10 de março de 2026

JÁ VOLTO

Nei Duclós Não importa o momento do desfecho Sempre estarás no meio de um projeto Com prazo de entrega, urgente Como se ainda houvesse tempo Poderias te dar por satisfeito Sem nada a fazer , bem quieto Aguardando os acontecimentos Mas é o hábito, promessa da vida em sua miragem Assim ocupado serás chamado Já volto, dirás para a eternidade Nei Duclós

9 de março de 2026

ID

Nei Duclós Com nada me identifico Origem formação abismo Com nenhum país com nenhuma língua Também não me enquadro onde forasteiros cismam Esse cânone paralelo de conflitos Não estou fora do mundo físico Apenas virei verbo, vivo Num poema sendo escrito Nei Duclós

6 de março de 2026

GOTA DE SANGUE

Nei Duclós Só Deus para aprontar essa No cosmo infinito sermos mínimos Nas viagens estelares que ninguém assiste Nos mares de sal uma trilha de espuma Teu corpo líquido no meu olho de vidro No coração de pedra onde medra o espírito Na terra bruta o amor persiste Brinde no sonho, copo de vinho Água salobra em puro filtro Sopro de luz onde vivo escuro Só a poesia se mantém firme O resto desanda lençol de linho Gota de sangue onde nada havia Nei Duclós

5 de março de 2026

CANTEIRO

Nei Duclós Começo pela boca Depois vem o estouro Com tanto a descobrir Íntima vida louca Que não quero dividir A não ser contigo Pele de açúcar Cheiro de cravo e jasmim Canteiro de corpo justo Sardas, curvas e nuvens Olhar de diamante e marfim Pernas para que te pego Rosto em ofegante respiro Diga que tua realeza Pousou em meu pobre navio Trilha de gosto à deriva Porque não és seletiva Somas o que já te perdi Nei Duclós

26 de fevereiro de 2026

PAREDES VAZIAS

Nei Duclós Costumo ocultar minhas vitórias Um diploma, aquela medalha, registros de eventos e pessoas notórias que prestaram atenção em mim algumas vezes Não é vergonha, é um hábito Prefiro sempre eliminar qualquer sinal de vantagens Para em cada momento começar do zero Como veterano que vira anônimo recruta Nas guerras onde sobrevivo e às vezes me destaco Por isso minha casa não tem molduras na parede Nem mimos trazidos do Oriente ou fotos onde me encontro com famosos Assim como as paredes minha casa agora está vazia A mulher que reparto tanta luta Está em outro lugar onde se recupera Eu faço comida e cuido da roupa E durmo sem fazer balanço da vida Apenas me viro para o outro lado No tempo escuro Nei Duclós

12 de fevereiro de 2026

RAINHA

Nei Duclós Chamo de rainha não por vício De sedutor barato a distribuir afetos A inventar hierarquias no oportunismo E querer um pedaço do que tens por mérito Chamo de rainha, mas por contingência Não há como escapar do reconhecimento Destaque natural de uma postura rara Imperas com teu porte e biografia Minha paixão precoce quando ocupaste o trono E eu ficava ao longe e só por teimosia Fantasiava o namoro que nunca teve chance Mas o amor é real, doce bailarina Não perdi o toque do sentimento Já foi tormento hoje é epifania Mulher que soube me ver por dentro Pois se estive distante você chegou mais perto E disse poeta te amo sem que saibas Uma rainha só existe se alguém persiste Na mais nobre das artes, a poesia Nei Duclós

22 de janeiro de 2026

EXILADA

Nei Duclós Perdeste a pose de espetáculo Que te fez famosa nas redes sociais E te recolheste aos íntimos defeitos Um sinal de sobrepeso no corpo outrora tão admirado Sardas que nao apareciam O cabelo rebelde que dava trabalho para mantê-lo dócil e sereno Andas descalça em qualquer piso Dormes dobrando os joelhos E nao atendes a porta ou o telefone Estas exilada em ti mesmo Nei Duclos

CANTEIRO

Nei Duclós Apodrece em mim o tempo já vivido Brotos nascem no adubo ao desabrigo São palavras, cisco de memórias Jardim implume na porta sem trinco Poemas imperfeitos, vozes de vidro Mandalas de catedrais perdidas Faço o balanço do secreto circo Submerso acervo onde mal respiro Luto contra o remorso, fogo amigo Que me atinge no final da trilha Nei Duclós

BATEIA

Nei Duclós Domino o verbo com mão de ferro Para torná-lo dúctil, boi que não berra E carrega a lua aos endereços do mar e da relva Fico na boleia manobro a bateia Areia de sal escapa ao relento Tudo é invenção do arisco poema Faço o que me dá na telha Nei Duclós

11 de janeiro de 2026

PULO

Nei Duclós Todo mundo vê mas ninguém sabe O que escondes tanto fora do vestido Com tuas toalhas invisíveis Tua fina estampa na hora de dormir Aviso que já não aguento Vou fazer de conta que não aprendo E falar contigo a descoberto Pula em mim, feminina flor que cultivo no deserto Nei Duclós

EM FALSO

Nei Duclós Adeus antes do primeiro beijo Namoro inviável apesar das vontades Perde o prazer e a curiosidade Como seria esse abraço que passa ao largo? Para ti tanto faz, sedutora bárbara Só eu lamento a chance que foi fora Paciência, já é costume viver assim em falso Nei Duclós

INVASÃO

Nei Duclós Se não houvesse essa barreira de vidro Essa tela digital que nos confina A uma solidão que não tem cura Eu poria a mão em teu abrigo Para sentires úmida as paredes da gruta Onde cultivas tesão, fonte de suspiros Em que sou malvado, visitante bruto E tu, flor que medra na pedra num fundo infinito Nei Duclós

27 de dezembro de 2025

DIVERSA

Nei Duclós Não sabe unir compromisso com aventura Leva a ponta de faca o dom da fantasia Perde assim o prazer de ser diversa E se arrepende quando cede um dedo de doçura Arrisca a chance e o benefício Apesar do fogo que lhe consome bruta Já desisti mil vezes de aceitar tuas caricias Mas sempre voltas cada vez mais nua Nei Duclós

SEGREDO

Nei Duclós Você amanhece devagarínha como um sol de doçura Procura na cama e não encontra o voo da aventura Porque estou distante de amores com a lua Não sinta remorso, mulher madura O prazer é o verão no abandono das criaturas Perdura o calor, nossa chance de sermos o melhor entre tantos erros O segredo que o sonho guarda na clausura Nei Duclós

17 de dezembro de 2025

PRÓXIMO

Nei Duclós Trato muito mal o próximo Desconfio das intenções Das suas ações Não gosto que chegue perto Temo que me converse Que me faça algum mal Mas quando enfim se revela Amigo oculto sem briga Generoso em cada gesto Descubro então abismado Que errei, troquei de lado O sujeito meio torto Era eu e não o Outro Nei Duclós

EXTRA TERRA

Nei Duclós Esta terra desconheço Por contrariar o modelo Do umbigo seco em canteiro Não há nuvens ou até gente As plantas desobedecem Horizontes que não fecham Paisagens de pesadelo Desconfio que até mesmo Animais aqui não medram E o Sol a contragosto Evita fechando os olhos Não por amar meu berço Mas há um quê de bizarro Quando saímos de casa E no ermo nos perdemos Esta terra extraterrestre É estranha e me mete medo Nei Duclós

6 de dezembro de 2025

DESCOMPASSO

Nei Duclós Você está fora quando é moço Depois passa do ponto ao durar muito No meio do caminho aguardas o momento Mas ele não chega, a não ser para os outros Se os outros partem você é o sobrevivente És convocado como testemunha coadjuvante Não és o alvo mas a plateia errante Teus dedos apontam para o horizonte Onde brilha o sol da vida alheia Assim te esquecem quando te lembram Passas lotado pelo Tempo Não nasceste Fulano, teu contemporâneo Nei Duclós

NOIVADO NO BAILE

Nei Duclós Pergunto por que a dança te conquista Fazes questão de rodar pela pista Com ritmo de passos repetidos Será fantasia de uma relação perfeita O encaixe fino entre corpos afins Ou será o devaneio que isso provoca De um amor nas nuvens, beijo na piscina? Não, dizes com um meio sorriso É só a oportunidade de não ser esquecida Num baile onde o olhar das amigas Me acham incapaz de uma valsa convicta Se danço, me dizes Posso depois contar que lá estive No salão da paróquia em tempos felizes Quando enfim desististe da solidão bruta E me pediste, joelho no chão batido Com um anel de noivado que a tua família Te deu para que não fosse perdida A mulher da tua vida, cavaleiro triste Nei Duclós

28 de novembro de 2025

LANCE

Nei Duclós Deus ajuda quem toma jeito Combina sonho com suor, nuvem com poeira, amor com granito Pólos opostos de obscura geografia Que escapa aos olhos mas não ao sentimento Modo de sobreviver em terra de conflitos Guerra sem descanso, paz feita no grito Deus também ajuda quem se dá o luxo Na fuga pelo gosto da aventura Não há deserto se o jejum ampara E resiste ao assédio do mal pelos caminhos Como posso saber se não tenho alcance? Só a poesia não garante Mas tenho um trunfo, o sopro dos anjos Eles reportam o que pega neste lance Nei Duclós

23 de novembro de 2025

ARTE AMIGA

Nei Duclós Sou artista de rua Produzo sinfonias Com letras e sílabas E algumas canções em parcerias Depois passo o chapéu para quem vê a arte amiga Não escolho esquina Estou onde existe vida Todo o tempo do mundo Cabe na poesia Nei Duclós

PLUMAS

Nei Duclós Vida é perda Aos poucos deixamos o que fomos inteiros Cascas acumuladas pelos anos Jazem inúteis pelo caminho Ficamos leves como passarinhos De alpiste colhido no tempo presente Voamos em direção ao paraíso Seres emplumados de perfil divino Nei Duclós

19 de novembro de 2025

DOMÍNIO

Nei Duclós Meu domínio da linguagem É quando a linguagem me domina Não que me sujeite Aos seus limites Mas por sintonia Música espiritual e física São mãos postas Em direção à fonte Acima das nuvens E que jorra entre nós Cristalina Nei Duclós

CONFRONTO

Nei Duclós Procurei a palavra no fundo Expulsa pelo tiroteio Para iluminar a superfície Lisa por fora e rota por dentro Encontrei-a de coração batendo Ainda viva com tanto esforço Abandone o poema, me disse Algo mais forte está te chamando É uma voz de comando Soprada pelo mar onde moram anjos Aprume-se na solidão, destino humano Arte é confronto, aperte o passo Plena doçura da alma em pânico Nei Duclós

IMPLICANTES

Nei Duclós Ventos fortes são sinceros, devastam tudo o que vem pela frente. Usam armas como os tornados e contraem-se em espirais gigantescas. Mas os ventos fracos são só implicantes. Ao contário dos regulares alisios, ventos médios ordenados para a boa navegação a vela, os fracos adoram fechar as venezianas que insistimos em mantê-las abertas. São sorrateiros e se divertem derrubando coisas valiosas das mesas e prateleiras. Despenteiam a vaidade dos cabelos, gelados assombram corredores escuros e apagam ou atiçam o fogo quando querem prejudicar alguém. Os objetos também são implicantes. Roupas antigas perseguem as novas se enredando na máquina de lavar. Meias somem no buraco negro. Chinelos perdem seu par, adotam manchas impossíveis de tirar, eletrodomésticos pifam no dia seguinte ao prazo de validade. O que nos rodeia adquire hábitos humanos. Ou talvez seja apenas uma implicância pessoal. Nei Duclós

ORAÇÃO

Nei Duclós A cura são as palavras Que encontras no sofrimento O corpo é só um sintoma A alma adoece primeiro A vida é puro tormento Se a reza não for de fé A saúde é um privilégio Que a forca do amor comanda Valei-nos Nossa Senhora No colo o Jesus menino Que a devoção nos devolva os tesouros do destino Nei Duclós

SELVA ESCURA

Néi Duclós Minha poesia existe enquanto eu ficar vivo Depois de partir ela vai para o limbo Lá onde nem os anjos lêem o que me sopraram no ouvido Tanto escrito para acabar no exílio Não é necessário compor uma obra Que jaz esquecida em qualquer caminho A não ser que eu cante sem esperar auxílio Dos contemporâneos ou pósteros filhos Cante anônimo como os passarinhos Misturados às folhas de uma selva virgem Intocada pela vaidade e o brilho Selva escura de um remoto destino Nei Duclós

VULCÃO

Nei Duclós Terceira idade é quando tudo envelhece junto contigo Os artistas de tantos momentos arrastam as correntes do tempo amarradas aos pés Os amigos que sobreviveram não mais te reconhecem Os fatos fundamentais tornaram-se obsoletos com as novas guerras E as paisagens conhecidas perderam o sentido A vida recolhe a sucata dos dias E o desafio é manter-se ativo Como a ameaça de um vulcão extinto Que pode voltar a respirar lava na indiferente superfície Nei Duclós

23 de setembro de 2025

SOBREVIVENTE

Nei Duclós Sobrevivente é quem cuida do fogo E o mantém aceso no acampamento Leva os feridos para a enfermaria E volta ao front quando não há mais jeito Às vezes os combatentes trazem más notícias Recuamos corridos diante do inimigo Melhor carregar o que sobrou consigo Veterano ainda vivo mas não por muito tempo Tem dias que a tropa volta quase ilesa E canta vantagens com o rosto iluminado E abraçam o cara que ficou de sobreaviso Com dois cartuchos e só uma espingarda E dizem aos gritos com sangue na farda vencemos para sempre nosso anjo da guarda Nei Duclós

TEOREMA

Nei Duclós Não há problema De longe é esfera De perto é plana Será impossível Conceber esse teorema? Colocar a redoma No cosmo que se expande? Extinguir assim o drama Entre a Nasa e os mapas de argila? Será preciso que se descubra Algum hieróglifo Ou pedra de Roseta Que traga paz à mente inquieta? Nei Duclós

DUPLA FACE

Nei Duclós Por ser plana A Terra desperta o pássaro na hora certa E o Sol, holograma Incide a luz na bruta treva Por ser esfera A estação completa Se chama primavera E redonda, rola eterna Apaga a hedionda vez da vida breve Nei Duclós