4 de abril de 2009

ROBÔ DA FAINCO: FATO, MEMÓRIA E FOLCLORE


Nei Duclós

Invasões provocam uma busca incessante de legitimidade local. Os adventícios, as mudanças de hábitos, as transformações do tempo conspiram contra a identidade de um lugar. Os habitantes precisam então cultivar a memória, dar sua versão dos fatos, manter o folclore, intensificar suas certezas. Há uma natureza escorregadia nesse processo: o conflito acontece pela artimanha, a tradição oral, os casos isolados.

Não há um confronto explícito, pois os nativos também estão envolvidos na geração dessa borboleta que sai da casca,a cidade que não é mais a mesma, os personagens que morrem, as anedotas que se perdem e os confortos e problemas que substituem a imagem de uma urbanidade pacata e paradisíaca. Mascarar o dito, aumentar um ponto, apagar os vestígios, celebrar conchavos narrativos e lembrar de vez em quando de algo perdido para sempre são maneiras de, aparentemente, um nativo continuar sendo o que sempre foi, quando todos sabem que ninguém mais é o que costumava ser.

O caso do Robô da Fainco é exemplar. Recebi a história pronta, versão hilária da esperteza de um empresário que tentou ludibriar os ilhéus com um robô inspirado na mesma criatura da série televisiva, sucesso na época (anos 60 e 70), Perdidos no Espaço. Foi atração e estrondoso sucesso numa das Fainco, que se realizava todos os anos. A edição número 1 da Veja de 11 de setembro de 1968 informava que na I Feira e Amostras da Indústria e do Comércio, a ser realizada no campus da Universidade Federal de Santa Catarina (Bairro da Trindade) cem expositores estariam presentes no evento, que era um promoção da Faculdade de Engenharia da UFSC.

A Fainco, segundo minha pesquisa na internet, "despertou muito a atenção do público, pela forma como foi promovida pelos engenheirandos da 1968. Na oportunidade foi aproveitado o edifício em estado de acabamento da Faculdade de Filosofia, em Trindade, juntamente com a esplanada da Universidade Federal de Santa Catarina, onde se instalou também um parque de diversões. Em 1969 programou-se uma segunda Fainco tendo por local o edifício em acabamento da Assembléia Legislativa". Nessa segunda edição, a agência AS Propague, de Antunes Severo, lançou mil exemplares de uma gravação do Rancho do Amor à Ilha, composto por Claudio Alvim Barbosa, o Zininho.

Mas vamos voltar ao Robô. Vários fontes se sucedem para contar a história. Uma delas é do filho do repórter que na época escreveu para o jornal "O Estado" sobre a prisão do Robô da Fainco. O escritor e contador de histórias Luiz Aurélio Baptista diz como foi. Quem me enviou a mensagem de Baptista foi o jornalista Paulo Brito. O texto diz o seguinte:

"Corria o início da década de 70, e na pacata e sempre ingênua Florianópolis acontecia todos os anos a Feira da Industria e do Comércio (Fainco – o A é de Amostras e não Anual, como saiu em alguns veículos – Nota do Diário da Fonte). Em determinada ocasião, a Fainco foi realizada na então inacabada obra da Assembléia Legislativa de SC, no centro da cidade.

Uma das atrações era um Robô, parecido com aquele do seriado "Perdidos no Espaço", coqueluche da época. O tal Robô, dizia o empresário que o trouxera, era totalmente "robótico e inteligente", ou seja, sem um ser vivo sequer dentro dele...A manezada ingênua pagava ingresso para ver aquela maravilha tecnológica da época, e como a comunicação naqueles idos era difícil, não foi possível saber que "aquela maravilha" já havia sido um fracasso em outras cidades do Brasil, tendo em vista a desconfiança das pessoas, pois achavam que ali dentro havia um ser humano, ou seja, não enganava ninguém!

Pois bem, a Fainco foi inaugurada com toda pompa, banda de música e muita reverência àquela fantástica atração - o Robô da Fainco. Após dois dias de filas intermináveis para ver o Robô, e o "empresário" do monstro já com as bufas cheias de dinheiro da manezada, eis que um singelo vigia noturno da Fainco ficou desconfiado, pois havia sido furtada uma bolsa de uma manezinha, bem no local onde o Robô circulava e ficava "desligado" à noite.

O vigia, já desconfiado que o robô era o larápio resolveu ficar de campana naquela noite, só observando o bicho, de longe, afinal, ele teria que descansar um pouco ou sentar-se, se humano fosse. Aí, pensou o esperto vigia, chamo a polícia e dou o flagrante. Não deu outra: lá por uma hora da madrugada o istepô apoiou o pézinho na parede, como todo ser humano faz, e além disso, deu um espirro... Aí foi demais! O nosso Sherlok Holmes fez um escândalo e chamou a "rapa", que prontamente prendeu o Robô e o seu dono, ou empresário, como queiram.

Foram todos madrugada adentro para a 1 ª DP explicar-se para o delegado Elói. Mas ninguém tinha coragem de tentar desmontar o bicho e nem sabiam por onde começar, pois a geringonça era bem bolada mesmo, tipo lacrado. Tenta desmontar daqui, desmontar dali, eis que chega proeminente figura do Governo Do Estado com o objetivo de levar as notícias fresquinhas ao governador, tendo em vista que o escândalo já tomava conta da madrugada. O figurão, meio afeminado que era, chegou perto do robô, olhou, olhou, tocou no bicho, não se conteve e fez a pergunta:
- Robô, tu falas? E o Robô respondeu
- Falar falo, mas com veado não!!!”

Vamos a mais um capítulo da história. No blog do Dogman, ela é um pouco diferente: “Aconteceu no ano de 1968 em Florianópolis, mas eu só soube agora. Numa feira de invenções ou inovações industriais (ou coisa parecida) chamada Fainco, promoção do Departamento de Engenharia da UFSC, surgiu um robô de lata, no melhor estilo Perdidos no Espaço. Os estudantes, os pesquisadores, o público, a imprensa, enfim, todos os freqüentadores do evento ficaram boquiabertos com tamanha tecnologia, até então só vista na ficção do cinema e das histórias em quadrinho. O robô era articulado, movimentava-se com agilidade, só faltava falar.

A polícia foi chamada para conter o tumulto provocado pela novidade, afinal, era coisa de outro mundo. Um dos investigadores já avaliava a situação e, astutamente, percebeu quando o homem de lata se dirigiu ao banheiro. Por uma fresta da porta, viu claramente um anão sair de dentro da fantasia e correr, apurado, para fazer um pipizinho. Esclarecido o mistério, o detetive deu voz de prisão a ambos. O anão, dias depois, foi solto e se mandou pra São Paulo. O robô, que fizera sucesso no programa Flávio Cavalcanti semanas antes e fora contratado para animar a feira, continuou preso na capital.”

Outra fonte, Aldírio Simões, conta do seu jeito: “A prisão do robô da Fainco, por exemplo, não poderia ter sido mais burlesca, pois o policial prendeu o robô e soltou o sujeito que estava dentro da armadura. O meliante, conhecido como Sapo, protagonizou uma fuga espetacular, dessas de cinema, e aos olhos da imprensa. Sapo era um arrombador respeitado, abria as fechaduras mais sofisticadas na época e isso intrigava a polícia. Ao ser preso, o radialista Jorge Salum foi entrevistá-lo no porão de uma delegacia e o delegado, um pavão de penacho, porém incrédulo diante da especialidade de Sapo, determinou que mostrasse ao repórter a sua habilidade em abrir uma fechadura. Ele aceitou, pediu que o delegado e Salum entrassem na cela, o que foi atendido, e, do lado de fora, Sapo trancou a porta e ganhou a liberdade.”

O colunista da RBS e do Diário Catarinense, Cacau Menezes, comentou o acontecimento em janeiro deste ano: “Morreu domingo, em Los Angeles, o ator e dublê Bob May, que interpretou o robô no seriado Perdidos no Espaço. “Perigo, perigo”, alertava ele com uma voz metálica. Já outro robô também muito famoso, o da Fainco, deve estar “mocozado” em algum canto desta Ilha rara. O robô da Fainco (uma feira da indústria e do comércio local) movimentava-se e até falava, foi atração na cidade. Daí um policial desconfiou e descobriu um anão dentro do robô, que foi preso. Governador Luiz Henrique, que trabalhava no Dops, era o escrivão da época. Os detalhes desta passagem estão fazendo falta na literatura folclórica da Ilha.”

Mas há ainda outra versão, a do filho do empresário do robô, que se assina Lima no blog do Dogman e é de São Paulo: “É claro que o robô possuía alguém dentro. Vcs não assistiam perdidos no espaço?? em plenos anos 60 vc esperava robo eletrônico?? aquilo é como magico que tira coelho da cartola é para atrair pessoas e deu certo O robô não respondia perguntas decoradas, como o cidadão citou. Existia um sistema de radio intercomunicador dentro do robo Como já disse, aquilo atraiu publico e deu dinheiro para fainco. as crianças gostam os adultos tambem. Meu pai não tinha que ser alvo de mentiras subjetivas aquilo é o que todo mundo esperava. quem assistia perdidos no espaço sabia que tinha um homem dentro, nem poriço deixei de gostar dele e gosto de assistir a serie ate hoje. Se a nasa em 1969 levou quase 40 anos para produzir um robô, porque o motivo do alarde na epoca isso é ridículo, tanto é que ganhou na justiça. foi um trabalho bonito, atraiu o publico, deu dinheiro para os stands todo mundo ganhou...”

Eis um rodízio de ingenuidade e esperteza, a revelar a mudança da capital catarinense, de pacata e bucólica, num centro de indústria e comércio, com feira importante de tecnologia. O choque foi inevitável. O perfil da cidade mudava, o robô, que deveria ser um exemplar futurista, se transformou, ou foi transformado num caso de polícia. A desconfiança em relação às mudanças, o folclore em cima da modernidade, a piada substituindo a importância do evento, tudo isso serve para “colocar as coisas no lugar”. Ou seja: não venham tentar transformar esse lugar em algo diferente que nós não permitimos. Hoje, as histórias deitam e rolam em cima da ingenuidade da ilha, numa auto-punição consentida, fonte de todo humor, pois "só nós temos direito de rir de nós mesmos".

Ou talvez nada tenha essa seriedade toda. E foi apenas um fato folclórico, lembrado às gargalhadas. E que merecia um registro aqui no Diário da Fonte, que acaba de colocar vários links permanentes para blogs de Santa Catarina e Porto Alegre, basta ver aí ao lado.

RETORNO - A imagem desta edição me foi enviada por e-mail por Paulo Brito.

BATE O BUMBO: DF NO ITAÚ CULTURAL!

Este Outubro é citado no Banco de Cultura, do projeto Rumos Itaú Cultural 2009, entre 149 sítios considerados importantes: "Blog do poeta e jornalista Nei Duclós, sobre artes, com destaque para a literatura; traz também esportes, política e pequenas crônicas sobre o cotidiano da ilha onde vive, Florianópolis, sob o formato de um jornal, Diário da Fonte".

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