31 de julho de 2004

Diário da Fonte
O GOL EXTREMO DE ALEX


Futebol é ficção. Isso não quer dizer que seja irreal. Pelé, por exemplo, é um personagem, e nada mais real do que o Rei. Sempre relembro, a meu modo, e com minhas imagens e conclusões, o que os outros descreveram com suas certezas. Ou imagino, como qualquer torcedor comum, campeonatos que nunca existiram, jogadas inverossímeis, campanhas memoráveis que não saíram do quarto do sonho. Um lance tem me perseguido nos últimos dias, parecido com tantos outros, mas único nos seus desdobramentos. Trata-se do momento decisivo de um campeonato. Os times não interessam. O certo é que Alex está parado, exausto, no último segundo do jogo empatado, pronto para bater uma falta com barreira. Ele deixará o desfecho a cargo do destino, a bola.

PROFECIA - Noto que Alex toma impulso arqueando os dois cotovelos. Sempre faz isso e agora fará como nunca. Mas antes deixem-me falar de seus músculos transfigurados pelo cansaço e o suor. As pernas já não lhe obedecem e ele fica numa posição parecida com aqueles que teimam em ir para certo lugar mas o corpo insiste em tomar outra direção. Apenas vislumbro esse gesto potencial, pois ele está imóvel, de cabeça baixa, mas com os olhos superpostos, saindo das órbitas, que é o jeito de os visionários enxergarem o invisível. Ele sabe que não pode mais confiar na sua inteligência, derrubada pela tensão de inúmeros toques que não tiveram repercussão merecida, passes que conseguiram colocar atacantes cara a cara com o gol mas não cumpriram a profecia das arquibancadas, que sempre se antecipam a favor da sorte. Alex sabe, nesse instante supremo, que também não poderá contar com sua precisão de gênio, pois o pé certamente não vai chegar no impulso certo para conseguir o que ele gostaria que acontecesse. Sua única saída é acreditar que a bola, ao ser tocada pela graça do seu chute, poderá tomar vida própria, como aconteceu tantas vezes. A bola, logo que é colocada em jogo, aprende rápido que deve se dirigir às goleiras, mas há vários caminhos possíveis. Sua ferramenta mais conhecida para chegar a essa conclusão é o cruzamento em diagonal, já que as paralelas são um passe monótono e burocrático da zaga para atrair atacantes e assim abrir um claro no meio do campo. A diagonal é a transmutação da linha reta que sonha com o círculo e por isso corta caminhos e vira jogos com extrema competência. Mas Alex não pensa nisso nem em nada parecido. Ele desistiu de pensar e quer que a bola tome o seu lugar.

SURPRESA - O goleiro, do lado de lá da barreira, não vê Alex, que não tem altura para se sobressair naquela distância. Pressente apenas que o chute virá como uma visita surpresa e poderá chegar em qualquer canto, de qualquer direção e em qualquer velocidade. Prepara-se e confia também na sorte, porque nenhum treinamento poderá prepará-lo para o que virá a seguir. O goleiro sabe que a bola alcança a velocidade da luz e no momento em que o pé do atacante tocar na criança, ela já estará ao alcance dele, goleiro, ou então se perderá pela linha de fundo ou beijará a rede. Alex conhece aquele goleiro e prefere apostar que não poderá surpreendê-lo, pois esse adversário deve estar preparado. Por isso puxa os cotovelos, coloca um pé atrás e com o outro firma a coluna que vai segurar o templo do chute. O pé recuado então viaja pela perna em movimento e quando chega perto da bola entrega-se para não mais ter outra chance. O pé desiste de chutar quando decisivamente chuta. Por isso o lance parece, no início, que não irá acontecer de verdade. Mas o pé de Alex, o jogador que desistiu de pensar nesse instante extremo, serve de faísca para a bola que enfim arranca em direção ao nada. A bola adquire vida própria e projeta-se por cima da barreira como se quisesse atingir as cabines de rádio, como se quisesse pipocar no meio do caos popular, como se quisesse também desistir do que lhe deram de bandeja e que ela jamais poderá recusar. Depois do chute, Alex vira-se para o lado, como se estivesse saindo em direção ao vestiário. Estava entregue e o jogo terminara. Nem tinha forças para decidir o campeonato nos penaltys. Não arriscaria seus companheiros e toda aquela torcida.

PÂNICO - Mas a bola sabe que não tem impulso para cruzar a linha de fundo. Tomou altura demais e vê-se no pânico da descida. O goleiro troca de pernas para adivinhar o canto que ela vai decidir a partida e esse segundo é a sua perdição. Pois a bola, acompanhando a loucura da jogada, desfaz-se em vácuo tomando um túnel que algo construiu em torno, talvez a expectativa do público, talvez a ansiedade dos jogadores, talvez o terror dos telespectadores, que estão longe demais para acompanhar todos os cacos daquela ruína de tempo. A bola desiste de ir longe, mas também não permite que acabe encaixada num goleiro qualquer de um time qualquer. Ela precisa mostrar que recebeu o toque como um presente e que poderá desembrulhá-lo antes que digam acabou. Ela, que gosta de quicar na frente dos goleiros para impressionar a crônica esportiva com ilusões, como a do morrinho artilheiro, prepara agora o gesto final. E descamba, como um armário, como o segundo Gilmar diante de uma falta batida pelo Neto no Maracanã, como um saco de batatas que se espatifa. Só que o impulso inicial tinha levado a bola longe demais. Por isso ela lambe o travessão e faz aquele chiado horrível para os goleiros, o do roçar imperdoável na rede. A bola então jaz no fundo do gol como um objeto sem vida. E Alex, que chegou a virar o pescoço para ver onde a bola tinha se enfiado, levanta apenas um braço antes que a torcida, que estava muda, comece a levantar-se como o Mar Vermelho diante de Moisés. Foi assim que vi essa jogada nesses dias. Algo que nunca existiu ou existirá, talvez. Mas serve para me dizer o quanto o futebol é apenas linguagem e que a inteligência suprema dos jogadores exige que os jornalistas estejam à altura do jogo que os sustenta, do futebol que os transcende, do grito que expressa a glória que ninguém nos tira.

30 de julho de 2004

Diário da Fonte
A GEOMETRIA DO JOGO

O conflito principal no futebol é a oposição entre a esfera e o retângulo, entre a curva e a linha reta e não a que existe entre times adversários. Tanto é que os atletas costumam trocar de camisa, conforme as conveniências da profissão ou da cartolagem, e muitos acabam juntos na seleção (há também o caso de torcedores que escolhem mais de um time de coração). Este jogo é uma arte de encaixes, sejam quais forem as cores defendidas ou as pessoas envolvidas nele.

ÁREA - O jogo consiste, primeiro, em manter a bola nos limites das quatro linhas retas do campo - quando ela sai desse espaço, é falta. Segundo, colocar a esfera no interior dos dois retângulos que formam as goleiras nas duas extremidades do campo (antigamente eram chamadas de arcos, como uma espécie de homenagem da linha reta ao que é curvo, ou porque a bola, ao entrar no ângulo superior, acaba curvando esse espaço decisivo do jogo, que é uma síntese do retângulo maior, o campo onde acontece a disputa). A partida é decidida por uma série de combinações entre a trajetória da bola em linha reta (o chute direto), em curva (a folha seca ou o chapéu) e a partir dos ângulos (escanteio, gol na gaveta ou rasteiro no canto). Essa geometria define a matemática superior do futebol, um jogo quântico à mercê das probabilidades. A área é o retângulo que funciona como sombra do arco, ou seja, se a bola fosse o sol colocado atrás da goleira, refletiria no chão as linhas que delimitam a área. É por isso que esse território é do goleiro, por ser uma projeção da sua cidadela. Cabe ao atacante devassá-la desbravando-a pessoalmente ou por eliminação, por meio da bola alta. O ângulo também é fundamental no futebol. Não apenas a gaveta, por onde entram os mais belos gols, mas o canto onde se bate escanteio, e a quina da área, lugar de dúvidas quando pode haver pênalty. São pontos sensíveis do jogo e quanto mais usados, mais beleza transfere ao conflito. A perfeição absoluta é o gol de escanteio, ou olímpico, em que a bola faz a curva, dispensa os atacantes plantados na área, confunde o goleiro e entra para fazer história. Não pode haver gol olímpico em linha reta.

ROMÁRIO - Existe a curva perfeita que é pura estratégia bem sucedida, com os passes longos de Gerson, Zenon e agora Alex. Existe a falsa curva, que é aquele gol do Branco contra a Holanda na copa de 1994, que foi direto no canto (o ângulo de baixo) e deu a impressão de ser em curva porque Romário, quando sentiu o vento do chute passar por trás arqueou a cintura como se estivesse deixando a bola passar. Por muito tempo achei que Romário viabilizou aquele gol decisivo porque tinha feito esse jogo de corpo. Mas as comemorações do tetra provaram, pela exaustiva repetição, que o chute foi de outra natureza: reto, direto, caindo da pouca altura para o chão. Romário é um ilusionista perfeito. Uma vez ele jogava contra o Madureira e o goleirão não deixava passar nada. O Baixinho foi lá e cumprimentou o arqueiro. No minuto seguinte fez o gol. Claro, tinha conseguido desconcentrar o adversário, que ficou emocionado com a homenagem no calor da luta. Outra do Romário foi aquele gol contra Camarões, em que levou três de roldão. Suas pernas confundiam os camaronenses fazendo dribles virtuais enquanto corria. Mas a curva não seria eficiente naquele caso. Então ele optou pela radicalização da linha reta, o chute de bico, desencadeado um segundo antes que o pé da zaga cortasse sua investida.

BICICLETA - Outra preciosidade é o que Peticov faz, colocando a bola em linha reta até 80% da trajetória. Aí ela opta pela curva exatamente para ficar fora do alcance do pulo do goleiro. Este, se atira pensando que a bola virá reto, mas sua mão apenas colhe o ar. A divindade desse tipo de gol é a folha seca do mestre Didi, em que a bola tem tudo para se perder na linha de fundo e como um rio faz a curva para cair no ângulo de baixo, oposto, deixando os goleiros paralizados. O gol de bicicleta é outra surpresa da curva. O jogador está de costas para o gol e só poderia chutar, pela lógica, contra o próprio ataque. Mas como o pé é curvo e o corpo flexível, ele cai de costas com a perna levantada e puxa a bola para dentro do gol. Um brasileiro, o Diamante Negro, inventou isso. Ninguém mais poderia pensar numa possibilidade dessas antes de um brasileiro. Um elemento importante na geometria é a triangulação. A tabelinha é feita de triângulos e nisso se especializaram Pelé e Coutinho e Romário e Bebeto, entre tantos outros. Hoje a tabelinha encontra forte barreira dos oponentes e exige muito mais do que habilidade e fôlego, mas precisão milimétrica. O chute que enche o pé e cai em curva, por extensão, difere do chute de três dedos, que é criado para inventar a manhosa rotação lateral da esfera. Foi Di Stéfano que fez um monumento à bola e colocou o seguinte: Gracias, vieja. No fundo, o futebol é encaixar a esfera num espaço limitado por linhas retas, uma impossibilidade teórica que só pode ocupar os espíritos livres.

RETORNO - O texto acima está publicado peloe editor Jésus Gómez no La Insignia. Foi Urariano Mota, que nos brinda no mesmo site com um aprofundado ensaio sobre Budapeste, de Chico Buarque, quem me sugeriu que enviasse o texto para Jésus. Ler Urariano é um privilégio para a cultura e a inteligência do país.

28 de julho de 2004

Diário da Fonte
O JORNALISMO DUBLADO


A fala que deveria imperar na mídia é a do jornalista. Ele é quem precisa tecer o texto, soma e síntese de linguagens alheias, que passam pela seleção dos critérios e fundamentos do ofício. Quando isso não ocorre, outros poderes se intrometem e decidem a hierarquia das falas. O caminho mais curto para esse equívoco é engessar a redação numa camisa de força, quando impede-se a publicação de estilos, mata-se a vocação autoral em nome de regras que estão a serviço do enterro do jornalismo. Não pode haver dissidência entre o articulista e o repórter. Ambos assinam e portanto precisam estar liberados para o estilo. Vale para os dois o enxugamento da frase, a objetividade, a clareza e a transparência. Sem isso o jornalismo é como filme dublado, em que tudo se parece com a obra original, mas há um tropeço fundo quando os personagens abrem a boca com a língua errada, a entonação artificial, o timbre deslocado.

ATROZES - Numa reportagem sobre a dublagem brasileira, destacou-se que esta seria a melhor do mundo. Como poderão saber disso os outros povos, que não falam português? Na mesma matéria, fizeram o que sempre imaginei que fazem quando há gritaria nos filmes: juntam o porteiro, o iluminador, o entregador de pizza e os atores para berrar uma algaravia sem nexo, muito comum nas dublagens. A repórter então proferia a revelação: eles estão atuando! Não, não estão, estão fazendo uma contrafação do som original (que é a metade da obra). Tenho a mesma sensação quando leio os jornais ou vejo o noticiário na TV. Vozes atrozes se interpõem no trabalho da informação e tudo fica por isso mesmo. O mais grave é o Jornal Nacional, essa newsletter do poder. Vejam como o país se recupera na véspera das eleições, como o emprego aumenta, como a renda per capita sobe, como essa-gente consegue ocupação de garçon, diarista, passeador de cachorro. Como é fofo ver também essa revelação da babaquice, o Carlos Nascimento, achar que a mãe do Palocci deveria ser arrogante, pois, afinaaaal, ela é mãe do todo poderoso fala-mansa e sorriso anódino. Mas não, a senhora se revela um exemplo de humildade. Mas que coisa, não Nascimento, quem diria? Tu que elogiaste o Kajuru para logo depois o próprio ser defenestrado da Band e ficaste de bico calado, como me saíste bobão no teu papel de âncora que assina, griffe do jornalismo dublado. Os âncoras assinam, ou fazem de conta com a caneta no final do telejornal, como é o caso da Padrão, para dizerem que escrevem, que possuem uma caligrafia pessoal, um estilo de caras e bocas, e que portanto se diferenciam dos outros, o povo, tão essa-gente que nem sabe escrever. Sem falar no biquinho feito diariamente pelo Isso-é-uma-vergonha, tão contundente em sua obviedade, que sempre começa suas arengas com ora! E estão há décadas no vídeo, tomando conta do horário nobre nesta nação de escravos.

HORRORES - Nem a Abril, que na época contava com grandes jornalistas, nem Mino Carta, que foi expulso da TV pelo Antonio Carlos Magalhães, nem o Jornal do Brasil, que era o veículo impresso mais importante e influente do país, conseguiram entrar para a televisão. A TV foi cair nas garras de Gargalhada, o Palhaço Sinistro. Ou do Genro daquele poderoso e seus descendentes. Ou dos edulcorados sanguessugas da nação. Ou do Pastor, o voz fina melífluo que arrecada zilhões dos seus cultos. A poderosa rede evangélica que toma conta de todos os horários, são os dubladores dessa televisão à deriva. Todos os dias e a toda hora a mesma coisa. A nação de escravos a tudo engole, sem tugir nem mugir. Ermos de cultura, arte, conhecimento, que foram erradicados da TV, ficamos plantados diante do aparelhos como Garfields sem verve. Saímos da TV e vamos ler um livro, ler os artigos do Rascunho, reler algo do Mais!, fazer poesia. Mas chega uma hora que precisamos voltar à imagem, descobrir algo. As emissoras estrangeiras da TV a cabo se locupletam na publicidade sem fim e no repeteco dos programas. Enquanto isso, geme de dor o talento não descoberto, o gênio desconhecido, o escritor sem editora, o cantor perdido na noite. Somos assim. Poderíamos ser melhores.

FUNDAÇÃO - O jornalismo dublado é aquele que copia gravações, se ajoelha diante dos manuais, fica quieto depois das demissões, difunde as porcarias da TV sem jamais denunciá-la. É o que aposta apenas em figurinhas carimbadas, que ocupam vastos espaços sem oposição nenhuma. Que todo ano faz a mesma matéria. Que acha graça sempre das mesmas coisas. Que põe plantão quando neva em São Joaquim, quando faz frio em Campos de Jordão (puxa, como está frio aqui!), que denuncia e depois esquece (e para dizer que não esquece diz que está de olho), que não ajuda a mudar nada, que entrevista os bandidos pixadores que sempre falam do que não entendem, ou seja, da tal adrenalina, e por aí vai. O jornalismo dublado é aquele que coloca todos os microfones deitadinhos diante de Lula, que pergunta como é que você se sente, como é que é essa coisa, e se com certeza você tem algo triste para confessar diante das câmaras, como perdi tudo, fiquei sem nada e todo mundo se põe a chorar. O jornalismo dublado é o monopólio da comunicação brasileira, que impera no caos como um abutre. Olha, mãe, é um avião, um pássaro, o Super-Homem. Não, é mais matéria sobre a alta e a baixa do dólar, o índice Bovespa, o Dow Jones, o seguro saúde que nunca prestou e que só agora prestaram atenção nisso. Poderíamos ser melhores. Poderíamos seguir o conselho do meu pai. Vai ser jornalista? Então funda o teu jornal. Fundei, pai. Chama-se Diário da Fonte. Ele não existe. À parte isso, tem todos os sonhos do mundo.

27 de julho de 2004

Diário da Fonte
POR QUE OS ESTÁDIOS ESTÃO VAZIOS?

Os estádios de futebol estão vazios porque os jogos começam às 21h40min. É tocante a cena em que milhares de torcedores ficam esperando a novela acabar para que o monopólio de comunicação imponha sua vontade. Sair por volta da meia-noite, pegar o ônibus e voltar para casa significa chegar de madrugada, tendo que acordar cedo no dia seguinte. Esse horário, fruto da falta de concorrência, contraria a natureza do jogo, que é puro conflito. Não existe escolha entre uma ou outra cobertura (ou um ou outro time de jornalistas). Tudo está sob as ordens da ditadura de comunicação e a percepção cansada acaba extinguindo a paixão pelo futebol. Tudo é feito de propósito: o dinheiro que entra pelo direito de arena (que só a Globo pode cacifar) dispensa a presença das pessoas nos estádios, que estão abandonados. Para que reformar os sanitários se o básico já está garantido?

REBARBA - O programa Terceiro Tempo, de Milton Neves, na Record, fez no último domingo uma boa matéria sobre o assunto, mas não tocou no ponto principal, que é o monopólio. O próprio programa é vítima dessa imposição, pois é obrigado a comentar jogos que só são transmitidos pela rede concorrente. O problema é que não há concorrência. Todas as televisões são ou parte ou coadjuvante da Globo. A própria Record, que pegou uma rebarba do campeonato brasileiro, só levantou a cabeça quando teve o privilégio de transmitir a Eurocopa, e deu um banho com a narração de Luciano do Valle, o número 1 (injustamente jogado no ostracismo, ele que inventou o bordão bem amigos da rede Globo, inspirado no meus amigos das crônicas de Nelson Rodrigues e surrupiado por Galvão Bueno). A mesmice mata o futebol. O objetivo é exatamente esse: destruir a estrutura profissional do nosso futebol para que o Brasil seja apenas um celeiro de craques para os clubes ricos do Exterior. Até a Turquia e o Azerbeijão (ou coisa parecida) levam nosso craques, que fogem da miséria. Houve um tempo em que Pelé nem precisou sair do Santos, todos nossos campeões abrilhantavam os estádios, que viviam cheios. O caso Amarildo, que defendeu a seleção de 62 com a baba bovina dos possessos, como disse o mestre Nelson Rodrigues, foi uma exceção. Ele foi comprado pelo Milan e com isso comprou seu passaporte para o repúdio do torcedor brasileiro, já que ele veio aqui defender o time italiano na derrota do campeonato inter-clubes, vencido pelo Santos. O que temos hoje são aqueles jogadores que, na visão primeiromundista, saíram da favela direto para a Europa, como se fossemos um não-país, onde tem só mato e pobreza. O sr. Cicarelli revelou-se no São Cristóvão e brilhou no Cruzeiro ainda muito menino antes de ir para fora. Mas a idéia errada é essa: nem estádio temos, o que temos são crianças famintas loucas para fugir daqui. Para onde Vossa Majestade vai? perguntavam para a rainha D. Maria I, de Portugal, quando fugia das tropas de Napoleão no início do século 19. Vou para o inferno, respondia ela, que acabou enlouquecendo nos trópicos. Essa imagem é a que colhemos, quando entregamos nossos talentos, que de tanta porcaria que engolem e tanto exercício físico sacana acabam engrossando o corpo, como aconteceu com o Roberto Carlos, irreconhecível com seu corpanzil e sotaque espanhol e o sr. Cicarelli, que parecia não conseguir movimentar-se antes de provar novamente que está acima de todos os outros jogadores fazendo gols inesquecíveis para a seleção. Kaká também: o garoto habilidoso saiu daqui para ser agora o mascote italiano, deformado pelos franskesteins de lá.

CORRUPÇÃO - É bom lembrar que o campeonato italiano está hoje suspeito de grossa corrupção. Então a roubalheira não é o motivo da nossa decadência. O motivo é o projeto político que nos transformou em curral da pirataria internacional. O Brasil soberano sempre surpreende, pois ainda possui times, e estádios, e torcedores e craques, que aos poucos também se transferem para times do lado de lá do oceano. Perder Alex, Adriano, Gustavo Nery, faz parte dessa tragédia em que se transformou o futebol pentacampeão do mundo. Que vence porque tem ainda um povo e produz não apenas jogadores de primeira, como treinadores de fina e competente estratégia, como Felipão, Luxemburgo e o grande professor Parreira. Mas o que nos cabe nas mãos é esse esforço sempre derrotado de times que tentam levantar a cabeça. Vejam o que aconteceu com o pequenino 15 de novembro, do Rio Grande do Sul, que precisou desfazer o time depois de quase empalmar a Copa do Brasil. As vitórias dos pequenos, como o São Caetano e o Santo André, não significa uma nova ordem do futebol, como quer Galvão Bueno (tão monopolista que colocou no seu site a narração de jogos memoráveis que ele não narrou), sugerindo com isso que o futebol brasileiro estaria mais democrático. É que os times tradicionais foram sucateados e transformados em tabula rasa por essa política criminosa. Os pequenos se destacam porque sempre houve futebol de qualidade em todos os cantos do Brasil e o sucateamento dos grandes deu espaço para eles se destacarem. O que existe é ditadura e destruição do patrimônio nacional. Por isso os estádios estão vazios.

FRONTEIRA - Somos uma nação de escravos. Ninguém reclama contra o monopólio da Globo, com raras exceções. Fico impressionado como o horário bandido é imposto até nos outros países da América do Sul. Lá estavam os peruanos esperando a Senhora do Destino ou o Fantástico acabar. O que é isso? Ninguém dá um chega para lá nesses ditadores, mesmo fora das nossas fronteiras? Tenho certeza que a Globo não quis a Eurocopa porque a Europa jamais se curva perante o Brasil e tem seus horários determinados por eles e não pela Globo. Futebol no meio da semana deveria ser às oito da noite, bem na hora do Jornal Nacional e da novela. Quando há jogo da seleção na quarta-feira, empurram dezenas de jogos (que nunca vemos) para a terça-feira, causando o maior transtorno aos torcedores, que nunca sabem o que está acontecendo. O resultado dessa falta completa de espírito público é a violência dentro e fora dos estádios, alimentando os programas especializados em sangue, que vivem conclamando a sociedade para a pena de morte e fazendo campanha contra a democracia. Colocam a culpa na democracia, como se democracia tivéssemos. Por isso foi tão bom participar da segunda edição da revista Fronteira, de Uruguaiana, que enfocou o tradicional e secular futebol da cidade. Uma edição enxuta, moderna e cheia de informações notáveis, levantando as raízes da introdução do jogo naquela região e belos textos dos repórteres Chico Alves, Marcos Lamberti e Ricardo Peró Job e artigos de Juarez Fonseca, Caco Belmonte, Ricardo Duarte e César Fanti, além de um poema de Luiz de Miranda. A equipe formada pelo secretário do município, Bebeto Alves, deu banho de bola e resgatou o gosto por esse jogo que nos encanta quando há de verdade conflito, paixão, arte, tradição e poesia.

25 de julho de 2004

Diário da Fonte
A ESTRELA DO BRASIL SOBERANO


A vitória na Copa América confirma a superioridade do nosso futebol, que ganhou ouro com a prata da casa. Rompeu-se a exaustão da mesmice das convocações e mais uma vez brilha a estrela do Brasil soberano: somos assim, por isso somos os melhores. As férias da chamada seleção principal deu chance para os craques emergentes, que assumiram a responsabilidade e derrotaram essa que é a pior seleção do mundo. Pois a seleção deles reflete o que os argentinos possuem de pior e não faz justiça à grandeza do próprio país. A decisão também serviu para dar uma cala-te boca nos urubus da conveniência, a equipe da Globo, que enterrou a equipe canarinho quando estávamos perdendo por dois a um, antes que Luis Fabiano disputasse a bola no taco e Adriano jogasse nossa vontade para o fundo da rede no último segundo.

JOGO DE CENA - Quando alguém se atira sem que o adversário lhe toque, como tantos fazem tantas vezes, para cavar a falta, é de linguagem que estamos tratando. O impostor tenta impor uma leitura a seu favor da jogada, para obter vantagem. Esse lance pode ser comparado a uma informação falsa numa reportagem, um erro de análise. A falsidade pode ser explícita e dá até cartão amarelo para quem tenta ludibriar a arbitragem fazendo-se de vítima. Mas muitas vezes o gesto é bem sucedido e dele pode sair até pênalty. Sinal de que existem várias interpretações para a mesma jogada e o futebol é um sistema de probabilidades. Qual a sua expectativa aos 47 minutos do Brasil x Argentina? A Argentina já era campeã, tanto é que tentou dar olé, o que mexeu com os brios da moçada de camisa amarela. O gol de empate foi sorte, fruto da garra, uma intervenção divina? Para mim foi justiça, pois apesar de termos o jogo inteiro passado a bola para os inimigos, nossos atletas se superaram. Um deles foi Gustavo Nery, muito ruim no primeiro tempo e impressionante no segundo. Adriano parecia adiar a própria facilidade de ganhar de todo mundo e se dirigir ao gol. Diego não explodiu, mas ajudou a colocar fogo na seleção, como sempre faz. E a chance que Felipe teve não foi aproveitada. Quando nos falta Alex e seus passes perfeitos, ficamos em apuros. Claro que esses diagnósticos sobre os destaques do jogo são pura especulação, pois não vi o jogo, apenas o assisti pela televisão.

BONS GAROTOS - Foi hilária a enrascada com que o monopolista Bueno e sua troupe se meteram quando Adriano decidiu. Esqucendo que o segundo tempo é sempre a revanche do professor Parreira, eles comentavam o quanto a Argentina era superior, como ganhou facilmente todos os jogos, ao contrário de nós, que penamos muito e ainda perdemos para o Paraguai. Já estavam dando tapinha nas costas desses bons garotos que, claro, jamais serão maiores do que os craques principais. Pois para mim esta é a seleção principal. Estou farto de Cafu, Roberto Carlos, Roque Junior, Belleti, Juninho Pernambucano e também de Kaká, Cocó e Kuku (como diz o amigo corintiano Luiz de Moraes). O sr. Cicarelli também enche por ser um consenso. A mim me parece que esses grandes e famosos jogadores encaram, na prática, a seleção como uma equipe de segunda categoria, já que vibram mesmo é com suas equipes européias. Já esta seleção campeã da Copa América tirou do fundo do baú, do garrão, como se diz em Uruguaiana, essa memorável campanha. Gostei demais de todos eles, apesar de implicar com alguns. Espero que o dialético Professor Parreira leve adiante essa formação e faça desta a base da seleção brasileira principal. Coloque as estrelonas no banco, professor. Elas precisam disso. E deixe solto essas novas feras, que sofreram com a mediocriadade do anti-jogo argentino.

MAYORALES - O que mais impressiona é como os argentinos têm certeza que são os maiorais, quando não passam de uns pernas-de-pau. Costumo dizer que o futebol argentino é uma correria que pensa ter a precisão de relógio cuco. Seus jogadores são grotescos, toscos e grosseiros. Representam o pior da Argentina, aqueles vizinhos invejosos que não suportam a presença de um campeão no outro lado da fronteira. Lembro da seleção deles em 2004, que não passou da primeira fase, depois de cantar de galo nas eliminatórias. A Argentina que sofre e luta, que impõe soberania nas ruas, essa não é representada na seleção. O país vizinho precisa montar um time que tenha a ousadia de ser diferente, de sintonizar-se com o que possuem de melhor. Enquanto enviarem pernas-de-pau machones em campo para tentar dar olé na seleção pentacampeã do mundo, estarão em maus lençóis. Respeito é bom e nós gostamos.

RETORNO - Zagallo, que berrou o tempo todo na beira do campo porque não aceitaria nunca a derrota, saiu-se bem com sua fé no destino manifesto da nação. Disse que tanto Brasil campeão quanto Argentina vice tinha treze (seu número da sorte) letras. A numerologia, em Zagallo, é uma forma de comprovar, qualquer que seja a combinação do jogo, a vitória do país (nome próprio da biografia dele) nos planos da divindade. Um dia o coração de Zagallo ficará depositado em algum campo de futebol e nem todos os minutos de silêncio serão suficientes para homenageá-lo. Apesar de ter sido o mais irritante dos treinadores, o patriota exagerado acabou, por teimosia e merecimento, tornando-se um dos heróis da Pátria. Saberemos então a verdadeira dimensão do orgulho de termos compartilhado tantos títulos.

Diário da Fonte
SOMOS MÍDIA



Os americanos sistematizam o que o Diário da Fonte já disse ao ser criado em 2003. A Internet é a mídia das fontes, daí o nome para este veículo, concreto, apesar de virtual, pois tem os fundamentos da comunicação: um editor/autor, leitores (poucos, mas fiéis) e interação com a produção jornalística e intelectual do nosso tempo. Dá até furo!, mas isso não tem importância, já que o furo perdeu o sentido quando a informação é simultânea e viaja na velocidade da luz. Sabemos agora que o colunista Dan Gillmor coloca o trabalho de jornalistas independentes na Internet como uma ameaça real à tendência monopolista das grandes empresas de comunicação.

BABACAS - Os jornais brasileiros imitaram tanto os americanos que foram à falência. Estão sendo comprados por aqueles para os quais baixaram as calças. Agora vamos ver de verdade o que é jornalismo de resultados. Na Folha, que fez esse tipo de transação (e a Abril também), foram para rua 50 pessoas da redação. Não precisam mais de jornalistas brasileiros, vai vir tudo prontinho do exterior, as análises, as resenhas, as reportagens, as colunas, as matérias principais, os editorais. Jornalismo brasileiro vai ficar confinado à Internet, pois aqui por enquanto temos liberdade de chutar o balde (daqui a pouco baixa a repressão, ou seja, a exclusão). O jornalismo americano, com sua babaquice estrutural, deveria ser motivo de sarro na imprensa brasileira se ainda tivéssemos a noção de grandeza que um dia tivemos (já zeramos uma vez a dívida externa, foi em 1945, quando derrubaram o governo que conseguiu essa façanha). Hoje temos esse simulacro de new journalism, sempre com aberturas metidas a interessantinhas, bem ao estilo do speech, discurso, americano, que começa sempre da mesma forma (vejam que coisa engraçada me aconteceu quando estava vindo para cá fazer esta conferência). Os americanos, por serem monopolistas, mergulham fundo no universo babaca. Leio no magnífico Rascunho (o maior jornal cultural do País), que o festejado Paul Auster (ainda não tive a dose necessária de paciência e oportunidade para ler) refez a história de H.G.Wells e colocou um personagem do passado encontrando alguém do futuro para fazer o quê? Claro que para impedir o assassinato do John Kennedy. Os americanos acham que podem driblar a morte e sacanear com o destino. Acham que podem refazer o mundo à sua imagem. Querem ser os reis da cocada preta e pontificar sobre a própria mortalidade. Isso cola para quem acredita neles. Quando a Folha mudou para imitar o USA Today, o jornalismo brasileiro acabou. As reportagens sumiram e a frescurada tomou conta da mídia. Foi a explosão dos Smiths e da obrigatória colocação da idade em cada pessoa citada. Tua-mãe-sem-calça, 52.

TAINÁ - A Amazônia brasileira não é patrimônio da ?humanidade? (nome de batismo dos americanos, que se sentem os únicos humanos), é patrimônio do Brasil. Não faz parte do ?planeta? (terra de ninguém sob a guarda dos Estados Unidos), mas do território nacional. A Amazônia, como toda floresta, corre risco, mas existe até hoje porque foi preservada. D. Pedro II não deixou ninguém entrar, nem o van Humboldt, nem permitiu navegação no rio Amazonas. Fechou as portas para a pirataria internacional. Enquanto eles destruíram todo o mato que tinham, aqui ficamos com a floresta inteira. Agora eles vem dar lição de moral. O Brasil embarca nessa canoa furada ao revelar sua fraqueza em filmes como Tainá. O filme formata a percepção futura sobre a Amazônia, o que o torna não-inocente, apesar de ser uma obra concebida para o público infantil. De que trata o filme? Menina órfã é criada pelo avô. Ou seja, está desprotegida, sem pai nem mãe. Não pertence mais a nenhum povo, está à mercê dos bandidos traficantes de animais. Precisa ser protegida. Por quem? Pela bióloga mãe de um menino ruivo. Este, veste-se com roupas de baseball e quando se entusiasma diz yesssss. O menino ruivo e a menina índia órfã é o casal do futuro: o Brasil, ou melhor, a Amazônia, entra com Tainá, símbolo da floresta que corre perigo; o pensamento politicamente correto (invenção americana para encher o Terceiro Mundo de culpa) entra com o ruivinho gritador de yes. Fez o maior sucesso. Entrou no currículo escolar. Tem uma estrutura de filme da Disney, como já foi notado. Humor, personagens, situações, tudo chupado da Disney. Alguma dúvida para quem serve? Vem aí Tainá 2. A aventura continua: a do olhar sobre o trabalho que aborda nosso território. Amazônia não é terra sem História. Tem um povo dentro, o brasileiro. Pertence à nação chamada Brasil. Portanto, os filmes sobre a Amazônia precisam tomar o partido do país, e não da apropriação global. Assim como o poeta amazônico Thiago de Mello tomou partido pelos excluídos.

24 de julho de 2004

Diário da Fonte
REDAÇÕES, RUÍDOS E POETAS



Redação é um porre, mas não há trabalho melhor. Ficar o tempo todo confinado entre imensos janelões (como a do Estadão, na marginal Tietê), tetos escabrosos (como as da Lapa de Baixo, na Editora Três), colunas cheias de pastilhas (como na velha Folha, na Barão de Limeira), ou agora diante de telas luminosas (cavernas de Platão, como diz Marco Roza) é um ofício que te afasta do mundo, apesar de o mundo ser sua matéria-prima. A pior redação foi a da Record. O prédio tinha mil descaminhos para se chegar até ela, não haviam janelas nem nada que revelasse a vida lá fora. O telespectador sabe mais do que nós, dizia eu, provisoriamente colocado na direção do telejornal. Eles tem o zap e nós umas três ou quatro equipes para cobrir o mundo.

RASCUNHO - Recebo o magnífico Rascunho, o maior jornal cultural do país (cada vez mais só, agora que o grande Mais!, da Folha corre risco de vida), que tem belo texto do poeta Thiago de Melo sobre Pablo Neruda. É uma aula de História, que carrega palavras e climas perdidos, no tempo em que existiam poetas/bandeira, os que sintetizavam nações ou continentes, que fundavam países e marcavam épocas. Ficamos sabendo detalhes como a paixão de Neruda por Lord Jim, de Conrad. Emociona também saber que Neruda, desafinado e com voz nasal, cantava nos ágapes e era respeitado. Vá hoje abrir sua boca para tentar cantar qualquer coisa. Imediatamente surgem assobios demonstrando que você está com a melodia incorreta, ou cantam em cima do que você está tentando entoar, ou simplesmente começam a falar sobre outro assunto. Não há mais interesse nenhum pelo Outro, nem simpatia ou admiração. As pessoas com grandeza continuam raras, mas não há mais reconhecimento. Faz tempo que não vou a shows ou teatros. Desisti porque na platéia havia sempre inúmeros pretendentes ao estrelato que faziam de tudo para acabar com o brilho de quem estava no palco. Vi isso com a Gal, com o Muddy Waters e tantos outros. Por isso João Gilberto, o gênio maior, baixa a repressão. Não tem outro jeito. João Gilberto é a expressão máxima do silêncio necessário para existir música. Numa sociedade que privilegia o ruído, a falsa música é a que manda. Isso acaba se espalhando para todos os gêneros. Até mesmo Bob Marley e sua troupe jamaicana, que cheguei um tempo a aturar com simpatia, hoje me soa execrável, porque tem sempre alguém tentando impor para a vizinhança o som de lata do reggae, musiquinha gritada e chata. Nem falo na hecatombe cultural mundial, o rap, e na catatonia tecno.

POP - Os jogos da seleção tem impedido que eu veja direito o Meu Cunhado, no SBT (que é todo em cima da Família Trappo, com Bronco e tudo). Num desses programas (onde Golias mata a pau imitando Totó), havia uma seqüência regada pela versão brasileira de Suave é a Noite. Canção que embalou meus verdes anos nas noites de inverno, cantada por Moacir Franco. Pois o grande e genial cantor (e esforçado, e não péssimo, como já disse aqui, humorista) fazia dueto acho que com a Elza Soares, que distorcia a voz e espichava as silabas finais. Esse maneirismo já encheu. Para que se fazer de interessante na hora de cantar? Isso veio da música pop americana, que de tão pobre precisou que o ruído fosse espichado ao máximo para caber nos minutos regulamentares das canções populares. A gritaria pop, quando uma frase musical é repetida até a demência, me parece pior do que qualquer estação do inferno. Para que isso? Deixem Moacir Franco cantar como sempre. Não se trata de saudosismo, é sofisticação pura, é o Brasil de sempre entoando uma das mais belas melodias. É brega? Brega para mim é o esganiçar do vibrato final das frases musicais, acompanhado sempre de torcidinhas cool do nariz. A Leila Pinheiro, que destruiu toda a bossa nova com esse tipo de expediente, é um exemplo de como não saber cantar. A Marina, que encheu o saco nos anos 80 e 90 e graças a Deus está fora do circuito, é outra mala. Esses cantrizes e cantrozes são o exemplo do cárcere punitivo a que nos submetem pelo ouvido. Quando o alto falante da rua grita pamonhas, pamonhas, pamonhas, é sobre você que estão falando. Você é o play-ground dessa canalha. E agora ainda tem propaganda política.

FABULARIO - Mas me desviei do assunto. Por muito tempo impliquei com o Thiago de Melo porque ele abria os braços, solene, e usava aquelas batas brancas de profeta. Depois descobri que não era ele o problema, já que é um poeta que tem sua marca, com belíssimos trabalhos, como Faz escuro mas eu canto. Um homem perseguido politicamente e que nos traz a Amazônia, do Brasil soberano, merece respeito. Eu implicava com seus clones, com seus imitadores, que vinham com aquelas obras toscas intituladas fabulário, ou coisa que valha (acentuando sempre o áááriooo final), que até hoje me dão urticária. E o Thiago de Mello entra de contrabando nessa história, pois essas palavras estão mais linkadas a uma leitura tosca das boas traduções que ele fez do Pablo Neruda. Thiago traduziu Neruda e ficou abrindo os braços vestindo bata branca. Estava na dele, mas atraiu uma multidão de chatos, todos fazendo obras fabulárias. Haja saco. Saculário. Balançário. Purpuraaal. Coisas de pouetas, aqueles que estão sempre em busca do teu verdadeiro tu.

23 de julho de 2004

Diário da Fonte
RECREIO DE IDÉIAS

Iniciei vários posts e não concluí nenhum Sinal que as idéias estavam com pouco fôlego? Ou existem coisas que podem ser ditas com muito menos espaço? Cortar, cortar, editar, reescrever. O Diário da Fonte tem disso também, apesar da tentação da facilidade que oferece na hora de publicar. Sem a intermediação da gráfica, os textos se soltam como loucos que descobrem a chave do hospício.

IMPRESSÕES - Comunicação, hoje, pela sua diversidade e rapidez, é Internet, mas o poder da influência e da repercussão oficial continua com a mídia impressa. Jornais e revistas que passam pelas gráficas ainda contam a seu favor com o poder transferido pela tradição e pela existência física, já que são objetos de manuseio amigável. Na Internet, os blogs, fotoblogs, sites, portais e orkut não contam com essa realidade concreta e ainda estão pendurados no pincel da realidade virtual. Também não existem ainda formatações definidas no espaço virtual (apesar de inúmeros exemplos bem sucedidos) que possam garantir uma identidade, digamos, física, a esses produtos recém criados. O poder existente dentro da mídia impressa, além do que já dispõe, conta agora com o apoio da Internet, que costuma ser tratada como mídia de apoio. E se essa situação se revertesse? Imagino que haveria mais pressão para que, pelo menos os jornais diários, voltassem a ter a antiga ousadia.

TEATRO INFORMAL - Obedecemos a alguns scripts básicos, roteirizados por concentradores de poder. Um deles é cair na armadilha depois de morder a isca. Aconteceu com os celulares. Tungaram o dinheiro de milhões que se encantaram com o uso facilitado dos novos aparelhos. Não adianta colocar a Diarista com o telemóvel pendurado no pescoço se você paga uma nota preta para receber chamadas, imaginem teclar para alguém. Outro script é o desenraizamento. Os ônibus urbanos, com as linhas redesenhadas pela burocracia, vão de nenhum lugar (os terminais) para lugar nenhum (os outros terminais). A população em trânsito vive nas estações. Acabou-se o vínculo com o bairro, que tornou-se periférico à linha de ônibus, que era um dos elementos de costura comunitária. Por isso o teatro de cada um é equivalente a um monólogo, feito de gestos de uma peça individual que tem a própria mente como espectadora. Mas o pior é quando, nas viagens urbanas, juntam-se duas solidões. Numa dessas viagens, ouço o garoto ao lado falar. Ele tem o visual cool, a fala arrastada cool. Seu esforço de ser cool é desenvolvido diante da menina que a toda hora abre-se num sorriso moncórdio e vazio, para fazer presença diante do nada e assim refletir o nada que está ouvindo. O garoto faz uma voz fanha forçada, toda redonda e melosa. De vez em quando ele precisa reforçar o coolismo de tanta arenga e começa a falar aos arranques, dando rápidas sacudidas na cabeça e torcendo a boca para o lado num maneirismo muito comum hoje. A voz então perde a fanhura e vai se esgarçando,estridente, alteando o tom para depois voltar ao estado anterior, de conversa banhada em catatonia. Meu e cara são as muletas principais. O que será isso?

EXCLUSÃO - A juventude foi inventada nos anos 60. As pessoas jovens sentiam-se excluídas, então criaram um mundo à parte, que excluía os adultos. Esse mundo à parte foi descoberto pelo comércio e a política, que incentivaram a brincadeira para multiplicar os lucros. Acabou se consolidando e desaguando na atual situação, época do esporte radical, que eu defino como o desprezo pela paisagem. Rebentar caminhos precários com máquinas possantes ou se atirar no abismo amarrado pelas pernas é de uma estupidez sem fim. No lado oposto, ficam amontoadas as pobres criaturas da Terceira Idade, uma invenção que retira a sobriedade dos velhos, que se submetem, com medo da exclusão total. Eu tinha uma tia-avó, a Tita, que era velhíssima, mas nunca foi da Terceira Idade. Nem meus pais, que morreram com mais de 60 anos, jamais fizeram parte desse grupo. Agora diz-se que a Terceira Idade é a melhor. Não é não. A melhor idade é quando se tem 20 anos e o mundo explode na tua mão. Essa é a idade que pega. O resto é programa de índio, quando a vida realmente nos desafia.

22 de julho de 2004

Diário da Fonte
TODAS AS LETRAS DO JOGO



Há mais sinceridade na transmissão esportiva do rádio. Todo mundo sabe que a narração sem a muleta da imagem é pura representação, uma visão unilateral do jornalista que transmite. O que não se relativiza é o resultado, o resto depende da percepção do locutor. Na TV parece que estamos vendo tudo, mas vemos apenas lances isolados de uma realidade que, em seu conjunto, fica escondida o tempo todo, pois não temos a visão que teríamos se estivéssemos no estádio. Precisamos então confiar no narrador. Quando só existe um narrador, graças ao monopólio da Globo, ficamos na mão apenas desse. E de seus colaboradores, que descrevem a estratégia, fazem a síntese do que ocorre no quadro completo da competição. Os telespectadores ficam na mão, iludidos que acompanharam tudo. Mas o que viram foi apenas riscos luminosos coloridos num espaço de linguagem cifrada, cheia de jargões e enigmas.

PARREIRA - O Brasil x Uruguai desta Copa América, decidido nos pênaltys a nosso favor, foi um conflito em treze letras, segundo avisou Zagallo no final (e por isso vencemos, porque a sorte, retrato sorridente do destino, estaria do nosso lado). Mas é sempre bom lembrar que o Uruguai nos ensina e graças ao Uruguai somos hoje pentacampeões do mundo. No fatídico 16 de julho de 1950, quando ocorreu o Maracanazo, nasceu o anjo vingador Pelé, segundo o próprio depoimento do gênio, que viu o pai chorar pela primeira vez e esse choro doeu tão profundamente que o craque menino prometeu revanche. Quando conseguiu essa revanche pela primeira vez em 1958, derramou-se. Era o choro feito de memória, uma solidariedade à geração anterior que não conseguiu ser vencedora e que dependia dos pés dos garotos para atingir a glória que escapou das mãos. O choro, em Pelé, é o resultado da opção que fez pela vitória, a mais árdua que um jogador pode conseguir, vencer uma Copa. Se Pelé não chorasse por qualquer coisa, é porque não seria esse vencedor que cumpriu sua própria profecia e que ajudou o Brasil a celebrar sua grandeza. Essa lição teve desdobramentos. Em 1970, por encararmos o jogo decisivo contra o Uruguai como uma revanche de 1950, ganhamos. E quando estávamos por um fio nas eliminatórias de 1994 e dependíamos apenas de uma vitória contra o Uruguai, veio do Exterior o baixinho Romário para anunciar nova profecia, a de que seríamos novamente campeões. Aquele último jogo contra o Uruguai antes da Copa fez Romário chamar a si a responsabilidade. O evento Romário em 1994 transformou o professor Parreira no que ele é hoje: um dos exemplares desse pequeno grupo de brasileiros dialéticos, que na representação do conflito que é o futebol aprendem com a realidade que mostra as garras (os outros são Felipe Scolari e Luxemburgo). Podemos dizer que o segundo tempo de uma decisão é sempre uma revanche para o professor Parreira. O que mais gosto nele é que nunca se abala, é um estrategista frio que enxerga as principais demandas da luta e reage criativamente em cima dela. Ele não era assim antes de 1994. Ele foi obrigado a encerrar-se num grupo fechado para ficar avesso às críticas. Mas Romário, que tinha assumido a necessidade do tetra, mostrou a Parreira que ele precisava mudar para vencer. A prudência do professor (que ensinou o Brasil a jogar sem bola) serviu para sobreviver naquela Copa. Mas foi Romário que o trouxe para o lugar onde está, quando consegue que seus craques virem o jogo na hora certa.

SEGURANÇA - Eu vejo o futebol assim talvez porque tenha sido formado no velho dois, três, cinco, quando havia mais clareza sobre defensores, meio-de-campo e atacantes. Essa rigidez formou grandes jogadores como Djalma Santos (na zaga), Didi (no meio), Pelé (no ataque, no centro) e Garrincha (no ataque, na ponta), exemplares das posições existentes. Depois da laranja mecânica holandesa em 1974, que oficializou a correria e abriu o olho dos zagueiros, que quiseram ser também goleadores, o negócio ficou mais complicado. Não entendo direito essas categorias obscuras como os volantes, por exemplo, que seriam laterais que servem tanto para defesa quanto para o ataque. Ou não? Fala-se demais em posicionamento, que significa fixidez num evento que hoje oferece um rodízio completo de posições. Quando Robinho cai provisoriamente para a defesa, minha cuca funde. O que o cara está fazendo lá? O resultado é o gol de escapada, que é como chamávamos o contra-ataque nos anos 50. Coisa de pelada: como todo mundo vai para a frente, o time adversário pega a bola e sai correndo para fazer o gol, desguarnecido da velha zaga, aquela onde dominava Ademir, meu colega de aula no Colégio Santana, que era tão seguro (porque não ia para a frente, só defendia) que só tirava bola de puxeta, para humilhar. Ademir fazia parte dessa linhagem que nos deu rochas em frente ao gol. O resultado de tanta confusão é o Roque Junior ou o Junior Baiano: como eliminou-se a cultura da zaga verdadeira, parece que improvisam gente que não é do ramo e usa a defesa para quebrar todo mundo.

MIOPIA - O que me encuca é a complexidade do jogo, que não é percebido por mim a menos que alguém o descreva. As discordâncias entre Galvão Bueno e o Arnaldo César Coelho, apesar do uso da imagem, apenas reforça que tudo não passa de percepções sobre coisas que não se revelam inteiramente. Sei apenas que o Diego põe fogo na seleção, que Adriano é uma completa surpresa, que Ricardo Oliveira não tem a mínima importância (posso estar sendo injusto), que Gustavo Nery não disse a que veio, que Julio César defendeu um pênalty, mas tomou um frango, e que Alex é um gênio. Sou um cara da arquibancada que torce sem entender. Nelson Rodrigues entendia não só porque torcia, mas porque se recusava a ver direito o jogo (usava a miopia para ver melhor, ou seja, para livrar-se dos ruídos da representação), pois ele trafegava em outra esfera, a da linguagem apenas, e não a do futebol. Essa é a lição do mestre, muito pouco aplicada hoje, quando tantos entendem tanto de futebol. Ninguém confessa que dança na análise de um jogo. Compartilha-se certezas, há concordâncias mútuas pelo menos sobre os princípios e fundamentos da crítica esportiva. Não há espaço para os incautos, os ignorantes que podem ter um lampejo. Nem mais bom humor temos mais. Foi-se o tempo em que Juarez Soares anunciava: "Está chovendo e como sempre acontece nesta região de Ribeirão Preto, a chuva pode parar". No segundo tempo realmente parava. Aí o China: "Como previ, parou de chover". Isso não acontece mais na transmissão esportiva. Tempo em que não havia tira-teima e o pobre do repórter de campo Datena tinha que medir coisas no campo porque o patrocinador era um fabricante de trenas. Por isso o chamavam de Datrena.

RETORNO - 1. Virson Holderbaum e Mario Medaglia, generosamente, acham que levo jeito para escrever sobre esporte. Mas eles sabem que eu escrevo mesmo é sobre linguagem. Sou um narrador do próprio texto. Mario Medaglia dedicou sua vida profissional ao jornalismo esportivo. Trabalhei com ele no Jornal de Santa Catarina (quando inaugurou nesta região a cobertura completa de eventos esportivos na mídia impressa) e no Estado, o primeiro de Blumenau e o segundo aqui de Floripa. Ontem ,ele me enviou um alô por e-mail e prometemos uma conversa ao vivo. Nada como reencontrar antigos companheiros. 2. Brasil x Argentina, a final da Copa América no domingo, tem 15 letras. E agora, Zagallo?

21 de julho de 2004

Diário da Fonte
A MALA QUE GUARDAVA SEGREDOS



Recebo um exemplar raro de Outubro, meu livro de estréia, que reúne poemas escritos no final dos anos 60 e início dos 70. O presente é de Cláudio Levitan, que não só ilustrou maravilhosamente o livro, imprimindo a marca de seu talento luminoso, como participou da edição desde o seu início, pois foi ele quem me visitou em Blumenau um belo dia para conhecer os poemas. E dessa visita, relatada na orelha, nasceu a luz da nossa geração. Um livro cult, jamais reeditado, que nunca ganhou qualquer prêmio, mas que não é encontrado em lugar nenhum, a não ser bem guardado nas estantes de seus poucos e fiéis leitores. Quem tem não empresta, porque não volta. Qual o mistério de Outubro?

SOL E ESTRELAS - Desde 2001, quando coloquei na mão da editora Globo o último exemplar que dispunha, pois precisavam fazer meu perfil poético para divulgar o livro que eles estavam editando (No mar, veremos), que eu estava ermo de Outubro. Com a mudança da responsável pela edição, e também do andar onde estava instalada a diretoria de livros no edifício da Globo no Jaguaré, o exemplar sumiu. Comecei então, penosamente, a tentar encontrar um. Passaram-se três anos. Reencontro agora e custo a acreditar: um exemplar absolutamente intacto, novinho, como se estivesse saído da gráfica. Revisito a magia do livro. Os poemas que saltam na cara, a capa maravilhosa de Cláudio Levitan, letras pretas sobre fundo amarelo para o título e laranja para a paisagem que está estampada nela. Qual essa paisagem? O pampa, por certo, estilizado, com uma cerca que vai para o infinito, embaixo de gigantesco sol que mais parece um ovo frito. Em diagonal a esse sol (a capa e as ilustrações podem ser vistas no site), um pássaro em vôo decidido. Um primor de capa clean, vibrante, fundada nos princípios eternos da grafia e ao mesmo tempo totalmente de vanguarda, pois ?declara?que aquele não é um sol, aquele chão não é um pampa e aquela cerca são traços que nos carregam para o futuro. A cerca e o pássaro voam em direção ao sol, que tem as bordas roçando o chão. Só esse capa merecia ganhar um prêmio internacional. A contracpa é outra obra-prima. Aquele sol, desapropriado de sua luz e calor, cai sobre o chão numa cena noturna. Da casca desse objeto que cai, dessa lua que se parte ao meio, sai uma infinidade de estrelas em direção ao céu. Cena que, ao contrário da capa, não toma conta de todo o espaço disponível. Está enquadrado, num fundo branco. Essa é a viagem visual idealizada pelo nosso genial artista: o sol que se anuncia em outubro parte-se (ceguei-me em sangue de estrelas, diz um dos poemas) num parto de revelações e deslumbramentos.

EDIÇÃO - A edição do livro contou também com a participação fundamental de Juarez Fonseca (que fez primorosa diagramação), Ida Duclós (minha mais atenta leitora) e Caio Fernando Abreu, que às vezes ficava constrangido de sugerir algumas poucas mudanças nos poemas e que levou o trabalho para o patrocínio do Instituto Estadual do Livro do Rio Grande do Sul, presidido na época por Ligia Averbruck. Todos nós fizemos então a seleção dos poemas que eu guardava numa velha mala surrada dos tempos de estudante peregrino (e que virou uma lenda graças ao texto de apresentação de Levitan, onde está a frase que dá título a este post). Sete capítulos, como se fosse um romance: o primeiro sobre a anunciação do poeta (Se eu estiver chegando), o segundo sobre a poesia (Falo de coisas que sei), o terceiro sobre a solidariedade (Confio na solidão que nos une), o quarto sobre a barra pesada da época (Dói entrar na vida), o quinto sobre o amor (Maria, acende meu domingo), o sexto sobre a infância (O canto é uma fome, como a infância), e o sétimo sobre a leveza das coisas e da vida (Ah, essa mania de escrever para a eternidade). Tínhamos assim na mão um acervo poderoso de sugestões literárias. Um poeta desconhecido que diz a que veio, uma geração que sofre e tem esperança, um trabalho focado na sua época e que tem a ousadia de ser uma mensagem também para o futuro (Ao Brasil tenho um recado).

LÍGIA - Lembro que fiquei impressionado com a repercussão do livro. De repente, aquela geração que nada tinha, apenas sonhos estocados, resolve mostrar a cara e dizer que existe, no Brasil da ditadura. Por isso foi fundamental a presença no IEL de Ligia Averbruck, que adorou o livro, tinha plena confiança em Caio e aplicou o dinheiro público para cacifar uma obra original. Lembro que fiquei apavorado com a possibilidade de o livro ficar guardado no IEL, apesar dos esforços da Ligia. Houve um boato, não lembro, uma notícia, de que havia certa resistência em colocar o livro na praça e Ligia estava batalhando para que o trabalho saísse um pouco mais tarde. Era uma época de muita paranóia. Foi esse medo que me levou a marcar apressadamente o lançamento, que foi feito na Faculdade de Arquitetura da Ufrgs, local da vanguarda total, onde estudavam Gilberto Gick, Muts Weyrauch, Cláudio Ferlauto e Tabajara Ruas (apenas esse time, e que time!). Convites feitos apressadamente cometeram a maior gafe da história da minha vida. Um desses convites não chegou até Ligia, que não compareceu ao lançamento. Até hoje fico mortificado com isso. Ligia já foi para o Outro Lado e jamais pude explicar o que aconteceu, desculpar-me pelo indesculpável. Na rápida passagem que tive na W11, quando participei da produção de dezenas de livros para a Bienal de São Paulo, um jornalista do Rio, nascido gaúcho, me ligou. Disse: "Eu precisava te dizer isso, Nei. Outubro fez minha cabeça, mudou minha vida e eu nunca tinha tido a oportunidade de te agradecer e cumprimentar." É por isso que Outubro sempre nos emociona. Porque faz parte de uma onda tremenda de criação cultural brasileira e pertence a este país soberano e é nele que deita raízes profundas, de uma poesia que se insurgiu contra as modinhas da época, que não aceitou o silêncio imposto e que veio à luz em plena ditadura para ajudar a vida a fazer sentido. Só isso já justifica minha vinda a este mundo. Viva Outubro!


RETORNO - Recebo de Claudio Levitan a seguinte mensagem: " Recebeste, então! Valeu ter guardado todo este tempo pra desfrutar da tua emoção! Aqui em casa, reclamam muito de mim: sou um guardador de memórias e vivo sempre esquecido. ouvir isto de alguém, especialmente de ti, me conforta e valoriza todo este intervalo de tempo (que é uma vida!). valeu a pena".

20 de julho de 2004

Diário da Fonte
SIM, TEMOS HERÓIS

Falta um ghost-writer competente para Lula. O dele copia os ghost-writers de John Kennedy. Não pergunte o que a o seu país pode fazer por você, mas o que você pode fazer pelo seu país, disse um dia o presidente americano. Lula papagaiou tudo, piorando: "Nós não podemos ficar dependendo do que alguém pode fazer por nós. Temos que descobrir o que podemos fazer por nós mesmos". Além das frases toscas, é mais uma exaltação do individualismo absoluto, do qual ele tem se colocado como exemplo. Citou a mãe que criou um monte de filhos e nenhum virou bandido. Faltou dizer: isso foi possível porque ela vivia na era Vargas.

SAPATOLÂNDIA - "Se eu só tenho um par de sapatos, tenho que valorizar esse par de sapatos", disse Lula. O cara pode estar desempregado, nu, com frio e fome, mas tem um par de sapatos. Então ele olha para os pés e diz: te amo, sapato, és o maior sapato do Brasil. E virando-se para todos os lados, poderá exclamar: mas que sapato! Pronto, valorizou o sapato. Outra asneira monumental é de que o Brasil não cultua seus heróis. Cultua, sim. O povo saiu às ruas para cultuar Leonel Brizola no funeral do qual Lula foi expulso aos berros de traidor, traidor. O problema verdadeiro é que os heróis foram erradicados da grade escolar pelos professores que se acham revolucionários e são apenas uns bananas. O que medra nas aulas de história é a desmoralização do Brasil. Costuma-se dizer no ensino básico e secundário que o Brasil não fez a Independência, que a República não teve nenhum tiro, que a revolução de 30 foi apenas um acerto das elites sem participação popular e assim por diante. O Brasil fez a guerra da independência de 1821 a dois de julho de 1823 e saiu vitorioso. Morreram milhares de heróis. Só numa das batalhas, tombaram 400 bravos. A implantação da República gerou uma guerra que durou quase quarenta anos, de 1893 a 1930. A revolução de 30 engajou cem mil voluntários civis, só no Rio Grande do Sul, fora os outros estados rebelados, como Minas e Paraíba. Getulio foi recebido em delírio pela população do Rio de Janeiro, em carro aberto. Meu amigo Gastão de Magalhães, que Deus o tenho em sua Glória, estava lá e me contou. Seu Gastão jamais foi partidário de Getúlio. Seu testemunho é isento. Ele estava na Cinelândia e Getúlio passou de uniforme militar, ovacionado pela multidão. Esse herói está enterrado em São Borja. Vai lá, Lula, e deposita uma coroa de flores no próximo dia 24 de agosto, data que lembra a tragédia do suicídio de um presidente (depois dizem que no Brasil não existem pessoas sérias). Vai lá e cultue esse herói brasileiro, Lula.

PATRIOTISMO - Para resgatar o patriotismo enterrado, é preciso fazer como acontecia na era Vargas, quando participávamos do hasteamento da bandeira nacional e cantávamos o hino à bandeira. É preciso parar de falar mal de grandes heróis nacionais. É preciso contar a história de Siqueira Campos, por exemplo, que dá nome ao parque do Trianon, na avenida Paulista. De como ele repartiu a bandeira em vários pedaços e distribuiu para cada um dos seus guerreiros, antes de enfrentarem, armados apenas de algumas pistolas e espingardas, as forças de terra, mar e ar da República Velha. É preciso difundir os novos estudos sobre Duque de Caxias, patrono do Exército brasileiro. É preciso deixar de roubar a merenda escolar e erradicar a atual gangsterização da política. É simples. É preciso abrir as comportas do conhecimento e da cultura para todas as gerações, ermas de tanta escuridão e falta de informação. Tenho acompanhado o orkut e alguns fóruns culturais existentes nele. É de chorar o amor que a meninada tem por Glauber Rocha, a admiração pelo que ele fez no cinema, na política e na TV. É incrível a sede de formação da juventude brasileira, totalmente tolhida, que não tem acesso a uma televisão de qualidade, um jornalismo mais isento e atuante, uma cultura mais acessível, manifestações livres de imposições e panelinhas. O patriotismo começa com a liberdade. E já que Lula improvisa no besteirol, é melhor contratar escritores patriotas, que possam criar frases para ele poder transmitir um pouco de grandeza à nação. É cansativa essa sucessão de abobrinhas. Puxa, mas que sapato!

RETORNO - Recebo via correio, enviado por essa pessoa sem igual, Claudio Levitan, um exemplar do nosso livro Outubro, o que fizemois juntos em tardes intermináveis e noites de conversas sem fim. Meus poemas abraçados com aquelas imagens poderosas, eternas, desenhadas no maior capricho e talento sem fim de Claudio, essa multi-pessoa, que soube guardar o exemplar intacto, novinho em folha, como se tivesse acabado de sair da gráfica. Recuperei assim esse livro, luz da minha vida e da nossa geração. E pelo correio, Rubens Montardo Junior me envia o número 2 da revista Fronteira. Comento os dois presentes amanhã.

18 de julho de 2004

Diário da Fonte
A IMAGEM COSTURA O CAOS



A produção audiovisual americana é um assunto de Estado e está sob severa vigilância do Império. Serve para projetar a hegemonia na nação sobre todos os outros não-países, do deserto do Sinai à Amazônia, terras sem História, pelo menos a História que interessa, na conceituação definitiva de Ranke, papa da historiografia moderna do século 19. Para que haja eficácia, é preciso grudar o espectador na cadeira, basear o roteiro na ação. Isso só se consegue se as cenas forem curtas, portanto dependem da violência, de pessoas agressivas e impacientes. Não há gente cordata nesse universo porque a cordialidade engessaria a seqüência ágil dos eventos. Isso cria um paradoxo, pois a ação vertiginosa significa caos e como costurar o caos? Alguns truques resolvem a questão.

LISTAS - A bandeira listada dos Estados Unidos é o exemplo da imagem bem resolvida. É feita de listas, porque a lista é a representação de uma ruptura. Por isso os prisioneiros usam uniforme listado, porque significa que eles romperam a ordem e são identificados por essa quebra, esse rompimento. As listas da faixa de segurança no trânsito diz o mesmo: ali o trânsito precisa parar de fluir. Historicamente, as listas significam revolução. Não apenas a bandeira americana, fruto da insurreição contra a Inglaterra, está dividida em listas. A bandeira da Revolução Constitucionalista de 1932 também. São Paulo queria a ruptura de um regime de exceção, queria a volta ao republicanismo clássico, por isso usou a bandeira listada. O ícone nacional americano é bem resolvido porque acima das listas estão as estrelas, que mostram a nação unida depois da ruptura, ou a partir dela. Esse equilíbrio que se sobrepõe ao caos é fundamental na iconografia do Império. Por isso é obrigatório que em cada filme ela apareça, limpa ou suja, inteira ou aos frangalhos. Ela está sempre presente, seja qual for a situação. A bandeira mostra a importância da costura do caos por meio de uma imagem. Isso se desdobra numa infinidade de filmes, séries etc. A ação permanente levaria ao caos não fosse o esforço do Estado em manter a escrita. Vejam o caso da série de filmes de Máquina Mortífera. Mel Gibson está rompido com o mundo real, é um suicida que enlouqueceu de tanta ação. Quem o salva é seu companheiro, interpretado por Danny Glover, homem com família e prestes a se aposentar. A imagem de um parceiro certinho ao lado de um psicopata mostra como a ação leva o equilíbrio para a ruptura e como depois volta ao estado de normalidade, já que Gibson acaba casando com René Russo, nos filmes seguintes. Tudo resolvido. O caos, ou a destruição dos cenários e todos os objetos que estão nele, também serve para incentivar os consumidores a trocarem de produtos. O mundo descartável interessa à produção feérica de novas necessidades, desde que não ameace a integridade imperial. Para isso serve o happy-end, quando o que foi perdido no rastro da destruição se recompõe para novas aventuras, ou seja, novos produtos. A série Duro de Matar que o diga. Segundo um clássico ensaio sobre o magnífico cinema de Jerry Lewis, seus personagens não conseguiam manipular a diversidade de objetos fabricados para o consumo, o que era fonte das suas trapalhadas. Sua solução era simples: colocava tudo na bolsa de um aspirador de pó e depois introduzia uma agulha nesse saco enorme para explodir o conteúdo na cara das pessoas artificiais. Grande Jerry.

ROCK - Os 50 anos do rock mostram a vitória da reação. O rei do Rock, o ex-caminhoneiro Elvis Presley, resolveu homenagear a mãe e gravou a música que fundou um movimento de rebeldia. O que fez o Império? Cortou o cabelo do rei, colocou-o numa farda, transferiu-o para a Alemanha ocupada do pós-guerra e depois jogou-o primeiro nos filmes havaianos dulcíssimos e mais tarde na decadência exagerada e suicida de Las Vegas. A lição é clara: rebole para você ver! Tente romper a situação conservadora do poder por meio de uma rebeldia no comportamento e na cultura. Faça a síntese da música negra e a coloque na juventude branca para ver o que lhe acontece. Mas o rock gerou subprodutos, a revolução via Beatles e seus seguidores, e até mesmo o regate do punk e outros esforços rebeldes. Pois o cinema fez o seguinte: colocou os cabeludos, todos, como bandidos. Os Hell Angeles serviram como uma luva para a mão de ferro do Estado. Bandidos cabeludos, ou com rabinho de cavalo, de motos, barbudos, fizeram a festa da produção audiovisual conservadora. Easy Rider é um filme profético, pois descobriu cedo que os novos heróis estavam fritos. O resultado desse massacre cultural e físico (os grandes rebeldes, como Jimi e Janis, morreram cedo) é a música tecno, quando tudo foi resolvido por meio de uma batida monótona que deixa a meninada em eterno ecstasy. E o que foi feito com o cinema americano de vanguarda, encarnado em Arthur Penn, principalmente, autor de Juventude Transviada e Caçada Humana? O que foi feito da revolução da Godard, que implantou o cinema cultural, e a nouvelle vague, que acabou com a seqüência natural das imagens? Foi tudo assimilado. As cenas não terminam mais apagando as luzes, o flash-back é lugar comum (sem a diferenciação da imagem tremida, como acontecia antigamente). Tudo caiu na vala.

PALAVRA - É impressionante como a imagem, como foi previsto nos anos 60, domina o mundo hoje. Só não contavam que a palavra (que participa da imagem, via Internet), voltasse a ser hegemônica. Temos hoje muitos milhões de escritores, nenhum anônimo, todos bem identificados, que em sites, blogs e orkuts escrevem freneticamente. Vejo que o orkut é uma maneira de organizar o caos, e de projetar a imagem pública da individualidade, levá-la a resgatar a história de cada um ou a reforçar ou criar laços comunitários difíceis de serem conseguidos ao vivo. A imagem sempre dá a melhor pista do que está realmente ocorrendo. Descobri, por exemplo, porque os americanos não conseguem entender o futebol. Não só porque chamam de futebol um jogo onde a bola, a maior parte do tempo, depende das mãos. Mas porque eles querem forçar o futebol inglês (e agora nosso) a ser como o deles. Por isso seus filmes sobre o assunto caem sempre no mesmo equívoco: os jogadores avançam para a linha adversária de roldão, como eles fazem com o jogo deles. Fica uma excrescência, pois no nosso futebol não tem ninguém com armadura tentando travar o adversário. O jogo é feito com inteligência, não na base da força bruta (quando há, é falta) . Pelé já explicou em vão para os americanos que um jogador do futebol de verdade pensa o tempo todo, até mesmo quando não está com a bola. Não vale pegar o biroço, bater em todo mundo e levar a Leonor para casa. Mas não cai a ficha. Talvez esteja aí o motivo de eles acharem o nosso jogo coisa de mulher. Sorte para as mulheres americanas, que batem um bolão. O duro é saber que eles chamam o nosso jogo de soccer. Para mim, soccer é pênalty.

RETORNO - Na Folha, o filósofo Paulo Arantes fala claro sobre dívida e ONGs: "A economia nacional resume-se hoje ao serviço da dívida para assegurar a renda mínima do capital, como diz o João Sayad, o qual obviamente --o capital, não o João-- não tem o menor interesse que ela algum dia seja paga. Seria o caso até de processar o Estado por lucros cessantes. Deu-se com isso a progressiva terceirização de funções do Estado por uma fauna de ONGs, ressalvadas as boas almas de praxe. Verdadeiras máquinas de sucção e repasse de verba, e tome informalização do trabalho. Tudo isto é sabido, não é de hoje que o sopão do terceiro setor é engrossado por patronesses ao lado de cooperativas de fachada, banqueiros-cidadãos, corretores de inclusão social e por aí afora, nessa nova fronteira de negócios".

17 de julho de 2004

Diário da Fonte
ISTO NÃO É UM BLOG



O Diário da Fonte é um jornal, que utiliza uma ferramenta da Internet, o blog, que por sua vez pode ser batizado, no caso, Outubro, em homenagem à mitologia que foi adaptada para a vida pessoal quando decidi mudar de faculdade na primavera de 1967, o que gerou mais tarde meu livro de estréia com esse nome. Nos arquivos, são 271 posts, o que é uma enormidade sem fim. Sem contar meses e meses de edições iniciais que já não estão mais no ar. Formam, no seu conjunto, um ou mais livros, que um dia serão impressos. Talvez apenas uma antologia, dividida em assuntos-chave, como jornalismo, memórias, política ou simplesmente literatura.

IMAGINAÇÃO - Conceitos aqui lançados já correm soltos na internet. Outros podem ser enfeixados num curso de jornalismo, baseado numa conceituação a partir da experiência na grande e pequena imprensa. Publiquei aqui textos que lavaram minha alma apesar das tragédias que eles descrevem, como a série de réquiens para Leonel Brizola ou a homenagem a Marlon Brando. O Diário da Fonte é definido como um exercício de imaginação, como se pudéssemos reproduzir na rede o jornal que gostaríamos um dia de voltar a ler. A conquista de leitores tem sido gradual e muitas vezes árdua, ou seja, difícil, mesmo sendo sempre prazerosa. Difícil porque custei a pegar a embocadura da pauta e muita gente me ajudou a direcionar os assuntos, ou melhor, a focar a abordagem para que o DF não se perdesse por aí, como normalmente acontece com espaços virtuais. Um jornal diário, como é este aqui, não pode se dar o luxo de ser um querido diário, pois isso diria respeito a um número muito reduzido de pessoas. Vejo a média de leitores daqui, uns 60/dia (eram dez no início, lembram?), uma vitória, pois não fazemos nenhuma divulgação, o DF jamais foi citado em parte alguma, a não ser em blogs de pessoas que gostam ou simpatizam com o trabalho. Aliás, isso tem sido uma constante. Tenho uma produção autoral que parece fantasmagórica. A imprensa divulga tudo, menos meus livros, tudo, menos meu site ou blog, tudo, menos veículos que crio e que são o maior sucesso, como a revista da Fiesp, que ganhou citação zero na imprensa. Alguns jornais me divulgam, mas nunca os grandes jornais. Há um pacto de silêncio. Redações onde deixei os melhores anos da minha vida, os da juventude, me ignoram. Em compensação, como gostam de celebrar nulidades! Vejo cada coisa. E essas nulidades, de tanto serem citadas impunemente, viram por sua vez, coisa. Parem com isso. Mandem notícia do lado de lá.

LIÇÃO - O título desta edição é uma homenagem a Magritte. Todo mundo sabe disso, mas é bom deixar claro para que ninguém esqueça a lição desse mestre, que ao desenhar um cachimbo ensinou que aquilo era um desenho, não um objeto. Talvez essa seja a mais popular e contundente lição de percepção de linguagem existente até hoje. Existem infinitos desdobramentos, como no caso do pintor que expôs um quadro representando uma mulher, toda pintada de verde, e recebeu um insulto como comentário: mas isto não é uma mulher! disse o espectador indignado. Claro que não, respondeu o pintor, é um quadro. Como isso serve para o jornalismo! Confunde-se jornalismo com o objeto de abordagem. Jornalismo é mídia, é linguagem, jamais economia, arte, cultura ou política. Ser comentarista esportivo ou de economia é onde o bicho pega com mais freqüência. Pode haver maior craque do que Raí, um atleta bem sucedido e tal? Pois quando ele fala na TV é um desastre. E o Silvio Luis, pode haver maior perna de pau? Mas ele é o criador de bordões esportivos inesquecíveis. Pois é Silvio Luiz que está certo, não o Casagrande. O Casão e o Raí até pode tornar-se bons comentaristas esportivos, mas não por ter sido atletas. Você, que esteve lá, Falcão, diga como é essa coisa, diz o impoluto Galvão Bueno. Pode ser um bom depoimento, mas não é jornalismo. Jornalismo é a pergunta, sempre a mesma, do Galvão, por isso ele é tão redundante, porque sempre diz a mesma coisa. E o que dizer do Rivelino? Meu Deus! Mil vezes o China, o Juarez Soares, que nem deve saber chutar uma bola. Na economia, os comentaristas, dito especialistas, fingem que são economistas. Não são. São atores. E bem canastrões, pois acreditam no próprio script.

INVERNO - O mar gelado de chumbo, a chuva fina quase neve, o anoitecer abrupto às cinco da tarde, o encolhimento geral de gaivotas, corujas e urubus, os aluninhos todos encapotados em direção à escola na rua de barro, o impenetrável céu cinza, a falta total de côco verde nos sacolões, o pés que nunca esquentam, a cabeça que vira picolé, tudo isso é a ilha em pleno julho. Depois dizem que aqui vive-se na flauta. Vive-se num freezer. De vez em quando, o sol abre e é aquela festa. Aposentados caminham na praia. Montes verdes exibem-se à luz do dia. Pescadores vigiam o mar. Bicicletas por todos os lados. Tudo faz sentido até a próxima friaca.

15 de julho de 2004

Diário da Fonte
MONSTROS E CAVALEIROS


Há dois tipos de atores. Os monstros, como Othon Bastos, Marlon Brando e Miguel Ramos, que se transformam em criaturas assustadoras, como, respectivamente, Corisco, o Coronel Kurz ou o vilão correntino do novo filme de Beto Souza, Cerro do Jarau (tenho medo só em pensar nessa aparição que vai assombrar as telas daqui a pouco). E os cavaleiros, os que jamais deixam de ser o que são, mas nos convencem ao montar em personagens inesquecíveis, como o Tiradentes sem barba do José Wilker (que nos encanta com seu bicheiro em Senhora do Destino) ou todos aqueles seres que James Dean imortalizou no cinema. Entre os dois, há uma infinidade de gradações, com Tom Hanks, Nick Nolte e Steve McQueen, mais próximos do segundo grupo, ou Robert Duval e Monty Clift, grudados na elite do primeiro.

ARFANTES - Na periferia desse trabalho, lá onde nossa paciência tem limites, há os profissionais que acham a respiração um passaporte para a grande atuação. Existem os arfantes, que sugerem grandes emoções ao se deparar com alguma revelação que deveria ser impressionante, como a Suzana Vieira do capítulo de ontem da novela das nove, que respirou tanto que acabou desmaiando artificialmente em cena, pois todo o exagero inicial precisa de um grand finale. Lembro Henry Miller em Trópico de Câncer, que se retirou de um concerto de Ravel porque começava com tambores. Se alguém começa com tambores vai ter que terminar com canhões, argumentou o célebre vagabundo em Paris. Há também os canastrões que dão respiradinhas rápidas para definir determinação em seus personagens, como Tony Ramos, que vi em início de carreira numa peça de teatro e jamais me convenceu em cena. Seu coronel Boanerges na novela das seis abusa tanto da respiradinha que acaba sendo uma marca do personagem o estado catatônico de quem não sabe para onde respirar. Fica parecendo charme, mas é pura lógica: quem dá a respiradinha fica assim mesmo quando se depara com alguma emoção que não pode transmitir. O truque é não transmitir nada. Lembro Tônia Carrero dizendo que atuar é fingir, o que é de um equívoco atroz. Os verdadeiros atores não fingem em cena, ou eles se transformam no que pedem para ser ou eles cavalgam a criatura sem piedade.

EXCESSOS - Mulher é outro departamento. Os homens utilizam o excesso para impor seu trabalho. Nada mais excessivo, e convincente, do que o bandido paraguaio de Miguel Ramos no já clássico Netto perde sua alma,de Tabajara Ruas e Beto Souza. E o que dizer de Marlon Brando gritando com as mãos na cabeça Steeeeela em Um bonde chamado desejo? Um parêntese: descobri porque o Arnadldo Jabor chamou o Brando de Marlôn nas suas invectivas quando o ator maior morreu: como um dia foi diretor de cinema, Jabor acha que pode tratar Marlon Brando pelo primeiro nome, como se fosse íntimo e tivesse cacife para manipulá-lo, como fez com inúmeros atores. Jabor teve a sorte de contar com Paulo César Pereio em seus filmes e deu a impressão de bom cineasta. Mas Pereio é o excesso de um monstro que cavalga a si mesmo. Ele é sempre o mesmo, gostem ou não. É uma mistura dos dois grupos principais, já que esta é uma classificação unilateral, que tirei da cartola. Normalmente achamos o máximo o que Pereio faz no teatro e no cinema e nas vozes que empresta aos comerciais (aquele som gutural criado em Alegrete, cidade que um dia foi capital, por isso gera esses brasileiros definitivos como Pereio ou seu irmão, o tremendo ator Pingo, já ouviram falar? Pingo detonou na montagem brasileira da peça de Peter Brooks, Marat-Sade. Quando entrei na platéia do teatro em Porto Alegre nos anos 60, Pingo já se apresentava todo de branco, com aquele olhar que assusta até dragão).

MULHERES - Mulher é contenção máxima em cena. Quando explodem, normalmente não funcionam. A maior atriz do mundo é Vivian Leigh em E o vento levou. Ninguém ficará livre daquela criação, Scarlet O'Hara, enquanto estiver vivo. Bastou ela ficar em frente a um incêndio, sem dizer nada, para que o diretor Victor Fleming tivesse certeza que era ela quem procurava há mais de um ano, num concurso que movimentou os Estados Unidos (já que o livro era best-seller absoluto), mas não deu em nada. Vivien não disse nada para ganhar o papel e desliza no filme para comer com farinha todos os atores desse grande filme, desde Leslie Howard até Clark Gable (um ator-cavaleiro magnífico). Eva Wilma chega perto, na obra-prima de Luis Sergio Person, São Paulo S/A (um dos três maiores filmes brasileiros de todos os tempos, junto com Deus e o Diabo, de Glauber e O Pagador de Promessas, de Anselmo Duarte). Sua cena com Walmor Chagas (que tinha tudo para ser um monstro), em que detona numa separação irreversível do casal em crise, é inesquecível. Mas quem imita Vivian Leigh o tempo todo é Elizabeth Taylor, que só se contradisse em Quem tem medo de Virginia Wolf, quando precisou virar monstro para enfrentar o cavaleiro Richard Burton. Quem pode com a força da contenção absoluta de Merryl Streep contracenando com o cavaleiro Clint Eastwood? Ou com a contenção que desaba em Geraldine Page, a atriz maior que nos arrebata quando aparece em cena? Ao saber se conter, a atriz se excede em atuação.

GESTO - James Dean fez o caminho do avesso: sua intensa contenção o leva para o excesso masculino, que é o seu nicho verdadeiro. Lá ele arrasa. Quem viu James Dean fazendo aquele gesto com a mão espalmada e os dedos juntos, para Rock Hudson em Giant, sabe do que se trata. Seu bigodinho fino, seu chapéu de texano, seu cabelo grisalho constroem com esse gesto(que parece o desenho de um vôo definitivo)um momento sem igual nessa arte incomparável que é a atuação. Que de tão grandiosa e diversificada, nos escapa em qualquer tipo de classificação. Mas qualquer método serve para fincar algumas balizas no caos. Por isso arriscamos dizer o que nos ocorre, para homenagearmos esses seres que acabam nos transformando em pessoas muito melhores do que um dia sonhamos ser.

14 de julho de 2004

Diário da Fonte
A PALAVRA BATE UM BOLÃO


Nei Duclós

O futebol tem tudo para dar errado. Colocam 22 marmanjos num espaço limitado para trabalhar uma esfera que escapa dos pés. O objetivo é acertar o núcleo do reduto adversário, mais limitado ainda. Só se deve usar as mãos em casos excepcionais. É lógico que esse jogo tende a ser irregular pela própria concepção e natureza. Só existe algum equilíbrio se houver sintonia total entre os jogadores de cada time, alguns craques que sabem o que fazem em campo, o espírito de luta que não deve diminuir em nenhum segundo, a competência dos técnicos. Ainda deve-se levar em consideração o que rola fora desse esquema, como o gramado, o estádio, as torcidas, os dirigentes, os árbitros. O que resta para o jornalismo, diante desse monstro rebelde? Apenas a palavra usada com maestria e precisão. A paixão, no caso, deve ser pela linguagem, e não pelas camisetas.

SANTOSX FLAMENGO - Houve um milagre ontem neste clássico. Se durasse até cinco minutos antes de terminar, seria um brilhante zero a zero. Estava em disputa dois adversários que lutavam por motivos opostos. Um, o Santos, queria a liderança, conseguida depois da vitória por dois a zero. O outro, o Flamengo, não queria a lanterna, onde acabou ficando, depois da derrota. O jogo remou contra todas as expectativas. Tinha tudo para ser mais uma sonolenta e burocrática obediência à tabela, mas o que vimos foi o verdadeiro futebol do Brasil, ofensivo a maior parte do tempo, tão disputado que resultou inclusive na fratura da perna de um dos jogadores o Flamengo. Um empate sem gols seria o retrato de um jogo perfeito, onde a ausência no marcador refletiria a garra dos dois times. Havia grandes craques em campo, como Robinho e Basílio (que decidiu a partida, dando passe para o primeiro gol e fazendo o segundo). Mas o importante foi a superação demonstrada pelos dois times. Desconfio que a ausência da transmissão da Globo, que a tudo reduz a um dèja vu, já que ele dejaviram tudo e tudo sabem e prevêem, foi fundamental para o sucesso da partida. Vi o jogo pela Record e sintonizei um pouco sem a mínima esperança. Descobri então o futebol como texto. Sem querer cair na tentação de dividir em dois grandes parágrafos um jogo tão complexo, que equivaleriam aos dois tempos do jogo, propus que o drible seja a solução de linguagem mais ousada, a que consegue vencer o adversário (o branco da tela ou do papel) e deixa o gosto bom de coisa bem feita; o tranco no adversário seria o momento em que se deve reescrever aquela parte do texto; a falta é um falso ponto final, não planejado; o chapéu é a metáfora mais bem sucedida, o carrinho é o lugar comum. Um técnico como Luxemburgo, que acertou o Santos depois de um período ruim do treinador que o antecedeu, pode ser encarado como o editor de texto que precisamos ter dentro de nós. Ele azeita os jogadores-palavras, os seduz, convoca e grita na hora certa. Abel, que passa por péssima fase, também teve seus méritos, pois conseguiu peitar o time branco resgatando a tradição rubro-negra, a que não entrega-se diante de qualquer dificuldade. Saiu na lanterna, seu texto talvez tenha ido para o lixo, mas o resgato agora como exemplo de um trabalho invocado, duro como deve ser e brilhante, pois transformou o jogo numa verdadeira aula. Se não de futebol, pelo menos de jornalismo.

CRAQUES - A definição de craque feita por Pelé é perfeita. É aquele que bate um bolão em qualquer posição, inclusive na de goleiro, como aconteceu com ele, que não deixou o Grêmio ganhar num torneio, depois de ocupar o gol, tornado vago pela contusão do titular. Quando você, por contingência, é obrigado a encarar desafios que não estavam na sua agenda, aproveite a chance para demonstrar força onde você nem era considerado. Seja um craque na edição, no texto, na reportagem, na pauta. E saindo da imprensa, arrebente criando uma revista empresarial, inventando um evento, redirecionando um site. Não imite aqueles jornalistas que só possuem dos grandes profissionais a casca e jamais a competência. Fuja de quem olha para o infinito com a mão no queixo e deixa-se enlevar por um ar de sabedoria que no fundo não tem. Desconfie de quem anda apressadamente na redação, que isso é o marketing da pressa, são preguiçosos que gostam de aparecer mas nada sabem fazer. Também olhe de viés para os que afrouxam o nó da gravata, fecham os punhos e os colocam em cima da mesa, com as mangas arregaçadas, olhando para o pobre repórter como se ele fosse um criminoso. Tudo isso é cabeça-de-bagre. O verdadeiro craque é aquele que não faz marketing pessoal, que diz que nada sabe, que insiste em querer se aposentar, que te deixa trabalhar, que te elogia quando necessário e te dá uma dura quando houver motivo. Esse é o cara. Esse é o Pelé, e esse mestre é o que você vai levar no coração como o maior tesouro da sua vida profissional. Fique à altura do que você sugeriu com sua garra nos treinos. Entre em campo no dia da grande final. E voe como um deus grego em direção à bola para fazer aquele gol que estava dentro de você e ninguém sabia que existia. Seja craque, seja herói.

RETORNO - 1. Faltou dizer: hoje tem Seleção. Espero que a Globo malhe bastante o time para o professor Parreira dar aquele cala-te boca no segundo tempo. O lançamento de Alex para Adriano, que navega por cem quilômetros até atingir uma agulha, pode ser visto como a frase perfeita. 2. O sonho de um antigo revolucionário enfim se concretiza: graças a Urariano Mota, que por sua vez evoca a sua Recife no site espanhol/internacional La Insignia, estou no Pravda!Viva John Reed!

13 de julho de 2004

Diário da Fonte
GLOSSÁRIO DO MONOPÓLIO



Todo monopólio leva à babaquice. Vejam os comerciais de cerveja (financiados por empresas em fusão gigantesca) e seus nã, nã, nã. Ou as Casas Bahia (que é hegemônica na publicidade televisiva) e seu abombadinho, ou seu trio de compra-compra-compra. Ou o tom didático dos apresentadores da Globo (que detém a fatia de leão do Ibope, sinônimo de mercado). Ou os politicamente corretos ongueiros (monopolistas dos bons sentimentos que viram grana). A babaquice é um sacudir frenético de ombros, uma cabeça voltada para frente que emite um olhar patronal, um eterno grasnar de puxa-puxa-puxa-como-isso-é-importante-para-você. A palavras usadas de maneira recorrente são os instrumentos desse tipo de concentração excessiva de poder na mão de meia dúzia. Sem ninguém que lhes faça sombra ou oposição, eles perdem o referencial e se transformam em galvões buenos do texto sem escrúpulos. Para apontar essa tragicomédia, compus um glossário que sintetiza as principais tendências da linguagem babaca que nos assoca e que acaba se refletindo na literatura de mercadinho que impera na mídia (onde o minimalismo profissional é a preguiça elevada à categoria de gênio, a abobrinha sem agrotóxico envolta em celofane).

AFINAL - Ou seja, só pode ser assim, seu idiota, não vê? Tudo o que está sendo escrito leva a um afinal, pois as coisas são como são, ou seja, como dizem que são, e ai de ti se discordares. Afinal, és ou não ou um bola murcha, que a tudo aceita sem pestanejar?

COM CERTEZA - O com certeza é uma viga de aço que sustenta o universo. Essa viga se alimenta da repetição. A cada milionésimo de segundo, alguém tem que dizer com certeza na mídia, sob pena de o universo sucumbir em desencanto, irracionalmente. Veio daquela coisa da casa portuguesa e alastrou-se como vírus mortal. Qualquer portuguesa é sempre irremediavelmente com certeza, assim como 51 é eternamente uma boa idéia. Jamais pronuncie o número 51 sem o complemento uma boa idéia. Os publicitários acham essa babaquice o máximo.

JORNALISMO DE BREQUE - É aquele noticiário que faz uma pausa para criar suspense antes da conclusão da fala, para deixar o telespectador com água na boca. Certo? (breque) Errado. Antes de tratar dos (breque) sem-terra, é preciso tratar dos (breque) com-terra, diz o festejado analista político. O breque dá status ao repórter/comentarista. Se ele faz breque, ele é bamba. Certo?

CONFIRA - O leitor agora virou fiscal. Tem sempre que conferir alguma coisa. Nos sites corporativos, o confira impera sem restrições. Como parece obrigatório usá-lo, costuma-se chegar ao cúmulo de mudar o sentido original da palavra. Por exemplo: o jogador ao bater o pênalti foi lá e conferiu. Conferiu o quê, madame?

ESSA-GENTE - São o povinho pobre e brasileirinho, que merece todo o carinho milionário da televisão bem remunerada. É de chorar quando a repórter bem intencionada vai lá entrevistar essa-gente. Perdi tudo, diz algum exemplar do essa-gente, quando vem enchente, incêndio ou coisa que valha. Essa-gente não tem mais onde morar, denuncia o/a repórter. Todos sentem peninha de essa-gente. Quando essa-gente melhora de vida, vira capoeirista ou é aplaudido pela Angélica. Essa-gente é expressão politicamente correta, que se opõe às clássicas gentinha ou gentalha. Nos textos doa analistas bem fornidos, vira choldra ou patuléia.

ESTÁ FRIO? - É o bordão do povo-fala das TVs. Faz frio e lá vem um povo-fala. Com certeza, respondem sempre, está frio mesmo. Puxa-puxa-puxa.

JÁ,JÁ - Medida de tempo que pode durar dez minutos de propaganda. É para disfarçar que você está vendo mesmo é publicidade e que o programa é só um chamariz para ficares plantado no teu trono, ô da poltrona sem movimentos. Nem tenha a ousadia de levantares daí, que o cardápio anunciado vem daqui a pouquinho. É pá e bola como diria o Elias Jr. (aquele que dizia para o Luciano do Vale: patrão, se o senhor espirrar, saúde!).

NÃO É PARA MENOS - Nunca é para menos. Quer dizer: invariavelmente teria que ser assim. É um sinônimo de afinal.

SÓ PARA TER UMA IDÉIA - Jamais tenha duas idéias, é proibido. Você só pode ter uma. O complemento é não pensou duas vezes. Para ter uma só idéia, você tem que pensar uma só vez.

TARTARUGAS E CAPOEIRAS - As ongs cuidam de preservar as tartarugas e ensinar capoeira (essa-gente serve mesmo só para isso). Faz sentido. Como as tartarugas duram 80 ou cem anos, daqui a pouco o planeta estará infestado. Então, só aprendendo capoeira para enfrentá-las. As ongs cuidam do futuro da chamada essa-gente.

RETORNO - O grande editor Jesus Gomez, de La Insignia, publicou meu ensaio sobre A Vampira do Lago, de Tailor Diniz. Urariano Mota, que difundiu meu romance aos quatro cantos da terra com um texto maravilhoso, me apresentou Gomez. Tailor publicou na revista Aplauso um ensaio brilhante sobre Universo Baldio. Eu revelo um romance magnífico ainda inédito. Somos nossa própria descoberta. Escritores unidos contra o monopólio da informação. Que nem se conhecem pessoalmente, somos barcos à deriva no mar da Internet. Nada temos em comum a não ser a paixão pela palavra e a vontade de respirar. Viva a revolução! Cara, como é bom lutar.

12 de julho de 2004

Diário da Fonte
CEM ANOS DE NERUDA



Não queria sobrepor um post ao ensaio sobre A Vampira do Lago, mas blog é assim mesmo, essa tripa sem fim que obriga o leitor a usar o cursor. Além disso, este é um jornal diário e como diz aquele festejado poeta, muito profundamente, gasp, o tempo não pára (é mesmo? nossa!). Pois fica o aviso: abaixo desta edição, visite a viagem que fiz ao romance de Tailor Diniz (que ganhou caprichada edição do nosso webmaster no site. E hoje, para comemorar o centenário de Neruda, destaco aqui o que publiquei em 18 de setembro de 1993, na Zero Hora, com o título de Neruda: O animal ferido da palavra. Depois do texto (que considero um dos meus manifestos poéticos) vem o poema Pablo, do livro No Mar, Veremos (que obteve zero resenhas nos grandes veículos, com exceção do Jornal da Tarde e uma bela nota da IstoÉ - parabéns, grande imprensa!).

GRITO - Poesia é a palavra diante da morte, a distância de um braço entre o poeta e seu destino. A tensão permanente do poema é a visão desse desenlace e é disso que se alimenta a sua eternidade. É por isso que o poeta sobrevive, não porque lute para ficar vivo, mas porque escreve sabendo que vai morrer. Quando, enfim, a última batalha desce sobre seu corpo em brasa, a obra grita, como condenada. Pablo Neruda, morto há vinte anos (N.B: hoje são 31), encarna esse animal que cruza todas as fronteiras e regressa à pátria para ser assassinado. Está na moda hoje destruir o mito para celebrar a exposição das vísceras, compensação de um tempo onde triunfa a indiferença. Assim, o vazio é confundido com virtude para privilegiar os "erros" de Neruda, como um poema para Stálin, por exemplo. Mas o que é datado, no poeta, morre com ele. O que permanece é o crepúsculo enrolado aos seus pés e a solidão, como um túnel.

ENCARNAÇÃO - Não é apenas a sua lírica que cresce quanto mais nos distanciamos do réquiem de 21 de setembro de 1973. Assoma a pátria, sua metáfora extrema: na hora em que morria , era o Chile que estava sendo devorado. Pois não bastava matar o presidente, era preciso também eliminar a esperança. Neruda entendeu que tinha chegado a sua hora. E acabou-se, puxando a toalha no momento em que os tiranos comemoravam a vitória. Do seu engajamento fica essa encarnação do povo e terra, o lirismo épico de sua caminhada, a manutenção do mito, não restrito ao seu país. Ele pertencia a uma raça quase extinta, aquela que sumiu do mapa porque o mundo mudou de estilo. Já foi longe a época em que as nações cultivavam seu poeta, que recitava versos na praça e traçava biografias andarilhas. Ele alimentava assim a multidão faminta de História, ainda presa a palavras hoje mortas, como atávico, mártir, telúrico. Era um artista popular da palavra, mas a mensagem que ele inventou para a rápida passagem do tempo atraiu a atenção dos lobos. Minaram então sua sorte trazida do berço, desmoralizaram seu andar partido, imitaram seu timbre, roubaram-lhe a voz. Pablo Neruda é a expressão maior desse romantismo tardio, desse último suspiro da imaginação emocionada, que morre nos braços do povo ao som da metralha.

TÚNEL - Hoje, quando o Chile ressurge como tigre, lembramos o comportamento dos chacais. As manifestações do 20º aniversário do golpe de 1973 ainda não cobraram a conta. Falta visitar o túmulo do poeta, gritar seu verbo em praça pública (N.B.: o que já está ocorrendo, assim meio do avesso, pois nas comemorações vejo mais circo do que poesia, o que é comum hoje). Para o Brasil, retalhado numa guerra interminável - exatamente porque adiamos todos os desenlaces - ele inspira o tom de eternidade, que nos escapa. Estamos presos demais à pressa, à ilusão eterna do presente.Muitos poetas apostam no supérfluo, no fugaz, no palavrão - ainda ludidos de que é possível "chocar" alguém com gestos ou palavras, não fôssemos nós observadores permanentes das chacinas. A poesia brasileira costuma ficar dividida entre o mimetismo nerudiano e o espólio da demolição concretista, entre a pomposidade inútil e o falso vanguardismo. Estamos mergulhados demais no horror para enxergar a poesia.

SILÊNCIO - É nesse túnel que deve se desenhar o poema ainda em silêncio, como um animal ferido. A longa cicatrização imobiliza o gesto, enquanto a palavra estilhaça nos vidros de uma nação que derrapou. Nesse exílio obrigatório, a morte de Neruda abre uma trilha. Ele identificou-se com a grandeza e a tragédia chilena e tornou-se o mais caro patrimônio do país. Precisamos deixar que ele nos toque com os dedos longos da palavra. Não podemos entretanto, mergulhar no equívoco de endeusá-lo, nem nos deixar enganar pela maior parte da sua obra póstuma. O que ele mesmo publicou já basta: Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada, Confesso que Vivi, As mãos do Dia, Canto Geral, entre outros livros iluminados.

PABLO

Nei Duclós

Da cordilheira desce a lava que fecundou as ilhas
o sêmen das águas profundas
a mão que alimentou o arco-íris

Da cordilheira desce Neruda, o passageiro noturno
pai que nos jogou no meio do mar
braço possante colhendo a mínima flor

Do Chile desce o diamante que força o túnel
magia da clara mina onde o sol resiste
duro perfil de pássaro ferido

Das cidades sagradas da América desce Neruda
coração a serviço diário do futuro
ninho de um povo que ainda será livre.

RETORNO - 1. Paulo Florêncio despede-se da primeira parte do meu romance Universo Baldio: Caro Nei Duclós: Hoje (domingo) me despeço de Alípio, Jacaré, Peneira e André, o do cooper. Juntos com esses personagens, deixo a República de Itaguaçu um pouco saudoso como se eu tivesse vivido lá junto com vocês. Estou com uma tremenda curiosidade para saber por onde andam hoje esses seus amigos de juventude. O que eles pensam, inclusive você, dos rumos que tomaram o nosso país.Apesar das duras penas vividas com os seus amigos à época, sua despedida da República foi poética. Você saiu para encarar outra vida com a sua companheira e mais um acompanhante (ela estava grávida), ou seja, mais um personagem dessa sua história. Que, aliás, não seria apenas mais um personagem. Mas, mais uma pessoa parte de sua vida para dar continuidade em sua história. Enquanto isso eu me embarco no Segundo Tempo de Universo Baldio , Papel de Bala. 2. Rubens Montardo Junior envia notícias da fronteira: Prezado Nei:Continuo lendo e fanático pelo teu Diário da Fonte. Bem, vamos as novidades:a) Miguel Ramos et caterva está filmando Cerro do Jarau, de Beto Souza, exatamente no Cerro do Jarau, hoje, amanhã (segunda) e terça-feira. Depois, dois dias e o filme será concluído em Porto Alegre. No sábado, no Segundo caderno da Zero Hora saiu uma "enorme" (que espaço ridículo dão a boa cultura, a cultura propriamente dita, embora nos inundem com banalidades e mediocridades) reportagem sobre as filmagens em SantAna do Livramento;b) Na próxima sexta-feira, dia 16/07, às 18h30min, o Ubirajara Raffo Constant, o Biratuxo, lançará no Centro Cultural Dr. Pedro Marini, em Uruguaiana, seu primeiro romance intitulado Pampa em 23, que versa sobre a "rebolução" de 23, seu início em nossa cidade e seus desdobramentos de forma romanceada. São mais 480 páginas. Imperdíveis! 3. Já avisei o Rubens que o Biratuxo precisa me enviar o romance dele, senão eu mando o Cabo Adão pegar todo mundo.

11 de julho de 2004

Diário da Fonte
O FÔLEGO, O FOLE, O SOPRO

O romance ainda inédito A Vampira do Lago, de Tailor Diniz, é uma obra de tirar o fôlego. Tailor é consagrado escritor e jornalista, com alguns prêmios importantes e livros maravilhosos já publicados. Escrevi este ensaio embalado na excelência narrativa do autor. O Diário da Fonte cumpre assim sua vocação de revelar o que está oculto, de estocar o que é consagrado, de convocar o talento e de ajudar a construir uma ponte para podermos cruzar o atual mar de medioicridade que nos ameaça.

Nei Duclós

Fala o fole da sanfona/ fala a flauta pequenina/ que o melhor vai vir agora/ que desponta a bailarina/Que seu corpo é de senhora/que seu rosto é de menina/Quem chorava já não chora/quem cantava desafina/ que a dança só termina/ quando a noite for embora(Sidney Miller, em O Circo).

TORNO - Romance é fôlego e embocadura. Um não sobrevive sem outro, assim como não se estabilizam numa obra sem a argamassa do talento, material perecível que poderia secar ao relento por falta de uso. O talento pode parecer fonte generosa de literatura, mas sendo argamassa também dá trabalho, pois é feito de insumos básicos, esses sim fartos. Como a água e o cal (que o exagero das comparações pode sugerir sensibilidade e lucidez), eles ganham tessitura própria se forem misturados corretamente numa criatura ao nascer, ou quando se desenvolvem nos terrenos banhados pela Graça. Ao contrário da poesia, que é ar puxado para dentro e existe mesmo em respiração curta, o romance expira o mundo que inventa e com ele divide a loteria de permanecer ou sumir do mapa. O romance sai e é trabalhado por esse fole cultivado no torno duro do exercício, ferramenta que pode desafinar se não for bem torneada, e quebrar se não estiver à altura do esforço feito pelo autor.

ABISMO - Por sua formação e grandeza, Tailor Diniz está no avesso desse tipo de metáfora para seu ofício. Entretanto, por opção deste texto que aborda seu romance inédito, A Vampira do Lago, ele não escapa ao destino dos romancistas: ganha fôlego ao desenhar o canal por onde sairá seu sopro, e tem o cuidado, como todo escritor de grande porte, de deixar bem azeitadas as aberturas do seu teto, a realidade por onde entra o alimento que declara a guerra. Ciente da gravidade da tarefa, ele cultiva o talento não como jardim, mas como canteiro de obras. Seu edifício é orgânico, feito da palavra certa, da descrição completa, da rede fina e eficiente tecida em fios de civilizada competência. Um trabalho tão bem acabado que dispensa o elogio da resenha e nos obriga ao abismo do ensaio.

TRAMA - A composição das falas em A Vampira do Lago é uma obra admirável de engenharia literária porque nos engana o tempo todo. Primeiro, porque o depoimento pessoal é a descrição objetiva, se não dos fatos, pelo menos da geografia escolhida, o norte do Rio Grande do Sul rodeado por represas e traumatizado pela expropriação das hidrelétricas. Essa objetividade serve para nos encantar por termos acesso a lugares que nunca visitamos e ficam se descortinando nos mínimos detalhes na nossa frente. Mas serve também para nos enredar na trama que se desenrola na pequena cidade de Novas Trigais e assim nos confundir na viagem para impactar no desfecho. Artimanha de escritor, poderão dizer, mas é mais do que isso. É denúncia mesmo, pois a descrição da paisagem é nossa principal fonte de equívocos. E é denúncia porque esses equívocos condenam os homens desse lugar que, apesar de viverem num território expropriado pela tecnologia, insistem em enxergar o mundo ditado pelo chão que não existe mais, pelo menos não existe da mesma forma com que foi descrita desde tempos remotos.

RITUAIS - Em segundo lugar, a presença do narrador tradicional, que aparece em capítulos alternados ao depoimento pessoal, serve para nos colocar diante de outra armadilha: a de que estamos seguindo o entrecho com a certeza emitida pelos contadores de histórias. Essa é mais uma denúncia, pois os causos contados estão enlameados pela linguagem xucra não do tradicionalismo (pode até parecer, na maior parte dos casos), mas pela maneira com que esse tradicionalismo é trabalhado pela divisão de classes. São os poderosos que se apropriam da linguagem crioula, adonando-se assim dos festejos e dos rituais cívicos, já que esses são reiterações de poder. Mas isso é desmascarado nas bordas dessa vivência, no bordel onde se desenrola o capítulo mais impressionante ? quando há orgasmo e assassinato, pederastia e sedução, gargalhada e escândalo. É ali, neste capítulo feito de fogo, espinha dorsal por onde o leitor pode montar com segurança para sentir a fúria do animal em que o romance se transforma, que Tailor Diniz alcança o perfil raro desse espécime em extinção, o grande romancista, que por algum tempo foi colocado no passado, mas que sobrevive porque essa é uma arte que a humanidade conquistou e jamais vai abrir mão.

TRÓIA - As falas coadjuvantes, que nos ajudam a montar no cavalo colocado festivamente na Tróia da nossa percepção desatenta, são também murais do tosco mundo onde vivemos. Os textos da imprensa falada e escrita desse Brasil profundo, crivados de lugares comuns como um São Sebastião exasperado de dor, são como barcos à deriva que cruzam as décadas parecendo que vão afundar, mas que mantém-se à tona com todas as suas misérias. Por não ser um catequista nem um moralista medieval, Tailor Diniz traduz esses textos para o encanto do seu romance, que pode ser comparado a um andor em direção às águas profundas do lago, lá onde jaz enterrado nosso maior tesouro, o que perdemos para sempre nesta vida ingrata.
Quando o leitor se der conta, será tarde demais. Sucumbirá diante desse artefato de cobre que acaba de esfriar depois de uma temporada no alto forno. Ficará mudo diante do tombo preparado pelo autor, que encarna o poder aparentemente mais frágil neste pampa dominado pela barbárie, mas que se revela o mais afiado, o mais profundo, o mais eficaz e o único que tem chances de permanecer: o das criaturas que vêem com olhos livres, que sentem sem as amarras da cultura, que observam sem participar da brutalidade e que por isso sofrem o destino para onde foram carregadas. Essas Ana Terras viajadas, essas índias despertas, esses garotos sem esporas. Essas flores precárias do pampa dominado pelo esterco.

ÁRVORE - Quando desaparecerem as bandeiras, as cornetas, os tambores e toda a tralha das lições mal apreendidas da História, este romance vai continuar sendo árvore no deserto, a que promete sombra mas nos banha de luz, a que promete água mas nos deixa sedentos, a que promete morrer mas sobrevive com seus galhos torcidos, sua estrutura perfeita e sua voz, inaudível quando não há o vento da leitura ou da edição, mas poderosa no dia em que brotar da terra como um prenúncio de tempestade. Para quem tiver medo diante dessa promessa, é bom lembrar que Tailor Diniz é dono de circo, onde os palhaços atiram machados nas costas dos outros para escandalizar os inocentes, e as bailarinas dançam sobre o trapézio mortal apenas para marcar o ritmo da orquestra e do trajeto da lua no rasgo da lona. O sangue que jorra também parece ser artificial, apesar do gosto espesso, do cheiro lúgubre, e desses corpos esquecidos de bruços e degolados até o osso. Só que no meio da festa existe sempre uma ária cantada por um tenor anônimo, uma orquestra de câmara com violinos inverossímeis e um apresentador sóbrio, elegante, prudente, impiedoso e irônico, que jamais vai nos dizer o quanto sofreu ou viveu antes de estar aqui, diante de nós, comandando o espetáculo.

RETORNO - Mestre Moacir Japiassu leu o ensaio acima a meu pedido e me falou com generosidade o seguinte: O seu ensaio é mais um espetáculo de beleza e ilustração! Você faz da prosa um braço forte de sua poesia, arremessa a tarrafa com o necessário vigor e recolhe as palavras certas, perfeitas. Nei Duclós é o pescador de tudo o quanto é bonito à beira dessa praia onde os desprovidos de talento costumam se deitar para morrer...Parabéns, consideradíssimo amigo, e não desapareça, viu? Receba o sempre afetuoso e fraternal abraço do Japi.

10 de julho de 2004

Diário da Fonte
UM PASSEIO EM PARATY


Nosso correspondente em Paraty, surpreendentemente, é Sinistrus Joe, aquele que, quando todos se mandaram , aí pela grande crise do Plano Cruzado, permaneceu na ponta de uma praia oculta aqui de Floripa. Como vive só, numa casa de pau-a-pique, ao lado de gigantesco menir arqueológico, achava que jamais se daria o trabalho de viajar. Pois ele foi para a Flip e já voltou. Fez tudo de avião. Ganhou a mesada de um milionário, ex-companheiro de viagens dos anos 60, que é herdeiro de fortuna, um espólio meio escandaloso de indústrias sucateadas. O longo cabelo crespo branco revolto de Sinistrus Joe realçava seu olhar de um azul furibundo. Fiz nova entrevista. Desta vez, ele estava mais acostumado comigo.

TITÃS ? Perguntei pelo encontro literário internacional e Sinistrus Joe, direto como sempre, interrompeu-me pelo meio da frase:
- Tem sempre um Titã no meio!
É verdade. Se é festival de música, lá estão eles. Se é matéria sobre filhos recém nascidos, manda-lhe um Titã. Se é livro, de novo eles. Parecem até aquele magrinho de Porto, que foi comprar um cachorro-quente. O hot-dog portoalegrense é pioneiro nessa história de colocar um monte de coisa junto com a salsicha, desde salsinha, queijo e até milho. Vai milho? perguntou o cachorreiro. Sóóó, respondeu o magrinho, completamente pronto naquela hora do dia. Aí o ambulante fez de propósito: colocou só milho. Pois é assim que parece a Sinistrus Joe: onde acontecer qualquer coisa, só tem Titã. Aliás, eles estavam na festa gigantesca da Tim esses dias.
- Mas Arnaldo Antunes é um bom poeta, argumento.
- Sol a sós é dose, grunhiu o ermitão.
Ele se referia a um verso do badalado Titã.
- Os não-livros não se satisfazem em ser o que são, disse. Agora estão diminuindo de tamanho. Dizem que ninguém lê. Claro, não-leitores não lêem, só os leitores mesmo. Daqui a pouco todos vão se abaixar bem para ver o que está escrito naqueles minúsculos produtos de entretenimento e vão acabar achando só aquela síntese total da língua portuguesa.
- Qual é, Sinistrus?
Como é um cara antigo, ele sussurrou o palavrão de duas letras no meu ouvido.
- ??? pasmei
- Sim, sim. Os livros de verdade ficam para os estrangeiros. Os de fora fazem livros grossos, até mesmo livros grossos infantis, como os do Harry Potter. Mas não cai a ficha dos caras.

LIVRISMO - Lembrei então do livrismo:
- Tinha muita criança lá, Sinistrus?
- Muita, muita. E não tinha o Mauricio de Souza, mas o Jaguar. Todos livristas. E mais o Cae, que publicou aquele Noites Tropicais, por isso também é autor.
- Mas Caetano é gênio, Joe. Por que a implicância?
Ele então me segredou que foi lá levar seu romance inédito para ver se encontrava editor. Mas o confundiram com um catador de papel, e lhe deram umas esmolas. Ele mostrava as resmas de folhas escritas em papel de almaço, jurando que era um romance inédito, mas ninguém deu bola. Perguntei do que se tratava o livro.
- Sobre os gigantes, respondeu. Os gigantes que me aparecem ao vivo e às vezes em sonho. Eles existem, estão aí, são criaturas-montanhas.
E me olhou, furibundo. Perguntei se tinha dormido ao relento e ele me respondeu que ficou na pensão do Paulinho. Gostava do Paulinho, que contava as histórias mais mal-assombradas sobre as cercanias de Paraty, de estradas coloniais misteriosas, vários tipos desconhecidos de onça. Isso assustava os turistas, que preferiam ir dormir na praça a ter que aturar as conversas. Sinistrus escutava Paulinho até o amanhecer.
- Viste algum gigante por lá? perguntei, meio distraído.
Ele ficou furioso. Adiantou-se alguns passos (estávamos na beira da praia, gelada neste início de inverno) e olhou para os fios, os postes de luz. Apontou-me um urubu pousado em
cima de uma luminária, uma coruja sobre o mourão de uma cerca.
- Acredita no urubu? Na coruja? Então tem que acreditar nos gigantes.
E foi-se, chutando conchas. Cantava baixinho algo de João Gilberto. Joe adora João. Gritou lá da frente:
- João Gilberto não é babaca. Nunca tirou o terno, nunca foi a uma festa de livros, nunca deixou de ser o que é. Tá todo mundo fantasiado. Querem ser tudo. Onde estão os autores? Perdidos, vendo a vida passar totalmente inédita!
Batia na sacolona que trazia a tiracolo, onde guardava, acredito, seu romance inédito.
- Ninguém quer saber, querem só badalar, fazer pose. Quem vai lá também fica fazendo pose. Conheço montes de romances inéditos. Para onde vão? Para o bucho das traças. Sol a sós um bom cacete. O sol bebe cerveja comigo ao anoitecer.

CRISTINO - Figura esse Sinistrus Joe. Ninguém dá bola para ele. Quando o revelei, aqui no DF, não houve um comentário sequer. É a maldição dessa geração. Ser esquecida em vida. Ser enterrada cheia de coisas para dizer. Vendo todos se locupletarem na festa sem fim. Dei de ombros e fui para a casa. Que me importa tudo isso. Vou para baixo das cobertas. Os barzinhos de Paraty, diz a TV, estão lotados. Deve estar bom lá. Caco Belmonte foi, Tony Monti foi. Estão se divertindo. Quem sabe cravam um editor bom de bola e explodem na praça.
No meio da noite, ouço passos pesados. E uma voz que espicha as vogais, gutural:
- Os gigantes, escuto Sinistrus Joe dizer. Os gigantes estão bem perto de ti, cara. Os gigantes...
Será que o Paulinho, dono da melhor pensão de Paraty, viu algum deles? Me deu saudade daquela cidade. Tive que sair da velha Paraty para encontrar um chinelo forte, que aguentasse as pedras do século 18. Fora daquela maravilha arquitetônica, as calçadas e ruas são como qualquer outra cidade brasileira. Caminhões estacionam, ambulantes deslizam. E no pobre riozinho, aquela chata que fica tirando lama do fundo e que é sustentada por dinheiro japonês, faz barulho. Já tinha visto uma chata dessas no Tietê, por longos anos. Tiravam barro do fundo, financiada a fundo perdido. Será que é a mesma chata?
- Os gigantes, cara, eles estão aqui. Tenho medo, Cristino. Tenho medo da dor e da morte...
Deus do céu. Sempre que escuto algum sussurro, me vem o cangaceiro de duas cabeças do inesquecível Othon/Glauber.

RETORNO - Graças ao webmaster Miguel Duclós, meu site conta agora com avançado e sofisticado sistema de busca. Ficou bem mais fácil pesquisar nesse espaço autoral, que já começou gande e hoje está maior, com textos de memórias, resenhas e ensaios sobre livros e filmes, trabalhos acadêmicos e muita coisa mais.

9 de julho de 2004

Diário da Fonte
JULHO É O MÊS DA GUERRA


Foi por pouco, São Paulo. Quase que tua revolução, que te levou tantos filhos, explodiu na data histórica do cinco de julho. Escolheste o dia cinco porque querias, São Paulo, como todos os outros, ser depositária da guerra sem fim dos anos 20, quando os guerreiros saíram às ruas de peito aberto para enfrentar o poder. Querias aquele gesto, São Paulo, do revolucionário que sobreviveu com a barriga costurada e que, ao ver a autoridade chegando para uma visita demagógica no hospital, rebentou os pontos num safanão para mostrar que não estava ali por nada, à toa, sem propósito. Querias o dia cinco de julho de 1922, e também o dia cinco de julho de 1924, quando foste despertada pela urgência sanguinária das mudanças. Mas a data que querias ficou para trás, então adiaste por duas semanas, mas o teu povo estava na rua e por isso escolheste esta data desamparada, o nove de julho de 1932, que iniciou uma tragédia e que hoje é relembrada como um feito heróico, mas ela é também uma aberta.

DESTINO - Se fosse no dia cinco, estarias mais preparada, São Paulo, pois a data convocaria de verdade as tropas de Mato Grosso lideradas pelo Bertoldo Klinger, que se desconcentrou com o adiamento (ou não acompanhou direito a conspiração) e acabou sendo pego de surpresa. Ele teve que voar de teco-teco com seu comando e aterrissou em ti sem nada nas mãos. Se fosse o dia cinco, talvez os gaúchos do Flores da Cunha aceitassem te acompanhar na luta, São Paulo, pois todo mundo já estava farto desse mês temerário, outubro, e seus asseclas, os outubristas. Foi do dia 3 de outubro (até hoje data de eleições nacionais) de 1930 que desencadearam aquela guerra tremenda que sacudiu o país e que te convocou para uma nova vida, São Paulo. Estavas também farta daquela república sem alma. Tinhas líderes prontos para entrar em ação, o Francisco Morato, nome da grande avenida que um dia me recebeu vindo do extremo sul, o Paulo Duarte e tantos outros do Partido Democrático, que faziam oposição cerrada ao Partido Republicano, que tinha destruído o pacto com Minas ao impor Julio Prestes (hoje nome de estação cultural pública, iluminada e rica) como sucessor de Washington Luís. Não suportavas mais aqueles presidentes esnobes metidos a europeus, São Paulo. Não condiziam com teu dinamismo, com tua força, com teu orgulho, com tua grandeza. Querias fazer história e ajudaste a depor aquele sistema podre. Mas o que recebeste em troca? Um interventor despreparado, o pernambucano João Alberto, militar que tinha servido em Alegrete e que na revolução de outubro (sempre esse mês, São Paulo) de 1924 tinha se despedido da mulher e do filho de colo, juntou seus soldados e foi para fora da cidade bombardeá-la. O relato está num desses livros do Helio Silva e chega a nos sacudir na leitura, pois parece mentira que o tenente João Alberto mirou suas baterias nos seus alvos, mas teve o cuidado de se orientar pela torre da igreja para que as balas de canhão não atingissem a própria casa e sua família. Que estranha geografia, essa, São Paulo, que a História nos revela. Como pode haver uma dissonância tão grande entre o espaço familiar e o front de batalha? Era assim mesmo aquele tempo de guerra em que decidiste teu destino, São Paulo.

CARISMA - Mas pior do que João Alberto era o que ele representava, os militares radicais revolucionários outubristas. Foi aí que a professora Vavy Borges nos ensina que surgiu o nome de tenentismo, exatamente para desmoralizar aqueles caras loucos, de farda, que faziam clubes ou legiões 3 de Outubro em todas as capitais. Foi o mesmo que aconteceu com o marxismo, São Paulo. Queriam ridicularizar os seguidores de Marx, então inventaram esse nome, execrado pelo próprio Marx, que não se considerava marxista. Pois bem, os tenentes então começaram a fazer agitação porque queriam mais poder, que Getúlio não dava. Getúlio inclusive tinha evitado colocar no poder o Miguel Costa, pessoa com muito mais carisma do que João Alberto, pois Miguel Costa era o nome verdadeiro da coluna Prestes, aquela guerrilha fruto da revolução de 1924 que palmilhou o país em catequese revolucionária. Miguel Costa não gostou de ser preterido para a interventoria e começou a agitar tuas ruas São Paulo. As provocações acabaram naquele episódio sangrento em que morreram teus primeiros mártires, os estudantes da sigla MMDC. Foi aí que ninguém mais segurou e já estavas pronta para a guerra São Paulo. Mas os gaúchos do Flores te abandonaram, Klinger chegou de mãos abanando e sobre ti caíram as tropas de todo o país, São Paulo. Veio soldado do exército, veio polícia, vieram aqueles gringos parrudos de Santa Catarina e da serra gaúcha e te derrotaram militarmente. Estavas só como um túnel, para usar a imagem magnífica de Pablo Neruda. Estavas só e por isso teu líderes, desesperados, arrancavam voluntários à força e contrariavam muitos trabalhadores que, de olho nos direitos trabalhistas de Getúlio, começaram a fazer corpo mole, achando que o governo provisório, que chamavas de ditadura, ficasse para sempre. Não ficou porque não deixaste, São Paulo. Lutaste com todas as tuas forças e oficialmente 800 bravos tombaram em campo de batalha. Mas acredito que foram muito mais.

ANISTIA - Pois essa guerra te redimiu, São Paulo. Não me refiro ao que fizeram com ela, mais um ritual de poder apropriado pelos poderosos. Te redimiu porque ficaste livre dessa coisa hedionda que é a guerra e partiste para tua verdadeira vocação, que é o progresso, que mais tarde foi chamado de desenvolvimento e agora dizem que é inchaço. Teu dinamismo ficou concentrado todo nas tarefas grandiosas a que te propuseste, São Paulo. Tua grande e bela universidade, onde aprendi tudo e a quem devo demais. Tuas empresas cheias de vida que me acolheram e permitiram que eu sobrevivesse com minha família. Tuas pessoas que de todo o país chegam para te conhecer e acabam se apaixonando por ti, São Paulo. Por isso te saúdo, cidade imortal. Saúdo a ti e a teu estado e te homenageio neste nove de julho, clamando por anistia a todos os que lutaram, erraram ou acertaram naquela guerra. Quero, São Paulo, um abraço forte entre teu povo e os povos que foram contra ti. Não quero rendição, quero anistia. Quero camaradagem, quero Pátria. Quero o perdão do tempo que a tudo lava. Quero a lembrança da História, mas não o revolvimento dos ódios. Quero o resgate da paz e não o desconhecimento. Neste nove de julho todos fugiram de ti, São Paulo. Chamam isso de feriadão. Eu chamo de data histórica e deposito no túmulo dos teus heróis as cinzas dos que um dia lutaram contra ti, mas que hoje são teus irmãos de um Brasil que precisa voltar a ser soberano.

RETORNO - 1. Passagens de ônibus mais baratas em Florianópolis a partir de hoje. Só a mobilização popular e a revolta pacífica, mas determinada, nos salvam da violência e da guerra.2. Paulo Florencio lê Universo Baldio e diz que os personagens, Luís, Alípio, Jacaré, Peneira, trazem recordações de seus amigos que ficaram em Minas. E marca uma ponte em Sampa para ganhar um autógrafo. 3. Claudio Levitan me envia um abraço saudoso e agradece o que escrevi aqui no DF sobre seu cd A Longa Milonga. E comenta que estava exatamente lendo o blog quando recebeu meu e-mail com o texto.Tu estavas vendo eu ler o que tu escreveste? pergunta. Respondo que moramos no mesmo lado mais claro ainda da lua. 4. O editorial do Estadão de hoje está ótimo, denunciando o banana do Lula diante do espertíssimo Kirchner. Em compensação, na mesma edição, João Mellão publica um texto sobre 1932 cheio de arrogância e ressentimento. Ninguém inveja Sampa, Mellão. Todos amam São Paulo, menos os oportunistas que se servem dela para cevar maus sentimentos.

8 de julho de 2004

Diário da Fonte
UMA DERROTA DA DITADURA

A importantíssima vitória da mobilização popular em Florianópolis contra o aumento extorsivo dos preços dos ônibus foi um golpe na ditadura civil, sistema que atualmente nos governa por meio do arrocho financeiro e da política anti-povo. Infelizmente, não foi uma vitória da democracia, pois um regime democrático não extorque o próprio povo. Numa democracia, a mobilização popular é para conseguir vitórias políticas e não liberdade, que está assegurada de fato. Só na ditadura se luta pela liberdade. No caso de Florianópolis, a liberdade de não ser tungado pelo poder instituído num direito básico que é o transporte. Não falo da Prefeitura em si, que é boa em muitos aspectos, mas do sistema (transportes privatizados incluídos). Por isso Florianópolis dá régua e compasso para a engenharia política popular que deve ser planejada de agora em diante. Especialmente quando querem impedir a promotoria pública de investigar os crimes e adotar uma Lei da Mordaça para a imprensa, o que consolidaria a censura na ditadura civil.

IMPRENSA ? Com honrosas exceções, como é o caso de alguns colunistas do Diário Catarinense, a imprensa se comportou muito mal no episódio, especialmente o noticiário de televisão e os editoriais impressos, que se opuseram frontalmente à legitimidade do movimento, que começou nas associações de moradores e ganhou o apoio decisivo dos estudantes. Depois que a justiça proibiu temporariamente o aumento, graças à liminar encaminhada por uma atuante OAB local, alguns comentaristas de TV estavam com a maior cara lambida do mundo, pois passaram dias xingando os tais grupos organizados e infiltrados que estariam proibindo a população de ir e vir. Houve má vontade e ataques contra a insurreição e a revolta, coisa típica de imprensa amordaçada, que sempre diz sim ao governo, qualquer governo. Como não se chegava a um acordo, o governo estadual chegou a propor uma diminuição do ICMs para resolver o impasse, o que é de um oportunismo sem fim, pois estamos em época eleitoral e a Prefeitura é sua adversária política. Além disso, os impostos deveriam, em sua maioria, ser abolidos, em favor de um imposto único, pagável, e não o atual estado de extorsão via taxas e tributos. Como fica a imprensa tendenciosa diante de uma vitória como esta? Eis uma das vantagens de se ter jornais realmente isentos, sem diatribes intituladas chega! basta! parem com isso! e não sei o que mais. Dentro das redações, deveria haver pressão em favor da democracia. Os jornalistas precisam se opor às diretrizes impostas pela ditadura via patronato ou chefia da redação. Até mesmo quando derrubaram o Cláudio Abramo na Folha em 1977 por ordem do Exército e impuseram o Boris Casoy (que era de confiança do regime) como diretor de redação, em plena ditadura civil/militar, todos os jornalistas ficaram de pé por um dia inteiro para protestar contra a medida. Mas Abramo está esquecido ? nem foi citado no centenário do Estadão, que ajudou a transformar em jornal importante - e Boris faz caras e bocas para achar tudo uma vergonha. É mesmo, mas por outros motivos.

REFLEXOS - O domínio dos bairros feitos pela corrupção policial e pelos traficantes, como mostrou o jornal da Band em Curitiba, e como há de sobra no Rio e em São Paulo, é um reflexo direto da ditadura civil. Os bandidos clonam o poder ditadorial por meio das armas, do assassinato, do arrombamento, do estupro e toda a sorte de violência, invadindo casas e obrigando os moradores a fugir. Sinal que não há liberdade porque não há Estado para defender o povo. O Estado está recostado em poltronas macias, dizendo abobrinhas, como faz Lula e Zé Dirceu, no que é imitado pelo Renato Machado, que se sente importante com suas dizidas extravagantes no seu noticiário, o Bom Dia, Imbecil. Numa democracia, a luta não é pela segurança básica, é pela ampliação da segurança. O movimento estudantil deve aprender com o que conseguiu aqui e não repetir 68, quando se sentiu poderoso depois da passeata dos cem mil e deitou tudo a perder com a arrogância política. A mobilização só dá certo se estiver sintonizada de fato com as necessidades da população. Não vão agora os estudantes se acharem reis da cocada preta e fazer como no tempo dos caras pintadas, que serviu para inventar carreiras políticas como o do tal Lindenbergh.

Diário da Fonte
A PREVISÃO DO TEMPO

O tempo fechou em Florianópolis e o movimento popular de repúdio à política anti-povo que arrochou o preço das passagens de ônibus ganhou a primeira batalha. A Justiça mandou rever o aumento. Mas no noticiário nacional da Globo o que aparece é o chamado Sul com muito frio e uma imagem anódina da capital catarinense. Para isso serve a previsão do tempo, além de gerar coisas como a Sandra Annenberg (aquela que diz boa tardinhêêêê, para espichar o cumprimento e assim ficar mais tempo no ar). Para dizer que o Sul é frio e que tudo está sob controle deles. Pois não é bem assim.

AGORA O MÉXICO - Então essa parceria com o México é boa para o Brasil? pergunta a apresentadora com cara de gulp/gulp, para a especialista Miriam Leitão (que conheci muito menina, na redação da recém fundada A Tribuna, de Vitória, ES). E-xa-ta-men-te, responde Miriam. Ou seja, preparem-se. Depois da China e da Argentina, chegou a vez de o México gargalhar do Brasil. A cena se passou no famigerado noticiário Bom Dia, Imbecil, aquele em que o Renato Machado recosta-se na poltrona e deita falação, especialmente sobre suas viagens regadas a vinhos ao interior da França. Claro, ninguém reclama. Ninguém fecha a ponte, ninguém grita que está errado. Ninguém lembra que o verso a vida vem em ondas como o mar é do Vinícius de Moraes e não do Lulu (?) Santos. Ontem, Lulu (?) foi homenageado numa premiação gigantesca de música (A Wanderléia ganhou a de melhor cantora; será verdade que os chegfões da gravadora são mesmo do tempo do iê-iê-iê nacional, a musiquinha de lata que ficou na História?). A cantriz que fez a homenagem espichava o verso do Vinicius, agora parte da obra de Lulu (?), com aquele estilo que pegou entre os cantores nacionais, como a se a língua portuguesa fosse um fardo que precise ser demolido a cada emissão de som.

NILSON LAGE - O jornalista e professor titular da Universidade Federal de Santa Catarina mata a pau num artigo da Folha, enviado pelo correspondente do Diário da Fonte no Rio de Janeiro, Jorge Freitas. Vamos a esse artigo sobre a arrogância dos articulistas da própria Folha, o que é um mérito grande para o jornal."A ousadia dos colunistas( Nilson Lage) - Arrogância vem do latim arrogantia, substantivo derivado do particípio presente do verbo arrogare, que significa "apropriar-se", "tomar para si". A raiz arrogante-, no nominativo latino arrogans, genitivo arrogantis, designa "aquele que se apropria". A palavra entrou por via culta - isto é, foi aportuguesada, ao mesmo tempo afrancesada e, daí, anglicizada - no século 16. Frei Diogo do Rosário a definiu: "He a altiveza, com que se estima mais do que se bem he". A forma inglesa, proveniente da França, é arrogance; aparece em Shakespeare - por exemplo, na sentença "I hate not you for her proud arrogance" ("não o odeio pela arrogância orgulhosa dela"), da tragédia do Rei Ricardo III. No século 19, a arrogância era chamada de "soberba"; por quase todo o século 20, foi nomeada como "presunção", "pretensão", "pedantismo" e, popularmente, como "bestice", "rei na barriga", "nariz empinado" etc. A palavra, em si, bem como outras do mesmo galho, tinha uso raro em português, quase sempre restrito ao mundo jurídico: "Eu (me) arrogo o direito de", "a atitude arrogante do réu", "a arrogância perante a corte". Como sua voga atual, no Brasil, decorre do inglês, podemos dizer que retorna por via pseudoculta, isto é, por meio daquela gente da elite que, no esforço de falar português globalizado (prenunciando a Idade Média anunciada em 1977 por Alan Minc e Nora Simon), adora os cognatos. O pessoal que faz, de "inicial", "inicializar"; de "falarei", "estarei falando"; de "desliga", "estará sendo desligado"; que, quando diz que "realiza" alguma idéia, está apenas cogitando pô-la em prática; que substituiu "estrangeiro" por "internacional"... Convocação do além: Pensei nisso, outro dia, viajando de avião, com escalas. Talvez por falta do que fazer, lia jornal buscando, para além do sentido geral dos textos, detalhes reveladores. Era 24 de junho, e haviam distribuído no aeroporto a Folha de S. Paulo. Na página 2, lá estava Eliane Catanhêde. Sua coluna começava assim: "Criado na era Vargas para barrar o avanço do comunismo, o trabalhismo floresceu, murchou, dividiu-se e virou. nada". Não é arrogante colocar, de passagem, em mero particípio absoluto (que, no meu tempo de colégio, chamava-se de "ablativo absoluto"), uma afirmação tão ousada quanto essa sobre a intenção de Getúlio Vargas ao fundar o PTB, em 15 de março de 1945? Será uma teoria criada em São Paulo, daquela série de enunciados antigetulistas que começou com a derrota dos constitucionalistas, em 1932, e durou até Fernando Henrique anunciar (e não conseguir de todo) pôr um fim à "herança varguista"? Em que sessão espírita Getúlio confidenciou à articulista suas motivações secretas? No mesmo jornal, na página 3 do caderno "Dinheiro", ainda no capítulo das arrogâncias, este trecho de Luís Nassif: "A idéia [da integração competitiva] foi retomada no governo Collor e resultou no mais consistente programa econômico dos anos 90, com redução gradativa das tarifas de importação, ao mesmo tempo em que se lançavam as bases para a melhoria da competitividade das empresas brasileiras - por meio da criação do Programa Nacional de Qualidade e Produtividade. "Esse movimento resistiu ao governo Itamar e foi sufocado pela apreciação do real, em julho de 1994. De lá para cá, o projeto nacional foi substituído por um pensamento raso, simplificador, do grupo de economistas que dominou o embate ideológico a partir da mística dos pacotes econômicos. "Agora, é a própria esquerda, modernizada , que começa a se articular em torno de pontos concretos para a montagem de um projeto nacional". Trocando em miúdos: ao contrário do que muitos pensam, a política do governo Lula não continua a de Fernando Henrique Cardoso, que já em 2001 buscava estimular exportações. Ele retorna o "projeto nacional" de Fernando Collor e, aí ao contrário do que todos poderiam imaginar, isso é bom. Adam Smith, David Ricardo e Carl Menger, se convocados do além para uma apreciação da história recente brasileira, talvez não ousassem chegar à mesma conclusão do articulista. E certamente seriam menos enfáticos. "

7 de julho de 2004

Diário da Fonte
CULTURA É INDEPENDÊNCIA


A sucessão de intervenções faladas a que se de dedica o presidente Lula gera, comprovadamente, um impacto mundial. Basta ver como nos tratam a China e agora a Argentina depois de ouvirem atentamente o estadista dos grandes estádios. Desta vez, ele teve um ágape intelectual com os colunáveis da Globo, que foram levar a preocupação da família Marinho de perder o trono por incompetência e ser substituída por algum escroque estrangeiro. Tudo em nome, claro, da soberania nacional, que, surpresa!, voltou à moda. No noticiário mais do que noturno, Arnaldo Jabor colocou sua colher dourada para dizer, entre outras coisas, que cultura é coisa concreta, geradora de empregos. Isso é indústria cultural, ou de entretenimento. Cultura é outra coisa. Cultura é você achar que as Casas Bahia estão exagerando com tanta propaganda.

TANQUINHO - Deve haver alguma coisa errada. O abombadinho das Casas Bahia não sai da tela. Gasta-se o tempo precioso do povo com anúncios sobre os eletrodomésticos e móveis. É bom descobrir que 26% da chamada linha branca vai para a Argentina, ou melhor, não vai mais, pois lá, ao contrário daqui, existe um país. Na hora em que eles começaram a comprar mais do que vender para nós, depois de uma década levando vantagem, imediatamente mudaram o jogo. É assim que acontece com qualquer país que tem povo dentro. Como não temos povo, mas, como comprova a coluna do Elio Gaspari no último domingo, apenas choldra a patuléia, fazemos qualquer negócio com qualquer um, desde que Maria leve o seu de alguma forma. Por que não vendemos essas geladeiras e máquinas de lavar roupa para a população brasileira? Não, para o povo vendemos tanquinho, que dá quase o mesmo trabalho de um tanque de roupa suja e nem chega perto do nariz empinado das madames dos anúncios da Brastemp. Bastou os argentinos falarem grosso para o Mercosul despencar mais uma vez. E, como os chineses que deitaram na soja depois que Lula foi visitá-los cheio de pose, a Argentina meteu bronca bem na hora da reunião do Mercosul em Porto Iguazu. Brotaram imediatamente os gerentes das multinacionais dizendo que vão cortar milhares de empregos. Pois não é que no Jornal Nacional fez reportagem sobre como os brasileiros estão comprando mais linha branca? Coincidência! Agora que estão com o encalhe na mão, intensifica-se a campanha. Publicidade não resolve. O que precisa é distribuição de renda e fim dos monopólios. Sou a favor das micro-regiões auto-suficientes em tudo, especialmente na alimentação. Fim do passeio da cenoura movido a diesel e a rebite de caminhoneiro.

A INOCÊNCIA PERDIDA - Eu não sei por quê, pergunta o inocente Lula, as pessoas não se organizam em cooperativas de crédito. O recado é óbvio. A campanha política vai bater feio no lucro gigantesco dos bancos, fruto da fraqueza deste governo e de sua política anti-povo. Por isso Lula, que se acha muito esperto (riem os chineses) vem nos esfregar na cara que somos uns idiotas que ficamos pagando juros e taxas bancárias em vez de nos organizar. A verdade é que, quando existe realmente mobilização popular, desce-se o cacete. No ágape global no Planalto, um intelectual a tiracolo veio com aquela expressão, em qualquer país do mundo, para dizer que precisa regular a Internet, como acontece, claro, em todos os outros lugares, menos aqui. Era o que faltava. Vão regular o excesso de publicidade. O Diário da Fonte é um veículo de comunicação organizado, que tem título, olho, lead, seções definidas, colaboradores e correspondentes no Brasil e no Exterior. Não precisa ninguém regular nada. Falo aqui com total independência. Isso é cultura. Mas parece que para eles cultura nacional é o Tony (apelido americano) Ramos imitando coronel caipira. Aliás, atores globais adoram fazer papel de coronel. Eles acham que fazem denúncia, mas estão apenas reiterando os papéis sociais neste país divididos entre mendigos e biliardários. Pensam que retratam o Brasil, mas apenas reforçam a má distribuição de renda que eles representam, como privilegiados de uma potência de comunicação que cresceu à sombra da ditadura.

6 de julho de 2004

Diário da Fonte
A REVOLTA EM FLORIANÓPOLIS

Vejo que o noticiário nacional não encara os fatos que se desenrolam na capital catarinense com a seriedade devida, pelo menos com a lucidez necessária. Para variar, a imprensa trata a realidade como um conjunto de fatos isolados, herança de quarenta anos de ditadura, em que tudo é fato isolado e qualquer manifestação popular é obra de grupelhos infiltrados. Essa é uma tese muito corrente por estas bandas. Bate-se no lugar comum de que a liderança vem de fora e mira nas eleições. O que deve se prestar atenção é que as manifestações de rua contra o aumento das passagens de ônibus é o primeiro sintoma grave da saturação popular diante do arrocho que, agora fica claro, parece se eternizar no governo Lula.

SINTOMA - Todos votaram em Lula pela mudança, e o que aconteceu foi a revelação de que nenhum governo eleito pelo voto poderá mudar o sistema que nos governa, que é o da ditadura civil, obediente ao arrocho financeiro internacional, que possui escravos de sobra e passa como um trator por cima de todas as nacionalidades . Essa é uma percepção ainda difusa, mas Florianópolis hoje funciona como um microcosmo do País prestes a explodir em revolta geral. Vejam o que acontece no Rio de Janeiro: a bandidagem invade casas, expulsa todo mundo, saqueia, mata. Sintoma da falta de segurança e de justiça por parte de governos ineptos, com governantes gerados pelo sistema estrutural autoritário que não permite nenhuma defecção e que, de mãos atadas, se jogam a culpa mutuamente, como se não houve uma situação real de emergência que deveria mobilizar todas as forças do país em frangalhos. Até quando? Diga-se que Florianópolis é diferente, tem uma renda per capita maior, mas os assassinatos aqui já começaram a dar mostras de vigor inédito. A verdade é que esta cidade é um termômetro de uma situação que se deteriora. Custou a chegar aqui, mas chegou de chofre. O marketing que se fez da ilha todo esse tempo não revela a real situação da cidade, apesar de ser ainda muito linda, e na maior parte do território, limpa. Aqui existe uma defesa atuante do meio ambiente e uma elite um pouco mais atenta do que a do resto do país em relação ao equilíbrio social. Há também uma tradição de segurança alimentar que infelizmente está também se deteriorando, pois é proibido plantar qualquer coisa na ilha ? está tudo cheio de mato, sem lavoura, nos disse um velho morador, de 80 anos ? e a pesca encolheu até o limite máximo. Vivemos neste momento uma fase excepcional, que é a pesca da tainha, mas ela acaba dia 15 deste mês e nesta temporada ficou bem aquém do que se esperava, com um rendimento menor do que nos anos anteriores. Isso tudo se reflete num potencial de desequilíbrio aumentado pelo inchaço (ainda pequeno, mas preocupante, com tendência a crescer) da cidade, a falta de emprego que assola o país e a necessidade de sobreviver pagando altas taxas, especialmente nos transportes e nas telecomunicações.

MOVIMENTO - Com a voz embargada, a prefeita Ângela Amin aparece a toda hora na TV, num depoimento gravado, avisando que não cederá e colocando a culpa do movimento nos estudantes que exigem passe livre. O que acontece de mais explícito é o cansaço do arrocho, senão qualquer pregação seria inútil. A três reais a passagem para o norte da ilha (e outros bairros) ? existem outras tarifas, menores, para trajetos muito curtos ? um trabalhador paga seis reais/dia, ou 120 reais mês, o que dá quase meio salário mínimo. Existem casos especiais de passe livre para quem comprova necessidade, como garante a prefeita, e vale-transporte pago pelas empresas, mas há uma grita de que os empresários daqui não estão dispostos a bancar o aumento, que foi decidido pela Justiça. O fato é que as duas pontes ficam interditadas com as manifestações, e agora existe até acampamento diante do terminal de ônibus. Muita gente reclama do novo sistema de transporte, de que os ônibus são inadequados (os que usei não correspondem a essa denúncia) e que é cansativo obedecer a um roteiro que é interrompido a toda hora, pois obriga-se os passageiros a fazer baldeação nos terminais intermediários que existem por toda a cidade. Numa cidade modelo, rodeada da mais bela e infinita natureza, com mar inesquecível, gaivotas sobrevoando teu sonho, esse pesadelo aponta para algo grave. Haverá desobediência civil nesta semana e o pau pode comer feio, pois a idéia é usar os ônibus mas não pagar a passagem. Floripa é uma cidade dividida entre ilha e continente. O apagão aqui isolou parte dos habitantes deste lado (da ilha) e as sucessivas interdições da ponte nesta revolta fazem o mesmo. Da Justiça, vem a sugestão de repressão dura. Da liderança do movimento, vem a insistência na luta, já que, segundo um deles, o povo cansou de ser explorado durante anos, sem reclamar.

ALARME - Não se trata de burburinho pré-eleitoral, mas o sintoma de algo muito sério.Vivemos num regime de opressão financeira e política. Soltaram-se as rédeas do comportamento porque os poderosos adoram ver o povo fazendo papel de palhaço. Junto com o sucateamento da educação, o gangsterismo por todo o lado(rouba-se desde sangue até carga de caminhão)e a corrupção , e temos um quadro poderoso de instabilidade. Floripa levanta-se para dizer que o povo encheu e, se os políticos não encararem seriamente o problema, podemos enfrentar uma tragédia um pouco maior da que já vivemos, em que perdemos um Vietnã por ano no trânsito e outro na violência pura e simples. Quando o povo aqui revoltou-se contra o governo exasperante de Figueiredo, o sintoma era o cansaço com a longa ditadura civil/militar e a pressa a favor de uma reviravolta política. Novamente Floripa dá o alarme. Quem vai escutar?

5 de julho de 2004

Diário da Fonte
INDEPENDENTE DE QUALQUER COISA


Claudio Levitan é um espírito livre. Compôs 12 canções que formam A Longa Milonga, cd independente de qualquer coisa, como diz na ficha técnica. É o resgate de uma tragédia familiar e política, o massacre de 2.000 judeus lituanos em 1941, entre eles muitos parentes do autor, todos moradores da cidade de Keidânia. É uma abordagem às próprias raízes musicais, pois seu pai e seu tio, gêmeos, faziam a fusão da riquíssima herança de canções e ritmos da música klezmer (como somos informados no belíssimo encarte do cd) com o ambiente de sons que encontraram na chegada ao Brasil, quando ainda eram crianças. É um exercício de reencarnação litúrgica, com uma dramaturgia mestiça entre as romanças populares dos payadores do pampa e a anarquia cultural trazida da Europa antes que fosse destruída pelas guerras.

ORIGINALIDADE - O trabalho é do ano 2000. Chego, portanto, tardiamente à obra deste amigo que foi fundamental para eu não só estrear em livro, mas pensar a poesia e a literatura de maneira mais conseqüente, ou seja, fora do circuito pessoal e dentro do insensato mundo das idéias que geram projetos e produtos. Foi Levitan que foi até minha casa em Blumenau para conhecer melhor meus poemas, pois tinha lido alguns e não estava satisfeito. E foi ele quem armou junto com o Caio Fernando Abreu e o Juarez Fonseca a viabilização dessa estréia, que é meu livro Outubro, luz da minha vida e da minha geração. Longe daqui, no ruído paulistano, não consegui chegar até A Longa Milonga. Agora sentei ao lado da voz de Levitan, dos seus instrumentos (banjo-bandolim, violino e violão) e dos seus companheiros nesta obra, como o arranjador e co-produtor Arthur de Faria e o produtor Fernando Pezão. Quem nos leva pela mão é a poesia de Levitan:o rio incerto de lágrimas rumo ao deserto, a aflição pela falta de luto, os sinos que batem em vão, a vida sempre incompleta a qualquer momento, o orvalho vermelho do sangue espesso, a incerteza entre a dor maior, se a da morte ou a da memória. Tudo isso numa orginalidade definida como brutal pelo arranjador Faria, onde, nas suas palavras, as arestas e pontas da música de Levitan dão?se ao luxo de insuspeitas simetrias. Faria pegou bem o perfil criativo de Levitan: ele trabalha em espirais, com esferas que nunca se encontram, mas que vistas de longe, no espaço e no tempo, e mesmo frontalmente, cara a cara, revelam o espírito completo da liberdade bem resolvida. Num poema que dediquei a ele, e que, claro, está em Outubro, disse que a linguagem é a única arma que dispomos. Levitan prefere todas. É poeta, compositor, arquiteto, desenhista. E uma alma gentil como poucas, um trato fino, de educação espiritual que foi uma chama firme e forte em longo tempo de trevas e que agora, como sempre, brilha para nos impulsionar para novas vidas. Que este cd seja pouco conhecido é um desperdício cultural.

PORTUGAL - Nosso correspondente em Portugal, Miguel Dias, escreve a seguinte mensagem: " Portugal? no final!Pois é, gente, um mês se passou nesta minha visita pelas terras lusitanas. Um mês de céu azul, algumas nuvens quando do Santo Antônio e alguns pingos de chuva que nem sequer vi. Disseram-me várias pessoas que o verão aqui é assim: não chove. O ar daqui é muito seco; sinto-o na pele que exige mais e mais hidratante e o nariz fica ressecado. Em Santiago, no Chile, é assim também. Nosso país é que é bem húmido. Não vi mosquitos(pernilongos) por aqui; creio que é o preço que pagamos por nosso clima maravilhoso, pois, segundo os próprios, no inverno o portugueses são tristes. Certamente daí o fado; ou estarei enganado? Hoje, após a derrota de ontem frente à muralha grega, o dia amanheceu calmo por aqui. À noite, alguns insistentes ainda quiseram reviver clima de festa, mas parece que não colou. As bandeiras permanecem às janelas e nos veículos. Foi um mês de festa que, coincidentemente acompanhei. Algumas praias com água geladíssima; mergulho rápido e, ao sair, aquele calor da reação ao frio. Já penso em voltar às terras brasis, apesar do frio que, sei, vou encontrar pelo sul. Frio e calor, pois sei o quanto meu povo é quente, mesmo quando faz frio. Vamos com o Gonzaguinha: ?Sei que a vida podia ser bem melhor e será, mas isto não impede que eu repita: É bonita! É bonita e é bonita!"

BANCOS - A fila de banco é a fila da ditadura. Pessoas detonadas aglomeram-se agarradas aos seus trocos para pagar tributos, principalmente telefone, essa nova taxa absurda que nos impõem depois que privatizaram tudo. Paciência forçada, de pessoas tristes porque escravas do arrocho financeiro nacional e internacional. Como puderam privatizar serviços? Os serviços usam a infra-estrutura paga pelo povo, não gera produtos e envia lucros para o Exterior o tempo todo. Todo mundo com cara de fazer o quê.

4 de julho de 2004

Diário da Fonte
NENHUM JORNAL DE DOMINGO


Agora não temos jornal de domingo, que sai no sábado, nem de sábado, que é assassinado pela edição precoce dominical. Invenção da Folha e sua pretensa competitividade, o que foi imitada por todos os outros. Não compramos mais o jornal de sábado pois em cima dele está o de domingo. Acordamos domingo sem jornal para ler. Em compensação, temos o boletim de segunda-feira, outra invenção sinistra, pois uma equipe de jornal não pode estar completa num domingo à tarde, que é dia de ficar de papo para o ar. O resultado é que durante três dias há uma confusão tremenda.

TESOURA PRESS - A solução seria manter o esquema tradicional: jornais de terça a domingo. Neste, haveria uma edição especial de verdade, ou seja, cultural. A cultura foi erradicada, com raras exceções, da imprensa, que se dedica ao entretenimento, à publicidade descarada no espaço da reportagem, aos artigos importados da Tesoura Press e às resenhas anódinas que incensam nulidades da música e da indústria de livros principalmente. Todos agora escrevem livros, e o que é mais impressionante, conseguem publicar. Conheço autores que ficam décadas na geladeira por não ter um só editor que arrisque neles. Mas basta alguenzinho alinhavar meia dúzia de letras para sacudir seu livreco na mídia. Não sei para onde foram aqueles milhões de exemplares de clássicos de Vinicius e Clarice Lispector que o governo comprou e estocou. Mas é o desperdício total: gasta-se os tubos para nada. A imprensa, que decidiu concorrer também no nicho de livros, deveria ficar de fora disso, pois como um resenhista da Folha poderá ser isento ao comentar um lançamento da Publifolha? Li esses dias nesse jornal que o livro sobre Chico Buarque, de autoria de um editor da casa, seria o mais importante lançamento sobre o tema. Não é bandeira demais? Esse desplante agora é sem contestações? Give me a break, Joe. Precisamos de cultura, ou seja, de independência. Existem alguns claros na mesmice. Os artigos de Gilberto Vasconcellos no Mais!!, por exemplo, ou os de Mangabeira Unger às terças-feiras. Na página 3, de opinião e debates, costuma haver textos interessantes. Mas o grosso dos jornais se dedica ao nada, à chatice habitual. Ainda existem boas e raríssimas reportagens. E alguns colunistas bala. Mas é muito pouco. Queremos uma imprensa livre de norte a sul do país. Se isso acontece nos grandes centros, imaginem nos menores. Ainda estamos em plena época da imprensa sob censura. Usa-se, pasmem, a expressão grupos organizados para desmoralizar mobilizações populares. E usam palavras como baderna para abord(t)ar movimentos democráticos. É assim mesmo, ditadura total.Hoje na Folha Janio de Freitas diz textualmente: Falar em regime democrático no Brasil é uma aberração tão grande quanto os feitos dos seus governos nos 10 anos de Real.

CARTA - Minha carta para a revista Cartacapital não teve a sorte de ser selecionada para publicação. Mas como não deixei barato a estocado mortal que o jornalista e historiador Maurício Dias deu no trabalhismo, ao abordar a morte de Brizola, escrevi o seguinte: Ao contrário de outros coveiros do trabalhismo, que agem por má-fé, o jornalista e historiador Mauricio Dias confia na sua própria argumentação para enterrar uma corrente política que é disputada por dois partidos. Deveria armar-se não da comodidade racional, que pode ser traiçoeira, principalmente se for cevada na estufa da auto-suficiência profissional e na experiência jornalística numa imprensa que, desde 1964, nunca conseguiu chegar ao esplendor da lucidez e da isenção, por motivos os mais diversos. Deveria confiar mais na observação factual, ferramenta do jornalismo e da História. A multidão que velou Brizola no Rio e em Porto Alegre e o enterrou em São Borja estaria também fadada ao desaparecimento? Todos juntos ao mesmo tempo? A emoção que eles sentiram estaria totalmente dissociada da razão, sem o mínimo acompanhamento da ideologia aliementada pela vivência e a leitura atenta dos fatos, ou do conhecimento sintonizado com a grandeza? O trabalhismo estaria automaticamente encerrado tão logo fosse fechado o caixão, deixando ao desamparo o óbvio valor da sua autenticidade histórica e seu cacife agora posto a descoberto com a morte do seu líder maior? Seriam perguntas banais que o eminente jornalista e amigo poderia se fazer, antes de acomodar-se na garbosa posição da certeza aparentementee charmosa, mas vazia. Ou no texto que semicerra os olhos para dar-se uma aparência cool, mas que acaba se traindo ao não enxergar o que nação manifesta de maneira tão explícita..

JK EM 64 - Juscelino Kubistchek foi apontado pelo ex-ministro de saúde de Jango, Wilson Fadul (hoje com 85 anos), como o político que viabilizou a candidatura do marechal Castello Branco logo depois do golpe de 64. JK, de olho na presidência em 65, abortou a candidatura do general Amaury Kruel, que poderia fazer um governo real de transição. JK achava que Castello estaria agradecido a ele por tê-le feito general quando foi presidente entre 1955-1960. Castello assumiu com o apoio de JK no Congresso e cassou seus direitos políticos dois meses mais tarde. A ditadura então, graças a Juscelino, começou. O depoimento de Fadul está na excelente edição Olhares sobre 1964, o golpe que calou o Brasil, do Jornal do Brasil, publicada no dia 11 de abril deste ano, um projeto com coordenação editorial de Denise Assis e que me foi enviada por Juliana Duclós, editora de arte do jornal O Buziano e aniversariante desta segunda-feira, cinco de julho.

UM POEMA - Como hoje é domingo e ontem fiz um poema, vamos à seção de Cultura do Diário da Fonte (que ainda será impresso e aí vamos ver com quantos marcelos mins e virsons holderbaums se faz uma canoa).

BROMÉLIAS

Nei Duclós

Somos como as estrelas
a única luz nesta noite preta
O amor que você produz me tenta
o corpo cai em confusões de renda

Somos como a lua em linha reta
subindo por um céu que não aceita
Ela quer vir até nós e ninguém deixa
Sua esperança é a carona de um cometa

O poeta não dorme enquanto houver mistério
Compartilhamos o susto de uma esfera
que rola infinita pelo tempo
mas quer mesmo é estar perto da fogueira

Pousa sobre nós o sopro de um segredo
Se estamos tão sós por que não venta?
Se não há tempestade existirão os duendes
a tramar nosso tombo entre bromélias

Embalados de natureza adormecemos
O escuro, exausto de nos pregar peças,
temeroso espia o sol que se apresenta
e foge para inventar mais sortilégio

Somos o amanhecer de olhos tontos
entrevemos um oceano de serenos
Ainda dormimos quando despertamos
numa nuvem de sono e realejo

RETORNO - O Diário Catarinense de ontem, sábado, republicou a força que Tabajara Ruas deu para meu romance Universo Baldio, e que tinha sido divulgada antes na Zero Hora, conforme noticiamos aqui. Culpa do imbroglio de fim-de-semana: só hoje fiquei sabendo que a edição de sábado continha essa preciosidade. Edição que deixei de lado, sem saber da nota, por contar, de manhã, com a edição do dia seguinte. Mas valeu a força não só do Taba como do Diário, que já publicou página inteira de uma resenha, de autoria de Dorva Rezende, sobre o livro.

2 de julho de 2004

Diário da Fonte
EU PODERIA SER ALGUÉM

A morte de Marlon Brando aos 80 anos nesta última meia-noite nos remete à sua cena mais famosa, praticamente sua herança mais importante: a cena em que reclama com o irmão que o obrigou a perder uma luta no clássico de Elia Kazan, Sindicato de ladrões (On the Waterfront). Eu poderia ter vencido aquela luta, pelo menos disputado de verdade e assim teria uma carreira digna e hoje não estaria na mão de bandidos, participando de assassinatos e roubos, nos diz o maior ator de todos os tempos. Sua vida foi uma saga humana de ascensão e queda. Ele nos deixa um exemplo de independência, vontade, luta e talento inigualável.

GÊNIO - Seu famoso discurso para o ator Rod Steigger é mais uma performance de gênio do que a confissão de uma derrota. É por isso, por ser a manifestação da garra lúcida de Marlon Brando, que o discurso ficou na história: "I cudda had class! I cudda been a contender! I cudda been somebody!" Eu poderia ter classe, ser um lutador, ser alguém. Mas aceitei as imposições dos que não queriam que eu cumprisse o destino, fui covarde no momento decisivo, não enfrentei o inimigo na hora certa. E o inimigo não era o meu adversário na luta que entreguei para que os outros ganhassem as apostas. Os inimigos eram esses mesmos, os jogadores que se adonaram da minha vida e hoje me tratam como lixo. A gana com que ele diz isso faz parte não só da história do cinema, mas da civilização. O que é esta vida senão a preparação, o enfrentamento e o rescaldo dessa hora fatal em que podemos decidir o destino? O filme de Kazan trata da nova chance, quando aquele que foi derrotado pela sua própria covardia tem a oportunidade de dar a volta por cima, enfrentar os tiranos e sair enfim vencedor, mesmo sabendo que jogou boa parte da sua vida fora. Eis outro motivo para a eternidade do discurso: se você encarar de frente a situação, dizer alto que perdeu aquela batalha, se souber enxergar o quanto perdeu, se não tiver a mínima piedade de si mesmo, se enfrentar seus fantasmas de cara limpa, se puder ver quem são os algozes que o levaram para o buraco, você terá a chance de resgatar a si próprio, desde que saiba a tragédia onde você vai se meter: como na primeira vez, você enfrentará a sua morte com essa decisão. Tens essa coragem? Não basta fazer o balanço do buraco onde você está metido. Não basta decidir enfrentar o horror mais uma vez. Precisa saber que, como antes, poderás morrer. Estás preparado?

LEGADO - Brando leva com ele interpretações imortais que nos fizeram saltar da cadeira, assim como Buñuel pulava diante de Antonio das Mortes. Lembro o dia em que apareceu todo fantasiado numa sessão das quatro (16 horas) no cinema de Uruguaiana e foi aplaudido de pé pela platéia deslumbrada e debochada. O filme era O grande motim e Brando extrapolou no exibicionismo. Já era então o gigolô da sua própria história, já detonava, jogava para o alto o que conseguiu com fúria. Já tinha destruído a atuação como era conhecida até então com sua magistral interpretação de um canalha violento em Um bonde chamado desejo. Já era o maior, por isso dava-se ao luxo de fazer o que bem entendesse, como extrapolar todas as despesas de uma produção, expulsar diretores para tomar o lugar deles. Decidiu até fazer um faroeste, o estranho A Face Oculta, onde passa o tempo todo explorando até o limite as possibilidades do seu rosto, do seu corpo e do seu gesto. Mas o mais impressionante ainda estava por vir. Foi quando fez O Poderoso Chefão e reiventou a profissão novamente. Todos imitam sua interpretação nesse filme, de maneira séria ou às gargalhadas. Seu sussurro manipulando pessoas e situações, suas bochechas inchadas, sua testa em V, sua concentração. Quem poderá apagar da memória essa criatura magistral? E, de lambuja, como diziam antigamente, ainda temos Apocalipse Now, em que só seu rosto dividido entre luz e sombra emitindo o som gutural da morte (o horror! o horror!) é a mais assustadora aparição de toda a história do cinema. Se houve grandeza nesta fase em que passamos sobre terra, Marlon Brando encarnou-a. E de maneira única. Parte depois de muito sofrimento. Pagou caro a conta cobrada por ter sido primus inter pares, o maior dos maiores, que deixa, sim, herdeiros, mas nenhum que chegue ou chegará aos seus pés, já que tornou-se referência. Mesmo agora, aparentemente imóvel na eternidade, jamais poderá ser alcançado por nenhum mortal. Cada vez que formos ver um filme seu, ele ficará cada vez melhor.

RETORNO - O texto acima está sendo publicado também no site La Insignia, graças ao escritor pernambucano Urariano Mota, colaborador que me apresentou ao editor, Jesus Gomez, autor de uma gentilíssima mensagem de boas vindas. É uma honra para mim estar no time de colaboradores dessa trincheira cultural e política, que merece ser visitada todos os dias.

Diário da Fonte
O MONSTRO SEM REDAÇÃO


O dito jornalista bem informado é o monstro sem redação. Ele é bem informado porque compartilha da mesa do poder, ou seja, divulga um dia antes o que todos deverão divulgar no dia seguinte. E não fica na redação porque redação, por dedução, é para jornalistas mal informados. É monstro porque não tem as costas curvadas de tanto batucar nas pretinhas. Apresenta-se sempre elegante, ereto, com o rosto de retrato em ante-sala de entidade empresarial. Possui um sorriso inteligente e um sobrolho (confirmado por rugas significativas na testa) de extrema perspicácia. Confunde lugar comum com estilo, por isso acha que sabe o que interessa e pensa ser uma das pessoas que contam. É a mutação de uma criatura que nasceu Ibrahim Sued e não chegou a Paulo Francis. Mas serve para manter as aparências de uma imprensa amarrada financeira e politicamente pela ditadura.

COLUNISMO - Um jornalista bem informado, quando é colunista de telejornais, aparece numa tela dentro da tela, numa janela dedicada aos eleitos. Não por estar em outro lugar qualquer, mas no Olimpo, de onde verte as nuances de uma realidade que sempre escapará aos mortais. Mas estes têm o privilégio de vê-lo e ouvi-lo (ele espera) com reverência. Costuma nesses momentos gargalhar o riso dos que tem certeza de tudo, pois sempre acessa uma fonte que não é a cachoeira comum dos fatos do dia. Usa essa zona nebulosa dos acontecimentos para dela extrair o inusitado, o pitoresco, o maná, a ambrosia e o néctar que só os deuses sabem usufruir. Como não arrisca nada, ainda usa expressões como resta saber. Quando se tornam muito importantes, os jornalistas bem informados viram diretores corporativos, aliam-se a bancos, trazem anunciantes pelo cangote, amarrados em ágapes íntimos. Isso transforma o jornalista bem informado num moleque de recados de luxo. Pois no momento em que usa a chantagem para atemorizar as fontes e delas extrair o sumo, ou quando participa das reuniões onde jornalista nenhum deveria estar, por não ser esse, o poder, o ramo de qualquer jornalista, ele acaba virando presa fácil do poder que pensa decifrar. Torna-se então o monstro sem consciência e seu trabalho toma a forma da aparência senil dos borra-botas. Enquanto isso, as redações, cheias de jornalistas mal informados, remam no mar da incompreensão e do suor, compondo um trabalho que jamais poderá chegar à altura do jornalista bem informado, sob pena de repassar para o próprio as pepitas mais cobiçadas. Isso acontece muito, pois o jornalista bem informado sempre tem alguns peões que lutam nos bastidores para conseguir o que ele exibe como se estivesse tomando um chivas.

CANETA E LÁPIS - Na economia os jornalistas bem informados apenas balbuciam as frases feitas, para talvez tornar inaudível seu imenso comprometimento com o arrocho financeiro internacional, o mesmo que expropriou o país de suas estatais, de sua moeda (o que temos é um arremedo, um passaporte para a perda do território) e de seu povo (que morre no trânsito, na violência, na falta de escola e na falta de alimentação, saúde e moradia). O impressionante é que sempre estão por cima da carne seca, travestindo seu sim indissolúvel com o poder num menear de cabeça feito de pretensos talvezes. Na televisão, o jornalista bem informado em economia manipula a caneta ou o lápis para destacar-se entre os mortais analfabetos. Ele escreve, diz a imagem, portanto pensa, portanto escutem. Na gramática, o jornalista bem informado é o professor de inutilidades, o que substitui risco de vida por risco de morte e termina cada artigo com o mesmo bordão de quem tem a palavra final sobre o assunto. Nos cadernos de Geral, que chamam agora de cotidiano, mas que poderiam chamar-se de qualquer coisa, o jornalista bem informado denuncia profissionalmente a miséria óbvia do país (para alavancar as ongs a quem serve ou dirige) e insurge-se contra o câncer. Na política, o jornalista bem informado ri de todos os partidos, mas presta muita atenção nos que têm a chave do cofre, contra os quais jamais fala mal. Como o cofre muda de mãos, ele pode mudar de lado para sugerir independência, mas no fundo ele apenas está seguindo a grana. Há também o jornalista tão bem informado que vende espaço na sua coluna para plantar algumas notinhas, já que ninguém é de ferro. Por isso, quando me olham com o olhar de jornalista bem informado, eu puxo a minha Lugger. Ela está carregada.

1 de julho de 2004

Diário da Fonte
JÁ VI ISSO EM ALGUM LUGAR


A polícia baixa o sarrafo nos manifestantes que se insurgem contra o aumento das passagens dos ônibus, a decisão do campeonato descamba em violência, a imprensa amordaçada não pára de falar em democracia, o apresentador de televisão pergunta se tudo não é obra de grupos organizados, o arrocho financeiro internacional é tratado a pão-de-ló pela cara lambida dos analistas e o trabalhismo é enterrado nas revistas semanais em artigos inspirados na racionalidade superior dos eleitos da aristocracia intelectual e política. Ei, se for assim, quero meus vinte anos de volta!

GLOBO, 1968 - A caprichada produção dos primeiros capítulos de Senhora do Destino deu status de romance filmado à obra de Aguinaldo Silva. Pena que tudo voltou ao normal e temos agora os globais saracoteando suas bizarrices (ainda sou gostosa, diz a protagonista muito, muito antiga). Fatalmente voltarão as cenas em que todos mastigam à mesa enquanto conversam, servidos por empregadas uniformizadas (a maioria negras, deixaram algumas brancas para não dar tanta bandeira), que serão destratadas por madames de todas as idades e assim por diante. Além dos galãs sem nenhum talento e de olhares pseudo-profundos, que tiram as camisas para atrair o tesão das telespectadoras mal resolvidas. A única vantagem é nos livrarmos do bico feito por Marilia Gabriela, que interpretou a si mesma imaginando que estava encarnando uma personagem. É muita desfaçatez que a Globo venha nos contar como foi 1968, o ano em que apanhamos como nunca e que tínhamos a morte de plantão em nossa porta de estudantes desarmados. Nas mãos de verdugos os mais diversos, obedecíamos delegados da esquina, fardinhas escroques, coronéizinhos de paletó, chefetes de redação, professorzinhos lacerdistas, que davam aulas olhando para o infinito e com as mãos nas costas, fazendo ameaças a todos os envolvidos no movimento estudantil. Convivíamos com colegas dedo-duros, com bonequinhas que sentavam na primeira fila para fazer desenhinhos enquanto tentavam namorar os abombadinhos da engenharia e tudo o mais. Nada mais trágico do que essa juventude sem brilho, em que nos refugiamos na coragem possível e enfrentamos a polícia armados de alguns paus e palavras de ordem. Éramos o front da revolução mundial e isso ninguém nos tira. Aquele ano acabou sim, e acabou em 13 de dezembro, no AI-5. O que temos agora é um revival, pois não somos senhores do nosso destino, merecemos mesmo o deboche global na nossa cara lambida de pobres criaturas sem defesa neste ex-país.

BANANAS - Recebo lançamentos da W111 Editores e fico impressionado com a contundência de livros como Pior do que Watergate, de John Dean, E contra todos os inimigos, de Richard Clarke (esse é o roteiro de um filme de ação). Como a imprensa por lá também anda amordaçada, já que se trata da ditadura global de que nos lembram aqui no Diário, os livros são uma saída para o sufoco. Mesmo que esses livros ganhem vasto espaço na imprensa, nada se compara a ler realmente todas as páginas e entender como os bandidos fazem suas burradas. Os que citei ainda pagam muito pau ao americanismo, pois são defecções do sistema, assim como o próprio Michael Moore, mas é melhor isso do que nada. A imprensa brasileira não deslancha porque todos querem ser o que não são, costuma-se barrar a diversidade dos jornalistas e todos aqueles que se destacam como grandes repórteres investigativos acabam ou fora do país ou calados. Precisamos ter um desses exemplares em cada redação. O cara solto, sem pauta, o levantador de lebres, o louco, desarrumado, ou mesmo elegante mas eficiente na profissão. E não ex-grandes repórteres que posam de colunistas e analistas, como temos às dúzias. Gente que fez a fama e depois deitou-se no onguismo bem comportado e no aconselhamento dos eventos milionários. Precisamos de jornalistas que arrisquem a vida todos os dias e que não possa viver sem esse encargo. Para que isso aconteça, é importante que o editor-chefe convença-se que é um banana e nasceu para viver ali na cozinha, escondido do perigo. Esse é a sua função: ser exatamente nada e proporcionar o brilho alheio, pois para isso existe a grandeza de caráter e de espírito. Mas quem quer se convencer que é um banana e nasceu para admirar a coragem e o talento alheio? Precisamos de mais Samuel Wainers de todas as Ultimas Horas, mais Múcio Borges da Última Hora do Recife, mais Nestor Fedrizzi da Ultima Hora de Porto Alegre, mais Tarso de Castro do Pasquim, mais Penas Brancas, mais Hamiltons Almeidas Filhos. Precisamos de Caco Barcelos aqui (seu Rota 66 é confirmado todos os dias, recentemente uma pesquisa revelou no Rio o que Caco colocou preto no branco em São Paulo) pelo menos para encaminhar novos grandes repórteres. Queremos a manifestação livre e desimpedida, o fim da violência nos estádios (fruto da incúria administrativa e política) e democracia de verdade. Basta de ditadura.

ANIVERSÁRIO DO REAL - A televisão está eufórica fazendo materinhas sobre os dez anos do real. Vamos ver o que diz o maior repórter investigativo do mundo, o americano Greg Palast em seu clássico A melhor democracia que o dinheiro pode comprar): "Em outubro de 1998, FHC foi reeleito por um único motivo: tinha estabilizado o valor da moeda brasileira e, portanto, contido a inflação. Na verdade, não tinha. O real estava ridiculamente supervalorizado. Mas com a aproximação das eleições sua taxa de câmbio contra o dólar simplesmente desafiava a gravidade. Esse milagre levou Cardoso à linha de chegada com 54% dos votos. Mas não existem milagres. Quinze dias depois da posse de FHC, o real despencou e morreu. Sabendo muito em que a moeda seria destroçada logo depois da eleição, o Tesouro dos Estados Unidos garantiu que os bancos americanos conseguissem tirar seu dinheiro do país em condições favoráveis. Entre julho de 2002 e a posse de FHC em janeiro do ano seguinte, as reservas em dólar do Brasil caíram de 70 bilhões para 26 bilhões, um sinal de que os banqueiros pegaram seu dinheiro e fugiram. Mas a moeda permaneceu em alta antes da eleição porque os Estados Unidos deixaram clara sua intenção de substituir as reservas perdidas por um pacote de empréstimo do FMI. Um mês após a reeleição, o FMI ofereceu devidamente ao Brasil um crédito no total de 41 bilhões de dólares. O Brasil não ficou com nada disso, é claro. Qualquer parcela que tenha realmente pingado no país embarcou no primeiro avião com os investidores e especuladores que o abandonaram. Agora, os brasileiros têm de pagar a dívida." Depois riam do Brizola quando falava em perdas internacionais.