20 de julho de 2025

SÓTÃO

 Nei Duclós 


Deveria cuidar melhor

Do acervo da poesia

Acumulado no sótão 

Das casas que abandonei

Melhorar as aparências 

Para as visitas do rei

E assim receber os prêmios

Da glória reconhecida


Mas digo não tenho tempo

De passar lustre na vida

Ainda estou na ativa

Do esforço em duro caminho

Moro na noite e no dia

E não no limbo impecável

Do aplauso em terreno limpo


Pareço até vagabundo

Mas sou apenas soldado 

E quem luta corpo a corpo

Tem a solidão mais funda

Cumprindo o roto destino

De ser último na fila


E Deus vê quem não se aplica

Em ceder sem compromisso

Com o valor sob medida

Do sótão desarrumado 


Nei Duclós

19 de julho de 2025

SEM SOSSEGO

 Nei Duclós 


Sou um entre milhares

Teu anônimo pretendente

Já não sei se o sentimento 

Virou lei de algum decreto 

Ele não dá vencimento

E não cede nem compreendo


Mas a lógica persiste

Na palavra recorrente

Que revisita teu rosto

Entre tantos monumentos 


Percorro estrofes, teu corpo 

Com a fúria dos elementos 

Esse é um amor sem sossego


Releve meu sonho, me esqueça 

Que eu volto, bruto e ardente

Nao pense que serei manso

Depois de sofrer um tempo


Nei Duclós

17 de julho de 2025

DE MANHÃ

Nei Duclós 


Eu enfrentaria um exército para te defender

Eu te daria mil beijos antes de morrer

Eu estaria ao teu lado mesmo sem saber

Se eu sobreviveria, estrela da manhã

15 de julho de 2025

ENIGMA

 Nei Duclós 


Eu estava dormindo no quarto de cima

Perto do meu irmão

Que há tempo não via

Quando veio a mãe de maneira aflita

Queria que um de nós atendesse a visita

Que batia no portão da casa vazia


Por que sonhamos coisas tão estranhas

Que ao acordar não sabemos ao certo

Quem somos nós em noite tão fria?


Acho que era dia mas não havia clima

Corria uma visão de hora tardia

Nenhuma explicação apenas enigma


Quem afinal a tantas horas insistia

Seria um sinal de que tudo está no fim?


Onde então, Providência divina

Devo me segurar no sono mais simples

Se vou despertar com a mãe que já se foi

Perto do irmão que há tempo não via?


Nei Duclós

14 de julho de 2025

POR ACASO

 Nei Duclós 


Amor é pensar em ti o tempo todo

Um lugar de onde não quero me retirar

Te chamam porque estás comigo há horas

Mas tu também não consegue ir embora


Esse convívio que é um momento sem igual

Em que, medrosos, matamos o tempo da estação 

Até que deixamos escapar uma palavra

Conversa séria sobre o que será de nós 


O clima não se desfaz, mas atingimos outro nível 

Agora que decidimos não brincar

E embarcamos em direção ao mar


Posso dizer enfim que és minha mulher

No sonho que por acaso brotou só por brotar

Sou o mesmo cara que não te merecia 

Fui escolhido pela beleza do destino


Nei Duclós

10 de julho de 2025

PALAVRA

 Nei Duclós 


Na longevidade Tolstoi descobriu que tudo era inútil

Suas posses, seus títulos, sua obra

Brigou em casa pois queria se desfazer de tudo

Tirar as vestes da sua glória


Por isso fugiu no inverno e morreu de pneumonia numa estação de trem


Rimbaud foi mais precoce 

Descobriu a mesma coisa aos 20 anos e não aos 82, como Tolstoi


O autor é só uma ferramenta dos anjos que sopram a literatura 

na redação das nuvens

É deixado de lado depois da missão cumprida

É esquecido mesmo com homenagens


Fica a palavra, única criação do Paraíso


Nei Duclós

REGRESSO

 Nei Duclós 


Remorso por não ter feito

Agora não tem mais jeito

Não conserto meus defeitos

Fico torto para sempre 


Livrei-me dos compromissos

Varri a porta da frente 

Lembro da mãe esperando

Na calçada o seu rebento 


Que desistiu dos estudos

Depois de tanto tormento 

Ela diz que não aguenta

A traição do estudante


Mas eu tinha outros planos

Abrir mão sem mais nem menos

Das ilusões da carreira


Comigo me desavim

Como dizem num poema

O pai achou muito estranho

O guri está variando


De tudo eu me arrependo 

De estudioso a vagabundo

Rolando pela sarjeta

Saindo da classe média 


Tudo passou, me convenço 

Menos o amargo regresso 

Ao sonho daquele tempo


Nei Duclós

JANGADAS

 Nei Duclós 


Posto demais. Mais pelo registro do que pela leitura.


Porque ninguém atura tanta produção. 

É a longevidade que conduz ao excesso. Ou à falta de compostura.


Não há futuro quando a literatura no lugar de fonte vira mar.

Palavras salgadas vindas de Portugal. Que aportam no Brasil depois de Cabral. 


Cais da perdição. Jangadas de não voltar.


Nei Duclós

ENFIM

 Nei Duclós 


O ser é o nada

O verbo ser

O nada a ver


Dizer não sou

Quando és 

Nada aos pés 


Surta solidão 

Corso de ilusão 

Andor de procissão 


Um poema é o mínimo

Para sobreviver

Enfim criar amor


Nei Duclós

7 de julho de 2025

OUVIDORIA

 Nei Duclós 


Acho que Deus se aborrece

De ouvir sempre a mesma ladainha

Tantas vezes repetida

Sem que a reza revele

O poder de uma oração


Preciso encontrar as palavras

Que me aproximem do Seu ouvido 

Onde buscá-las 

Cercadas pelo cotidiano entulho?


Peço socorro a Maria

Que todo santo dia

Nos assiste

Com paciência infinita


Basta escutar os anjos, ela me diz

Os que chamam de inspiração

E são emissários do Espírito 


Deus escuta

Mas poesia Ele presta mais atenção 


Nei Duclós

6 de julho de 2025

AURORA

 Nei Duclós 


Por ter escrito tudo

Amargo esta noite o abandono do poema

Cruzei a linha de chegada

E revisito o já dito com reservas


Exagerei na dose da vocação precoce

Que na tardia idade revelou as sobras

Do verso de improviso, do texto sem retoque


Muitos não concordam e selecionam estrofes

Que cometi jovem no calor da hora


Deveria, no capricho, me aprofundar no ofício 

Mas tudo veio fácil como um vento forte


Agora não sei o que dizer, em plena aurora

Talvez o sol, gigantesco sábio 

Queime o remorso e revele a obra

Tudo o que fiz com sangue nas mãos e água nos olhos

Pobre coração ainda intacto


Nei Duclós

NOBREZA

 Nei Duclós 


Meu luxo é sobreviver 

Chegar bem no fim do mês 

Para então recomeçar 

Sustentado pelo ar 

Muitas contas para pagar 

Eu dependo de você 


Sem força de levantar

Rima pobre popular

Ainda tudo por fazer

O livro parei de ler

Amor que é bom só virtual

Um vizinho põe o som


Meu luxo é teu respirar 

Janelas de par em par

Futuro ficou para trás 

Eu não tenho mais lugar

O país caiu de vez

Mas a nobreza é ter voz

Canto para não morrer


Nei Duclós

4 de julho de 2025

SOMBRA

 Nei Duclós 


Este que você vê não sou mais eu

O que fui sempre serei

Guarde o que o tempo não comeu

Esqueça no que me transformei

Essa sombra de mim, que já fui rei


Prefiro preservar dias de amor

Quando fui teu


Nei Duclós

UMA FLOR

 Nei Duclós 


Que haja calor no inverno

para suportarmos o ar polar


E vento sul antes do sufoco do verão


E o friozinho do outono adoce os frutos da estação


E a primavera traga teu perfume

Feminino amor


Nei Duclós

CONJUGAÇÃO

 Nei Duclós 


Não adianta querer se você não é 

Não adianta ser se você não quer 

Não adianta ver se não tiver fé 

Não adianta ter se nada houver

Só tem que nadar quando não dá pé 

Quando for rezar pense no amanhã 

Cada verso faz o teu navegar 

Caia se essa força não te socorrer 

Volte a levantar todo amanhecer


Nei Duclós

3 de julho de 2025

PERDIDA

 Nei Duclós 


Eu não preciso de tempo 

Eu não preciso de amor

Podem dizer que sou lento

Não mais importa o que sou


A não ser que marques encontro

Um café ou apartamento 

Que me apresse e nunca te perca

Desta vez, perdida para sempre


Nei Duclós

1 de julho de 2025

ABERTA

 Nei Duclós 


Estrelas da minha fantasia

Fazem rodízio no paraíso

onde vivo

Dispondo as peças do xadrez de sonhos 

Sou o peão e o rei é o tempo

Que escorre pelos dedos longos


Poderia tocar piano minha flor aberta

Debaixo das cobertas

Cabem todas as teclas

Fique perto


Nei Duclós

28 de junho de 2025

QUATRO ESTAÇÕES

 Nei Duclós 


No inverno ficamos mais velhos

A idade não avança na primavera 

Depois o verão queima todas as células

Mas chega o outono e você se recupera


Não que remoce

Ou se acostume com a perda 

Mas o tempo repõe o que mais queres

Tua fome de amor por uma incerta princesa


Nei Duclós

CORRERIA

 Nei Duclós 


Admiro quem se movimenta

Anda corre pula dança 

Eu também estive no front

Sem tanta intensidade, só para o gasto

Hoje observo os contemporâneos 


No fundo, passei a maior parte do tempo 

Sem ter o que fazer com meu corpo

Sonhei, mas isso todos são capazes

Fiquei, quando me diziam vamos


Ao me verem deitado repassavam encargos

Que eu cumpria a caro custo

O que me empolgava eram os estudos 

E os versos na máquina Smith Corona


A literatura foi minha maratona


Nei Duclós

27 de junho de 2025

JUNTOS

 Nei Duclós 


Às vezes falo sozinho

Rompo o silêncio, por certo

  É quando digo a verdade

E não quero que contestem


Já me basta quem tece

Armadilhas da conversa 

Prefiro ser o que penso 

E que ninguém esclarece


Assim mesmo tem assunto

Que eu não consigo consenso

Peço a palavra insurgente

E brigo por um aparte


Já quiseram me internar

Mas fácil me recomponho

 É só uma trova, paisano

Segue a roda e estamos juntos 


Nei Duclós

26 de junho de 2025

MADEIRA

 Nei Duclós 


Falo na madrugada para o nada

Ruas vazias, janelas fechadas

Inútil boemia de bêbada sorte

Sou o último poeta desse pobre porre


Falo lesado pelo destino incerto

Quando veio minha vez tudo estava morto

Quis saber do mistério mas ele também se cala


Resta a ilusão de que uma hora amanhece

Aí quem sabe a vida acontece

E desperta o que tinha de múltiplas vozes

Enterradas no peito de madeira nobre


Nei Duclós

25 de junho de 2025

PERDA

 Nei Duclós 


Já não te enxergo mais, corpo do avesso

De tão exposta perdeste a forma 

Eras cascata em tarde no outono

Hoje és a flor escondida no ermo


Aperto os olhos e nada vejo

Apenas ouço teu passo de seda

Assediando o poema, que cego te perde


Nei Duclós

24 de junho de 2025

INVERNO

 Nei Duclós 


Tua lembrança aquece o quarto frio

Na solidão o inverno é o coração 

Sem esperança de um dia retornar

À dança de salão onde fui te namorar


A memória é uma estação de esqui  

Lá eu deslizo para bem longe de ti

Aceno com meu gorro de lã gris

Mas a neve te leva para não me ver


Atiço a brasa que está quase por morrer

A coberta gasta não consegue segurar

O telefone tinha o hábito de tocar 

Mas os teus dedos escorregam para o mar


Nei Duclós

22 de junho de 2025

VALOR

 Nei Duclós 


Toda obra joguei na calçada 

O tempo devorou seu valor

Versos sem apoio

Poemas furta cor

E tu distante porque viste

No primeiro instante 

O que eu exibia fingindo amor


Nei Duclós

20 de junho de 2025

DEMORA

 Nei Duclós 


Fiquei preocupado hoje

Custou a amanhecer

Pensei: e se a noite decidir ficar?

Não a noite de estrelas e luar

Ou a nublada com sua dose invernal

Mas a noite que se assenhora da manhã

E demora em treva temporã?


Essa escuridão sem a origem crepuscular

Invasão que devora o dia ainda no ventre

Assassina da promessa da claridade urgente

Estação do amor conosco sempre 


Temos fome de café com pão 

Que é o sol, nossa ração diária


Não inventa, poesia, de nos assustar 

Não tenho saúde para suportar a dor

De esperar a alvorada antes de morrer


Nei Duclós

17 de junho de 2025

OCULTA

 Nei Duclós 


O grande amor é um relâmpago 

Ilumina por um segundo

Depois te joga no escuro 


Não tem vocação de ficar junto

Não vive para repetir o escândalo

De aparecer de repente com estrago


Sua meta é  a fuga

Não se responsabiliza pelo que abandona

Acha muito a sensação que dá de graça 

Por isso é escassa, se vinga

De sua natureza bruta


Volta amor, dirás sozinho

Enquanto ela ri oculta em tua fantasia 


Nei Duclós

CREPÚSCULO

 Nei Duclós 


Já escrevi sobre tudo 

Praia deserta, calça de veludo 

Amor partido, perda de rumo


Sobrevivi, poeta de água doce 

Veterano precoce

Porre de aventura


Sei que perdi, queda no abismo

Mas vitória é para os fracos, gozo iludido

Vale a lucidez, crepúsculo de vidro


Nei Duclós

10 de junho de 2025

VIDRO

 Nei Duclós 


Não lembro deste corpo de vidro

Que quebra ao primeiro vento

Este poema partido

Em trens de longo trajeto


Não lembro de ter esquecido

O momento mais ferido

Herança no eterno presente

A pulsar como um espinho


Sou o que fica para sempre 

Pastor de estranho rebanho

Na montanha bebo a água

Que forma o esquecimento 


Nei Duclós

2 de junho de 2025

RETORNO

 Nei Duclós 


Não tenho mais o retorno

Não perguntam, nem respondem

Continuam ocupados

Sou tratado como estranho

Celebram, enquanto me excluem

Desse bizarro mercado


Já fiz parte dessa obra

Quando me dava importância

Agora chegou minha vez

De ser cachorro sarnento


Cumprimento para o vazio

Nem mesmo o vento me acena 

E se acaso apareço 

Está vivo, se surpreendem

Num alvoroço de perdas


Nunca fui muito chegado

Recolhido ao próprio canto

Fui alguém quando chamado

Mas nunca fiz muito esforço


Por isso passo ao largo

Fingindo que não me importo

Mas isso dói em silêncio 

De um veterano da guerra


Hoje quem bate na porta

São as lembranças de um tempo

Que não me sai da memória 

Vivi porque Deus permite

Venci porque fui História

Não mereço ter a sorte

Do bem querer que acompanha

Quem é antigo e apanha

Da vida que não dá trégua 


Nei Duclós

1 de junho de 2025

DUAS ALMAS

 Nei Duclós 


Procuras por poesia 

Por isso evitas meus insultos

Mesmo que não busques, ao ficar decides

compreender o verso elaborado bruto

Que gera ametista, tua leitura


Assim vamos, duas almas perdidas

Uma que verte areia na paisagem dos sentidos

Outra que extrai água de camadas profundas

Tua epifania


 Nei Duclós