26 de agosto de 2026

TERMINAL

Nei Duclós Viver é morar no banheiro É o dinheiro que falta A doença que permanece É perder os parentes É dar adeus aos empregos É ser alvo de pena É chorar de medo É descobrir que o passado É presente E o futuro é o tempo perdido Junto com os dentes

TEMPORAL

Nei Duclós Tudo faz parte do passado Tua mente inquieta Teu corpo exausto Nada tenho no presente Rotina bruta Imposto caro Sempre jogo no futuro Vida sem fundo Virtual amarra Nei Duclós

A FUGA DO MAR

Nei Duclós O mar voltou para o mar Saudoso do próprio sal Levou junto meu olhar Das praias imemoriais Deixou apenas deserto Sem ninguém morando perto Navios que não chegam mais Ventos com falta de ar Rios desviam o caminho Buscam um outro lugar Gaivotas pousam no mato Não há convivio no cais Só quando o mar voltar Com o luar na garupa Vou pedir que permaneça Esqueça todas as fugas Nei Duclós

REGISTROS

Nei Duclós Escrevo escondido para ninguém saber o que eu digo. Minha literatura sofre de insônia . Durmo na poesia. Publiquei quando decretaram a morte dos livros. Viver é uma atividade irreconhecível. Lembro só o que não repito. Cobro de mim as dívidas que ainda não contraí. Perdi o momento certo porque não era divertido. Aprendi quando deixei a lição de lado. Caminho em oposição à ventania. Exagerei na loucura ao fingir que estava vivo. Confesso que voltei quando deveria ir. A palavra é o principal disfarce. Nei Duclós

LIVRE

Nei Duclós Meu escudo é o livre arbítrio Contra o jogo sujo Do extremismo Faço o que me dá na telha De divina argila Resguardo em dia de chuva Vontade que vive sem vícios Solidão cercada por mãos Do Espírito Vou por aqui quando me ensino A ser o que não decidem Conte comigo Sou antigo morador Do infinito Nei Duclós

CONTAINER

Nei Duclós Cada vez mais me vejo como um corpo estranho Enquanto o mundo segue sem meu tamanho Abandonado como um container De uma estrada no subúrbio Os carros passam elétricos sem motorista Sou uma ausência de algoritmo O que digo ninguém digita Não respondo quem me pesquisa Criatura feita de ferro vencido Fico junto às plantas ralas Roçado sem nenhum fruto Alvo de tornados e granizo O destino é enferrujar as juntas Que ringem nas salas de espera Para mais um exame de vista Não me enxergo no espelho do teto Pertenço a outro universo O que estava aqui e mudou de rumo Permaneço como teimosa fera Existo porque sou do ramo Nei Duclós

25 de julho de 2026

VIDA SOCIAL

Nei Duclós Não fomos feitos para durar tanto Batemos o ponto além da validade Última idade, fim da fantasia De que vivíamos na eternidade Sermos datados era só um detalhe Nada a ver com nosso presente Morrer era para quem foi marcado Nosso destino era escapar contentes Hoje o medo morde os calcanhares O que aconteceu? exclamo atônito Um anjo te observa, és uma vaga Na terra lotada de velhos anônimos Mas ainda tenho vida , lenha no paiol Sinto vontades, e uma vida social Que são os exames e consultas de monte Brinco que não tenho os cabelos brancos Nei Duclós Nei Duclós

VOCAÇÃO

Nei Duclós Tudo o que me ocorre Dorme no poema A vocação não morre Na cama me aconselha Não deixo sumir O mote de campanha O pote do arco-iris Tesouro da montanha Canto porque tenho gana De você me ouvir Na região serrana Onde corre o rio Durmo em dia frio Desperto em noite alta Você é quem faz falta

ENCONTRO

Nei Duclós Cada momento é eterno Pulsa através do tempo Na praia foi nosso encontro Que brotou em três rebentos Num século foram crianças No outro jovens insones Todos com o dom do verbo Linhagem que vem de longe Foi o mar de areia branca Que forjou a vida errante Contamos com pura sorte Nas peripécias do ramo Nei Duclós

ARTESANATO

Nei Duclós Poucas palavras uso em meu verso São como peças de artesanato Trago para perto, ponho no alto Para que eu possa ficar desperto Parecem lâmpadas de outra época Ou miniaturas de navio em garrafa Representam deuses de argila rara Ou joias de pedras que dão em riacho Brilham sem demonstrar soberba É algo mais fosco , bibelô de feira Mas é só um disfarce de notório poder Esses objetos sujeitos a poeira Fica assim o poema sem querer ser coisa Criatura pequena em situação de lua Encanta por estar sempre presente Num canto qualquer onde o coração pula Nei Duclós

OS LIVROS

Nei Duclós Um dia os livros voltarão à tona Como zonas ancestrais de tempos submersos Boiarão nas praias de leitura ágrafa Incomodando os banhistas do mundo mala Só os pescadores saberão do que se trata São medalhas de lata, dirao certeiros De sereias cegas que fizeram a guerra Não servem como peixe essas misérias Nei Duclós

23 de julho de 2026

COMANDO

Nei Duclós Quando perguntam qual é meu comando Respondo que não é de poder, não é de mando É de cantil e não de fogo É mais do coração do que do gatilho É da comunhão e nâo da ferida Também não é morno nem tampouco brando Tenho mão pesada sobre meu canto Meu front é feito de tiros precisos Barro de batalha e amor coletivo Sigo as ordens que nos mantem vivos Perfil de orações e sonhos mendigos Um braço que luta um olhar que perdoa Beijo na boca as promessas do Espírito Nei Duclós

COLHEITA

Nei Duclós Treino a memória Lembro onde deixei os óculos Monitoro as chaves Não esqueço o fim da validade dos produtos do armário Mas nesse exercicio diário encontro porções do passado Pequenas histórias Viagens no lixo Amores datados Coleções de palavras Loucos momentos Ofícios do vento Em cantos guardados Poesia e prosa A vida não passa dessa maravilhosa perda de Tempo Colhemos de graça O que nunca plantamos Nei Duclós

19 de julho de 2026

DESTINO

Nei Duclós Meu coração dá bandeira Contra a dor obsoleta Azul e branco do mar Verde e amarelo da terra Nasci vasto continente Para o mundo prego peças Metade de mim sou a selva Pampa pantanal e serra Todos me invadem, pudera Tenho ouro corpo e árvores Confundem com patriotada Mas é destino sincero Meu coração dá bandeira Agitada nos estádios Marcho com passo de fera Vivo do que me condenam Nei Duclós

DESPERTAR

Nei Duclós Acordam tarde os passarinhos No frio da manhã escura Para alimentar os meninos Precisa esquentar as plumas Eu cá não durmo direito No plantão a revelia Só com o sol adormeço Entre cobertas de espuma Depois, na hora do almoço Num cardápio de improviso Eles se chegam travessos Querendo um pouco de alpiste Mas sou turrão e expulso Visitantes da preguiça Não querem enfrentar trabalho No expediente por conida Eles se viram os meliantes Em algazarras de bicos Encontram frutas perdidas Enchem o papo de gramíneas Dormem cedo porque é tempo De descansar do esforço Eu cá desperto exausto Na solidão do meu ninho Nei Duclós

PROFECIA

Nei Duclós Escrevo para o povo cantar No dia em que assim decidir A palavra toma o seu lugar Quando o tempo parar de mentir As nações precisam sonhar Antes que cheguem ao limite Só existe um caminho, lutar Corpo pronto para a profecia Pois antes do mundo existir Desenhou-se o perfil do conflito Dele não há o que fugiir Vocação de humano destino Sou a voz dessa hora escura Servirá de poder e aviso Não é feita de pólvora ou chumbo É apenas o que já foi escrito Nei Duclós

12 de julho de 2026

ENCARTE

Nei Penso, logo existes Esqueço, que sou triste Fantasio, assim sorrio Espero, árduo caminho Aguardo, no tempo livre Chegas, sem nenhum convite Nei Duclós

LETRA E MELODIA

Nei Duclós Agora que estás no auge da beleza Que foi desenhada por um Deus ourives Decides escolher a ruptura Por não haver escolha do caminho E que provou do mal mais escondido Situado ao lado, longe do inimigo Anuncias que voltarás ao antigo aprisco Mas ninguém que já provou da aventura De ser seguida por multidões em um só grito Se conforma em assumir o tempo ido Neste cruzamento do destino Esplendes a luz contra a calúnia Pois de treva todos estão servidos És de uma canção letra e melodia Perfil de um amor que está no início Nei Duclós

11 de julho de 2026

BIKE

Nei Duclós Amor quando se quebra Faz barulho de bicicleta velha Que se estraga na estrada Rompe a correia Perde os pedais E as rodas afundam no barro da véspera Da chuva torrencial que veio da serra Os pneus murchos raspam as pedras Enquanto os carros passam Desviando rápidos do que sobrou Nossas lágrimas, pobre choro Pois estamos a pé E o dia ficará escuro Nei Duclós

26 de junho de 2026

PRECE

Nei Duclós Mesmo no frio intenso os pássaros despertam Eles nao pensam apenas rezam A prece de inaugurar o dia antes que amanheça Com plumas de veludo e ninhos de promessa Eis uma lição que a todos interessa Cumprir sua missão na ordem do universo Sem trair o coração que sabe onde pega A doce comunhão fora da mentira O destino é resolver o que deve ser completo Voar depois em busca do alimento Bicar insistente o vidro da janela Para que eu exponha o verso que cultivei mo inverno Nei Duclós

23 de junho de 2026

DIÁLOGO

Nei Duclós Falo sozinho para treinar o diálogo Que vou desenvolver no Outro Lado Conversar com anjos Memorizar os pássaros Porque voar precisa da palavra Articular o vento Combinar os mapas Dizem que perdi a noção com tanta idade Mal sabem que toda verdade Emerge da ilusão, pobre passagem E o tempo acumulado nos ensina Que viver é formular as frases O melhor verso encontra o Paraíso Nei Duclós

22 de junho de 2026

ROMANCE

Nei Duclós Estranho ser humano, a mulher Quanto mais admiro menos compreendo Dizem namoro mas querem um filho Mudam o amante em pai e marido Quando menos esperas vem o casamento A princípio liberam impondo limites Um homem solteiro corre perigo Isso tudo é antigo os moços me avisam Hoje é diferente misturam os rumos Homem quer casar para obter vantagens Mulher se nega prefere a carreira Não será o contrário? pergunta meu sossego Evito esse rolo estou fora do mercado O eu aqui é só um personagem Que o eu de verdade manipula à vontade Assim descubro em conversas inúmeras O drama que deveria ter um clima romântico Nei Duclós

TOQUE

Nei Duclós Não me toque onde não deve Disse ela em tom leve Mas o pássaro pousou seu voo breve Disse eu ardendo em febre Depois não haverá conserto Avisou chegando perto Não aposto no remorso Argumentei bem depressa Então avance consentiu a bela Trate-me com amor te dou confiança Foi assim que um gesto mínimo Revelou o segredo do desejo Ele está guardado mas disposto A ceder um braço para teu bom gosto Nei Duclós

IDADE

Nei Duclós Fui andando pela vida apagando as pegadas Deixei para trás o que decidi Fiz novos amigos que também esqueci Hoje estou como sempre quis Sem receber ninguém aos domingos Vamos fazer um churrasco? digo para mim Mas cadê os dentes, as brasas e o chimarrão? Triste fim, me diz um anjo Adote um cão Não faça pose de idade crítica Todo amor leva à solidão Nei Duclós

AQUI

Nei Duclós O que tenho para dIzer vai doer Portanto tirem da sala toda esperança Vou entrar na sombra onde mora o medo Levando nas costas antigas iluminações Preciso saber o que me espera Depois de tanta poesia Talvez um dragão de papel Como no teatro da China Ou talvez não Apenas a verdade Da qual sempre fugi Amores que deixei Terrores que vivi Tempo que escorreu em vão Ilusões de aprendiz Podem voltar não há nada demais Só queria um pouco de paz Aqui Nei Duclós

16 de junho de 2026

ABSINTO

Nei Duclós Escrevo sobre o que eu não domino A terra onde vivo Os contemporâneos O saber me escapa por dever de ofício Sirvo as palavras sem nenhum sentido Alguns chamam de poesia Eu de vício Fujo do entendimento com esse absinto Embriaguez desperta Sono profundo Só dói quando recito Diante dos teus olhos No tempo bruto Nei Duclós

9 de junho de 2026

VENTO

Nei Duclós O que direi não será sincero Melhor então ficar quieto Há tempos errei e não tem conserto Não será um parabéns quo trará de volta O que perdemos em duros momentos Deixa passar, me diz o anjo Nenhuma dor cederá o passo Viver é assim no modo precário O amor compreende a cicatriz doendo Do que estou falando? Esquece, coração de vento Nei Duclós

CICLO

Nei Duclós Nascemos com alma, mas podemos perdê-la O que mais tem hoje são pessoas vazias Que abandonam o exílio e se apropriam das artes que não lhes pertencia Você vê um filme e sai dele triste A música é ruído, tapamos os ouvidos Pintura inexiste e a literatura amontoa falsas narrativas Onde estão as vocações legítimas? Mas há uma geração vindo no piano e violino Com talentos de virtuosismo Trazem de outras vidas o resgate do espírito A esperança obedece o tempo cíclico Nei Duclós

5 de junho de 2026

AGRIMENSOR

Nei Duclós Economizo passos para não chegar Porque chegando terei de voltar Mais adiante existe o alto mar Onde moro com meu corpo de sal Vou medindo espaço sou agrimensor Tudo o que faço tem essa dimensão Cada estrela mostra o que agora sou Bússola perdida em pontos cardeais Nunca vou embora esqueci o que dizer Conto vagalumes por puro prazer No campo aberto perdi minha vez Componho a memoria de um tempo sem dor Nei Duclós

1 de junho de 2026

MODA DE VIOLA

Nei Duclós A vida te cobra a conta, a velhice vem chegando Você quer dar um passo, não consegue ir andando O mundo fecha as portas, só se abre as do hospital E nas rodas de samba não és mais o maioral O problema dessa idade é que ninguém se conforma Querem repetir a dose mas existe um só tempo Que nos é dado de graça uma vez e para sempre Lá no fim da rota o destino te espera Com uma cruz de ouro te avivando a memória É quando você agradece tanta bênção pela estrada Sendo a maior delas o amor que te consagra Obrigado a todos pela glória do caminho Onde encontrei a sorte de ser adulto e menino Agora que fiquei pronto digo adeus e vou embora Quem quiser que fale alto uma outra boa história E peça para a amizade acompanhar na viola Nei Duclós