28 de novembro de 2025

LANCE

Nei Duclós Deus ajuda quem toma jeito Combina sonho com suor, nuvem com poeira, amor com granito Pólos opostos de obscura geografia Que escapa aos olhos mas não ao sentimento Modo de sobreviver em terra de conflitos Guerra sem descanso, paz feita no grito Deus também ajuda quem se dá o luxo Na fuga pelo gosto da aventura Não há deserto se o jejum ampara E resiste ao assédio do mal pelos caminhos Como posso saber se não tenho alcance? Só a poesia não garante Mas tenho um trunfo, o sopro dos anjos Eles reportam o que pega neste lance Nei Duclós

23 de novembro de 2025

ARTE AMIGA

Nei Duclós Sou artista de rua Produzo sinfonias Com letras e sílabas E algumas canções em parcerias Depois passo o chapéu para quem vê a arte amiga Não escolho esquina Estou onde existe vida Todo o tempo do mundo Cabe na poesia Nei Duclós

PLUMAS

Nei Duclós Vida é perda Aos poucos deixamos o que fomos inteiros Cascas acumuladas pelos anos Jazem inúteis pelo caminho Ficamos leves como passarinhos De alpiste colhido no tempo presente Voamos em direção ao paraíso Seres emplumados de perfil divino Nei Duclós

19 de novembro de 2025

DOMÍNIO

Nei Duclós Meu domínio da linguagem É quando a linguagem me domina Não que me sujeite Aos seus limites Mas por sintonia Música espiritual e física São mãos postas Em direção à fonte Acima das nuvens E que jorra entre nós Cristalina Nei Duclós

CONFRONTO

Nei Duclós Procurei a palavra no fundo Expulsa pelo tiroteio Para iluminar a superfície Lisa por fora e rota por dentro Encontrei-a de coração batendo Ainda viva com tanto esforço Abandone o poema, me disse Algo mais forte está te chamando É uma voz de comando Soprada pelo mar onde moram anjos Aprume-se na solidão, destino humano Arte é confronto, aperte o passo Plena doçura da alma em pânico Nei Duclós

IMPLICANTES

Nei Duclós Ventos fortes são sinceros, devastam tudo o que vem pela frente. Usam armas como os tornados e contraem-se em espirais gigantescas. Mas os ventos fracos são só implicantes. Ao contário dos regulares alisios, ventos médios ordenados para a boa navegação a vela, os fracos adoram fechar as venezianas que insistimos em mantê-las abertas. São sorrateiros e se divertem derrubando coisas valiosas das mesas e prateleiras. Despenteiam a vaidade dos cabelos, gelados assombram corredores escuros e apagam ou atiçam o fogo quando querem prejudicar alguém. Os objetos também são implicantes. Roupas antigas perseguem as novas se enredando na máquina de lavar. Meias somem no buraco negro. Chinelos perdem seu par, adotam manchas impossíveis de tirar, eletrodomésticos pifam no dia seguinte ao prazo de validade. O que nos rodeia adquire hábitos humanos. Ou talvez seja apenas uma implicância pessoal. Nei Duclós

ORAÇÃO

Nei Duclós A cura são as palavras Que encontras no sofrimento O corpo é só um sintoma A alma adoece primeiro A vida é puro tormento Se a reza não for de fé A saúde é um privilégio Que a forca do amor comanda Valei-nos Nossa Senhora No colo o Jesus menino Que a devoção nos devolva os tesouros do destino Nei Duclós

SELVA ESCURA

Néi Duclós Minha poesia existe enquanto eu ficar vivo Depois de partir ela vai para o limbo Lá onde nem os anjos lêem o que me sopraram no ouvido Tanto escrito para acabar no exílio Não é necessário compor uma obra Que jaz esquecida em qualquer caminho A não ser que eu cante sem esperar auxílio Dos contemporâneos ou pósteros filhos Cante anônimo como os passarinhos Misturados às folhas de uma selva virgem Intocada pela vaidade e o brilho Selva escura de um remoto destino Nei Duclós

VULCÃO

Nei Duclós Terceira idade é quando tudo envelhece junto contigo Os artistas de tantos momentos arrastam as correntes do tempo amarradas aos pés Os amigos que sobreviveram não mais te reconhecem Os fatos fundamentais tornaram-se obsoletos com as novas guerras E as paisagens conhecidas perderam o sentido A vida recolhe a sucata dos dias E o desafio é manter-se ativo Como a ameaça de um vulcão extinto Que pode voltar a respirar lava na indiferente superfície Nei Duclós