6 de maio de 2024

O PAPAGAIO AZUL

 Nei Duclós 


Estranhei a presença de um papagaio entre os animais resgatados na enchente. Era um exemplar único entre gatos e cachorros apavorados pela solidão e a morte iminente. Já o papagaio mantinha a postura de um idoso sábio,  conformado com a situação  coletiva, talvez por não esperar mais nada ou pela dor da perda de   contato com seus donos.


Estranhei por ser ave solta e que em tese poderia voar, dispensando o auxílio prestimoso dos voluntários  civis, que improvisaram equipes de heroísmo diante da omissão da farda.


Sedentário e mudo, havia o agravante de ser azul,  contrariando a tradição da espécie, verde, que tem indivíduos chamados de Louro.


No embalo da canoa precária, o papagaio azul era a imagem da impotência em meio à tragédia. Não tinha função nenhuma, pois não servia mais de adorno proibido por ser silvestre, nem divertia as visitas dizendo nome feio. Não dispunha de um ombro de pirata para fingir poder  e também não era um clássico papagaio fanho de anedota.


Era uma criatura deslocada, como nós. Não pertencia à  natureza, da qual nunca fez parte por ter se originado no cativeiro. Não tinha uma casa, levada pelas águas. Era só um papagaio azul rumo a um abrigo, onde continuaria só,  como um náufrago que se pergunta porque continuava vivo. É possível que tenha escapado apenas para ser capturado pela crônica de um escritor veterano e bizarro, que também permanece respirando, engolindo uma quantidade enorme de palavrões.


Nei Duclós

Um comentário:

  1. Anônimo7:43 PM

    Ótimo texto, porém pecou em dizer que houve omissão da farda. A situação é de que não há o aparato necessário esperado, em decorrência do plano de sucatear as forças de segurança.

    Mas lembre-se: Bombeiros também usam farda.

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