16 de janeiro de 2020

FURTIVA


Nei Duclós 

Arrisco dizer mesmo sem clima
Num quase remorso do desperdício
Pois muito já disse e fiquei na mesma
Ocupo um lugar sem força de arrimo

Perdi na política e no sentimento
Avesso aos conselhos não sou mais humano
Recebo o vazio como pobre cântaro
Feito de barro e de esquecimento

Na rua mendigo aguardo a lua
És tu, porção de conflito
És minha inimiga, amor sem desculpas
Mostro meus olhos de água furtiva
Teu coração, eu sei onde fica



14 de janeiro de 2020

ÁRVORE

Nei Duclós


Dentro de ti é onde eu moro
Não sendo casa nem ninho
Paredes do teu carinho
Funcionam como refúgio

Colheste meu abandono
Sem dizer água nem vinho
Deste amor onde não tinha
Rosto virado para o leste

Hoje sou teu acolhido
Faço tudo o que não digo
Gozo de flor e ametista
Árvore de brotos mais puros



HÉRCULES

Nei Duclós


Não posso te enganar, enxergas longe
Olhos de lince, águia no topo
Desces o abismo até minha garganta
Foges aflita depois que me esgana
Sou verbo de carne és pomo de ouro
Meus doze trabalhos inclui teu trono
Só volto depois que apagaste meu sonho
Não passo de um celta a enfrentar meu rebanho
Que perdeu-se no mato sob o fogo romano
Princesa de jóias de puro diamante
Esgrimas no poente quando não sou mais humano



12 de janeiro de 2020

IMPRESSO

Nei Duclós


Jornal impresso dava noticias com menos pressa
O furo pertencia à rádio ao plantão do noticiário
Não que o jornal impresso oferecesse só a análise
Disso também se encarregavam as ondas Hertz
E hoje sobram em mil sites
Mas era um cardápio com forma organizado
Em folhas que obedeciam teu cérebro
E ofereciam competência em textos imagems e manchetes
Obra de veteranos escolados e estagiarios de densa mocidade
Amantes da linguagem aprendizes da coragem
Haviam as reportagens apuradas aos trancos pela deadline
Os erros os acertos e as seções a cargo de visionários
Tudo isso lido de manhã num tempo dividido entre a dor e a felicidade
Quando existia o mundo que no fim foi embora
 

CON LA PALAVRA


Nei Duclós

Te dibujo con la palabra
Eres la loca paisage
De mi alma
Un árbol vino en socorro
El sol muere en la luna

 *
Me gusta quando dices no
Y sonries con tu cuerpo guapo
Tengo la culpa por seres tan bella
Hija de un dios hecho de marmol
Y del amor, peligro de pájaro



O TEMPO É SOM

Nei Duclós

Um baterista lendário passa todos os minutos da vida aprimorando sua arte
Assim deve agir quem se dedica à literatura
Não que fique o tempo inteiro se corrigindo ou reescrevendo
Mas colocando seus acertos de talento e experiência no espaço mais esticado de tempo.
Quando se for permanece intacto o som da sua obra
Desdobrando cada letra como num acorde


4 de janeiro de 2020

O QUE NOS DIZEM?

Nei Duclós


Não compreendemos o que nos dizem 
esses ancestrais de pedra
Nem como construíram esses monumentos 
que nos assombram
Ou como viviam antes que algo poderoso
Talvez o próprio Tempo
Os devorasse

Podemos adivinhar suas esculturas 
altares e templos
E seguir seus passos pela água corrente
Que ainda verte em suas eternas entranhas



2 de janeiro de 2020

CRIME

Nei Duclós


És um crime que cometo
Musa sem o dom da profecia
Sabe-se lá de onde você veio
Do eu profundo ou de uma dor tardia

Sou o pastor bruto e mal nascido
Que apascenta o gado reiúno
Vejo-te passar com séquitos de duendes
quando concedes a flor da tua presença

Desisto de te amar, é muito grave
a solidão quando deita raízes
ainda mais que preferes ser princesa
de um castelo feito de granito

Te ofereço mais, a poesia
mas não escutas, essência do divino
deverias abdicar do trono, à revelia
dos teus sonhos e desejos mais íntimos



SEMEEI A SOLIDÃO


Nei Duclós

Semeei a solidão com a palavra exata: o silêncio
Foi em vão a viagem no alheio coração. Sou a passagem
Entre a oração e a fuga sem perdão
Deus é a dor que tive em minhas mãos
Surdo combate



28 de dezembro de 2019

O DESENLACE

Nei Duclós

O único abraço é a despedida
Quando vemos num relance a ruptura
Estás inacessível apesar de amante
Mas cedes um momento de doçura

Todos que nos impedem são atentos
Testemunhas do amor em desenlace
Eles vencem, mulher que me tortura
Com sua glória de deusa mais humana

Enfim nos separamos, fica o travo
Do corpo ainda morno em luz e sombra
Vivo desse instante flor pele madura
Artista que me inventa e ressuscita


14 de dezembro de 2019

VOO LIVRE


Nei Duclós


As vitórias se acumulam no despejo
O que espero depois de tanta vida?
A não ser repetir o que já tive
A mocidade clara e a glória efêmera

Talvez finalmente estar contigo
No veludo de um amor que não arruina
Tocar tua pele, entrar no abrigo
E de lá vislumbrar o que me falta

Esse dom de provar o que é eterno
Sabor de uma beleza nunca vista
E que não morre porque se alimenta
Do teu espírito em flor e voo livre
 

ÚLTIMA POEIRA

Nei Duclós


Joguei tudo fora
Cada emprego cada amor cada amigo
Cada cidade onde vivi
Cada oportunidade
Cada momento feliz
E fiz isso com determinação
Joguei fora roupas papéis objetos
casas ruas e quintais
Meus discos e livros
E tudo o mais

E aguardo o proximo passo para o fracasso
Que acumulo em currículos desiguais
E sonho em jogar no lixo
O que me torna imortal
Essa fuga de mim
Até os confins da última poeira estelar



8 de dezembro de 2019

VALOR DA PALAVRA



Nei Duclós

As palavras não valem mais nada
Na notícia nos poderes nas conversas
Perderam a magia nos livros
Ausentaram-se nas profecias
Não dividem mais os pensamentos com o silêncio
São recolhidas no lixo
Palavras de amor perderam o sentido
O entulho se acumula nos espíritos
Assediados pela voz dos catequistas

Só no poema elas assumem o risco
De resgatar o valor oculto
Assim mesmo precisa de ouvidos e leituras
Que rompam a exaustão dos dias
 

FALSO AMOR

Nei Duclós


Esse falso amor do poema
Em que finjo ter uma vida plena
Já não te convence
Ninguém experimenta
O que nada possui além da aparência

Esse consenso de que somos bons
Quebra como no deserto
Quebra o último jarro de água
Que evapora

Nada coloco no lugar ausente
Nem mesmo o amor que não mais lembro

FLOR EXTREMA


Nei Duclós

Imagino que não chego perto
E estou condenado à distância
Sem ver que abriste o coração
Sem abrir mão de tuas riquezas

Isso deveria me tocar
Flor extrema do meu escasso dom de te enxergar



ESSE ENROSCO

Nei Duclós


Passa ao largo do teu sonho
O que apronto em fantasia
Melhor do que amor ao vivo
Por driblar certos conflitos

Provo o mel pego a cintura
Navego em águas de naufrágio
Depois com a cara mais lambida
Digo oi no teu espaço

Ou talvez eu seja o alvo
Desse enrosco sem medida
És o núcleo da armadilha
E eu um tolo assumo o crime


BOLETINS


Nei Duclós

Jogados a esmo os poemas
Para que tropecem neles
Sem cair de amores
Pela tal literatura

Como conchas, como frutos não comestíveis
Que pingam de arbustos irreconhecíveis

Como boletins de lojas que sumiram
E anunciavam novidades em jipes
Que nos atraíam meninos
Em estupenda algazarra

Nada comprávamos dos anúncios
Mas fazíamos coleção
Batizando os papeluchos
De boletinhos

Assim também os versos que voam pela rua
E nossa alma guarda
Em envelopes de sonhos



30 de novembro de 2019

CADENTES

Nei Duclós


Estrelas caem de maduras
E são colhidas
Pelo orvalho da manhã

Repousam úmidas
Depois do incêndio
Buscaram água seguindo a nuvem

E agora jazem junto às conchas
Que guardam sons
De Aldebarã



TUDO É POUCO

Nei Duclós


O pouco de mim que te mostro
É tudo o que eu tenho
Esse rosto que o tempo não remoça
Esses versos que ponho na roda

Escondo o que não vejo
Minha alma confusa
Meus olhos com medo
Meu corpo em gestos tensos

O nada que sou capturas
Amor que não se dobra
Flor que não mereço



29 de novembro de 2019

LINHA DO TEMPO


Nei Duclós


Deixo passar tua linha do tempo
Depois tento remendar com likes a esmo
Mas fica o travo da total indiferença
O espaço entre nós não é mais o mesmo

A distância, além de raízes, projetou raios
Que atingem as nuvens mais remotas
Assim não nos vemos neste inventário de perdas

Trocar poemas ler o que escrevemos
Não basta para um dia precisarmos
Nos socorrer na guerra que na preguiça cultivamos


28 de novembro de 2019

INSTANTE

Nei Duclós


Rompemos antes de começar
A separação é a única forma
De nos conectar
Temos sempre razão de não amar
A solidão é a herança maior
Do que achamos ser civilização
Esse amontoado de palavras
Ditas em vão

A não ser que possamos sorrir
Sem outro motivo
Do que o prazer de encontrar
Por um instante
Alguém vivo



VERSO É VIDA?

Nei Duclós


Será viver o intervalo do poema?
Ou é adiar o que deveríamos ter feito?
Preenchemos o vazio com frases feitas
Ou despertamos o braseiro da essência?

Acreditamos ser perda de tempo
Ou confiamos que nos fala um anjo
Na voz do verso jamais completo
Acidente da palavra rente ao abismo?

É arte de fina estamparia
Metais fundidos em diamante bruto
Ou só conversa, triste espelunca
Da lábia ansiosa que jamais descansa?



20 de novembro de 2019

ESPREITA


Poema não reproduz frases feitas de denúncia aplauso ou indignação.
Trafega em outro canal, de natureza diversa aos lados do engajamento ou isenção.
Esclarece o perfil não humano da linguagem
Herança ancestral à espreita no fim da viagem.

PÓSTUMO

Nei Duclós


Enterrei o poema. Estava vivo
Batia insistente na tampa de vidro
Escutei na superfície onde me achava
Surdo e esquecido

Mergulhei para ver o que fazia
Mas era impossível libertá-lo
Sua voz confundia-se com o silêncio
E as letras boiavam no aquário submerso
Com falta de ar

Precisei subir e me enredei na vocação
Jogada fora como lixo
Encalhando os navios

Ainda escuto os murros trincando o sepulcro
Rezo para que consiga
E venha me salvar deste fim precoce
A que me submeti por falta de sorte



7 de novembro de 2019

NA PONTA DA LÍNGUA

Nei Duclós


Não use palavras mortas
Que perderam o sentido
Assassinadas pelo obscurantismo
Mas as antigas que ressuscitam
Ou as novas que sobrevivem
Ao domínio da gíria

Use a língua culta
Alfabetizada pelo ensino
E que serve em todos os nichos
Inclusive nos lugares que a criticam

Faça versos que não temem
Qualquer inimigo



6 de novembro de 2019

FECHAMENTO

Nei Duclós


Estavam todos vivos até há pouco
o Tarso com seu jeito louco
o Scotch com a barba de Cuba
o Bi arregalando o olho
juntando laudas com Sergio de Souza

Estavam todos vivos até há pouco
o Múcio sempre nervoso
o Fortuna com cara de ogro
o Marcão Faerman e seus rebanhos
Markito e Gaguinho, que se foram cedo

Estavam todos vivos até há pouco
nas redações de telefone preto
nas teclas de duro alfabeto
nos papéis errando a cesta
nos gritos, gargalhadas, canetas

Estavam todos vivos e nem eram moços
tinham quilometragem em carne e osso
gastavam tudo pois não havia posse
apenas a fúria de escrever uns troços
que eram a vida inteira em papel impresso

Estavam todos vivos ao redor do fogo
que jamais morria por falta de histórias
havia algo maior acima dos armários
ou das madrugadas na ponta do lápis
talvez a eternidade sem se darem conta

Eu estava no meio, aprendendo o ofício
querendo ser útil, um irmão mais novo
um recém chegado ainda sem pouso
recebido como um igual e não era o caso
fui apenas o sujeito que ficou por último

Estive com eles até há pouco
meus irmãos de esquinas e encontros
títulos definitivos, páginas em branco
textos com precisão de linha de tiro
sons de baterias metralhadas ao longe

Por isso mostro hoje esse andar aéreo
como quem procura aquela dúzia de tontos
talvez eu esteja ainda lá, perto da meia noite
quando o mundo explode e não há mais tempo
Não tem por onde sair na hora do fechamento



ASTUTOS

Nei Duclós


Os demônios são astutos
Incorporam a crítica
e atribuem o que são
aos quem os caça
De raposa para cavalo
De onça para atiradeira

Os demônios são fajutos
Mas assumem a nobreza de espírito
Fraque sobre o lixo
Medalha de corruptos

Os demônios são batutas
Vanguarda em falsa cultura
Modelo de terror com brilho
Tortura em capa de revista

Os demônios são redutos
Ninho de correção esdrúxula
Olimpo de extrema feiura

Acham-se impolutos
E não inoportunos
40 dias no deserto
Resistem os justos



4 de novembro de 2019

TEMPORADA

Nei Duclós


O que é feito fica
Obra que te visita
Após o desmanche

O que posto some
verbo pastel de vento
Conversa posta fora

O que esqueço volta
Memória que não mereço
História fora de hora

O que escrevo queima
Temporada de incêndio
Leitura abaixo de bala



31 de outubro de 2019

ÂNCORA

Nei Duclós

Estávamos à deriva.
Quando nos encontramos eu lancei âncora.
Mas era alto mar
E continuaste à disposição dos ventos

Agora é cais
E me cobras posição
Não temos mais razão
Para aportar
Já me acostumei a te procurar
Em vão


27 de outubro de 2019

PERDIDO

Nei Duclós


Tantas vezes te perdi
Mudaste de identidade
Mas sempre foi o mesmo amor que desisti

Vai-te embora de mim disseste
Coração sem pouso cais submerso
Teto derrubado sítio sem cercas
Migrante no vento

Nada medra no teu áspero cultivo
Amante perdido sem memória