19 de outubro de 2026

SOBERANO

Nei Duclós Atribuem tua grandeza ao fato de resistir por dois anos ao cerco na cidade de Porto por parte dos usurpadores do teu trono em Portugal Ou a tua decisão de romper corajosamente com as Cortes proclamando a Independência Ou a vitória na Guerra contra a metrópole por terra e mar Ou ainda à tua intervenção contra o golpe da Constituinte que queria tirar teus poderes legítimos E ter outorgado uma Constituição que durou 60 anos de uma monarquia parlamentarista e democrática E mais, por ter deixado conosco teu filho que consolidou a unidade do país nascente Tudo isso é digno de reconhecimento e assombro, ainda mais que duraste apenas 36 anos e partiste devido aos ferimentos adquiridos numa vida de muitas batalhas Mas o motivo mais importante da minha admiração é tu ter ido sozinho a cavalo para uma estrada deserta onde se reuniam os conspiradores de Minas Nada disseste e conseguiste impor respeito só com tua presença e teu gesto de alto risco desativando a conspiração É esse momento que garante teu espaço sagrado na eternidade. E te faz o maior entre os maiores, meu soberano, D. Pedro I, pai da Pátria. Nei Duclós

10 de outubro de 2026

CICLOS

Nei Duclós Troquei a noite pelo dia A noite não deu a mínima E o dia estava ocupado no seu ofício O dia impregna a manhã No ventre do escuro E quando chove as três da tarde A neblina cobre os olhos do mundo São eternos e cíclicos o claro e o seu oposto Voltam o tempo todo Só eu passo Com meu outubro de luz e de luto Nei Duclós

ISOLADO

Nei Duclós É bom que me esqueçam Para ficar livre dos tropeços Dos próximo que não amamos Driblar presenças Fugir a tempo de encontros avessos Deixar de ser uma cabeça a prêmio Para ser caçado vivo ou morto Pela alheia indiferença Só quero que o governo lembre Todo mês o depósito do meu beneficio Para assim eu ficar para sempre Isolado no mundo Coalhado de gente A não ser que os amigos Não me deixem Nei Duclós

4 de outubro de 2026

QUATRO ESTAÇÕES

Nei Duclós O inverno, velho Se deslumbra com a aproximação da beldade, a Primavera E faz dela o ideal da beleza e do prazer Mas ela traz conflitos como toda criatura real Doenças respiratórias tempestades frio em pleno sol. O fruto desse confronto é um rebento, o Verão Que promete praia mas chove Promete sossego e traz inundação Só melhora quando amadurece em Outono Mas este envelhece e fica de mau humor Que por sua vez se recupera Quando vê pela primeira vez A Primavera Nei Duclós

INSONE

Nei Duclós É plena madrugada Mudos passarinhos dormem Profundos Seus ocultos rostos de plumas Em ninhos tecidos de gramineas Enquanto eu tomo café Chamando o sono Vida é abandono Vida é Deus De alma e corpo Nei Duclós

26 de setembro de 2026

PÁSSARO DA VEZ

Nei Duclós Minutos antes do alvorecer Os pássaros despertam a manhã A claridade, véspera do sol Banha a folhagem, ninho de amor Segundos antes de me declarar Penso agora no que vou fazer Estás imóvel diante do mar E eu tremo da cabeça aos pés O sol é nossa vida a dois Minha promessa, pássaro da vez Ninguem sabe o que vai acontecer Na iminência do voo, flor do luar Estamos presos na noite estelar Confiando no momento desse sonho Quando algo ocorre no horizonte Sopro de luz, que bebo na fonte Nei Duclós

VIVÊNCIAS

Nei Duclós Esses antigos que se acreditam sábios Mas são apenas velhos Não são mais tolerados por gente séria Basta comparar sua trajetória Feita de equívocos e nenhuma glória Com a entonação forjada de suas falas Em rodas que morrem por falta de quórum Essas vivências sem lições profundas Essa memória que confunde as coisas Esse perfil partido de humanidade torta Provocam indiferença obrigatória Só os anjos que por acaso pousam Nos corredores de asilos e reformatórios Escutam esses pobres corações de ouro Nei Duclós

31 de agosto de 2026

Compromisso

Compromisso Foi por compromisso Que fiquei escuro Achei que era de lei Caminhar duro Esquecido que o sol Nasce atrás do morro E banha o pampa Ou deita no rio Pintor de nuvens Longe da infância doce E do moço aventureiro A vida nos ensina Da pior maneira Por isso volto à poesia Clara como flor sem dono Nasci para ser novo Sendo antigo Nei Duclós

27 de agosto de 2026

DESEJO

Nei Duclós Para que serve o desejo? Mascarar corpos de gelo Driblar a verdade plena Viajar em ventos de gênero Impedir o desespero Da carne em clima de medo Passar pano em sofrimento Abrir o que fecha cedo Para isso serve o desejo Lustrar piso e parede Cultivar prazer na rede Brincar de fazer poema Nei Duclós

26 de agosto de 2026

TERMINAL

Nei Duclós Viver é morar no banheiro É o dinheiro que falta A doença que permanece É perder os parentes É dar adeus aos empregos É ser alvo de pena É chorar de medo É descobrir que o passado É presente E o futuro é o tempo perdido Junto com os dentes

TEMPORAL

Nei Duclós Tudo faz parte do passado Tua mente inquieta Teu corpo exausto Nada tenho no presente Rotina bruta Imposto caro Sempre jogo no futuro Vida sem fundo Virtual amarra Nei Duclós

A FUGA DO MAR

Nei Duclós O mar voltou para o mar Saudoso do próprio sal Levou junto meu olhar Das praias imemoriais Deixou apenas deserto Sem ninguém morando perto Navios que não chegam mais Ventos com falta de ar Rios desviam o caminho Buscam um outro lugar Gaivotas pousam no mato Não há convivio no cais Só quando o mar voltar Com o luar na garupa Vou pedir que permaneça Esqueça todas as fugas Nei Duclós

REGISTROS

Nei Duclós Escrevo escondido para ninguém saber o que eu digo. Minha literatura sofre de insônia . Durmo na poesia. Publiquei quando decretaram a morte dos livros. Viver é uma atividade irreconhecível. Lembro só o que não repito. Cobro de mim as dívidas que ainda não contraí. Perdi o momento certo porque não era divertido. Aprendi quando deixei a lição de lado. Caminho em oposição à ventania. Exagerei na loucura ao fingir que estava vivo. Confesso que voltei quando deveria ir. A palavra é o principal disfarce. Nei Duclós

LIVRE

Nei Duclós Meu escudo é o livre arbítrio Contra o jogo sujo Do extremismo Faço o que me dá na telha De divina argila Resguardo em dia de chuva Vontade que vive sem vícios Solidão cercada por mãos Do Espírito Vou por aqui quando me ensino A ser o que não decidem Conte comigo Sou antigo morador Do infinito Nei Duclós

CONTAINER

Nei Duclós Cada vez mais me vejo como um corpo estranho Enquanto o mundo segue sem meu tamanho Abandonado como um container De uma estrada no subúrbio Os carros passam elétricos sem motorista Sou uma ausência de algoritmo O que digo ninguém digita Não respondo quem me pesquisa Criatura feita de ferro vencido Fico junto às plantas ralas Roçado sem nenhum fruto Alvo de tornados e granizo O destino é enferrujar as juntas Que ringem nas salas de espera Para mais um exame de vista Não me enxergo no espelho do teto Pertenço a outro universo O que estava aqui e mudou de rumo Permaneço como teimosa fera Existo porque sou do ramo Nei Duclós

25 de julho de 2026

VIDA SOCIAL

Nei Duclós Não fomos feitos para durar tanto Batemos o ponto além da validade Última idade, fim da fantasia De que vivíamos na eternidade Sermos datados era só um detalhe Nada a ver com nosso presente Morrer era para quem foi marcado Nosso destino era escapar contentes Hoje o medo morde os calcanhares O que aconteceu? exclamo atônito Um anjo te observa, és uma vaga Na terra lotada de velhos anônimos Mas ainda tenho vida , lenha no paiol Sinto vontades, e uma vida social Que são os exames e consultas de monte Brinco que não tenho os cabelos brancos Nei Duclós Nei Duclós

VOCAÇÃO

Nei Duclós Tudo o que me ocorre Dorme no poema A vocação não morre Na cama me aconselha Não deixo sumir O mote de campanha O pote do arco-iris Tesouro da montanha Canto porque tenho gana De você me ouvir Na região serrana Onde corre o rio Durmo em dia frio Desperto em noite alta Você é quem faz falta

ENCONTRO

Nei Duclós Cada momento é eterno Pulsa através do tempo Na praia foi nosso encontro Que brotou em três rebentos Num século foram crianças No outro jovens insones Todos com o dom do verbo Linhagem que vem de longe Foi o mar de areia branca Que forjou a vida errante Contamos com pura sorte Nas peripécias do ramo Nei Duclós

ARTESANATO

Nei Duclós Poucas palavras uso em meu verso São como peças de artesanato Trago para perto, ponho no alto Para que eu possa ficar desperto Parecem lâmpadas de outra época Ou miniaturas de navio em garrafa Representam deuses de argila rara Ou joias de pedras que dão em riacho Brilham sem demonstrar soberba É algo mais fosco , bibelô de feira Mas é só um disfarce de notório poder Esses objetos sujeitos a poeira Fica assim o poema sem querer ser coisa Criatura pequena em situação de lua Encanta por estar sempre presente Num canto qualquer onde o coração pula Nei Duclós

OS LIVROS

Nei Duclós Um dia os livros voltarão à tona Como zonas ancestrais de tempos submersos Boiarão nas praias de leitura ágrafa Incomodando os banhistas do mundo mala Só os pescadores saberão do que se trata São medalhas de lata, dirao certeiros De sereias cegas que fizeram a guerra Não servem como peixe essas misérias Nei Duclós