22 de novembro de 2009

TRANGRESSÃO E MORALIDADE NO CINEMA


Vi Les Hauts Murs (Entre os Muros da Prisão, 2008), de Christian Faure, filme baseado no livro homônimo e autobiográfico de Auguste Le Breton, o órfão de guerra (o pai, palhaço, morreu em 1915, quando ele, Auguste, tinha dois anos) que do reformatório foi jogado nas ruas de Paris, onde aprendeu tudo. O que o salvou foi a Segunda Guerra, quando era uma pedra no sapato da Gestapo da ocupação alemã na França (e por isso em 1945 foi condecorado). É de Le Breton a série de novelas com a marca Rififi, adotada depois do megasucesso "Rififi Chez Les Hommes", que ninguém queria filmar até chegar Jules Dassin, expulso dos Estados Unidos pelo macartismo, e fazer da história um filme memorável.

Por que este filme, o Hauts Murs, muito bem realizado, é um anacronismo? Poderia ter sido feito nos anos 30, quando se passa a história do garoto fujão que enfrenta a repressão e a brutalidade de uma prisão para menores, vendida para a sociedade como uma escola de correção. É, inclusive, de propósito, a adoção do cenário, do clima e até mesmo da interpretação dos atores. Tudo lembra o cinema clássico francês, especialmente os de Jean Vigo em "Zéro de conduite", René Clair em "A nous la liberté", e Marcel Carné em Cais de Sombras. Mas por que o anacronismo hoje? Vamos relevar o fato, importante, de os cineastas homenagearem Vigo, Clair, Carné ou Le Breton, glórias da cultura francesa. O foco deste comentário é a sobrevivência de um tipo de enfoque sobre a transgressão.

A tradição aponta para filmes como o próprio Rififi, em que existe um código de ética entre os bandidos. E vimos isso em Inimigos Públicos, em que Dillinger é apresentado como um herói charmoso. Diferente, claro, das injustiças sofridas pelo personagem menino na prisão de Hauts Murs. Mas ambos os casos nos remetem a um fato: será que já não dobrou o cabo da Boa Esperança a abordagem recorrente e canônica de que os transgressores são inocentes ou vítimas do sistema e que por isso se justifica sua reação, o crime (no caso do garoto, o furto, no de Dillinger, o assassinato e o roubo a mão armada)?. Havia um tempo em que a platéia torcia pela transgressão, pois esta estava calçada num conjunto de valores e princípios.

A vítima tinha sofrido uma injustiça, a orfandade, o abandono dos pais, a prepotência dos adultos, a pobreza, a marginalização, e partia então para a vingança. Era flagrado e ia para uma instituição brutal, injusta, sempre com um algoz lapidar, desses vilões que dirigem os cárceres e se transformaram, na literatura e no cinema, em paradigmas do Mal (em contraposição aos humanos seres dentro das celas). O Bem estão migrava para o encarcerado e sua reação era punida com a morte, o que arrancava lágrimas do público. Todos se emocionavam com a saga que, forçosamente, não poderia dar certo, pois a censura no cinema sempre foi pesada e não se podia simplesmente eleger o vício como virtude, mesmo que todos saibam que esses conceitos muitas vezes se misturam. Mas a armadilha funcionava e enchia as salas de multidões que se identificavam com as vítimas.

Mas aos poucos os transgressores acabaram vencendo em vários filmes. Lembramos como os bandidos acabam indo mesmo para o Rio (deveriam ir para Washington, terra de assassinos, mas eles preferem, claro, o Rio de Janeiro, capital do Brasil soberano, que virou Meca da impunidade no imaginário mundial), ou para o México (que no cinema americano, é a mesma coisa que o Rio ou o Caribe), junto com mocinhas esplendorosas. Há o caso de Um sonho de liberdade, em que Tim Roibbins e Morgan Freeman conseguem fugir da prisão e vão viver juntos, felizes para sempre, numa praia longínqua, em algum lugar do “planeta” (tudo o que é fora das fronteiras americanas é o planeta, terra de ninguém).

No caso de Hautes Murs, não há o que discutir: os órfãos dos soldados da guerra são tratados com violência e merecem mesmo reagir, fugir. No caso de Tim Robbins, quem resiste ao charme do fujão genial que, preso por uma injustiça, bola por vinte anos uma rota para ele e seu grande amor escapar das paredes que impedem o relacionamento proibido? Dillinger, de Inimigos Públicos, já vai mais longe, pois o psicopata é absolvido por seus problemas psicológicos e sociais. A transgressão assim migra para a moralidade e alimenta a indústria de espetáculos.

O sistema prisional continua bruto e injusto e não é reformulado, pelo menos no Brasil, porque não interessa e dá preguiça e também porque faz parte do fosso entre as classes sociais. Bandidos de colarinho branco vivem em iates e jatinhos enquanto a massa despossuída apodrece nos porões da ditadura sem fim. Uma abordagem adulta é a de Carandiru , de Hector Babenco, que faz a denúncia mas não endeusa os prisioneiros. O que já fez água é insistência de apresentar assassino como mocinho e presidiário como alguém com direito à liberdade. Pode não ter esse direito. Isso não significa que mereça ser punido de maneira torpe, com cadeia imunda e corrupta.

Ninguém deseja cadeia para quem quer que seja. Ou pena de morte. O que se discute aqui é o vício de apresentar o criminoso como herói. Hoje, sabemos, com tanto crime à solta, que não se sustenta mais manter o mesmo enfoque. Talvez por isso se lance mão do anacronismo, pois assim funciona o velho esquema de confinar a virtude pra que ela escape e denuncie a opressão. Esse recado já foi dado. Agora é a vez de fundir a cuca para encontrar novas soluções de roteiro. Ou daqui a pouco teremos traficante perigoso sendo apresentado como gente bem. Já existe alguns antecedentes.

O assassino italiano acobertado no Brasil é um deles. O matador venezuelano Chacal, que curte uma prisão perpétua na França, está sendo defendido por Chavez. Sem falar no inglês que roubou milhões e fugiu para o Brasil e só quando estava agonizando decidiu voltar. O ladrão se refugia no Rio, mas na hora da morte se entrega nos braços da sua velha Albion. Como dizia Martin Fierro: “Infierno por infierno, prefiro el de la frontera”.

RETORNO - Imagem desta edição: cena de "Hauts Murs" - os bandidos são os carcereiros.

21 de novembro de 2009

CAIXA CORAL


Nei Duclós

Adiei o mundo que no escuro
preparava o bote – coral na caixa
preta do destino

Sem descobrir
o código – cobertor de ruído
sobre o túnel –
acordei diante do trem
em direção ao corpo
preso na ferrugem

Nenhum desvio
salvou-me do som
despedaçado do violino
Adeus dos outros,
feito pão mofado
na mesa posta de um cortiço

Acolheu-me a musa
no lado oposto à vida
com o olhar mortiço
para quem ficou encarando
a minha sorte

Ela escolhe e fisga o coração
de quem não morre
Para o resto – o inconformismo
em mar de inveja repulsivo –
ela tem o olhar que petrifica

Fósseis na mira da Medusa
fogem do Tempo, rosto final
do Medo, que assoma
como surda carruagem

Enquanto somem, a seiva
interminável cobre o sonho
que guardei no bolso
Carne oferecida à eternidade

RETORNO - 1. Poema do livro (ainda) inédito Partimos de Manhã. 2. Imagem desta edição: Homemarvore, de Ricky Bols.

RIO ACIMA


Nei Duclós

O rio guarda um país na outra margem
e um canal que engole navios

A cidade venta e está parada
Pescadores quietos sobre o barco
dentro da noite escutam passos

Silêncio, meu pai caminha sobre as águas
Ele persegue um peixe, a sua alma
remando com doçura e boca amarga

No rio, bóia meu coração em falso
resplandecendo, branco, no buraco
formado pelo céu e noite alta

Remamos rio acima
atrás de um surubi
ou cobra d´água
As luzes da ponte fazem sinais
Responde a estrela dalva


RETORNO - 1. Poema do livro No meio da rua (L&PM, 1979). 2. A imagem desta edição é de Anderson Petroceli, fotógrafo maior da fronteira.

20 de novembro de 2009

EXCESSO DE ERROS


O excesso de erros na vida nacional pressiona o analista a selecionar os eventos e reuni-los em grupos identificáveis, numa tentativa de encontrar uma linha coerente. Quais são os erros que devem ser destacados e o que significam? Primeiro, provas de concursos, como os do Enem ou do TRE regional de Santa Catarina. O vazamento das perguntas é só um aspecto da questão. A corrupção alia-se à incompetência. Perguntas mal formuladas, copiadas da internet alimentam essa indústria,que movimenta milhões, pois é isso no fundo o que se trata: na seleção lotérica dos candidatos, a despesa de inscrição é ampla e irrestrita, arrecadando uma grana preta para quem organiza ou para a instituição responsável.

A verdade é que o hábito de arrancar dinheiro de quem precisa é escorada no analfabetismo crescente e em rede. Alunos que se burrificam no atual sistema de ensino, que custa os tubos em propaganda oficial, viram professores, que por sua vez repassam o desconhecimento para as novas gerações. Isso tudo deságua em equívocos primários, pois se perderam os parâmetros confiáveis e hoje há um vale-tudo numa área que deveria servir de exemplo. Quando a educação se deixa levar pelo espetáculo televisivo de um Soletrando, do Luciano Huck, é sinal que estamos fritos. O professor surrado pelos alunos violentos é um dos sintomas da grave doença educacional que a ditadura implantou entre nós.

Com a ignorância abissal disseminada por todos os níveis sociais, o governo, fonte e arauto da vocação para o obscurantismo, deita e rola. O ministro da Justiça se assombra com a decisão do Supremo de indicar a expulsão do terrorista italiano e sugere que há algo podre no ar, ou seja, a crescente fascistização do mundo, especialmente na Itália e no governo atual dela. Quer dizer que fazer justiça é fascismo? Quando uma autoridade suprema da Justiça disse antes uma coisa dessas, colocando em dúvida uma decisão judicial soberana? Claro que as aparências foram mantidas, pois, diz o Ministro, estamos num “estado de direito”. Certamente o fato de terceirizar a decisão para o Executivo foi recebido com alegria. Agora, é levar no banho Maria até o caso esfriar e ficar tudo por isso mesmo.

Pode ser feito um paralelo com a classificação da seleção francesa para a Copa do Mundo. É um escândalo a desfaçatez do jogador Henry, da seleção francesa, que ajeitou a bola com a mão como quis (tocou nela duas vezes) e depois disse nas entrevistas que ele não é o árbitro. Ou seja, ele pode matar desde que a Justiça o libere! É preciso avisar que o crime existe no momento em que é cometido, independente da existência ou não do Juiz. Quando todo mundo vê a sacanagem, fica ainda mais feio.

Mas isso parece não importar. A cara-de-pau, a estultície, a superficialidade no poder encobrem o grande massacre a que estamos submetidos, quando tudo tem de ser pago até o osso, e somos todos encarados como unidades arrecadadoras. Providenciamos energia vital para os vampiros, que batem no peito jurando inocência, fazendo advertências e vivendo no bem bom da grana arrecadada à força e que jorra nos seus quintais como cachoeiras generosas.

RETORNO - Imagem desta edição: Mario de Andrade, secretário de Educação e Cultura do governo paulista, e as crianças (foto de B.J.Duarte). No tempo em que governo, no Brasil, tinha Mario de Andrade em seus quadros. Na Era Vargas, obviamente.

19 de novembro de 2009

PORTUGAL



Nei Duclós

Portugal, pátria de origem
Língua geral

Portugal, vela do abismo
Vento no caos

Portugal, rota de visgo
Rastro de sal

Portugal, sopro de sino
Voz catedral

Portugal, século antigo
Acervo de cal

Portugal, riqueza e vício
Sonho imperial

Portugal, dor e vertigem
Ponto final

NÃO SABEM O QUE FAZER COM GETÚLIO VARGAS


Como tratar assuntos candentes como Villa-Lobos, o futebol brasileiro, a cultura no século 20 se no meio existe uma batata quente, uma pedra, um complicador chamado Getúlio Vargas? O ideal seria colocar todos esses assuntos ao largo do grande estadista, não dar destaque à extrema “coincidência” entre a Era Vargas e o que o Brasil produziu de melhor. O normal é ver uma contradição ou uma charada sem solução e assim negar a existência do Brasil soberano, aquela fase da vida nacional em que nos superamos em tudo e que foi soterrada lentamente, mas de maneira inexorável, a partir do suicídio do Vargas em 1954 e de maneira radical e brutal de 1964 em diante.

Hoje, vemos o maestro John Neschling se atrapalhar tentando enquadrar Villa-Lobos, que, segundo sua argumentação, não pode ser endeusado. Não se pode exagerar abordando sua obra, diz o maestro, não podemos equipará-lo a Bela Bartok ou Stravinski, mas também não podemos diminui-lo em relação a esses grandes compositores. Não podemos chamá-lo de gênio, apesar de ter feito coisas geniais, devemos guardar “as devidas proporções” e reconhecer que ele, mesmo quando faz coisas banais (e fez muito, pois tem mais de mil composições) conseguiu momentos de gênio. Essa é a argumentação atrapalhada de Neschling. Por que não reconhecer logo o gênio, sem reparos e subterfúgios? Porque era brasileiro? Porque era autodidata? Porque não se enquadrava? Ou porque estava ligado a Getúlio Vargas? Se estava ligado a Ge´tulio, não poderia ser tão bom assim. Aí tem.

Junto com ele, meu ex-colega da Ilustrada dos anos 70, João Marcos Coelho (ele cobria música erudita e eu rock) fala como Villa Lobos foi tratado aos pontapés pela vanguarda brasileira contaminada pelos europeus. E que é preciso valorizar o que é nosso, pois até hoje a memória de Villa-Lobos se ressente desse boicote. Bastaria, Joãom Marcos, colocar o massacre contra Villa-Lobos como decorrência da campanha caluniosa contra Getúlio Vargas. Assim faria sentido. Pois a fonte da má-vontade sabemos qual é. Villa-Lobos escreveu uma carta a Getúlio Vargas propondo uma revolução cultural por meio da música, para que ela pudesse estar à altura das propostas da revolução de 30. Depois, no Estado Novo, foi a grande figura dos corais de milhares de vozes, da implantação de uma política educacional que gerou inumeráveis grandes artistas entre nós.

Tivemos Elis, Milton, Chico, Edu e centenas de outros de grande qualidade porque tivemos antes Villa trabalhando no governo Vargas, que implantou a música como matéria obrigatória nas escolas (parece que vai voltar a lei; o sertanojo e o baticum agora serão ensinados nos colégios?). Mudou um pouqunho nos últimos anos. Reconhecem que ele foi o maior estadista brasileiro, mas não abrem mão de debochar, colocando-o como amante de Virginia Lane, por exemplo (talvez para contrabalançar o fato de que FHC está sendo descoberto como o grande fazedor de filhos fora do seu festejado casamento, uma espécie de presidente paraguaio Lugo tardio).

O historiador e jornalista do Grupo Estado, Marcos Guterman, falando sobre seu livro, "O Futebol Explica o Brasil", destaca a copa de 1938 como o grande momento em que o futebol virou identidade e fenômeno nacional, incentivado por Getúlio Vargas “então ditador”. O bom seria que o futebol deixasse de ser gringo e branco entre nós e virar mulato e brasileiro sem que o Getúlio existisse, assim ficaria como mais um feito do bom mocismo bem pensante que hoje domina o país. O fato de o futebol ter se modificado nos anos 30, época do governo Provisório e depois do Constituinte, ambos de Vargas, não significa nada. O importante é lançar os holofotes na “ditadura”, para que possamos bater no peito e achar que vencemos a tirania.

Ficaria mais fácil reconhecer que estão todos errados, que tivemos tudo isso graças a Getúlio Vargas e à revolução de 1930. Vou refrescar a memória. Candidato derrotado por fraude eleitoral em 1929, Getúlio pôs-se à frente de um movimento armado de massas e venceu. Saneou as finanças públicas, renegociou a dívida externa e iniciou o processo de industrialização para atender o mercado interno e de valorização dos produtos de exportação. Foi também vitorioso contra a tentativa de recaída para República Velha em 1932. Venceu as eleições da Assembléia Constituinte em 1933 e assumiu como presidente eleito em 1934. Em 1937, para evitar um golpe nazista (soma do integralismo e da porção nazista das Forças Armadas, alarmadas com a quartelada comunista de 1935), implantou o Estado Novo, de cunho nacionalista.

Foi quando instalou a siderúrgica de Volta Redonda, criou uma moeda forte, o Cruzeiro (moeda brasileira e não uma unidade de arrecação da pirataria internacional, como o real - plural réis, dos mil réis). Consolidou as leis trabalhistas, hoje em fase de sucateamento. Também inaugurou políticas públicas inéditas de saúde, educação e esportes. Não só zerou a dívida externa, como fez o Brasil tornar-se credor das grandes potências. Tínhamos divisas e não, como agora, dólar compartilhado com o FMI e os governos imperiais, que quando querem lançam mão da bufunfa (é quando “emprestamos” para o FMI).

Quando, terminada a guerra, preparava o país para a reconstitucionalização foi derrubado por um golpe militar em 1945. Voltou eleito pela massa numa vitória estrondosa em 1950. Foi levado ao suicídio em 1954, depois de intensa campanha golpista.

Viu? É fácil. Fica melhor para entender porque surgiram tantos gênios na época, porque nossa música, o futebol, a indústria brasileira começaram a se destacar. Foi o Getúlio Vargas. Culpa dele. Podem dizer. Eu deixo.

RETORNO - Imagem desta edição: Ary Barroso e Heitor Villa-Lobos. Hoje, os destaques são Lady Gaga e Sting.

18 de novembro de 2009

INCÊNDIO


Nei Duclós

Faço de conta que não existo
e quando menos esperas
lá estou eu a sussurrar
no ouvido
o perfume de um novo
estufar de velas

Sou mais que um boa-praça
casei com o novo dia
conceitos atirei pela janela
e embora eles voltem
para regular a vida
confio neste incêndio
que me queima a goela

RETORNO - 1. Poema (levemente modificado) do meu livro Outubro (1975). 2. Imagem de hoje: tirei daqui.

17 de novembro de 2009

ENIGMA BRASIL


Nei Duclós (*)

O enigma Brasil invoca a inteligência internacional, hoje não mais confinada à cobertura da mídia tradicional ou submissa à produção de pensamento da cátedra. Os scholars e os grandes jornalistas estrangeiros querem saber o que acontece no país tão incensado que derruba helicóptero e deixa suas principais cidades no escuro.

Não basta vir para cá pessoalmente, pois há o risco de se reiterar uma percepção já consolidada. Nem recorrer aos autores das análises aceitas sobre o país, obsoletos por vocação, já que foram aparelhados por situações políticas pontuais e nelas fizeram carreira. Chegou a vez de ler e escutar os espíritos livres, os pensadores marginalizados, os emergentes. São grupos de uma opinião pública radical que pode ser acessada de qualquer lugar do mundo.

Não que na rede não existam os mesmos vícios encontrados em outros setores mais notórios. Mas o excesso da oferta pode ajudar a mudar a idéia que se faz do país, pois agora é possível enxergar as contradições graças a iluminações fora do circuito considerado canônico. Pode-se furar o bloqueio da propaganda oficial, ou das denúncias baseadas nos interesses políticos, ou das manipulações das pesquisas ou simplesmente da soberba dos que tentam se manter à tona enquanto ao seu redor milhões de fontes, com suas próprias mídias, mantem cerrada guerrilha sobre tudo o que acontece entre nós.

Nem tudo é bobagem, como querem seus críticos, e isso encanta o olhar fora das nossas fronteiras. É bom que isso aconteça, pois assim será possível romper com a imagem projetada por especialistas em marketing. Podemos estar além ou acima da convicção, enraizada entre muitos de nós, de que somos um país de pessoas sem importância, lideradas por exemplos importados. Temos consciência sobre os prejuízos da política econômica e sobre a causa do deslumbramento disseminado nos notórios jornalões das finanças. Nem todos os brasileiros batem palmas para a remuneração excessiva dos investimentos via política de juros extorsivos.

Nosso sucesso não pode se basear na alegria de quem ganha os tubos arriscando pouco. Mas sim, na competência com que mostramos nosso rosto de maneira isenta. A maior riqueza do Brasil, atualmente, é essa lucidez que atrai a atenção das melhores cabeças do mundo em eterno conflito.

RETORNO - 1. Imagem desta edição: Villa-Lobos em ação, no tempo em que íamos a campo para decifrar o Brasil. Sobra homenagem ao compositor de gênio, colocado sempre como algo à parte do ambiente onde atuou, o Brasil soberano de Getúlio Vargas. É sempre assim. 2. (*) Crônica publicada nesta terça-feira, dia 17 de novembro de 2009, no caderno Variedades, do Diário Catarinense.

ENIGMA BRASIL


Nei Duclós (*)

O enigma Brasil invoca a inteligência internacional, hoje não mais confinada à cobertura da mídia tradicional ou submissa à produção de pensamento da cátedra. Os scholars e os grandes jornalistas estrangeiros querem saber o que acontece no país tão incensado que derruba helicóptero e deixa suas principais cidades no escuro.

Não basta vir para cá pessoalmente, pois há o risco de se reiterar uma percepção já consolidada. Nem recorrer aos autores das análises aceitas sobre o país, obsoletos por vocação, já que foram aparelhados por situações políticas pontuais e nelas fizeram carreira. Chegou a vez de ler e escutar os espíritos livres, os pensadores marginalizados, os emergentes. São grupos de uma opinião pública radical que pode ser acessada de qualquer lugar do mundo.

Não que na rede não existam os mesmos vícios encontrados em outros setores mais notórios. Mas o excesso da oferta pode ajudar a mudar a idéia que se faz do país, pois agora é possível enxergar as contradições graças a iluminações fora do circuito considerado canônico. Pode-se furar o bloqueio da propaganda oficial, ou das denúncias baseadas nos interesses políticos, ou das manipulações das pesquisas ou simplesmente da soberba dos que tentam se manter à tona enquanto ao seu redor milhões de fontes, com suas próprias mídias, mantem cerrada guerrilha sobre tudo o que acontece entre nós.

Nem tudo é bobagem, como querem seus críticos, e isso encanta o olhar fora das nossas fronteiras. É bom que isso aconteça, pois assim será possível romper com a imagem projetada por especialistas em marketing. Podemos estar além ou acima da convicção, enraizada entre muitos de nós, de que somos um país de pessoas sem importância, lideradas por exemplos importados. Temos consciência sobre os prejuízos da política econômica e sobre a causa do deslumbramento disseminado nos notórios jornalões das finanças. Nem todos os brasileiros batem palmas para a remuneração excessiva dos investimentos via política de juros extorsivos.

Nosso sucesso não pode se basear na alegria de quem ganha os tubos arriscando pouco. Mas sim, na competência com que mostramos nosso rosto de maneira isenta. A maior riqueza do Brasil, atualmente, é essa lucidez que atrai a atenção das melhores cabeças do mundo em eterno conflito.

RETORNO - Imagem desta edição: Villa-Lobos em ação, no tempo em que íamos a campo para decifrar o Brasil.
http://daniellathompson.com/Photos/People/Villa-Lobos/Sodade.gif

http://www.clicrbs.com.br/diariocatarinense/jsp/default2.jsp?uf=2&local=18&source=a2719370.xml&template=3916.dwt&edition=13540§ion=1315




ENIGMA BRASIL

Nei Duclós (*)

O enigma Brasil invoca a inteligência internacional, hoje não mais confinada à cobertura da mídia tradicional ou submissa à produção de pensamento da cátedra. Os scholars e os grandes jornalistas estrangeiros querem saber o que acontece no país tão incensado que derruba helicóptero e deixa suas principais cidades no escuro.

Não basta vir para cá pessoalmente, pois há o risco de se reiterar uma percepção já consolidada. Nem recorrer aos autores das análises aceitas sobre o país, obsoletos por vocação, já que foram aparelhados por situações políticas pontuais e nelas fizeram carreira. Chegou a vez de ler e escutar os espíritos livres, os pensadores marginalizados, os emergentes. São grupos de uma opinião pública radical que pode ser acessada de qualquer lugar do mundo.

Não que na rede não existam os mesmos vícios encontrados em outros setores mais notórios. Mas o excesso da oferta pode ajudar a mudar a idéia que se faz do país, pois agora é possível enxergar as contradições graças a iluminações fora do circuito considerado canônico. Pode-se furar o bloqueio da propaganda oficial, ou das denúncias baseadas nos interesses políticos, ou das manipulações das pesquisas ou simplesmente da soberba dos que tentam se manter à tona enquanto ao seu redor milhões de fontes, com suas próprias mídias, mantem cerrada guerrilha sobre tudo o que acontece entre nós.

Nem tudo é bobagem, como querem seus críticos, e isso encanta o olhar fora das nossas fronteiras. É bom que isso aconteça, pois assim será possível romper com a imagem projetada por especialistas em marketing. Podemos estar além ou acima da convicção, enraizada entre muitos de nós, de que somos um país de pessoas sem importância, lideradas por exemplos importados. Temos consciência sobre os prejuízos da política econômica e sobre a causa do deslumbramento disseminado nos notórios jornalões das finanças. Nem todos os brasileiros batem palmas para a remuneração excessiva dos investimentos via política de juros extorsivos.

Nosso sucesso não pode se basear na alegria de quem ganha os tubos arriscando pouco. Mas sim, na competência com que mostramos nosso rosto de maneira isenta. A maior riqueza do Brasil, atualmente, é essa lucidez que atrai a atenção das melhores cabeças do mundo em eterno conflito.


http://daniellathompson.com/Photos/People/Villa-Lobos/Sodade.gif

http://www.clicrbs.com.br/diariocatarinense/jsp/default2.jsp?uf=2&local=18&source=a2719370.xml&template=3916.dwt&edition=13540§ion=1315




16 de novembro de 2009

ALEJO CARPENTIER E A ORIGEM DO ROMANCE


Nei Duclós

O romance, ofício maior da literatura, é a aventura humana num território hostil. É a busca das fontes mais poderosas dessa arte, por meio dos rastros (as palavras) deixados pelos passos perdidos de tempos simultâneos, fases de civilizações superadas que coexistem a pouca distância do que se considera o presente. Por meio de guias, do instinto, das revelações, dos cheiros, da chuva, do granito, das criaturas de todas as formas, o autor parte para o Incriado, onde medram plantas que se recusaram a servir de alimento e deuses que jamais foram nomeados e que desaparecem sem deixar vestígios.

Para penetrar nesse mundo, é preciso achar a abertura que leva à fundação de uma aldeia misturada na mata, rodeada pelo mistério e a majestade de uma paisagem que são ruínas jamais decifradas. Para descobrir a origem da música, é preciso testemunhar o nascimento da palavra, um milagre que continua se manifestando, basta que o autor, como Ulisses, se jogue no desconhecido, impulsionado pela miséria de sua situação, pelo desafio da sua existência datada, pela necessidade de chegar até onde o fogo resgata sua função e todos os movimentos fazem sentido e deixam de ser essa repetição de gestos vazios, de rituais ocos, de vidas jogadas fora.

A busca, em Alejo Carpentier, na sua absoluta obra-prima Os passos Perdidos (um livro que te joga para sempre no exílio, já que depois dele nada mais precisa ser escrito), de 1953, implica em algo maior do que apenas abrir mão da superficialidade ou da alienação. Chegar ao coração do romance é notar que lá também a arapuca funciona e pode matar: “A selva era o mundo da mentira, da cilada e do falso semblante. Ali tudo era disfarce, estratagema, jogo de aparências, metamorfose".

Como detectar, na voragem das mentiras, o que realmente vale a pena? Como descobrir "uma noite que se impôs por seus valores de silêncio, pela solenidade de sua presença carregada de astros"? É preciso enxergar e não apenas ver: “Não mentiam as garças quando inventavam a interrogação com o arco do pescoço, nem quando levantavam seu espanto de plumas brancas. Só as aves estavam em tempo da verdade, dentro da clara identidade de suas plumagens”.

O narrador do livro, um compositor que ao pesquisar a origem da música redescobre o talento, está enredado num casamento de mentira, numa vida intelectual vazia, numa rotina brutal, numa frustração permanente. Algumas frases dessa fase anterior à sua partida dizem tudo sobre onde estava metido: “Voltei à nossa casa, onde a desordem da partida apressada ainda era a presença da ausente. Essa forma peculiar da indolência que consiste em se dar com briosa energia a tarefas que não são as que deveriam nos ocupar. Nesta tarde de chuva cujos trovões, aplacados, pareciam rodar sobre os charcos da rua próxima".

Passado tanto tempo do boom da literatura latino-americana no século vinte, é hora de revisitar o Mestre, o autor das bases do real maravilhoso e vítima do principal equívoco daquilo que virou moda. É o momento de revisitar esse grande autor sem a aura mística do marketing e da explosão de vendas dos seus clones.

Dizem que Gabriel Garcia Márquez rasgou os capítulos que tinha escrito de Cem anos de solidão quando leu este livro de Carpentier. E começou tudo de novo. Essa América Latina de Carpentier e Gabo, seria apenas a infância imaginada dos escritores, resíduo de velhos serões? Há um excesso de umidade e delírio nos textos trabalhados, uma denúncia que fica, na aparência, como obra de ourivesaria, mas no fundo é um pote de luz que quebra no mosaico e nos imobiliza num assombro.

O que era sonho emergente num mundo asséptico hoje é engolido pelo pesadelo do caudilhismo renovado, o que usa o voto no lugar da espada. Mas fica, intacta, a literatura que não apenas deslumbra, mas ensina, especialmente em Carpentier, o erudito que publicou três volumes de ensaios sobre música e é autor de outros livros maravilhosos, como O reino deste mundo, entre tantos.

Em Os Passos Perdidos (que li numa edição da Brasiliense de 1985, com tradução de Josely Vianna Batista) Carpentier se supera. Ele nomeia tanto o tédio quanto o encontro monumental de suas raízes, com a grandeza dos fundões de sua infância e de sua terra. Esse continente verbal emerge no horizonte literário ao lado dos maiores livros de todos os tempos, pois interage com A Divina Comédia, a Ilíada, Dom Quixote. É nesse patamar que Os Passos Perdidos se situa.

A leitura desse livro é mais do que uma experiência, é uma avassaladora viagem para as entranhas de tudo o que é humano e que nos assusta por sermos, sempre, o enigma de nós mesmos.

RETORNO - Imagem de hoje: tirei daqui.

15 de novembro de 2009

ESCÂNDALOS NACIONAIS


Os escândalos existem porque vivemos numa tirania maquiada de democracia, porque esse sistema político é uma porcaria, não porque o país não preste. Neste 15 de novembro, data da Proclamação da República, como nos ensinavam na escola, devemos encarar o Brasil de frente, país que herdamos inteiro e vamos deixar aos frangalhos para nossos descendentes. Basta selecionar alguns exemplos.

Hugo Chavez recebe a presidente do grande país do norte, o estado del Gran Pará. Ambos assinam vários acordos e convênios. A estadista chegou em Caracas com sua comitiva. Contra o Grão Pará se fez uma guerra, a da Independência, já que esse país à parte não queria se submeter ao Rio de Janeiro e preferiu ficar sob as ordens de Lisboa. Mas isso tinha acabado no século 19. Volta no século 21 porque o Brasil, via presidente Lula, não pára de ser roçar em Chavez. Vai tudo acabar em guerra, pois é contra o Brasil a guerrinha que Chavez está preparando, não contra os Estados Unidos. Ele quer um naco da Amazônia, que pertence ao seu vizinho, El Gran Pará. Brasil, que Brasil?

Pilastras gigantescas do Rodoanel caem logo depois do apagão. Todos sabem, o apagão é petista, o Rodoanel é tucano. Se for o que desconfiamos, uma luta de foice entre duas forças políticas, vamos nos preparar. Já tivemos o grande massacre do PCC em São Paulo na véspera das eleições em 2006. Se o país começar a apagar e as obras a cair, estamos fritos. Um detalhe é a decadência da engenharia nacional: cai metrô, cai Rodoanel, estradas despencam, nada fica em pé. A política está contaminando a técnica?

Shakira e Madonna, que ganham a vida sacudindo a genitália em frente as câmaras e por isso são incensadas como grande artistas, fazem carinhas de sérias e se apresentam como ongueiras que dizem beneficiar pessoas carentes. Madonna parece que está arrecadando dinheiro para ensinar Cabala para as crianças (!). Quem sacode as partes pudendas e simula orgias sexuais para ganhar a vida pode se arvorar a ser assim uma espécie de líder espiritual? Até onde vai a desfaçatez e a falta de escrúpulos? Madona chega numa favela e diz que está amando a visita. Claro, um nababo brasileiro lhe repassou 7 milhões de dólares! Deveriam todos sentir vergonha. Cada vez entendo menos.

Deputado do Amazonas que se elegeu graças a um programa de televisão sobre crimes, fazia parte de um grupo de extermínio. Os casos eram reportados pelo seu programa. Descoberto, foi preso. Agora seis testemunhas foram assassinadas depois de prestarem depoimento. Não canso de dizer: o país é uma ditadura, a Justiça não garante nada a ninguém. Quando as instituições não funcionam, os partidos se engalfinham em luta bandida, quando policiais fazem parte de esquemas de corrupção e mortandade, quando os políticos são flagrados em inúmeras falcatruas, então é porque temos um sistema político que pode ser qualquer coisa, menos democracia. É uma tirania pura e simples, que faz gato e sapato da cidadania.

Enfermeira mata bebês com alta dosagem de sedativos em Canoas. Há algumas semanas, uma criança foi torrada no microndas aqui em Santa Catarina. A crueldade assombra o país incensado como grande fenômeno na economia. Enquanto em Paris Lula é abraçado por Sarkozy, que está faturando uma baba conosco, e diz coisas como “não permitiremos que Obama”, a vida não vale nada no Brasil. Espíritos brutalizados, amontoados de gente no lugar de uma sociedade organizada, eis o que somos, nesta quadra da vida em que deveríamos ter tudo para um mínimo de felicidade. Ah, esqueci. Tem muita gente “sem medo de ser feliz”. Diante dos escândalos nacionais, deveríamos ter, pelo menos, vergonha dessa alegria de araque, em que se mata e se morre a todo instante.

RETORNO - 1. Imagem desta edição: Proclamação da República, de Benedito Calixto. 2. No Mais! deste domingo, dia 15/11/09, José Ramos Tinhorão se diz arrependido de ter chamado Villa-Lobos de "maestro da ditadura". E lembra que foi uma das 40 mil vozes no Maracanâ regidas pelo gênio. Mas não abre mão de ver algo sinistro na relação entre a Era Vargas e o compositor maior do Brasil: acho que houve "uso", que o maestro usou o governo e vice-versa. Não é capaz de identificar uma sintonia entre os dois projetos, ambos do Brasil soberano. Tinhorão não leu a carta (ou não deu importância)de Villa-Lobos a Getúlio, que publiquei aqui. Quando há algo ruim, atribuem a Getúlio. Quando há algo bom na época de Vargas, aí tem. Até quando essa calúinia persistirá?

13 de novembro de 2009

ZÉ CELSO E A PRESIDÊNCIA DE MACUNAÍMA


José Celso Martinez Correa, o Zé Celso do Oficina, no texto publicado no Estadão “Lula faz política culta e com arte”, celebra a esperteza e o talento histriônico deste que é, na sua avaliação, “o primeiro presidente antropófago brasileiro”. O que será que Zé Celso, o guru da carnavalização cultural, quer dizer com suas alegorias?

Seria enfim a vitória do Manifesto Pau-Brasil, da crítica de Oswald de Andrade ao modernismo bem comportado – e este, por sua vez, sendo a crítica ao academicismo, ao país que tentou ser branco, apesar de ter importado a população da África para fazer todo o serviço? Estaria enfim Macunaíma, o herói sem nenhum caráter (que perdeu a forma), da obra de Mario de Andrade, no poder?

A antropofagia é uma ruptura da Semana de Arte de 1922, evento elaborado pela elite paulista e realizado no Teatro Municipal. O modernismo, que vaiava o burguês mas vivia dele, deu as cartas da cultura brasileira da ditadura até FHC, quando então a Tropicália, a Usyna Uzona, Macunaíma e a deglutição do bispo Sardinha ascenderam ao topo do poder via PT. Foi quando “a contribuição milionária de todos os erros” do analfabetismo alcançou o status de poder de estado. Seria isso o motivo da festa?

As inúmeras asneiras de Zé Celso estão embaladas num tom de vanguardismo vetusto, o mesmo que foi cevado na estufa do autoritarismo. Já estamos cansados de ver essa vanguarda, inventada sob medida, como alternativa ao confronto, à luta contra a ditadura. Vamos elencar as barbaridades do texto:

Zé Celso: “Lula é nascido em Caetés, nas regiões onde foi devorado por índios analfabetos o Bispo Sardinha que, segundo o poeta maior da Tropicália, Oswald de Andrade, é a gênese da história do Brazil. Não é o quadro de Pedro Américo com a 1ª Missa a imagem fundadora de nossa nação, mas a da devoração que ninguém ainda conseguiu pintar.”

Ou seja, não existe a imagem da comilança (índios devorando carne humana, metáfora da adaptação brasileira do corpo estranho estrangeiro), mas ela é a “imagem fundadora da nossa nação”. Entenderam? A imagem que não existe é a imagem fundadora. A que existe, o magnífico quadro de Pedro Américo, sobre a presença católica que combateu o hábito de comer carne humana, não significa nada.

Zé Celso: “Lula começou por surpreender a todos quando, passando por cima das pressões da política cultural da esquerda ressentida, prometeica, nomeou o Antropófago Gilberto Gil para Ministro da Cultura e Celso Amorim, que era macaca de Emilinha Borba, para o Ministério das Relações Exteriores, Marina Silva para o Meio Ambiente e tanta gente que tem conquistado vitórias, avanços para o Brasil, pelo exercício de seu poder-phoder humano, mais que humano.”

O desmatamento continuou a mil na gestão Marina Silva, nunca a cultura brasileira esteve tão por baixo quanto na gestão Gil, e Celso Amorim é o imbecil que todos conhecem. Mas sob a batuta de Zé Celso, tudo fica parecendo algo transcendental. Zé Celso já se esfregou em Silvio Santos atrás de verbas, estaria querendo algo do governo?

Zé Celso: “Lula não pára de carnavalizar, de antropofagiar, pro País não parar de sambar, usando as próprias oligarquias. Lula tem phala e sabedoria carnavalesca nas artérias, tem dado entrevistas maravilhosas, onde inverte, carnavaliza totalmente o senso comum do rebanho.”

As besteiras inomináveis proferidas por Lula aqui ganham uma conceituação fake. O uso do samba e do carnaval para justificar o jogo bruto da demagogia que todos conhecem é de uma desfaçatez sem tamanho.

Zé Celso: “Brilha Maquiavel, quando aceita aliança com Judas, como Dionísios que casa-se com a própria responsável por seu assassinato como Minotauro, Ariadne. É realmente um transformador do Tabu em Totem e de uma eloquência amor-humor tão bela quanto a do próprio Caetano. Essa sabedoria filosófica reflete-se na revolução cultural internacional que Lula criou com Celso Amorim e Gil, para a política
internacional.”

Filosofia, sabedoria e revolução aqui usadas para justificar todas as traições (“aceita aliança com Judas”)

Temos assim um painel completo das raízes da corrupção que nos assola. É, no fundo, a fonte da sacanagem, pois a partir das justificativas conceituais, tudo pode, desde o mensalão (“brilha Maquiavel”) ao aparelhamento completo do estado, tocados ao som da algaravia diária dessa “eloquência amor-humor”, que, está claro, não passa de uma procissão de argumentos inspirados no ressentimento.

O texto chega ao auge com a frase “Eu abro meu voto para a linha que vem de Getúlio, de Brizola, de Lula”. É o que eu costumo dizer aqui: vira e mexe, tudo acaba sendo culpa do Getúlio Vargas. Colocar um traidor na linhagem do grande presidente do Brasil soberano é pior do que um deslize, é má-fé.

Zé Celso revela um vetor importante do perfil institucional da nova ditadura, herdado da indústria cultural e que se abraça com as justificativas vindas da universidade. As duas fontes provem da distorção política que manipulou todo mundo para manter a ditadura sob a capa da democracia. Esse esquema já foi desmascarado pelos dois governos Lula. Então é preciso apelar para o Tabu e o Totem e outras palavras jogadas na vala comum da frescura criminosa.

Zé Celso queria ficar bem com todo mundo para se contrapor a Caetano Veloso, que chamou Lula de analfabeto. Tentou, neste texto, puxar também o saco de Caetano. Mas não cola. Analfabetismo não é antropofagia cultural. Oswald de Andrade certamente não queria que um traidor analfabeto tomasse o poder mentindo para os eleitores. Nem a denúncia de Mario de Andrade com seu Macunaíma tinha por objetivo levar a falta de caráter para o poder. Trata-se de barbárie pura e simples e a brutalidade não pode ser guindada ao trono da glória cultural. Vivemos numa treva tremenda porque sempre tem alguém para justificar a sacanagem dos poderes. Insurgir-se contra a tirania também é desmascarar a jogada das figuras carimbadas do falso vanguardismo.

RETORNO - 1. Imagem de hoje: o assassinato brutal do bispo Sardinha, devorado depois pelos canibais. Eis um evento celebrado como grande coisa pela falsa vanguarda, que atingiu o poder e não abre mão de querer ser ainda vanguarda. 2. Agradeço ao amigo Max Montiel Severo por ter me enviado o texto de Zé Celso, via e-mail.

11 de novembro de 2009

JEAN CHARLES: FILME LIVRA A CARA DOS INGLESES


A Justiça britânica já decidiu: a Scotland Yard agiu dentro dos princípios de polícia ao fuzilar pelas costas em 2005 o brasileiro Jean Charles Menezes na estação do metrô Stockwell, confundido com um terrorista no auge das investigações dos atentados em Londres. Mas essa atitude oficial arrogante pega mal para um país que quer transmitir a imagem de politicamente correto. Assim, além de agradar os conservadores, que apóiam a ação covarde dos assassinos, é preciso também atender os críticos e para isso existem os advogados sensibilizados com a injustiça, as ongs, os progressistas branquelos, entre outros exemplares da fauna. Enquanto os bandidos ficam impunes, são distribuídos bônus para quem ficou puto da cara.

Um desses mimos foram as 15 mil libras doadas pela polícia britânica à família de Jean Charles, que vive em Gonzaga, pequena cidade do interior de Minas. Outra passadinha na cabeça é o filme Jean Charles, produzido e patrocinado em parte por ingleses, como Stephen Frears, dirigido pelo brasileiro que vive na Inglaterra, Henrique Goldman e protagonizado por um ator que nesse filme transmite a leveza, o veneno, a superficialidade, a ligeireza e a desimportância de ser brasileiro, principalmente no exterior, Selton Melo. Está feito o carreto. Basta contar direitinho a versão apropriada da história do eletricista chacinado que ninguém vai desconfiar de nada.

É preciso que se diga que o filme é uma sacanagem do começo ao fim. Apresenta Jean Charles não como um boa praça, mas como um sujeito falso e aproveitador, que mente para a imigração inglesa e ainda debocha dela; que mente para os empregadores dizendo que a amiga recém chegada de Minas fala inglês; que rouba clientes do seu empregador conterrâneo; que cuida de documentos falsos e ainda não consegue cumprir a palavra dada.

Esse personagem safado e sem escrúpulos é apresentado como fã de uma contrafação: Sidney Magal. O certo seria chamar o Zeca Pagodinho, que na vida real era o ídolo do eletricista, mas como não deu certo, chamaram Magal. Que serve perfeitamente para o papel: é “latino”, ou seja, hispânico, caliente, rebolante, com putas que requebram no palco com bandeirinhas do Brasil cobrindo as partes pudendas e fazendo gestos exagerados de lambada. Está então definido o perfil do brasileirinho mentiroso e enganador, medíocre consumidor de cultura trash e que foi colhido não por um erro policial, mas por uma operação de guerra “justa e limpa”.

Daria muita bandeira todo esse esquema sem-vergonha do filme se não hovuesse alguns contrapontos. Um deles é a reação desesperada e violenta do seu primo contra os policiais, que chega a dar verossimilhança a um povo que clama por justiça e tem coragem de dizer isso na cara. O mesmo personagem destrata os emissários da Scotland Yard que vão no ermo mineiro entregar o cheque. A emoção dos funerais na cidadezinha também ajuda a dar um aspecto de retratação ao crime hediondo, pois a emoção que provoca limparia a culpa de todos, tantos dos assassinos, quanto dos migrantes que mentem para ficar lá.

O que me deixa intrigado é o empreiteiro que emprega Jean Charles em Londres e faz o papel dele mesmo. Ninguém comenta que no filme Jean fica mal na fita, pois rouba o cliente daquele que o considera amigo. Quer dizer, essa história foi contada pelo patrão e todos confirmam, é isso? Reproduzem essas histórias para "humanizar" o personagem, jamais tratá-lo como herói (isso nunca! é um brasileiro, ora).

A verdade é que Jean Charles não pode se defender. Não pode expressar sua luta, a grandeza de sua presença como cidadão que se reinventa no mundo. Está calado para sempre nosso herói solitário, brasileiro que se foi e levou junto sua verdade. Enquanto isso, os chacais se locupletam com sua memória, enganando inclusive os familiares, que se emocionaram com o filme. E a polícia pede “desculpas”. Hipócritas. Você não comete um crime e depois diz: "foi mal aí". É porque não pedem desculpas, jamais pedem perdão de nada. Mantém-se firmes e isso é representado no filme pela voz cavernosa e prepotente em off relatando os antecedentes do equívoco. Como a dizer: havia motivos para os tiros na nuca. Animais.

Não somos essa nação de mendigos que está em Londres de favor. Estamos cobrando a conta de tantos séculos de exploração e miséria. Estamos voltando para a origem dos nossos males, lutando por enquanto pela sobrevivência, mas daqui a pouco impondo nossa cultura real, não essa, fake, rebolante, de araque, tão incensada pelos entregadores do país.

RETORNO - Quando mataram Jean Charles, publiquei aqui um texto e um poema. Reproduzo o poema hoje:



O PASSO DA BANDEIRA

(Para Jean Charles Menezes, in memoriam)

Nei Duclós

Essa bandeira omissa amortalha tua presença
Voltas para a origem embalado em nosso ombro
Depositam teu corpo no chão pleno de sonho
Um poema inútil engrossa a fila da denúncia

És a coragem que cruza o mar de bolso vazio
És o medo de cidadãos amordaçados pelo Mal
O Hino é a despedida que cerca a indiferença
Querias o Tempo, mas teu único sal caiu no rio

Não temos como recuar, agora que és lembrança
Por que a ferocidade destruiu o teu exemplo?
Morreste num curral, derrubado de vingança

A covardia é a moeda vil dos que nos compram
Uma estação de flores foi plantada com terror
Olhamos para ti e nosso choro é apenas vento

RETORNO - A foto principal é do próprio Jean Charles. A secundária é do corpo de Jean Charles no metrô.

A LÓGICA DO APAGÃO


Quando a luz some em trezentos estados brasileiros e o sistema de Itaipu pára de transmitir energia completamente pela primeira vez na História, você, meu caro jornalista, não vai entrevistar o cachorrinho. Não caia na asneira de aparecer no ar dizendo: “E aí, cachorrinho, por que houve o apagão?” Au, au, responde o canino. Não perca tempo também fotografando happy hour à luz de velas, porque isso é óbvio, não desperdice o espaço da mídia que tens na mão.

Você simplesmente deixa de lado o jornalista como protagonista, deixe de filmar jornalista na estrada escura, esquece o assessor de imprensa das usinas e pergunta, sim pergunta, exerce esse hábito obsoleto, para um técnico, para alguém especializado na área, um engenheiro, lembram-se? Pergunte assim: por que houve o apagão? Aí o engenheiro responde. É assim que funciona. Leia a explicação:

“É apagão por garantia do sistema. Quando cai uma linha importante, por qualquer razão (até tiro costumam dar nos isoladores), ela tira uma quantidade de geração do sistema. Então a geração que sobra, que está ligada ao sistema (nós, com nosso consumo doido de eletricidade, numa hora de uso pesado como as 17 horas) não agüenta e solicita mais geração. Automaticamente as unidades geradoras vão gerando mais. Mas como é insuficiente, antes que aconteça alguma coisa ruim com todo parque gerador, as usinas são desligadas automaticamente.”

“Claro que este método de alívio de carga é por etapas. Como resultado, além daquela parte de geração que caiu, pela queda da linha, boa parte do parque gerador vai se desligando, causando uma falta de energia numa região pequena ou grande. Como o que caiu foram as linhas de Itaipu, o sistema perdeu seu maior parque gerador. Isso nunca tinha acontecido. Para repor Itaipu, não tem facilidade, nem quantidade de geração.”

“Pergunto: e essa quantidade de térmica a gás, diesel etc que colocaram a gerar, mina de ouro de uns e outros, porque elas não entraram para suprir a falta de Itaipu? Porque são de uns e outros. Depois vem o pior, para recompor, como? Se toda a carga (nós que mantemos as luzes a mil, a geladeira, a TV etc.) está ligada, não se consegue ligar usina por usina, pois a carga é grande, tem que começar uma recomposição lenta a partir de uma usina e um sistema isolado, que depois vai se ligando as outras usinas, ao sistema parcialmente. Leva um bom tempo esta reconexão.”

“Tem proteção automática que desliga se algo não agüentar a carga (nós). É como carro que atola. Isso aí, acontece. Quanto maior o acidente - e Itaipu é a maior em geração, quantidade de energia gerada, no mundo – mais difícil fica. Apagaria em qualquer país. Às vezes este efeito dominó começa em problema em uma usina grande que, por atuação das proteções, para as máquinas. Falta energia - não fale em luz elétrica , gostam tanto de falar em energia do ching yang cu que esquecem de dizer energia elétrica. Este não foi por falta de oferta de energia, foi um tropeção, que desequilibrou tudo. A gente derruba um lutador de peso com um golpe de sorte aplicado num lugar inusitado. Não é hacker, acontece. O sistema é seguro, Itaipu gera há 20 anos, nunca saiu assim.”

"Duas perguntas podem ser feitas. Se o problema que tirou as linhas de Itaipu foi tão sério, onde estão os estragos? Não tem foto, não tem localização, nada. Como se pode recompor com as mesmas linhas (são 8 de 750 KV – estas são da toda poderosa Furnas, recém tomada pelo PMDB do Sarney) que sofreram uma avaria tão séria? E não deixar vestígio? E porque não se falou da conversora de corrente alternada em contínua das unidades de Itaipu? Em Itaipu, metade das unidades são em 50 ciclos por segundo (50 Hz), energia que é convertida em Corrente Contínua, e transportada até Tijuco Preto, SP, onde voltam a ser convertida em corrente alternada. Pode ter sido simplesmente barbeiragem dos novos donos de Furnas.”

“Os paraguaios querem uma reunião Brasil, Paraguai e Argentina para analisar o problema. Falam em curto circuito que foi se alastrando. Vão pedir indenização! O assunto é técnico, mas a ignorância leva para estes lados obscuros.”

Entenderam? Se não entenderem, perguntem para engenheiros. Exerçam o jornalismo, essa profissão em desuso. Não entrevistem políticos, ministros, cachorrinhos. Entrevistem engenheiros especialistas. Não filmem gente chorando! Trabalhem! Senão, o editor vai dar uns cascudos em vocês, viu? Vai tirar vocês do ar, tão seguradores de microfones perguntando como é essa coisa de, gente do céu! ter apagão. Haja.

O que mais irrita é essa cara de boi compungido dos apresentadores, todos contra o câncer, a deitar falação politicamente correta, "lamentando o ocorrido" e "fazendo votos" para que não aconteça mais. Jornalista não é comadre, não tem que ficar lamentando ou fazendo votos. Parece que todo mundo é candidato. Ninguém vai ficar preocupado se você, caro jornalista, não se declarar tão chocado com os fatos. Ao contrário. Deixe que os leitores e espectadores se choquem ou não, conforme vão tomando conhecimento dos fatos com a ajuda do jornalismo. Ninguém quer ficar de olho parado diante da realidade dizendo "puxa, puxa". As pessoas querem saber o que realmente acontece, só isso.

RETORNO - Pois foi a Ana Maria Braga fazer o básico - entrevistar um especialista - para ser interrompida pelo trator Sandra Annenberg.A fonte falava da necessidade de investir em linhas de transmissão, em gestão e política de segurança para o setor e quando chegava ao ponto a Braga interrompia. Mas pelo menos a entrevista estava se segurando, até acabar nas garras da Sandrona, da soberba, da mediocridade, do atropelo, da ânsia de aparecer de quem deveria se preocupar mais com a informação do que com o circo.

PILOTO DO PAMPA NO EXÉRCITO AMERICANO


Nunca tinha entendido direito a biografia de Flavio Lago, uruguaianense de 48 anos que volta e meia comenta as edições aqui do jornal. Em alguns trechos de suas mensagens, ele falava de uma carreira como soldado americano que chegou a ir para o Kuwait e o Iraque. A história só fez sentido agora na sua viagem pelo Brasil, de visita a parentes e amigos.

Numa especial deferência ao conterrâneo editor do Diário da Fonte, ele passou com sua esposa Katrin algumas horas comigo aqui na praia de Ingleses, quando aproveitou para treinar o sotaque da fronteira que perdeu como cidadão do mundo. E para contar que depois de 20 anos servindo o exército americano como piloto de helicóptero/ambulância aposentou-se e foi morar na Alemanha.


Filho de família proprietária de terras na fronteira, Flavio chegou a fazer vestibular para veterinária, como pressionava a família, mas não se conformava em seguir o caminho trilhado por tantos. Decidiu virar o jogo. Depois de uma rápida passagem pela imprensa portoalegrense como fotógrafo, foi para São Paulo aprender a pilotar helicóptero. Mas a falta de seriedade dos cursos no Brasil, que exageravam a carga horária de vôo para facilitar a entrada dos alunos no mercado de trabalho, não o satisfez. Alertado por um amigo, mudou-se para os Estados Unidos, depois de convencer a imigração que tinha dinheiro para pagar seus caros cursos especializados.

Na cara dura, arranjou emprego num restaurante italiano, onde aprendeu tudo com um colega de trabalho, que um belo dia abandonou o posto deixando o dono do estabelecimento desesperado. Flavio faz questão de dizer que a sólida formação escolar, familiar e social em Uruguaiana deu-lhe segurança suficiente para levantar a mão e dizer para o patrão que podia tocar o barco, pois sabia fazer tudo na cozinha. Deu certo. Em pouco tempo, estava numa situação confortável, sendo que três anos depois de chegar casou com uma americana, quando conseguiu o green card.

Eu não sabia um monte de coisas que Flavio Lago me esclareceu, com seu jeito carregado , rápido e entusiasmado de falar. Eu imaginava que o green card garantia a cidadania americana, mas não é verdade. Você ganha o direito de ser residente, de ir e vir, mas a falta de cidadania não permitiu que ele conseguisse emprego, mesmo depois de ter feito 25 horas de vôos nos seríissimos cursos de helicóptero nos Estados Unidos. O mais impressionante está na seqüência do relato.

Os EUA dispõem apenas de 40% de suas forças nos serviço militar ativo (o custo é altíssimo), os outros 60 % é a reserva, onde o nosso gaúcho entrou. É o seguinte: lá, você pode ser soldado servindo apenas nos fins de semana e com alguns períodos curtos de treinamento por ano. Ganha todas as regalias, desde seguro saúde, salário, auxílio para fazer universidade etc. Mas tem um retorno: você dá duro no exército pelo tempo equivalente ao que dispôs dos benefícios. E pode ser convocado para a guerra, o que realmente aconteceu com Flávio, que decidiu abraçar a carreira de vez.

Como não conseguia emprego de piloto, resolveu se alistar no serviço ativo, quando adquiriu cidadania americana plena. Foi então deslocado para a Coréia, Alemanha, Iraque, Kuwait, onde houvesse tropas e às vezes luta. Sua função era salvar vidas de soldados e isso ele fez por vários anos, pois teve treinamento médico e conseguia resolver o problema dos feridos. “Depois de servir o exército, tudo na vida civil fica possível de fazer”, diz Flavio. Mas por duas vezes, ele sofreu acidentes. Isso o abalou bastante e ajudou a decidir-se pela aposentadoria no posto de tenente-coronel, pois poderia completar mais anos de serviço em troca de benefícios mais amplos.

Teve duas filhas, que hoje estão na faixa dos vinte anos e moram nos Estados Unidos. Divorciou-se em 2001 e casou-se com Katrin em 2005. Nascida na Alemanha Oriental, Katrin já sabe português suficiente para flagrar o marido na hora em que ele tenta esconder algo falando a língua pátria. O casal tem uma coleção de bikes, 13, para ser exato, que servem para todo tipo de atividade, desde fazer passeio até participar de competições. Em algumas das provas onde se meteram, chegaram a fazer entre 120 a 180 quilômetros por dia pedalando.

Esse é o perfil de um leitor do Diário da Fonte, o cara que saiu do miolo do pampa e foi correr mundo, construir uma carreira inédita e que hoje vive se sentindo um estrangeiro em todos os lugares. É a nossa sina, Flavio. Moramos apenas na cidade que nos criou, por mais longe que a gente vá.

RETORNO - Imagem de hoje: soldados recolhem feridos num helicóptero ambulância.

10 de novembro de 2009

UFOS


Nei Duclós (*)

Não se trata de acreditar ou não em Ufos. Eles existem, independente das nossas convicções e crenças. Se não existissem, estariam esquecidos, já que a primeira aparição data de 1947. Como são reafirmados todos os dias por depoimentos no mundo todo, não há o que contestar. Pode-se apenas denunciar a esperteza ou a má-fé de quem se aproveita disso para falar besteira.

Uma das bases para a evidência dos extra-terrestres já foi confirmada pela ciência: os inúmeros planetas fora do sistema solar. Fica o enigma das criaturas, seu suposto grau de adiantamento, verdadeiras intenções etc. Para os americanos, não há dúvida: os ETs são o inimigo que eles adoram ter, já que por aqui não há adversário à altura. O cinema dos Estados Unidos inventou os seres mais absurdos, agressivos e improváveis para reafirmar o próprio heroísmo, pois quando o mundo está em perigo, são eles, os americanos, que nos salvam. Isso confirma o destino manifesto do império.

O conflito, para a América, não está mais entre países, mas entre planetas. Os marcianos já saíram de moda, agora o Mal chega de muito mais longe. O Oriente Médio e a América Latina são apenas representações desse mundo bizarro, uma espécie de treinamento para a verdadeira guerra, que será nas estrelas. Contra essa visão belicista, temos os arautos da boa nova. Já que os extraterrestres são uma espécie de deuses astronautas, então todas as utopias de um mundo melhor, mais equilibrado (já ia dizer mais “humano”) fica a cargo dos habitantes das naves espaciais.

Nenhuma das duas versões convence. Pois os ETs devem pelo menos compartilhar uma coisa conosco: não sabem porque nasceram e para onde se dirigem. Estão pesquisando, querendo saber mais sobre esse mistério de existir num universo de astros boiando no espaço. Isso os identifica com nossa precariedade. E desmoraliza os detalhados relatos de viagens espaciais em que os abduzidos descrevem mundos perfeitos. Só podemos acreditar em lugares onde nada funciona, como o nosso.

Por enquanto, o Brasil é que parece ser um planeta estranho, dominado por criaturas suspeitas. O mais aterrorizante é que elas não exibem a cabeça ovalada ou os olhos saltando fora da órbita. São “normais” e nos acenam das telas luminosas, exagerando no sorrisinho maroto.

RETORNO – 1.(*) Crônica publicada nesta terça-feira, dia 10 de novembro de 2009, no caderno Variedades, do Diário Catarinense. 2. A imagem de hoje é do filme de Stanley Kubrick, "2001, uma Odisséia no espaço".

9 de novembro de 2009

O GOL OLÍMPICO


A verdadeira natureza do gol olímpico é a traição. O tiro direto do canto, no cruzamento da lateral e a linha de fundo, para dentro das redes, contraria a lógica do lance. O escanteio é um serviço perigoso: quem bate é garçom e a bola, no mínimo, é tocada duas vezes antes de oferecer ameaça. Ser arremessada num só petardo para provocar o extremo desespero do goleiro é um fato raro, admissível apenas em teoria, já que se trata de uma impossibilidade física.

Como pode um chute obedecer ao limite do campo e fazer o percurso da reta que acompanha o arco, que está ao lado do goleiro e não sua frente, e assim mesmo funcionar como um confronto, já que a bola entra e deixa todo mundo abismado diante das infinitas possibilidades do futebol? Não se trata apenas de a bola fazer a curva, o que tornaria o gol olímpico um teorema de fácil solução. O que pega é a viagem sem escalas, seguindo pelo alto o risco do chão e caindo dentro como se fosse um pássaro dado a evoluções, e não um objeto circular amarrado a um comportamento previsível.

O que é considerado certo num escanteio é chutar para o miolo da área, para a cabeça dos atacantes, ou para o pé de quem está de cara com o goleiro. Ou ainda chegar até o outro lado e facilitar a vida de alguém postado na ponta e que dali pode anarquizar a defesa adversária. É ameaçador mesmo quando o escanteio é apenas um passe de lado para quem pede, expediente que não me agrada, pois desperdiça uma situação valiosa para o jogo, substituindo-a por um totózinho que costuma cair no vazio, mas nem sempre.

O escanteio é um lateral de gala. Ao contrário dos outros laterais, é chutado e não arremessado com a mão. O lateral é uma espécie de punição numa arte em que, aparentemente, tudo gira em torno do pé. No fundo, as regras impõem o jogo dentro das quatro linhas e a fuga para fora desses limites obriga os batedores a contrariar a vocação do esporte. Tem gente que tenta enobrecer o lance sacudindo poderosamente os braços, lançando violentamente para longe, imitando assim a potência de um chute. Mas, por mais que se esforce, o batedor de lateral é um coadjuvante numa superprodução de protagonistas ferozes.

Isso muda radicalmente quando há escanteio, que é a vingança do arremesso lateral. Os craques aproveitam essa brecha, já que há grandes chances de sair gol dali. A oportunidade é o escanteio batido de forma tradicional. Tentar o gol olímpico é uma temeridade. Para começar, é um ato de egoísmo, elimina a solidariedade do serviço. Um fracasso pode acabar com a carreira de um jogador. É fácil que a bola se perca e a torcida vaie a pretensão. Só alguns privilegiados podem se dar o luxo de arriscar, e o truque é fazer segredo da intenção.

Quem bate o escanteio sempre da mesma forma acostuma o adversário. Isso desarma o inimigo, pois, por ser uma traição, o gol olímpico acontece quando menos se espera. Petkovic é um exemplo de como se comporta o craque nos momentos decisivos do campeonato. Todos sabem que Pet bate uma falta como ninguém, joga a bola para fora do alcance do goleiro, que assim acredita que ela vá se perder na arquibancada. A bola então, manobrada pela técnica do monstro, reencontra o caminho e cumpre seu destino. Mas quem faz esse tipo de coisa está qualificado para fazer coisa pior.

Um gol olímpico, por exemplo, como aconteceu neste domingo contra o Atlético mineiro. O chute de Petkovic foi tão traiçoeiro que o goleiro beijou a rede, se perguntando (vimos pelos seus gestos) para onde foi a bola. Só quando Pet saiu correndo para comemorar ele notou que jazia ao seu lado um corpo desconhecido, à espera dos legistas.

Petkovic, do Flamengo. O grande craque é personagem central da ressurreição do seu time, que nas mãos de Andrade, o ex-jogador que tinha sido preterido por muitos anos e agora é o técnico, resgata seu carisma e deslumbra o Brasileirão. Flamengo campeão também era uma impossibilidade física, assim como gol olímpico. Hoje o sangue rubronegro pulsa e atinge os espectadores à espera de um milagre.

RETORNO - Imagem desta edição: Petkovic.

8 de novembro de 2009

OS VERDADEIROS MOTIVOS


A mídia está cheio de eventos tratados de maneira ligeira. Precisamos especular sobre os motivos ocultos que devem estar regendo esses assuntos nos bastidores e destrinchar as fontes da incompetência endêmica.

A GAROTA DA UNIBAN - Ninguém pode contra a tirania. Expulsaram a garota que usou microvestido rosa na universidade e quase foi linchada pelos colegas na Uniban. Os responsáveis ficaram impermeáveis à repercussão negativa do episódio e não puniram os malfeitores porque, do lado dos linchadores, havia mais clientes. Deve ter sido esse o verdadeiro motivo. Outro motivo, agora do outro lado da moeda, é o de que a moça estava sem calcinha, teria feito um desfile na rampa antes de ser perseguida, estaria na universidade por motivos inconfessáveis e que seria figura conhecida em comunidades como desfrutável. Portanto, a expulsão assim se justificaria. Violência não se justifica. E atentado ao pudor, tem lei para isso, ou não? O que não pode é expulsar a moça e deixar impunes os vaiadores. "Ou nos locupletamos todos ou restaure-se a moralidade" como dizia Stanislaw Ponte Preta.

WOODY X ALMODÓVAR - Caetano malha Woody Allen dizendo que ele é cineasta para ver na TV, em casa. Eu vejo tudo em casa. Não vou mais ao cinema, pois acho longe, chato e cansei de patas pressionando minhas costas ou ter de sentar no chão nos filmes mais cult. Para mim isso não é critério. Mas talvez o verdadeiro motivo sejam as verbas da Espanha – governo, principalmente via prêmios, e investidores -. Allen está disputando com Almodóvar, amigo íntimo de Caetano. Talvez Almodóvar, descobridor de Penélope Cruz (foto acima), não tenha gostado de a grande atriz ter brilhado em Vicky Christina Barcelona, de Allen.

MASSACRE NO QUARTEL – O soldado muçulmano que matou gente no Fort Hood no Texas se justificou dizendo que não iria atacar seus irmãos da mesma religião. Mas ele só decidiu isso depois de anos ganhando bem nesse complexo que é, segundo o uruguaianense Flavio Lago, que serviu lá, o maior Forte das Forças Armadas dos EUA, com um contingente de mais de 65 mil soldados, mais as famílias, o que chega às 120 mil pessoas só no Forte. Enquanto recebia e estava em território seguro não houve problema, a dificuldade surgiu quando foi convocado para o Oriente Médio. Estudou até psiquiatria e seu trabalho, quando chegasse a vez de agir, era prestar serviço para outros soldados. Ou seja, mesmo que fosse para a guerra, não iria para o front, ficaria nos bastidores prestando assistência. Lago diz que poderia ter havido mais vítimas, mas as pessoas que vivem no complexo militar, por serem treinadas para situações de conflito, conseguiram evitar que a situação ficasse ainda pior.

MENTES PREJUDICADAS NAS HARDNEWS - Por que escrevem tão mal nas hardnews? Por que os textos beiram à debilidade mental? O verdadeiro motivo é a incompetência jornalística alimentada pela política de má distribuição de renda nas redações. Pagar micharia para a massa dos que trabalham nisso (sem orientação nem treinamento adequado), e os tubos para meia dúzia de privilegiados (os tais “formadores de opinião”) dá nisso (textículo publicado na Folha On Line): “Avião com destino a São Paulo retorna a Nova York após falha . Um avião da TAM, que partiu de Nova York em direção a São Paulo na noite desta sexta-feira (6), teve que retornar ao aeroporto de origem devido a uma falha. Segundo a assessoria da TAM, o voo JJ 8081, com 196 passageiros a bordo, teve que voltar para Nova York devido a indicação, no painel, de mau funcionamento de um dos flaps da aeronave. De acordo com a assessoria, o avião passou por manutenção corretiva e o voo foi retomado à 1h28 deste sábado, com pouso normal em Guarulhos às 10h38. O voo era previsto para chegar em São Paulo às 6h45. A companhia também informou...” É impressionante. A notícia volta várias vezes ao ponto de partida (“o avião voltou para Nova York) e “informa” obsessivamente que a fonte é a assessoria. O verdadeiro motivo é a burrice.

ANSELMO E O CINEMA NOVO – Destaquei no twitter a fala de Anselmo Duarte de que ele tinha criado o Cinema Novo e já houve reclamação. Deveríamos pensar melhor nesse embrulho. Por que um cineasta “conservador” fez um filme que ajudou a definir uma virada (essa sim, verdadeira) no cinema brasileiro? Por que Nelson Pereira dos Santos e Anselmo Duarte são “pioneiros”de um movimento que tem, por fora, um rosto tão definido, mas por dentro se presta a várias contradições (Ruy Guerra, por exemplo, o que ele tem a ver com Glauber?). Ainda acho que o Cinema Novo “é quando Glauber chegava da Bahia e aportava no Rio de Janeiro”, como disse brilhantemente Nelson Pereira dos Santos. Gostaria que dissessem também: “O cinema Novo é quando Anselmo Duarte ganhou a Palma de Ouro em Cannes”. Haja polêmica. O verdadeiro motivo contra Anselmo no Cinema Novo seria a inveja?

7 de novembro de 2009

ANSELMO DUARTE: HISTÓRIAS LAPIDARES


Morreu Anselmo Duarte, o ator e diretor que honra o cinema brasileiro e a nação que ele ajudou a inventar. É tarde demais para homenagens, depois que seu filho Ricardo Duarte anunciou sua morte neste sábado. Já escrevi sobre Anselmo algumas vezes, como neste texto sobre sua obra-oprima, "O Pagador de Promessas", e neste sobre o trabalho de Wendel Martins, da UFSC. O que nos resta é resgatar algumas de suas histórias lapidares. Selecionei duas, tiradas daqui, que nos trazem um pouco do que perdemos agora e que nos fará falta sempre.

METEORO EM HOLLYWOOD

"Eu estive em Hollywood. Fui levado pelo presidente e o vice-presidente da Universal. Eu tinha ganhado cinco festivais internacionais e os americanos pegam diretores assim e levam para lá. Iam fazer isso comigo. Não que eu não quisesse. Quer fazer, faça. Iam pagar em dólar. Mas é que eu briguei antes do tempo, antes de receber o primeiro salário. O presidente e o vice-presidente da Universal me colocaram numa limusine que parecia um ônibus e fui conhecer os estúdios da Universal. Chegando lá, eu vi aquele portão largo, de ferro, muito alto, trabalhado, escrito Universal Pictures em cima. Quando eu estava entrando, olhei para o porteiro, fardado, de quepe, um coitado de um velho, que abriu a porta. Eu passei rente a ele e levei um susto quando vi a cara dele. Gritei: “Stop! Stop the car! Stop!” O carro parou, eu abri a porta e saltei. Cheguei pro porteiro e falei: “Bernoudy, como vai você?” Ele foi meu diretor na Atlântida! O Luís Severiano Ribeiro, grande exibidor do Rio, quando comprou a Atlântida, contratou o Bernoudy, que era produtor em Hollywood, para vir melhorar a Atlântida. Ele veio pro Rio, trabalhou, organizou a Atlântida. Dirigiu meu primeiro filme lá, Terra violenta. Ed (Edmond) Bernoudy adorava o Brasil, adorava o Rio. Ficou dois anos no Rio, já falava português. Foi assistente do John Ford. Era um bom diretor. Eu conversava muito com ele, aprendi muito com ele. E aí eu o vejo de farda e de quepe na porta da Universal. Eu saltei e perguntei: “Mas o que é que você está fazendo com essa farda aqui?” Meu professor, meu diretor, mas que coisa! A essa altura ele já estava com uns 80 anos. Eu tirei o quepe dele, joguei fora e falei: “Você não vai ser porteiro aqui, não! Mas que país é esse? Você foi diretor e lhe jogam aqui?! Deviam lhe aposentar pelo menos! Vamos embora!” Fiquei chateado. Daí eu cheguei no carro e falei para o tradutor: “Fala que esse homem não vai mais trabalhar aqui na portaria. Que ele vai ser o meu primeiro assistente. E ele vai no carro conosco”. O presidente da Universal virava a cara para ele. Quando eu saí de lá, falaram que ficava para depois o acerto do meu contrato. E sabe o que eles alegaram? “Mas como?! Nós estamos contratando um gênio” – porque, para eles, ganhar aqueles prêmios todos era ser gênio – “estamos contratando um gênio para melhorar nosso estúdio e ele foi aluno do nosso porteiro?!!” Acabou. Não me contrataram. A minha carreira foi a mais curta de um diretor em Hollywood."

O INVENTOR DO CINEMA NOVO

"Eu inventei o Cinema Novo. Como? Eu estava fazendo o meu primeiro filme, o Absolutamente certo, que foi saudado quando saiu. Ninguém esperava nada do “galã”. Toda a imprensa acha que galã é burro. E saiu que o Absolutamente certo era o cinema novo brasileiro. Ainda não existia o Cinema Novo. Depois veio O pagador de promessas. No livro do ano de Cannes tem sempre a justificativa do porquê eles deram a Palma de Ouro para aquele filme. E lá dizia que “esse filme, sem dúvida, marca um cinema novo do Brasil”. O pessoal do Cinema Novo já estava fazendo um filme. Eram cinco diretores que estavam fazendo o Cinco vezes favela. Tinha um guru da imprensa, o Alex Viany, guru dos jovens. Escritor, jornalista, foi diretor também. Então ele veio falar comigo: “Anselmo, tem uns garotos aí que eu estou lançando e que estão fazendo um filme que se chama Cinco vezes favela. E nós soubemos que seu filme foi selecionado para Cannes e o do Ruy Guerra para (o Festival de) Berlim. Nós queríamos assistir os dois filmes”. E daí passaram os filmes. Nessa sessão estava toda a rapaziada que viria a ser o Cinema Novo: Cacá Diegues, Leon Hirszman, Glauber Rocha – que já me conhecia de Salvador, de quando eu estava filmando O pagador de promessas –, Gustavo Borges, uns 10 ou 12 diretores do início do Cinema Novo. Quando terminou, aplausos e mais aplausos. E todo mundo falava: “Anselmo, você vai ganhar algum prêmio. É o melhor filme já feito no Brasil!” Todos falavam a mesma coisa. Mas, na verdade, eles nunca poderiam imaginar que eu ganharia a Palma de Ouro. Achavam impossível ganhar em Cannes."

RETORNO - Imagem desta edição: Anselmo Duarte atrás da câmara em 1970.

QUATRO EM CENA



Um padre progressista acusado de pedófilo (Philip Seymour Hoffman), uma freira fundamentalista que mente para descobrir a verdade (Merryl Streep) estão no filme A Dúvida, de John Patrick Shanley. Um velho lutador de luta livre ainda em atividade (Mickey Rourke) e uma stripper que trabalha para sustentar o filho e se mudar para longe (Marisa Tomei) estão em O Lutador , de Darren Aronofsky. Os dois filmes são de 2008 e os quatro atores e atrizes citados concorreram ao Oscar. Junto com Sean Penn, já abordado aqui, que venceu com Milk, é o que de melhor pode o cinema contemporâneo nos oferecer em matéria de interpretação.

Seymour, Streep, Rourke e Tomei são do ramo, ou seja, não fingem, compõem criaturas verossímeis para expressar conflitos, biografias, performances, memórias. Não é uma humanidade admirável o que eles representam, ao contrário. É uma sucessão de tragédias pessoais, manipuladas pela indústria cultural. Reiteram certezas da civilização a qual pertencem, a americana, que jamais relativiza. A América inclui, encara, reporta, mas jamais perdoa ou abre mão do que considera irremovível. Anexa, emociona, seduz, mas jamais deixa de lado o papel que o destino lhe reserva.

Que destino é esse? Os quatro em cena nos dão uma pista. O padre e o lutador são como o escorpião de piada, que pede carona para cruzar o rio e, na outra margem, pica de morte o salvador. “Por que fez isso?” pergunta a consciência. "Porque é da minha natureza", responde o escorpião. O padre tenta se justificar num escudo de compaixão, idéias arejadas, preocupação com os alunos, mas de paróquia em paróquia ele continua o mesmo, sempre ao redor de seus objetos de desejo. Seu oposto é a freira que se comporta como uma bruxa, interpretada por esse monstro que é Merryl Streep (basta ameaçar franzir o rosto, olhar ou debruçar-se rapidamente para ela definir seu papel em poucos frames).

A freira tem uma missão e não são as ilusões do amor ou da racionalidade que vão desviar de seu caminho, sua meta. Ela fará qualquer coisa , até seguir seus instintos, para provar que o padre embriagou um garoto e o seduziu, transtornado a mente do aluno. Comporta-se como o olho humano diante das fraquezas dos outros e jamais com a solidariedade religiosa, que no fundo é o que une padres , párocos e arcebispos, todos sob suspeita neste filme sobre a dúvida. A Igreja Católica, ligada ao mundo hispânico, derrotado pelos Estados Unidos no século 19 com a tomada de Cuba, recebe de Hollywood as mais violentas obras e ataques. Não há perdão para a religião do crucificado.

Seymour é um exagero. Mergulha no papel como se fosse a última vez que fará um personagem. Ele se coloca à altura do enfoque: a pantagruélica refeição de carne crua que ele divide com outros padres é a visão asquerosa de seu comportamento e atitudes. O que ele faz contrasta com a excelência de seus sermões. No fundo, o filme fala que o texto bem articulado pode esconder um caráter duvidoso e, mais importante do que a parábola ou a lição de moral, é a pergunta incisiva, insistente, que vai no osso: “Você embriagou o aluno?”

Mickey Rourke atrapalhou-se na vida quando achou que atuar era dar um sorrisinho cool e virar símbolo sexual, como acontece no execrável 9 e meia semanas de amor. Ou quando tenta imitar Marlon Brando montando uma motocicleta. Mas em O Lutador ele se supera e traz a gana de um veterano que volta ao centro do ringue. Sua obsessão é a profissão que exerce, levada até o desenlace. Suas tentativas de mudar de rumo são apenas desvios de conduta, pois no fundo não está interessado em reatar com a filha ou formar família com a stripper. Ele quer mesmo é se acabar dando e levando porrada, pois só assim se sente vivo. Fazer o trabalho, cumprir a missão, a meta, como Streep e seu hábito negro. É como disse Nixon filmado no clássico “Corações e mentes”: “O importante é que os pilotos foram lá e cumpriram seu dever” (did the job). O “trabalho” era jogar bombas no Vietnã.

Marisa Tomei é a inteligência que vai no osso da personagem sem se entregar a frescuras. É uma atriz determinada, que encarna de maneira perfeita a profissão que simula o sexo e trata os amigos como clientes. Criou para si uma armadura anti-emoção e é punida por isso. Ela tem o objetivo de saltar fora daquela vida e por isso sacrifica sua chance de ter alguém ao seu lado. É a América envolvida com suas próprias contradições, em que a grana é caçada para a liberdade, mas a liberdade verdadeira, o sentimento , foge dos espíritos que viram pedra.

Quatro grandes profissionais de primeira linha em cena: bom demais para quem vive num ambiente hostil à arte e em que as pessoas ainda insistem em “jogar conversa fora”, talvez a pior expressão do mundo em pedaços.

QUATRO EM CENA

Um padre progressista acusado de pedófilo (Philip Seymour Hoffman), uma freira fundamentalista que mente para descobrir a verdade (Merryl Streep) estão no filme A Dúvida, de John Patrick Shanley. Um velho lutador de luta livre ainda em atividade (Mickey Rourke) e uma stripper que trabalha para sustentar o filho e se mudar para longe (Marisa Tomei) estão em O Lutador , de Darren Aronofsky. Os dois filmes são de 2008 e os quatro atores e atrizes citados concorreram ao Oscar. Junto com Sean Penn, já abordado aqui, que venceu com Milk, é o que de melhor pode o cinema contemporâneo nos oferecer em matéria de interpretação.

Seymour, Streep, Rourke e Tomei são do ramo, ou seja, não fingem, compõem criaturas verossímeis para expressar conflitos, biografias, performances, memórias. Não é uma humanidade admirável o que eles representam, ao contrário. É uma sucessão de tragédias pessoais, manipuladas pela indústria cultural. Reiteram certezas da civilização a qual pertencem, a americana, que jamais relativiza. A América inclui, encara, reporta, mas jamais perdoa ou abre mão do que considera irremovível. Anexa, emociona, seduz, mas jamais deixa de lado o papel que o destino lhe reserva.

Que destino é esse? Os quatro em cena nos dão uma pista. O padre e o lutador são como o escorpião de piada, que pede carona para cruzar o rio e, na outra margem, pica de morte o salvador. “Por que fez isso?” pergunta a consciência. Porque é da minha natureza, responde o escorpião. O padre tenta se justificar num escudo de compaixão, idéias arejadas, preocupação com os alunos, mas de paróquia em paróquia ele continua o mesmo, sempre ao redor de seus objetos de desejo. Seu oposto é a freira que se comporta como uma bruxa, interpretada por esse monstro que é Merryl Streep (basta ameaçar franzir o rosto, olhar ou debruçar-se rapidamente para ela definir seu papel em poucos frames).

A freira tem uma missão e não são as ilusões do amor ou da racionalidade que vão desviar de seu caminho, sua meta. Ela fará qualquer coisa , até seguir seus instintos, para provar que o padre embriagou um garoto e o seduziu, transtornado a mente do aluno. Comporta-se como o olho humano diante das fraquezas dos outros e jamais com a solidariedade religiosa, que no fundo é o que une padres , párocos e arcebispos, todos sob suspeita neste filme sobre a dúvida. A Igreja Católica, ligada ao mundo hispânico, derrotado pelos Estados Unidos no século 19 com a tomada de Cuba, recebe de Hollywood as mais violentas obras e ataques. Não há perdão para a religião do crucificado.

Seymour é um exagero. Mergulha no papel como se fosse a última vez que fará um personagem. Ele se coloca à altura do enfoque: o a pantagruélica refeição de carne crua que ele divide com outros padres é a visão asquerosa de seu comportamento e atitudes. O que ele faz contrasta com a excelência de seus sermões. No fundo, o filme fala que o texto bem articulado pode esconder um caráter duvidoso e, mais importante do que a parábola ou a lição de moral, é a pergunta incisiva, insistente, que vai no osso: “Você embriagou o aluno?”

Mickey Rourke atrapalhou-se na vida quando achou que atuar era dar um sorrisinho cool e virar símbolo sexual, como acontece no execrável “9 e meia semanas de amor”. Ou quando tenta imitar Marlon Brando montando uma motocicleta. Mas em O Lutador ele se supera e traz a gana de um veterano que volta ao centro do ringue. Sua obsessão é a profissão que exerce, levada até o desenlace. Suas tentativas de mudar de rumo são apenas desvios de conduta, pois no fundo não está interessado em reatar com a filha ou formar família com a stripper. Ele quer mesmo é se acabar dando e levando porrada, pois só assim se sente vivo. Fazer o trabalho, cumprir a missão, a meta, como Streep e seu hábito negro. É como disse Nixon filmado no clássico “Corações e mentes”: “O importante é que os pilotos foram lá e cumpriram seu dever” (did the job). O “trabalho” era jogar bombas no Vietnã.

Marisa Tomei é a inteligência que vai no osso da personagem sem se entregar a frescuras. É uma atriz determinada, que encarna de maneira perfeita a profissão que simula o sexo e trata os amigos como clientes. Criou para si uma armadura anti-emoção e é punida por isso. Ela tem o objetivo de saltar fora daquela vida e por isso sacrifica sua chance de ter alguém ao seu lado. É a América envolvida com suas próprias contradições, em que a grana é caçada para a liberdade, mas a liberdade verdadeira, o sentimento , foge dos espíritos que viram pedra.

Quatro grandes profissionais de primeira linha em cena: bom demais para quem vive num ambiente hostil à arte e em que as pessoas ainda insistem em “jogar conversa fora”, talvez a pior expressão do mundo em pedaços.


QUATRO EM CENA

Um padre progressista acusado de pedófilo (Philip Seymour Hoffman), uma freira fundamentalista que mente para descobrir a verdade (Merryl Streep) estão no filme A Dúvida, de John Patrick Shanley. Um velho lutador de luta livre ainda em atividade (Mickey Rourke) e uma stripper que trabalha para sustentar o filho e se mudar para longe (Marisa Tomei) estão em O Lutador , de Darren Aronofsky. Os dois filmes são de 2008 e os quatro atores e atrizes citados concorreram ao Oscar. Junto com Sean Penn, já abordado aqui, que venceu com Milk, é o que de melhor pode o cinema contemporâneo nos oferecer em matéria de interpretação.

Seymour, Streep, Rourke e Tomei são do ramo, ou seja, não fingem, compõem criaturas verossímeis para expressar conflitos, biografias, performances, memórias. Não é uma humanidade admirável o que eles representam, ao contrário. É uma sucessão de tragédias pessoais, manipuladas pela indústria cultural. Reiteram certezas da civilização a qual pertencem, a americana, que jamais relativiza. A América inclui, encara, reporta, mas jamais perdoa ou abre mão do que considera irremovível. Anexa, emociona, seduz, mas jamais deixa de lado o papel que o destino lhe reserva.

Que destino é esse? Os quatro em cena nos dão uma pista. O padre e o lutador são como o escorpião de piada, que pede carona para cruzar o rio e, na outra margem, pica de morte o salvador. “Por que fez isso?” pergunta a consciência. Porque é da minha natureza, responde o escorpião. O padre tenta se justificar num escudo de compaixão, idéias arejadas, preocupação com os alunos, mas de paróquia em paróquia ele continua o mesmo, sempre ao redor de seus objetos de desejo. Seu oposto é a freira que se comporta como uma bruxa, interpretada por esse monstro que é Merryl Streep (basta ameaçar franzir o rosto, olhar ou debruçar-se rapidamente para ela definir seu papel em poucos frames).

A freira tem uma missão e não são as ilusões do amor ou da racionalidade que vão desviar de seu caminho, sua meta. Ela fará qualquer coisa , até seguir seus instintos, para provar que o padre embriagou um garoto e o seduziu, transtornado a mente do aluno. Comporta-se como o olho humano diante das fraquezas dos outros e jamais com a solidariedade religiosa, que no fundo é o que une padres , párocos e arcebispos, todos sob suspeita neste filme sobre a dúvida. A Igreja Católica, ligada ao mundo hispânico, derrotado pelos Estados Unidos no século 19 com a tomada de Cuba, recebe de Hollywood as mais violentas obras e ataques. Não há perdão para a religião do crucificado.

Seymour é um exagero. Mergulha no papel como se fosse a última vez que fará um personagem. Ele se coloca à altura do enfoque: o a pantagruélica refeição de carne crua que ele divide com outros padres é a visão asquerosa de seu comportamento e atitudes. O que ele faz contrasta com a excelência de seus sermões. No fundo, o filme fala que o texto bem articulado pode esconder um caráter duvidoso e, mais importante do que a parábola ou a lição de moral, é a pergunta incisiva, insistente, que vai no osso: “Você embriagou o aluno?”

Mickey Rourke atrapalhou-se na vida quando achou que atuar era dar um sorrisinho cool e virar símbolo sexual, como acontece no execrável “9 e meia semanas de amor”. Ou quando tenta imitar Marlon Brando montando uma motocicleta. Mas em O Lutador ele se supera e traz a gana de um veterano que volta ao centro do ringue. Sua obsessão é a profissão que exerce, levada até o desenlace. Suas tentativas de mudar de rumo são apenas desvios de conduta, pois no fundo não está interessado em reatar com a filha ou formar família com a stripper. Ele quer mesmo é se acabar dando e levando porrada, pois só assim se sente vivo. Fazer o trabalho, cumprir a missão, a meta, como Streep e seu hábito negro. É como disse Nixon filmado no clássico “Corações e mentes”: “O importante é que os pilotos foram lá e cumpriram seu dever” (did the job). O “trabalho” era jogar bombas no Vietnã.

Marisa Tomei é a inteligência que vai no osso da personagem sem se entregar a frescuras. É uma atriz determinada, que encarna de maneira perfeita a profissão que simula o sexo e trata os amigos como clientes. Criou para si uma armadura anti-emoção e é punida por isso. Ela tem o objetivo de saltar fora daquela vida e por isso sacrifica sua chance de ter alguém ao seu lado. É a América envolvida com suas próprias contradições, em que a grana é caçada para a liberdade, mas a liberdade verdadeira, o sentimento , foge dos espíritos que viram pedra.

Quatro grandes profissionais de primeira linha em cena: bom demais para quem vive num ambiente hostil à arte e em que as pessoas ainda insistem em “jogar conversa fora”, talvez a pior expressão do mundo em pedaços.