16 de junho de 2026

ABSINTO

Nei Duclós Escrevo sobre o que eu não domino A terra onde vivo Os contemporâneos O saber me escapa por dever de ofício Sirvo as palavras sem nenhum sentido Alguns chamam de poesia Eu de vício Fujo do entendimento com esse absinto Embriaguez desperta Sono profundo Só dói quando recito Diante dos teus olhos No tempo bruto Nei Duclós

9 de junho de 2026

VENTO

Nei Duclós O que direi não será sincero Melhor então ficar quieto Há tempos errei e não tem conserto Não será um parabéns quo trará de volta O que perdemos em duros momentos Deixa passar, me diz o anjo Nenhuma dor cederá o passo Viver é assim no modo precário O amor compreende a cicatriz doendo Do que estou falando? Esquece, coração de vento Nei Duclós

CICLO

Nei Duclós Nascemos com alma, mas podemos perdê-la O que mais tem hoje são pessoas vazias Que abandonam o exílio e se apropriam das artes que não lhes pertencia Você vê um filme e sai dele triste A música é ruído, tapamos os ouvidos Pintura inexiste e a literatura amontoa falsas narrativas Onde estão as vocações legítimas? Mas há uma geração vindo no piano e violino Com talentos de virtuosismo Trazem de outras vidas o resgate do espírito A esperança obedece o tempo cíclico Nei Duclós

5 de junho de 2026

AGRIMENSOR

Nei Duclós Economizo passos para não chegar Porque chegando terei de voltar Mais adiante existe o alto mar Onde moro com meu corpo de sal Vou medindo espaço sou agrimensor Tudo o que faço tem essa dimensão Cada estrela mostra o que agora sou Bússola perdida em pontos cardeais Nunca vou embora esqueci o que dizer Conto vagalumes por puro prazer No campo aberto perdi minha vez Componho a memoria de um tempo sem dor Nei Duclós

1 de junho de 2026

MODA DE VIOLA

Nei Duclós A vida te cobra a conta, a velhice vem chegando Você quer dar um passo, não consegue ir andando O mundo fecha as portas, só se abre as do hospital E nas rodas de samba não és mais o maioral O problema dessa idade é que ninguém se conforma Querem repetir a dose mas existe um só tempo Que nos é dado de graça uma vez e para sempre Lá no fim da rota o destino te espera Com uma cruz de ouro te avivando a memória É quando você agradece tanta bênção pela estrada Sendo a maior delas o amor que te consagra Obrigado a todos pela glória do caminho Onde encontrei a sorte de ser adulto e menino Agora que fiquei pronto digo adeus e vou embora Quem quiser que fale alto uma outra boa história E peça para a amizade acompanhar na viola Nei Duclós

AGUARDO

Nei Duclós Uma hora mais tarde Amanhece o dia no inverno Para que a sorte dos pássaros Possa aquecer o que tarda O tempo adequado para piar com alarde Eu também demoro emplumado Aguardo a altura do voo em volta Nei Duclós

REGRESSO

Nei Duclós Apaguei o sol para poder dormir Mas o dia insistiu E me levou pela mão de volta aos meus 20 anos Onde às vezes vivo quando permite a solidão O Tempo é um velho tio Com a palavra coração Nei Duclós Imagem: Eu em 1969 na foto de Juarez Fonseca