26 de abril de 2023

 RELATÓRIO DA VIAGEM EM MISSÃO DE PAZ 


Navegando no navio que me recolheu de um naufrágio 

E foi reformado depois de minha volta triunfal à terra sagrada

Fui recebido em todos os continentes

Fiz continência para tripulações diversas

E capitães de todas as cores

Sóbrio e abnegado em minha farda de oficial outorgada por meus pares

Sem o merecimento da guerra mas da sobrevivência

E desci em portos capitais e desconhecidos

Depositei flores em túmulos de heróis

Eternizados em bronze extraído de canhões

Que abrigam frases ensinadas pela vida 


 Não foi a apoteose de um guerreiro

Mas de um cidadão comum adotado pelo mar

E que no chão da sua Pátria exerce a sabedoria

Dos viajantes que somem no horizonte

E depois de muitos anos voltam para contar o que viram

Nas tempestades enviadas por Netuno

O pai das águas que engolem esquadras

E devolvem os aventureuros com o dom da profecia


Nei Duclós

DESFILE

 Nei Duclós 


Sonhar, lembrar, querer

Tens o dom de me despertar

Acordo em teu amanhecer

Tanto corpo nas alturas do céu


Não compensa perder-te no ar

Não há memória para o teu lugar 

Não abarco os limites do luar

O verbo se submete ao tirano amor 


Vens num andor, o meu olhar

Desfilas sem pudor na contra luz

Sou teu guarda de uniforme azul 

Trabalho na Marinha e na pressa vou partir


Nei Duclós

20 de abril de 2023

TEIA

Nei Duclós 


Desfolhei-te como a um livro

Que ao não ler linha por linha

Acabei breve no epílogo 

Sem saber como termina

Essa pressa em seres minha

Que nas margens se destina

A esconder-se toda tímida 


Dicionária fugitiva 

De conflituosa leitura

Neo-romancista tardia

Que me enreda em teia espúria 


Desconheço tuas letras

Para compor melodias


Nei Duclós

10 de abril de 2023

DA RELIGIÃO

 Nei Duclós 


Pessoas idosas tornam-se muito religiosas porque a soma das perdas ultrapassa a capacidade de suportar. Não há vida que caiba em tanta dor. A fé providencia o espaço necessário para continuar andando.


Mas a fé só se segura com o estudo da doutrina. Repetir orações e hábitos pode devolver os mais antigos ao ceticismo da mocidade. Ouvir o sacerdote preparado, ler sobre os mistérios fazem do conhecimento um antídoto contra os falsos profetas e os neo milionários da auto ajuda, que exploram a fé  coletiva sem as bases que sustentam a religiosidade.


A Bíblia traduzida para o idioma falado por todos ajudou a  construir uma civilização. A ética da espiritualidade iluminou o Direito e disciplinou a cidadania, segundo a visão weberiana da América. Em outras nações o peso da palavra revelada engessou sociedades e governos. E gerou alternativas que disseminam o obscurantismo.


O Apocalipse é presente em qualquer tempo. O medo desperta a busca da transcendência. Todo esforço de soterrar as religiões esbarra na vida humana datada. A utopia do materialismo é  sempre vencida pela realidade do sagrado.


Leva-se uma vida para abraçar o reforço da religiosidade. Costuma acontecer quando, longevos, enxergamos melhor o que a existência nos reserva.


Nei Duclós

7 de abril de 2023

URGÊNCIA

 Nei Duclós 


Faço poesia como quem procura água em campo aberto

Com a forquilha da intuição e o passo incerto

Preciso matar a sede do rebanho

Detalhes de uma arte que não tem tamanho

Só a sorte poderá apontar a direção exata

Onde encontrar o rio subterrâneo


Tenho urgência pois temo o domínio do deserto 

Fatídico desejo de quem já é dono da montanha

Hoje tomada de urzes quando antes era festa


Nei Duclós

SEXTA-FEIRA

 Nei Duclós 


Águas de abril inauguram o friO

 verão é passado, o inverno por um fio

O ano avança numa procissão de horror 

Deus crucificado, a prece sem remédio 


A compaixão no andor da misericórdia 

A mãe chora pedra na arte da Pietà 

A morte é completa na gruta da fé 


As três em ponto da tarde 

O linho abrigou o corpo sem sangue

Começou assim o manto redivivo

A dor gerou o sonho e o amor veio da água


Nei Duclós

DESTINO

 Nei Duclós 


Fui escolhido por tuas mãos de seda

Teu olhar profundo como um crepúsculo 

Enlaçado por pernas de mármore 

Impregnado pelo perfume de fêmea 


Fui aplicado como obra do destino

Impossível escapar desse abraço nobre

Não previ o alcance de tanto rodízio 

Espiral do amor e do prazer livre


Fui ensinado a ser refeição e abrigo 

Homem de verdade, grão de uma conquista

Lavoura sem conflito,  colheita além da vida


Virei criatura no tempo do convívio

Por teu rosto de flor amiga

Pela mulher madura, sal, pote de açúcar 

Era para me perder, mas por ti fui escolhido


Nei Duclós

5 de abril de 2023

VIDAS

Nei Duclós 


Vida normal, afora a fantasia

Onde vivo o que não devia

Viagens sem destino certo

Amores em situações limite


Vida brutal, afora a poesia

Palavras cerzidas em parede fria

Vantagens de um falso heroísmo


Vida mortal, afora a biografia

Minha estátua de barro em rua mendiga

Tempo terminal, mas sem fim do caminho


Nei Duclós

3 de abril de 2023

CORREDOR

 Nei Duclós 


Levam a sério quando sou farsante

Tratam como se eu fosse adulto pronto

Pleno de uma identidade aceita 


Mas nem eu mesmo sei que tipo represento

Migro do sonho para outro mistério 

Diga o que vês e eu acrescento

Não existo nestes exatos quadrantes


Fugi dos limites do cânone 

Depois de nele entrar, corredor sem fôlego

E viver atirado não faz nenhum sentido

Tenho um pé na nuvem, outro no centro

Vivo de favor no mundo intolerante


Nei Duclós

2 de abril de 2023

DIA DE DOMINGO

 Nei Duclós 


Ĺevamos os ramos para benzer na igreja

E depois colocar atrás do espelho

Para afastar tempestades

E nos proteger dos raios

Mantendo a fé no poder da divindade


A cidade era inundada pela multidão 

Todos eram católicos

E a infância agradecida voltava para casa

Cada um de nós  com o ramo sagrado


Deus tinha chegado


Nei Duclós

CLARIM

 Nei Duclós 


Chuto o balde, mas ele está vazio

Sem nada que pudesse repercutir

O som é  oco, eco do grito que abafei 


Cavei a solidão por ser assim

Letra de metais em roupa de algodão 

Clarim que evoca o silêncio numa procissão


Falta fechar esta voz de baque surdo

Com a palavra terminal da poesia 


 Nei Duclós

ARMADURA

Nei Duclós 


Tirei da poesia o que ela tinha

Para ver o que havia dentro dela

Objetos diversos, quinquilharias

Letras de forma sem formar sílabas

E um ruído de cosmo antes do início


Optei por recolher alguns vestígios

Da arte que até então eu conhecia

Mas não pude armar qualquer sentido

Perdi a embocadura, vi-me no limbo 

Costurando a linha de uma crise


O tonel do poema estava cheio

Deveria aguardar o acontecido

E não sofrer com a abstinência

Própria dos pobres arrivistas


Agarrei-me a um soneto bem antigo

Romântico, que trazias na bagagem

E assim recuperei a epifania

De continuar a partir do que Deus fia

E não romper o selo da armadura

Que a natureza em nós providencia


Nei Duclós

NA TRILHA

 Nei Duclós 


A imaginação torna-se fato pela poesia

Invento assim a realidade que me foi negada

E vivo nela, como pássaro no ninho


Quem dirá que não existe esse registro

Se sou eu que cruzo a ponte e pulo o muro?


No poema é a mesma coisa, todos buscam

Não a fuga, mas a cura, o fôlego justo

Onde se possa respirar um ar mais puro


Alienação! me acusam com virtudes

Mas sigo em frente abrindo bruto

Espaços na trilha selvagem e obscura


Nei Duclós

1 de abril de 2023

CRIME

 Nei Duclós 


Não tenho onde guardar tanto livro 

Eles despencam, não lidos

Se escondem, tímidos

Somem, fugitivos


Nos armários assumem bizarras serventias

São escoras de louças finas

Sustentam pacotes de farinha

Se espalham por quarto e cozinha


Joga fora, me dizem

Não posso, alguns foram escritos por mim

Só que não localizo mais

O ponto exato do crime 


Nei Duclós

MAQUIAGEM

 Nei Duclós 


Sem dar bandeira  você gosta do poema

Encontras nele pistas dos teus segredos

Podes posar direita em salas  cheias

Mas dentro de ti arde o que te escrevo

Na íntima solidão do teu desejo


Bastaria dizer-me o que eu já adivinho

Fantasia de amasso sem que ninguém veja

Consertas no espelho a maquiagem desfeita

E voltas para as tuas conversas


Alguém nota algo na sobrancelha

Disfarças dizendo que não é nada

De longe observo tua falta de jeito 

Fêmea em fogo, comprometida até o osso


Nei Duclós