22 de janeiro de 2026

EXILADA

Nei Duclós Perdeste a pose de espetáculo Que te fez famosa nas redes sociais E te recolheste aos íntimos defeitos Um sinal de sobrepeso no corpo outrora tão admirado Sardas que nao apareciam O cabelo rebelde que dava trabalho para mantê-lo dócil e sereno Andas descalça em qualquer piso Dormes dobrando os joelhos E nao atendes a porta ou o telefone Estas exilada em ti mesmo Nei Duclos

CANTEIRO

Nei Duclós Apodrece em mim o tempo já vivido Brotos nascem no adubo ao desabrigo São palavras, cisco de memórias Jardim implume na porta sem trinco Poemas imperfeitos, vozes de vidro Mandalas de catedrais perdidas Faço o balanço do secreto circo Submerso acervo onde mal respiro Luto contra o remorso, fogo amigo Que me atinge no final da trilha Nei Duclós

BATEIA

Nei Duclós Domino o verbo com mão de ferro Para torná-lo dúctil, boi que não berra E carrega a lua aos endereços do mar e da relva Fico na boleia manobro a bateia Areia de sal escapa ao relento Tudo é invenção do arisco poema Faço o que me dá na telha Nei Duclós

11 de janeiro de 2026

PULO

Nei Duclós Todo mundo vê mas ninguém sabe O que escondes tanto fora do vestido Com tuas toalhas invisíveis Tua fina estampa na hora de dormir Aviso que já não aguento Vou fazer de conta que não aprendo E falar contigo a descoberto Pula em mim, feminina flor que cultivo no deserto Nei Duclós

EM FALSO

Nei Duclós Adeus antes do primeiro beijo Namoro inviável apesar das vontades Perde o prazer e a curiosidade Como seria esse abraço que passa ao largo? Para ti tanto faz, sedutora bárbara Só eu lamento a chance que foi fora Paciência, já é costume viver assim em falso Nei Duclós

INVASÃO

Nei Duclós Se não houvesse essa barreira de vidro Essa tela digital que nos confina A uma solidão que não tem cura Eu poria a mão em teu abrigo Para sentires úmida as paredes da gruta Onde cultivas tesão, fonte de suspiros Em que sou malvado, visitante bruto E tu, flor que medra na pedra num fundo infinito Nei Duclós