15 de maio de 2022

PEDRAS

 Nei Duclós 


Tudo mudou. 

Menos nós,

pedras  lisas na beira do rio do tempo 


Nas enchentes, peixes e sereias  nos visitam

Passando suas linguas furta-cor

Em nossa pele de alabastro


Depois brilhamos ao sol

Aguardando os pés das moças do subúrbio 

 


5 de maio de 2022

Morir

 Nei Duclós


Se puede morir quantas veces  se quiera

Cuando se esta vivo,  por motivo qualquiera

En las canciones o la literatura

En la mesa de bar o en amores perdidos


Pero siempre habra la  vantaja

de tales emociones salir vivo


Eso no sirve si la muerte misma

Dale su mortal golpe en la vida

No se puede llorar como se llora

Antes de un café 


No se puede morir sin vivir el peligro

De la pura muerte    

De la muerte misma


APOCALIPSE

  Nei Duclós 


Naquele tempo a terra era plana

Forma  necessária para sustentar os gigantes

Que eram a imagem e semelhança de Deus


Os gigantes viviam mil anos

Como revela a  Bíblia sobre a idade de Adão 

Tinham tempo para formatar montanhas e deslizar cachoeiras eternas em pedras lisas para os banhistas

Fizeram templos e monumentos

Pirâmides e esfinges


Tinham tanto poder que desafiaram o Criador

Construindo a torre de Babel, o Hmalaia 


Por isso foram destruídos

E substituídos por nós 

Que moramos numa esfera

Para não nos sentir tão seguros


REATAR

 Nei Duclós 


É prudente o passo que reatamos

Ainda não é laço, mas lasseou a ruptura

Azeitar o contorno de ser mais próximo

Contornar a herança deste exilio


Não repetir os erros, baixar a guarda

Lembrar o leve toque entre os dedos

Único vínculo que não é um fardo


Servir de ponte quando a dor inunda

Passear no campo, com os personagens

deste oficio insano, a literatura


Farejar a flor que morre no crepúsculo

Dar-se as mãos, sonhando com o futuro


4 de maio de 2022

GÊNESIS

 Nei Duclós 


Depois de uma cerveja Deus criou o mundo

Começou com o bar e fez a rua

O bairro suspeito, o casario decente

O centro com igreja e tudo


Quando o mundo ficou pronto  ele descanso num banco de praça

Que tinha esquecido de criar

Mas os anjos cuidaram de colocar canteiros

E  estátuas bebedouro balanço gangorra e um espaço de areia para crianças 


Jamais ocorrera a Deus, boêmio 

Que o mundo teria praça

Para  saudar o sol 

E curar a ressaca da cerveja



1 de maio de 2022

PROPOSTA

 Nei Duclós 


Propor  charadas para capturar a essência do poema

Não passa de medo de expor-se

Diante da nudez da palavra

E sentir vergonha alheia como se ela fosse tua amante feia


Não chute a palavra 

Que ela é  feita de pedra

E a  única coisa capaz de decifarr os segredos da tua vanguarda

Que é celebrada como se não precisassem da letra e de todo o impulso silábico



30 de abril de 2022

LUZ

 Nei Duclós 


Confinado  no tempo e  no espaço 

Por idade,  complicações, cansaço

Não abro mão da  claridade 

Minha poção de   cura, a cultura

Que cultivo por tradição e liberdade 


Por amor, eu diria, por força de hábito 

O coração é  fogo, iluminação 

Contra a escuridão  covarde


28 de abril de 2022

PASSAGEM

 Nei Duclós 


Por aqui passou o poema

Como vassoura de palha

Deixou estrias no piso

Forçou a porta de entrada


Veio de longe o poema

Do tempo da esferográfica 

Da praia em verões da lata

Das mãos mendigas da praça 

Cadernos espiralados

E de sonhos 

Que já não restam


Passou por aqui, poucas marcas

Revelam sua passagem 

A não ser alguns garranchos 

Nas paredes da tapera 


L

27 de abril de 2022

ERROS

 Nei Duclós 


Só a mim diz respeito

Os erros que cometi

E não foram poucos


Talvez só eu lembre

O Mal com que atingi

Pessoas próximas e distantes

Essa  coleção de desacertos

Que desenham meus remendos


Mas quando me encontro

Com algum contemporaneo

Passamos a borracha

Amores feridos humanos

Memórias flexíveis

Que cabem em nosso vasto coração de abandonos



CEDO

 Nei Duclós 


Faço tudo cedo

Café banho poema 

Não tenho pressa nem medo

Apenas cumpro a agenda 

Escrita pela experiência 


Quem for mais moço  ompreendo

Deixar tudo por fazer

Já fui assim, mas confesso

Que prefiro ganhar tempo


Para estar pronto, liberto 

E aguardar que a fortuna 

Para entrar peça  licença 

E note no meu asseio

O dia acertando o passo 



MAÇÃ

 Nei Duclós 


Provo a maçã de natural promessa

Devo confiar até  na casca

Não há veneno apenas fruta


Imagino  a safra

Até  chegar à  minha mesa

Águas de intensa  clareza

Molham as  macieiras

Mãos de aprendizes

Colhem no ar a doce e vermelha porção da natureza


Mordo a polpa mais perfeita

Sou o alvo dessa prece

Que a terra entre estações inventa


Nei Duclós

AS CARTAS

  Nei Duclós 


Hora de levantar acampamento

Neste .momento de guerra 

Quem dera fosse uma pescaria 

Em que juntar as tralhas era  volar para casa

Com as lições de desconforto do pai

Ferindo os pés

Enquanto  nos dirigiamos para as mãos da mãe


Agora é   batalha

Os pais se foram junto com o País. 

Eu faço a mochila juntando as cartas do meu camarada para a família 

Não há  correio no front

E um tiro selou seu destino

Carreguei-o até a beira deste rio

E sepultei-o entre as pedras 


Se eu sobreviver

Serei carteiro de um herói 

Recebido com lágrimas

Pelos que perderam um filho

Nos  confins da pátria e da memória 


Nei Duclós

19 de abril de 2022

DESPERTAR

Nei Duclós 


Se o ódio por acaso for dormir não o desperte de manhã. Deixe-o ficar lá até ele esquecer de levantar 


Mas desperte  o amor e leve-o para ver o mar


SARJETA

Nei Duclós 


Ficamos sós, eu e o poema

Ofício sem poder no esquema

Ainda riem do que acham inútil 

O varso e o versejador caduco

Ambos sentados na sarjeta suja


Ficamos sós, por nossa culpa

E a lua, sem misericórdia

Vem fazer parte da comédia 

Para ela tanto faz, ilusão ou crime

Poesia é vício da solidão 

Musa distante que o diga


ÍNTIMO JARDIM

 Nei Duclós 


O amor é um jardim sem dono

Que alguém plantou e foi embora

Ele continua produzindo flores

Íntimo da chuva e da terra inóspita


A primavera vem em seu socorro 

Quando o inverno vence a estação dos brotos 

E o clima morto acha que está feito 

O corpo do jardim já decomposto


Ressurge então o amor, supremo rosto

De pétalas azuis por entre o barro

Sentimos de longe, remota montanha

Mas ele está dentro, e diz teu nome

Batismo de seda contra o abandono



17 de abril de 2022

ENCALHE

 Nei Duclós 


Não diga que sou tirano

Porque travo a língua com palavras  pobres

O lixo que recolho serve para o sonho 

Não deixo nada fora no ofício medonho 


É  missão de sacerdote o poeta que sofre

VendO o verbo atirado sem nada que o apanhe

Por isso reza enquanto anima o espólio 

O encalhe das falas e dos relatórios 


Tenho o hábito dos santos apesar de humano

Vivo no pecado das estrofes sem uso

Mas os anjos gostam e devolvem num sopro 

Maravilhosa e inéditos cantos gregorianos


EIXO

 Nei Duclós 


Que coisa boa quando consentes

Que eu toque teu corpo e encontre um  pouso

No eixo que vai do rosto até o ventre 

Teus seios de fogo tua língua  violenta



VONTADE

  Nei Duclós 


Acordo com a poesia

Que dorme comigo

E traz consigo teu perfume físico

Essa rede infinita de vontade e gozo

Essa graça de fêmea,  essa arte  cativa



7 de abril de 2022

A DOR

 Nei Duclós 


Por que sentir dor

Se a dor já cumpriu sua missão de aviso

E em vez de retirar-se no tratamento

Estabeleceu--se no comércio do improviso

E se diverte enquanto morro vivo


É armadilha  contar  com instrumentos

Como a dor, mísero gatilho 

O que parece prático é  oportunismo

Do Mal, esse pacto bandido


Sinto a xor, que   já me tem  como destino

Ao invenlá-la

Alguém disse cace o bicho

Que fez da poesia  seu casulo

Explorem seu amor às letras

E extraiam pelo menos uma estrofe 

Que célebre a dor, sua consorte

No desconforto da pior idade


DANÇA

 Nei Duclós 


Fico extático diante do teu corpo em movimento

Apostas numa dança na varanda escassa do apartamento

Que se despeja sobre meu olhar

O som é qualquer

Importa que teu vestido escorrega prometendo o que não ouso dizer

É de manhã 

Chove o desejo nessa nuvem que nos condena

Ao anônimo abraço irreal 

Sem futuro

Mas só nosso

Ninfa suburbana

JACÓ E RACHEL

Nei Duclós 


Temeroso de perder a noiva prometida

Por um erro de cálculo Ou artimanha

De um sogro idoso que  continha

Como bem mais valioso, a bela filha

Jacó submeteu se ao novo ciclo

Achando seu prêmio garantido


Mas Labão vendeu Rachel às escondidas

E empurrava Lia, a moça bruta


Destruido ao descobrir o fato  novo

Jacó não desistiu, fez se de bobo

E decidiu  arquitetar o astuto plano


Fingiu aceitar a  caçula  mas  de olho

Na primogênita já  casada com outro

E quando todos dormiam despertou o fogo

Para que o  crime fosse o amor e não o ciúme



3 de abril de 2022

SOLDADA

 Nei Duclós 


Esquecida nos relatórios de caserna

Fez a guerra sem vestir o uniforme

Balas  na saia

Ombros de fuzis

Bolsa  com bisturi e mertiolate


Atiradora anônima ,  enfermeira do caos, carreteira em panelas de ferro


Eram tempos heroicos, mulheres que não batiam continencia

Voltavam exaustas, sem soldo, viúvas 

E nas casas preparavam a paz


Escondiam cicatrizes por baixo do pano

Sem jamais amaldicoar a Pátria 

Chão que acoolhe o sangue da família



31 de março de 2022

VESTIGIOS

 Nei Duclós 


As realidades que  vivi em momentos  concretos

Parecem hoje fantasia

Custo a acreditar no que passou 

Neste presente  bizarro

Em que a prosa afasta a poesia


Não transporto a  carga de amor

Daqueles dias

Sou um Quixote que  voltou para  casa

E deixou pistas

Os livros que mal ou bem

Mantem viva

A memoria ao redor do fogo 

Doce ferida



27 de março de 2022

MOSTRAR

 Nei Duclós 


Exponho cicatrizes, não por gosto

Para atrair atenção, me fazer  de  bobo

Ser o que não sou, um saltimbanco

Cromediante da dor, sujeito estranho


Exponho cicatrizes, Deus está vendo

Para repor a verdade onde me encontro

Assim saberás de mim, doce viajante

Que me queres ao vivo e não sabes onde

Está teu amigo De corpo presente


Conhecendo as fdridas seremos humanos

E não iludidos em máscaras de pano

Lúcidos como as manhãs de outono

Que mostram os moços e os veteranos

A viver  com graça as agruras do tempo


25 de março de 2022

PERIGOS

 Nei Duclós 


Em qualquer situação eu poderia ter partido

Quando cortei o braço na janela de  vdro

Ou quebrei o pulso e bati o queixo

Ou mesmo na madrugada correndo perigo

Na inundação de tantos dilúvios

No elevador que perdeu o ritmo

Em acampamentos entre desconhecidos

Nos assaltos em casa ou na rua

Ou nas inúmeras cirurgias


Mas em toda ocasião contei com Deus menino

Com a proteção da Mãe Santíssima

E com o arrimo da família

Que me deixaram tranquilo 

Enquanto a guerra corria solta pelas esquinas

E os insultos dominavam os espiritos



OUTONO

 Nei Duclós 


Outono  chega, mesmo que o verão,  irmão  mais moço 

Espiche a estação do sufoco 

E torne tardio o clima doce

O frio  que nos liberta do calorão em pele e osso


Outono é  o  coração do ano

Sua pulsação, seu abandono

Encontro que vira adeus

Janela de trem em cais do porto 


É  quando vens, no colo do sonho

Braço de mim, saída de banho

A dormir  comigo, depois do tombo

Da fruta que  cai ao desistir da planta que a sustenta

E se aninha em fogo brando 



21 de março de 2022

APRENDER

   Nei Duclós 


Tudo destruí com minha pata de ganso

Fiz desistir quem tentou se aproximar

Não  usufrui da sorte do destino

Sem noção cruzei o tempo distraído 


Hoje peço perdão, mísero sobrevivente

Dou o braço a  torcer, fruto do remorso

Cercado pelo amor de quem chegou para sempre

E com  a poesia me ensinou a ver

O que não atinei e estava  demasiado perto


 

7 de março de 2022

VIAJEI POR MAR

 Nei Duclós 


Viajei por mar

Para aportar no meu destino 

Lotou  o cais

Quando  cheguei no terra a vista


Trouxe presentes 

Para costurar  . no teu vestido

Pingentes de artesão  cherokee  

Estampas em tecidos andinos


Viajei porque quis

Amedrontar teu delírio

Achei  que podia

Cruzar meus limites

Mas eu nada tinha 

Fora do teu sonho,

Bússola feminina


O amor

Me esperava no fim da linha


Nei Duclós

5 de março de 2022

ENXAME

 Nei Duclós 


Como inseto que vem beber água nos teus olhos

E escolhe o momento certo

Para atrapalhar teus gestos

E te acorda no melhor do sono


Assim me tens assidua e inconveniente

A sugar meu tempo com impaciência


Não fosse o amor com seu expediente

De insistente presença ao redor

Tudo seria um enxame sem sentido


O sentimento depura  com a  doçura 

O voo  suicida dos amantes



4 de março de 2022

Cria⁶9tura

Nei Duclós 


Homem tem  a ver com a Terra

Pedras espinhos deserto montanha 

Foi criado bruto

Para viver entre feras 


Já a mulher é  fruto das estrelas

Quando as vemos de longe

E desenhamos esferas em fogo

Mulher é  húmus lava borrasca

Emissaria de sangue seiva nuvem


Homem é  a guerra

Mulher Helena de Troia

Erupção do Vesúvio 

Pomo das Hesperides 


Podemos chama-la criatura

Amor entre armas


 

10 de fevereiro de 2022

RESGATE

 Nei Duclos

Finalmente  encontrei-a depois de dois anos de busca, em estado terminal na maca imunda de um hospital de campanha, nos limites da África setentriomal. Comprei-a de uns guardas vagabundos que a tinham herdado em pagamento de uma divida de jogo contraida com piratas javaneses .


Carreguei-a como um fardo de guerra ate um descanpado onde peguei carona com um aviador detonado, fugitivo de cadeia chinesa.


Levei duas semanas por ar e mar ate chegar ao meu destino. Devolvi-a para a fanilia num encontro pautado pelos berros. Fora vitima de um naufrágio quando atendia populacoes miseraveis e migrantes .


Ela não me reconheceu. Melhor assim. Não é justo, neste mundo aos pedaços, ser chanado de meu único amor.



9 de fevereiro de 2022

EL JUEGO

 Neo Duclos


Me gusta ver  como luchan

Los dos hijos de Serena

Sin cuchillos ni violencia

En juego de campo abierto

Son dos paJaros de oro

A saltar sobre la arena

A tirar sangre en la boca

Quando uno se equivoca

Y se rebienta en risa

Porque tudo es una broma

De muchachos estupendos


Despues vuelven felices

Sucias las dos melenas

A cantar una parodia

Contra los terratenientes


Su lucha es un trenamiento

Para un futuro guerrero

Quando estaran listos

A romper con las cadenas


Como son guapos los hijos

De mi comadre Serena


MARGEM

 Nei Duclos


Inveja eh alma mesquinha

Saco de sal ou farinha 

Peixe que eh pura espinha

Margem seca ribeirinha


Inveja, cruzei a nado

O leito feito de pedra

E ao chegar no outro lado

Vi que o rio tinha sumido


Nao gera nenhum abrigo

Esta falta de compasso

Vivo cercado de cruzes

Que carrego no meu braço


Nei Duclos

28 de janeiro de 2022

JOGO

 Nei Duclos 


Se estiveres voando 

Não se impressione

Eh só cinema


Se estiveres chorando

Não eh contigo

Eh só um romance


Se estiveres pensando

Não se esqueça

Vem de outra fonte 


Se estiveres criando

Não amoleça

Deus esta vendo

22 de janeiro de 2022

FIM DO MUNDO

 Nei Duclós 


O mundo então calou-se

Por não ter o que dizer

Fechou-se em copas

Como as plantas carnivoras

Depois de devorar os últimos insetos. 


O poema mudou-se

Para planetas mais doces

Onde possa sobreviver


O colecionador de sementes

Navega sem porto no mar ignoto

Que bate nos contrafortes

Das serras do amanhecer


Nei Duclós

17 de janeiro de 2022

PERFUME

 Nei Duclós 


Se agora estou vivo

Ainda há esperança 

Mesmo que a dança do extermínio

Se encha de confiança

E imponha o ritmo do funeral na consciência

E o coração esteja tão vazio

Como o rio Uruguai na seca


Agora estou vivo

E todas as memórias  se completam

Povoamos o paraíso de  conflitos

Mas colhemos a flor do fruto ainda por vir

O jeito de resistir 

Imaginando um futuro  com o perfume de conquista



15 de janeiro de 2022

QUATRO ESTAÇÕES

 Nei Duclós 


O que fiz está feito

Não mudarei o entorno da torta árvore 

O corpo é  o que ofereço à eternidade


Os versos são datados

Folhas secas de um outono raro

Véspera do inverno do esquecimento 

Grudado ao verão que o 

anunciou amargo


Fiz por gosto e contingência 

Não fosse o amor

Não teria feito

O melhor de mim

Primavera tardia mas a tempo




14 de janeiro de 2022

COMEÇO

 Nei Duclós 


Aqui, Uruguaiana, onde o Brasil começa

Onde o rio rumo ao Prata abraça o pampa

Somos o sinal de alerta de um país soberano 

A paz da sesta, a pressa do Minuano


Lutamos pelo chão,  

encharados de sangue

Terra de pescadores, de plantas e rebanho


Em tuas ruas largas mora a memória 

Em teu coração montei minha casa de barro 

Meus cavalos de sonho, querencia a céu aberto


Aqui, Uruguaiana

Onde sopra a grandeza

De sermos conterrâneos 



8 de janeiro de 2022

NAVALHA

 Nei Duclós 


Arrisco na oficina

Já gasta de tanto ofício

Duvido que reaviva

A chispa que alimente a trilha


Noto o fio cego da mavalha

Na longa noite de metais sujos

A mão que iluminou maravilhas

Apenas se pergunta 


Serei ainda o ogro do verbo claro

Ou viciei na lavoura do deserto?


Crie o que pinta, disse assim o anjo 

Exausto dessa minha rotina

De morar no céu a inventar o mundo

E não saber ainda qual o meu destino


Acredite, disse ele

Eu só existo porque és exímio

Em produzir o sonho no universo cinza

A revelar o verbo oculto em bruta mina

Mesmo que negues ser o escolhido 


Nei Duclós

2 de janeiro de 2022

A RAINHA DO MAR

 A RAINHA DO MAR


Os versos nascem livres

E cedo aprendem a voar

Pousam em jardins inacessíveis

Onde jamais serão recolhidos para formar uma obra


A poesia sobra 

Ave soberana do oceano


Nei Duclós

NÁUFRAGOS

 NÁUFRAGOS 

Treinei contigo o amor impossível 
Caímos de boca na liberdade virtual
Cada palavra com sabor de verdade
O desejo embrulhado no sonho
O corpo jogado num temporal

Depois acordamos
Como náufragos na praia do real

Nei Duclós