Outubro
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22 de junho de 2026
ROMANCE
Nei Duclós
Estranho ser humano, a mulher
Quanto mais admiro menos compreendo
Dizem namoro mas querem um filho
Mudam o amante em pai e marido
Quando menos esperas vem o casamento
A princípio liberam impondo limites
Um homem solteiro corre perigo
Isso tudo é antigo os moços me avisam
Hoje é diferente misturam os rumos
Homem quer casar para obter vantagens
Mulher se nega prefere a carreira
Não será o contrário? pergunta meu sossego
Evito esse rolo estou fora do mercado
O eu aqui é só um personagem
Que o eu de verdade manipula à vontade
Assim descubro em conversas inúmeras
O drama que deveria ter um clima romântico
Nei Duclós
TOQUE
Nei Duclós
Não me toque onde não deve
Disse ela em tom leve
Mas o pássaro pousou seu voo breve
Disse eu ardendo em febre
Depois não haverá conserto
Avisou chegando perto
Não aposto no remorso
Argumentei bem depressa
Então avance consentiu a bela
Trate-me com amor te dou confiança
Foi assim que um gesto mínimo
Revelou o segredo do desejo
Ele está guardado mas disposto
A ceder um braço para teu bom gosto
Nei Duclós
IDADE
Nei Duclós
Fui andando pela vida apagando as pegadas
Deixei para trás o que decidi
Fiz novos amigos que também esqueci
Hoje estou como sempre quis
Sem receber ninguém aos domingos
Vamos fazer um churrasco? digo para mim
Mas cadê os dentes, as brasas e o chimarrão?
Triste fim, me diz um anjo
Adote um cão
Não faça pose de idade crítica
Todo amor leva à solidão
Nei Duclós
AQUI
Nei Duclós
O que tenho para dIzer vai doer
Portanto tirem da sala toda esperança
Vou entrar na sombra onde mora o medo
Levando nas costas antigas iluminações
Preciso saber o que me espera
Depois de tanta poesia
Talvez um dragão de papel
Como no teatro da China
Ou talvez não
Apenas a verdade
Da qual sempre fugi
Amores que deixei
Terrores que vivi
Tempo que escorreu em vão
Ilusões de aprendiz
Podem voltar não há nada demais
Só queria um pouco de paz
Aqui
Nei Duclós
16 de junho de 2026
ABSINTO
Nei Duclós
Escrevo sobre o que eu não domino
A terra onde vivo
Os contemporâneos
O saber me escapa por dever de ofício
Sirvo as palavras sem nenhum sentido
Alguns chamam de poesia
Eu de vício
Fujo do entendimento com esse absinto
Embriaguez desperta
Sono profundo
Só dói quando recito
Diante dos teus olhos
No tempo bruto
Nei Duclós
9 de junho de 2026
VENTO
Nei Duclós
O que direi não será sincero
Melhor então ficar quieto
Há tempos errei e não tem conserto
Não será um parabéns quo trará de volta
O que perdemos em duros momentos
Deixa passar, me diz o anjo
Nenhuma dor cederá o passo
Viver é assim no modo precário
O amor compreende a cicatriz doendo
Do que estou falando? Esquece, coração de vento
Nei Duclós
CICLO
Nei Duclós
Nascemos com alma, mas podemos perdê-la
O que mais tem hoje são pessoas vazias
Que abandonam o exílio e se apropriam das artes
que não lhes pertencia
Você vê um filme e sai dele triste
A música é ruído, tapamos os ouvidos
Pintura inexiste e a literatura amontoa falsas narrativas
Onde estão as vocações legítimas?
Mas há uma geração vindo no piano e violino
Com talentos de virtuosismo
Trazem de outras vidas o resgate do espírito
A esperança obedece o tempo cíclico
Nei Duclós
5 de junho de 2026
AGRIMENSOR
Nei Duclós
Economizo passos para não chegar
Porque chegando terei de voltar
Mais adiante existe o alto mar
Onde moro com meu corpo de sal
Vou medindo espaço sou agrimensor
Tudo o que faço tem essa dimensão
Cada estrela mostra o que agora sou
Bússola perdida em pontos cardeais
Nunca vou embora esqueci o que dizer
Conto vagalumes por puro prazer
No campo aberto perdi minha vez
Componho a memoria de um tempo sem dor
Nei Duclós
1 de junho de 2026
MODA DE VIOLA
Nei Duclós
A vida te cobra a conta, a velhice vem chegando
Você quer dar um passo, não consegue ir andando
O mundo fecha as portas, só se abre as do hospital
E nas rodas de samba não és mais o maioral
O problema dessa idade é que ninguém se conforma
Querem repetir a dose mas existe um só tempo
Que nos é dado de graça uma vez e para sempre
Lá no fim da rota o destino te espera
Com uma cruz de ouro te avivando a memória
É quando você agradece tanta bênção pela estrada
Sendo a maior delas o amor que te consagra
Obrigado a todos pela glória do caminho
Onde encontrei a sorte de ser adulto e menino
Agora que fiquei pronto digo adeus e vou embora
Quem quiser que fale alto
uma outra boa história
E peça para a amizade acompanhar na viola
Nei Duclós
AGUARDO
Nei Duclós
Uma hora mais tarde
Amanhece o dia no inverno
Para que a sorte dos pássaros
Possa aquecer o que tarda
O tempo adequado para piar com alarde
Eu também demoro emplumado
Aguardo a altura do voo em volta
Nei Duclós
REGRESSO
Nei Duclós
Apaguei o sol para poder dormir
Mas o dia insistiu
E me levou pela mão
de volta aos meus 20 anos
Onde às vezes vivo quando permite a solidão
O Tempo é um velho tio
Com a palavra coração
Nei Duclós
Imagem: Eu em 1969 na foto de Juarez Fonseca
23 de maio de 2026
LA REINA
Nei Duclós
Me quieres? me preguntas
Te quiero como la flor quiere el rocio
Para mojar sus penas
Te quiero en la casa
Porque eres mi reina
Te quiero en el campo en la agua
Eres el vento en mi desierto
Te quiero apenas
Como un destino una ley
Soy el caballero que mar adentro de tu cuerpo
Llega en tu alma cargado de amor
Nei Duclós
17 de maio de 2026
MANHÃZINHA
Nei Duclós
Sonhei que já era de manhã
Mas não havia pássaros
O Tempo ainda mantinha o sol sob custódia
Era a hora da espera
Adormeci e acordei tarde
A família dava de comer ao dia
Fora da festa apressei o passo
Mas só cheguei quando todos dormiam a sesta
Sonhei então de novo
À tardinha, na hora mansa
Quando o céu, pintor
Encantava a memória dos frutos da infância
O Tempo mora dentro
de uma concha de veludo
Encontrada numa praia distante
Nei Duclós
CORAÇÃO
Nei Duclós
Não se deixe abater pelo conflito
Pela paz que prometem mas não chega
Pelo sonho jogado para a rua
Pelo corpo ferido sem ajuda
Não se conforme com o destino
De perder-se antes do desfecho
Uma vida cabe fora de uma gruta
E não há razão de culpar a chuva
Ganhe força no rumo da tormenta
Navegue mesmo estando à deriva
Teu barco resiste a toda prova
És gigante, coração de seda pura
Nei Duclós
11 de maio de 2026
ILHA
Nei Duclós
Fico na superfície
Navego a dor em rodízio
Se mergulhar até o fundo
Serei refém de um martirio
Vivo sem compromisso
De mexer onde me escondo
Levo bagagem de vento
Nas costas de alguém inútil
Sonho a flor que nunca chega
Das tuas mãos sempre íntimas
Fujo do que me aprontas
Levar meu corpo inseguro
Nada direi, como sempre
Minha alma é ilha deserta
Meu corpo luta no escuro
Nei Duclós
8 de maio de 2026
NOBREZA
Nei Duclós
A nobreza legítima
É ter alguém que te ame
É quando assumes o comando
Não há trono que te ordene
Nem povo que te cerque
Tuas legiões obedecem apenas ao sentimento
Partes para a conquista
Como um soldado romano
Nem mesmo o amor
Te coloca de joelhos
És o nobre que não teme o exílio
Nem ocupa o palácio de ouro
Ou ostenta medalhas ou títulos
Calças sandálias de couro
No alto da montanha
Nei Duclós
4 de maio de 2026
OFÍCIO
Nei Duclós
É fácil exercer o meu ofício
Uso a palavra impregnada de sentidos
Alguns ocultos revelados pelas sílabas
Que do mesmo som alegre compartilham
Uma letra repetida faz um verso
Mas o truque se esconde se recitam
Acham um assombro o mago trapezista
Que se atira no caos com segurança
O salto mortal é a cara de paisagem
A mão no queixo e as memórias
Qualquer bobagem vira uma história
E eis o fato, a poesia
Nei Duclós
1 de maio de 2026
OS ANJOS
Nei Duclós
Poesia não serve para nada
O poeta morre e a vida continua
A obra que não era lida
Anoitece anônima nas estantes
Vale para o presente
Com o poeta atuante
Iludido de tanta literatura
Depois passa
Como os bandos de pássaros em fuga pela estações
Só o prazer da criação vale a pena
O resto migra para o esquecimento
Às vezes sobrevive um verso
Que não é de ninguém
Pertence aos anjos da inspiração e do romance
Nei Duclós
20 de abril de 2026
CUIDADO
Nei Duclós
Cuidado com as palavras
Elas ferem mais que matam
Um só tiro e estão prontas
Veneno eterno
A corroer por dentro
Elas te cercam e exercem o medo
Já estás morto sem se dar conta
Ficam nas bocas nos documentos
São o epitáfio antes do luto
Trate-as bem
Monstras
Nei Duclós
HERÓI
Nei Duclós
A vida só tem valor se houver coragem
Receba Senhor este corpo
Na última viagem
Enfrentou a morte na hora mais escura
Quando não há mais volta na intensa luta
Receba em Sua morada, Senhor
Ele é merecedor do Teu olhar e Tua presença
Chamo de herói mas logo será esquecido
Porque o exemplo fica mesmo sem memória
Nei Duclós
JARDIM
Nei Duclós
Éramos amores
Hoje somos amantes
Eras a solidão
Hoje és a corrente
Eras apenas um grão
Hoje não tenho escolha
Eras uma só flor
Hoje és a Babilônia
Nei Duclós
6 de abril de 2026
UNIFORME BRANCO
Nei Duclós
Decidi não fazer o que deveria ter feito
Agora já foi, curva do tempo
Quem sabe sou eu o faminto duende
O que passa por cima das coisas urgentes
Em posição de sentido, de uniforme branco
Sou da Marinha, praia distante
Amor que eu sinto não cabe no peito
Navega rumo ao vertedouro
Onde vou embora fazendo continência
Deixo para depois, que depois não veio
Só existe um mar , e teu corpo em silêncio
Nei Duclós
1 de abril de 2026
FIAÇÃO
Nei Duclós
Não tenho sabedoria
Tenho a sonoridade que a palavra fia
No ventre de um tempo escuro
Nei Duclós
26 de março de 2026
O ANDAR FEMININO
Nei Duclós
Teu passo não pede desculpas
Antes desliza, exerce o domínio
Meu olhar se torna cativo
Quem te inventou, andar de andorinha?
Quando caminha é feita de pluma
Garça de espuma, ar de flamingo
Corpo de brisa em sopro de outono
Não sentes piedade beldade suprema
Desmanchas o mundo ao redor da cintura
E não chegas nunca mulher sem destino
Tua arte é esse dom
De corte e costura
Teces um vestido de rainha
Com pés de princesa, sem agulha ou linha
Nei Duclós
15 de março de 2026
CICLO
Nei Duclós
Sobrevivemos
Para contar a história
E descobrimos
Que ela não tem mais valor
Tivemos que reinventá-la
Como se fosse a verdade
Nela sumimos desaparecemos
Para entender
O que fomos
Nei Duclós
13 de março de 2026
TABULEIRO
Nei Duclós
No jogo de palavras saimos perdendo
Os outros sempre vencem mudando as regras
Ficamos empacados em cada momento
O que era vantagem vira retrocesso
Por isso não escrevo apenas observo
A lei das mudanças que roubam e ferem
Caio em armadilhas mas na hora me levanto
Virei especialista no movimento perverso
Saio convicto de que ninguém me pega
Tudo o que eu digo um anjo me sopra
Ele me avisa do perigo iminente
Então brinco no verso em primeira instância
Qualquer coisa derrubo o tabuleiro esperto
Nei Duclós
ANTES DO SOL
Nei Duclós
Os passarinhos se manifestam quando ainda está escuro
É a certeza do amanhecer que os faz despertar
Assim também o poema
Que na treva cultiva o seu cantar
Nei Duclós
10 de março de 2026
JÁ VOLTO
Nei Duclós
Não importa o momento do desfecho
Sempre estarás no meio de um projeto
Com prazo de entrega, urgente
Como se ainda houvesse tempo
Poderias te dar por satisfeito
Sem nada a fazer , bem quieto
Aguardando os acontecimentos
Mas é o hábito, promessa da vida em sua miragem
Assim ocupado serás chamado
Já volto, dirás para a eternidade
Nei Duclós
9 de março de 2026
ID
Nei Duclós
Com nada me identifico
Origem formação abismo
Com nenhum país com nenhuma língua
Também não me enquadro onde forasteiros cismam
Esse cânone paralelo de conflitos
Não estou fora do mundo físico
Apenas virei verbo, vivo
Num poema sendo escrito
Nei Duclós
6 de março de 2026
GOTA DE SANGUE
Nei Duclós
Só Deus para aprontar essa
No cosmo infinito sermos mínimos
Nas viagens estelares que ninguém assiste
Nos mares de sal uma trilha de espuma
Teu corpo líquido no meu olho de vidro
No coração de pedra onde medra o espírito
Na terra bruta o amor persiste
Brinde no sonho, copo de vinho
Água salobra em puro filtro
Sopro de luz onde vivo escuro
Só a poesia se mantém firme
O resto desanda lençol de linho
Gota de sangue onde nada havia
Nei Duclós
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