24 de junho de 2011

NOTÍCIAS DE DIDI


Com três anos e meio de atraso, soube que Nidia Ribeiro morreu em novembro de 2007, aos 59 anos, segundo depoimento do viúvo, o ator e comediante Agildo Ribeiro. Didi Chiarelo, como era chamada quando solteira, foi a mais bela criatura da minha geração, em Uruguaiana. Tornou-se bailarina do Teatro Municipal do Rio e dali foi para o Balé do João Carlos Berardo, da TV Globo, quando conheceu o futuro marido, com quem foi casada por 35 anos. Agildo vinha de outros casamentos. Era 17 anos mais velho. Não tiveram filhos.

“Namoramos, nos apaixonamos”, conta Agildo. “É o ser humano mais completo que já vi na vida. Antes de morrer, em 79, minha mãe disse que já podia ir embora em paz porque eu estava com a mulher certa. Minha vida se resume a antes da Didi e depois da Didi. Eu era um louco que dinamitava dinheiro sem a menor pena. Ensinou-me a economizar, a investir. Tudo o que tenho hoje foi graças a ela. Casamos depois de 17 anos de namoro. E, para escolher a data do casamento, tivemos um lampejo marxista: foi no dia 27 de novembro de 1989, data em que se lembravam os 54 anos da Intentona Comunista.”

O ator é filho do tenente Agildo Barata,que despontou para a vida pública na Revolução de 1930, quando dividiu com Juarez Távora a glória da vitória no Nordeste. Mais tarde foi preso de pijama na revolução de 1932, que fora desencadeada no dia 5 de julho, por Julio de Mesquita, antes da data marcada, dia 17. Agildo Ribeiro nasceu em abril de 1932, quando o pai estava na conspirata e não queria filhos naquela altura. Barata também participou da quartelada de 1935, apelidada pelos militares de Intentona, o golpe de estado contra um governo eleito por Assembléia Constituinte..

Didi era filha de Antonio Chiarelo, líder dos bancários e do partido socialista nos anos 50, quando se uniu aos trabalhistas para ganhar força de urna. Chiarelo foi um dos melhores prefeitos que Uruguaiana teve, junto com o Iris Valls, dois brilhantes administradores. Esses antecedentes políticos familiares devem ter influído na aproximação do casal.

Apesar de bela, inteligente, talentosa, Didi tinha sumido do mapa. Dela há pouquíssimas fotos na internet, assim mesmo sempre acompanhada do marido. E Didi teve notoriedade, pois nos anos 70 era um dos destaques da apresentação do Fantástico. Era a mais bela loura daquele balé global, que a todos encantava. Como pode uma jóia dessas passar a vida anonimamente e morrer como seu viúvo descreve? “Morreu de câncer no pulmão, por causa do cigarro”, disse Agildo para a revista Quem. Houve também um agravante de subnutrição, provocada pelo uísque, segundo Agildo.

Em Uruguaiana, no esplendor da sua mocidade, Didi despertava aquilo que chamam de paixonite juvenil e todos sabem que é o primeiro amor, jamais esquecido, mesmo não correspondido. Era um mito que Agildo, que interpretava o professor de Mitologia, guardou a sete chaves. Foi-se em silêncio, como um pote de mel ardente que se derrama aos poucos e se espraia na memória como um pássaro de luz. Soube de sua morte no último dia 12 de junho, um domingo.


RETORNO - 1. Crônica publicada no jornal Momento de Uruguaiana. 2. Imagem desta edição: obra de Degas.

Nenhum comentário:

Postar um comentário