15 de setembro de 2021

CAPRICHO

 Nei Duclós 


Decidiste me amar

Sem motivo aparente

Talvez pelo que falo às paredes

Ou do que dizem de min

Sujeito de boa índole 

Ou talvez ainda pela estampa e o sorriso

Que não me custa um esforço 


Melhor investir em outro

Que não prometa tanto 

Alguém de confiança 

Fiel da balança

E não um artesão das letras e das rimas

Capaz de qualquer coisa

Menos de amar

Capricho dos deuses 

Quando fazem poesia 



14 de setembro de 2021

Não sei

 Nei Duclós 


Perguntam se vivo o que eu invento

Mil amores, sSituações de sentimento


Querem saber o que é real

O que é  republicano

Se herdo o saber ou consigo na marra


Não sei responder, minha bela

Acho que sonho o que me acontece

Inclusive tu, que em mim floresces

Naufrágio além da barra

13 de setembro de 2021

LOBO

 Nei Duclós 


Ando sozinho porque não sou de confiança 

Nenhuma conversa se anima a seguir-me

Nem mesmo quando fui criança 

Tive essa manha de viver em bandos 


Sou roupa branca de linho

Que ponho aos domingos que mão existem

Navio sem bandeira, redemoinho

Pego de primeira para fugir a tempo


Você tentou me salvar da sina

Preparou a cama para  um lobo bruto

Mas de uma janela pulei para o abismo


Por isso farejo todas as pistas 

Enquanto o sol doura tuas pernas

Em endereço desconhecido 


Não suporto companhia

Porque só de ti me tornei cativo



9 de setembro de 2021

JEAN-PAUL

Nei Duclós 


Todo artista força a barra 

Quer mudar tudo

Não se conforma com o mundo


Muitos conseguem romper o casulo

Rasgar o selo da gruta

Sair para a luz


Mas poucos tem a coragem

De enrolar a cabeça com dinamite

E explodi-la num filme insano  

Como fez Pierrot,  o Louco

Numa sessão antiga de matinê 


Poucos, não 

Só Jean-Paul 

Que hoje nos deixou


Corra, Belmondo 

Nesse road movie em preto e branco

E transborde colorido da tela 

Com teu carisma

Que ninguém imita

E  com aquele país

Que mora em nós 

A França que não se dobra


VERSOS NA AREIA

 Nei Duclós 


A palavra não tem lado

Obedece a quem dela se serve

 Mesmo no poema, 

que a tudo transcende,

mas vira cativo da ação imprudente


Anchieta escrevia na areia

Seis mil versos para a Virgem Maria

Só o mar lia


A poesia é o segredo

Da palavra que sobrevive


2 de setembro de 2021

BAGAGEM

 Nei Duclós 


Já vem vindo a primavera

E meu bem querer não cede


Boa noite, dona de mim

O que fazer com o sentimento?

Se ele está no mesmo lugar onde deixaste

Como um traste, bagagem sem serventia


O que fazer, além de poesia

sempre?



30 de agosto de 2021

TUA ARTE

 Nei Duclós 


És feita de unhas roxas e arranjo de flores 

Mas essa não é tua arte 

Feita de amores variados e amizades drásticas 

Todas fantásticas

Mas essa não é  tua arte 


És feita de pele mediterrânea e cabelo de ouro

Cultivada em viagens pelo mundo 

Jerusalém Mar Morto Monte Carlo

Jamais Paris que em ti não cabe


Pesas na maquiagem para ir à ópera

mas essa não é tua arte


Tua arte é quando sou o alvo

Ao te querer sem desconfiar

Que entre tantas de ti és única 

Com teu jeito de touro ariano

O que chega primeiro em Pamplona

E rasga o ventre do infeliz palhaço 


Mas sou resistente 

E aguardo que canses, açúcar demerara

Disfarçada em mulher má e impaciente

Sei onde pousa teu pé no sofá da sala

Lá permaneço em guarda, miserável gato



29 de agosto de 2021

DESTINO

 Nei Duclós 


Compor perdido no deserto

Sem esperança que alguém escute

Funda solidão de um criador sem rumo

E o destino, pássaro indiferente

Voa para longe com seus arrulhos


Só tenho o amor que insisti sem fôlego

Que hoje me transpira neste frio imenso

Sou lagarto que ao acordar machuca

Por sobreviver no mundo sem sentido 



28 de agosto de 2021

A FLOR NA CALÇADA

 Nei Duclós 


Foi-se a palavra

Seu dom,  sua fábrica 

O poema  a qualquer hora

A prosa sem amarra


Ficou presa a palavra 

Nos limites do rábula

Nas calúnias, na espátula 

De sepulcros caiados


Ficou a flor que força a calçada

E a vontade que temos de ressuscitá-la



22 de agosto de 2021

TRIBUNO

 Nei Duclós 


Senti que era o momento exato

Para o qual me preparei em sete décadas 

Falei e todos silenciaram

Para ouvir a boa palavra 


A multidão foi um tambor sagrado

Eco do coração  de amor tomado

Cabe na praça a solidão liberta 

Até hoje os gritos ocupam espaço


Voltei para o lugar de origem

Lá toco a oficina, meu louco evangelho


Não prego religião 

Levanto âncora 

Sou roto capitão

Tribuno do sonho



15 de agosto de 2021

A VONTADE INSONE

 A VONTADE INSONE


Eu passo a noite acordado 

Porque não posso dormir 

O peso do meu passado 

E as ameaças por vir


A morte do filho amado

Os vírus e o bisturi

As despesas sem barragem

E a ditadura sem fim


Arte é  vida que respira 

E ainda vela por mim

A poesia liberta

Do destino de ter fim


Çom palavra tenho a força 

Na quebra da impostura

Por ela nada se estraga

Sonora voz que me resta 


Nenhum tirano me apaga

Na noite que faz sofrer

Sou fruto de gosto amargo

Só durmo no amanhecer


Nei Duclós...

28 de julho de 2021

DUAS VIDAS

 Nei Duclós 


A fantasia não te salva da vida verdadeira

A que te põe  para baixo a vida inteira 

Vida paralela não preenche teus desejos

É sempre a mesma  vida que  chega primeiro


É palavra repetida no verso e no avesso 

Vida que te cobra pelo sonho sempre o mesmo 

No fundo não  tens vida, mas um espelho

Onde vês a vida sumindo na areia


A não ser que resolvas quebrar

 a vida falsa

Aquela verdadeira vida sem sossego  

E abraces  a vida que ficou prisioneira 


Para isso tens a vida quieta em teu peito 

Um dia ela grita, como um sino submerso 

De uma catedral que é a vida em outro tempo

Ao afundar no mar de uma vida incorreta 


 

27 de julho de 2021

PALAVRAS

 Nei Duclós 


Palavras doces beijam melhor

Palavras  amargas melhor evitar 

Palavras fortes dobram o mar

As poderosas fazem amor

As complicadas confessam a dor

As ritmadas imitam tambor

Apaixonadas  levam  de roldão


Meu coração pertence às  palavras


Nei Duclós

23 de julho de 2021

INSONIA

 Nei Duclós 

 

Pessoas operadas

Tem hábitos bizarros 

Dormem o dia todo

E à  noite ficam em claro


Sua sombra está gelada 

E as cobertas pesam 

Até os cães invasivos 

Não querem mais conversa 


Quem se manifesta 

Nessa vigília insone 

É Deus em seus detalhes

Café ou chá com bolachas


Assim esperam o sol

Que aquece as fantasias

Na cama limpa e o pijama

Enquanto passa a semana 


A única companhia

É a fina marcenaria

Da poesia sem vicios

Que dizem pobre mas sonha

Em ser a arte perfeita


Nei Duclós

22 de julho de 2021

ESPERAN⁸ÇA

 Nei Duclós 


Pessoas operadas 

Vivem o momento 

Cada gesto conta

O sono, o alimento 


Andar, só com prudência 

A rua está fechada

Para todo movimento 

Mas as janelas abertas

Trazem o dia para dentro


Pessoas operadas

São outras criaturas

Marcas de bisturi 

Lhe deram a sobrevida


A sorte e a medicina 

Traçam um novo rumo

Tempo de esperança 

Sob proteção divina

18 de julho de 2021

PLUMA DE PÉTALA

 Nei Duclós 


Pluma de pétala, roçar de penugem, bóia no éter, louça de estrela: flutuas no beijo que componho.


Nada mudou, a não ser teu rosto crispado de amor diante do segredo que enfim nossos corpos revelaram.


Fico esperando que me fales no ouvido. Mas só escuto o mar, minha solidão ao vivo


Quando nos sintonizamos, na conexão funda, andar depois fica difícil.


Acordei com a palavra fazendo café. Cheiro de você rompendo o cerco do inverno.


Desconfias que fiz a esmo os versos que cultivo. Sou lavrador de sentimentos, flor púrpura.


Amanhecemos num terraço avulso. Próximos de um desatino, um beijo desencadeando chuva.


Dê uma volta para eu ver você em seu vestido. Depois desfaça em parafuso como se fosse uma valsa.


Amor é invasivo. Paradoxo de algo que depende de mútuo acordo.


Querer é livre. Chegar mais perto desde que consintas.


Você tão parecida com aquela estrela longínqua. Com a diferença que és minha


Já faz uma cara que pediste um tempo. Fico irreconhecível sem teu espaço.


Saudade é um elástico que te traz de volta em poucas horas.


Nunca estive perto de você, mas já estive mais perto.


Estou cada vez mais longe, olhos de violeta.


Só vou se me chamar. Senão volto para o mar.


Poesia é assombro. Por isso beijo teu ombro


É amor? perguntou-se.

Era.



EXISTIR-ME


A moeda brasileira é dívida. Sempre fui rico.


Tudo me inviabiliza. Construí um mundo à parte, onde possa existir-me.


A noite é quando o dia pensa.


O amanhecer é imaginado pela noite alta.


Do mundo bruto, temos a manha: aceitamos que seja real, desde que ceda depois da curva


Ficamos cada um numa ilha. Formamos um arquipélago de suspiros.


Fantasia, território livre, onde estabelecemos acordos inverossímeis. Maná que alimenta vigílias.


Não fosse o sol, estaríamos fritos.


Estamos de férias. Imaginamos uma viagem em cada esquina. Espere o sol, que vem de carruagem.


Daqui a pouco tudo passa: o frio, a madrugada, a saudade.


Isso não faz sentido, mas podemos imaginá-lo


Pense num diálogo. Sou o que te responde.


É simples. Basta impregnar a palavra com o que ela sonha.


Nei Duclós




PROCURO

 Nei Duclós 


Não sei o que procuro

Miudezas me confundem

Objetos, alimentos

Memórias, amizades

A idade, o isolamento 


Olhar de pouco espaço 

Apertado entre os estreitos 

A alma já exausta 

O  corpo resistente


Procuro uma palavra

O  corte mais direto

O fôlego consciente

O teu amor violento 



INVENTEI

Nei Duclós 


Mistura de plantas

No improviso do jardim 

Tua beleza desafia 

Minha saudade


Amiga da arte

Pintura de exímio perfil 

Inventei de te amar

Entre os jasmins


VOLTAR

 Nei Duclós 


Pessoas operadas

Que voltam ao batente

Tem a alma lavada 

Depois de tanta ausência 


Tudo faz sentido 

E não era sem tempo 

A casa ganha vida

De sonhos já  refeita


Feridas cicatrizam

Exames não surpreendem 

E os pássaros recitam

canções do amor contente


Poemas de açúcar 

Cabem nesse caso

Viver no fundo é  isso

Cruzar o mar  a nado



17 de julho de 2021

ACERVO

 É pequeno o acervo que possuo 

E não está à  venda

O amor, palavra gasta

E a solidão 

Que me acompanha


TINHA GATO NA⁸ BRIGADA

Nei Duclós 


Com 17 anos meu pai Elo mudou sua idade para 18 e assim conseguiu seguir os passos do irmão mais velho, Valdemar, e entrar para a Brigada Militar gaúcha.  Órfão do pai José Ortiz Duclós desde os 9 anos, quando saiu da escola para vender pastel na rua, a farda era a salvação: soldo, rancho, uniforme e armas. Só tinha um problema: a guerra.


E assim com 18 anos incompletos, o moço nascido a 14 de julho de 1913, partiu com as tropas da Brigada para lutar na revolução de 1930. Houve luta, não foi um passeio. Ele conta:

- Todos gritavam te abaixa! para o soldado que atirava em pé. Mas ele não obedeceu e levou um tiro na testa.

- A noite inteira sufocaram o soldado engasgado com um osso de galinha. Não podia tossir senão revelava nossa posição. 


Grande Elo Ortiz Duclós. Fez a guerra moço e uma família grande até partir para a eternidade. Tinha um ano a mais por merecimento. Era gato, como dizem no futebol  dos craques precoces com gana de maioridade.

16 de julho de 2021

PROCEDIMENTOS

Nei Duclós 


Banho de gato na maca

Injeção na veia bailarina 

A que dança diante da agulha e  que a enfermagem desafia 


Almoço às 11 e 30

Mantenha a postura da lateralidade 

Para a operação não desandar


Os procedimentos são  de quartel

Passo em marcha batida 

Horários rígidos 

Hierarquia dos maqueiros ao anestesista

Do raso da limpeza ao general doutor 

Que tem tua vida nas mãos  


Na despedida dizem não voltem

Vivam


DESTINO

 Pessoas operadas são outras  criaturas

não ficam nas calçadas  não cantam para a Lua

Não andam pelas ruas no rastro das costuras 

Enfrentam seu destino

Nas mãos do Absoluto

Nei Duclós 

GESTO

 Nei Duclós 


Pssoas operadas

Não tem rota de fuga 

Permanecem amparadas 

Por obra da família 

Um dia desamarram

O gesto hoje impossivel


Nei Duclós

DECISÃO

Nei Duclós 


Escrevo quando não tenho nada a dizer

Leio quando  já disse tudo

NA CAMA DO HOSPITAL

 Nei Duclós 


Na cama do hospital 

As noites são eternas 

Alguém alcance água

Ou traga roupa seca


Voltamos à  infância 

Sem margem para a lágrima

Valei-nos   ó Senhora

De Lourdes e de  Fátima

FIEL

 Nei Duclós 


Sou fiel à  tua beleza

Mesmo que dilua 

 O poema


A palavra  dói    menos

Passageira

TOQUE DE SILÊNCIO

Nei Duclós 


Como pode ser distante um país  que ocupa 1 quinto do território do planeta?

O Brasil fica perto

E ignorado pelos que estão  longe 

Assim é meu poema

Cercado de silêncio 

Sua voz é  amiga do vento 

Sopra por todos os quadrantes 

Poesia de um país presente 

Como diz o hino

Impávido gigante 

Claro clarim entre as nações que o contemplam 



AS MÃOS NÃO OBEDECEM

Nei Duclós 


As mãos não obedecem

Os olhos tem granizo

Pernas sem memória

O corpo esse enigma

Viver vira tortura


Mas chega o belo dia 

Que vem em seu socorro 

O amor e a medicina 

Que assumem

 o comando

Com Senhora Aparecida

UMA PESSOA OPERADA

 

Nei Duclós 


Uma pessoa operada

Escolhida para o cargo 

Não exerce seu poder

Agora fica amarrada


Imóvel como pássaro

 no miolo da tempestade 

Depende das orações 

Do bisturi e sua

 arte 


Às nações do seu país

Brigam por tudo ou nada 

Falta paz na diferença 

Conflitos viram vingança 


A pessoa operada 

Tem pouca margem de erro

A vida  além do extremo

Acima da voz suprema


Diante desse momento

O poema então se cala

Silêncio no fio da faca

Rondando o tempo sem trégua.