21 de setembro de 2019

NOVO MUNDO

Nei Duclós


Reconstruímos o mundo
Nas ruínas depois do cataclismo
Dele ficaram essas pedras retorcidas
Monumentos sem rosto
Esculturas de gigantes
Perfis de um enigma
Sem retorno a nos perguntar
Quem somos nós
Criaturas geradas em águas profundas
Ou pelo fogo fátuo das estrelas?



20 de setembro de 2019

INVASÃO

Nei Duclós


Não me entenda mal, a tua beleza não é o motivo
De me aproximar com tanto esmero
Fico longe pois conheço que sou número
Entre tantos que sobram pelos cantos

Mas fico à vista, a esperança é a grande fantasia dos cativos

É o teu jeito, tua auto estima
Que projeta essa postura de estadista
Como se fosses dona do meu reino
E eu um pobre cavaleiro andante

Por isso arrasas sendo apenas o que vives
Com esses atributos de escultura
Houvesse uma religião minha devoção
Teria a força de um templo dos romanos

Deixo meus exércitos fora da cidade
Como ordenam as leis dos sacerdotes
Mas a insurreição parece inevitável
Deusa do Olimpo que invadiu o Capitólio



19 de setembro de 2019

SAÍDA


Nei Duclós

Poucas palavras bastam para cobrir a fuga
Uma senha que encontre a saída
Uma porta de entrada
E basta para despir as roupas antigas
Ganhar outro nome
Viver de brisa



BARCO PEQUENO


Nei Duclós


Talvez precise, mas não devo recitar o poema
Dizê-lo em praça pública
Ou confiná-lo em salas de leitura
Ou sussurrar versos em pérfida epifania
Ou mesmo inseri-lo em discursos

Devo abster-me
Como se estivesse sempre mudo
Ele estará recolhido em conchas
Ou velhos livros
Enquanto me mantenho à deriva
No mar que é meu segredo
Barco pequeno que rema contra o Tempo



ARGONAUTA

Nei Duclós


A maior aventura é o conhecimento
É o que me anima, máquina do tempo
Não para saber, que é pilha nas estantes
Mas descobrir, navio dos argonautas

Ver pela primeira vez é o assombro
Terras ignotas, gigantes de granito
Crônica em papiro, diários de bordo

Voltar então com o olhar devassado
Por ter cruzado o mar de estrela distante
Marco polar, aurora permanente
Mais de um sol, luas delirantes

A grande aventura é conhecer-te
Amor, mulher madura, coração ainda verde



16 de setembro de 2019

ENSINO


Nei Duclós


Você me ensinou os poemas de amor
Me aceitou, me quis
Foi e voltou como as estações
Depois me exilou

Na solidão medito nessa consagração
Que me devolveu o sentimento
Que ao contrário de você
Ficou


14 de setembro de 2019

AMARRA

Nei Duclós


Escreveste na pedra para que eu não esqueça
Mas não decifro rabiscos ou hieroglifos
Fico na mesma, não te compreendo
Sou leitor desatento, homem sem brilho

Herdaste dos deuses a inteligência
És de outra estirpe, talvez de outra espécie
Sobrevivente de um cataclisma
Mas que sucumbiu com algo mais forte
Meu desamor, tosca linguagem
De poemas forçados diante da deusa

Sou arauto da dor, sumida princesa
Preciso reler teu alfabeto
Talvez eu encontre o que nos separa
E costure uma ponte e aperte essa amarra



NO BALCÃO


Nei Duclós

Por acaso nos encontramos num café, em lugares opostos no balcão.
Ela se mostrou surpresa pois achava que tinha sumido de vez do alcance do meu sonho.
Ficamos nos olhando longamente, chamando a atenção de quem estava ao redor.
De repente eu disse num murmúrio, arrancando dela um sorriso profundo:
- Eu te amo.

A mulher que estava de olho grudado em nós na extremidade do balcão, chorou.



13 de setembro de 2019

LAÇO DE CATIVO

Nei Duclós


Só você não leu o que te escrevi
Exausto da solidão, que é viver sem ti
Já pedi perdão, já me arrependi
Estenda sua mão que ainda estou aqui

Não pense que sumi apenas que sofri
E continuo teu como nunca estive
O amor é uma emoção, laço de cativo
Não nasce em vão, não ache que morri

Me dê uma razão, volte para mim
Posso imaginar se acaso te perdi
Mas não hei de passar por essa traição
Pois tens o punhal beldade de um verão
E podes machucar mais do que já errei



AFRODITE

Nei Duclós


Te roubei do altar onde um oportunista
Quase te levou do meu convívio
Queria te expor como um bibelô
E não pelo que és, glória feminina

Nasceste porque Deus chegou ao limite
Da sua obra, esplêndida Afrodite
Ele se apaixonou mas deixou-te livre
Já que não é Zeus e numa sarça ardente
Disse-me que eu não deveria perder-te
Que eu não sou Odisseu que abusou da sorte
E quando voltou ainda tinha a bela
Que a todos resistiu ao tecer destinos

Te roubei do altar, momento de perigo
Com meu cavalo branco que foi do imperador
Soldados nos seguiram fazendo a segurança
E logo depois casamos, o povo estava em festa

Jogaste as flores para mill mulheres
E o mundo te amou, noiva que me deste
A felicidade por ter corrido o risco



ESCONDERIJO


Nei Duclós

Não tenho mais acesso, levantaste um muro
Pelo crime de eu ter dito o que não devia
Foi em vão a carga de poesia
Que te de dediquei de maneira explícita

Resolveste te ofender, plena de vurtudes
E eu pecador, com meu jeito rude
Sem jeito de tentar uma nova chance

Foste embora por um erro de cálculo
O tempo é meu aliado, não o meu verdugo
Fico melhor no amor correspondido
Mas não perco o prumo, mesmo tão sozinho

Perguntam porque exibo este rosto triste
Acham que perdi o gosto pela vida
Nisso não aposte noiva em sóbrio exilio
Posso não sorrir mas serei forte
Busco onde estiver teu esconderijo
Do deserto vim, rastreador indígena



11 de setembro de 2019

TUS OJOS

Nei Duclós


Tus ojos tienen el frescor de las mañana
Tu cuerpo es árbol, agua de montaña
Soy tu pájaro que sube hasta las nubes
Dices amor e el mundo se transforma
Es la primavera muy temprana



O PRESENTE



Nei Duclós


Como brincar na rua se as ruas estão mortas?
Como aprender se perverteram os livros?
Como crescer se envenenaram a comida?Nei Duclós
Como sobreviver se destruíram o trabalho?
Como acreditar se aparelharam a fé?
Como obedecer se todas as tendências se corromperam?
Como sonhar se a arte foi devorada pela mediocridade?
Como pesquisar se anexaram o passado às suas hostes?
Como escrever num ambiente ágrafo?
Como te amar se fui amarrado à indiferença e o desengano?

Só a palavra solta me levará até a ti
O poema, último reduto de uma Criação humana
Respaldo dessa divindade que no berço nos deu o presente da alegria



4 de setembro de 2019

LUGAR

Nei Duclós


Viajei por todo lado o tempo todo
Serra e litoral, capital e interior
Pantanal e Passo Fundo, de maria fumaça com baldeação em Cacequi
Alegrete Itaqui e São Borja
Passei por Curitiba morei em São Paulo
Peguei um avião para Brasilia outro para Foz do Iguaçu
Cruzei a ponte e fui para Libres Bella Unión Quarai
Fiquei um ano em Blumenau dois dias em Santa Maria
Estudei e comecei a trabalhar em Porto Alegre
Conheci Ubatuba Cabo Frio Parati
Tomei chuva em Livramento e Rivera
De carona cheguei no Rio
E me estendi até Vitória Jacareipe Nova Almeida
De casaco pulôver terno camiseta calção

Estive em todos os lugares
Em qualquer idade
De Uruguaiana a Tramandaí
Da Lapa ao Butantã
Mas só num permaneci
O meu próprio coração



A LÂMPADA

Nei Duclós


Primeira letra quando nos conhecemos
Tu perfeita com tantos tiques humanos
Rosto sem aparelhos ou truques insanos
Olhos que me colocam aos pés de Vesúvio

Toda surpresa é um presente para quem está esperando
E parecia impossível e já nos desvencilhamos
Quem acredita no amor à primeira vista?
Certamente os solitários mas deixamos passar

Com o tempo o que senti volta ao lugar do crime
Procuro na praça castigada pela chuva
Olho para o chão e escuto: achou?
Não, dizemos em uníssono
Estava bem aqui mas agora está escurando
Debaixo da lâmpada que no fundo era a lua
Olho para ti a segunda vez que nos apaixonamos

É só um poema cercado de buzinas
E uma frase solta no ar
Um eu te amo



GARRANCHOS


Nei Duclós


Passou a hora do poema
Que eu entregaria em mãos
Fiquei com a letra ardendo
Muda na hora da desunião

Melhor assim. Vejo agora
Que era preciso reescrever
Para disfarçar a bandeira

É o que faço agora no teto
Sobre teu quarto fechado
Vou mudar para pássaro
E bicar tua janela até de manhã

Hás de notar o papel com garranchos
Que ostento para que leias

Não me importa que digam
Queo amor é tão ridiculo
Que parece bobagem o sentimento


1 de setembro de 2019

ÁGUA DO PLANETA

Nei Duclós


Em cada planeta as criaturas escolheram os elementos essenciais da vida.

Em Jupiter foi o gás em Mercúrio o enxofre em Plutão a sombra na Lua a areia em Vênus as nuvens baixas pesadas em Marte o fogo em Saturno os arcos e na Terra foi a água.

Daí vieram os lagos os rios os canais as cisternas as cachoeiras os aquedutos as represas.

E também a Deusa da Água, mãe generosa sem a qual não haveria nada a não ser pedras colocadas por toda parte a expor o remorso do dilúvio.

E tem o mar, espaço não domesticado a combinar com o vento o terror do desamparo e com o sol os gloriosos dias de praia.



26 de agosto de 2019

FALSO RECATO


Nei Duclós


Escrevo para ti sem que ninguém saiba
Nem mesmo tu, namoro sem futuro
Escondida em tua esfinge trêmula
Sei onde mora teu desejo
Olhe para mim, falso recato
Charada em papel de almaço
Canção de realejo em remota praça

NOVO CONTINENTE

Nei Duclós


Éramos amigos antes da política
Éramos irmãos, éramos amores
Tinhas uma flor em cada despedida
E um coração nos sons de uma visita

Disseram que era errado beijar se houver conflito
E dar as mãos se houver necessidade
Exigiram a prestação da identidade
Decorar a lição, provar fidelidade

E eu que te queria fiquei na solidão
E tu que eras minha agora és partidária
Não abrimos a boca sem que nos contestem
Amor só entre iguais, modorra de uma peste

Vamos fugir negando essas bandeiras
Voar em direção do livre pensamento
Cruzar o mar sem contrariar o vento
Voltar a descobrir um novo continente



METEORO

Nei Duclós

Nenhum meteoro atingiu a terra
Foi ela mesmo que ficou mais densa
E seu fogo recolheu-se para o centro
Mudou o ambiente amigável aos gigantes
E os dinossauros foram extintos
junto com outras grandes criaturas
Não havia mais clima
Agora a terra ameaça explodir-se
Porque chegou novamente ao limite
Somos esse meteoro de desavenças
Venha impor a paz, açucena
Com tua doçura sem o sal da profecia


PARTIR

Nei Duclós


Partir, dizem os sinais
E as bagagens se acumulam pelo cais
Todos vestem roupas de sair
Deixando o próprio coração para trás

Medo da guerra, medo da miséria
A falta de confiança é geral
Não há futuro na pátria que já era
Embarcam no adeus, a fuga contra o mal

Mas eu fiquei porque não estás de mudança
Abandonada na rua sem vizinhança
Buscas o pão mal rompe o alvorecer
Criança ao colo tens tempo para as flores

Arrancas no caminho as ervas daninhas
E o viço das miosótis esplende em tom diurno
És jardineira, vestido com cintura
Algodão prudente sobre a pele nua

Te imagino minha nessa solidão que tarda
Sigo pelo olhar teu andar enxuto
Só tenho a poesia, último cartucho
Quando explodir o mundo cubro a retaguarda



LÁ DENTRO

Nei Duclós


Amor jamais é um erro
Não gera arrependimento
Cria um mundo paralelo
Que é o mundo verdadeiro

Fora da sua fronteira
Existe dor e remorso
Lá dentro mora o desejo
A paixao e a inteligência

As almas que se apaixonam
Vivem o sonho mais denso
Não acaba. Só dá um tempo
Amor, volte para sempre



ÚLTIMO BANHO

Nei Duclós


Com os pés sujos de areia
Os joelhos gastos de uso
A pele antes do chuveiro
O cabelo, ombros, tudo

Dizer no meio do agarro
Que gostas do corpo alheio
Liberto de outros dengos
Barro com lã te desenha

Esperar que recomponhas
O gesto no tempo feio
A beldade que se entrega
Sabe o estrago que arrebenta

Sair depois a passeio
Cumprimentar os passantes
Com a cara de tratantes
Amor que dispensa espelho

Olhar o mar visitante
Aonde brota a lua cheia
Tomar o último banho
A convite das sereias

Dormir então de olho aceso
Alerta aos movimentos
Se acordas estou atento
Não perco nenhum momento


A INTELIGÊNCIA

Nei Duclós


Queria teu rosto tomando conta
do meu espaço.
Mas chamaria a atenção
e tiraria pedaço.

Jamais perdoam a admiração
pelo que tens de flor,
da tiara ao sapato. O espanto
da tua inteligência. o amor.



GETÚLIO EM AGOSTO


Nei Duclós

Um tiro no coração
Nas fuças da nação
Um tiro no coração
Logo depois da reunião
Um tiro no coração
Para que saibam a razão
Um tiro no coração
A morte em sua mão
Um tiro no coração
Está exposto o caixão
Um tiro no coração
O povo puxa o cordão
Um tiro no coração
Pai com gesto de irmão
Um tiro no coração
No agosto da traição
Um tiro no coração
A dor de baixo calão
Um tiro no coração
O corpo abraça o torrão
Um tiro no coração
Quem lhe tira a decisão?
Um tiro no coração
Fica eterno esse bordão
Um tiro no coração
O sangue brota do chão

Presidente
Getúlio Vargas
Presente!
 

PERDI MEU TEMPO


Nei Duclós 

Perdi meu tempo, o Tempo levou
Ficou obsoleto o que tanto me tomou
Agora fica limpo o cenário final
O corpo não descansa em piso terminal
Prefiro estar corrente do que fingir espanto
Saio do meu canto e desafio o piano
Não tenho com isso nem o mínimo lance



A REVELAÇÃO


Nei Duclós


Eram muitos deuses porque o trabalho árduo
de vestir a terra de canais e monumentos
Mais os altares e as montanhas imitando templos
Com suas torres e terraços amplos
Precisava de mãos e da vontade dos gigantes

Eles então criaram a obra
Que hoje é só vestígio de ancestral espanto
Deixaram as pedras com formas ignotas
E rostos enormes de olho no horizonte

Tudo o que hoje pisamos é sagrado
Deuses provisórios se esforçaram
Para merecer a grandeza da primeira santa
E anunciar pela voz do arcanjo
a vinda de um Deus, síntese e convênio
Nascido de uma estrela de oriental comboio

A revelação é nossa epifania
Herdamos o eco de um Amor sem fundo
Não dá pé esse mar de corais extremos

Diante da criação somos todos mudos
a oração contrita expressa num mergulho
Deus está vendo e vive no comando
Aguarda o tom humano que resta neste mundo


HABITAR

Nei Duclós


Os espíritos se identificam
Na escassez das chances
O mundo não existe
Para a invasão recíproca
O normal é o isolamento
Somos casas sem número
Teu olhar fica restrito
Às minhas janelas de vidro

Dentro de ti habita
Alguém que me surpreende
Aproxima-se o desconhecido
Tuas peças sem liga

É mais do que estranho
O que sinto
Piso no lenço distraido
Somes na escuridão

Fica para depois
Ocupar a sala onde mora
Teu olhar de prisão, aflita.



20 de agosto de 2019

REENCONTRO

Nei Duclós


Um rosto conhecido
No século novo
Cercado por multidões
E cidades frias

Antigos verões
De nossas famílias
Banhos de sol
Expunhas o espírito

À noite na varanda
O amor de véspera
Não havia mais portões
Para a dose certa

Emerges agora
Na tarde chuvosa
Mal me enxergas
Coração de memórias



CAIO NA ARMADILHA

Nei Duclós


Acerto sem querer, acusas o golpe
Num súbito suspiro sufocado
Tens o peito tenso pelo impacto
do que eu disse, ao atingir o alvo

Agora essa ressaca
Em que aguardas a repetição do ataque
Mas eu não vi como fui certeiro
E me distraio te deixando brava

Mulher navega em outro território
Numa estratégia de diversa caça
Costura o rumo que deixei à solta
E me recebe como quem não sabe

Eu caio na armadilha, preso na graça
Que exalas fingindo não saber que matas