5 de novembro de 2010

Diário da Fonte
O QUE É UMA BIOGRAFIA?


Nei Duclós (*)

Biografia é tudo o que os outros dizem da sua vida, independente do que você faz, pensa ou sente. Funciona assim: alguém seleciona o trecho da própria percepção sobre o que viu um dia você dizer ou fazer e então, a partir esse retalho, constrói toda uma história. Vai desde o nascimento (em circunstâncias ou família suspeitas), passando pelo principal, que é o objetivo de toda biografia: jogar tudo no lixo. Pois para isso servem os biógrafos: para usufruir do destaque (imerecido, claro) do personagem para poder escorrê-lo inapelavelmente água abaixo.

Esse trabalho conta com inúmeros voluntários. Ao longo da existência, a vítima ouvirá a cobrança interminável: “Ué, mas tu não é carpinteiro? Por que então deixou de pregar aquele prego na cúpula da Igreja da Matriz em 1859, quando estava chovendo?” Ou então: “Mas tu não é de esquerda? Então por que decidiste colocar na urna o nome suspeito de pertencer a todas a direitas?” Quando o biografado faz um lance ousado, como peitar na bandidagem que assume o poder posando de revolucionária, imediatamente há um coletivo suspiro de alívio. “Ah, eu sabia, ele sempre foi de direita”.

Mas há uma vantagem quando chega enfim a meta da biografia, o lance de jogar o nome na sarjeta: a pessoa alvo da barbaridade enfim se livra da cobrança. Já está devidamente enquadrada e assim poderá viver longe dos olhos críticos contra uma vivência pautada pela honestidade e a ética. Quando não há esqueletos no armário, inventam armários para de lá tirar...o esqueleto. Se a lama não sujar para sempre a paz do biografado, ele poderá usufruiir de uma vida pacata, sem que ninguém lhe peça documentos para cruzar os umbrais. “Você não toca violão? Então porque não está interpretando uma valsa nestas cordas inúteis?”

Por que acontece isso? Talvez o espírito de porco deva ser uma coisa gostosa de assumir, tanto está disseminado pelo tecido social. A coisa mais engraçada que existe, e disso sabiam os diretores dos antigos pastelões, é alguém levando um tombo. Hoje, na Era da Mediocriade, alter ego da propalada Era do Conhecimento, a moda é derrubar a imagem dos gênios. Já que não existe mais formação à altura do que os grandes nomes da literatura e da ciência produziram, então o negócio é arrastar biografias ilustres para o lixo.

Foi assim que foi decretada a inexistência de Shakespeare, Einstein virou autor de frases falsas de auto-ajuda e todo inventor não é autor do seu invento, agora atribuído à esposa, um vizinho ou mesmo ao Catchorrinho. Por que é bom usar o estilingue contra vidraças tão vistosas. Borra-se ou rouba-se grandes obras de arte e não falta nada para dizer que todo grande artista no fundo, fazia parte de outro time, não ao que sempre pertenceu.

Parece que o velho comadrismo tomou conta da cultura. Por isso gosto cada vez mais de gênios como Jorge Luis Borges, anatemizado por suas posições políticas. Na sua História Universal da Infâmia, aventureiros sem escrúpulos compunham biografias falsas para ludibriar as sociedades cretinas. Pelo menos, havia concorrência ao mau hábito de inventar coisas sobre os outros.


RETORNO - (*)Crônica publicada originalmente no jornal Momento de Uruguaiana, edição número 315. 2. Imagem desta edição: Estátua em Antuérpia, foto de Daniel Duclós.