10 de fevereiro de 2009

ROBINHO E O GATO DE ALICE


Vimos um bom primeiro tempo no amistoso Brasil 2 x Itália 0, mas o que me chamou a atenção foram as distorções consolidadas da crônica esportiva. “Fazer graça”, por exemplo. É o nome dado pela mídia para a criatividade dos craques. Vamos aos exemplos da partida desta terça-feira, dia 10.

Robinho atrasa a bola, com um pé, para o outro. A bola, nesse repique surpreendente, em que cada pé funciona como um jogador à parte, vai direto para Ronaldinho, que recebe e devolve de calcanhar. Criaram espaços, desestabilizaram a concorrência. Principalmente Robinho, que depois (ou antes, não lembro) driblou os zagueiros e chutou cruzado, fazendo gols. E driblou como? Inspirado naquele velho jogo de rua que os malandros oferecem para os passantes. Todos conhecem: oferecendo três opções, que são terçadas em frente de todos com as mãos, o jogador desafia os espectadores a adivinhar em qual lugar está a prenda. Normalmente ele sai ganhando.

Acontece o mesmo com Robinho: ele passa um verniz em cima da bola propondo a adivinhação. Em qual lugar vai ficar a bola? Em lugar nenhum, pois a percepção alheia, driblada pela manipulação do craque, acaba vendo apenas os detalhes, que somem, do gato da Alice. Lewis Carrol, de Alice no País das Maravilhas, contou a história do gato que mostrava apenas o sorriso, a cauda e assim por diante. Era impossível pegá-lo.

Trata-se de futebol em estado de arte. Pois bem. A crônica esportiva chama de fazer graça. Isso quando a jogada dá certo. Quando dá errado (pode acontecer) então chamam de irresponsabilidade. Mas a acusação de irresponsabilidade já está implícita na definição de fazer graça. Se o cara, em vez de ser um craque no pleno domínio do seu ofício, é apresentado apenas como um palhaço, está armada a tragédia. Se o craque, como é o caso de Robinho, ainda se mete numa enrascada, como aconteceu recentemente, acusado de assédio na Inglaterra, então ele precisa de “orientação” como disse o Galvão Bueno (pronto, falei) logo depois de um lance que saiu errado. É a maneira de tocaiar o jogador, preparar uma armadilha de urso para ele, ligar sua atuação em campo com uma infelicidade na vida pessoal.

Já me falaram para só ver o jogo e escutar pelo rádio, eliminando o som da TV. Não tenho rádio e acho um desaforo tirar o som da televisão. A TV precisa mudar, abrir o leque de opções e não ficar sempre com os mesmos caras, por décadas a fio, dizendo asneiras. Olhaqui: Robinho e Ronaldinho Gaúcho não fazem graça, seus admiradores do bezerro de ouro Roberto Carlos (nossa, como Falcão sente saudade do poste que chutava sempre na barreira!). Eles exercem a criatividade, encontram soluções para as jogadas e por isso são craques. São inventores e não pernas-de-pau.

Custei a descobrir o que a crônica esportiva quer dizer com técnica. É o talento, mas falar em talento está proibido. Dominar os fundamentos do futebol, como o chute, o cruzamento, o drible, a bola em curva, a defesa no ângulo é só para pessoas vocacionadas. Um tosco de nascença jamais vai aprender coisa alguma. Precisa ter nascido para isso. Então o cara desenvolve o seu talento, que é sempre potencial. Tem vocação, ou seja, tem queda para o futebol. Técnica é outra coisa: esquemas de jogo, defesa, ataque, volante, coisa para treinador e jogador experiente. Mas quando o cara consegue tirar a bola do adversário sem “fazer graça” aí e ele é bom de técnica. É um jogador técnico, dizem. O resto deve ser poeta.

Outra distorção é a chamada jogada ensaiada. Que importância tem se a jogada é ensaiada ou não? Talvez até tenha, mas do jeito que falam é como se chegassem a uma conclusão filosófica da mais alta intensidade, que tudo explicaria, desde a criação do universo até o destino de Poseidon. "Jogada ensaiada!" diz um. E o resto repete: "Jogada ensaiada!" Grande merda. Para que tanto estardalhaço para um troço desses? Porque explicaria o lance? Qual o sentido da euforia de proclamar que a jogada foi ensaiada?

Acho que é isso: tudo tem que ser ensaiado no futebol, assim fica explicado tudo, tintin por tintin. Como advertia Garrincha ao tirar um sarro da preleção na Copa na véspera de um jogo contra os russos. "Mas os russos sabem disso?" perguntou ele, depois de inúmeras hipóteses levantadas. Ou seja, o adversário vai se comportar conforme nossos ditames? Se depender da crônica esportiva, vai.

Quando Robinho ou Ronaldinho Gaúcho “fazem graça”, estão contrariando todas certezas da mídia dita especializada, há tempos envolvida numa gigantesca manobra de desconstrução da nossa cultura. Ser brasileiro, dar aquele drible que ninguém no mundo jamais dá, não pode, fica feio. O negócio é sermos uma nação de postes a dar caneladas, para a alegria dos zidanes da vida.

Ah: graças à graça, ganhamos de dois a zero. Elano também esteve ótimo. Mas a Folha disse que foi graças ao time "italiano" do Dunga. Como a maioria dos jogadores que estiveram em campo são de times italianos, então está explicado. O Brasil, claro, não tem nada a ver com isso. "Tivemos que inventar o Brasil", disse Tom Jobim,"porque o Brasil não existia". Agora eles cuidam de desinventar. Mas não conseguem. Uma pedalada e pronto. O Brasil continua lá, firme.

RETORNO - Imagem desta edição: o sorriso do gato da Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carrol. O futebol é quântico, a crônica esportiva acha que o mundo é sustentado por quatro elefantes.

PALAVRAS


Nei Duclós (*)

Motivos aparentemente bizarros inventam sugestões quase obscenas para o som de algumas palavras. Jamais uso “dentre”, por exemplo, porque me lembra dente quebrado. A implicância é tamanha que a considero desnecessária. “Tripartite” é a pior palavra da língua, se é que ela pertence mesmo ao português. Talvez seja subproduto de um dialeto tatibitati. O excesso de tês não a recomenda para o uso corrente e sim para definir encontros internacionais inócuos, quando dois interlocutores são insuficientes para fazer marola.

“Próstata” ocupa lugar de destaque no índex. Considero uma proparoxítona explícita demais, uma sonora imposição de intimidades em conversas públicas. Pela potencialidade perigosa na terceira idade, deveria ser confinada em masmorras de debates científicos, longe da exposição pública, principalmente das campanhas de saúde. Poderia ser substituída então por três pontinhos. “Ei, você, cuide da sua...” Mas haveria o risco de sugerir xingamento, palavrão, enquanto a mídia repetiria milhões de vezes a explicação do seu significado. Faria par com o PIB, pois alguém decidiu que a população perdeu a capacidade de memorizar conceitos óbvios.

É um mistério o desconforto provocado por “alcaguete”. Achei que o motivo era o trema, o que não faz sentido, pois lamento seu assassinato pela recente reforma. Mesmo depois que o trema caiu, a inimizade permaneceu. Alcaguete guarda em seu íntimo um cacófato e torna-se aguado quando alguém pronuncia. Há, claro, o sentido pejorativo, do traidor que se mistura ao alvo da traição, o exercício da covardia, mas há entidades muito mais assustadoras que não me causam nenhuma estranheza.

Assim como essas palavras, algumas soluções usadas generosamente me provocam urticária. “Quando da”, ou “quando do”, por exemplo. Alguém um dia não soube escrever direito sobre um fato passado e colocou provisoriamente essa expressão. Iria pensar, mais tarde, em outra melhor. Mas esqueceu e virou praga.

O pior pesadelo da linguagem seria este: “Quando da primeira vez em que foi planejado um encontro secreto tripartite para debater problemas da próstata, um alcaguete, dentre os organizadores, entregou o lugar da reunião.”

RETORNO - 1. Imagem desta edição: Auto-retrato, de Francis Bacon, o pintor favorito do pintor Mino Carta. 2. (*) Crônica publicada nesta terça-feira, dia 10 de fevereiro de 2009, no caderno Variedades, do Diário Catarinense.

9 de fevereiro de 2009

CASTELOS


Pelo que li do noticiário, o deputado mineiro do DEM está sendo punido não porque tenha um castelo, conhecido há mais de dez anos e inclusive tema de reportagem da Veja em 1999. Mas porque declarou para o fisco um total muito abaixo do seu real valor. O escândalo não é ter um milhão de metros quadrados construídos, cheio de desperdícios e mordomias. Isso a mídia aceita e colabora, já que tudo o que lembra os piores defeitos da aristocracia são incensados pelos pobres de espírito que ocupam os espaços jornalísticos e publicitários (é bairro nobre, é sanguibom, é in, e por aí vai).

As denúncias “pegam” quando há interesses políticos e partidários por trás. O cargo de corregedor, assumido pelo deputado do DEM num momento em que o PMDB toma conta do controle total do Parlamento (numa regressão ao feudalismo, segundo matéria do The Economist), e que se encarrega de investigar as fraudes dos colegas, talvez seja o alvo da cobiça. Imaginem um cargo desses, da raposa cuidando do galinheiro.

Leio as memórias de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, Os Lugares da Minha Primeira Infância (que faz parte do livro O senador e a sereia, traduzido por José Antônio Pinheiro Machado e editado em 1980 pela L&PM) em que ele descreve com detalhes os castelos onde foi criado, tanto por parte da família paterna (em Palermo) quando a da mãe, ambos da Sicília. Castelos mesmo, seculares. O da mãe, em Santa Marguerita di Belice, era daquele tipo que tinha cidades nos anexos e impunha o silêncio obsequioso das classes subalternas. As populações viviam no entorno dessas megaconstruções cheias de servos para tudo, em que a saída ou entrada da nobreza feminina eram anunciadas por toques específicos de sinos. As comunidades freqüentavam a Igreja e o teatro do castelo materno.

Lá o menino Lampedusa, que numa fase tardia da sua vida escreveu Il Gattopardo, o grande romance sobre a decadência da nobreza siciliana, e que Luchino Visconi filmou com sua maestria de sempre, assistiu Hamlet pela primeira vez. Ele lamenta que as companhias teatrais que se apresentavam nesses espaços teatrais mantidos pela nobreza tenham desaparecido. E acredita que elas eram o viveiro de grandes atores italianos. Quando vejo filmes antigos, noto a quantidade enorme de escritores que viviam bem só do seu ofício. É preciso uma larga margem de criação, onde todos possam tentar a sorte como escritores para que surja uma grande literatura. O próprio Lampedusa dizia que todos deveriam escrever suas memórias, pois isso enriqueceria a cultura dos países pelas gerações afora, impedindo a repetição de erros e mantendo vivas as experiências ancestrais.

Aqui, mata-se tudo na fonte. A república de araque ceva a dinheiro público os espertalhões que constroem castelos medievais, tentando imitar o que jamais serão, uma linhagem de famílias que conquistaram grande poder, riqueza e prestígio na formação das nações. A guerra é a fonte principal da nobreza e depois o comércio. Em Portugal, a aristocracia tem origem burguesa com seu primeiro rei, o mestre de Avis, que foi empossado na maré alta de uma guerra de libertação. Aqui, temos o simulacro de uma democracia, onde o raposismo disputa o butim, a gorda teta do dinheiro arrancado dos contribuintes. É uma falsa aristocracia facinorosa.

Há uma sintonia nos defeitos entre a aristocracia tradicional e os novos donos do poder, mas não nas qualidades. A nobreza, apesar de ser uma invenção perversa de extrema má distribuição de renda, tinha mais noção de sobrevivência. Nossos sanguibons são oriundos do que temos de pior. A brutalidade da disputa pelo butim, o atraso nas relações políticas, a falta geral de luzes nos levam mais e mais para o fundo.

Depois ficam falando em democracia. Mempo Giardinelli, escritor argentino da região do Chaco, autor de Luna Caliente (que virou mini-série da Globo em 1999, produzido e dirigido pela Casa de Cinema de Porto Alegre), ao comemorar os 25 anos da democracia do país vizinho, disse que o regime é uma coisa, os governantes que assumiram são outra. Lá ele pode falar: os presidentes reprovados foram expulsos a panelaços. Mas nada mais falso se formos aplicar isso aqui no Brasil. O regime pseudamente democrático foi gestado para servir a canalha que usurpou o poder. O resultado é uma república atroz, barulhenta e mortal.

RETORNO - Imagem desta edição: Giuseppe Tomasi di Lampedusa.

JÓIAS DO BATE-PRONTO


Responder na lata é uma arte. Sou mais vítima do que algoz nesse jogo refinado e bruto de não deixar para logo o que deve ser dito agora. Hoje, por exemplo, encontrei o Caloca, bom fotógrafo aqui da ilha. Ele estava à vontade, neste fevereirão de calor, indo ver um jogo de futebol. Bermudão, camiseta e sandália. Resolvi tirar uma lasca:
- Mas como estás Mané, Caloca. Tu não era um fotógrafo?
- E tu, não era um escritor? respondeu Caloca.
Tentei sair da arapuca, mas tinha perdido a parada. De bermuda, chinelo de dedo e camiseta, eu era tudo aquilo que eu via no outro.


É assim que funciona. De outra feita, lembro no ginásio, o Francisco Sachontene, conhecido popularmente como Ceguinho, estava lendo um livro do Morris West. Como falo sem pensar, atirei, em plena aula:
- Olha o Ceguinho, lendo A Filha do Silêncio! disse eu, em voz bem alta.
- Este é a Filha do Silêncio e tu é um filho da puta! respondeu o Ceguinho, quase aos gritos.
Foi então que caiu minha ficha. Eu queria fazer uma piada, não denunciá-lo. Mas o Ceguinho desnudou a verdadeira situação.

O bate-pronto tem essa qualidade, coloca tudo nos eixos. O autor da resposta rápida precisa estar coberto de razão, senão não dá certo. Já contei aqui aquela da Dona Rosinha, mas como é um clássico,vou repetir. A visita pergunta ao meu pai se faria tudo de novo na vida. Seu Ortiz se esmerou em detalhes, dizendo que jamais casaria nem teria aquela quantidade de filhos. A visita, então, que era um canalha, perguntou para minha mãe a mesma coisa.
- Ah, eu não, eu faria tudo o mesmo, me casaria com ele e teria todos esses filhos.
- Não sei porquê, retrucou meu pai.
- Faça como eu, Ortiz, disse ela. Minta.
Acho essa ótima. O casamento durou a vida inteira.

Quando você, por exemplo, cobrar algum pagamento numa empresa e eles responderem para esperar, que lá não é banco, diga:
- Claro que não é banco. O banco só tira. Aqui, pelo menos, tenho chance de ganhar alguma coisa.

Tem mais clássicos. Aquela do Romário, perguntado sobre uma crítica a ele, feita por Pelé:
- Pelé calado é um poeta.

Uma de Mempo Giardinelli, escritor argentino da região do Chaco, autor de Luna Caliente, entre outras preciosidades, repete essa da sua cidade, Resistência:
O cara sai para a rua esfregando os olhos.
- Estás com algum problema na vista? perguntam os conhecidos, preocupados.
- Se tenho. Hoje só enxergo filho da puta.

Por ser demais conhecida, nem vou levar em consideração a de Groucho Marx (foto), que ao ser convidado para entrar num clube disse que não entrava em clube onde ele era convidado. Mas merece sempre ser lembrada.

O bate-pronto pode destruir amizades, pois é irresistível quando se manifesta. Pode ser considerado criação de refinada cultura. A de Joe Mankiewicks (roteirista de Cidadão Kane), por exemplo, que ao vomitar no banquete, disse para as madames escandalizadas:
- Não se precoupem. O peixe veio junto com o vinho.
Existem escritores que atingiram o estado de arte no bate-pronto, como o Raymond Chandler, em que seu Phillip Marlowe apanha o tempo todo dos gângsters, mas nunca perde a chance de dizer uma boa frase.

Para encerrar, uma do José Onofre, que ele tirou de um filme de guerra. Estávamos num horrendo bar da Lapa de Baixo, em São Paulo, num dia pesado de fechamento da revista Senhor, que naquele dia não nos permitia perder tempo para comer. Aguardávamos um tenebroso prato feito. Quando chegou a gororoba, Onofre mandou bala:
- Já tinha pisado nisso. Comer, é a primeira vez.
Onofre é do ramo. Sua literatura contém grandes tiradas dos seus personagens.

6 de fevereiro de 2009

A ATUALIDADE DO JOÃO E MARIA DE CHARLES LAUGHTON


Nei Duclós

The Night of the Hunter, o celebrado filme de Charles Laughton de 1955, que ultimamente tem sido considerado melhor e mais importante do que Cidadão Kane, é um conto de fadas bizarro e assustador, levemente inspirado no clássico João e Maria, uma lenda de tradição oral alemã recolhida e reescrita pelo irmãos Grimm. Trata-se de um filme de extrema atualidade, pelo que vemos no noticiário, em que as crianças são vítimas de todas as espécies de crimes, desde o leite contaminado com melanina vindo da China, o cartel da máfia que manipulava merenda estragada nos colégios públicos de São Paulo e a morte em massa de crianças na Nigéria em função do consumo de um remédio dental.

No filme, baseado na novela de Davis Grubb, com roteiro de James Agee e sob a magnífica direção de fotografia de Stanley Cortez, o casal de crianças é perseguido por um falso pastor, interpretado por Robert Mitchum, antológico, porque conhecem o segredo do roubo de uma fortuna escondida pelo pai, um condenado à forca. Abandonados pela mãe, que se torna fundamentalista por excesso de culpa, pelo tio, que tem medo de ser acusado de um assassinato que não cometeu, os dois acabam se refugiando num orfanato mantido por uma senhora religiosa.

A sociedade e as autoridades negam-lhe o apoio e a presença, que era tão explícita na hora de perseguir o pai ladrão. Eles rolam rio abaixo, perseguidos pelo assassino psicopata, que age impunemente, escudado no fascínio religioso gerado pela repressão e a ignorância. É o que temos hoje: as autoridades são cúmplices da perseguição e morte das crianças, enquanto todos falam em ética e bons costumes. O sujeito que decidia sobre as licitações das merendas terceirizadas (ah, as privatizações, que crime!) , mudou de lado e acabou formando um cartel que usufruía da bufunda pública investida na alimentação infantil. O governo chinês, que só pensa no lucro (e se dizem comunistas, ha ha ha), permite que suas empresas distribuam falsos alimentos contaminados para todo o mundo.

Segundo a Folha, “o escândalo surgiu em setembro, quando autoridades chinesas denunciaram que o leite em pó da companhia Sanlu estava causando pedra nos rins de bebês. A melamina é uma substância tóxica utilizada na fabricação de colas e resinas. A adição do produto faz com que o percentual de proteínas do leite pareça mais elevado e oculta a adição de água na bebida.” Enquanto isso, “um medicamento dental com uma substância tóxica causou a morte de 84 crianças na Nigéria, segundo relatório divulgado nesta sexta-feira pelo ministério da Saúde”.

Na história infantil, João e Maria são abandonados pelos pais e acabam chegando numa casa feita de doces e chocolates, habitada por uma bruxa que devorava crianças. A bruxa, no filme, é o falso pastor, que com seus salmos e rezas promete a salvação. Ele encarcera as crianças e as tortura para obter a informação. Mata a mãe para conseguir o que quer, ter os dois à disposição. No filme, a mulher que acolhe as crianças é a fada boa, religiosa de verdade, que acredita na resistência das crianças, que irão sobreviver. Um conto de fadas com lição de moral no fim, mas que denuncia a responsabilidade criminosa dos adultos em relação aos quem chegam ao mundo e são indefesos.

The night of the Hunter: o filme feito para nos alertar, é uma assombração magistral de Charles Laughton, o inteligentíssimo e supertalentoso ator, que numa só obra como cineasta fez História. Não poldemos deixar de destacar também as atuações, magníficas de Shelley Winters, bem mocinha e linda, como a mãe dos garotos, Lillian Gish, como a dona do orfanato, James Gleason como o velho marujo culpado e Evelyn Varden, como a execrável matrona que alcoviteia o casamento com o assassino.

RETORNO - Imagem desta edição: cuidado, que Robert Mitchum vai te pegar!

5 de fevereiro de 2009

CINCO BANDEIDES E UM SAMOVAR


Nei Duclós

Fui obrigado a ficar na Rússia por quatro meses, tempos atrás, num frio que quase me matou. Foi numa região próxima à Sibéria, dentro de uma casa abandonada. O dono, um sujeito ruivo retaco com dentes da frente separados (vi pelas fotos que deixou lá num pacote escondido no fundo da gaveta do criado-mudo) devia ser algum caixeiro viajante que nunca estava em casa ou um aposentado que migrava na época do inverno para areias tropicais. Como fui parar lá? Demorei a descobrir os fatos reais que me condicionaram a essa prisão de gelo por uma longa estação. Porque tudo ficou nebuloso por um tempo.

Quando voltei para cá, usando os documentos do sujeito que me cedera involuntariamente a moradia, usava o mesmo cabelo de milho dele e cuidei para criar a impressão de que tinha os dois dentes da frente separados, como naquela caricatura da revista Mad. Como fiquei encolhido naquele inverno interminável, também ostentava uma aparência um pouco retaca, que ficara mais explícita ao usar as roupas encontradas dentro do armário (estavam mofando mesmo, não foi praticamente um roubo, mas uma recuperação). Eu me transformara no sujeito e conseguia dizer algumas palavras em russo, cuidando para salivar bastante quando pronunciasse niet, enquanto carregava nos erres em grrrusionovna, por exemplo. Com isso fui passando nas barreiras, sempre distribuindo sorrisos ou cenhos carregados, conforme a ocasião, e assim consegui pegar um avião de Moscou ao Rio de Janeiro, sem que desconfiassem de nada.

Mas estou me adiantando. Lembro que fui jogado na neve numa noite tenebrosa, usando minhas roupas de verão. Fora seqüestrado aqui na praia e rapidamente me encontrava no outro lado do mundo. Por que, o que acontecera? Na hora não atinava. Só sei que imediatamente depois que me abandonaram na neve, para morrer, dei um pulo em direção a uma sombra protuberante que se sobressaía do chão. Era o telhado de uma casa submersa. Rompi aos pontapés a janelinha do sótão, que estava encostada no piso de neve, que subira até o teto. Logo que entrei procurei fósforos para acender a lareira, mas a chaminé estava entupida. Vesti umas roupas grosseiras e cheias de pêlos que encontrei atiradas na sala e voltei para o lado de fora, a essa altura sofrendo de grave hipotermia. Com um atiçador de lareira, rompi o gelo da chaminé e desci novamente, tendo o cuidado de tapar a janelinha salvadora.

Foi assim que consegui fazer fogo, comida logo em seguida, pois o que não faltava na dispensa da casa era carne congelada (de cavalo, de cervo, sei lá). O lugar dispunha de uma infra de luz elétrica, mas eu não soube ligar o gerador. Por isso passei no escuro uns dias até que caiu minha ficha de cavar ao lado de uma janela e assim poder ter alguma luz de fora, se é que posso chamar de luz aquele ambiente acinzentado. Engraçado, o ar russo, o clima, a cor daquelas paragens, me lembravam o cativeiro a que fora confinado na minha viagem da praia às estepes congeladas.

Pois foi isso que aconteceu: me seqüestraram com Gol e tudo e me colocaram dentro de um lugar amplo e branco-acinzentado. Uma espécie de espuma foi tomando conta de tudo, dos vidros fora do carro e agora dentro. Cheguei a provar aquela espuma gosmenta e me deu um barato parecido com o de morfina, que eu conhecia, pois um dia me operei e me ministraram uma única e inesquecível dose daquela droga bandida. Fiquei praticamente imobilizado com a espuma, apesar de ostentar a alegria imbecil e delirante dos drogados. Mas tive o cuidado, antes de me ralar, de abrir o porta-luvas, de lá tatear uma caixinha de bandeides e colocar cinco no rosto: dois nos olhos, um no nariz e mais dois nos ouvidos. Assim, fui puxado para fora.

As criaturas que me seqüestraram acharam, imagino , que os bandeides faziam parte de mim e nem deram bola para aquilo. Mas aos poucos se deram conta e começaram a arrancar um por um. Eu ainda estava lúcido, pois não via, nem cheirava nem escutava nada, graças às proteções que coloquei nos orifícios do rosto. Foi aí que vi aquela cabeçorra, parecida com a de formigas gigantes, com olhos oceânicos olhando para mim. Os brutos imitaram o aspecto de formigas, pois quando chegaram por aqui acharam que essa espécie é que dominava a terra. Só depois descobririam que os humanos faziam todo o serviço, mas aí já era tarde demais. Assumiram o aspecto hediondo, no lugar de clonar a Gisele Bünchen e o Tom Cruise.

Até foi bom assim, senão meu pesadelo seria uma espécie de blockbuster cientologístico onde o galã comeria a bandida brasileira e aí sim seria um grande sofrimento. Como eu estava lúcido, resolvi aprontar. E comecei a dar pontapés para tudo que é lado, pois o efeito da espuma estava passando. Até que acertei o gigante que me examinava. O cara deve ter ficado muito puto, pois saiu uma gosma preta da testarra dele. Sangue ou tinta, que sei eu. Só sei que resolveram se livrar de mim e me jogaram na neve para me foder. Acreditavam que eu iria congelar para sempre, já que me pegaram na praia e eu usava apenas uma camiseta cavada, uma calça de tectel e um par de sandálias havaianas. E eles nem tinham notado a casa semi-enterrada na neve. O lugar era ermo total.

A verdade é que sobrevivi e deixei o inverno passar. Quando a casa ficou livre da neve, descobri que havia uma garagem ao lado. Lá dentro havia um portentoso carro amarelão, deveria ser Lada, todo caro russo é Lada. Eu não entendo nada de russo, desisti de ler os livros que ficavam espalhados por lá, não descobri nem o nome dos autores. Deveriam ser os de sempre: Puchkin, Gorki, Turguienev, Tolstoi, Tchecov. Mas eu era um analfabeto louco para voltar para casa. Logo atinei que jamais acreditariam em mim e por isso armei todo o esquema de me fantasiar de Vassili Illianovitch Serguienvski, que era o nome do sujeito que clonei.

Como tinha encontrado vários maços de rublos na casa (seria o cara um traficante?) , fui pondo gasolina na longa viagem de volta, que fiz de carro até Moscou. Lá, peguei o avião para o Rio de Janeiro e depois para cá. Decidi não contar nada a ninguém. Aqui em casa, no início nem me reconheceram. Eu cheguei perguntando pelo samovar e quase me expulsaram. Aos poucos, me reacostumei ao café e deixei essa besteira de samovar para lá. Mas os bandeides eu jamais esqueço. São meus talismãs. Sempre tenho uma caixa generosa no armário. A toda hora, coloco um para ficar protegido. Eles um dia me salvaram. Poderão me salvar de novo.

RETORNO - Imagem que ilustra este conto: a casa perdida na neve onde Dr. Jivago e Lara se esconderam, no imortal filme de David Lean.

4 de fevereiro de 2009

PORQUE MINO CARTA SE DESPEDE


"O Congresso acaba de eleger para a presidência do Senado José Sarney, senhor feudal do estado mais atrasado da Federação, estrategista da derrubada da emenda das diretas-já e mesmo assim, graças ao humor negro dos fados, presidente da República por cinco anos." Mino Carta, em seu blog, no texto intitulado Despedida.

Trabalhei com Mino Carta por cinco, talvez seis, proveitosos anos, de 1982 a 1987. Aprendi tudo com ele: a assumir responsabilidades dentro de uma redação, a criar um veículo a partir do nada, a pensar estrategicamente, a aproveitar ao máximo o que é apurado, entre outras coisas. Quando comecei a fazer parte da sua redação, na revista Senhor semanal, eu era apenas um talento. Quando me afastei dele, já era quase um adulto. Quase porque ainda tive de aprender muito mais, para amadurecer o mínimo possível e deixar de ser um jornalista limitado e iludido sobre as próprias capacidades.

Agora Mino se diz decepcionado de tudo e pede o boné. De maneira amarga, mas lúcida, diz a seu modo e dentro da sua coerência, algo que os leitores do Diário da Fonte lêem aqui quase todos os dias: a de que vivemos no regime que é a continuação (para mim é o mesmo) do implantado em 1964, uma democracia de araque inventado por Golbery de Couto e Silva, e que eu chamo de Ditadura Civil. E que começou naquela derrota da emenda das Diretas-Já. Mas o evento focal que desencadeou a decisão de Mino deve ter sido a afronta contra a soberania italiana, o acobertamento aqui de um criminoso condenado lá. Por pura soberba de um governo que Mino apoiava e que não apoia mais.

A grosseria com que é brindado em vários comentários nos deixa pasmos. Não reconhecem o quanto perdemos com a saída de Mino do cenário jornalístico. Aos 75 anos, Mino merece uma aposentadoria. Deveria ser homenageado, paparicado, saudado. Devíamos todos agradecer sua presença, seu texto inimitável, sua grandeza, sua coragem. Uma pessoa que assume seus erros e acerta mais do que erra. Um Mestre, em todos os sentidos.

Ter trabalhado com ele foi minha grande chance de sair do ramerrão a que fui confinado pela ditadura e de me tornar maior, transcender o que tinham armado para mim. Mino é uma daquelas personalidades de uma época que será lembrado pela sua ação civilizatória num país assaltado pela barbárie. Um pintor maravilhoso, um romancista estupendo, um jornalista único. O que mais querem dele?

Abram alas para Il Maestro. Se existe alguém que merece ser chamado assim, esse é Mino Carta, italiano de nascimento e formação, brasileiro por opção, que se despede para nosso pânico, enquanto as hienas se beijam publicamente, celebrando um regime de opressão que parece não ter mais fim. Torna subito, Mino. Não podemos prescindir das tuas luzes.

RETORNO - Imagem desta edição: Sarney beija a senadora Ideli logo depois da vitória. A foto foi-me enviada por e-mail.

OS MAUS DO CLIMA


Nei Duclós

As gangs climáticas tinham absorvido uma parte da tecnologia do início do século, que arrasou países provocando maremotos, tsunamis, tornados, inundações, terremotos. Depois do grande Acordo Geral, de 2048, entre todos os países, que se comprometeram a não usá-la de novo, as coisas se acalmaram. Não havia mais perigo de cidades inteiras submergirem. Ou alguém fazer sumir o Timor Leste, como foi noticiado (e logo depois esquecido) em 2014. A China acostumara-se a ficar sem um terço do território, o equivalente a uma superfície de Júpiter, depois que acertaram as bases da grande represa com um bombardeio de íons carregados de neutrinos dinamizados pelo avesso.

Todos sabiam como provocar uma catástrofe “natural”, assim como todos tinham a bomba nuclear. Mas os segredos de bombardear com petardos plásticos a ionosfera não ficou circunscrito aos governos dito responsáveis. Algo vazou e foi assim que recomeçaram as tragédias, se bem que em menor dimensão. Os vendavais acoplados com chuvas de granizo, criados em laboratórios ocultos em porões, destruíam no máximo uma criação de cabras. Não chegavam a atingir os centros das capitais, porque tudo estava protegido sob o manto da Ordem Total.

Mas havia margem para algum divertimento. Os Maus do Clima, como eram chamados os meliantes que se dedicavam essas pequenas crueldades, agiam da mesma forma do que os antigos pichadores de edifícios, todos exterminados, no mundo inteiro, aí por 2020, na Operação Adrenalina. Havia, claro, uma disputa entre eles. Quem faria chover na cabeça do primeiro Ministro? Quem levantaria a saia da nova Rainha de Sabá, casada com o príncipe Abdul Al Litifah, do Corporatiscão, o grande país do Oriente Médio formado logo depois que jogaram areia em cima de algumas avenidas de luxo e fizeram a Arábia desaparecer de um dia para o outro? Os desafios eram tão intensos que começaram a ficar bizarros. Quem jogaria, só com a força do vento, uma montanha de pétalas no pólo Norte? Quem desligaria o motor das ondas em Copacabana? Era possível atrair um grupo de turistas coreanos para um abismo provisoriamente implantado no subúrbio de Paris?

Quem não gostava dessas firulas era Jamir Pinch Body, o Biltre. Achava perda de tempo. Não se conformava em saber pouco sobre o que queria fazer muito. Sua intenção era varrer os mares, tufão! Jamir lia Castro Alves e não suportava esse neheco nheco bossanovista de fazer despencar violetas em penhascos da Normandia. Queria ação, queria poder. Chegou a planejar duzentos assaltos ao Grande Cofre em Genebra, que guardava aquelas charadas que o levariam para o exercício pleno de sua própria potência. Poderia extrair toda a areia da Lua para jogá-la em Andrômeda. Explodiria planetas, como viu naquele filme antigo. Adoraria provocar mil dilúvios e mataria com as próprias mãos, estrangulando-a, a pomba da paz e jogaria no fogo o ramo das oliveiras. Ah, ninguém tinha idéia das intenções de Jamir, o mais Mau do Clima.

Mas ele não contava com o surgimento de Jihara, A Sílfide Transparente. Mulher desejada por todos os potentados internacionais, jamais se deixava fotografar inteiramente. Dela só se conhecia um olho, um perfil, um tornozelo, um requebro que eu quero ver. Jihara acabou se transformando na obsessão de Jamir, que tinha longas faixas de tempo inútil, já que sonhava em destruir o universo mas não conseguia nem fazer chover no seu quintal. Pelo menos, não de maneira copiosa, abundante. Jamir sonhava com Jihara como uma criança devora um doce com o olhar. Foi então que teve um insight! E se usasse seus parcos conhecimentos para voar num tapete e pousar suavemente num terraço onde Jihara fazia suas orações? Sabia onde ficava, no Palácio de Cristal localizado em Xangrilá, Etiópia.

Jamir prometeu que destruiria Marte depois de conquistar Jihara. Fabricou então um tapete voador. E soube se dirigir para seu objetivo, sem que os Ferozes Índios Xerox, donos dos ares, se dessem conta. Ele desceu no meio da tarde, quando Jihara penteava seus longos cabelos. Debruçou-se sobre ela e zás, roubou-a do jardim. Voltou voando enquanto a Sílfide berrava que estava sendo seqüestrada. Mas Jamir sabia: aquela história teria um desfecho favorável. Esperava apenas o narrador cansar de contar tanta bobagem para enfim conseguir fazer o que sonhava há décadas: transar embaixo dos pessegueiros em flor. Desde que nenhum Mau do Clima tivesse a idéia fresca de desencadear uma avalanche de neve na hora do bem bom.

Tudo pode se esperar dos Maus do Clima. Até mesmo uma tremenda empatada na hora em que o Biltre iria crau na Sílfide.

RETORNO - 1. Imagem desta edição: os imortais Freak Brothers, criação de Gilbert Shelton.

BATE O BUMBO: TABA NO YOU TUBE

Uma longa entrevista para a jornalista Andréia Souza, no programa Autografando (TV Feevale), dividida em três blocos, do escritor e cineasta Tabajara Ruas, está disponível no you tube. É uma entrevista importante, pois dá um panorama completa do trabalho múltiplo do Taba, incluindo seus recentíssimos projetos (e que não são poucos) e também pela denúncia que faz: no Festival de Gramado, os críticos paulistas foram cercados por meliantes (o termo usado é meu) que tentaram fazer a cabeça dos adventícios sobre as pretensa "má qualidade" do filme do Taba, Netto e o Domador de Cavalos, o único não-carioca que estava na disputa. O comadrismo maledicente foi denunciado no próprio festival, por críticos que vieram de São Paulo. Acho que não é apenas inveja. É boicote mesmo. Querem pegar todo o dinheiro do mecenato via Minc só para eles. Então procuram eliminar a concorrência, ou seja, núcleos fora do espaço ocupado pelos seus rabinhos mimados. Arre, canalha. Os três blocos de entrevistas são
este, este e este.

3 de fevereiro de 2009

PURO PAMPA


Nei Duclós

Pudera ser minha vida
como um campo de caça
Sem arestas: puro pampa

Onde vale a sabedoria
a atenção e o relâmpago

Onde a paciência é uma arma
contra os caprichos do fogo
e o silêncio, uma lição
que está no sangue

Pudera ser minha vida
tão limpa como os arroios
olhados à distância

Sem esta armadilha
onde a mentira
arma o escândalo

RETORNO - A fotaça foi publicada pelo meu amigo Eduardo de Lucca no seu espaço do Orkut. Eduardo é nacionalista de quatro costados e ainda não tive o privilégio de conhecê-lo pessoalmente. O poema é do meu livro No Meio da Rua, de 1979, publicado pela L&PM e apresentado pelo Mario Quintana e o Juarez Fonseca. "Puro Pampa" foi musicado por Muts Weyrauch. Acompanhado por guitarra e aquele bumbo legüero, é de arrepiar.

ARGENTINOS


Nei Duclós (*)

Os argentinos são uma classe média que resistiu às pressões para desinventá-la. Diferente da nossa, que foi para o ralo. Não em termos econômicos, já que hoje existe no Brasil mais gente nessa faixa entre a riqueza e a miséria do que décadas atrás. Mas em comportamento, fruto de uma cultura, antes apoiada e hoje inspirada numa estabilidade. Imagino os argentinos em hábitos antigos, não necessariamente verdadeiros, como se ainda sentassem em cadeira preguiçosa na calçada para conversar. Com famílias nucleares tradicionais, com direito até a reuniões de domingo. Não que isso tenha desaparecido no Brasil. Simplesmente entre nós não é mais visível, deixou de fazer parte do perfil da nação.

A conversa ao anoitecer, a reunião familiar, com pai, mãe, genro, cunhado, avô, todos vivendo juntos ou perto, são coisas que sumiram de vista no país de todos. Aqui, o tronco saradão tatuado sobre pernas curtas (o antigo e popular “cachorro em pé”), o baticum insuportável em todos os cantos, os bonés, o empurra-empurra, a divisão étnica e geográfica em infindáveis nichos, o comportamento coletivo visigodo, a brutalidade no trânsito definem o Brasil agora. Insisto: não que essas barras não existam na Argentina. Só que lá, acredito, não tomaram conta da imagem da nação, aquela sólida autopercepção de uma sociedade nacional.

Quando vejo argentinos em grupos, vejo uma nação. Vejo o admirável cinema que fazem, talvez hoje um dos melhores do mundo, vejo os panelaços que expulsaram sucessivos presidentes, vejo a cobrança contra a época da ditadura, já que lá eles não se iludiram de que se livraram da tirania. Mais uma vez: não que sejam perfeitos ou ótimos ou essa coisinha de Jesus que imaginam ser. Mas é que todas essas ações fazem parte de uma alma comum, uma vivência compartilhada, um reconhecimento mútuo.

Claro que essas constatações são altamente contestáveis. Os próprios argentinos talvez não acreditem mais nisso. Mas é bom pensar que nossos vizinhos provaram que existe a chance de serem um país íntegro, não esbagaçado em crueldades e vilezas, longe de governantes impunes e facínoras ocupando sucessivamente posições de destaque. A Argentina não vale o que ostenta, dizem seus desafetos. Mas vale pelo exemplo.

RETORNO - 1. (*) Crônica publicada nesta terça-feira, dia 3 de fevereiro de 2009, no caderno Variedades do Diário Catarinense. 2. Imagem desta edição: cena do magnifico filme argentino "Clube da Lua", a luta da classe média contra o sucateamento promovido pela ditadura da especulação financeira.

3. Deu no Diário Catarinense: duas famílias, cada uma com dois carros, se desentenderam na passagem de uma ponte estreita em direção a uma cascata, em Santo Amaro da Imperatriz, aqui perto. Uma família ia, outra voltava. Queriam, cada uma, passar primeiro. Houve desentedimento e uma briga coletiva, com facões e outros instrumentos de guerra. Pessoas feridas gravemente e um rapaz de 23 anos morto. A polícia diz que havia cachaça no meio, estavam embriados. É muito pior do que um porre. É o país desconstruído.

4. Lembra da música italiana? Ela continua existindo, neste
site, que me foi enviado pelo considerado mestre Moacir Japiassu. Curta, mas não deixa ligado o dia inteiro, senão dará problemas no servidor. Ouça Domenico Modugno, na voz de Gigliola Cinquetti, comparando o movimento das nuvens aos lenços que saúdam o amor. Ou o próprio Modugno, voando, pintado de azul, no azul dos olhos da amada, pontuados de estrelas. Ah, aquela música eterna!

2 de fevereiro de 2009

BATE O BUMBO: MERTEN COMENTA


O crítico de cinema do Estadão, meu amigo de muito longa data Luiz Carlos Merten, abriu seu blog hoje comentando as analogias que faço entre O Intendente Sansho, de Masaki Misoguchi e Spartacus, de Stalenly Kubrick. Reproduzi nos comentários do animado e sempre revelador blog do Merten um trecho da minha resenha sobre esse assunto, publicada aqui no Diário da Fonte e reproduzida no meu site. Veja o que Merten escreveu:

O INTENDENTE... COMO É MESMO? SPARTACUS?

por Luiz Carlos Merten, Seção: Cinema 17:06:15.

"PARIS - Muito interessantes as analogias que Nei Duclós faz entre 'Spartacus' e 'O Intendente Sansho'. Nunca havia pensado assim, mas faz sentido. Vocês sabem que Masaki Kobayashi é meu diretor japonês favorito e que, no limite, se tivesse de escolher um só filme do Japão, não hesitaria um minuto ao selecionar 'Rebelião', cujo desfecho, a cena decisiva do embate entre Toshiro Mifune e Tatsuya Nakadai, faz parte das minhas emoções inesquecíveis no cinema. Mas para que reduzir tanto o círculo das paixões? Gosto de Kurosawa, de Ozu e de Kenji Mizoguchi.

Ontem, depois de rever 'O Intendente Sansho' - e enquanto eu via a dona do restaurante grego em que jantei dançar o sirtaki -, pensei como, afinal de contas, Mizoguchi é reconhecido como um criador de personagens femininas, mas 'O Intendente Sansho' é o filme em que ele cria seus mais fortes personagens masculinos. O filme é um painel histórico, como outros do grande diretor, mas filtrado pelo melodrama. Todo o filme é uma história de luta e sacrifício, de morte e redenção. O herói e a irmã são separados da mãe, que é prostituída, após o pai cair em desgraça, por seu apoio aos pobres e desvalidos. 'Seja duro consigo e generoso com os outros', é a frase que o protagonista ouve do pai. Vira o seu farol. Existe coisa mais contracorrente do que isso, no mundo atual? Ainda bem que o cinema ainda tem essas lições de grandeza para nos dar.

Toda a estrutura de 'O Intendente Sansho', todas as mortes convergem para que, no final, ocorra o reencontro entre mãe e filho, como em um milhão de melodramas (mas sem a classe de Mizoguchi). Falei ontem na serenidade e limpidez da mise-en-scène do grande diretor, mas essa é uma construção, uma virtude adquirida durante o filme. 'Sansho' começa caótico, com flash-backs cujo fio é difícil de seguir. Depois, sim, as coisas vão se harmonizando e a plasticidade e serenidade vão ganhando espaço. Que pena que não tenha aqui o meu Jean Tulard.

As histórias de Ozu e Mizoguchi têm algo de triste. Ambos morreram no auge, um com 60 anos, o outro com menos (56 anos, acho). Deram duro para se impor numa estrutura à qual chegaram em posições inferiores. E ambos bebiam demais, quem sabe para enfrentar a pressão de ser Ozu e Mizoguchi. A generosidade de um filme como 'O Intendente Sansho' vem de encontro àquilo que Van Gogh escrevia para seu irmão Theo. Vincent queria pintar para consolar. Mizoguchi filmava para consolar. Que filme, 'O Intendente Sansho'! Um dos cem mais belos de todos os tempos, com certeza. "

RETORNO - 1. Merten, que viaja todos os dias à Europa, é uma enciclopédia de cinema. Formado nos cineclubes dos anos 60 em Porto Alegre, a Cidade da Cultura, pertence a uma linhagem impressionante de grandes críticos gaúchos, como Hélio Nascimento, Goida, Tuio Becker e o próprio Luis Fernando Veríssimo, que também quando escreve sobre cinema e literatura, sai da frente. 2. Ontem, vi "O Segredo das Jóias", de John Huston, filme a ser resenhado por aqui e que é o pai de todos os filmes de assaltos a bancos e joalherias. De cara, digo o óbvio: Sam Jaffe no papel do alemão ladrão de jóias é de arrebentar. 3. Imagem desta edição: cena de "O Intendente Sanshô". A escrava se sacrifica para que o irmão se liberte.

31 de janeiro de 2009

O BRASIL É O MICHAEL JACKSON


Ao proteger o produto nacional, proibindo que se use aço estrangeiro em obras de infra-estrutura americana, o presidente Obama se transformou no Getúlio Vargas. Os gringos tiraram a escada da globalização e deixaram Lula falando sozinho, de pincel na mão em Belém, no Fórum Social Mundial (que agora ganha farta cobertura, ao contrário do tempo em que era realizado em Porto Alegre na época tucana, ou seja, quando a Globo servia ao PSDB e o PT fingia ser do movimento). É de chorar ver o presidente brasileiro criticar o protecionismo dos EUA, que sempre serem foram protecionistas e inocularam o virus da abertura das fronteiras nos países que invadem e sugam.

O Brasil privatizou tudo. Pior: implantou, até mesmo no que resta de serviço público, as certezas dos negócios particulares. Deixamos de lado tudo o que promovia o emprego em massa e fazia a economia se movimentar, das ferrovias à construção civil, tudo o que beneficiava a população, dos centro de saúde e hospitais às grandes universidades federais, hoje ameaçadas. Entregamos a siderurgia arduamente conquistada na época da guerra. Nosso aço é dominado por grandes grupos estrangeiros, assim como toda a indústria petroquímica. Não podemos ter indústria de ponta sob pena de sermos destruídos, como aconteceu no incêndio suspeito na base de Alcântara.

É como a recente piada sobre o Michael Jackson. Hoje, os negros ocupam as posições de destaque na Casa Branca, em Hollywood, nos esportes, enquanto o autor de Thriller amarga a brancura Rinso que escolheu para negar seu passado. Somos o Michael Jackson: deixamos de ser o que éramos, por pressão dos outros, resolvemos assumir uma outra identidade, para sermos aceitos pelos maiorais e eis que os grandões se revelam, são o que éramos antes. Ou seja, invejavam o Brasil soberano, aí veio a direita a partir de 1964, usou toda essa canalha que voltou do exílio para cooperar com a ditadura civil e temos o resultado. É trágico ver o Gabeira achar que o mundo precisa ser melhor e não outro mundo, como pregava antes. Tchê, Gabãira: não existe mundo melhor. Ou você muda o mundo ou se afoga na merda.

O melhor dos mundos são nações soberanas, com fronteiras, se respeitando mutuamente. Não é ficar de braços cruzados vendo o PSDB se aliar ao PT para peitar logo quem, o Sarney, que mal consegue sair de dentro da limousine preta. Não é participar desse baile sinistro de máscaras no cemitério do país sucateado, como no hit de Michael, que emprestou seu nome para milhares de pobres crianças brasileiras, todas se chamando Maicon, distorção da palavra original. Imitamos pobremente o que achamos ser estrangeiro, quando no fundo são apenas ilusões plantadas para deixarmos de existir.

Tem que proteger a indústria, sim, retomar o aço e toda a siderurgia e a petroquímica, expulsar os chineses do mercado, os malaios que derrubam a floresta, os cucarachas que querem invadir a Amazônia sob a bandeira do cheguevarismo de espoleta. Tem que trocar a soja e a cana pela agricultura alimentar de massa, longe das especulações a futuro e a presente. Tem que intervir na radiofusão e impedir o processo de imbecilização total do país. Tem que tirar dos livros escolares as mentiras sobre o Brasil dizendo que aqui tudo foi obra da sacanagem da nossa política, da nossa guerra e da nossa diplomacia. E não adianta agora ficar falando em soberania, se não existem políticas públicas de país soberano.

Enquanto ficamos demitindo na indústria e no comércio, à mercê das crises que eles inventaram e nós abraçamos, eles seguem o caminho do velho Getúlio: protegem seus produtos e regam a economia de dinheiro público. É assim que se faz. Deixamos de fazer porque, todos sabem, Getúlio era esse monstro do atraso. Agora se descobre que o grande estadista estava na vanguarda. Levaram décadas para chegar onde ele chegou nos anos 30.


BATE O BUMBO – ANTOLOGIA NO BLOCOS ONLINE

O Blocos Online é esse fenômeno cultural criado e mantido pela poeta Leila Miccolis, que conheço de longa data e é uma admiradora do meu trabalho literário. Trata-se de um gigantesco portal de literatura e cultura, que periodicamente lança alguns produtos que estão disponíveis para todos os públicos. Fui agora brincado com um convite especial para participar do Panorama da Prosa Brasileira Contemporânea Vol. 1, onde estão selecionados três textos meus: Galo Inventa a Manhã, Dominó de Assombros e Caça Ao Quarto Crescente (crônica originalmente publicada na revista Globo Rural). Estou ao lado de outros escritores também brindados pelo critério de seleção da poeta Leila, muito mais confiável do que muito inventor de antologias e seletas. Visite, leia.

30 de janeiro de 2009

MENTIRAS PARA ESTUDANTES


As aulas se aproximam e vamos colocar em ítens algumas mentiras recorrentes para os estudantes, armadilhas que os prendem ao vazio da vida e à falta de perspectivas. Pois a mentira oficializada num púlpito de professor, num texto impresso distribuído na classe, ou imposta em vestibulares, é muito mais prejudicial do que qualquer outra.

ESTAMOS NUMA DEMOCRACIA - Não estamos. Continuamos numa ditadura, a mesma de 1964, pautada pela ciranda financeira, o arrocho econômico, a má distribuição de renda, a falta de soberania, o sistema político engessado, as campanhas eleitorais manipuladas, a transformação do jornalismo em entretenimento, os assassinatos de repórteres, a violência em massa, as medidas provisórias, o Sarney no Senado e por aí vai.

CADA UM ESCREVE COMO QUER - Quando o professor disser que tudo pode na linguagem, que a língua falada e escrita no Brasil é a casa da mãe Joana, e que cada um usa o miguchês (aquele patuá que dissemina coisas como huahuahua) que bem entender, que isso é legal, cool e revolucionário, não acredite. A verdadeira revolução é a vida civilizada e esta está fundada no uso da língua culta, a que foi formatada pelos grandes mestres e deve ser estudada todos os dias para que possamos conviver em paz na diferença.

TODA DITADURA É GETULISTA - Mentira. Getúlio Vargas não é o que pintam. O regime de 1964, que ainda está em vigor, foi implantado para desconstruir o Brasil Soberano, obra de Getúlio Vargas, desenvolvido desde 1930 e que gerou o ambiente propício para o surgimento da maior massa de gênios da civilização brasileira. Quando falarem da era Vargas, diga: a Era Vargas é aquele período no Brasil em que o Carlos Drummond de Andrade era chefe de gabinete do Ministério de Educação e Cultura.

O BRASIL FAZ PARTE DO PLANETA - Não faz. O Brasil é uma construção histórica e cultural, uma obra humana, portanto não está rolando no espaço sideral para o deslumbramento dos babacas e a cobiça dos piratas. Quem faz parte do planeta é o Pólo Sul, o alto mar, o céu estrelado. O resto são nações com fronteiras bem resguardadas, a não ser claro, as do Brasil, que são uma peneira por onde passa boi, passa boiada. Entra lá nos Estados Unidos e diz que eles são do planeta, vai. Planeta são os outros.

NO BRASIL NÃO HOUVE GUERRA - O Brasil é fruto da guerra, da longa luta dos nossos ancestrais num feito memorável, a conquista de oito milhões e meio de quilômetros quadrados de território. Obra realizada no muque, na estratégia guerreira e na diplomacia fundada na soberania nacional. Guerreamos contra holandeses, franceses, portugueses, espanhóis, paraguaios, argentinos, uruguaios. Peitamos ingleses e fomos até a Europa matar soldados fascistas e nazistas. No Brasil houve muita guerra e ainda há, basta olhar em torno. Só que a guerra atual é obra perversa do regime político que nos governa.

A COLONIZAÇÃO É OBRA DE MIGRANTES EUROPEUS - Mentira. Os índios ensinaram os portugueses a sobreviver na selva, os índios ensinaram os açorianos, os índios cruzaram com os alemães, os índios estão por toda parte, no nariz batata do alemão batata, na pele morena dos descendentes europeus. Ao mesmo tempo, os negros fizeram todo o serviço colonizador, construíram as casas, as cidades, plantaram, colheram, transportaram, limparam a sujeira alheia. Foram os índios, foram os negros e foram os mestiços. Os que vieram depois ganharam o crédito. Portanto, é mentira. Acredite: quem migrou para o Brasil em 1824, como os alemães, quando pisou aqui no Brasil já não era mais alemão, era brasileiro. Então, não adianta dizer que é alemão depois de 200 anos de Brasil.

VOCÊ PRECISA LER ESSES AUTORES - Não acredite em listas de autores contemporâneos. Todos esses que aí estão badalados pela mídia são superados por centenas de outros autores que ficam na sombra. Então o que existe é a grande diversidade de talento no Brasil. As figurinhas carimbadas, que estão em tudo que é evento pontificando, esses são de segundo e terceiro time. Os melhores ficarão e só serão descobertos depois que a canalha que vive de incensar os fakes morrer. É sempre assim. Na dúvida, leia os grandes clássicos, antigos e modernos.

29 de janeiro de 2009

UMBERTO D.: ADEUS AO TEMPO


Vittorio de Sica é o diretor imprescindível que nos legou várias obras-primas. Uma delas é Umberto D. (1952), o celebrado filme sobre um aposentado em Roma e seu cão. Ele enfrenta a ferocidade da sua senhoria, que quer expulsá-lo do quarto de pensão que ocupa há vinte anos, e é apoiado pela empregada grávida que tem dúvidas, entre dois soldados, sobre quem é o pai da criança. Atores amadores, como Carlo Battisti, que faz o papel principal, e locações autênticas de uma Roma decadente e poética, nos levam para uma intensa, lenta, dilacerada dimensão onde se destaca a despedida não apenas de uma época, mas do Tempo.

É revelador o momento em que Umberto coloca o relógio despertador embaixo das cobertas para lhe fazer companhia. Ele estava com gripe, se encontrava numa situação complicada, mas quem sofria de doença terminal era o Tempo. O mundo jogava fora os velhos que lutaram por ele e no seu lugar colocava o Eterno Presente, a juventude irresponsável e superficial, a indiferença olímpica dos antigos companheiros, o desprezo coletivo no lugar da solidariedade e do amor. Não há lugar para o velho e seu afeto representado pelo cão. E não há mais tempo para sobreviver.

Para conseguir honrar seu compromisso na pensão, onde acumulou dívidas por força de uma aposentaria escassa, Umberto se livra do relógio de bolso, relíquia que guardava como um talismã e que significava sua posição estável, sua ligação com o mundo produtivo, quando precisava ver as horas para trabalhar ou sair do escritório. Ele torra o relógio, dá adeus ao Tempo que o embalou por toda a vida, mas o dinheiro não é suficiente. A dona da pensão, uma coquete salafra que faz reuniões cantantes atormentando os hóspedes na hora de dormir, quer o pagamento total da dívida. Era apenas uma desculpa para expulsá-lo.

Fora de sintonia em todos os estamentos sociais, tanto em relação aos ex-colegas quanto da humanidade ao redor, o velho tenta ganhar tempo passando um período numa gigantesca enfermaria pública, ambiente de pesadelo que ele enxerga como sua salvação passageira. Tentava assim economizar na pensão para poder continuar nela, pois os dias em que estava internado não contavam no aluguel. Inclusive a dona alugava o quarto para encontros amorosos. Mas em vão. Ele acaba indo mesmo para a rua, viver sua situação limite. Leva com ele algumas roupas, nenhum relógio e o cachorro.

É salvo pela quebra de confiança que produz no seu companheiro fiel, ao tentar um suicídio duplo na ferrovia. Os dois escapam, mas Flicke (esse é o nome do cão) agora foge dele. O esforço que faz para recuperar o amor perdido acaba trazendo de volta a alegria e a esperança. Na cidades dos grandes espaços carcomidos e vazios, onde as pessoas cumprem seus afazeres rotineiros, onde não há mais lugar para a comunhão coletiva, onde todos estão apartados de todos, a ligação amoroso de um velho com um cachorro encerra uma lição. É preciso recuperar o tempo jogado fora, não desesperar, insistir, mesmo que tudo pareça conspirar contra.

Eis a obra-prima de Vittorio de Sica, que conheci primeiro como ator, fazendo adoráveis bobagens e interpretando papéis histriônicos de juiz, advogado, pilantra. Um talento fantástico, que ao dirigir Ladrões de Bicicleta ou Duas Mulheres deslumbrou a todos. Grande Vittorio de Sica, que desafia o tempo com suas lições de Mestre do cinema. Vamos ver, rever seus filmes e redescobrir a Sétima Arte, essa maravilha da indústria pautada pelo gênio.

RETORNO - Imagem desta edição: Carlo Battisti, o aposentado em Umberto D., de costas para o trabalho produtivo, representado pelo andaime com operários. Ele sofre com o tempo sequestrado de suas mãos e do seu bolso.

28 de janeiro de 2009

VIDA FAMILIAR



Jacques Prèvert
Tradução: Nei Duclós

A velha faz tricô
O filho, a guerra
Ela acha natural.
Dos negócios, cuida
O velho

A fêmea na agulha
O rebento no incêndio
O macho entre sócios
Tudo bem normal,
sério

O guri herdará o quê
no fim da merda?
Nada. Tiro, lã, balcão
continuam. Só ele
se estrepa

Os dois o enterram
como de costume.
Rotinas eternas:
Grana, manta, morte
Vida de cemitério


O POEMA NO ORIGINAL

Familiale

Jacques Prèvert

La mère fait du tricot
Le fils fait la guerre
Elle trouve ça tout naturel la mère
Et le père qu'est-ce qu'il fait le père?
Il fait des affaires
Sa femme fait du tricot
Son fils la guerre
Lui des affaires
Il trouve ça tout naturel le père
Et le fils et le fils
Qu'est-ce qu'il trouve le fils?
Il ne trouve absolument rien le fils
Le fils sa mère fait du tricot son père des affaires lui la guerre
Quand il aura fini la guerre
Il fera des affaires avec son père
La guerre continue la mère continue elle tricote
Le père continue il fait des affaires
Le fils est tué il ne continue plus
Le père et la mère vont au cimetière
Ils trouvent ça naturel le père et la mère
La vie continue la vie avec le tricot la guerre les affaires
Les affaires la guerre le tricot la guerre
Les affaires les affaires et les affaires
La vie avec le cimetière.

RETORNO - Imagem desta edição: o poeta Jacques Prèvert, autor do poema Familiale, que ganha aqui uma tradução livre.

27 de janeiro de 2009

VIRA EM CINCO


Nei Duclós (*)

Calçada e asfalto no verão eram o piso da fornalha da tarde. Nem mesmo embaixo do tufo de árvores havia brisa, refresco, alívio para nossos corpos imobilizados pela sede. De olho no carrinho de picolé que passaria ao longe, anunciado pela corneta salvadora, contávamos os minutos que faltavam para nossos compromissos, quando colocávamos à prova a sola dos pés, grossa de tanto jogar no terreno baldio, situado num declive acentuado. A natureza íngreme do estádio definia a natureza de nossas disputas.

Como o tempo era infinito, a partida limitava-se pelo número de gols e não pelas horas que passávamos ao ar livre, nos atormentando com caneladas e gritos. Cada jogo ia até dez e virava em cinco. Disputava-se no par ou ímpar quem iria primeiro para a parte mais alta do terreno, pois, a cavaleiro, podia-se avançar sem muito esforço. Rapidamente, o time do andar superior alcançava o fácil placar de cinco contra qualquer coisa, pois, dali, tiro de meta era quase um pênalti. Todo lance era facilitado pela lei da gravidade. Bastava ao adversário do escrete de cima se jogar para frente que já era meio gol.

Mas, com a mudança de posição, a vantagem virava-se contra o próprio vencedor do meio tempo. O jogo então chegava ao empate terminal dos nove-a-nove, que transformava cada guri num guerreiro medieval, capaz de cortar o braço ou a perna de quem se aventurasse a ganhar a disputa. Não era apenas o tempo reservado à peleja que contava. Mas principalmente o que vinha depois, quando depositávamos nossa carcaça embaixo do umbu e as implicâncias, sarros e provocações atingiam o paroxismo. Os perdedores tinham gana de asfixiar os meliantes que se aproveitavam do resultado para exigir mandados, como ir buscar o picolé no calorão, por exemplo.

Era uma operação complicada. Queimava-se os pés em direção ao sorveteiro e era preciso trazer todas as encomendas numa velocidade que impedisse o derretimento da prenda. Isso costumava acontecer, provocando, aí sim, contendas realmente pavorosas, que arrancavam pedaços naquela pré-adolescência feroz, quando éramos apenas garotos e o mundo, como hoje, jamais se importava com a noção de eternidade que regulava nossas vidas.

RETORNO - 1. (*) Crônica publicada nesta terça-feira, dia 27 de janeiro de 2009, no caderno Variedades, do Diário Catarinense. 2. Imagem desta edição: Sonho de menina, quadro de Juliana Duclós. Para contrapor a brutalidade dos garotos dos anos 50, nada melhor do que a leveza de uma outra abordagem da infância.

O MUNDO CAIU


Menos 130 mil empregos na indústria brasileira em dezembro, menos 76 mil empregos só ontem em todo o mundo. As multinacionais se livram do encargo, pois jamais quiseram gerar empregos, só riquezas, para os donos. A jactância do atual governo era subproduto dessa bolha assassina que alimentou de mentiras a mídia comprada durante anos. Agora os analistas econômicos se enrolam para tentar sair do embrulho, da maneira como sempre souberam, elegantemente.

“A expectativa é que o mundo se livre da expectativa”, disse um deles ontem ao vivo. É a coisa como um todo, entende? Cheio de perguntas respondidas na hora, como : as empresas ganharam muito dinheiro? Resposta: ganharam. Para onde foi esse dinheiro? Resposta: para pagar impostos, disse o analista. Mentiu. Deveria dizer: para o fiofó dos executivos e proprietários. É para lá que foi a bufunfa, guardada hoje nos bancos.

Com a grana, o governo deveria investir em infra-estrutura, em vez de se pavonear mundo afora participando de todos os festejos. Uma chuva destrói São Paulo em poucas horas, revelando o que é: uma gigantesca favela. Geramos apenas ruínas, essa é a nossa única obra. Como fica o ministrinho pedetista Luppi, que adorava dizer que os números fajutos do emprego maquiados eram obra dele, o trabalhista da hora? Trabalhista uma pinóia. Trata-se de um tratante. Jogou nos ombros do trabalhismo todo o ônus do miserê provocado pela incompetência do governo petista-tucano. Até emprego de passeador de cachorro vai escassear.

As perguntas, e respectivas respostas deveriam ser outras:

-Estavam todos mentindo?
- Sim.
- Por que mentiam?
- Mentiam porque isso dá lucro, que eles embolsam.
- O mundo está em recessão?
- Faz tempo. Não deveria, pois tem capacidade de gerar riquezas que, se fossem bem distribuídas, não levariam todo mundo para uma sinuca de bico, como agora.
- E a modernidade?
- O gato comeu. O filme The Enforcer, de 1951, sobre uma quadrilha especializada em matar, continua atual. Grande filme.
- Ainda estamos na era do conhecimento?
- Nunca estivemos. Vivemos a idade das trevas. Vejam a Praça da Soberania do Oscar Niemeyer. Provocou indignação geral em Brasília. Projeto de estacionamento para 3 mil carros. Concreto para dedéu. O de sempre. Só agora, depois de um século de barbaridades do grande arquiteto, resolveram reclamar? Tarde piaram.
- O mundo voltará a ser como antes?
- Voltará. Não aprendemos nunca.
- Qual a saída?
- Respeito às leis trabalhistas, o único programa de distribuição de renda do Brasil, estímulo ao empreendedorismo, com diminuição de juros e impostos, investimento pesado em infra-estrutura, distribuição de terras aráveis para um projeto nacional alimentar de longo prazo, limitação do plantio de cana e soja, fim das exportações de proteína, renegociação das dívidas, externa e pública, expulsão da invasão chinesa na indústria e no mercado, investimento pesado em educação, segurança e saúde. Além de dez chibatadas em praça pública em todos os analistas políticos, executivos de multinacionais que demitem e políticos corruptos.

Viram? É fácil. Tenho para mim que isso tudo é um apronte contra Obama, para desmoralizá-lo de cara.

RETORNO - Imagem desta edição: cena de "The Enforcer" (1951), com Humphrey Bogart, dirigido por Raoul Walsh, que não quis assinar a obra, pois apenas substituía um colega que precisou fazer tratamento de saúde.

25 de janeiro de 2009

O PÉ NÃO TEM NADA A DIZER


Nei Duclós

O texto balança ao som da bagunça
O poema se lança em fogo fátuo
O ensaio dança, a gramática ronca,
O romance é uma sesta no mormaço

Há um estudo solto atrás da estante
Cem livros não lidos sem descanso
Uma carta à espera de tratamento
Um grupo de sonetos tomando mate

Fevereiro é o mar que afoga as letras
Os blocos de rua dispensam as frases
A fúria do entrudo mastiga as páginas

Tudo fica nu e mudo em meio à voragem
O corpo ostenta a glória que lhe chupam
E o pé tropeça quando pede passagem


RETORNO - Imagem desta edição: obra de Juarez Machado.

ATUAR NÃO É FINGIR

Hillary Clinton (foto), ao tomar posse no seu novo cargo, parecia que estava assumindo a presidência. Ela confundiu os personagens. Mostrou o que está sentindo: a necessidade de apagar a derrota pela indicação do partido. Vai causar problemas a Obama. Sairá em menos de um ano. “Atuar é fingir”, disse uma vez Tônia Carreiro. Não é. Fingir é fingir. Atuar é outra coisa. Quando Hillary e Tony Ramos “atuam”, estão fingindo, portanto se entregam, fica fácil ver o que tentam mascarar, o truque fica explícito. É porque não sabem atuar.

"Não consigo viver o personagem. Não há a menor possibilidade de eu levar um personagem para a minha casa!", disse Tony Ramos à Folha neste domingo. Nem precisava dizer. Seu grego naquela novela, chupado de Anthony Quinn em Zorba, em que batia palmas e levantava os braços estalando os dedos, era uma performance de chorar. "A representação está em não complicar", diz ele. "Além de entender, compreender e decorar, é preciso saber que você não é aquele personagem e brincar com ele". Se você não é o personagem, então não está atuando. O ator é o personagem. Não finge.

Vejam James Stewart, por exemplo. Ator de grandes clássicos do cinema, inumeráveis, trabalhou com mestres, sabia o que estava fazendo. Vamos pegar dois momentos em dois filmes opostos, o faroeste Winchester 73, de Anthony Mann, e Shop around the corner, de Ernst Lubistch. É quando a câmara foca em close seu rosto. No papel do fazendeiro que sai à caça do irmão bandido, ele tem uma surpresa ao encontrar seu inimigo num bar. O susto que leva é legítimo, seu rosto, de traços comuns, redondos, o que lhe dá um aspecto físico infantil, se transforma e fica sinistro, amedrontador e ao mesmo tempo aparvalhado com a possibilidade ali mesmo de se chegar a um desenlace. Leva a mão ao coldre, mas ele está vazio, por ordem do xerife. Há grande desamparo nessa expressão. James Stewart é aquele fazendeiro, não está fingindo. Levou o personagem para casa e acordou com ele.

Em A loja da esquina, a câmara também se aproxima do rosto dele no momento da revelação, em que prova para a amada que ele é o cavalheiro anônimo que lhe enviava cartas. Sua expressão é de extremo desamparo, pois ele não sabe se será aceito por aquela que cevou tanto preconceito contra ele. Ele arrisca e espera. Ao mesmo tempo, aproxima-se da mulher como se o seu corpo implorasse para ser aceito. Jogou todo seu charme e ternura para o amor da sua vida, que podia escapar num segundo. Ele dependia dela. E teve de se submeter a um teste: levantou a barra das calças para mostrar que não tinha as pernas tortas. A mulher não queria defeito físico, queria o homem ideal.

Ele então mostra suas pernocas precárias, escassas, com meias seguradas por ligas, uma imagem bizarra, de dar dó. Stewart levanta as calças e olha para ela, com aquele olhar pidão. Ela se emociona e o beija subitamente. É quando o filme acaba. Tinha se apaixonado pela pessoa, fora dos esquemas ideais, pelo cara mesmo e toda sua precariedade. É de uma beleza sem fim. Por que? Porque aqueles dois protagonistas, naquele momento, jogavam tudo em cena. Estavam perdidos, poderiam mesmo se separar naquele instante. Mas deu certo e essa felicidade transborda da tela e chega até nós como uma avalanche. Grandes atores.

Imaginem se num segundo que fosse James Stewart desconfiasse que não era aquele cara confuso e apaixonado, que passou por tantas dificuldades e agora jogava sua última cartada. Isso iria transparecer na tela. O que vemos não é a contradição entre o ator que finge e o personagem forçado, mas sim a confusão legítima da criatura que está na tela, que é o ator em toda a glória de uma arte, a representação.

24 de janeiro de 2009

O AMOR NO CINEMA, EM ERNST LUBISTCH


A Loja da Esquina (Shop around the corner, 1940), do alemão que migrou para a América, Ernst Lubistch, é a mãe de todas as comédias românticas, gênero que substitui o romantismo literário do século 19 pelo realismo amoroso possível em tempos de guerra, de capitalismo ascendente, e também em crise, na ciência, no comércio e na indústria. É tanta coisa embutida num único filme, sem dúvida um dos dez mais feitos até hoje, que precisamos elencar em itens tudo o que ele nos traz, numa performance invejável para uma obra que vai fazer 70 anos em 2010.

O IDEALISMO CEGA – Os dois apaixonados, caixeiros de uma loja de badulaques de falso luxo para a classe média metida a aristocrata, centram seus sentimentos em criaturas ideais que eles mesmo forjaram em cartas anônimas. A correspondência se desenvolve sem que nenhum saiba quem é o outro. Enquanto se odeiam nas rotinas da loja, se amam na projeção idealista de um relação que promete acabar com a solidão. Mas a trama, naturalmente, leva à revelação de que o verdadeiro amor existia à revelia das mentiras que inventavam para impressionar o outro. A cena final, em que James Stewart, esse ator imprescindível, levanta a barra das calças para mostrar, a pedido da amada (interpretada por Margaret Sullavan) os gambitos envoltos em meias, para provar que as pernas não eram tortas, é um dos momentos altos do cinema.

AS APARÊNCIAS MATAM – O dono da loja, interpretado por Frank Morgan (que fez o papel de Mágico de Oz no clássico de 1939), acha que está sendo traído pelo seu gerente, mas se enganou. O erro lhe custou caro. Ao descobrir que a mulher o enganava com outro funcionário, tenta o suicídio. A moça da correspondência, ao achar que o amado ideal não tinha comparecido ao encontro, acaba ficando sozinha depois de expulsar seu verdadeiro pretendente, que não se identificou como sendo o autor das cartas. Em conseqüência, ela entra em depressão profunda e quase morre. A cigarreira que toca música, vistosa e bonita, que parece ao patrão um bom produto para venda, é visto pelo gerente como um tiro na água. O mimo acaba se transformando num encalhe da loja e num vetor dos conflitos dentro dela.

O TRABALHO É DIGNO - O filme não esconde os problemas de um ambiente profissional, lugar de muita crueldade, de empurrões, fofocas, vilezas, vinganças, cobiça, puxa-saquismo. Mesmo assim, nada existe de mais humano e encantador do que esta loja que se recupera financeiramente na véspera de Natal, quando sai da falência graças à determinação dos funcionários, que precisam provar que são bons profissionais e retribuir ao dono os empregos que ele mantêm em época de depressão. Não se trata de uma babaquice. É a vida possível de pessoas comuns que transcendem suas limitações no árduo caminho da sobrevivência, fazendo da loja uma casa, dos colegas uma família, procurando adaptar a vida pessoal à avassaladora presença do balcão e do caixa. Há dignidade e até heroísmo numa vida limitada. É o fim dos arroubos de capa e espada. E tudo isso com apenas um só tiro deflagrado, que erra o alvo e atinge o lustre.

OS ESCRITORES SÃO FUNDAMENTAIS – A peça do húngaro Miklós László virou um roteiro magnífico nas mãos do competente Samson Raphaelson, autor também da peça que originou o primeiro filme falado, The Jazz Singer, e que trabalhou também com Alfred Hitchcok. Tudo funciona, numa intensidade crescente, em que nenhum minuto é jogado fora. O diretor Lubistch consegue a façanha de transformar os diálogos confinados a lugares fechados numa seqüência de planos no claro-escuro, de interpretações seguras e algumas geniais, como a do office-boy por William Tracy. “Sou o contato da loja”, diz ele para o médico. “Faço entregas de bicicleta”. Mas você é o mensageiro! replica o doutor. “Ei, não chamei você de açougueiro, chamei?”. Há ainda personagens presentes e fortes que jamais são mostrados, como a esposa traidora do dono e a esposa ciumenta de um dos funcionários.

Há muito mais o que dizer sobre este filme que deve ser visto todos os anos, obrigatoriamente, por todos. Ele nos civiliza, nos encanta, nos seduz, nos faz chorar com coisas que parecem quase nada. Podemos ver como o ódio se transforma em amor, como a brutalidade das relações vira um grande abraço, como uma festa vazia se enche de comunhão, como o desespero encontra consolo, como a solidão inventa uma saída, como a desesperança pode ser colocada de lado e no seu lugar brilhar a faísca de um coração que pulsa. Seja romântico, com Ernst Lubistch. O cara que, ao ser enterrado, dele disseram dois grandes cineastas, Billy Wilder e George Cukor (se não me engano). "Nunca mais Ernst Lubistch", disse um deles. "Pior", respondeu o outro. "Nunca mais filmes de Ernst Lubistch".

RETORNO - Imagem desta edição: James Stewart e Margaret Sullavan em "Shop around the corner", a sintaxe usada até o osso de todas as comédias românticas.

23 de janeiro de 2009

JORNALISMO NO CINEMA, ONTEM E HOJE


Jerome Cady tinha 45 anos quando tomou uma dose excessiva de pílulas para dormir e morreu no seu iate em 1948, um pouco depois do lançamento de Call Nightside 777. Ele foi o roteirista deste e de outros filmes, naquela época gloriosa em que os créditos apareciam apenas por alguns segundos e não, como é costume hoje, por quase um terço do tempo destacando um a um, desde o segurador do pau de luz até o penteador de cachorro. Jerry Cady, como era conhecido, era um escritor de sucesso e este filme, dirigido por Henry Hathaway, conta a história de uma reportagem investigativa que livra um prisioneiro de ficar a vida toda na cadeia.

Clint Eastwood refilmou este clássico noir em 1999 com True Crime, substituindo o inocente polaco por um inocente negro, e fazendo com que a esposa acompanhe o marido condenado, ao contrário do original, em que a esposa, a pedido do marido preso, se divorcia e casa novamente. O encanto do filme em preto e branco é total. Magnífica interpretação deste grande sujeito que é o James Stewart, que tinha uma cara de bebê e um corpo fino demais, de pernas tortas, meio troncho e que era um baita ator.

Sua postura no início do drama denunciava a desconfiança: como repórter ele não acreditava na inocência do condenado e faz de tudo para se livrar do encargo, repassado pelo editor, interpretado por Lee J. Cobb. Na versão de Clint, repórter e editor são inimigos mortais, disputam a mesma mulher e têm visões opostas da profissão. São dois momentos diferentes do jornalismo. Nos anos 40, a reportagem investigativa era a essência do jornal, incentivada pelos donos e seus representantes máximos na redação. Na nossa época, um repórter desse naipe é tratado como dinossauro e precisa contrariar todo mundo para poder provar que uma reportagem pode cumprir o seu destino e salvar um inocente.

É encantador ver como a prova definitiva – a ampliação de uma foto é repassada por cabo de uma cidade a outra, processo que leva algumas horas – toma conta dos personagem e de nós, espectadores. O suspense chega ao máximo quando enfim o repórter consegue provar que o a data estampada num exemplar de jornal, ao fundo da foto denunciadora, poderia livrar o condenado. Tudo é feito de maneira segura, intensa, num crescendo sem hipérboles, nada. Tudo termina num sopro. Nos dois filmes, o repórter salvador fica em segundo plano, enquanto o liberto reencontra a família. No filme antigo, o acordo entre o pai separado e o novo marido da esposa. No de Clint, as compras de Natal da família refeita faz com que o repórter solitário se reencontre, e não se sinta o inútil que todos acreditavam que era (inclusive ele próprio).

Quando vi o filme de Clint, fiquei entusiasmado: havia cinema ainda. Quando vi o original, me dei conta: o segredo era da história, da trama bem amarrada. E da abordagem humana do cinema. Hoje, a indústria audiovisual destaca a estética ea monstruosidade dos corpos. Naquela época, o corpo humano, com toda sua escassez e precariedade, estava no centro da Sétima Arte. Diferença brutal, que torna ainda mais maravilhoso o cinema que se fazia e que tinha talentos como Jerome Cady e Henry Hattaway por trás de tudo.

RETORNO - Imagem desta edição: James Stewart no papel do repórter McNeal em "Call Nightside 777". O jornalismo investigativo, árduo, insistente, corajoso e sem nenhum "glamour" entra em cena protagonizado por um ator inesquecível.

21 de janeiro de 2009

BATE O BUMBO: O REFÚGIO DECOLA


Aos poucos, começa a decolar a campanha de divulgação e comercialização do meu livro de contos e crônicas "O Refúgio do Príncipe - Histórias Sopradas pelo Vento". Colocados nas grandes redes virtuais das livrarias importantes, como Cultura e Martins Fontes, vendidos ao vivo aqui na ilha de Santa Catarina pelo próprio autor e via internet para pessoas conhecidas e também leitores que não conheço pessoalmente, os exemplares estão aportando na leitura geral.

Façam como Carollini Assis, Walter Humberto Subiza Piña, Carla Giraudo, Evanildo Da Silveira, Jacqueneide Nogueira Santiago, Júlia Zillig, Luciana Felix Macedo, Paulo Renato Escobar Soares, Regina Andreoli, Viviane Mendes, Marina Fagundes Coello: enviem o endereço postal para neiduclos@hotmail.com que eu digo qual a conta para depósito. São apenas 20 reais, com frete incluído (correio normal) para qualquer parte do país (chega de três a cinco dias). Você recebe o exemplar autografado, bem embalado e acompanhado de marcador de livro de pura arte: uma mandala artesanal confeccionada pela artista Juliana Duclós, como pode ser vista na foto acima.

A seguir, quatro citações que estão na rede. Uma é do jornalista e escritor José Castelo. Numa resenha publicada no dia primeiro de fevereiro de 2002 no jornal O Estado de São Paulo, sobre o livro "Cartas a um jovem poeta", de Rilke, que vem acompanhada por um prefácio meu, o grande ensaista literário escreveu o seguinte no seu texto intitulado "Obra de Rilke é presságio literário: " A imagem escolhida pelo prefaciador desta edição das Cartas a um Jovem Poeta, Nei Duclós, é certeira: sua leitura, hoje, pode ser tomada como uma mensagem premonitória - e dissonante - que Rainer Maria Rilke despachou aos poetas do século seguinte. "É como se Rilke nos esperasse no futuro", Duclós escreve, "não para cobrar a conta, mas com sua iluminação eternamente disponível para uma vida mais completa".

"Escritas entre fevereiro de 1903 e dezembro de 1908, em respostas a cartas que recebeu do poeta iniciante Franz Xaver Kappus, que se questionava a respeito de sua vocação poética, as Cartas de Rilke adquiriram, com o tempo, uma força ainda mais desestabilizadora. O próprio Kappus cuidou de publicá-las pela primeira vez, omitindo as próprias cartas. Elas ganham um sabor especial se confrontadas aos impasses disseminados na paisagem poética de hoje."

A segunda citação é do escritor Roberto Schultz, que é do Rio Grande do Sul e mora em Porto Alegre, autor de três livros de contos (2001, 2002 e 2003), um de história empresarial (2003), um de Direito (2005), um Romance (2007) e a participação numa Antologia ao lado de grandes nomes da Literatura Brasileira (2008) : "Em Cartas a um jovem poeta, numa edição da Editora Globo que possui traduções nada menos do que de Cecília Meireles e de Paulo Ronái - cuja primeira edição é de 1953 - até o próprio Prefácio da reimpressão de 2006 é uma obra. Prefácios em 53 da própria Cecília Meireles e em 2006 do gaúcho Nei Duclós, que também é poeta. Duclós chama o seu Prefácio de A Ética da Solidão, conclui que "A criação literária, para Rilke, é uma experiência assustadora: algo terrível permanece sempre oculto e o escritor precisa saber que há um núcleo impermeável às palavras".

"Eu concluo disso que Duclós quis dizer que, na verdade, Rilke SABIA que nem tudo que mereceria ser escrito é passível de sê-lo, porque as palavras não conseguem atingir certos sentimentos e nem certos acontecimentos, por mais que tentemos. Então o escritor que "precisa saber", citado por Nei Duclós, não é Rilke, mas o destinatário das cartas."

A terceira citação é no trabalho "Retratos falados: a transfiguração do jornalista no imaginário popular em Nelson Rodrigues, por Juliane Maria Mathiole da Silva (Aluna do Curso de Comunicação Social). Monografia apresentada à Banca Examinadora na disicplina Projetos Experimentais. Orientação Acadêmica: Profa. Marise Pimentel Mendes. UFJF FACOM 2. sem. 2002."

Diz a citação: "O que se cobra de um bom profissional é o senso crítico, a capacidade de observação, a sabedoria de distinguir o importante do eventual, a capacidade de ligar fatos e saber ouvir, atuando de forma objetiva, clara e imparcial, escutando todos os lados. E, além disso, ser humilde, como comenta Nei Duclós: “O jornalista não é, realmente, aquele que sabe, é o que procura saber. Não está a cargo, do jornalista, vulgarizar a linguagem, torná-la acessível artificialmente. Ele precisa arrancar da fonte a chave do enigma. Para isso precisa perguntar, precisa ter humildade para assumir que não sabe”.

A quarta citação é no trabalho "Cultura Escolar Migrações e Cidadania Actas do VII Congresso LUSOBRASILEIRO de História da Educação Junho 2008, Porto: Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação (Universidade do Porto) . O tempo e suas memórias: imagens e escritos da formação docente no Instituto de Educação de Campos dos Goytacazes / RJBrasil. Angela Maria Sanges de Alvarenga Rosa, Regina Márcia Gomes Crespo, Valéria Maria Neto Crespo Oliveira Lima. SECT/FAETEC/ISEPAM.

O texto diz o seguinte no ítem "O rio e sua cidade dialogando com o magistério: O diálogo é caminho para construção; é dialogando com o que se passa que a historia em curso vai sendo ressignificada. É com as palavras de Nei Duclós (apud Sanches, 2005. p.34), que o rio diz: Não passo em vão, não estou aqui para olhar o desfile, vim ver a multidão, vim encontrar os meus amigos, acertar uma ponte com minha geração. "