23 de novembro de 2012

GOSTAR PONTO



Nei Duclós
 
Gostar não tem reparos. É quando só a razão se recolhe à oficina.

Desista de gostar se quiser adaptar o que gosta às tuas formas de bolo.

Gostar não é álibi para decepções. Arroste.

"Gosto muito de você, mas..." não existe. Isso não é gostar. Gosto muito de você ponto.

Quando dizem a cada cinco minutos que gostam de ti é porque preparam algo. Quem gosta xinga.

Gostar não pode virar prisão. Ninguém é presidiário do gostar alheio.

O melhor de gostar é conviver com as diferenças. Fonte inesgotável de saborosas implicâncias.

Gostar pode muito bem passar sem ter de gostar. É uma das qualidades do gostar.

Tempo e distância não matam o gostar, antes o intensificam.  Por isso os reencontros são repletos de palavrões. É a vingança por não conseguirmos deixar de gostar.

Gostar é desqualificar quem se gosta. Porque gostar já sobra, não fica margem nenhuma para salamaleques.

Dizer te gosto uma vez na vida é suficiente. Senão fica fake, vira filme de última categoria.

Não gosto de ti é a coisa mais brutal que se pode dizer a uma pessoa. Quando for necessário, diga.


RETORNO – Imagem desta edição: Jean Seberg e Jean-Paul Belmondo em Acossado, de Godard.

22 de novembro de 2012

ÉS MEU PONTO



Nei Duclós
  
Continuas quieta enquanto canto. Mas se esqueço a letra, és meu ponto.

És meu único amor, ela disse. Sou um dos teus sonetos.

No fundo é só a imaginação que nos sustenta. Mesmo frente a frente. A criatura que te beija encarna uma lenda.

Do que estou falando? Do que calam, serena.

Três gemidos é uma senha. Um suspiro, suficiente.

Me levas para a montanha. Lá me perco, te procurando. É que chegas ao topo voando.

Melhorei muito depois que me conheceste. És uma civilização perdida que encontrei sem mapa.

Posso passar dias te escutando. Não só pelas palavras, mas também pelos silêncios.

És tão bonita quando conversas. Ouço melodias que me convencem.

Queres um sentido quando nem os pássaros desconfiam de algo parecido. Pouse no fio e cante para o futuro.

Nada pode o poema se não te entregas. Mesmo que saibas o que vem pela frente: a solidão do verso, o esplendor da açucena.

Rendilhada de acenos. Puxo por uma ponta e desfia-se o universo.

Nenhum verso durará para sempre. A não ser o que sussurras quando te acerto em cheio.

Não adianta chegar perto. Estás satisfeita com a nossa distância.

Vieste te servir de versos. Nem me olhaste, colecionadora de silêncios.

Te dedicas toda ao poema. Eu sobro, autor sem direitos.

Olhar pidão, beijo teu ombro.

Não esqueci de você. É que as vezes desmaterializo.

Nada é mais sério do que a concentração da espera antes do bote terminal da fera. Cupido sua quando retesa o arco.

Falo para alguém, assim como tens quem amas. Sintonia de viagem. Somos apenas passageiros da mesma carruagem.

Todo dia cultivo a flor que te ofereço. Às vezes machuco o jardim deste amor resistente.

Teu rosto é um beijo que pede. Cedo, em plena tarde.

Não preciso dizer nada quando puxo de súbito o que te cobre. O amor faz barulho quando se decide.

De costas, teu cabelo pela cintura era de pintura antiga. Desenhei teu contorno para que caibas em meu sonho.

Teus olhos são lagos que mergulham em mim. Perdes o ar na busca de corais.

Pouso em teus lábios como nave espacial em Marte. Em busca da vida que inexiste em meus metais.

Vou te contar um segredo, ela disse. Mas promete que vai esquecê-lo, para amanhã eu te surpreender de novo.

A Lua se abana com o leque das folhas enquanto se olha no azul do espelho.

O verso sofreu um corte. Caiu apontando o norte. Sangrou no mar, sal vermelho. Sereia com marinheiro.


RETORNO – Imagem desta edição: Claudia Cardinale.

NINHO REMOTO



Nei Duclós

Ciúme agora não te diz respeito
deixas o eito, amor sem remédio
imune ao alheio e torpe assédio
és andorinha de ninho remoto

Lá te escondes, solidão tranquila
ninguém te fere o coração exausto
entre nuvens, fiéis na tempestade
ou algodões nas tardes de mistério

Me deixaste solto, preso nos enganos
facilidades que roubam o tempo grave
deveria estar contigo, se fosse atento

Te perdi, plumagem de tormentos
e não sei onde bater na tua porta
só vejo o voo, breve, que se esgarça


RETORNO -  Imagem desta edição: Audrey Hepburn.

SESSÃO COMPLETA



Nei Duclós

Botei a Lua no bolso
E a levei ao cinema
Bem no meio do namoro
ela arriscou a mão boba

Fazia o papel de noiva
na pressa do casamento
Lua Nova de promessa
trêmula no Crescente

Depois do beijo na Cheia
se enrolou na Minguante
gemia vertendo estrelas

No fim da sessão completa
quis esticar ao relento
num luau de via láctea


21 de novembro de 2012

FRAUDE



Nei Duclós
 
Nada te emociona. Meus segredos,
um meteorito da Lua que guardo
papéis de seda, alfarrábios de barro
um vídeo bizarro do tempo do Epa

Tento com versos, mas estás lotada
já conheces os truques, toda a fraude
passei da cota normal da sonetagem
Chovo em solo sem vocação de água  

Nenhuma felicidade, mesmo a antiga
é puro cansaço da memória, máscara
que usei neste tempo duro de ressaca

Agora resto com a inutilidade dos poemas
atirados na calçada da tua impassível cara
só andorinhas colhem em voo de lágrimas


RETORNO – Imagem desta edfição:  Camila Belle.

FINA CHUVA DE ORVALHO



Nei Duclós
 

Eu apenas imagino, fina chuva de orvalho.

Falamos a mesma linguagem. O sorriso, quando estamos no auge.

Pegue o que te espera há tempos, sem ceder um momento.

Escolhi a cor creme, feita de seda. Havia ondulações, como se houvesse praia e tudo fosse abaixo, até o tornozelo.

Se gosta, diga. Mesmo que seja em silêncio. Eu capturo cheiros.

Provei você antes do tempo. Melhor assim, enigma permanente.

Estás pronta para o bote. Depois não finja inocência.

O mundo te esquece, mas eu lembro. Estou sempre prestando atenção na curva do teu joelho.

Não sei se, ao me querer, devo agarrar-te. Pode ser que haja jogo, um talvez sigiloso.

Perca esse ar de quem começa. Há tempos és minha promessa.

Cada ponto da tua pele eu beijo. E uno com meu lápis, a língua que te canta.

Tentei esconder o presente, mas descobriste. Arrancaste do meu bolso a renda que escolhi a dedo e embrulhei como se fosse um crime.

Não tenho piedade quando estás entregue. Me prevaleço, sou tua vantagem.

Foges porque me repito. Vou compor uma valsa, então, para amassar teu vestido.

Já fui tarde. Agora sou boca da noite. Passe o batom, como um açoite.

Fantasia não nos diz respeito. Diz beijo longo, mão no peito.

Pingas o fogo que me janta. Depois é doce, o tempo todo.

Aceitei o exílio por um longo tempo. Depois me anistiei e voltei ao amor, minha pátria.

Tens outro ritmo, outro compasso. Quando desisto, me abates. Quando retorno, me escapas.

Não escondo nada, não falo por charadas. Apenas evito o que se define em outro plano. Corpo é paralelo à palavra.


RETORNO – Imagem desta edição: Naomi Watts.

20 de novembro de 2012

VOA, MEU CORAÇÃO



Nei Duclós
 
Voa, meu coração, no tempo largo
ave de arribação sobre a neblina
busque o que eu perdi, amor amargo
cardo de cortes e sabor de vidro

Suba até o topo onde reservo
o distante olhar que me inventou
pouse na rocha que roça o abismo
e reparta o futuro assustador

Convívio de luas e relâmpagos
no tempo amarrado e ainda nu
impassível frente ao mar e a chuva

Sussurre a mensagem escondida
que o vento colhe do esplendor
Esse destino que não foi escrito


RETORNO – Imagem desta edição: obra de Edward Hopper.

REDES SOCIAIS E CULTURA



Nei Duclós

Já que nada temos em comum e não aturamos as diferenças, vamos culpar as redes sociais.

Já que aproveitamos essa aparência de proximidade para incomodar o avatar vizinho, vamos dizer que as redes sociais estão obsoletas.

Rede social tem infinitos desdobramentos se for encarada como ambiente de um trabalho gratificante, o de compartilhar cultura.

Não existe carisma na vidinha pessoal, tanto de anônimos quanto de celebridades. O que vale é a abordagem transcendente, o pulo cultural.

Compartilhar cultura não é exibir uma erudição que não possuímos. É expor apreensões pessoais e coletivas de manifestações do espírito humano.

É escassa nossa percepção dos acontecimentos culturais. Essa escassez precisa estar exposta, sem que vire uma vaidade pelo avesso.

Não entendo nada disso ou você que entende disso são abordagens furadas. Entendemos a precariedade da nossa percepção, mas é nessa fresta que passa a luz.

Todo repasse de um evento cultural precisa ter a intervenção de quem faz a sugestão, para que as inflexões pessoais se somem a um acervo geral.

Não se trsata de impor leis de comportam,ento ans redes sociais, mas de colher vivências reveladoras que possam contribuir para este momento.

Temos uma chance rara de multiplicar cultura por meio das redes sociais. Não podemos nos abandonar às dificuldades.



As redes sociais se esgotam porque agimos de maneira limitada. Precisamos ultrapassar, romper o dique. Senão estaremos eternamente migrando de um orkut para um face.
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RETORNO -  Imagem desta edição: obra de Escher.