6 de janeiro de 2005

Diário da Fonte
O DRAGÃO DE JADE

Nei Duclós

Um mergulhador desenterrou do fundo do mar uma jóia mágica, o Dragão de Jade. Tem o tamanho de um punho fechado e é todo esculpido na gema preciosa. O dragão está sobre um pedestal e no espaço entre essa base e a barriga cabe os dedos de uma pessoa. Foi um puxão bem nesse vão que arrancou o objeto de onde estava, cravado numa rocha, mas que, não se sabe bem o motivo, se soltou facilmente . O resultado foi o terremoto que jogou o mar contra a Ásia. Só quem conhecia o segredo era um velho moribundo, vítima do maremoto. Ele não queria morrer e decidiu falar o que sabia para dois desclassificados, que o ameaçavam e estavam divertindo-se saqueando hotéis destruídos, turistas mortos, vilas abandonadas, ilhas fantasmas.

O ENCONTRO - Tamil e Kailash ficaram amigos graças ao consumo de drogas pesadas. Afundaram-se na heroína e no ópio. Foram retirados do torpor pela tragédia, que fez quase 200 mil mortos. Animaram-se com as possibilidades de enriquecimento e saíram a campo. Tinham escapado porque gostavam de ficar isolados em morros e, como foram testemunhas do horror quando estavam bem altos, decidiram que aquele era um evento de sorte. Caíram direto nas ruínas onde os turistas se amontoavam e lá começaram a recolher tudo que é tipo de cacareco: brincos sujos, celulares rotos, restos de câmaras digitais, algum dinheiro, mas não o suficiente. Tamil estava com 17 anos, mas aparentava trinta. Andava aos andrajos, tinha vasta cicratiz na cara e nascera em família muito pobre. Por um tempo participou da geração de subempregos do turismo internacional carregando senhoras gordas na garupa, quando era tratado como elefante de bolso. Riam, as canalhas, e foi por isso que ele resolveu dar um tempo para dedicar-se ao consumo do que havia de mais potente. Foi fácil: como era uma espécie de avião para endinheirados cheiradores e fumadores, guardava algo para si e não dividia com ninguém. Fez uma exceção para Kailash, filho de potentados locais que aos 15 anos revoltou-se contra uma punição escolar e partiu para algo mais divertido, como fugir da polícia junto com Tamil e repartir o mesmo sonho de um golpe definitivo que mudaria o destino. Isso aconteceu quando encontraram o velho moribundo. Queriam saqueá-lo também, mas algo naquele olhar fez os dois vagabundos parar.
- Eu sei de uma coisa que fará de vocês ricos, disse o velho.
Os dois escutavam de boca aberta.
- Mas vocês precisam me poupar.
- Não te mataremos, mentiu Tamil. Diga o que tem. Se for coisa boa, te deixaremos aqui. Se for fria, te jogaremos um caminhão de lixo em cima.

LENDA - O velho então contou a lenda do Dragão de Jade e como a tragédia foi desencadeada. O mergulhador tirou a jóia do fundo do mar e voltou para seu barco. Estava admirando a maravilha quando a tsunami pegou-o em cheio. A jóia, que valia milhões, perdeu-se na floresta, em algum ponto alto do país.
- Onde, onde? perguntaram os dois bandidos.
- Não sabemos, disse o velho. Precisamos encontrá-la para devolver ao lugar que pertence. Senão novo terremoto virá e tudo será destruído.
- Conversa fiada, disse Tamil. Para que serve essa história? Ninguém sabe onde está a jóia e se a gente encontrar vamos ter que colocar no lugar de origem. Quem vai pagar para uma bosta dessas?
O velho levantou a mão trêmula:
- Quem encontrar o Dragão de Jade terá à disposição todos os tesouros do mundo.
Kailash caiu na gargalhada.
- Que besteira! O mergulhador está aonde hoje? Sumiu no meio da merda e da lama.
E os dois começaram a bater no velho. Iam matá-lo.
-
Depois que o Dragão é retirado a primeira vez, disse o velho, e essa foi a primeira vez que aconteceu em muitos milhares de anos, quem achá-lo terá a riqueza e a felicidade. O primeiro puxão é a Hidra, o segundo é a Fortuna. Mas para ter direito a essa montanha de ouro é preciso colocar o Dragão de volta, senão a morte os ameaçará.
Os dois ficaram então em silêncio.
- E como vamos saber qual é o lugar? perguntaram.
- O dragão dirá, disse o velho, e morreu.

MARÉ - Tamil e Kailash empreenderam longa viagem país adentro, inclusive montando em lombo de elefante, para achar o precioso objeto. No caminho, chegaram a se apaixonar pela mesma camponesa. Mas nenhum dos dois ganhou a parada. Eles abandonaram o amor por uma pista falsa e foram parar num templo budista encravado no teto do mundo. Lá, Kailash encontrou seu tio e decidiu virar monge. Tamil ficou furioso e acusou o amigo de obrigá-lo a fazer aquela viagem só porque ele queria encontrar a salvação na religião, quando o certo era encontrar o dragão.
- Essa merda nunca existiu, gritou para o traidor. Você comprou aquele velho para mentir.
Kailash não respondia, só juntava as mãos e se curvava, em tom de despedida. Tamil fez então a longa viagem de volta à praia e lá ficou remoendo seu ódio enquanto olhava a água azul celeste se espraiar até o horizonte. De repente, o mar encolheu. Peixes saltavam no leito seco do mar e, misturado na areia que se descortinava em pânico, surgiu o brilho fixo de uma pequena estrela enterrada parcialmente. Tamil correu até lá. Tinha encontrado enfim o Dragão de Jade. Sabia o que significava o encolhimento do mar: o efeito funda, em que a água toma fôlego para virar uma grande onda gigante, ou várias delas. Mas não teve dúvidas: deu um safanão e saiu correndo, enquanto a água do mar se precipitava atrás dele. Tamil foi jogado contra a praia com violência e, agarrado ao seu tesouro, viu que estava aos pés de um pequeno lord, de túnica até os pés, trança atrás da cabeça raspada, chapeuzinho redondo no alto. O menino sorria.
- Encontraste meu dragãozinho, disse o garoto.
Tamil, abobalhado, entregou a jóia de vidro verde na mão do pequeno nobre, já que vislumbrava as grossas botas dos seguranças ao redor. Levantou-se e viu que toda a comitiva, com o príncipe à frente, sorria para ele.
- A maré te escangalhou todo, disse o menino, provocando gargalhada geral.
Tamil, trôpego, bobo, puxando uma perna e com o olho direito completamente tapado pela cicatriz inflamada foi seguindo aquela troupe, que a toda hora voltava a cabeça para encará-lo e sorrir. Foi a primeira vez que sorriram para Tamil.