28 de março de 2009

Diário da Fonte
HISTÓRIAS DAS INVENÇÕES



Nei Duclós (*)

Fui criado por histórias de invenções malucas e não apenas nos quadrinhos ou no cinema. Narradores populares juram que sabem dessas coisas. Uma delas é sobre o carro a água, que teria sido inventado por um brasileiro e funcionaria por meio de um mini reator que separa os gases formadores, hidrogênio e oxigênio. Mas parece que interesses contrariados teriam dado um sumiço no inventor, que cometeu a imprudência de nascer por aqui. Sempre desconfiei dessa história até saber que fizeram quase a mesma coisa com o carro elétrico, no final dos anos 90. Simplesmente recolheram os protótipos e nunca mais se ouviu falar deles.

Atualmente, uma grande invenção está sendo oferecida aos brasileiros: o trem a ar. Foi inventado por um gaúcho, que, abandonado, pediu ajuda para um país do Exterior, que completou a pesquisa, registrou a patente e agora quer vender para nós. Há uma quantidade de criações nativas que vivem no limbo do ostracismo. O Padre Landell de Moura, que é nome de fundação no Rio Grande do Sul e ganhou biografia do jornalista José Hamilton Ribeiro, soube antes de Marconi como transmitir sons e sinais por meio de ondas.

Há o padre nordestino que enviou sua invenção, a máquina de escrever, para a Remington, que fabricava armas. E a história do Bina, o identificador de chamadas, que parece estar em meio a grande pendenga judicial por direitos . E temos Santos Dumont que descobriu como levantar vôo com o mais pesado com o ar, mas perdeu a autoria para os irmãos americanos fabricantes de bicicletas, que inventaram como manobrar o avião, mas só depois que ele é posto no ar por meio de uma catapulta.

Minha desconfiança com os parâmetros da ciência e tecnologia ganhou status acadêmico quando li em Thomas Kuhn que o motor das revoluções científicas não é o racionalismo, mas o obscurantismo. Ele explica: quando uma teoria não responde mais às perguntas importantes, uma parte da comunidade científica dedica-se ao problema. De repente, num sonho ou num insight supremo, um desses pesquisadores tem uma idéia genial, que ajuda a resolver o impasse. Só que o resto da comunidade já fez carreira com a velha teoria e a novidade leva décadas e até mesmo um século, como aconteceu com Newton , para ser aceita e se consolidar. Então a ciência avança não porque os luminares se convençam, mas porque morrem!

Hoje, as invenções tornam obsoleta a vida recém acomodada com uma novidade. A tendência avassaladora faz estrago. Imagino a TV descartável que zapeia sozinha: ela liga e desliga quando quer, muda o canal (sempre procurando anúncios pré-programados) e impõe o tipo de coisa que você "precisa" ver. É um ibope invasivo, que conquista o telespectador pelo aparente custo zero. Outro pesadelo é catraca em elevador: pedágio para subir ao terceiro andar. Mas nem tudo é horror. Vejam o caso do Porta-Focinho, uma invenção que grita para ser fabricada em série. Quem tem cachorro sabe: eles estão sempre procurando um lugar para descansar seus focinhos, fator permanente de desequilíbrio na hora da sesta.

Para as crianças, imaginei a Pipa Digital: o eterno brinquedo agora manobrado pelo zap. Dizem que é inviável. Não sei, não. Acho que dá para fazer. Teria que ser de baixo custo, para ser fabricada em massa, com todos os tipos de design e cores. Daria também para fazer com que um só zap manobrasse mais de uma pipa, inventando coreografias. O marketing iria adorar!

Há anos “invento” um jogo de aros, desses que se jogam em feiras, mas compacto. Ou seja, feito de aros plásticos que se encaixam e se diferenciam pelas cores, cada uma valendo determinado número de pontos (os maiores valem menos pontos, claro). Vem dentro de uma caixa: você puxa o dito pelo centro dos aros encaixados, onde sobressai uma pequena bola de plástico. O jogo vira um cone, que fica a certa distância . A graça é jogar para ver se encaixa. A seqüência deve ser obrigatória, de maior a menor, até o último aro, que vale mais. Não é bom?

Mas eu falava de invenções, ciência e tecnologia. Como cheguei ao jogo de aros? Talvez porque tudo não passa de imaginação. E o que sonhamos agora talvez seja lugar comum na próxima década.

RETORNO - 1. Imagem desta edição: Maria Clara ama o planeta. Foto de Ida Duclós. 2. (*) Crônica publicada neste fim-de-semana na revista Donna DC, do Diário Catarinense. 3. Estréia novo link no blog Outubro: Ferias Floripa, com magníficas edições sobre a ilha de Santa Catarina. A cargo de Ida Duclós, autora também do consagrado Nada a Ver (ambos os links ao lado), que atraiu grande massa de leitores interessados em descobrir suas raízes, suas origens e seus ancestrais.