30 de setembro de 2022

PROMESSA

 Nei Duclós 


Toda poesia é de amor

Não só na carta apaixonada

Ou na celebração familiar

Também no front quando não queremos guerra

Na consagração de alguém ou de um país 


Toda poesia é um coração

Mesmo no amargo bilhete de adeus

Ou na ordem de demissão

Seu trabalho é muito bom

Mas não podemos mais ficar no mesmo espaço

Vá embora, meu irmão 


Toda poesia é um abraço

Quando ainda não te conheço e quero amasso

Quando volto do exílio quase morto

Quando não tenho motivos só vontade

Vinda não sei de onde, da tua graça 

Do jeito que caminhas, do cansaço

Ao dobrar a perna no banco da praça 


Toda poesia é uma glória 

Talismã da sorte, seta de Cupido

Promessa que cumpro mas não faço 

Palavra que se ajoelha sem pedir perdão 


Nei Duclós

HERÓI

 Nei Duclós 


Petizes de

guarda -pó branco

Estávamos perfilados no pátio do grupo escolar

Os adultos nos serviam um copo de leite com grossa nata

Gosto enjoativo na manhã de inverno


Eu não acreditava quando naquele momento

Nos diziam

Que seriamos o futuro da nação imensa


Como poderia?

Éramos tão pirralhos 

Não tínhamos nem um metro de altura

E pediam para sermos gigantes um dia    


Passado todo esse tempo

Continuo não acreditando

Quando foi, meu Deus, que deixamos passar a chance?


Sou hoje maior e mais velho dos que nos serviam

Diga meu pai por que não te mereci?

Antigo pescador, dono de lojinha

Criador de nove filhos

Depois dizem que heróis não existem


Nei Duclós

28 de setembro de 2022

RESTOS

Nei Duclós 


Não é preciso que me digam

Eu vi no espelho

Rosto velho com estrias

Cercando os lábios e os olhos

Sulcando a testa feita de terra 

Cabelos raros na tristeza tardia


Mas não ache que eu quero de volta

A idade jovem das derrotas

As decisões erradas

A demora em aprender automóvel

As falsas amizades

A falta de leitura

Ou mesmo o tempo das coisas certas

Casa, família e suor na metrópole 


Remorso nem agora nem outra hora

Apenas o resto de mim

Que vejo sem histórias 

Sai dos cortejos, fechei  a memória 

Não pergunte por que os sinos choram

Eles antecipam o tempo sonoro

Da guerra, e sua velha cara

A falta de sorte


Haverá alegria

O beijo em Paris no dia da Vitória 

Mas não serei eu a disparar a arma

Apontando para um céu sem misericórdia 


Nei Duclós

20 de setembro de 2022

O ESTRANGEIRO

 Nei Duclós 


O poema é  como o Brasil: não consegue ser visto em sua real identidade

O que é  o Brasil? disse uma vez Charles Bronson


Vivemos em árvores

Habitamos savanas

Temos várias línguas oficiais

Mas no Brasil existe uma linguagem? perguntou a britânica do interior para um jovem brasileiro em visita ao pai inglês


O poema é  a mesma coisa

É  visto como comentário, crônica

Ou pior: como "texto"


Poema não é  prosa

Embora exista prosa poética

Nem é  coadjuvante no drama da literatura

Não precisa de rima ou verso alexandrino para ser o que é 


E se insistem em perguntar o que é  um poema

Respondo: é  assim como um pentacampeão do mundo 

Tem cidade campo praia floresta

Mas é  sempre ele só, único 

Como diz o poeta:

"Gigante, pela própria natureza"

Ou a letra da canção:

"Um pequenino grão de areia

Que era um pobre sonhador"


Nei Duclós

16 de setembro de 2022

SÓTÃO

 Nei Duclós 


Não falo a verdade

Falo o que me dá na telha

E a telha cobre o sótão 

Onde estão os macaquinhos


Acho graça da pose de quem se faz de doido

Ou do falso outsider arroz de festa


Poesia é quando o palhaço se mostra

No circo dominado pela vaidade


Diz que vive no campo mas mora na cidade

Que é  esquecido mas acumula prêmios 

Sente orgulho de fazer tudo errado

Compõe uma biografia cult projetada


Faço acrobacias no picadeiro

E me arrasto até o trapézio 

Sou o urso fugido da jaula

Monto a cavalo


Nei Duclós

15 de setembro de 2022

SOBERANA

 Nei Duclós 


Enquanto houver o canto haverá mundo

O que nos formou no primeiro sopro

Ombro do Criador que segura o Tempo

nas frágeis mãos do verso, flor de uma promessa


Enquanto houver a chance que imaginamos

Haverá o momento de viver sem medo

Herdeiros do amor insurgente

Pedra angular que ainda persiste

No assombro da voz soberana ao silêncio 


Enquanto houver leitura terei teus olhos

Janelas da mente aberta de um refúgio

Teimoso coração do poema


Haverá teu corpo com água de cheiro

E o rosto doloroso de açucena


Nei Duclós

VOLTAR

 Nei Duclós 


Na pandemia fomos empurrados para fazer outra coisa 

que não fosse viver


E agora que o perigo parece ter passado

(mas nem tanto)

não achamos a embocadura para retomar o que deixamos para trás 


Fomos traídos pela Era de Aquário 

Para deixar de ser besta

Milhões morreram no sufoco das máscaras

nos rostos em pânico 


Impossível voltar à infância

Seguir em frente é atingir o limite da terra plana


Nesse momento

decidimos nos afogar no conhaque,

a poesia 


Nei Duclós

DESTINO

 Nei Duclós 


O que cabia ao inimigo hoje cabe em ti

És o pesadelo que denunciaste na pele do Outro


Mas a memória te trai

Vives na lógica de um mundo morto

Que se transformou

E vira-se contra ti


Não adianta provar nada

Não é  a ideologia que cega 

É a mente imobilizada no disfarce


Não te peço para acordar, é inútil 

Só lamento perder mais um amigo

E servir de repasto para a calúnia

Que disseminas com o olhar oblíquo 


Estar sozinho hoje é  abandonar o passado

É arrostar o Tempo sem misericórdia

Conviver com o destino apunhalado


Nei Duclós

6 de setembro de 2022

 CONTOS DE JOSÉ EDUARDO DEGRAZIA: 

A ELIPSE NA SOBREVIVÊNCIA DA GUERRA .

Alertados por Luiz Antônio de Assis Brasil no posfácio de "Tia Gorda e Tia Magrinha na Guerra do Parsguai - e outros contos de guerra, sonhos, amores, de José Eduardo Degrazia (Bestiário, 110 pgs.) os leitores ganham ao eleger a elipse como a chave para costurar esta literatura de fino acabamento.


Escritor premiado no Brasil e no Exterior, o poeta e prosador Degrazia mostra que a sofisticação pode envolver-se profundamente em qualquer cenário, especialmente o chão bruto da fronteira gaúcha banhada pelo rio Uruguai (Itaqui, São Borja, Uruguaiana), onde os hábitos, os crimes, as emoções, as memórias vertem diretamente do sangue derramado em inúmeras guerras, pessoais e coletivas. Não que o narrador, essa personagem migrante de qualquer idade, caia no distanciamento e na omissão. Quem conta um conto faz parte do tiroteio e recolhe cestos de flagrantes diretos, indiretos, reais ou inventados, num roteiro movediço de histórias pela metade.


Que importância tem a tia que se escondeu das tropas paraguaias? Por que a vítima foi alvo da tocaia? Qual é a vingança do degolado? Preencha os claros desses flashes com a imaginação ou contente-se com as próprias perguntas. O escritor cumpriu o seu papel.


Os contos são rasgos de faca no corpo vivo da História, que sempre foi mal contada. Pois guerra é sobrevivência e não heroísmo. É um velho guerreiro que se afasta para morrer só, pilchado com a indumentária de combate na fase terminal da terceira idade. É o militar usado pela beldade para encobrir o contrabando , é o contrabandista que acolhe no frio a tropa que o cerca, é o que resta de tantos conflitos: a humana percepção da vivência que se alimenta da proximidade e não da distância.


De quebra, o livro oferece o relato da nossa geração (o autor nasceu três anos depois de mim) na mítica viagem às paisagens andinas, onde a mocidade perdida e confusa procurava a paz impossível num tempo de dor.


Além disso, há um erudito resumo da trajetória do conto na literatura universal escrito pelo professor José Edil de Lima Alves. É a tríplice fronteira nas mãos talentosas de escritores e ensaistas que nos repõem a importância da literatura bem na época em que tentam nos empurrar para a falta de assunto e perda de tempo, multiplicadas pelas facilidades midiáticas. A inovação tecnológica precisa nos devolver às nossas origens pois somos pó e não apenas pontinhos de luz.


Nei Duclós

 TAILOR DINIZ: O INTERIOR MIGRA PARA A CAPITAL


A diferença entre realidade e ficção é  que a realidade esqueceu que também foi inventada. Mas o escritor Tailor Diniz  lembra disso a cada conto do seu recente  Porto-alegreanos (Bestiário, 100 pgs.), baseado no clássico Montevideanos, do uruguaio Mario Benedetti .


O que o livro promete - uma passagem bem humorada pelos personagens da capital gaúcha - cumpre de maneira indireta e original. Pois no baú de memórias do autor neste livro  cabe mais a sua vivência antes de migrar para Porto Alegre do que a crônica da experiência adquirida na grande cidade . É  sua terra natal, Júlio de Castilhos - que emerge  com trechos dramáticos da infância e adolescência, mostrando que  as emoções mais fundas se impõem com mais força . Há um espaço entre a aparência da obra ( que pode ser atribuída à percepção do resenhista) e a exímia fábulação do autor.


Ourives de uma preciosa literatura que já tem boa estrada nos roteiros de cinema, Tailor   cobre este lançamento com os cuidados já conhecidos de sua arte. Esse véu é transparente. Nos contos, a capital é mais um desconforto da memória do que sua celebração. O casal de vida vazia que tenta comprar uma casa na praia para fugir do verão porto-alegrense revela essa transgressão literária de um autor fiel à  verdade - que é  a única versão suportável da realidade.


E a verdade de um escritor de verdade é  apontar seus recursos, revelar os segredos do oficio, entregar o ouro - a escrita - para os bandidos, os nada inocentes leitores. O casal na praia se entrega para um corretor, se decepciona e busca refúgio onde quer abandonar. Dupla traição, a conjugal e a fuga da casa onde moram. Onde fica a ética do habitante da capital homenageada que é traida por uma porção de areia em frente ao mar?


E não se trata apenas de denúncia ou metalinguagem, como nas histórias de um personagem para o seu criador. Mas de sutil sugestão inserida no encontro do casal que saiu do amor para a amizade. Os diálogos banais nos dizem que tudo ali é  memória sem poesia - que só é  encontrada numa foto deixada como recordação e que lembra a felicidade presa no passado. Esse recurso justifica o meu verso que a generosidade de Tailor colocou no início do conto. Pois, dito em outras palavras, nada vale a lembrança sem a costura da poesia.


O interior dos jogos de futebol, das visitas ao cabaré, do primeiro amor compartilhado com o amigo fiel e traidor migra para a capital com sua carga de lágrimas e risos. Viajamos junto,  nós, que não podemos viver sem a literatura.


Nei Duclós

UM LUGAR

Nei Duclós 


O verdadeiro frio é a solidão 

Neve na falta de atenção 

Vento sul soprando o coração 


Nenhum truque trinca o desamor 

Gelado mar que nos separou 

Trilha em montanha sem nenhum valor

Pele exposta na superfície polar


A verdadeira dor é quando disse adeus

Teu lenço acena para meu olhar

Molhada flor no rigor do cais


Esperança que busca o único lugar

Um horizonte onde possamos morar

Estação de um trem que está por chegar


Acendo o fogo porque o jogo não acabou

Volta que não tenho mais nada a perder


Nei Duclós

4 de setembro de 2022

DESPEDIDA

 Nei Duclós 


Digo adeus quando te entregas

Adeus à falta de sorte

Adeus à solidão 


Digo adeus à fantasia

À poesia, à espera 

Digo adeus quando te despes

E te abraço cedo ou tarde


Digo adeus quando me pegas

Com teu visgo de mel 

em meu pobre  coração exausto


Mas resistes a este sóbrio convite sem retorno

Adias o namoro

Em vão te faço a corte

Enquanto me pedes tesouros impossíveis


Não sou herói nem sou tratante

Dê-me esta chance

E verás como sou bom na despedida


Nei Duclós