7 de dezembro de 2009

SHAKESPEARE DE CHUTEIRAS


O drama shakespeareano tomou conta do campeonato brasileiro, que terminou ontem com o Flamengo campeão. O principal foi a hamletiana dúvida do Grêmio que antecedeu o jogo de ontem no Maracanã, em que uma vitória sua daria o título para o Internacional, desde que o colorado ganhasse do Santo André, o que de fato aconteceu. Abordei aqui esse assunto no texto “Drama na última rodada” . Para resolver o “ser ou não ser” escrevi que não haveria marmelada. Mas, como a célebre pergunta de Shakespeare, a dúvida permaneceu no ar, já que os gaúchos foram sem oito titulares e pareceu, para muitos, que amoleceram na fase terminal da partida. Eu vi um jogo limpo, disputado, como eu tinha previsto (como dizem os narradores esportivos, que sabem tudo antes), em que o Flamengo quase dançou (um golzinho e kaputt).

Falando em narradores esportivos: deve ser confortável ser um espírito tosco. O comentarista de árbitros (!) da Globo disse textualmente no início da partida que não ia acontecer nada. Ele quis dizer, acredito (nunca se sabe), que torcia para não haver sururu, como houve no Fluminense x Coritiba, em que Fred e companhia despacharam o Coxa para a segunda divisão e garantiram a permanência na série A. Mas o comentarista de árbitros, que árbitro foi (!) não alcança os meandros e armadilhas da linguagem, então fala besteira. As emissoras não entendem que comentar futebol não é futebol, é linguagem. O cara não precisa ser jogador para analisar, precisa saber analisar.

Para não ficar atrás, o narrador passou o tempo todo gritando “olha lá o Adriano”. Claro, com tanta carga em cima, o pobre do Adriano não conseguiu marcar seu gol de despedida. Por que a ameba insistia no seu grito? Porque, se Adriano de fato marcasse, ele “já tinha dito antes”. Prever, eis o verbo favorito da cobertura esportiva. Dá status, condecora os sabichões.

Na peça MacBeth, de Shakespeare, a premonição das bruxas acaba em desastre. Elas anunciam que MacBeth será rei, então o guerreiro benquisto pelo monarca resolver tomar o trono de assalto, já que ele iria mesmo ser coroado. Comete crimes, traindo e matando pessoas chegadas, sob o álibi de que assim estava escrito. Para o São Paulo, estava certo que seria o campeão, mas entrou pelo cano. Para o Palmeiras, que teve de marcar passo por nove rodadas para enfim chegar em quinto lugar, parece que houve o contrário do drama shakespeareano. Já que o título estava, de antemão, garantido (as pitonisas anunciavam) então não fizeram mais nada, esperando a consagração. Acabou em briga feia no gramado entre dois jogadores e a desmoralização do técnico Muricy.

Pois Muricy Ramalho nos leva de volta a Hamlet. Ele era o técnico do São Paulo, foi demitido e passou-se para o inimigo, o Palmeiras. Quis que todos encarassem isso como normal, já que sua desculpa é que foi demitido. É óbvio que foi vingança. O ressentimento orientou sua passagem para o Verdão. Ele queria, como Hamlet, vingar-se da “mãe” (o time que o acolheu por tantos anos), que o renegou. Ser ou não ser? Ser tricolor ou ser palmeirense? Nem um nem outro. O Palmeiras implodiu com essa contradição no miolo da sua ação. Não era possível fluir quando algo tão poderoso e profundo travava o caminho. Havia também o choque Wagner Love x Obima, o ídolo comprado no meio do campeonato e o ídolo que estava crescendo e viu seu lugar ser usurpado. Os dois caíram. É muito rolo.

E como podemos comparar o Fluminense, com sua arrancada deslumbrante, saindo de maneira gloriosa do rebaixamento? É puro Henrique V . Aquele discurso, ponto alto da carreira de Kenneth Branagh, em que ele convoca os soldados, em inferioridade numérica, para o grande combate do dia de São Crispim, faz levantar as pedras. Foi isso o que aconteceu. Sob orientação de Cuca e com seu gols, Fred levou o pequeno exército para uma jornada inesquecível.

Resta ainda Andrade, o general Otelo, e seu grande amor, o Flamengo, a bela Desdêmona, que não podia, a princípio, cair nos braços do mouro. Otelo provou que merecia a donzela e ficou com ela. Só que, neste caso, por enquanto, o caso acaba em triunfo e não em tragédia. Ainda não chegamos, nem, acredito, chegaremos, às cenas letais de ciúmes.

Para um país que, na política, caiu na pornochanchada, o futebol resgata nossa grandeza. Com seus conflitos deste campeonato inesquecível, o esporte nos remete ao gênio da dramaturgia universal, o poeta que , esse sim, viu antes, viu tudo, de maneira clara e incontestável.

RETORNO - Imagem de hoje: Keneth Branagh no seu inesquecível Henry V, de 1989. Quando escrevi "drama" no post de 1º de dezembro, pensei em Shakespeare. Depois, vi que não tinha citado o poeta. Num telefonema, Tabajara Ruas disse explicitamente, comentando o Grêmio e o seu Colorado: "É um drama shakespeareano". Na mosca. Taba, atual vice-campeão, tem, portanto, valiosa participação no enfoque deste post.

6 de dezembro de 2009

STAR TREK: A SOMA DE TODOS OS GÊNEROS


Clonar assumidamente Star Wars fez a nova versão cinematográfica de Star Trek (2209), dirigida por J.J.Abrams, romper com a tradicional imobilidade da saga. As versões anteriores faziam dessa aventura espacial, criada nos anos 60 por Gene Roddenberry, um negócio quase de foro íntimo, onde os personagens não saíam do lugar e não moviam uma linha do rosto. Mas chupar George Lucas em inúmeras cenas (no deserto, na neve, nas naves, nos lasers, nas lutas de espada) e transplantar suas soluções (como a música sinistra para o andar do vilão) foi só um detalhe. A história da criação artificial de buracos negros que tudo sugam é a representação perfeita deste filme, que soma todos os gêneros cinematográficos:

FICÇÃO – O gênio do Mal que destrói o mundo por meio de uma arma mortal, uma idéia dos quadrinhos que migrou para o cinema desde os anos 40; a linguagem científica futurista que manipula desde o teletransporte até a viagem quântica no espaço; a viagem no tempo, em que personagens vindos do futuro interferem e modificam o destino dos protagonistas; as roupas espaciais obedecendo ao modelo clean que vem de Metrópolis de Fritz Lang e chega ao auge em 2001, de Kubrick; os extra-terrestres de todas as raças, uma idéia clássica de Star Wars.

AVENTURA – Os ambientes gigantescos no fundo dos planetas que são destruídos obrigando, como em Indiana Jones, a fuga precipitada em direção à abertura na superfície; a esgrima na plataforma instável e em fogo da grande perfuradora que cria o caminho para a arma letal nos remete às lutas de espadas a laser de Luke e seu pai Darth Wader; a queda no planeta gelado onde aparecem monstros que empurram o protagonista para o precipício e as cavernas; a prova nos descampados de Iowa onde o garoto vocacionado para a luta espacial se entrega à transgressão.

GUERRA - Os mísseis carregados em canhões que se abrem por trás, como acontecia nas baterias dos navios dos filmes da Segunda Guerra Mundial; as explosões gigantescas que destroem cenários; as reuniões e batalhas da Legião Estelar que lembram os exércitos nos campos da Europa; as decisões em situações limite quando um milissegundo pode decidir a vida de todos, como acontecia nos filmes de submarinos; as condecorações depois das vitórias; o encontro emocionado dos guerreiros sobreviventes, os que ficaram inteiros e os que orgulhosamente se assentam em cadeiras de rodas.

FAROESTE - A briga coletiva de socos no bar, uma tradição dos filmes de cow-boys, especialmente o maior deles, Shane, de George Stevens, em que a violência dos maus e o humor dos bons se batem até a exaustão; a obsessiva vingança do vilão que denuncia alguma perda profunda do passado e que volta para acertar contas; os ambientes hostis onde os guerreiros se defrontam; o duelo final; o estranhamento inicial dos futuros parceiros e depois a camaradagem e o reconhecimento mútuo; a mocinha como coadjuvante.

AÇÃO - A viagem da nave Enterprise é o confronto diante da ameaça da destruição da Terra (home), representação da América. Os protagonistas fazem parte de uma linhagem de heróis que vão dar continuidade à ação de seus ancestrais e garantir a sobrevivência das espécies. Fazem parte de uma Federação Universal, espécie de ONU das galaxias, que garante a paz no universo. O Mal é encarnado por aquilo que Marlon Brando criou em Apocalipse Now: um rosto hediondo que emite uma fala de condenação. Em torno da Enterprise (foto acima), se desenrola a ação decisiva para que a Terra não seja destruída.

DRAMA - O assassinato da mãe do Dr. Spock, na sua frente, no momento em que parecia estar salva; o beijo roubado da admiradora no rosto impassível do cientista que perdeu as emoções no treinamento; a raiva que emerge quando é desafiado; a perda do contato com a família; o reencontro com as origens; o sentimento em duelo com a razão; o destino desafiado pelo livre arbítrio; a ruptura com os colegas e amigos; a costura de novos relacionamentos no universo hoostil.

SUSPENSE - A fera que ataca de surpresa no momento da solidão e do abandono; o encontro com o amigo envelhecido pela viagem no tempo; a idéia de gênio não reconhecida que de repente fica no miolo do problema; o pára-quedas que só abre no último segundo; as máquinas aterradoras; a tortura e o assassinato.

HUMOR - O cientista maluco que no teletransporte acaba emergindo na tubulação cheia de água e grita desesperado para sair; as respostas malcriadas do rapaz que enfrenta forças muito superiores e que tenta, pelo menos, se divertir, enquanto apanha sem parar; o companheiro bizarro que na decolagem da nave se esconde no alto de um compartimento; o sotaque atrapalhado do garoto russo na hora de emitir ordens de comando.

Ou seja, é uma soma de lugares comuns, ou melhor, de soluções que funcionam, para lá de batidas e que Star Trek não tem nenhuma vergonha de lançar mão. Mas, o surpreendente é que o filme não descamba nessa grande mistura. Ao contrário, conseguiram dosar de maneira razoável a quantidade enorme de bobagens que passamos a vida vendo e gostando. Vi o filme com alguma satisfação, ao contrário de Leningrado, filme russo de 2007 com Mira Sorvino, que também mistura gêneros e acaba se perdendo. Não chega a ser um filme de guerra, nem de suspense. É apenas uma colagem mal feita. Bem ao contrário de Star Trek, em que você chega a saltar da cadeira, mesmo sabendo que não vale nada.

Já sabemos: todo filme é sobre cinema. Star Trek é cinema sobre todos os gêneros de filme.

5 de dezembro de 2009

OS PRETENSIOSOS


A cultura obedece à política, quer os artistas e autores queiram ou não. E a política é a ditadura, como vemos todos os dias ao acompanhar o caminho percorrido pelo dinheiro público, do suor popular para o trono bem fornido dos maganos. Essa realidade independe do talento. A idiotia do sertanojo ou a competência poética e musical de Caetano obedecem ao mesmo trâmite. Como não quero gastar chumbo em chimango, e passo lotado pelo fato de Zezé di Camargo e Luciano estarem na Xuxa hoje, aparecendo assim pela décima milionésima vez na Globo este ano, gostaria de comentar Caetano, Antonio Cícero e os Titãs.

Antonio Cícero deve ter algum valor, que desconheço, pois está assoberbado e viajou para Portugal junto com Caetano Veloso para um evento em torno de Fernando Pessoa. Mas lembro que ele se refere a Goethe como um seu igual. Só isso já dá o perfil do sujeito. Por sua vez, Caetano teve o desplante de dizer que “quebrou o tabu” ao chamar Lula de analfabeto. Não importa que centenas de milhares de pessoas, todos os dias, falem mal do presidente, chamando-o de analfabeto para baixo. O que importa é que ele, Caetano, acha que remou contra a corrente dos “brasileiros” e resolveu, de maneira inédita, criticar Lula. Para Caetano, só ele conta. Não é muita pretensão? Como pode ignorar a crítica explícita, documentada, contra o presidente e achar que havia, antes dele, um tabu de não tocar no santo nome do imbecil em vão?

É a mesma linha de pretensão do “nunca antes neste país”. Mesmíssima coisa. Como Lula ignora ou faz de conta que não sabe do que foi feito antes dele, qualquer peido que dê é de um ineditismo sem dó. FHC era idêntico: o comprador de títulos Honoris Causa a custa da soberania chega a falar com a boca túmida de tanta pretensão. Caetano se identifica com essa megalomania, que faz parte do sistema. Tudo gira ao seu redor. É por isso que, depois de ignorar Tomzé por décadas, ajudando a mantê-lo num ostracismo forçado, ao tentar elogiar o novo cd do baiano genial, recebeu de Tomzé um sonoro e público “vai tomar no cu”. Se achar o único exemplar da raça não é apenas vício, é também crime. E se você reclamar, costumam se defender dizendo que se referem apenas às pessoas "que contam". Ou seja, por você ser carta fora do baralho, graças a esse expediente, então tem de ficar de bico calado.

Vamos pegar os Titãs. Parecem ser músicos competentes, estão há décadas fazendo sucesso. O insuportável é que eles preenchem todos os vazios culturais provocados pela ditadura. O Paulo Miklos, tremendo canastrão, é vendido como grande ator. O Arnaldo Antunes é o poeta oficial do país, está em todas. Esses dias vi uma performance sua no programa do Jô. Vozinha de merda, gestos calculados, letra ridícula. Por que incensam tanto o cara? Vá lá que possa ter talento, que desconheço, mas só dá ele. Poeta? Arnaldo Antunes. Ninguém lembra do Rubens Jardim, do Mario Chamie, de ninguém. Só dá Arnaldo Antunes e Antonio Cícero. Alguma coisa está errada.

Tonty Belloto, outro Titã, é cronista da Veja.com Em dois posts, mostrou o que tenta esconder. Num deles, comentando a política disse que se sentia um bobão por ter tocado nos comícios do Lula em 1989 e que agora vê Lula abraçado ao Collor. Ora, não ganharam cachê? Não estava na moda, muito bem aproveitada pelo grupo, ser do Lula? Agora que o falso ídolo foi desmascarado, os mesmos que o incensaram tentam pular fora. Em outro post, Belotto diz admirar dois “solitários”, Dalton Trevisan e Rubem Fonseca, que se isolam para escrever nesta época de grande exposição pública (em que a internet é a grande vilã; claro, é uma rede democrática, eles desaparecem na multidão digital).

Como se Belotto não vivesse se expondo o tempo todo. Como se o isolamento dos dois escritores citados fosse mesmo recolhimento para escrever, quando não passa de bruta misatropia, ódio à humanidade. Basta ver seus heróis, todos canalhas assassinos. Escrevem o fino, mas se isolar não significa que seja algo saudável. Vinícius de Moraes vivia cercado de gente e escrevia maravilhas.

Por que me preocupo em comentar esses caras? Porque o sistema da ditadura produz tudo, tanto a cultura oficial (o sertanojo, o filme hagiográfico, a música gritada, a breguice geral) quando a pretensamente transgressora (os vanguardeiros Cícero e Antunes). Tinha notado isso antes: São Paulo produziu Maluf, o imigrante trator, e Martinha, a petista vinda do Colégio Sion. Assim funcionam as ditaduras: não tem para ninguém. Mientras tanto, moramos no ostracismo, no Brasil real, fulos porque nos roubaram a nação e vivem se fresqueando em frente as câmaras, como se fossem os únicos e eternos magníficos.

Chega, porra.

RETORNO - Imagem desta edição: Caetano, ninguém contesta, é do primeiro time. Mas não é o único. Nem deve usar esse espaço privilegiado para ignorar o que é feito à sua revelia.

FERA – CINCO TUITS


Nei Duclós

1. Quero chegar à perfeição
um toque diário de amor
um sonho acima do adeus
zero por cento de dor
cento e quarenta verões

2. Poema à toa jogado na rede
peixe de suprema leveza
aviso de próxima sereia
surto de inconfidências
luz provisória como a lua cheia

3. Do que foi feito tua desventura?
jogaste longe o tempo da coragem
conforto agora mostra a personagem
que o coração partido não costura

4. Perdi a pista do que já foi visto
vislumbro fora o império da miragem
troco o mistério por uma viagem
volto no dia em que estiver deserto

5. Se há um poema ele está perdido
não busque no brilho do feitiço
solto em plena lua ele é uma fera
a revolver a rebelião do abismo

RETORNO – 1. Cinco poemas com menos de 140 toques escritos on line no Twitter. 2. Imagem desta edição: mais uma magnífica obra de Ricky Bols.

4 de dezembro de 2009

A DITADURA BUSCA UMA SAÍDA


Três frases deste Diário da Fonte no dia 2 de dezembro: “As denúncias migram de partido, uma mão lava a outra e o sistema continua intacto, com o mesmo tipo de prática, pois assim foi concebido para funcionar. O novo mensalão fecha o ciclo, pois se situa no coração do sistema. Está confirmada a situação trágica em que todo um sistema político foi engendrado para sugar e desviar os recursos da nação. (A imagem fala por nós).

Agora as frases publicadas dois dias depois, dia 4/12, no blog do jornalista Luis Nassif: “Os episódio envolvendo o governador do Distrito Federal José Roberto Arruda (DEM) completa o quadro da política brasileira. Significa que o governo federal é diferente do governo do DF ou de São Paulo? Não, em absoluto. Significa que, no modelo político atual, todos são iguais. A tendência é tudo isso virar escândalo. O que obrigará, em breve, a mudanças no modelo político. (A corrupção intrínseca do modelo político)


Que o mensalão do DEM “completa o quadro” já tínhamos dito ao escrever antes que o escândalo “fecha o ciclo”. Que “todos são iguais” já tínhamos dito quando escrevemos que “uma mão lava a outra e o sistema continua intacto”. E que “mudanças no modelo político brasileiro” são inevitáveis a partir da constatação aqui de que o “sistema político foi engendrado para sugar e desviar os recursos da nação”. As coincidências editoriais são gritantes, sinal de que tudo ficou claro mesmo para quem não compartilhava com a desesperança diante da ditadura não reconhecida.

As contradições e o desmascaramento do sistema levarão obrigatoriamente a mudanças. Vamos imaginar que tipo de mudança. De repente, o pessoal se reúne e decreta: “Ei, temos de mudar, não dá mais. A propinagem está acabando com a boca, temos que dar um basta nisso tudo diante da grita geral.” Ou então todos se sentam num banquinho e fazem aquele gesto do Pensador, de Rodin (foto) e começam a repensar o sistema.

Sabemos que não funciona assim. O modelo vai se sustentar enquanto houver chance de roubar. Para isso foi feito. Não se trata de um modelo que tinha tudo para dar certo e se esgotou. Foi um sistema concebido para regar com o dinheiro público as gangs que disputam o butim. Para isso expulsaram os militares e geraram a Constituição frankestein. Os militares, que no início ajudaram, com seu projeto megalômano de poder, estavam atrapalhando a roubalheira, instituída no momento em que a democracia foi derrotada, em abril de 1964. Com censura, tortura e violência, a sacanagem se disseminou.

Mas aí o negócio começou a fazer água, então eles anistiaram os torturadores, chamaram os retornados, incluíram novos agentes na disputa da bufunfa, deram um jeito em figuras respeitáveis, anularam velhas lideranças sobreviventes e tocaram para frente. Deu para roubar mais 25 anos. Agora fedeu de novo. Mas não é mais possível voltar atrás. Então existem algumas alternativas, já pensadas antes.

Quando o tucanato estava no comando, tinha o Sergio Motta, que imaginava ficar no poder por décadas. Ele era o Dirceu-Dilma dos bicudos, só que alfabetizado. Mas morreu, o PSDB perdeu e entrou o PT, que pretende ficar para sempre. O novo modelo político poderá ser o pesadelo de um país aparelhado pela brutalidade petista e seus aliados, unido aos piores ditadores do planeta e extraindo petróleo das profundezas do reino de Hades para emporcalhar o belo litoral brasileiro. Outra alternativa é a volta do tucanato, o que reacomodará as forças e permitirá uma sobrevida ao modelo. Ou então as rupturas. Um golpe de direita, um golpe da pseudo esquerda ou um auto-aniquilamento geral da nação.

Quando poderemos virar uma Ruanda, em que milhões saem armados de facão nas ruas a massacrar “baratas”, ou seja, adversários. Golbery dizia que precisava fazer a distensão, pois havia o risco de a cabeça de todos ir parar num poste. O esquema que ele bolou funcionou. Agora chegou ao limite. Mas certamente não será com repensamentos ou editoriais que vai mudar. Muda na mobilização, na pressão, na manifestação livre das idéias e análises, ou no muque, como sempre. Ou então fica essa agonia até o fim dos tempos, com o Brasil sendo devorado por sua incapacidade de reagir.

3 de dezembro de 2009

PORQUE DEVEMOS TER AUTO-ESTIMA


Volta e meio alguém nos esculacha, aqui dentro e no Exterior, engrossando uma avalanche crescente de atentados contra o Brasil e os brasileiros. Essa onda é apoiada por muita gente, pois parece que não temos motivos para a auto-estima. Tudo conspira contra nós: corrupção, miséria, atraso intelectual, violência, burrice etc. Todos esses vícios estão grudados na nossa auto-imagem como superbonder e não como cola-prit. Nos Estados Unidos ou na Alemanha é diferente.

Os americanos tocam o puteiro em todo mundo, derrubam governos, invadem com seus tanques e mariners, bombardeiam criancinhas, torturam, assassinam em massa, jogam explosões nucleares em populações civis, arrasam cidades, despejam napalm nos outros países e são considerados civilizados, adiantados, democráticos e gostosos. Eles inventaram a putaria de massa com o sexo escancarado no show-bizz, mas suas mulheres não tem fama de putas. As americanas são um exemplo de seriedade, dedicação, honestidade e inteligência.

Os Estados Unidos roubaram metade do México, anexaram o Havaí e Porto Rico, invadiram economicamente o Japão e a Europa, fazem pactos sinistros com a Ásia, sugam os recursos mundiais via sistema financeiro da pirataria internacional, poluem como ninguém, mas ganham grandes prêmios da Paz, da Economia e a toda hora estão advertindo, com sua postura ética, quem não rezar por sua cartilha.

Vejam também o caso da Alemanha. É um país de uma raça abnegada, "superior" (cruzes!), trabalhadora, genial, apesar de terem levado ao forno 11 milhões de pessoas e tentado destruir o mundo nos anos 40. Os chineses então nem se fala. São imperiais, majestosos, onipotentes, poderosos e estão presentes em todos os quadrantes do mundo com sua capacidade de fabricar chineses. Invadiram o Japão, o Tibete e quem mais esteve por perto,e não cansa de ameaçar Taiwan. São uma ditadura infernal e não permitem que ninguém se mexa lá dentro, senão leva chumbo. Mas são admirados!

Qual é então o pecado do Brasil? Ter oito milhões e meio de quilômetros quadrados? Mas isso não é defeito, é qualidade. Botamos os holandeses para correr no Nordeste, os franceses no Rio, os hispânicos no sul e no oeste. Ameaçamos os ingleses a bala, não perdemos território para os americanos, derrotamos os portugueses que queriam manter a colonização e, em lances geniais de diplomacia, conquistamos imensos territórios no Norte.

Qual é o pecado do Brasil? Ter acabado com os índios e as matas? Os índios continuam em nós, na nossa ascendência e descendência, na mistureba racial, nas vilas, subúrbios, praias e campos. A mata continua lá, o que não acontece com a selva estrangeira, toda ela desbastada pelo Mal encarnado nos gringos. Eles acabaram com tudo já no século 19. Até hoje temos florestas. Bem poucas, é verdade, mas ainda temos e temos de sobra em relação ao resto do mundo. Há e sempre houve violência contra índios, mas ainda há tribos, há culturas sobreviventes, há presença, mesmo que o Sting ache que Raoni faça parte do planeta e não do Brasil.

Qual é o pecado do Brail, termos mulheres desfrutáveis? Faça um balanço na própria família. Mulheres honestas, por gerações. Uma professora um dia nos disse em classe que as pedagogas brasileiras tinham que se impor lá fora pois, quando sabiam que eram brasileiras, queriam logo passar a mão. O turismo sexual é incentivado pela canalha e suas manifestações, as cantrizes e atrozes que rebolam diante do mundo se oferecendo. Mas eles não nos representam. Temos, sim, mulheres bonitas, porque somos uma civilização avançada e não produzimos tanto canhão como eles. Paulo Francis costumava dizer que as alemãs pararam de bater os calcanhares depois que foram derrotadas na Segunda Guerra. O que é uma injustiça para muitas alemãs.

Corrupção? Lembro sempre o Poderoso Chefão III, de Coppola, em que o mafioso, ao tentar lavar sua fortuna, descobriu que as nações eram dominadas por uma máfia muito mais poderosa do que toda a bandidagem. Só a política oficial de juros, implantada a mando das finanças internacionais, faz mais estragos do que todas as guerras. A corrupção garante o funcionamento do sistema colonizado, como foi acertado no Consenso de Washington nos anos 90. Violência? Disseminada em rede no Brasil, rotina idêntica a dos países invadidos. Não que devemos subestimar nossos problemas, mas não podemos deixar que eles grudem na identidade nacional. Nossas bases são outras e fazem parte de todas as pessoas de bem. Quais são essas pessoas? Olhe-se no espelho e faça um balanço ao redor. Alguém comete crimes nesse círculo?

Assim, quando um puto de merda como Robin Williams fizer piada suja e caluniosa sobre o Brasil, não tenha medo de parecer mau humorado. Não precisamos ser amados, queremos respeito. Queremos que nos admirem pelos nossos feitos e não pelos vícios de uma parte do país. Não somos vira-latas, somos o Rei Pelé, que superou a síndrome do vira-lata, como notou Nelson Rodrigues. O problema é colocar o viralatismo como algo sem solução , o que contraria o pensamento rodrigueano.

Seja mau-humorado, seja herói. Diga como o general gaúcho Bento Manuel que estava seguro sobre os castelhanos, que não se metiam com ele: “Eles respeitam a minha catinga.” O pior crime que podemos cometer é nos arreganhar para os estrangeiros. Temos que fazer cara de sovaco de portuguesa. E, qualquer coisa, descer o laço. Foi sempre assim. É por isso que somos o impávido colosso.

Nós, o povo, somos o Brasil soberano. Lutamos por qualquer palmo deste território cobiçado. É por isso que nos caluniam, porque estão de olho no que temos de melhor. Vamos prestar atenção no que somos de verdade. Esse pendão nos ares que ninguém arranca.

RETORNO - Imagem desta edição: a heroína da Guerra da Independência (1821-1823), a baiana Maria Quitéria, que encheu o rabo dos portugueses de chumbo até eles se mandarem. É o que está precisando o Robin Williams, levar uma descarga por trás para ele parar de falar em strippers brasileiras.

2 de dezembro de 2009

A IMAGEM FALA POR NÓS


Negar as evidências tem sido a artimanha de quem é pego com a mão na botija. A manifestação mais recente desse truque veio do próprio presidente da República, que, diante dos 30 (parece que agora são 50) vídeos mostrando o mensalão do governador Arruda, do DEM, disse que a imagem não fala por si, pois é preciso apurar tudo antes de tomar uma decisão. As imagens, mostrando uma súcia de corruptos embolsando o suado dinheiro público, falam por todos nós. O mais sinistro é que desconfiamos de grossa impunidade que está por vir, pois as denúncias migram de partido, uma mão lava a outra e o sistema continua intacto, com o mesmo tipo de prática, pois assim foi concebido para funcionar.

O novo mensalão fecha o ciclo, pois se situa no coração do sistema, o governo da capital federal, e envolve todo tipo de político e funcionários contratados por políticos. A partir do escândalo da era Collor, em que, segundo denúncias, deslancharam os limites das propinas, passando pelo dinheiroduto do Banestado da era FHC, o mesmo que se beneficiou dos artifícios financeiros para manter o real estável até garantir sua reeleição, segundo denúncia de Greg Palast, do The Guardian, chegando ao mensalão do PT, considerado obra de quadrilha pela Procuradoria Geral da República, está confirmada a situação trágica em que todo um sistema político foi engendrado para sugar e desviar os recursos da nação.

Não é, como analisou em editorial o jornal O Globo, reproduzido no blog do Noblat, “tibieza” (ah, essas palavras pífias) endêmica da nação, ou seja, “a incapacidade de o país ter uma vida pública dentro de parâmetros ético aceitáveis”. Pergunto se existiriam parâmetros éticos não aceitáveis. Há sempre esse esforço de negar o país, de dizer que ele não nasceu para a ética, de que somos corruptos por natureza. Corrupto é o sistema, implantado em 1964 e consolidado a partir de 1985, quando os dois partidos da ditadura, MDB e Arena, se desdobraram em novas siglas e empalmaram o poder. Assim, desmoralizaram a democracia, pois esse era o objetivo: provar que não nascemos para a grandeza e merecemos mesmo o tacão da ditadura.

Já existe há tempos um movimento pró-ditadura, como se tivéssemos derrotado a tirania. Continuamos nela, basta ver as imagens, olhar ao redor. Se houvesse democracia, toda a roubalheira não seria tão explícita, difundida e impune. Temos um sistema político engessado, que garante a imobilidade e os privilégios de uma casta, que para se manter à tona a toda hora incorpora novos agentes, como aconteceu com a canalha tucano-petista. Esse sistema serve à pirataria internacional, que continua em forma, apoiada pelos que negam a exploração internacional, como se fôssemos isolados nessa fraude monumental.

Agora é moda dizer que a Suíça sim é a coisa fofa do pai porque devolveu 28 milhões de dólares da corrupção comprovada de pessoas que continuam soltas por aqui. A Suíça é o receptáculo, o estuário, de todo o dinheiro da corrupção internacional, como comprovam inúmeras denúncias. Mantém as aparências da ética porque sabe da existência de bocòs que acredita em raça superior ou país que é rico graças à ética, e não ao esquema de domínio mundial. É moda também achar que esse traveco mal resolvido, o Robin Williams (deve sentir ciúmes dos travestis brasileiros que, imagina, lhe fazem concorrência) está com a razão ao achincalhar o Brasil.

O nefasto em Robin Williams é que ele opôs duas damas, Oprah e Michelle, às strippers brasileiras. Ou seja, em vez de destacar sua própria personalidade cínica e doente como paradigma dos EUA, ele se serviu de duas senhoras. E jogou merda para cima de nós. Quem representa o Brasil não são as strippers nem o pó, são as famílias, as pessoas honestas, de hoje e de ontem. O país não pode ser reconhecido como um lugar de sacanas só porque os sacanas estão no poder. Quem sabe vamos olhar os americanos como invasores de países, como foi reiterado por Obama (sim, ele pode) ao enviar mais 30 mil soldados ao Oriente Médio?

Não, Obama é Nobel da Paz, não pode. Robin Williams é ator, comediante. Não se trata de um escroque, isso fica para nós. Quem sabe eles deixam que nós, por aqui, possamos romper com o ciclo de bandidagem? Se fizermos isso, eles caem matando, como caíram muitas vezes. Eles precisam dos assassinos aqui para manter a riqueza lá. Mientras tanto, os enterradores da Pátria se enchem de razões para o suicídio de achar que não temos jeito nem solução.

RETORNO - Imagem desta edição: tirei daqui.

1 de dezembro de 2009

DRAMA NA ÚLTIMA RODADA


O Grêmio não vai entregar o jogo contra o Flamengo. Ao contrário, vai lutar como um leão solto na arena depois de uma temporada de estio. Vai resolver assim a sinuca de bico preparada pela tabela do campeonato Brasileiro, que colocou nos pés dos jogadores do tricolor gaúcho o destino de seu arqui-rival, o Internacional de Porto Alegre.

De minha parte, quero que o Flamengo seja campeão. O técnico Andrade, Peticov e todos os outros craques merecem esse título. Mas isso não quer dizer que vá se basear na rivalidade gaúcha para fazer graça na hora de levantar a taça. Se vencer, deverá ser de maneira justa. É isso, acredito, que esperam os jogadores, dirigentes e torcedores do time carioca. Pois não teria graça ganhar de bandeja a vitória contra o Grêmio só porque existe uma coisa chamada Grenal, que todo o Brasil aprendeu a dizer que é a pior rivalidade futebolística do mundo. Não é. A pior é nós contra os argentinos.

O problema é que, para quem acredita na obrigatória marmelada, não existe uma coisa chamada honra, um nome a zelar. O que os colorados deveriam fazer, em vez de ficar colocando obrigação no Grêmio, é cuidar do Santo André, que, caindo pelas tabelas, poderá surpreender no último minuto. Não descuidem do adversário nessa partida final, não contem com a galinha antes do ovo. Talvez levem uma chapuletada. Seria engraçado se o Grêmio vencesse e o Internacional caísse de quatro diante dos paulistas.

Se torço para o Flamengo para o título, acho que o Palmeiras foi o grande injustiçado neste campeonato. Era líder com folga e foi se abatendo até chegar exausto na última rodada. Problemas internos, brigas de foice no claro e no escuro, ruptura entre técnicos e jogadores, estrelismos ou afobamento puro e simples deitaram tudo a perder. Mas ainda há chances. Talvez os palmeirenses ganhem a parada e possam enfim comemorar esse título. No mínimo, André Falavigna, que desde a puberdade não levanta o troféu nacional, teria assim sua grande desforra e poderia gritar úúúú levando as mãos na cabeça como uma manifestação de alívio e não de lamento pelo título perdido. O gol do meio do campo no domingo foi um sinal de que pode acontecer um milagre?

Resta falar do São Paulo, eterno candidato a vencedor. O São Paulo tem carisma, tem time e tem sorte. Rogerio Ceni se machucou mas voltou em forma. Ronaldo se machucou e caiu junto com o Corinthians. A barra andou pesada pelo lado corintiano. Mas é sempre leve para o lado do tricolor paulista. Por que será? Na penúltima rodada, os sampaulinos saíram da liderança para a lanterna do G-4. Talvez voltem ao topo. Mas esse não é o drama da última rodada.

O drama está no pampa. Lá em Uruguaiana, como estará o clima? Colorados e gremistas, que vi lado a lado num final de campeonato, quando o Grêmio venceu e não saiu pancadaria nenhuma, ao contrário, famílias inteiras uniformizadas com as camisetas de seu time foram à praça ver a bagunça. O Rio Grande é maior do que dizem. É uma terra de bravos. Como provar que somos essas pessoas de fibra que não fazem jogo sujo? Basta nossa palavra. E nossa história. Portanto, fiquem atentos. São dois jogos à parte. Se os dois times vencerem, torço para que ambas as torcidas enfim encontrem um denominador comum, a paz tão sonhada, nem que seja por uma tarde, no chão conflagrado da nação aos pedaços.

RETORNO - Imagem desta edição: tirei daqui.


EXTRA: ROBIN WILLIAMS CONTRA O BRASIL

Não é a primeira vez que o ator Robin Williams (na foto acima, rodeado de garotinhos) falta com o respeito ao Brasil. Costuma dizer barbaridades, como se tivesse o direito de esculachar o país. Agora ele opôs a sieredade das mulheres americanas, Oprah e a primeira dama Michelle, às "strippers" brasileiras, que teriam sido ofertadas ao Comitê Olimpico Internacional junto com meio quilo de pó.

No fundo, ele se acha uma velha senhora respeitável e deve lamentar não ter um corpinho vagabundo, que lhe permitiria fazer o trotoir. Velho cheirador assumido, o rapaz usa os próprios países baixos como referência. Quando olha seu busanfan no espelho, ele acha que vê o Brasil, mas vê apenas o espetáculo (que deve ser medonho) da sua derrière. Em todos os seus filmes, o cara sempre aparece na sua faina obsessiva, a de fazer sua personalidade fake e freak uma espécie de monumento do show bizz.

Gracioso, costuma subir em mesas e sofás e dar gritinhos. Não fosse o aspecto físico bisonho, irrelevante se não costumasse nos ofender, ele poderia se candidatar a ser uma das strippers que denuncia. Bobalhão.

ABIGEATO



Nei Duclós (*)

As confusões em que nos metemos com a língua portuguesa têm a ver com problemas reais. Desconfio que o trágico desaparecimento do hífen, um acasalamento impróprio de vocábulos não afins, está relacionado com o amontoamento coletivo nas cidades. Não existem mais portões confiáveis, que nos separavam da vizinhança. Hoje há um prolongamento habitacional que é o fim da hifenização urbana, ou seja, da privacidade.

Quando a morte começou a correr risco, no lugar da vida, imagino que houve uma troca substancial de papéis. As pessoas não vivem mais, portanto não correm mais risco de vida. Com milhares de assassinatos, acidentes de trânsito, epidemias, enchentes, furacões, balas perdidas, a morte banalizada às vezes pode perder a parada. É o risco que ela corre de alguém sobreviver.

São tantas as transgressões, especialmente as oficializadas, que sumiu o hábito de discutir soluções gramaticais. O vale-tudo das modificações funciona como agente desagregador, estimulado pelos truques da informática. Não brigo mais com a revisão, mas com o word. Ele completa palavras, destrói frases, insiste em soluções que abomino. Quem inventou essas ferramentas deve ter incorporado o espírito mau dos que fiscalizavam o uso da linguagem para que ela não deslanchasse.

Quando tudo é feito para facilitar, a encrenca é certa. Daqui a pouco eliminam a crase, que é tão sofisticada quanto a lei do impedimento no futebol. Vamos imaginar um jogo de bola que permita a banheira, aquela covardia de atacantes isolados se prevalecendo de goleiros indefesos. Seria tão desastroso quanto não permitir a soma de conceitos (artigo, preposição) na primeira letra do alfabeto.

A marginalização social tem seu representante no abandono de conjugações, como o subjuntivo; de construções elegantes, como a mesóclise; ou de palavras estranhas, como abigeato que, como dizia o velho diretor de redação para os jovens repórteres de vanguarda, “todo mundo sabe que é roubo de gado”. Não significa que devemos nos entregar à heterodoxia excessiva, mas é bom preservar alguns tesouros perdidos, pois assim estaremos promovendo a alteridade, a sustentabilidade, a inclusão, atitudes que estão na moda. Só que, gastas de tanto uso, podem ser empurradas para o mesmo destino do abigeato.

RETORNO - 1. Imagem desta edição: tirei daqui. 2. (*) Crônica publicada nesta terça-feira, dia 1º de dezembro de 2009, no caderno Variedades, do Diário Catarinense.

O COLUNISTA E A NOVEMBRADA


Defesa ardorosa do regime militar e ataque aos que se manifestaram contra João Figueiredo em Florianópolis em novembro de 1979 – a célebre novembrada -, foram o estopim das críticas contra um dos colunistas da RBS, Luiz Carlos Prates. Teve blog que pregou uma suástica em sua roupa, entre outras acusações. A revolta contra Prates obedece ao esquema pré-estabelecido entre os que são contra e os que são a favor da ditadura. Trata-se de um erro, pois a esta altura do campeonato, 25 anos de presidentes civis, é preciso abordar o tema com mais maturidade e não se deixar levar pelas paixões, em ambos os lados, como se política fosse futebol (e assim mesmo futebol está dando de dez em complexidade, basta ver a recente febre gremista entre os colorados).

Não, não sou a favor da ditadura nem acho que Prates tem razão ou que precisa de que alguém o defenda. Mas é inegável que ele tem argumentos e, apesar de serem expressos na sua tradicional contundência, merecem uma contra-argumentação à altura dos motivos elencados por ele. Aviso que esses motivos são aceitos por uma parte da população, pois ficou claro que o regime dos que lutaram contra a ditadura passou do dólar na cueca para o real na meia. Se falam tão mal do regime militar e vivem envolvidos em falcatruas, então será que o regime militar foi mesmo essa coisa hedionda? É o que perguntam.

Outra advertência: a ditadura foi civil-militar e hoje é só civil, mas essa é a minha percepção dos fatos e não vem ao caso aqui, por enquanto. O importante é que os argumentos de Prates a favor da ditadura são: 1. Havia segurança, todos podiam sair às ruas, até de madrugada sem serem molestados. 2. Houve crescimento econômico significativo. 3. João Figueiredo morreu pobre, ou seja, não era corrupto. Todas essas evidências podem ser comprovadas pelo depoimento do próprio Prates, que invocou seus tempos de juventude, de início de carreira no jornalismo, em que ele estava no front dos acontecimentos e pode, portanto, confirmar tudo.

Em contraposição a esses dados positivos sobre o regime militar, Prates colocou que hoje ninguém pode sair às ruas sem ser importunado, e que somos governados por pessoas que, segundo suas palavras, não sabem o que é miséria depois de passar pelo governo. “Demos para trás”, diz Prates e encerra sua defesa saudando Figueiredo, que “soube nos levar para a verdadeira democracia”. O que há de ofensivo nesse acervo favorável ao regime desmoralizado a partir de 1985? Muita coisa, mas não por obra de Prates, uma pessoa que acredita no que diz, diz o que sente e pensa e prega diariamente disciplina e erradicação da pouca vergonha que tomou conta da nação.

Tive a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente quando lancei meu livro O Refúgio do príncipe. O gentil homem, o entrevistador certeiro, o jornalista vocacionado é a expressão de um carisma raro entre os profissionais da imprensa. Prates criou um personagem para ser visto por milhares de pessoas e é esse personagem que está em pauta, e que na defesa da ditadura serviu-se da biografia pessoal para reforçar o que estava sendo dito. Pelo pouco que pesquisei, Prates começou sua carreira em 1960, quando não havia ditadura, ou seja, cai por terra seu argumento que no início da sua carreira ele tinha segurança porque o regime estava fechado.

Havia democracia desde 1946, quando uma Assembléia Constituinte votou uma Constituição e eleições diretas elegeram o presidente Dutra. Três anos depois do nascimento de Prates, que se criou assim num regime democrático. Sua formação se deu na época do Brasil Soberano. Fez o primário no governo Dutra, o ginásio no governo eleito Vargas e formou-se nos governos JK e Jango. Só quando atingiu a maioridade foi colhido pelo golpe de 1964, que estabeleceu a censura à imprensa, e em conseqüência a censura às falcatruas, roubos e desvios do dinheiro público, já que tudo estava sob o tacão da ditadura.

Só quando houve a distensão de Geisel e a abertura de Figueiredo é que a imprensa pôde começar a respirar. O crescimento econômico, sabemos, foi feito à custa do aumento do fosso entre as classes sociais, do endividamento externo brutal, da superconcentração de renda e de populações, que migraram em massa do interior e incharam as capitais, entre outros desastres. Houve a militarização da sociedade, com a tortura e a violência sendo disseminada em rede, já que tanto na época de Vargas quanto na da democratização de 1945 a 1964, o banditismo não teve o crescimento que se verificou mais tarde, quando a direita civil deu o golpe. Os militares empalmaram o Planalto, mas os civis continuaram na política econômica, o Congresso, os governos estaduais e municipais, os ministérios mais importantes etc.

A novembrada aconteceu em plena Abertura, contra um presidente que tinha se comprometido a devolver a democracia ao país. Um presidente voluntarioso, que pediu briga e saiu para o desforço físico. Um sujeito que teve vários peripacos no coração e que ao ser operado nos Estados Unidos declarou que lhe “abriram como um frango assado”. Os estudantes tinham seus motivos, o movimento foi importante, de confronto não só contra o regime, mas contra a manipulação da História e da memória, pois o estopim foi uma placa comemorativa ao marechal Floriano Peixoto.

Não foi, portanto, um movimento de fracassados nem a ditadura foi um modelo. O problema é que a ditadura se consolidou em 1985, se legitimou ao se livrar dos militares. A direita civil, via Sarney, tomou todo o poder e está lá até hoje, ou alguém duvida que o PMDB (vindo a oposição consentida da época da ditadura explícita) governa o país? É preciso debater e não se deixar abater ou tentar abater a tironaços quem pensa diferente. Prates é importante, não só por ser jornalista como todos nós, e portanto merece respeito, mas porque expressa o sentimento de muita gente. Uma senhora que conheço me falou que “ele diz o que a gente pensa”.

Isso deve ser levado em consideração. Colocar suástica na sua roupa depõe contra a democracia dos que dizem defendê-la. O papel da imprensa não é apontar o dedo contra quem assina o que escreve, mas não deixar passar a oportunidade de destrinchar os fatos, que podem muito bem ser analisados a partir de uma fala contundente. Esta, jamais pode ser considerada um crime de opinião. Sabemos em que túnel nos metemos quando inventaram o crime de opinião.

RETORNO - Imagem desta edição: Novembrada.

30 de novembro de 2009

O HERÓI DA LENDA


Nei Duclós

Permaneci muito tempo calado
Antes desta época eu não tinha voz
Agora posso professar o indizível
Costurar o incosturável
Atrair o espanto, celebrar o sol

Meu trigo selvagem cresce todo dia
Sou convocado por uma insana compulsão
De me expor inteiro para os indiferentes
De publicar memórias em pílulas amargas
De abrir os braços para o que foi embora

Deveria deixar tudo a cargo dos experts
Que com expertise comprovariam espertezas
Sem jamais compartilhar suas divindades
Eles poderiam continuar impunes até o final
Formando opiniões como se fossem faraós

Sou o excluído além das teses, a impávida chama
de dizer verdades vindas das estrelas
Tanto lutaram para tanto que aqui estamos
Efeito colateral de um acordo entre facínoras
A mirar no alvo das mentiras elegantes

Somos a luta contra falsos gênios e ladrões do talento
O que eles ostentam, em nós sobrou e virou lixo
Temos algo mais valioso, palavras cultivadas no horizonte
na preguiça ancestral contra religiões de espuma
Somos os fundamentalistas da falta de estilo

Estamos atentos para os crimes contra nosso canto
Se nos proibirem de falar sairemos como rebanhos
soltos no campo a devorar a idade dos tiranos
Pois agora em que somos livres para errar
Não vamos voltar à estupidez das estufas

Queremos ser uma avalanche soterrando o Olimpo
Onde compartilham a ambrosia do silêncio
Enquanto vomitam jargões do ventre da violência
Tão brilhantes que parecem diamantes lapidados
Que formam catedrais onde todos devem ir rezar

Pois sou o herege, o cara mau que invade a cerimônia
Interrompo o sermão bordado a ouro, esse latim finório
Trago o patuá sem brilho, gírias do medo, a dor de ser outro
Sei que jamais vão dizer: eis alguém que mereça ser ouvido
Por isso grito e parto os vitrais com a brutalidade do carisma

Serei esquecido e minha vingança é a minha presença
A que acossa os mandarins, e sobe nas torres de marfim
Sou uma academia de equívocos, antologia de flores duras
Não tenho perfume, apenas a potência do que digo ao coração
Porque tenho um coração, mas dispenso o amor entre as ruínas

Vai, cala meu gesto, me chama do que não deveria ter nascido
Assim mesmo medrarei como plantas em megalópoles tétricas
Atrairei pássaros do deserto, que sobreviveram comendo cactos
Trarei besouros improváveis, lagartos de cal, mortas borboletas
Troféus que ofereço de pé, porque eu sim sou o herói da lenda

RETORNO - Imagem desta edição: Ogro, obra de Ricky Bols.

O CATCHORRINHO


O catchorrinho é um personagem trágico. Não ele em si, mas o que representa. Vamos pegar o exemplo do técnico Andrade, do Flamengo. Por muitos anos ele foi preterido do cargo em favor do catchorrinho. Toda hora pintava a vaga e colocavam Andrade de tampão, mas em seguida o substituíam. Nunca era efetivado no cargo porque a prioridade sempre era para o catchorrinho. Até que um dia caiu a ficha ou faltou opção e no lugar do catchorrinho deixaram Andrade como técnico. Bem, ele é quase campeão. Falta pouco. Assim mesmo, periga ele levantar a taça e voltar ao ostracismo. Alguém vai provar que o mérito é do catchorrinho, que agiu nos bastidores.

Você mesmo deve ter passado por algo semelhante. Alguém no seu trabalho quer saber alguma coisa, num tema que você domina, é especialista. Aí as pessoas ao teu redor começam a perguntar de maneira feérica para a cortina, a janela, a porta e o catchorrinho, jamais fazem a pergunta para ti, pois poderás responder e assim serão desmoralizados, pois as pessoas estão abraçadas, apaixonadas pelas suas duvidas e não dão colher de chá para ninguém. Só para o catchorrinho.

Na políica, então, nem se fala. Poderíamos ter bons candidatos, mas eles sempre são colocados de lado em favor do catchorrinho. Au, au, votem em mim. E as pessoas votam, não há opção. Aí o catchorrinho faz aquele estrago no sofá do país e todos colocam a culpa no povo. Viu? Foi votar no catchorrinho. Isso se repete sempre. O pior é que a corrupção, quando consegue ser flagrada e derruba alguém no Parlamento, quem é o substituto? Claro, ele de novo, o catchorrinho. Ruarr ruarr.

Para não dizer que estou implicando, vou lembrar outros casos. Imagine uma feira do livro inédita em Conceição de Mato Dentro. Enfim os escritores locais, o prefeito conseguem arrancar uma verba preta da publicidade e eis que há uma boa bufunfa para o evento. Quem eles convidam como participante especial? Alguma dúvida? Lá está o catchorrinho dando autógrafos. E isso se repete nas grandes bienais. Só o catchorrinho aparece nas matéria. Aqui estamos na mega plus extra Bienal de São Paulo e vejam quem está ao redor dos seus leitores e fãs? O nosso convidado especial. Diga alguma coisa, vai. Blau blau.

É insuportável como nas provas dos concursos não fazem perguntas pertinentes, como por exemplo “pode-se chamar de ditadura um governo eleito por assembléia constituinte, como aconteceu em 1934?” Eles fazem outra pergunta” Diga porque o catchorrinho fez doutorado em ditadura nos anos 30”. Pobres estudantes.

No noticiário, seja qual for o assunto, jamais chamam os verdadeiros especialistas, os caras que dominam a matéria. Sempre chamam o catchorrinho. “Precisamos criar um circulo virtuoso”, diz o canino. “A qualidade de vida é fundamental. O desenvolvimento sustentável pode muito bem se sustentar. O aquecimento global exige que tunguemos mais verbas”. É ele, o catchorrinho dando entrevista. É que nos ágapes noturnos, encastelados em palácios suntuosos, os donos do poder jogam os restos para alimentar o catchorrinho. É por isso que não temos chance.

RETORNO - Imagem desta edição: tirei daqui.

29 de novembro de 2009

COMO ERRADICAR ABOBRINHAS


Recebo inúmeros e-mails com montes de asneiras. A principal delas é que tudo é culpa dos brasileiros, que se aqui houvesse respeito, seria diferente. Isso se espalha nos textos metidos a políticos, esotéricos, filosóficos etc. Acho que há muita falta de estudo. As pessoas ou não lêem o básico ou passam lotado pelo pouco que lêem. Há uma ansiedade para emitir opinião, quando tudo se resolveria não apenas com o bico calado (economiza energia), mas com uma leitura atenta ao be-a-bá das ciências humanas. Elas estão a mil sempre se renovando, mas a idiotia paira como algo transcendental e metafísico acima de todas as evidências. Proponho alguns princípios, fundados em leituras, para erradicar as abobrinhas

As pessoas não são, por natureza, éticas ou anti-éticas. A ética faz parte da cultura e a cultura não está no sangue nem nos países baixos. Você forma a cidadania nas pessoas que nascem zeradas, por meio de políticas públicas corretas. Não pode deixá-la à mercê da Xuxa, incentivá-lo a ser top model, ou jogá-la nas garras dos marmanjos milionários e depois vir cobrar atitude.

A corrupção não é uma verruga do brasileiro, é uma imposição do sistema para que a sacanagem possa funcionar. Não adianta fazer campanha para mudar a cabeça das pessoas, elas estão amarradas aos seus algozes. Só quando os algozes forem eliminados ou tirados de circulação haverá alguma chance.

Os governantes não são eleitos por nós, eles são impostos por um esquema perverso da política engessada (sem mobilidade). O voto útil, a manipulação das urnas e a mentira sob todos os disfarces são formas de terceirizar a responsabilidade para a massa. A culpa é deles, mas fica sendo nossa.

O Jesus que os fanáticos pregam nas praças e nas portas da nossa casa não existe. É uma contrafação, um personagem para arrecadar dinheiro e os loucos exercerem sua loucura. Jesus é outra coisa, está nos textos do Novo Testamento, lidos com olhos livres, ou à luz da melhor teologia e não sob a peneira da imbecilidade fundamentalista.

As grandes potências são ricas não porque as pessoas que vivam nelas sejam honestas e trabalhadoras, ou pertençam às raças superiores (conceito ainda vigente, apesar de desmoralizado), mas porque um sistema de arrecadação, formatado há séculos por meio de muita guerra e carnificina, tunga os recursos mundiais, que são carreados para as principais praças financeiras do mundo. É por isso e não porque aqui todos queiram levar vantagem em tudo.

A violência é fruto da luta de classes, intensificada pela crueldade do sistema. Não é porque as vítimas mereçam levar ou os direitos humanos só defendam bandidos. Quando não há distribuição de renda, os despossuídos tomam à força. É assim que funciona.

A toda hora alguém me manda um beijo no coração. Já disse que coração não se beija, suja a boca de sangue. Beije o catchorrinho, o cacto, a sarjeta, não o coração. Se tem uma abobrinha recorrente é essa.

Lula comete erros crassos e está levando o país à ruína. Não adianta tapar o sol com a peneira e dizer que tudo nele é muito engraçado. Trata-se de um sujeito sinistro, assim como quem o admira e o apóia. Isso se estende para a maioria dos outros políticos brasileiros, de FHC a Sarney. Eles não são frutos do Zé Povinho, são agentes da tunga internacional, anti-Brasil e anti-povo.

RETORNO - 1.Imagem desta edição: bonde de Santa Teresa, cheia de povo brasileiro dentro. 2. Cesar Benjamin feriu de morte o esforço de transformar Lula num líder messiânico. Foi na hora certa. A história é de autoria do próprio Lula, foi divulgada por Benjamin na Folha e confirmada por Silvio Tendler, que defendeu o presidente dizendo que tudo era piada. O que deixou Tendler furioso foi a declaração de Benjamin de que "não lembrava" do seu nome. Isso é mortal para um marqueteiro. 3. Caiu enfim a ficha. "Descobriram" que a ditadura foi civil-militar. Agora todos podem falar o que digo há anos aqui no DF, pois existe "gancho": o documentário Cidadão Boilesen, sobre o executivo do grupo Ultra que financiou a tortura junto com outros empresários na Operação Bandeirantes.

28 de novembro de 2009

FRASES PARA O PEQUENO COMÉRCIO


Atender um balcão é uma prova de resistência no Brasil. Já tive essa experiência e a instabilidade econômica acena sempre para uma recaída. Como essa é uma atividade que envolve milhões de pessoas, resolvi destacar algumas frases de grande utilidade para criar algum acordo entre quem vende e quem compra.

NÃO TENHO PATRÃO. PORTANTO, SEJA GENTIL

SE EU NÃO TIVER O QUE PROCURAS, NÃO VOU TE EMPURRAR O QUE PRECISO VENDER

JAMAIS DIREI “FIQUE À VONTADE” E SÓ ATENDEREI SE FOR SOLICITADO

NÃO VOU CONVERSAR COM FORNECEDOR NA HORA EM QUE VOCÊ PRECISAR DE ATENÇÃO

NÃO VOU DAR PRIORIDADE À CHAMADA TEELFÔNICA NO MOMENTO DA VENDA

NÃO VOU TE OLHAR COMO SE FOSSES UM INTRUSO INVADINDO MEU ESTABELECIMENTO

JAMAIS DAREI SORRISO FORÇADO.TAMBÉM NÃO VOU FECHAR A CARA

NUNCA VOU PROCURAR TE CONVENCER A LEVAR UM NÚMERO MENOR OU MAIOR

NÃO VOU MANTER PRODUTOS VENCIDOS NA PRATELEIRA

NÃO VOU ENCARAR AS CRÍTICAS COMO UM ATENTADO PESSOAL

DAREI TODA INFORMAÇÃO SOLICITADA, MESMO QUE BENEFICIE OS CONCORRENTES

NÃO MOLHAREI A MÃO DE FISCAIS

NÃO COLOCAREI A CULPA DOS INSUCESSOS NOS OUTROS

NÃO PERMITIREI OLHO GORDO NA PROSPERIDADE

NÃO DEIXAREI DE CUMPRIR PRAZOS, A NÃO SER QUE HAJA ACORDO ENTRE AS PARTES

NÃO VENDEREI PRODUTOS FABRICADOS PARA ESTRAGAR

NÃO INVEJAREI QUEM QUER QUE SEJA EM QUALQUER SITUAÇÃO

NÃO DAREI PASSOS MAIORES DOS QUE AS PERNAS

VOU CORRER RISCOS, MAS COM RESPONSABILIDADE

SEMPRE ME COLOCAREI NA PELE DE QUEM ENTRA PARA COMPRAR

NÃO VOU EXPLORAR FUNCIONÁRIOS NEM PERMITIR FALTA DE RESPEITO

VOU RESERVAR UMA PARTE DOS LUCROS PARA OBRAS SOCIAIS

NÃO VOU ESCORRAÇAR QUEM PEDE FIADO

RETORNO - Imagem desta edição: foto de Daniel Duclós.

27 de novembro de 2009

SEM PALAVRAS







A REALIDADE VISTA PELO AVESSO


Não costumo me atualizar sobre política, pois acredito que tudo vai num tranco só, sem mudar nada. O que me deixa a par do que realmente acontece é a propaganda institucional, tanto do governo quanto dos partidos. É verdade, a desfaçatez é tão grande que eles acabam entregando tudo. Ontem, por exemplo, vi uns trechos do programa do PMDB. É um assombro. Fico sabendo que a soberania nacional está a cargo do PMDB. Claro, se o Nelson Jobim é o Ministro da Defesa, faz sentido. Forças Armadas nem são citadas como protagonistas, já que ocupam lugar subalterno no enfoque adotado pelo partidaço (o partido que deixa o Brasil aos pedaços). Ou seja, ficamos sabendo como as Forças Armadas são tratadas.

Também notei tardiamente que o maior volume de verbas dos ministérios está nas mãos do PMDB. A Previdência, Minas e Energia, a Saúde, é tudo com eles. Assim o PT governa de um lado, deixando uma grande parte do butim na mão da turma. Lá está o ministro do Apagão com gestos de catequista incurável enquanto na Folha, Palméria Doria, ao comentar seu best-seller Honoráveis Bandidos, da Geração Editorial, coloca o dito na lista da “gente da pesada” da turma do presidente do Congresso. No mesmo dia em que o sujeito é denunciado, ele aparece como o grande desenvolvimentista, o ministro dos traques de Tupã no ermo.

As notícias da desfaçatez são generosas. Em Santa Catarina, anunciam mais “36 leitos” nos Hospitais, parece que são uns 15% do que vai ser distribuído no resto do país. Ora, meia dúzia de “leitos”. É preciso mais mil hospitais, mais um milhão de leitos. Basta pegar o dinheiro gasto pelo Lulinha e sua turma num avião da FAB (quanta cara-de-pau!) e jogar na saúde. O que pensam os militares que tiveram de ir para o fundo avião para a tchurma assumir seus lugares? O que pensam os militares, no uso legítimo do serviço, terem de voltar abruptamente dez minutos antes de aterrisar em Brasília, para São Paulo, para pegar o filho do cara-de-pau mor? O que pensam os militares?

O que pensar sobre a corja internacional que o Brasil está reunindo, do fraudador do irã ao decano ditador Kadhafi, de Chavez a Zelaya, contrariando o bom senso e a paz mundial, pois só o Brasil incentiva um louco a usar energia nuclear? O que pensar de uma política exterior que não vai reconhecer as legítimas eleições de Honduras e que mantém numa falsa embaixada (já que não temos representante lá) um sujeito perigoso que tentou dar um golpe via plebiscito? O que pensar desse pesadelo que atrai para cá os piores elementos e tira todo o cacife que acumulamos em séculos de vida e luta, pois temos um território gigantesco reconhecido por todos (por enquanto) graças à coragem e à credibilidade de nossos antepessados, um patrimônio que está sendo esbagaçado pelo atual estágio da ditadura brasileira?

Outro sintoma da defaçatez é a pose de estadista do FHC, que ressurge maquiado de seu personagem favorito, o grande estadista culto que livrou o Brasil da inflação. FHC entregou o país, sucateou o patrimônio da nação, "deu" o que tínhamos de melhor (da Vale para cima), foi beneficiado por uma operação financeira pesada para se reeleger, conforme denuncia de Greg Palast, do The Guardian, num livro que jamais foi comentado na grande imprensa A melhor democracia que o dinheiro pode comprar (só a Cartacapital deu destaque). FHC se apresenta também com o maridão carinhoso que tinha a socióloga ao seu lado, o cara que era “o acompanhante de Ruth”, quando se sabe que a frase “sou apenas o acompanhante de Jackie em Paris” é do John Kennedy. Ambos maridões exemplares, como todo mundo sabe.

Na era dos softwares que tornam toda fuça murcha numa pele de pêssego, em que biografias são maquiadas para a próxima eleição, em que a falta de escrúpulos na política é considerada paradigma, em que temos a opção de votar entre o safado e o sem-vergonha, em que as pessoas morrem na fila do SUS por falta de “leito”, em que qualquer vento ou chuva derruba as casas como se fôssemos os clones daquele porquinho da fábula que tinha sua moradia soprada pelo Lobo Mau, em que, no maior desplante os pré-candidatos se apresentam com a mesma cara lavada falando em educação, saúde e geração de emprego e renda, em que estamos por aqui desses crápulas, precisamos ficar firmes e não nos deixar abater pela desesperança.

Só para encher o saco, vamos ter esperança. Não essa esperança que custa milhões de dinheiro público nas propagandas. Não neles ou no que eles possam fazer de diferente, porque não vão fazer. Mas em nós, os eternos cidadãos despossuídos do Tempo instável. Como dizia o general Giap sobre o Vietnã, “ganha a guerra quem agüenta mais cinco minutos”.

RETORNO – Imagem desta edição: tirei daqui.

26 de novembro de 2009

SOMOS (40 ANOS DE UM POEMA)


Nei Duclós

O cinismo é o nosso destino
a desilusão nosso início
a paz nossa inimiga

Investe quem sobrevive
sorri quem acredita
na vitória tardia
(a única disponível)

Nascemos para ser assassinados
somos uma espécie de fim da tarde

RETORNO - 1. Este poema foi escrito em 1969. Reproduzido em pincel atômico (tinta preta) em cartolina branca, foi exposto nas praças da Alfândega (Porto Alegre), da República (São Paulo) e General Osório (Rio), no mesmo ano, e publicado no Caderno de Sábado do Correio do Povo, de Porto Alegre. Desde 1975, faz parte do meu livro Outubro. São 40 anos de uma profecia. Não queria ter acertado tanto.

2. Imagem desta edição: o assassinato de Edson Luís em maio de 1968. Sobre esse crime escrevi, na época:

CANTO PARA EDSON LUÍS, O MENINO MORTO

Nei Duclós

"Cortinas de grosso veludo
nas janelas do mundo
olhos claros se apagam
com rajadas de chumbo

Foi um corpo que tombou
onde corpos tombam
numa guerra em desassombro:
façam fogo

Enterramos nossa espera
Teu corpo flechado
morreu com ela

Caminhamos cobertos de luto
as facas da dor
abrem sóis no veludo
".

CENSURA À IMPRENSA, CRIME HEDIONDO



A ditadura brasileira achou um caminho “legal” de censurar a imprensa: por meio da Justiça! Assim, faz quase quatro meses que o Estadão está proibido de publicar suas matérias sobre falcatruas de notória família política; o blog Tijoladas do Mosquito, aqui de Floripa, está novamente sob o tacão de decisão judicial que proíbe publicar algumas denúncias; o jornal Já, de Elmar Bones vai à falência porque foi obrigado a pagar indenização milionária por ter feito matéria em 2001 sobre desvio de verba pública no RS, e por aí vai.

Depois falavam que a censura da época “militar” era isso e aquilo. A censura da ditadura é a mesma desde 1964, na marra, mas agora sob o manto da rigorosa punição judicial. Engraçado, soltaram o facínora que acabou matando Tim Lopes; soltam a toda hora bandidos que tomam conta do tráfico e da marginalidade; elementos do mais baixo nível saem pela porta de frente da cadeia; o sujeito dá dois tiros pelas costas da ex-namorada, mata, é julgado, condenado e continua solto. Para tudo tem um jeito, menos para a imprensa. Essa tem que entrar sonoramente pelo cano. Por que acontece isso?

Porque o jornalismo é uma profissão perigosa e foi destruída para, no seu lugar, triunfar o marketing de eventos noticiosos, o dossiê plantado por interesses em jogo, a abobrinha lancinante e recorrente, a suíte eterna, o tatibitati da linguagem em ruínas, a legenda para cego, a má remuneração dos profissionais da imprensa, a celebração das nulidades, o latifúndio de espaço para maus elementos de todos os calibres disfarçados de articulistas. Enquanto isso, grandes jornalistas amargam o ostracismo e a sacanagem impune triunfa e se mantém eternamente no poder.

Sem falar em inúmeros jornalistas assassinados nos grotões. Não se pode fazer jornalismo no país em que tudo se rouba, de merenda escolar a dinheiro para o lixo, conforme constata o trabalho insano e magnífico do Ministério Público. Esses dias vi uma foto em que o sorridente ministro de portentoso tribunal de Contas bebericava junto com um grandalhão da política. Era um ágape, que depois foi esticado para um lounge, resort, ou que sei eu dessas palavras estrangeiras que dominam a vida nacional. Como pode alguém que decide sobre verbas públicas celebrar junto com um político?

Um juiz deveria dar exemplo de ascetismo e não ficar exibindo alegria etílica diante das câmaras. Quem julga os juizes? Quem faz auditoria sobre esses atos de censura à imprensa? Quer dizer que um tribunal tem o poder inconstitucional de calar a imprensa? Se é assim, então retirem o rótulo de democracia de uma vez, porque há muita perda de tempo nesse troço de achar que estamos numa democracia. Se houvesse democracia, teríamos imprensa! E não censura.

Mas você consulta o jornal e lá está a Madona. Liga no noticiário e lá está o ratinho sendo torturado pelos pesquisadores (não suporto mais tanta matéria de saúde). Espera chegar a reportagem e atura tudo que é evento, desde a comilança de polenta e beberança de vinho do santo agapito até a oportunidade de quem tem sangue “puro” ensinar alemão para as crianças, que assim acabam falando português com sotaque. E dele matéria do transito, de como as pessoas perdem tempo dentro dos ônibus e como isso provoca stress. Mientras tanto, a mulher que teve ataque agudo de pancreatitie, em Lages, agonizou por horas a fio na fila do SUS e acabou morrendo. E a matéria tão aguardada é reduzida a cinco milissegundos. A "reportagem" ocupa menos espaço do que a chamada.

Se temos um sistema de saúde seletivo, que escolhe quem vai morrer, e uma Justiça que censura a imprensa, então isso nem mais é ditadura. É o que vem depois dela, quando ela triunfa. Uma espécie de III Reich sem a vitória russa em Stalingrado. Algo como um mundo sem o dia da Vitória na França em 1945. Vivemos num país que recebe ditadores com alegria, com nosso presidente roçando barba a barba e sorrindo levantando os braços. Somos um país que censura a imprensa e joga jornalista no lixo. E que usa os meios de comunicação para difundir mentiras sobre a situação social.

Chega, porra.

RETORNO - Imagem de hoje: o ministro da propaganda do nazismo, Joseph Goebells, olhando para o futuro e pensando: "Eu vou pegar vocês amanhã". Brrr.

25 de novembro de 2009

PALAVRAS FORMATAM UM PARADIGMA


Para trafegar impunemente pela chamada comunicação, é preciso submter-se a um consenso formado pelo círculo de palavras aceitas e que são voláteis, pois quando elas se cristalizam, em seguida outras são jogadas na roda para que os emissores vocabulares possam manter o ar cool e exclusivo de quem forma opinião. Como cansei dessa turma, vou elencar algumas palavras que, me parecem, fazem parte do atual paradigma.

FORTEMENTE - Serve para cimentar opiniões quebradiças. Se você diz que Lula está fortemente implementando uma política externa independente, você mascara a realidade, pois a política externa independente faz parte do Brasil desde San Tiago Dantas, com antecedentes ilustres, como o Barão do Rio Branco, que aumentou o território nacional sem disparar sua cartucheira, apenas na base da negociação e da firmeza. Só que na época ninguém dizia que o velho Barão estava fortemente viabilizando o Brasil. Ele estava e pronto, sem advérbios.

FERRAMENTA – Não se trata de foice e martelo, nem de serra. Ferramenta é tudo o que brilha no escuro e serve para você dizer que se trata de uma ferramenta. O word, por exemplo, ou o Google. Também são ferramentas o just-in-time, a qualidade total, a terceirização, entre outros exemplares da tralha corporativa. Você pode estar na maior pindura, sem perspectivas, cheio de dívidas, mas se disser que usa as ferramentas adequadas talvez alguém acredite e te pague uns pilas por você estar tão up-to-date.

PERRENGUE E MARRENTO – Essa dupla siamesa já está em descendo na moda, mas pode ser citada como ferramenta para expressar o ar blasé de quem está por dentro. Se você, por exemplo, produz um filme com alguém marrento, dá o maior perrengue. E se você armar um perrengue vão fortemente te chamar de marrento. É simples.

POLÊMICO - Você pode cometer as maiores barbaridades, mas desde que tenha grana ou acesso ao cofre, o que dá mesma, você será um cara polêmico. Matou cinco revoltosos que protestavam contra as eleições fraudadas? Você é polêmico. Negou o holocausto, condena a existência de homossexuais e diz que seu programa nuclear é um trem sem freios? Polêmico, polêmico. Não é ditador, nem oportunista, nem psicopata. É um cara polêmico, entende? Colocou a bola com a mão para dentro do gol? Vai ser polêmico assim na final da copa de 98. E já vou avisando: Platini, nós vamos te pegar!

SINERGIA, CONVERGÊNCIA E PARADIGMA – Sinergia é o que acontece no apagão, quando todas as linhas de transmissão entram em colapso porque Tupã deu um traque na selva. Convergência é a identificação de propósitos e objetivos como acontece atualmente entre o Grêmio e o Flamengo. E paradigma é quando você não tem nada o que fazer e inventa um paradigma. É assim que funciona.

RETORNO - Imagem desta edição: o time do Grêmio em 1957, quando era outro o paradigma, e ninguém era marrento nem provocava perrengue. No centro, abaixado, o uruguaianense Gessi, que fez um monte de gols no estádio da Bombonera, entre outros feitos, o cracaço que virou dentista aos 26 anos e nunca mais jogou. Isso sim é que é ser polêmico.

24 de novembro de 2009

PARECE MENTIRA


Nei Duclós

As melhores histórias são as que fogem do rema-rema diário. O fabuloso existia em qualquer cidade, quando figuras populares encantavam platéias narrando aventuras que trafegavam entre o assombro e a gargalhada. Como aquela, mais tarde reunida em livro, do sujeito que afiou uma moeda de um cruzeiro numa pedra lisa, colocou-a num bodoque e lançou-a em direção a doze pombas que estavam postadas num só fio. Todas fora degoladas. Ninguém acreditava, mas todos escutavam até o fim.

Essa linhagem era muito considerada nos ermos do Brasil profundo. Os autores tinham nomes folclóricos. Conheci um Oscar Mentira, que matou um capincho a remadas na época de seca. Há o Candinho Bicharedo, imortal personagem de Urbano Lago Vilela, colecionador e criador de preciosidades. Hoje, quando todos batem no peito jurando dizer a verdade, nunca se mentiu tanto. Perdeu-se o visgo da ficção dos antigos contadores. Num lugar de longo inverno, fogão a lenha, gente amontoada em galpões ou acomodada em salas generosas regadas a chimarrão ou vinho, eles confortavam os ouvintes, dando-lhes guarida num mundo hostil e sem imaginação.

Recentemente perdemos um contador de “causos” de supremo talento, o cineasta maior Anselmo Duarte. Ficaram célebres suas histórias, difundidas primeiro no antigo Pasquim e depois em várias entrevistas. A que mais me emocionou foi quando, celebrado como o vencedor da Palma de Ouro de Cannes em 1962 pela sua obra-prima “O Pagador de Promessas”, ele foi levado aos estúdios da Universal em Hollywood. Lá encontrou, logo na entrada, servindo de porteiro, um antigo cineasta que no Brasil tinha lhe dado lições valiosas.

Antes de assinar contrato com os americanos, Anselmo Duarte exigiu que contratassem o velho guru como seu assistente. Os executivos ficaram chocados: como um gênio poderia ter sido aluno do porteiro do estúdio?

A história, absolutamente verdadeira, parece até mentira nos dias que correm, pois ninguém abre mão de uma carreira internacional só para prestar homenagem a um amigo. Só mesmo um brasileiro, o cidadão que tem na alma a grandeza dos heróis antigos, os que eram protagonistas de sagas que ficaram na memória dos povos. Eles eram a prova de que somos maiores do que as gavetas onde a mediocridade tenta nos enquadrar.


RETORNO – 1. (*) Crônica publicada nesta terça-feira, dia 24 de novembro de 2009, no caderno Variedades, do Diário Catarinense. Imagem de hoje: Anselmo Duarte e Ilka Soares, ao lado do então prefeito de Salto, Vicente Scivittaro, no dia da inauguração do Parque Infantil, 1º/05/1953 (arquivo pessoal de Ettore Liberalesso). Tirei daqui. Eu tinha a idade dessas crianças quje aparecem na foto e um dos meu ídolos era Anselmo Duarte.

23 de novembro de 2009

O JORNALISMO EDIFICANTE


Todos lembram como surgiu o jornalismo edificante. Com o bordão “isto é uma vergonha”, que de tão repetido, caiu no vazio. Tudo continuou uma vergonha e ficou por isso mesmo. Mas a ditadura precisa desse tom de ninar o Papa, desse lento caminhar ongueiro reportando bufunfas desviadas dos recursos públicos para cacifar a defesa das tartarugas, a importância fundamental da capoeira ou da sustentabilidade do mico leão dourado (se fosse mico leão negão não causava tanto frisson entre os gringos).

A tal sustentabilidade levou ontem Sting e Raoni a um show em São Paulo, onde todos aplaudiram a necessidade de salvar a Amazônia, que continua firme sendo desmatada. Aliás, para isso existem as campanhas, para manter ativa a devastação da selva, pois assim a destruição continua mas o público fica confortado pelas boas intenções das figuras carimbadas.

O tsk tsk tsk permanente de apresentadores e repórteres nos levam sempre para as imagens maquiadas das ruínas. O bairro está morto, sujo, podre, dá para ver em qualquer detalhe. Mas se o morador vestir uma camiseta com mensagem edificante, tudo se ilumina. As pessoas reunidas em frente às câmaras são flagradas mudas naquele instante que antecede a falsa reportagem. A uma ordem, todos então entoam em uníssono alguma coisa para ficar na História, manifestam sua alegria em ser pobre, de estar condenado mas assim mesmo resiste porque é brasileiro e não desiste nunca.

Mas como não se pode mal acostumar “essa gente” (que significa classes despossuídas), então chega a vez dos comentaristas ferozes do jornalismo edificante, os que babam simplesmente na gravata insurgindo-se contra o câncer ou os que usam o tom admoestador e advertinte catequista, que lembram a todos que a democracia é uma concessão que pode ser retirada se não se comportarem direito. Por enquanto vai algumas palmadas-frases, mas daqui a pouco vem chumbo grosso, cuidado.

Tudo isso acontece porque o monopólio não cede, a distribuição de renda é uma campanha publicitária e nada é feito pela nação aos pedaços. Vejam os marmanjos se rebentando no final do jogo, as crianças sendo mortas a tiros em brigas pífias de trânsito, os assassinos hediondos recebendo benefícios da justiça, as cadeias sem condições de higiene nem para porcos. Tudo isso convive ou é fruto de uma política que se arma para a grande disputa do butim federal em 2010, o vale-tudo da desfaçatez e da falta de escrúpulos, quando teremos a liberdade de escolher entre mal encarados mentirosos, corruptos sorridentes, idiotas destemperados e vagabundos fazendo pose de estadistas.

Esse ambiente hostil ao raciocínio, à sensibilidade, à cultura e à inteligência precisa do jornalismo edificante, que é seletivo e invasivo. Eles te olham bem fundo nas fuças e mentem deslavadamente ou expressam abobrinhas inomináveis embaladas no papel celofane da correção absoluta. Nenhuma migalha de realidade. O país afunda com qualquer chuva, os ventos varrem as cidades sem que nunca ninguém pense em como redirecionar os projetos de construção, como implantar políticas públicas de urbanização que leve em conta as novas manifestações da fúria do clima. Tudo fica ao deus dará, como se estivéssemos em terra de ninguém, onde prevalece o improviso e a incúria.

Mas não se desespere. Basta ligar a televisão ou abrir o jornal para ver os articulistas do Bem, os editorialistas do óbvio, as gracinhas dos direitos, os eventos étnicos e outros exemplares da tralha da idiotia que nos domina. Fazem de tudo para você se sentir à vontade enquanto a população consome comida industrial suspeita, eletrodomésticos de última categoria e móveis que se autodestroem no final da prestações. “Perdi tudo” diz a cidadania ferida de morte para seguradores de microfone do jornalismo edificante.

É verdade. Perdemos tudo, principalmente a capacidade de reagir a essa infâmia geral no país sem soberania.

RETORNO – Imagem de hoje, um exemplo de “sustentabilidade”, tirei daqui.