3 de julho de 2020

PRESO


Nei Duclós


Confinado nos limites dos meus recursos
Não noto o quanto posso estar preso
Até experimentar um choque de realidade
Quando com pena te enxergam
Debatendo-se no escuro surdo e mudo

Todos plenos de si em suas normalidades
E tu, avesso outsider
És apenas um mendigo na terra de castas
Pontificas para o nada no quintal do teu drama

Penso nisso quando estou na cama
E me faltas, amor que não retorna


ESSE AMOR


Nei Duclós

Esse amor que te consome
E não abre espaço para mais nada
E que testa teu fôlego
Desafia teu olhar com sua beleza
Que não dá trégua por ser destino
Em que te coloca na exaustão extrema

Esse amor
Que todos dizem deixa
E não tens forças, apenas sentimento
Corvo abatido em pleno voo
Por um tiro impiedoso
é só o que resta
Na Criação de miseráveis perdas

Esse amor
Guardião ou gueixa
É a única felicidade em teus redutos
Onde te reduzes a uma surda
monstruosidade humana



ESSE OLHAR

Nei Duclós


Esse olhar que busca
Ou que de frente impacta
Até cair no espelho
Que trago no fundo de um poço
E que se estraga, meu amor ferrenho
Intenso ferrado

Tua imagem é o que dizes de mais nobre
Sem nada para discordar, puro conceito
Teu rosto peito
E tuas mãos que falam melhor
Conforme se aproximam

És feita de calor
Ninho da palavra de amor
E da verdade



EU TE INVENTO


Nei Duclós

Eu te invento sem saber o quanto
Digo o que vejo no fundo e na aparência
Isso basta para que te aplaudam
E te deixem com síndrome de glória
Enquanto vou para escanteio

Ensinam que o sábio aponta a estrela
E o idiota presta atenção no dedo
Já acho que apontar é o segredo
A linguagem que forma os eventos
Amar o alvo esquecendo a seta
É o que te faz metida a sebo



MUNDO AFORA


Nei Duclós

Hora de recolher o lixo
dentro do corpo partido
Parto de ar que se fina
em memórias de granito
Distrair a palavra no circo
de um renovado convite

Moro agora na paisagem do alívio
Trabalho para mais de uma vida
As ruínas ainda persistem
mas ficam além do martírio
Virei duro especialista
de uma ciência ainda no início

Mundo feito de escudos
emerge sobre o monturo
Hábitos que me desistem
Certezas de vulcão extinto
Como se eu fosse alienígena
de um planeta sem batismo

Combino com os semelhantes
o instante da semeadura
Terreno estéril sem planos
água escassa na cacimba
A verdade vem à tona
sem tempo para a vingança

Escrevo sobre as paredes
que balizam meu remorso
Nada resiste ao escombro
a não ser a nossa força
Acordo fora da sombra
O sonho vem em socorro


(Poema sobre o mundo pós pandemia)

28 de junho de 2020

TRONO


Nei Duclós

Tive o respeito das mulheres do meu tempo
Disse em andrajos antigo cavaleiro
Não porque tenha feito tudo certo
Ou tenha sucumbido ao arrependimento
Mas porque errei por contingência,  sem maldade
E não tive margem para dominar a natureza

Não foi desculpa mas uma nova chance
Quando me foi permitido chegar perto do trono
E fui colhido pela beleza

Disse então um poema
E todos os corações em perdão se derreteram



EM TODO LUGAR

Nei Duclós


Em todo lugar há vida
Que existe sem que ninguém interfira
Em oceanos submersos de Júpiter
Em anéis de luas de exoplanetas

Até que nela surge a consciência
Que pergunta sobre sua origem
É quando Deus acorda
Do seu sono profundo



FLOR

Nei Duclós


Flor não diz tudo, mas é mais intensa
Do que o silêncio ou a fala errada
Morre na planta ou no jarro
mal desabrocha
Mas por instantes cumpre
sua sina de ser clara
com qualquer cor ou nenhuma

Flor é a que te dou, gesto de espuma
Antes que a cama ou o beijo
nos consuma



INGENUIDADE E CULPA EM VICTORIA E ABDUL


Nei Duclós

O filme de Stephen Frears, na Netflix, apresenta os dois protagonistas por  meio de gestos. O muçulmano indiano Abdul (Ali Fazal) caminha apressado em passos curtos a revelar sua ingenuidade no meio da multidão, onde é chamado de imbecil quando tropeça num militar inglês. Seu trabalho é registrar prisioneiros num grande livro, o que demonstra que trabalha para a lei na Índia ocupada, portanto é inocente.

A rainha Victoria (Judi Dench) é apresentada como uma inválida manipulada pelas servas e que come apressada no banquete preparado pela Corte. É dona de um império que domina 1 bilhão de pessoas. É, portanto, culpada.

Mas ela é a lei e escolhe Abdul para seu confidente e professor. Os papéis então se invertem. Ela nada sabe sobre a Índia que seu  exército e marinha dominam e resolve aprender a cultura que desconhece com o solicito escrivão. Nessa situação ela é ingênua pois acredita em tudo o que o bonitão diz, para escândalo da Corte, que vê a ascensão social do penetra.

Abdul aproveita seus conhecimentos que são novidades para a rainha e mente sobre sua familia, sua profissão e a História do seu país.  É, portanto, culpado.

O flagrante causa impacto mas não quebra o vínculo.  O que os une é a diferença.  Cada um vê no outro a oportunidade de sair de suas prisões. Um da miséria e a outra do tédio.  Funciona até a morte da rainha, que se fina nos braços do seu sábio confidente. Ambos foram ingênuos e culpados, cada um a seu tempo, mas jamais inocentes. O humano amor que medra na diferença eleva-os, apesar da injustiça imperial, da fatuidade cortesã, da violência da exclusão, do desperdício e do deboche.

 filme não é ingênuo,  culpado ou inocente. E apenas cinema, essa arte confinada em si mesma.



FLOR DO ABANDONO

Nei Duclós


Você mostra a flor e depois some
Finge que está só de passagem
E não encarna a criatura viva
Que te representa e substitui

Porque é a flor que abraço quando durmo
A flor que vejo quando acordo
É a flor que da janela acena
E não tu, mulher que me abandona



25 de junho de 2020

NO CHÃO


Nei Duclós

Não lembro o que falei há pouco
Só da tua reação; me chamou de louco
Como posso ser são, se me apaixono
E você se afasta em todos os voos

Paro o avião e grito para a aeromoça
Ela não pode embarcar; está me devendo
E não serve como pagamento
Um amasso  ou beijo, isso e troco
Quero você no chão, não és gaivota
Escute o que falei, foi só eu te amo
.    .


COMPASSO


Nei Duclós

És o pano amassado da bandeira
Que o vento veste no mastro
Antúrio que oferece a imensa pétala
À baliza ereta em vertical compasso

Flor aberta, solidária safra
Colheita que armazeno sóbrio
Falta apenas te convencer do óbvio
Que em teu jardim instalei minha roça



NO RESERVADO


Nei Duclós

Ao vivo não existimos
Em público nos acenamos
No reservado não somos
íntimos

Presença estranha
Feita de luz e linhas
És minha
Sem que eu saiba
Sou teu
À revelia



21 de junho de 2020

NA HORA


Nei Duclós

Chega uma hora
em que perde a graça
O que tens de sobra fica escasso
Toda tua obra se esvai no espaço
E no vazio nada medra
A não ser o medo
É quando desperta
o que em ti dorme
A coragem



NOSSA BARRA


Nei Duclós


Como a luz do sol invente o dia
Que convive com a sombra clara
Os pássaros já se serviram e foram embora
Deixaram rastros de voos que se cruzam

Não pense em depois, viva agora
Não como conselho de autoajuda
Mas no ritmo da criação,  Deus não descansa
Porque sente prazer em visitar a Terra

Toda lembrança vale, todo sentimento
Impregnado na rocha da palavra
Siga as pegadas do amor, esse confisco
Do que há de melhor em nossa barra


COMPLETA

Nei Duclós


Não tenho medo de dizer: você é bonita
Porque isso não nega todo o ritmo
que completa tua biografia
O de ser única, feliz ou ressentida
Batalhadora, tímida, esquecida
Que briga com o espelho e a injustiça
Porque não vê em si nada especial

Mas já sabes e eu repito
Beleza não é crime é só a chance
De eu acreditar na minha sorte
Não pelo álibi da conquista
Mas porque assim consigo
Acreditar no sentido da Criação, tão posto fora
Essa devoção diante do teu rosto onde respiro
Para sobreviver à guerra, louco esporte
Onde todos matam mas no fundo morrem


SESTA


 Nei Duclós



Acordei à tarde com desconforto
Um frio oculto chegava aos ossos
O inverno com sombras e sol em fuga
Te deixa tonto sem saber por onde
E os livros jazem na varanda
Os pássaros roubam ração de cachorro
E a rede enfim livre de mim descansa

Onde foi nesmo que deixei aquele poema
Que não falava de amor mas de problemas
Ficou no sono da sesta meio confuso
E o crepúsculo passa a galope na hora extrema
Já é noite e ainda não vi estrelas


NO CONVÉS


Nei Duclós

O que fica muito perto podemos estragar
Prefiro esta distância de além mar
A fantasia nos gruda no convés
A orquestra do navio toca sem parar
O amor não consegue naufragar



18 de junho de 2020

TUA INOCÊNCIA




Nei Duclós


Eu acredito na tua inocência
Tua proximidade sem nada no bolso
Pureza de atitude, limpa vontade
Sem querer invadir com notícias falsas

Acredito que que não vens aparelhada
Achando que me faz a cabeça
E outras bobagens
Como se eu fosse um quadro da massa

Também considero que estás solitária
E precisas existir como eu na conversa
No mimo liso sem tantas promessas
Apenas o humano fora de disfarces

Que nosso silêncio seja legitimo
Nossos cumprimentos alegria
E breves as diárias despedidas

Venha que vou neste território sem minas
Que são colocadas e ficam prestes a explodir
O potencial do carinho


COLETIVA




Nei Duclós


Quem é você na foto coletiva
Nesse grupo de amigas ou de família
A da frente mais exibida
Ou a do canto quase de saída?

Preciso saber qual rosto te define
Já que a distância nos faz desconhecidos
A face que mostra a vida bem vivida
E a outra, com certo sofrimento

Não quero o tom invasivo
Apenas ver o que queres ser visto
A não ser que te escondas em lugar não sabido
No meio das gentes e paisagens aflitas


EXISTIR




Nei Duclós


Você evita me olhar depois de tanto tempo
É como deixar de existir

Fecha a porta atrás de si
É como ficar prisioneiro

Não tem paciência mais de me ouvir
Surdos momentos
Esquecemos de sentir
Pedras de gelo
Quando chega o inverno
É dentro de nós que neva


BALDIO




Nei Duclós


Vesti as pessoas
com o que elas não tinham
Nobres princípios
talentos ocultos

Depois que pularam o muro
Descobri o terreno baldio
dos seus escrúpulos

No fundo me via no Outro
O bruto era eu
em busca de companhia


O CÂNONE


Nei Duclós

Revelo o mundo ao abordar minha aldeia
Diz o autor canônico
Só que isso não inclui
O cliché

O olhar medíocre
Mantém o tom provinciano
Enquanto o mundo passa ao largo
Indecifrável



DISCURSOS


Nei Duclós

Poesia não dá conta
Da situação
Palavras não são suficientes, meu irmão
A linguagem é do porrete
Mundo cão
Verso e flor apodrecem na sarjeta
Agora é ação

É o que me dizem quando faço literatura
Obra de um tempo obsoleto

Quem me dera ver o fim da escravidão
Das nações presas ao lixo dos discursos



O LUGAR


Nei Duclós

O lugar dos nossos sonhos
Fica afastado de tudo
Ser feliz é o abandono
Mas esquecemos que nele
Não existe o que já somos
Seres urbanos até o osso
Hábitos mundanos mas nossos

Olhamos para as paisagens
Achando que estamos feitos
Bastaria algumas malas
Para a vida resolver-se

Mas como os antigos amores
A casa que nos tem hoje
Escondeu os seus encantos
E eles assim se revelam
Quando chegamos no ermo
Solidão que é o desespero
Do que não vemos tão perto



VIRTUAIS


Nei Duclós

Preferimos virtual do que ao vivo
Porque a crueldade em corpo físico
É infinitamente maior
Do que o desconforto nas postagens

Por isso vivemos sozinhos
Cercados de perfis vivos ou mortos
Comparecemos com likes ou amei
Sem nenhum toque nos lábios

As palavras sem apoio são nuvens
Que vão chover em outro lugar
Tapam o sol promissor da manhã
E fecham nosso semblante duro

Mas há uma chance, só uma
Quando me chamas de besta
porque me ama
E marca o encontro improvável
Entre o sonho e a dor de ser humano

Nei Duclós

13 de junho de 2020

SAIR


Nei Duclós


Sair de cena, e do palco para sempre
Desistir de ser exemplo ou suserano
Não acreditar que somos o fino
De querermos ser reconhecidos
Ao virar mestres, guias, lideranças

E abraçar o que nos faz humanos
Livres dos sinais e profecias
Vivos como água da montanha
Que desce por amor e contingência
Para matar a sede na planície

Lá onde cresce a flor que tu cultivas
No coração do tempo e do abandono



RAIZ


Nei Duclós

Decidi errado
E hoje colho o fruto amargo
Do que poderia ter sido
O desperdício num pomar avulso
Ninho de tapera, nicho só de espinhos

Mas o que perco tem o lado vivo
Onde nasce a chance de sair por cima
Salto no abismo e tuas mãos me amparam
Amor eterno, raiz do paraíso



11 de junho de 2020

BUSCAMOS


Nei Duclós

Onde some a palavra do dia
Que buscamos nos cantos
De quartos vazios
Nas basculantes emperradas
Nos telhados sem segurança
No pomar sem estilo
De frutas caídas
E muros para ausentes vizinhos

Onde some a memória
Diante da inútil poesia
A vida que tivemos em vão
Porque somos como a palavra perdida
Sem testemunhas



AMANHECE


Nei Duclós

Não sei quem é você
Mas meu sonho te conhece
Mesmo desconfiada
De quantos te aparece
Porque pouso em tua pétala
Rosto agreste
E vejo quem tu amas
Aquilo que amanhece
Nas nuvens da tua cama
Dobrada em gestos
Que talvez nem existam
Mas imagino

Flor que na minha solidão
Floresce