Outubro
Blog de Nei Duclós. Jornalismo. Poesia. Literatura. Televisão. Cinema. Crítica. Livros. Cultura. Política. Esportes. História.
26 de agosto de 2026
TERMINAL
Nei Duclós
Viver é morar no banheiro
É o dinheiro que falta
A doença que permanece
É perder os parentes
É dar adeus aos empregos
É ser alvo de pena
É chorar de medo
É descobrir que o passado
É presente
E o futuro é o tempo perdido
Junto com os dentes
TEMPORAL
Nei Duclós
Tudo faz parte do passado
Tua mente inquieta
Teu corpo exausto
Nada tenho no presente
Rotina bruta
Imposto caro
Sempre jogo no futuro
Vida sem fundo
Virtual amarra
Nei Duclós
A FUGA DO MAR
Nei Duclós
O mar voltou para o mar
Saudoso do próprio sal
Levou junto meu olhar
Das praias imemoriais
Deixou apenas deserto
Sem ninguém morando perto
Navios que não chegam mais
Ventos com falta de ar
Rios desviam o caminho
Buscam um outro lugar
Gaivotas pousam no mato
Não há convivio no cais
Só quando o mar voltar
Com o luar na garupa
Vou pedir que permaneça
Esqueça todas as fugas
Nei Duclós
REGISTROS
Nei Duclós
Escrevo escondido para ninguém saber o que eu digo.
Minha literatura sofre de insônia . Durmo na poesia.
Publiquei quando decretaram a morte dos livros.
Viver é uma atividade irreconhecível.
Lembro só o que não repito.
Cobro de mim as dívidas que ainda não contraí.
Perdi o momento certo porque não era divertido.
Aprendi quando deixei a lição de lado.
Caminho em oposição à ventania.
Exagerei na loucura ao fingir que estava vivo.
Confesso que voltei quando deveria ir.
A palavra é o principal disfarce.
Nei Duclós
LIVRE
Nei Duclós
Meu escudo é o livre arbítrio
Contra o jogo sujo
Do extremismo
Faço o que me dá na telha
De divina argila
Resguardo em dia de chuva
Vontade que vive sem vícios
Solidão cercada por mãos
Do Espírito
Vou por aqui
quando me ensino
A ser o que não decidem
Conte comigo
Sou antigo morador
Do infinito
Nei Duclós
CONTAINER
Nei Duclós
Cada vez mais me vejo como um corpo estranho
Enquanto o mundo segue sem meu tamanho
Abandonado como um container
De uma estrada no subúrbio
Os carros passam elétricos sem motorista
Sou uma ausência de algoritmo
O que digo ninguém digita
Não respondo quem me pesquisa
Criatura feita de ferro vencido
Fico junto às plantas ralas
Roçado sem nenhum fruto
Alvo de tornados e granizo
O destino é enferrujar as juntas
Que ringem nas salas de espera
Para mais um exame de vista
Não me enxergo no espelho do teto
Pertenço a outro universo
O que estava aqui e mudou de rumo
Permaneço como teimosa fera
Existo porque sou do ramo
Nei Duclós
25 de julho de 2026
VIDA SOCIAL
Nei Duclós
Não fomos feitos para durar tanto
Batemos o ponto além da validade
Última idade, fim da fantasia
De que vivíamos na eternidade
Sermos datados era só um detalhe
Nada a ver com nosso presente
Morrer era para quem foi marcado
Nosso destino era escapar contentes
Hoje o medo morde os calcanhares
O que aconteceu? exclamo atônito
Um anjo te observa, és uma vaga
Na terra lotada de velhos anônimos
Mas ainda tenho vida , lenha no paiol
Sinto vontades, e uma vida social
Que são os exames e consultas de monte
Brinco que não tenho os cabelos brancos
Nei Duclós
Nei Duclós
VOCAÇÃO
Nei Duclós
Tudo o que me ocorre
Dorme no poema
A vocação não morre
Na cama me aconselha
Não deixo sumir
O mote de campanha
O pote do arco-iris
Tesouro da montanha
Canto porque tenho gana
De você me ouvir
Na região serrana
Onde corre o rio
Durmo em dia frio
Desperto em noite alta
Você é quem faz falta
ENCONTRO
Nei Duclós
Cada momento é eterno
Pulsa através do tempo
Na praia foi nosso encontro
Que brotou em três rebentos
Num século foram crianças
No outro jovens insones
Todos com o dom do verbo
Linhagem que vem de longe
Foi o mar de areia branca
Que forjou a vida errante
Contamos com pura sorte
Nas peripécias do ramo
Nei Duclós
ARTESANATO
Nei Duclós
Poucas palavras uso em meu verso
São como peças de artesanato
Trago para perto, ponho no alto
Para que eu possa ficar desperto
Parecem lâmpadas de outra época
Ou miniaturas de navio em garrafa
Representam deuses de argila rara
Ou joias de pedras que dão em riacho
Brilham sem demonstrar soberba
É algo mais fosco , bibelô de feira
Mas é só um disfarce de notório poder
Esses objetos sujeitos a poeira
Fica assim o poema sem querer ser coisa
Criatura pequena em situação de lua
Encanta por estar sempre presente
Num canto qualquer onde o coração pula
Nei Duclós
OS LIVROS
Nei Duclós
Um dia os livros voltarão à tona
Como zonas ancestrais de tempos submersos
Boiarão nas praias de leitura ágrafa
Incomodando os banhistas do mundo mala
Só os pescadores saberão do que se trata
São medalhas de lata, dirao certeiros
De sereias cegas que fizeram a guerra
Não servem como peixe essas misérias
Nei Duclós
23 de julho de 2026
COMANDO
Nei Duclós
Quando perguntam qual é meu comando
Respondo que não é de poder, não é de mando
É de cantil e não de fogo
É mais do coração do que do gatilho
É da comunhão e nâo da ferida
Também não é morno nem tampouco brando
Tenho mão pesada sobre meu canto
Meu front é feito de tiros precisos
Barro de batalha e amor coletivo
Sigo as ordens que nos mantem vivos
Perfil de orações e sonhos mendigos
Um braço que luta um olhar que perdoa
Beijo na boca as promessas do Espírito
Nei Duclós
COLHEITA
Nei Duclós
Treino a memória
Lembro onde deixei os óculos
Monitoro as chaves
Não esqueço o fim da validade
dos produtos do armário
Mas nesse exercicio diário
encontro porções do passado
Pequenas histórias
Viagens no lixo
Amores datados
Coleções de palavras
Loucos momentos
Ofícios do vento
Em cantos guardados
Poesia e prosa
A vida não passa
dessa maravilhosa
perda de Tempo
Colhemos de graça
O que nunca plantamos
Nei Duclós
19 de julho de 2026
DESTINO
Nei Duclós
Meu coração dá bandeira
Contra a dor obsoleta
Azul e branco do mar
Verde e amarelo da terra
Nasci vasto continente
Para o mundo prego peças
Metade de mim sou a selva
Pampa pantanal e serra
Todos me invadem, pudera
Tenho ouro corpo e árvores
Confundem com patriotada
Mas é destino sincero
Meu coração dá bandeira
Agitada nos estádios
Marcho com passo de fera
Vivo do que me condenam
Nei Duclós
DESPERTAR
Nei Duclós
Acordam tarde os passarinhos
No frio da manhã escura
Para alimentar os meninos
Precisa esquentar as plumas
Eu cá não durmo direito
No plantão a revelia
Só com o sol adormeço
Entre cobertas de espuma
Depois, na hora do almoço
Num cardápio de improviso
Eles se chegam travessos
Querendo um pouco de alpiste
Mas sou turrão e expulso
Visitantes da preguiça
Não querem enfrentar trabalho
No expediente por conida
Eles se viram os meliantes
Em algazarras de bicos
Encontram frutas perdidas
Enchem o papo de gramíneas
Dormem cedo porque é tempo
De descansar do esforço
Eu cá desperto exausto
Na solidão do meu ninho
Nei Duclós
PROFECIA
Nei Duclós
Escrevo para o povo cantar
No dia em que assim decidir
A palavra toma o seu lugar
Quando o tempo parar de mentir
As nações precisam sonhar
Antes que cheguem ao limite
Só existe um caminho, lutar
Corpo pronto para a profecia
Pois antes do mundo existir
Desenhou-se o perfil do conflito
Dele não há o que fugiir
Vocação de humano destino
Sou a voz dessa hora escura
Servirá de poder e aviso
Não é feita de pólvora ou chumbo
É apenas o que já foi escrito
Nei Duclós
12 de julho de 2026
ENCARTE
Nei
Penso, logo existes
Esqueço, que sou triste
Fantasio, assim sorrio
Espero, árduo caminho
Aguardo, no tempo livre
Chegas, sem nenhum convite
Nei Duclós
LETRA E MELODIA
Nei Duclós
Agora que estás no auge da beleza
Que foi desenhada por um Deus ourives
Decides escolher a ruptura
Por não haver escolha do caminho
E que provou do mal mais escondido
Situado ao lado, longe do inimigo
Anuncias que voltarás ao antigo aprisco
Mas ninguém que já provou da aventura
De ser seguida por multidões em um só grito
Se conforma em assumir o tempo ido
Neste cruzamento do destino
Esplendes a luz contra a calúnia
Pois de treva todos estão servidos
És de uma canção letra e melodia
Perfil de um amor que está no início
Nei Duclós
11 de julho de 2026
BIKE
Nei Duclós
Amor quando se quebra
Faz barulho de bicicleta velha
Que se estraga na estrada
Rompe a correia
Perde os pedais
E as rodas afundam no barro da véspera
Da chuva torrencial que veio da serra
Os pneus murchos raspam as pedras
Enquanto os carros passam
Desviando rápidos do que sobrou
Nossas lágrimas, pobre choro
Pois estamos a pé
E o dia ficará escuro
Nei Duclós
26 de junho de 2026
PRECE
Nei Duclós
Mesmo no frio intenso os pássaros despertam
Eles nao pensam apenas rezam
A prece de inaugurar o dia antes que amanheça
Com plumas de veludo e ninhos de promessa
Eis uma lição que a todos interessa
Cumprir sua missão na ordem do universo
Sem trair o coração que sabe onde pega
A doce comunhão fora da mentira
O destino é resolver o que deve ser completo
Voar depois em busca do alimento
Bicar insistente o vidro da janela
Para que eu exponha o verso que cultivei mo inverno
Nei Duclós
23 de junho de 2026
DIÁLOGO
Nei Duclós
Falo sozinho para treinar o diálogo
Que vou desenvolver no Outro Lado
Conversar com anjos
Memorizar os pássaros
Porque voar precisa da palavra
Articular o vento
Combinar os mapas
Dizem que perdi a noção com tanta idade
Mal sabem que toda verdade
Emerge da ilusão, pobre passagem
E o tempo acumulado nos ensina
Que viver é formular as frases
O melhor verso encontra o Paraíso
Nei Duclós
22 de junho de 2026
ROMANCE
Nei Duclós
Estranho ser humano, a mulher
Quanto mais admiro menos compreendo
Dizem namoro mas querem um filho
Mudam o amante em pai e marido
Quando menos esperas vem o casamento
A princípio liberam impondo limites
Um homem solteiro corre perigo
Isso tudo é antigo os moços me avisam
Hoje é diferente misturam os rumos
Homem quer casar para obter vantagens
Mulher se nega prefere a carreira
Não será o contrário? pergunta meu sossego
Evito esse rolo estou fora do mercado
O eu aqui é só um personagem
Que o eu de verdade manipula à vontade
Assim descubro em conversas inúmeras
O drama que deveria ter um clima romântico
Nei Duclós
TOQUE
Nei Duclós
Não me toque onde não deve
Disse ela em tom leve
Mas o pássaro pousou seu voo breve
Disse eu ardendo em febre
Depois não haverá conserto
Avisou chegando perto
Não aposto no remorso
Argumentei bem depressa
Então avance consentiu a bela
Trate-me com amor te dou confiança
Foi assim que um gesto mínimo
Revelou o segredo do desejo
Ele está guardado mas disposto
A ceder um braço para teu bom gosto
Nei Duclós
IDADE
Nei Duclós
Fui andando pela vida apagando as pegadas
Deixei para trás o que decidi
Fiz novos amigos que também esqueci
Hoje estou como sempre quis
Sem receber ninguém aos domingos
Vamos fazer um churrasco? digo para mim
Mas cadê os dentes, as brasas e o chimarrão?
Triste fim, me diz um anjo
Adote um cão
Não faça pose de idade crítica
Todo amor leva à solidão
Nei Duclós
AQUI
Nei Duclós
O que tenho para dIzer vai doer
Portanto tirem da sala toda esperança
Vou entrar na sombra onde mora o medo
Levando nas costas antigas iluminações
Preciso saber o que me espera
Depois de tanta poesia
Talvez um dragão de papel
Como no teatro da China
Ou talvez não
Apenas a verdade
Da qual sempre fugi
Amores que deixei
Terrores que vivi
Tempo que escorreu em vão
Ilusões de aprendiz
Podem voltar não há nada demais
Só queria um pouco de paz
Aqui
Nei Duclós
16 de junho de 2026
ABSINTO
Nei Duclós
Escrevo sobre o que eu não domino
A terra onde vivo
Os contemporâneos
O saber me escapa por dever de ofício
Sirvo as palavras sem nenhum sentido
Alguns chamam de poesia
Eu de vício
Fujo do entendimento com esse absinto
Embriaguez desperta
Sono profundo
Só dói quando recito
Diante dos teus olhos
No tempo bruto
Nei Duclós
9 de junho de 2026
VENTO
Nei Duclós
O que direi não será sincero
Melhor então ficar quieto
Há tempos errei e não tem conserto
Não será um parabéns quo trará de volta
O que perdemos em duros momentos
Deixa passar, me diz o anjo
Nenhuma dor cederá o passo
Viver é assim no modo precário
O amor compreende a cicatriz doendo
Do que estou falando? Esquece, coração de vento
Nei Duclós
CICLO
Nei Duclós
Nascemos com alma, mas podemos perdê-la
O que mais tem hoje são pessoas vazias
Que abandonam o exílio e se apropriam das artes
que não lhes pertencia
Você vê um filme e sai dele triste
A música é ruído, tapamos os ouvidos
Pintura inexiste e a literatura amontoa falsas narrativas
Onde estão as vocações legítimas?
Mas há uma geração vindo no piano e violino
Com talentos de virtuosismo
Trazem de outras vidas o resgate do espírito
A esperança obedece o tempo cíclico
Nei Duclós
5 de junho de 2026
AGRIMENSOR
Nei Duclós
Economizo passos para não chegar
Porque chegando terei de voltar
Mais adiante existe o alto mar
Onde moro com meu corpo de sal
Vou medindo espaço sou agrimensor
Tudo o que faço tem essa dimensão
Cada estrela mostra o que agora sou
Bússola perdida em pontos cardeais
Nunca vou embora esqueci o que dizer
Conto vagalumes por puro prazer
No campo aberto perdi minha vez
Componho a memoria de um tempo sem dor
Nei Duclós
1 de junho de 2026
MODA DE VIOLA
Nei Duclós
A vida te cobra a conta, a velhice vem chegando
Você quer dar um passo, não consegue ir andando
O mundo fecha as portas, só se abre as do hospital
E nas rodas de samba não és mais o maioral
O problema dessa idade é que ninguém se conforma
Querem repetir a dose mas existe um só tempo
Que nos é dado de graça uma vez e para sempre
Lá no fim da rota o destino te espera
Com uma cruz de ouro te avivando a memória
É quando você agradece tanta bênção pela estrada
Sendo a maior delas o amor que te consagra
Obrigado a todos pela glória do caminho
Onde encontrei a sorte de ser adulto e menino
Agora que fiquei pronto digo adeus e vou embora
Quem quiser que fale alto
uma outra boa história
E peça para a amizade acompanhar na viola
Nei Duclós
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