Blog de Nei Duclós. Jornalismo. Poesia. Literatura. Televisão. Cinema. Crítica. Livros. Cultura. Política. Esportes. História.
15 de março de 2026
CICLO
Nei Duclós
Sobrevivemos
Para contar a história
E descobrimos
Que ela não tem mais valor
Tivemos que reinventá-la
Como se fosse a verdade
Nela sumimos desaparecemos
Para entender
O que fomos
Nei Duclós
13 de março de 2026
TABULEIRO
Nei Duclós
No jogo de palavras saimos perdendo
Os outros sempre vencem mudando as regras
Ficamos empacados em cada momento
O que era vantagem vira retrocesso
Por isso não escrevo apenas observo
A lei das mudanças que roubam e ferem
Caio em armadilhas mas na hora me levanto
Virei especialista no movimento perverso
Saio convicto de que ninguém me pega
Tudo o que eu digo um anjo me sopra
Ele me avisa do perigo iminente
Então brinco no verso em primeira instância
Qualquer coisa derrubo o tabuleiro esperto
Nei Duclós
ANTES DO SOL
Nei Duclós
Os passarinhos se manifestam quando ainda está escuro
É a certeza do amanhecer que os faz despertar
Assim também o poema
Que na treva cultiva o seu cantar
Nei Duclós
10 de março de 2026
JÁ VOLTO
Nei Duclós
Não importa o momento do desfecho
Sempre estarás no meio de um projeto
Com prazo de entrega, urgente
Como se ainda houvesse tempo
Poderias te dar por satisfeito
Sem nada a fazer , bem quieto
Aguardando os acontecimentos
Mas é o hábito, promessa da vida em sua miragem
Assim ocupado serás chamado
Já volto, dirás para a eternidade
Nei Duclós
9 de março de 2026
ID
Nei Duclós
Com nada me identifico
Origem formação abismo
Com nenhum país com nenhuma língua
Também não me enquadro onde forasteiros cismam
Esse cânone paralelo de conflitos
Não estou fora do mundo físico
Apenas virei verbo, vivo
Num poema sendo escrito
Nei Duclós
6 de março de 2026
GOTA DE SANGUE
Nei Duclós
Só Deus para aprontar essa
No cosmo infinito sermos mínimos
Nas viagens estelares que ninguém assiste
Nos mares de sal uma trilha de espuma
Teu corpo líquido no meu olho de vidro
No coração de pedra onde medra o espírito
Na terra bruta o amor persiste
Brinde no sonho, copo de vinho
Água salobra em puro filtro
Sopro de luz onde vivo escuro
Só a poesia se mantém firme
O resto desanda lençol de linho
Gota de sangue onde nada havia
Nei Duclós
5 de março de 2026
ESTOURO
Nei Duclós
Começo pela boca
Depois vem o estouro
Com tanto a descobrir
Íntima vida louca
Que não quero dividir
A não ser contigo
Pele de açúcar
Cheiro de cravo e jasmim
Canteiro de corpo justo
Sardas, curvas e nuvens
Olhar de diamante e marfim
Pernas para que te pego
Rosto em ofegante respiro
Diga que tua realeza
Pousou em meu pobre navio
Trilha de gosto à deriva
Porque não és seletiva
Somas o que já te perdi
Nei Duclós
26 de fevereiro de 2026
PAREDES VAZIAS
Nei Duclós
Costumo ocultar minhas vitórias
Um diploma, aquela medalha, registros de eventos e pessoas notórias
que prestaram atenção em mim algumas vezes
Não é vergonha, é um hábito
Prefiro sempre eliminar qualquer sinal de vantagens
Para em cada momento começar do zero
Como veterano que vira anônimo recruta
Nas guerras onde sobrevivo e às vezes me destaco
Por isso minha casa não tem molduras na parede
Nem mimos trazidos do Oriente
ou fotos onde me encontro com famosos
Assim como as paredes minha casa agora está vazia
A mulher que reparto tanta luta
Está em outro lugar onde se recupera
Eu faço comida e cuido da roupa
E durmo sem fazer balanço da vida
Apenas me viro para o outro lado
No tempo escuro
Nei Duclós
12 de fevereiro de 2026
RAINHA
Nei Duclós
Chamo de rainha não por vício
De sedutor barato a distribuir afetos
A inventar hierarquias no oportunismo
E querer um pedaço do que tens por mérito
Chamo de rainha, mas por contingência
Não há como escapar do reconhecimento
Destaque natural de uma postura rara
Imperas com teu porte e biografia
Minha paixão precoce quando ocupaste o trono
E eu ficava ao longe e só por teimosia
Fantasiava o namoro que nunca teve chance
Mas o amor é real, doce bailarina
Não perdi o toque do sentimento
Já foi tormento hoje é epifania
Mulher que soube me ver por dentro
Pois se estive distante você chegou mais perto
E disse poeta te amo sem que saibas
Uma rainha só existe se alguém persiste
Na mais nobre das artes, a poesia
Nei Duclós
22 de janeiro de 2026
EXILADA
Nei Duclós
Perdeste a pose de espetáculo
Que te fez famosa nas redes sociais
E te recolheste aos íntimos defeitos
Um sinal de sobrepeso no corpo outrora tão admirado
Sardas que nao apareciam
O cabelo rebelde que dava trabalho para mantê-lo dócil e sereno
Andas descalça em qualquer piso
Dormes dobrando os joelhos
E nao atendes a porta ou o telefone
Estas exilada em ti mesmo
Nei Duclos
CANTEIRO
Nei Duclós
Apodrece em mim o tempo já vivido
Brotos nascem no adubo ao desabrigo
São palavras, cisco de memórias
Jardim implume na porta sem trinco
Poemas imperfeitos, vozes de vidro
Mandalas de catedrais perdidas
Faço o balanço do secreto circo
Submerso acervo onde mal respiro
Luto contra o remorso, fogo amigo
Que me atinge no final da trilha
Nei Duclós
BATEIA
Nei Duclós
Domino o verbo com mão de ferro
Para torná-lo dúctil, boi que não berra
E carrega a lua aos endereços do mar e da relva
Fico na boleia manobro a bateia
Areia de sal escapa ao relento
Tudo é invenção do arisco poema
Faço o que me dá na telha
Nei Duclós
11 de janeiro de 2026
PULO
Nei Duclós
Todo mundo vê mas ninguém sabe
O que escondes tanto fora do vestido
Com tuas toalhas invisíveis
Tua fina estampa na hora de dormir
Aviso que já não aguento
Vou fazer de conta que não aprendo
E falar contigo a descoberto
Pula em mim, feminina flor que cultivo no deserto
Nei Duclós
EM FALSO
Nei Duclós
Adeus antes do primeiro beijo
Namoro inviável apesar das vontades
Perde o prazer e a curiosidade
Como seria esse abraço que passa ao largo?
Para ti tanto faz, sedutora bárbara
Só eu lamento a chance que foi fora
Paciência, já é costume viver assim em falso
Nei Duclós
INVASÃO
Nei Duclós
Se não houvesse essa barreira de vidro
Essa tela digital que nos confina
A uma solidão que não tem cura
Eu poria a mão em teu abrigo
Para sentires úmida as paredes da gruta
Onde cultivas tesão, fonte de suspiros
Em que sou malvado, visitante bruto
E tu, flor que medra na pedra num fundo infinito
Nei Duclós
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