira de cada um

A verdade convence, mas quem escuta faz parte de outra religião

A verdade é uma órfã expulsa de casa pelos falsos pais que fingem adotá-la

Deus toma notas, não para lembrar, mas para mostrar como prova


MÍDIA


É preciso dizer, para que se ouça É preciso ousar, para que algo fique de nós desta vida datada e prisioneira

É uma contradição deixar de viver em nome da sobrevivência

Liberdade não é dizer palavrão Palavrão apenas confirma o preconceito contra a liberdade
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Estudar aqueles que ensinam a aprender

O marketing, a política, os legisferantes, os ditadores de esquina, estão todos a postos para calar nossa boca. Pois agora chega!

Coloque seu candeeiro no alto do telhado É o que manda aquele que teve a coragem de mudar

Se com a rede podemos ser cidadãos livres, o que diremos se perdermos mais esta chance?
´
Tivemos medo, deixamos nos dominar mais uma vez?

O cuidados que devemos ter nas redes sociais é de sermos civilizados, mas jamais medrosos A hora é da coragem

Internet é liberdade, a chance de expressar nossa opinião com todas as letras Não pode virar mais uma cela do medo

O twitter é uma tentação. Território livre para a abobrinha

Colunista não trabalha para governo, não vende notinha, não elogia a soldo, não critica a mando, não informa pela metade

Setorista de jornal não faz assessoria para ninguém, editor não assina contrato por fora, matéria paga tem de ser identificada como tal

Departamento Comercial não pauta, repórter não cobre festa de anunciante nem faz link em shopping, anúncio não invade texto

Credibilidade é a separação entre jornalismo e publicidade

O pior dos BBBs são os ex-BBBs, efeito colateral da endemia

O marketing prepara produtos específicos para ex-BBBs. Espelhos com câmaras Dicionário de Baixarias Edredons suados


SEÇÃO VERDE

A hora do planeta deveria ser diária, coincidindo com o Jornal Nacional

Militante sustentável viciado em internet apaga o monitor e continua tuitando

Desenvolvimento sustentável é a substituição das matas por indústrias não poluidoras

Deve-se definir tolerância zero para quem permitir a proliferação de traças em livros virtuais

Os bilhões de dólares gastos em preservação das árvores rendem créditos de papel carbono

A recuperação das matas ciliares implica a escolha das marcas cosméticas de várias procedências

A saúde é uma concessão com data de vencimento da indústria farmacêutica

O recrutamento de voluntários ambientalmente corretos deixa os gafanhotos desconfiados

A indústria de bebidas economiza água depois que joga fora

Estima-se a utilização da calota polar na Fórmula para objetivos ambientais

O aquecimento global não estimula a interrupção do banho quente no inverno

Reciclar água de uso industrial e do esgoto ajuda a repor os nutrientes das campanhas publicitárias

A biomassa da rain forest serve para fazer bolinhos de chuva

O desenvolvimento sustentável conseguiu sair de casa cedo e montar apartamento

Uma boa fonte renovável de energia é dinheiro


POLÍTICA

Não significa que precisa chutar o pau da barraca Mas pelo menoS se afastar desse tranco e criar algo sincero. O país precisa

O fato é que os artigos políticos obedecem ainda ao formato do Castelinho, a elegância consentida da abordagem oficial

Se o jornalista célebre disser o que pensa será que vai perder dinheiro, não vai poder encarar as outras celebridades nos ágapes?

Um blog não pode ser bola de frescobol, sendo jogada para cá e para lá entre Dilma e Serra É tanto medo assim de ser livre?

Blog é a oportunidade de não obedecer à pauta da mídia oficial Mas o que se nota é isso: ou blog é paga pau ou é só firula

É triste ver blog de jornalista célebre pagando pau para a mediocridade da política brasileira Blog é revolução Não vão queimar os navios?


CHATICES

A antipatia é uma das flores mais espontâneas do selvagem jardim humano É a gratuita cara de paisagem em relação a um alô

Algumas celebridades literárias estão no Twitter como estão na sociedade de classes: por cima da carne seca, sem interagir com ninguém

Texto chato é aquele que tenta colocar em passant, como se não fosse o objetivo principal do texto, as emoções da última viagem a Paris

Texto chato é aquele que tenta te convencer que Jesus te ama, que ser feliz é melhor do que criticar e que te manda beijos no coração

Texto chato é aquele que convida à reflexão, como se reflexão precisasse de convite

Texto chato é aquele que comenta o texto que está sendo escrito "Veja bem"

Texto chato é aquele que tenta levar o leitor pela mão e anuncia a toda hora que "isso veremos mais adiante"

Se a era de Peixes acabou, o que será colocado no Aquário?

RETORNO - Imagem desta edição: Afiador de facas, foto de Regina Agrella.

27 de março de 2010

A MONSTRA



Meryl Streep confunde a imprensa. Foram 13 ou 16 indicações ao Oscar? Ganhou só dois, um por "A Escolha de Sofia" e outro por "Kramer x Kramer". Deveria ganhar mais. Comete erros, como "Mama Mia", onde quis ser a Madona. Mas 99% do trabalho dela é gênio. Está na categoria dos monstros, aquele tipo de interpretação em que o ator se transforma numa criatura assustadora.

Foi assim em O Diabo Veste Prada, quando a bruxa da moda massacra uma pobre Anna Hattaway,atriz engolida junto com seu personagem. E é assim na sua magistral interprtação em Julie & Julia, quando encarna de Julia Child, a mulher de diplomata e de família rica do interior dos Estados Unidos que disseminou a gastronomia francesa em terreno estéril, a cozinha americana, onde o frango frito do fast food da esquina substitui o chato trabalho de fazer comida.

Talvez Julia Child seja a responsável por essa frescurada de reunir amigos para ágapes onde se elogia os pratos e “um bom vinho”. Esse tipo de evento, que é um rodízio de vaidades, substitui o fraco desempenho doméstico da família moderna, mais preocupada em aparecer para os outros do que trabalhar o que tem entre quatro paredes. Mas não tenho certeza. O que é certo é que Meryl Streep compôs a personagem na sua intimidade extrapolando o que aparece na televisão, num programa de culinária, para o que imaginou ser a vida “real” de Julia Child. Os cacoetes verbais e gestuais que foram vistos por milhões por muitos anos na telinha ganham vida e cor própria na luta da mulher que procurava uma ocupação na Paris dos anos 50.

Como costuma fazer normalmente, Meryl Streep devora quem a acompanha na sua performance. O marido cordato interpretado muito bem por Stanley Tucci (um ator apropriadamente apagado) ou a blogueira que a admira (Amy Adams) praticamente somem do mapa e o que aparece é a monstra o tempo todo, apesar de o filme ser bem divididod em dois tempos, um de 50 anos atrás e outro deste século. Numa entrevista para o Telegraph, Streep conta como entrou em conflito com a pessoa que inspirou seu personagem neste filme, que estaria a serviço do agribusiness e não atendeu um pedido para apoiar a agricultura e a alimentação orgânica.

Streep jura que admira Julia Child, mas sua performance magistral fundada numa caricatura (a performance televisiva da cozinheira famosa) não seria uma doce vingança pelo que o ídolo aprontou há vinte anos? Talvez, mas isso não tira o mérito da interpretação. Julia Child jamais seria a favor da comida orgânica, já que adorava tudo o que é considerado pecado contra o colesterol, como fartas porçõe s de chocolate e manteiga. Mas o que é admirável nos americanos é que eles não deixam nenhum ídolo solto, à mercê dos detratores. A indústria do cinema sempre dá um jeito de encontrar grandeza em tudo. Neste caso. Streep elogia a determinação da mulher que inventou uma profissão e aguentou tranco da perseguição ao marido proporcionado pelo macartismo. Nada demais. Falar mal dos republicanos agora é moda na era Obama.

Lembro de um filme de 1953, The President's Lady, em que Susan Hayward interpreta uma primeira dama mal afamada. Pois o filme limpa a barra da ilustre senhora, pois é assim que eles fazem: jamais permitem que o país, base da sobrevivência da população, seja atingido em sua honra. Aqui, só falta rebatizar o aeroporto Santos Dumont de Irmãos Wright. Tudo é possível, depois que substituíram o nome do aeroporto de Salvador, que era batizado com a data heróica da vitória brasileira na Guerra de Independência, Dois de Julho, e agora tem o nome do filho do ACM.

Lá a pessoa pode ser uma cozinheira de televisão cheia de maneirismos que eles não deixam barato. Podem até debochar, como acontece num quadro humorístico apresentado no filme, mas no fim das contas retratam a dignidade da pessoa que criou um caminho na gastronomia, levando oito anos para lançar seu primeiro livro. Deveríamos imitar os americanos nisso e não no frango frito comprado no fast-food da esquina.

26 de março de 2010

A TELA E O JARDIM: O OLHAR QUE LIBERTA



A dominação de classe leva à escuridão do olhar e à sua máscara: o que é negado à percepção serve de insumo para a crítica pseudovanguardista da arte, em que o breu não é breu, é o “não-branco”. Com isso, se justifica a imposição perceptiva, já que a pose intelectual encerra os agentes (o pintor e seus críticos) numa prisão ditada pela moda, ou seja, o mercado imóvel de produtos artísticos, que obedece ao movimento pseudocíclico do tempo (as exposições que se repetem). Ali, o que conta é o dinheiro aparentemente despossuído de sua brutalidade natural
de dominação e o silêncio do sufoco, como se fosse o estado natural das coisas.

Para romper essa barreira, o filme Dialogue avec mon jardinier (2007), de Jean Becker, com Daniel Auteuil, Jean-Pierre Darroussin e Fanny Cottençon, propõe uma saída clássica, dentro do materialismo histórico da dialética marxista: a adoção da cultura proletária, a que percebe por meio do domínio da natureza. Ao contratar seu amigo de infância para cuidar do jardim abandonado da família tradicional que se desfez, o pintor redescobre os laços familiares e comunitários, a tradição do fazer operário e, mais importante, sua visão de mundo, antes pautado pelo que produz (seu trabalho nas ferrovias ao longo da vida), e que é substituído pelo que cria (hortas e jardins, seu hobby que acaba virando profissão na aposentadoria).

Assim, não é o convívio “natural” com as plantas que formata as idéias sobre o que é visto, mas seu tratamento, ou seja, a mão na terra, o ato de regar, a colheita cuidadosa e o aproveitamento dos frutos. Não se trata de uma volta à natureza, mas a recuperação da capacidade de enxergar o mundo por meio da ação do trabalho não alienado, no caso, o do jardineiro liberto de sua faina proletária, que está livre para o trabalho prazeroso o dia todo, previsto por Marx quando a humanidade se libertasse de seus grilhões.

O filme, portanto, não é uma gracinha que todos admiram por ser “humano”. Mas uma exposição dos motivos marxistas da História, produzido num país que é, ou foi, o centro do pensamento revolucionário desde a Tomada da Bastilha e que, com a Comuna de Paris, insuflou Marx e Engels a produzirem sua obra que mudou o mundo. O pintor, ao adotar a visão operária, se desaliena do mundo onde estava confinado e recupera sua capacidade de ver, sentir e pintar. Não está mais a serviço das encomendas ou das frustrações de um trabalho que, como qualquer outro, apesar de ser parte da cultura, lhe provocava aborrecimentos.

A verdade é que, para recuperamos o que perdemos no comportamento, na cultura e no sonho, vemos um filme argentino. E para que possamos nos civilizar, avançar, nos conectar com o pensamento clássico da libertação humana, vemos um filme francês. O operário apaixonado pela esposa admirava os olhos do seu grande amor. No olhar está a chave do enigma. No desfecho, quando o operário parte, são exatamente os olhos da mulher que aparecem vazados, como nas estátuas gregas. Uma referência à cultura clássica, que precisamos revisitar todos os dias para não nos deixar enredar nessa soma de armadilhas que nos aguardam em cada esquina.

Cinema, o grande amor de nossas vidas, tem esse dom: nos colocar diante da criação de alto risco, a que não teme fracasso comercial e fala diretamente ao nossos olhos, que, como diz o lugar comum, são as janelas do espírito. Por essa janela entra a luz, as cores, os instrumentos de trabalho, o grande peixe cobiçado nas pescarias. Não se trata de celebrar o figurativismo tradicional, mas o de recuperar a força da percepção liberta dos ditames da sociedade do espetáculo. Tudo no fim vira produto, mas como diz o poema vendo no mercado o que liberta.

RETORNO - Imagem desta edição: Daniel Auteuil trabalha, Jean-Pierre Darroussin observa. E vice-versa.

25 de março de 2010

STRANGE DAYS E 2012: APOCALIPSE ONTEM E HOJE




O Apocalipse é uma das mercadorias do tempo, assim como o horário do almoço ou o período de férias (se formos seguir o rastro das observações de Guy Debord em A Sociedade do Espetáculo). No eterno presente, que é a imposição de tempo do sistema econômico que nos rege, férias, pausa para a refeição ou fim dos tempos são eventos com roupagem cíclica: eles se repetem sem interferir na hegemonia do tempo único imposto pelo capitalismo. São produtos como qualquer outro e obedecem à roda viva da produção e consumo, que escraviza corpos e mentes como se fosse algo “natural” e por isso, incontestável.

Nos anos 90, a proximidade do número redondo, o ano 2000, provocou um frenesi em torno do Apocalipse, que se nutria do texto bíblico de S. João e das profecias de Nostradamus. Foi uma mercadoria que ganhou intensidade conforme se aproximava a representação máxima desse final dos tempos, o reveillon da virada para o chamado novo “milênio”, a palavra que gastou de tanto uso e hoje está esquecida (mil anos passaram em menos de dez).

Como não aconteceu nada demais, como era de se esperar, o Apocalipse precisou de uma nova embalagem para continuar funcionando como mercadoria. Para isso, alimentou-se de novidades explícitas do novo século: o tsunami, onda gigante que varreu a Indonésia; a derrubada das torres gêmeas de Nova York, que interrompeu a arenga internacional sobre a integração entre nações e a Pax americana; e a profecia maia sobre 2012, uma nova data tirada do anacronismo da História transformada em arena do espetáculo. O marco próximo e assustador serve para gerar novos produtos de consumo, na indústria cultural e de entretenimento, e seu entorno, a astrologia e a ciência mutante e adaptável para a circulação de produtos.

Um dos filmes sobre o velho Apocalipse, aquele que foi desmoralizado pela besteira do reveillon 2000, é Strange Days (1995), de Kathryn Bigelow, com roteiro do seu marido na época, James Cameron. É sobre a ruptura das fronteiras das mercadorias da indústria audiovisual, pois no lugar de filmes, segundo a profecia do filme, teríamos o fluxo permanente de imagens e sons percebidos diretamente na cabeça dos compradores (o que se concretizou com a internet). Essa ilusão, pelo excesso, precisava de cada vez mais radicalidade na sua produção e é por isso que a transgressão é a lógica para seduzir os que podem pagar.

O anti-herói do filme, interpretado por Ralph Fiennes, que se chama Nero exatamente porque precisa ver o circo pegar fogo para continuar vivo, é o mercador das cenas brutais que encantam as pessoas imobilizadas no sistema. Recusa-se a vender assassinatos e mortes, mas é empurrado para isso pelas circunstâncias, onde um ex-amor faz o papel de tornassol de uma explosiva combinação química, quando entra de tudo, desde estupro até execução sumária nas ruas de Los Angeles.

Qual a diferença dos antigos filmes com essa realidade de imagens sem forma que tomam conta da paisagem? No cinema ultrapassado, havia um fim, um the end, diz a ex-namorada, interpretada por Juliete Lewis. Esse alívio não existe mais. A esperança é que a virada do milênio traga o desfecho do pesadelo. Mas o que acontece é apenas a resolução de um crime, graças à intervenção de uma mulher apaixonada por Nero, a motorista de limousine interpretada por Angela Bassett . Tudo se reduz a um caso policial com final feliz e com direito ao beijo deslumbrado.

2012 (feito em 2009 e dirigido por Roland Emmerich) joga mais pesado. É a fantasia americana de se livrar do resto da humanidade e ficar com a parte nobre do planeta, o Terceiro Mundo sem seus habitantes para atrapalhar. A arca que salva os eleitos que pagaram para sobreviver revela as imagens do estrago que a destruição provocada pelas manchas solares provoca por toda parte. Para nós, brasileiros, sobra o deboche: é o único lugar onde o Apocalipse desencadeia uma corrida suicida aos mantimentos, já que somos mesmo esses macacos famintos, na visão deles.

A derrubada do Cristo Redentor acompanha a destruição de todos os símbolos da civilização que se esvai: a Basílica de São Pedro (os americanos jamais vão perdoar o catolicismo), a Torre Eiffel (jamais vão perdoar a defecção francesa no Iraque), o monastério budista encravado no alto da montanha (toda devoção será castigada). Resta apenas a família que estava separada e se une na tragédia, já que o Apocalipse cuidou de levar o sujeito que ocupava o lugar do pai das crianças (este, interpretado pro John Cusack). E fica também aquela porção da humanidade milionária ou feita de alguns outros espécimes que acabaram inundando a arca nos minutos finais: todos eles vão reconstruir o mundo agora livre do excesso de gente pobre.

O novo Apocalipse é um alerta para a sucessão de eventos que estão matando em massa por toda parte (como, recentemente, no Haiti e no Chile). É demais o número de terremotos e furacões e tsunamis. Algo está errado. O clima tem sido usado como arma, essa é uma evidência que os cientistas sérios já admitem, apesar da incredulidade dos eternos desconfiados de teorias conspiratórias. Parece que a idéia é fazer uma limpa geral, onde só sobrariam umas 500 mil pessoas. A pergunta é: como vão sobreviver os donos do mundo sem escravos para sustentá-los?

A diferença entre os dois filmes é radical: Bigelow é cineasta da pesada e faz um thriller de prospecção de comportamento coletivo numa época de intensa manipulação do medo da população, enquanto 2012 é uma bobagem avassaladora que deixa no chinelo todos os outros filmes de catástrofe. Uma onda que atinge o pico do Everest é o sinal da demência absoluta que tomou conta de Hollywood na sua faina de produzir mercadorias que o tempo dissolve na primeira curva.

RETORNO - Imagens desta edição: a primeira é John Cusack com Morgan Lily em "2012" e a segunda é Ralph Fiennes e Angela Basset em "Strange Days".

EXTRA: FOI-SE O GRANDE MESTRE

Morreu István Jancsó, grande historiador da USP, nascido e criado húngaro mas brasileiro por escolha e devoção. Foi torturado e preso, mas voltou. Tive a sorte e o privilégio de ser seu aluno em mais de um curso de História Colonial. Já o citei aqui várias vezes. "É complicado" dizia sempre quando abordava um assunto, principalmente da nossa História. O Brasil é complicado. Escasseiam seus decifradores, suas grandes cabeças. Seu livro "Na Bahia, contra o Império", é um clássico.