6 de novembro de 2009

OS VENCEDORES


Imagino que seria mais sincero na noite do Oscar anunciar assim: “E os perdedores são...” Seria justo com a maioria, aquela que fica com cara de sabão enquanto o ganhador faz estrepolias, pula como macaco, beija a Jennifer Lopez (tudo é possível nessa noite) e chega dançando o fox trot ao microfone, onde tartamudeia suas abobrinhas para o encanto fake da platéia, formada por um grande números de pessoas putas da cara, porque não estão lá no palco. Os vencedores seriam aclamados por eliminação, depois da cerimônia, numa festa íntima, para não chocar os que não levaram.

O Brasil está sendo celebrado como “player” internacional e, dizem, todos voltam os olhos assombrados para o fenômeno. Não consigo entender tanto entusiasmo. A não ser que tenham mudado os critérios. Tudo pode ser desde o momento em que os colégios incentivaram a compram de tridentes vermelhos. As estradas e cidades são pulverizadas pelas tormentas, as ruas inundam, as pessoas morrem aos milhares todos os dias, os assassinatos são uma indústria, a massa ataca os policiais que matam inocentes, as propinas correm soltas, o grevismo aparelha os serviços públicos contra a população e a favor da campanha eleitoral etc.

É um caso idêntico ao dos americanos, que declaram vitória quando perdem. O Brasil está igual: o país afunda, mas acenamos para o mundo dizendo: vencemos! O enigma é: por que eles acreditam? Será porque pagamos os juros obscenos que aumentam o rombo do país enquanto os atuais espertalhões se enchem de dólares?

Por uma estranha coincidência, os times que ocupavam liderança folgada no Brasileirão foram perdendo tudo, de uma hora para outra, permitindo que os adversários chegassem e os estádios continuassem cheios. É um esforço conjunto entre perdedores. Se já tivéssemos um campeão, e com a proximidade do verão, ninguém mais iria cheirar sovaco em estádio.

Por falar em verão, o calorão chegou e com ele o grande número de turistas por aqui. Para ser um vencedor neste verão, um player das areias, fique atento a três itens dos costumes locais. Se seguir direitinho as instruções, poderá fingir que é daqui.

HORÁRIO DE ALMOÇO - É a única religião fundamentalista da ilha. Não respeitar o horário do almoço é como negar a existência de Sarney no Maranhão. Funciona do meio dia às duas. Nesse intervalo sagrado de tempo, não pense em solicitar qualquer serviço ou tentar comprar qualquer coisa, até mesmo almoço. Pois, nos restaurantes, o horário de almoço é reservado para os garçons.

NADA EXISTE FORA DO GELO – Não tente comprar um refrigerante ou qualquer outra bebida que não esteja pelando no freezer. Nem sugira que possa haver alguma latinha ou pet perdidos no depósito, fora da temperatura estupidamente gelada. Também não invente de defender seu ponto de vista, de que possa existir algo fora dessa situação obrigatória. O conceito de temperatura ambiente não existe. O que não é hipergelado é, invariavelmente, “quente”. Se você insistir muito, eles te servem café. Que corre o risco de vir morno.

CORREIO SÓ PARA FORA - Jamais diga que vai colocar uma carta no correio para a pessoa que more na ilha. Trata-se de uma impossibilidade. Se você tem uma correspondência para a pessoa que se situa a 70 quilômetros da sua casa, mas dentro da cidade, então você tem que ir pessoalmente entregá-la. Não existe essa de colocar no correio, mesmo que você argumente que é mais prático, rápido e barato. Isso será encarado como ofensa sem perdão.

TOCAIA


Nei Duclós

Armar o bote na tarde
de olho na estrada
e na morte

Cercar a cidade sólida
e apontar em todas as portas

Engatilhar o corpo e a alma

Avançar, quando é água
Ficar, quando é terra
Recuar, só com ordens
de guerra

Repartir o mapa
da longa viagem
Marcar encontro
nas pedras

Fazer fogo na hora certa

RETORNO - 1. Poema do livro "No meio da rua (L&PM, 1979). 2. Imagem desta edição: foto de Daniel Duclós feita em Paris.

4 de novembro de 2009

OS FORMADORES DE OPINIÃO


Os formadores de opinião tem a opinião formada. Eles dispõem de uma fôrma (precisa acento diferencial), dessas de plástico, que imitam patinho, e com ela pressionam a areia várias vezes, para fazer uma sucessão de patinhos. Sai então todo mundo fazendo qüém-qüém (só funciona ressuscitando o trema). Por exemplo: a ditadura foi só militar, não civil, e já acabou. qüém-qüém . As torturas de presos filmadas em Santa Catarina é um absurdo numa democracia. qüém-qüém . Isso é inadmissível no Estado de Direito. qüém-qüém . Até vir nova evidência de que continuamos sob a tirania. Aí a coisa se repete. Pode ser com outra forma: a de cachorrinho, por exemplo. Saímos da crise e estamos crescendo (é o novo milagre econômico). Au, au.

Os formadores de opínião tem pânico da opinião alheia, porque isso os desemprega. Para que ser pago para formar opinião se todo mundo é opiniático e caga e anda para o que os outros dizem (a não ser os onomatopaicos reprodutores de sons emitidos pelos formadores de opinião)? Sabemos que toda opinião é desnecessária, pois ela serve aos partidos. Para um petista, não apenas o universo conhecido, como todos os outros universos paralelos, tudo se resume a uma palavra: Lula. Digam o que disseram, haja o que hajar, como dizia o outro, nada escapa à presença maciça, hegemônica, imperdível, inenarrável, eterna do presidente Lula. Não adianta espernear, criticar, falar qualquer coisa, mudar de assunto. Tudo volta ao Lula. É como nos drogados: nada importa a não ser aquilo.

Fora de Lula, é o tucanato. Quem procura uma alternativa fora do Lula cai no FHC, no Serra. Tudo se resume ao Serra, ao Alkmin, ao FHC e, até antes do tapa, ao Aécio. Porque os tucanos isso e os tucanos aquilo. Não importa PMDB, PV, PQP, tudo é PSDB, ou seu clone, o PT. Então, para que opinião, se o que importa é cafungar? Tente dizer qualquer coisa sobre qualquer assunto. Serás avaliado se isso impede ou não da Dilma chegar à presidência, se participas ou não da imprensa golpista. O mais legal dos formadores de opinião é que eles mudam de opinião conforme a música, ou a caixa registradora.

Depende de quem paga e o cliente sempre tem razão. Se o FHC contrata um formador de opinião, este será FHC até o final dos tempos, ou melhor, da verba. Quando a coisa aperta, ou seja, o poder muda de mãos e o formador de opinião fica sem a bufunfa para o leitinho com conhaque, então é a hora da independência. Vimos isso a toda hora. Depois de anos e anos servindo ao tucanato, o grande formador de opinião agora meio que atira para todo lado, pois está sem pouso. Sua vítima atualmente é a internet, essa coisa horrorosa em que todo mundo mete a colher.

Basta comparar os textículos dos articulistas da imprensa pátria bem nutrida com os milhares de textos de qualidade que podem ser acessados pela rede e que são produzidos no estrangeiro, para ver como somos tacanhos em nossa mesmice. Não temos espíritos verdadeiramente livres, os que escrevem sem ser pagos pelos podres poderes. Temos formadores de opinião, ligados a ongs, a partidos, a governos, a corporações. Na outra ponta, temos os anárquicos irresponsáveis, os que falam merda e se divertem e que não mudam nada, apenas contribuem para ficar tudo como está.

Qual a solução? Desmoralizar os patinhos, os cachorrinhos, os vampiros de almas. Quebrar as formas, libertar e habitar o espírito. Grrrrrrrr.

RETORNO - Imagem de hoje: peguei daqui.

3 de novembro de 2009

SER DAQUI


Nei Duclós (*)

“Você não é daqui?” é a pergunta recorrente que acompanha o adventício onde ele for. Ser daqui faz parte da natureza e a toda hora é preciso definir quem pertence a esse grupo homogêneo, dedicado a uma preocupação obsessiva pelo assunto. Mas descobri alguns segredos sobre o estranho costume. Uma pessoa confidenciou, em conversa no ônibus, que fingia ser daqui para evitar aborrecimentos. Não que sofresse hostilidades, mas estava cansada de dar explicações.

Um dia, notei que o famoso chiado de chaleira, acompanhado do erre gutural, que em tese definiria os cariocas, era no fundo exercido pelo pessoal de fora, que tinha a imagem errada sobre a pronúncia no Rio de Janeiro. Os nativos exerciam outro sotaque, mais sofisticado e musical, que só de longe se identificava com alguns aspectos do patuá alienígena inventado pelos que vinham de outros lugares, secos para adotarem a cidadania da então capital da República.

O fato é que esse enigma, o brasileiro, não pertence mais a lugar nenhum. A nação dividida em nichos, territórios fechados, celebrações regionalistas, não consegue mais ser sintetizada por sinais de unidade. A bandeira e a seleção de futebol são insuficientes para enfrentar a maré alta de orgulhos confinados em vivências tornadas familiares pelo excesso de devoção. A situação se intensifica com a evidência cada vez maior dos males que assolam o país, da corrupção à violência. É como declarar independência de uma reserva, que pule por cima da capital nacional e entre em contato direto com outras nacionalidades.

Isso aconteceu na época em que o regime após a Revolução do Porto de 1820 quis destruir o Reino Unido, que tinha como capital uma cidade fora de Portugal, o Rio de Janeiro. Os novos senhores fizeram com que os representantes provinciais se reportassem diretamente a Lisboa. Contra isso se fez uma guerra de três anos, de 1821 a 1823. Guerra que caiu no esquecimento, pois é preciso provar que os brasileiros são um povo que não lutou para ser livre e por isso merece ser esquecido dentro de suas fronteiras.

Quando me perguntam se não sou daqui, respondo invariavelmente que sou, como cidadão brasileiro. Mas isso não convence. Basta abrir a boca para ficar explícito: sou de lá, “do sudoeste onde o Brasil termina”, como diz o velho poema.

RETORNO - 1. (*) Crônica publicada nesta terça-feira, 3 de novembro de 2009, no caderno Variedades, do Diário Catarinense. 2. Imagem de hoje: passeio na velha ponte Hercílio Luz, no tempo em que todos os habitantes da ilha eram "daqui".

ANGÚSTIA


Nei Duclós

Angústia
Como deixá-la na jaula
Como pedir ajuda
Quando a beleza falha?

Angústia
Como escapar das suas garras?

Esperar um sinal, um assalto
Ou cavocá-lo no meio do barro?
Pedir que o nada te fale
Ou torturá-lo?

Ou melhor seria calar-me
Com esta faca no espaço
Entre minha dor e a linguagem?


RETORNO - 1. Poema do livro No Meio da Rua (L&PM, 1979).2. Foto de Sergei Prokudin-Gorski.

FLERTE


Nei Duclós

Sei que não mereço
Mas ao te olhar
Emagreço

Imagino o teu desprezo
Mas nada pesa
O desejo

O coração ainda é o mesmo
Flutua quando estás
Perto

Se me perguntas por quê
Em vez de correr
Escrevo

É para não mais te perder
Minha quarta folha
De trevo

1 de novembro de 2009

WOODY ALLEN: FILTRO DE AREIA EM BARCELONA


Woody Allen não filma roteiros, ele escreve filmes. É um novelista de costumes, que usa a câmara como teclado. Conta uma história, baseado na sua paixão: o cinema clássico dos Estados Unidos, feito em sua maioria por europeus emigrados, que abordavam a elite para o encanto das massas sob a depressão econômica dos anos 30. Seu tema são os conflitos pessoais de uma coletividade intelectualizada e rica, um universo que não está disponível facilmente, a não ser que você faça parte dele. Talvez nem exista como é mostrado. Mas é verossímel e isso basta.

Em Vicky Cristina Barcelona, de 2008, ele apresenta um roteiro turístico de verão da Espanha de consumo, quente, romântica, sedutora, franca, anárquica, para a pseudo vanguarda ainda puritana da América. O problema não são os clichês, mas o que você faz com eles. Allen compõe sua trama com uma série de lugares comuns, como a ménage a trois estimulada pelo garanhão latino, a insatisfação das mulheres casadas em busca de aventuras, a arte como insumo para a intelectualidade vazia e superficial ou o talento perdido e desperdiçado pelo excesso de narcisismo.

Nas mãos de outro diretor, seria um a sucessão de clipes e não uma novela de costumes do século 21. A elite encarna os conflitos universais porque pode, tem dinheiro e tempo para cuidar disso, não está envolvida absurdamente na luta pela sobrevivência. Sobra energia para redirecionar rumos, arriscar relacionamentos, voltar atrás, subir num avião na madrugada em direção ao desconhecido só para ver o que vai dar. É como um conto de fadas pós-moderno, em que os sonhos são provados na realidade e acabam exaurindo os protagonistas pelo mesmo tipo de vazio que faz parte da civilização. Só que essa pretensão não está cercada de pompa.

Por filmar como escreve, Allen proporciona um lazer bizarro, pois no fundo ele trata do sofrimento, mesmo que aparentemente tudo conflua para o coquetismo e a risada inteligente. A inteligência em Woody Allen não é um arabesco, um fricote, uma ostentação, mas sua denúncia. Sua profundidade vem do distanciamento que essa abordagem provoca. O perigo é que, ao enxergar o que Allen critica, o espectador possa confundi-lo com seu objeto narrativo. Parece que Woody Allen está na balada, quando permanece na sua tradicional visão corrosiva dos fatos. Uma corrosão que, em Barcelona, é representada pelo filtro fosco e arenoso que dá o tom de todo o filme, como se o vento do deserto tivesse recém soprado sobre a aparência novaiorquina dos personagens envolvidos com as tentações hispânicas.

O filtro é sua forma de ambientar o filme num passado inexistente, como se ele quisesse ser realmente visto daqui a cem anos. Quando houver nostalgia da nossa época, Allen será (imagina ele) o favorito cult que captou como ninguém a humanidade envolvida nas suas querelas de sempre. Talvez nem lembrarão que Allen, como queria Borges, inventou seus predecessores e que seu cinema faz parte das obras maravilhosas do início, quando os filmes começaram a falar. Filmes da sua infância, que jamais abandonou.

Aqui, Barcelona é o Rio, destino final das aventuras que empurravam os personagens para grandes enrascadas e só fugindo para um lugar quente para resolvê-los. É como se Greta Garbo, Clark Gable, Gary Cooper, entre tantos outros, viajassem para o sol da Espanha no início e não no fim do filme. Lá, eles desfrutam do tesouro acumulado, mas a surpresa é que o paraíso também aperta as tenazes nas vidas humanas jamais saciadas.

RETORNO - Imagem desta edição: Javier Barden, Penelope Cruz e Scarlet Joahansson diante de Woody Alen nas filmagens de Vicky Cristina Barcelona.

DILLINGER, O SURRADO CHARME DO PSICOPATA


Privilégio é crime (“toda propriedade é um roubo”, segundo Proudhon). O objetivo do crime é ter acesso ao privilégio (“meu cartão de crédito é uma navalha”, segundo Cazuza). Essa é a fonte do carisma dos criminosos, herdeiros de Robin Hood, mesmo que roubem para si e não para distribuir, como fazia o lendário bandido. Quando privilégio e seu acesso se tornam mais escassos – numa grande depressão, por exemplo – a criminalidade é uma das poucas possibilidades de se chegar ao topo (ou pelo menos, assim pensam os criminosos e seus admiradores).

Quando o marginal pertence às classes subalternas, não há novidade, faz parte da “natureza” das coisas. Mas se, como John Dillinger, é de classe média e tem o sorriso cool dos galãs de cinema, algo muda. Dillinger foi um dos primeiros ladrões inventados pela mass media. Ele estava no miolo de uma briga de comunicação. O ascendente FBI e seu líder, Edgar Hoover, queriam ganhar a batalha na rádio e nos jornais. Mas os jornais criaram seu avesso, o sujeito que fugia da prisão, não roubava correntistas, apenas banqueiros e se movia rápido como numa seqüência cinematográfica.

Dillinger alimentou o mito do bandido charmoso, uma linhagem que vem de Clark Gable em Manhatan Serenade (anos 30) e passa por Bonnie and Clyde (anos 70), de Arthur Penn. Mas basta ver suas fotos para notar que o sorrisinho maroto contrastava com os olhos do psicopata facinoroso, o olhar sampacu dos indiferentes. Dillinger matou sete pessoas e é celebrado como herói no filme de Michael Man, Inimigos Públicos,que usa mal todos os clichês do gênero e ainda chupa um filme famoso para fazer seu grand finale.

O filme famoso é Isadora, de Karel Reisz, de 1968, com Vanessa Redgrave, em que a grande dançarina, ao se enforcar na sua echarpe nas rodas de um irresistível carro esportivo de luxo da marca Bugatti, morre ao som de Bye bye blackbird (música de 1926 de Ray Henderson, com letra de Mort Dixon). É a mesma canção que encerra Inimigos Públicos, num close demorado no rosto parado da namorada de Dillinger. Como em Isadora, com o rosto em pânico de Vanessa embalado pelas notas de Blackbird (traduzido por graúna). Os cineastas acham que nós não lembramos dessas coisas? Ou sabem disso e nem dão bola?

Dillinger é apresentado por um fraco Johnny Depp como o machão sem igual, líder e durão, que conquista a moça na base da porrada, colocando-a contra a parede e socando quem se atravessa no caminho do seu desejo. O filme justifica a violência dizendo que ele perdeu a mãe aos três anos de idade e não tinha acesso ao que mais queria, dinheiro, poder e mulher. Isso não justifica nada. O cara era bandido e não merece o trato desse cineminha comercial no pior sentido, o de não arriscar nada e assim tentar atrair a simpatia do público.

A verdade é que deu para a bola com esses assassinos frios apresentados como seres humanos que merecem nossa consideração. O truque é sempre mostrar alguma deficiência desse herói fajuto, para humanizá-lo. O pistoleiro que não sabe nadar (Robert Redford em Sundance Kid), que é manco (Warren Beatty em Bonnie and Clyde) ou é simplesmente patético e bronco como o velho James Cagney são maneiras de dizer como são fofos. Merecem cadeia eterna, por mais que tenham sofrido injustiças ou tenham levado surras de policiais e políticos tão bandidos quanto eles. O antídoto do mal (o poder) não é o charme dos robin hoods, os que fazem justiça por conta própria, mas a própria Justiça, quando funciona.

Mas seria pedir demais da indústria de entretenimento, que enterra milhões numa porcaria e precisa da simpatia da crítica oficial. Eu acho um fiasco. Um milhão de vezes Paul Newman em Cool Hand Luke, num personagem que não era assassino, tendo sofrido mais do que dez Dillingers. Tribunais, cadeias, investigações: é preciso que haja ética na sociedade para julgar e manter o perigo à distância. Mas sabemos em que nível estamos. No meio de uma fábrica de facínoras.

RETORNO - Imagem de hoje: o verdadeiro Dillinger e Johnny Depp, que imita bem o sorriso mas dança ao não reproduzir a brutalidade do olhar.

31 de outubro de 2009

A VÉSPERA DE TODOS OS SANTOS


O Brasil importou a festa de Haloween dos americanos, que ganharam de presente dos imigrantes irlandeses, que por sua vez herdaram dos ritos pagão, celtas, sei lá (a noite dos tempos é quando as lendas rezam e todos se perdem). É comemorada no dia 31 de outubro. O nome vem All Hallows Eve (de evening), ou Véspera de Todos os Santos, que nos tempos idos do Brasil católico era feriadaço (desta vez cai no domingo). A Igreja católica usou rituais e templos de outros povos e crenças para implantar sua doutrina. No Brasil, esta era uma época de contenção e concentração, mas agora virou balada.

Vi várias crianças com os chifrinhos do dito-cujo. Garotas vestidas de bruxas. Tridentes, capas vermelhas e tudo mais. Aos poucos, a data vai se firmando, impulsionada pelo ambiente favorável às representações do Mal. Não que a festa seja pecado. Este, está por toda a parte. Mas a banalização das transgressões não beneficia o convívio social. O Bem, como se sabe, é essa coisa babaca que todos fogem. O certo é passar rasteira, tungar o próximo, atropelar no trânsito, matar a esmo, roubar bastante, fazer todo tipo de crueldade. A inocência é estimulada a achar que o Mal é legal (o traficante viril, o ladrão gentil, o espertalhão boa praça) pois no fundo a inocência está sendo solenemente erradicada. Ferrar literalmente o próximo, sugar seu sangue com dentes pontiagudos, fervê-lo em caldeirões, eis a mensagem do Haloween.

Faz sentido. Basta consultor o noticiário. Jovem de 14 anos baleia um de onze. Menina de onze esfaqueia a amiga de oito anos. Garoto de 14 anos é chefe de boca do tráfico em São Paulo. Professores levam o maior pau dos alunos. Lembro bem quando começou todo esse troço. Quem ia à Igreja era ridicularizado. Comungar era coisa de bobalhão. Confessar para o padre, então, piada certa. Com a onda de denúncias comprovadas sobre pedofilia na Igreja Católica, a desmoralização chegou ao auge. O certo é condenar o catolicismo ao inferno e pregar um novo paraíso, que, descobrimos agora, é o emprego garantido para quem é do partido. Ou então, elevar as trevas como o novo passaporte para a felicidade.

Ficou fácil, pois quem defende a tradição costuma babar na gravata. Leio ainda textos de extrema direita falando mal de Cuba, como se fosse justo julgar o regime cubano cercado pelo império, boicotado economicamente, perseguido de todas as formas. Isso não significa inocentar a ilha de Fidel, mas não se pode cuspir em alguém que está todo amarrado. O problema é que o exemplo de Cuba serve para a nova safra de caudilhetes latino-americanos, que se perpetuam no poder por meio da farsa democrática. Chavez obrigando todo mundo a se vestir de vermelho e tiranizando cada vez mais seu país me parece uma festa de Haloween permanente, o ano todo.

É complicado falar nisso porque o oposto, aparentemente, é o puritanismo, a outra face do Mal. Não acredito que vida espiritual seja exclusividade do fundamentalismo, tanto da direita quanto da esquerda. Não que o ideal seja uma devoção de centro, de tolerância para com os extremos. A religiosidade , como parte das realidade culturais, não deve interferir na prática política. Não se deve exigir que o político pape hóstia, mas também que não se comporte como um belzebu. Não se pode querer que a juventude assista a missa, mas também não precisa empurrá-la para a bunda arrebitada do hip-hop, a consagração da droga nos baticuns da transgressão, ou os chifrinhos vermelhos no final de outubro desde a infância.

Ok, o carnaval. Quando eu era moço, participava do cordão da gloriosa escola Os Rouxinóis, de Uruguaiana. Ia junto com a massa, embalado pela mais bela bateria de todos os tempos. Não era, como vemos hoje na TV, a exibição da celulite e da exposição das celebridades globais. Ou, como acontecia um tempo atrás, o congraçamento dos bicheiros, quando eles tinham poder. O carnaval era fantasia de trapos, máscara feita em casa, lança-perfume argentino (que, descobri depois, era usado para cheirar, dar barato; enquanto nós, as crianças, usávamos porque era perfumado e divertido, jamais acertávamos o olho de alguém).

Ouçam as antigas marchinhas, vejam aquelas fotos antigas. Sim, tinha fantasia de diabos e tudo mais, era um tempo de descompressão social, de desmascaramento dos poderes. Foi tratado como alienação e depois caiu na vala comum da tirania do comércio e da repressão sexual. Pois num país tão sexy, como disse recentemente o dono do Twitter, como pode um monte de marmanjos estudantes quase lincharem uma garota que usou vestido tubinho vermelho mini na escola? É atraso de vida, é espírito medieval de grupo, é caça às bruxas. É o que dá transformar sexo em mercadoria, eliminar a inocência, incentivar a baixaria. Vamos para trás, enquanto a publicidade oficial baba no colarinho da verba pública.

Se a garota do vestido vermelho queria celebrar o Haloween, viu onde estava metida: a farsa do Mal cercou-a aos berros, porque não há parâmetros diversos aos que estão sendo implantados. Num território hostil, a festa bruxólica também dança para a maldade pura e simples. No fundo, não importa bruxa ou fada. O que pega é a bandidagem, exposta em todos os espíritos.

RETORNO - Imagem desta edição: Bordadeiras, foto de 1979 do Mestre Walter Firmo.

30 de outubro de 2009

FROST/NIXON: A PAUTA IMPROVÁVEL


Atualidade absoluta: os americanos fazem um filme que resgata os crimes de Nixon, com o objetivo de acusar a gestão Bush, mas está sob medida para o Brasil. Temos casos idênticos, como Collor, que também renunciou à presidência para escapar de ser deposto, ou Lula, que também nada sabia sobre o que faziam seus assessores. Só essas sintonias já justificam tratar como obrigatório o filme Frost/ Nixon (2008), de Ron Howard, baseado em peça do mesmo nome de Peter Morgan e que recebeu cinco indicações para Oscar (Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator - Frank Langella, no papel do ex-presidente -, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Montagem).

A pauta era improvável, já que ninguém queria saber de Nixon a não ser que fizesse um mea culpa em público. As grandes figuras carimbadas do jornalismo americano não queriam pagar esse mico, arriscar sua credibilidade caindo nas armadilhas de Nixon, que poderia sair fortalecido do embate. Talvez, e nisso acreditavam os que tinham muito a perder na mídia americana, em vez de ser destruído publicamente num balanço da sua presidência, o ex-presidente poderia recuperar espaço e fazer um retorno humilhante para seus adversários, como aconteceu aqui depois dos grandes escândalos, quando vimos antigos acusados gargalhando juntos nos palácios republicanos.

O desastre quase aconteceu para o jornalista britânico David Frost e sua brava equipe. Mas lá existe imprensa, opinião pública, preparo, fôlego. Os Estados Unidos são outra coisa. Não quer dizer que foi uma tarefa fácil. A seriedade, a responsabilidade, a coragem encontraram dificuldades. Pois a entrevista, para a televisão, de 12 horas que Frost fez com o ex-presidente em 1977, cinco anos depois da sua renúncia em função do escândalo de Watergate, tinha tudo para dar errado.

O entrevistador não era do ramo, acreditavam, já que amargava um exílio na Austrália, fazendo show de entretenimento depois de meteórica passagem por Nova York. Enquanto Nixon era considerado do ramo, tinha manha televisiva, e iria esmagá-lo. Esqueceram que a especialidade do jornalista é o jornalismo, não a política ou qualquer outro assunto. E que um político, em frente as câmaras, por mais experiente e vivo que seja, sempre será uma fonte, jamais um jornalista, que no seu meio está em vantagem.

O filme foi concebido como uma luta de boxe, decisão do título de campeão dos peso pesados. As equipes jogavam a toalha, interrompiam, falavam na cara do lutador na hora do intervalo. Os contendores escutavam, recuperavam o fôlego, se preparavam para mais um round. O estudo detalhado das fitas gravadas do caso Watergate, a pesquisa minuciosa, a elaboração exaustiva de cada pergunta, o exercício de dramaturgia que tentava adivinhar o que o adversário iria dizer, fazem do filme uma sucessão de golpes com o único objetivo de destruir o adversário.

Os dois personagens principais se superam na briga. Nixon, que vinha de uma derrota absoluta, a condenação geral da nação e amargava um isolamento que o deixava exasperado, começa a ganhar pontos nas primeiras horas de entrevista, quase levando o entrevistador a nocaute. Foi um detalhe importante, conseguido pelo pesquisador interpretado pelo excelente Sam Rockwell, autor de quatro livros sobre Nixon, que descobriu a prova do crime. Ou seja, de que o presidente sabia da invasão do prédio onde funcionava o Partido Democrata e que tentou obstruir a justiça por meio do suborno das testemunhas.

Isso foi fatal para virar o jogo. De cara no chão, o entrevistado confessa que errou, mas se recusa a pedir desculpas e a se humilhar. Arrosta toda a responsabilidade e exibe, no final, o rosto demolido de sua grande derrota, que era o que a população queria ver. O sucesso da entrevista foi tremendo. Enriqueceu os poucos investidores que ajudaram a cacifar os 600 mil dólares de custo, cobrados por Nixon para falar. E devolveu Frost para o centro do mundo. Hoje ele continua em destaque em Londres, onde é Sir.

Grandes atores em cena nos mantém em atenção constante ao longo da narrativa. Além de Langella, soberbo, há Mike Sheen no papel de Frost (ele tem um ar de Tom Cruise). E além de Sam Rockwell, há Oliver Platt, hilário na equipe de Frost, e Kevin Bacon, no papel de um oficial da Marinha e confidente de Nixon.

Frost/Nixon: ver para aprender como se faz. Mais do que obrigatório, antológico.

RETORNO - Imagem desta edição: Mike Sheen (Frost) e Frank Langella (Nixon): quem vai a nocaute?

29 de outubro de 2009

TÊNIS, REFRIGERANTE E SABÃO EM PÓ NA CABEÇA


O Data Folha acha que a mente das pessoas se ocupa de marcas notórias. Para isso faz todo ano o Top of Mind, destaque na edição de hoje do jornalão. Coca-cola, Omo e Nike são os tesouros mentais da população à mercê do massacre publicitário. Se a mesma grana preta fosse carreada para a cultura, as cabeças estariam envolvidas com Alejo Carpentier, por exemplo, que em livros como O reino deste mundo e Os passos perdidos nos deslumbra com sua capacidade de colocar cada palavra no lugar exato, em textos deslumbrantes, e com isso transformar nosso espírito pela magnitude da sua arte.

Mas cultura no universo do Top of Mind (que deve significar Topo da Mente, não sei, sou monoglota) é o celebrado poeta Arnaldo Antunes (marca notória do imaginário imposto pela indústria cultural) contratado para dar pulinhos no palco envergando um terninho, além da agora onipresente Fernanda Lima para fazer as apresentações dos responsáveis pelo grande feito de colocar tênis, refrigerante e sabão em pó goela abaixo da população sem defesa. Quanto custa um evento desses? E por que vão de pessoa em pessoa fazendo o inventário dos resíduos que a publicidade deixa no povo, quando deveriam se preocupar com cultura e não com os efeitos sinistros das práticas de Pavlov, o inventor do reflexo condicionado?

Vou falar sobre as marcas premiadas. Antes aviso que, como é proibido dizer qualquer coisa contra elas (por força da ditadura não declarada em que vivemos), fiquei sabendo disso por terceiros e não revelo as fontes. Coca-cola é o purgante que todos conhecem. Faz mal à saúde, é um torpedo de calorias composto por elementos desconhecidos, muito bem guardados por fórmula secreta, já que ninguém pode descobrir o que realmente tem dentro. Possuía algum charme quando vinha em garrafas especialmente desenhadas, mas agora, com os horrendos pets rombudos, não passa de um licor brabo que, dizem, vicia.

O sabão Omo é caríssimo, talvez a mais cara marca na praça. Paga-se os tubos para jogá-lo pelo ralo. É um case famoso de condicionamento. A letra O repetida no início e no fim representa os olhos grandes da mãe coruja. Omo é um sigla de Old Mother Owl, a velha mamãezinha americana. O tênis Nike, com a pirataria, pode ser encontrado em qualquer esquina, mas quem garante a autenticidade? E todo mundo lembra o Michael Moore desmascarando o executivo da Nike que contratava baratinho mão-de-obra no Terceiro Mundo. Mas não importa. O que vale é que estão investindo na “qualidade da marca”, como disseram os sujeitos com cara de porquinho Chon-Chon que dão entrevista sobre o assunto.

Aos 61 anos, completados hoje, dia 29 de outubro, noto que, com o tempo, aumenta minha capacidade de distribuir cascudos. Não se trata da ranzinzice de quem ultrapassa as seis décadas de vida. É simplesmente o senso de justiça que se aguça, o conhecimento acumulado, a percepção mais afiada, a despedida em todos os sentidos, pois já perdemos a esperança de que nos aceitem, já que nunca aceitaram, por mais que te batam nas costas e digam que você é o cara. O que vale é a amizade sincera, a admiração agradecida, a convivência pacífica e o trato civilizado. Não são raros na nossa vida, pois somos maioria, só não estamos no poder.

O poder foi empalmado pela má-fé, a burrice, o cinismo e a barbárie. Ficamos isolados, em nossos vastos latifúndios de gratidão mútua, quando nos identificamos pelo gesto solidário, as brigas fraternas eventuais e passageiras, os abraços profundos e as palavras que nos embalam, estimulam, habitam e confortam. Muito obrigado a todos pela leitura atenta, pelos comentários e por tantos votos de continuar na luta. Somos nós, o horizonte.

28 de outubro de 2009

O HEROISMO EM “OS FALSÁRIOS”


Herói é aquele que abre mão do heroísmo, mas não da sua humanidade. Uma essência indestrutível apesar do horror e que, no final, contrariando as aparências e as evidências, o devolve à ação solidária e ética que o redime. O herói não aparece e compartilha sua glória em segredo com alguém muito próximo. Vimos isso no clássico Casablanca, em que Ricky é o mercenário sem coração que acaba fazendo o gesto supremo de abrir mão do seu grande amor em favor de alguém que ele não conhecia, mas que merecia escapar. Vemos isso no artista judeu de Os Falsários, do austríaco Stefan Ruzowitzky, que ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro em 2008.

Mas não é tão simples assim. Salomon Sorowitsch (ou Sally, interpretado por Karl Markovics ) é convocado pelos nazistas, que o fizeram prisioneiro, para falsificar libras e dólares e assim ajudar a financiar a guerra dos alemães, além de tentar desestabilizar a economia dos aliados. Ele se submete para sobreviver e com isso ajuda todos os seus companheiros, que compartilham da confecção das notas falsas. Seu oposto é Adolfo Burger (August Diehl) personagem inspirado no autor do livro, de onde foi tirado o roteiro e que virou consultor das filmagens.

Burger é o protótipo do herói consciente e explícito, reconhecido como tal, que boicota a confecção do dinheiro por questão de princípios. Não se submete, mas isso ameaça todo o projeto e em conseqüência a vida dos companheiros. Quem é o herói? Burger, que com sua ação acabou prejudicando os nazistas, que não conseguiram inundar de dólares a economia de guerra? Ou Sally, que conseguiu chegar aos objetivos do programa e assim manteve todos vivos? Para quem toma conhecimento da história no final, quando os aliados chegaram, sem dúvida que é Burger. Sally se afasta e vai amargar sua solidão em Monte Carlo.

O dinheiro falso que leva consigo é arriscado, ou melhor, jogado fora integralmente na roleta. Assim ele recupera sua humanidade perdida, depois de anos sob o jugo dos carrascos e tendo que fazer o jogo deles. Lembra até o pequeno grande poema de Manuel Bandeira, que aponta para a única solução do irremediável: dançar um tango argentino. É o que Sally faz, com uma prostituta que se encanta com seu desprendimento, depois de ser atraída pelo dinheiro falso. Sally é um artista, que no lugar de fazer arte para ganhar dinheiro, preferiu fazer dinheiro diretamente.

Essa era sua ocupação antes da guerra e por isso foi preso. O mesmo policial que o prendeu, Friedrich Herzog (Devid Striesow), acaba localizando o especialista entre os campos de concentração e o convoca para o projeto. Herzog é o retrato da indiferença criminosa, a mesma que temos no Brasil, em que milhões de pessoas vivem sob o terror, dentro e fora das prisões, enquanto perdemos tempo com futilidades. A esposa do carrasco, que vive numa casa enorme e confortável com o marido e os três filhos, é um poço ridículo de preconceitos. A carnificina não a atinge, ela que vive cercada pelo luxo e mergulhada na alienação e na inconsciência. Seu cinismo é revelador e atualíssimo.

“Os falsários” foi celebrado como um filme inovador sobre a Segunda Guerra, pois mostra um tema nunca explorado até agora e não perde tempo com crueldades inúteis. A brutalidade é humana e chega no seu grau mais intenso no nazismo. Mas faz parte de todos. Os próprios prisioneiros, que não experimentaram as regalias do grupo de falsificadores, queria matá-los, achando que eram nazistas. O que os salvou foram os braços marcados por todos os que passaram por Auschwitz. Pela primeira, vez, aqueles números sinistros serviram para salvar vidas.

Não há heróis, dirão. Certamente que há. Mas o heroísmo não é a cerimônia com fanfarras. É antes a semente imortal da criatura que se recusa a passar impunemente pela terra. Deixa sua marca no coração dos contemporâneos, mesmo que esses nem se dêem conta do bem que foi praticado em seus nomes.

Como Ricky/Bogart, que explica para a amada os motivos da sua renúncia e por isso emociona, pela grandeza do gesto, assim também o personagem interpretado por John Wayne em "O Homem que matou o facínora", de John Ford, que mata o vilão, mas deixa o crédito para o seu amigo. Só quando ele morre é que emerge o herói oculto com toda a sua integridade. O heroismo de Sally, como o de Bogart e Wayne, pauta-se pelo exemplo, não pelas medalhas.

RETORNO - Imagem desta edição: Karl Markovics desenha a representação do falso heroismo nazista para conseguir sobreviver.

27 de outubro de 2009

RÉQUIEM PARA O JORNALISMO IMPRESSO


State of Play pode ser traduzido por “a situação atual”. É o que pretende mostrar o filme com esse nome (aqui, Intrigas de Estado), baseado numa série da TV inglesa, mas que foi totalmente adaptada. A trama fica um pouco confusa, com alguns pontos cegos, mas isso não importa. Eu não tenho muita paciência para seguir os detalhes das intrincadas conexões da espionagem ou da corrupção, mas desta vez os gringos me dão razão, pois há algumas ocorrências na rede dizendo exatamente isso, que nem sempre as coisas ficam claras no que é apresentado.

Prefiro ver State of play por aquilo que seu diretor Kevin McDonald definiu no making off: um réquiem para o jornalismo impresso, representada pela sequência final, quando máquinas pesadas de uma realidade analógica imprimem enfim a edição definitiva que traz toda a trama decifrada. A história gira em torno da privatização da segurança dentro dos Estados Unidos, denunciando o que já temos entre nós: um exército privado movimentando muito dinheiro. Uma corporação desse ramo está sob investigação e começa a ocorrer uma série de assassinatos aparentemente sem relação um com o outro.

É um bom filme, se for visto assim como um thriller a que Hollywood está acostumado a fazer. Mas fica melhor se o virmos como uma reflexão sobre o atual estágio do jornalismo, em que os grandes jornais e os grandes jornalistas, apesar de necessários e fundamentais para a democracia, estão morrendo, aparentemente engolidos pela revolução digital, mas no fundo sucateados pela ditadura financeira global, que tem horror à concorrência e às denúncias. O filme mostra uma redação tomada por computadores, mas ao mesmo tempo soterrada de papel e de bagunça. É um ambiente de trabalho que ainda não assumiu a atual assepsia das redações brasileiras e mantém aquele clima saudável do bom e velho jornalismo.

O Washington Globe, o veículo fictício, está sob pressão de novos proprietários, que querem lucros, o fim do jornalão de qualidade, mas deficitário. Para faturar, é preciso ser rápido e centrar na fofoca. Contra essa tendência luta o repórter interpretado pelo excelente Russel Crowe, um cara que sempre gosto de ver atuando, pela força que imprime em seus personagens. Talvez seja hoje o único ator que define um caminhar próprio, como fizeram John Wayne e Robert Mitchum. Crowe anda do mesmo jeito, seja repórter ou o matemático pirado de Mente Brilhante. Pés para dentro, meio curvado, apressado, meio torto. Muito bom.

Esse personagem, o repórter investigativo bagunçado, tem seu paradigma em Dustin Hoffman, do clássico Todos os homens do presidente. E boas relações com outros tipos inesquecíveis como Clint Eastwood no filme que luta contra a direção do jornal para livrar um condenado à pena de morte. Em State of Play, Crowe é daqueles antigos do “parem as máquinas”, que faz ironias com a blogueira que, segundo a editora (Helen Mirren, ótima) prduz uma matéria por hora. Está formada a dupla de ataque, o grande repórter e a foca do noticiário superficial. A segunda aprende com o primeiro e vê como fiscalizar, pesquisar, informar, tudo junto, mentir quando necessário para chegar ao objetivo, fazer concorrência com os investigadores policiais, tudo o que uma boa reportagem exige em meio a perseguições, tiroteios e diálogos pesados.

“Sou jornalista, não publicitário”, diz Crowe para sua editora. "Tem gente que ainda confia no jornalista que arrisca a vida para dizer a verdade". Eis o que passa o filme que mostra a necessidade de existir todas as formas de comunicação, tanto o jornalismo online quanto o impresso e que é preciso, para termos democracia, existir grandes jornalistas, assim como grandes juristas e grandes políticos. No Brasil, houve época em que tivemos tudo isso. Tínhamos Tarso de Castro e Barbosa Lima Sobrinho, tínhamos Darcy Ribeiro e Teotônio Villella, tínhamos Raymundo Faoro e Sobral Pinto. Em que espelho deixamos perdidos nossa face? como diria Cecília Meireles.

O repórter que asssina sua matéria fundamental depois de colocar a assinatura da foca, esse cara ético que consegue sobrepor a vocação e o ofício acima dos interesses pessoais e da amizade, esse é o cara que encerra o expediente sob o olhar admirado dos seus pares. Não há glória maior nesta profissão que nada nos dá, a não ser a sensação do dever cumprido, quando fazemos jus às responsabilidades num tempo de guerra.

RETORNO - 1. Imagem de hoje: Russel Crowe em State of Play. Ele contracena com Ben Affleck, Jason Bateman, Rachel McAdams, Robin Wright Penn, Jeff Daniels, além da citada Helen Mirren.

2. A propósito: Observatório da Imprensa entrevista Joshua Bento. Trecho:

"O.I. - Você acredita que o jornalismo em outras plataformas (impresso, tevê, rádio) migrará totalmente para a web?

J.B. – Tudo vai mudar. Veja o exemplo do rádio: se você voltar no tempo uns 60 ou 70 anos, o rádio ocupava lugar expressivo na veiculação de notícias em todo o mundo. Em seguida veio a tevê, mas o rádio não sumiu, ele apenas se adaptou. Tevê, rádio e jornais impressos sobreviverão, mas terão que mudar. Eu não acho que os jornais estão indo embora. Talvez não sejam mais produzidos em massa, talvez se dirijam a um público mais focado, talvez sejam mais analíticos, talvez circulem apenas três vezes por semana em vez de serem diários."

HÁBITOS DE GUERRA


Nei Duclós

Trazemos do berço a tendência para a liberdade. Os hábitos de guerra são adquiridos no entorno da bala perdida. A vocação é o passeio, mas nos fechamos em casa. Queremos conversar, mas é melhor ficar quieto. Assim acontece com os textos. A natureza da crônica é o pássaro no quintal, a memória, as viagens. Mas acabamos abordando o trânsito, a violência, a inflação. Contrariamos assim a essência das coisas, porque nos submetemos ao território conflagrado.

Aprendemos a driblar conflitos nas rotinas. Brigar é fácil , enquanto o cumprimento desinteressado é a exceção. Quando recebemos aceno amigável de desconhecidos, parece que acordamos de um pesadelo. As relações humanas voláteis são geradas pela indústria dos eventos, os casamentos provisórios, as migrações forçadas, a solidão econômica, a impossibilidade do amor. Assim nos transformamos em indiferentes agrupamentos humanos, escravizados pelo ambiente hostil.

A barra pesada gera seu aparente antídoto. Virou moda marginalizar o pessimismo, fazer campanhas do sorriso fácil, relevar a brutalidade, achar que estamos exagerando. Pela necessidade de sobrevivência, transcendemos o olhar diante das estatísticas. Assassinatos em massa durante décadas são tratados como exceções. O roubo generalizado, da casa de luxo ao pequeno comércio, o assalto ao bolso tanto do ambulante quanto do milionário, revelam que o mal se espalhou em rede pelo tecido social, mas é inútil exasperar-se com isso. Está por fora.

O certo seria repetir alguns jargões adotados como animaizinhos de estimação. O clássico é o “não tem nenhuma”, que vem dos anos 60, quando a mocidade resolveu apartar-se do terror cotidiano tentando inventar um mundo acima das vilanias. Hoje medra o “estar de bem com a vida”, como se enxergar com clareza fosse estar de mal com ela. Há ainda os que batem no peito dizendo “amar a Deus”, o que parece livrá-los da obrigatoriedade de amar o próximo. Ou os que “gostam de ler”, como se respirar fosse uma opção.

Chamar a atenção para esses lugares comuns é visto como implicância. Devemos nos comportar dentro da correção vigente. Pois se destoarmos do coro dos contentes, poderemos desmascarar os hábitos de guerra sob a aparência do congraçamento solidário. Isso prejudica os negócios. Tem muita gente faturando com o tiroteio.

RETORNO - 1. (*) Crônica publicada nesta terça-feira no caderno Variedades, do Diário Catarinense. 2. Imagem desta edição: Toshiro Mifune.

26 de outubro de 2009

O PERDÃO EM “A PARTIDA”


Para que serve o perdão em A Partida (Okuribito), de Yojiro Takita, vencedor de melhor filme estrangeiro no Oscar 2009? Vamos adiar a resposta com outra pergunta: por que este é um filme sobre o perdão, se a crítica quis reduzi-lo a uma indecisão entre comédia e drama, achando que o diretor se perdeu no meio do caminho e que teria feito uma obra “oscarizável”, ou seja, na medida para ganhar o prêmio, já que se entregou ao lugar comum e à inconsistência da trama?

É porque, não canso de dizer, a crítica não enxerga o que é mostrado na tela, preferindo ficar acima do trabalho alheio e desconfiando de suas intenções, principalmente se for um vencedor. E o que é mostrado na tela é uma sucessão de cenas sobre o perdão numa história que tem o perdão como foco principal. Veja quais são essas cenas: o rapaz que se veste de mulher é perdoado pelo pai que o condenava em vida; os parentes pedem perdão para a viúva que trabalhou até o fim porque queria continuar mantendo sua tradicional casa de banhos; o viúvo pede perdão aos profissionais que encomendam o corpo da esposa para os funerais porque tinha reclamado do atraso deles, mas acabou vendo a excelência do ofício; o rapaz que pede perdão à família da namorada, morta no acidente de moto em que ele estava pilotando. E qual é o foco principal, o caso que segura a narrativa?

É exatamente uma história de perdão. O tocador de violoncelo que não perdoa o pai por tê-lo abandonado aos seis anos, acaba tendo de encomendar o corpo do velho quando ele morre esquecido numa vila de pescadores. A raiva acumulada por toda a vida é lavada pelo choro na magnífica cena final, quando temos um momento antológico da Sétima Arte. Nesse desenlace, vemos que, apesar da orfandade, da indiferença, dos erros, do ódio, tudo acaba confluindo para a manutenção de uma linhagem: a mensagem repassada de pai para filho, por meio de uma pedra que representa a realidade emocional do emissor. Esse é o sustento de um povo que, mesmo ameaçado pelas transformações da modernidade, mantém-se coeso nos seus costumes e tradição.

Assim chegamos à resposta da primeira pergunta: o perdão em A Partida serve para que as pessoas do Japão continuem com seu sentimento de pertença a uma cultura, que gira em torno da família, da memória e do sangue. Vemos isso por meio do ritual de encomenda dos corpos, um serviço especializado a cargo de uma pequena empresa, que trabalha para as funerárias. O fundador da agência é também um viúvo que começou no ramo exatamente quando a esposa morreu. Ele é o mestre que treina o aprendiz num ofício mal visto socialmente, mas que acaba se impondo na comunidade, pois preserva a dignidade de quem foi derrotado pela morte.

A cerimônia da encomenda dos corpos é uma maneira de devolver a pessoa falecida ao convívio dos seus familiares, dos quais estava apartada em vida. As brigas que dividiam as casas enfim desaparecem quando a limpeza, a maquiagem e o trato delicado revelam a verdadeira identidade da pessoa morta, a imagem projetada, a partir do enterro, na memória justificada pelo amor. É o amor, tornado explícito no momento terminal, entre pais e filhos, avós e netas, marido e mulher, que mantém indissolúvel o laço familiar.

É muita coisa para um filme só, nesta pequena jóia do cinema contemporâneo. A Partida merece ser assistido pelo que ele nos traz de grandeza quando nossa precariedade e escassez encontram enfim seu verdadeiro destino, que é essa passagem obrigatória para o Outro Lado.

RETORNO – Imagem desta edição: Masahiro Motoki, o aprendiz, e Tsutomu Yamazaki, o mestre, numa cena de "A Partida".

SEAN PENN EM MILK


Há várias críticas sobre Milk, de Gus Van Sant, das mais tradicionais às mais vanguardistas, mas prefiro abordar o filme como sendo uma demonstração de força de Sean Penn. Não se trata de um trabalho que retrata suas posições progressistas. Não é o fato de Sean ser a favor das minorias e da luta pela democracia que faz dele um grande ator. A arte não se vincula à percepção correta ou errada que o artista tem do mundo e da vida, mas sim ao seu talento e o que faz com esse dom. E o que ele faz neste filme, sobre o principal ativista gay americano nos anos 70, é um arraso.

Sim, claro, ganhou o Oscar. Não é esse o parâmetro. Interpretações pífias já venceram na noite de gala. O que se destaca é que ele desbastou o personagem de todo o entorno a que estamos acostumados a ver nele e emergiu com uma criatura oposta ao patrimônio conhecido do seu carisma. Aquela testosterona vencida que enruga testa e cria o ar hostil e de enfado dos heróis que interpretou, de 21 Gramas a Menino com Lobos, aqui é substituído por algo mais complexo, fundado não na autosuficiência do rosto, mas na precariedade do gesto estudado, segunda natureza de uma espontaneidade plantada, que bem poderia ser confundida com um acervo fake de interpretação.

Representar o homossexual é uma tragédia na indústria audiovisual de última categoria, com o Brasil na frente, com suas piadas de viado que tomam conta dos programas de humor. Mas Sean não representa, ele se transforma em Harvey Milk na luta pelos direitos humanos. As expressões do personagem são o resultado da desconstrução facial a que se submeteu o ator. Os braços que se movem nos comícios buscam a espontaneidade contundente, pois era preciso criar um novo estilo de fazer política, que fosse o porta-voz de um movimento de massa emergente.

Sean não sob no palanque sabendo tudo. Ele procura, e encontra, o desenho dessa personalidade sob fogo cerrado, e cria a ilusão de que está puxando (quando no fundo é empurrado) pelos que o apóiam e aplaudem. O ator mostra como o personagem, a partir de sucessivas derrotas, foi-se se colocando na maré alta de uma insurgência que tomara conta das ruas e explodia na cara de uma sociedade tradicional, que procurava se defender invocando princípios da tradição e da religião.

Convencer o seu público de que era preciso sair do armário, conquistar o voto dos indecisos, peitar a concorrência fundamentalista, abrir caminho na burocracia política, negociar sem fazer concessões (como acontecera com o advogado rico e dono de uma revista gay), tudo conflui para o corpo do personagem exposto na tela. Isso levaria um ator menos competente a se entregar ao exagero, a atrapalhar, com a emoção, a coreografia necessária para trafegar pelas cenas. Sean mantém sob jugo pesado a criatura que inventou, libertando-a quando necessário, fazendo assim jus à imagem pública do homossexual que não precisava se travestir para assumir.

Milk coloca terno para irromper na política, antro de retrógrados seculares, faz piada sobre a imagem pronta armada pelos preconceitos, duela com a decadência física nos seus embates do amor (que deságuam sempre em suicídio) e isso é construído por Sean como um concerto de câmara em atividade num camarote de ópera: o minimalismo é o espectador do grande drama, mas a lágrima escancarada do bel canto é a mesma do sofrimento contido, perplexo diante do desenlace iminente.

Não é com caricatura que se constrói uma grande interpretação, mas a performance genial inclui tudo, inclusive a caricatura. Sean não abre mão de nada, porque tem o domínio pleno do seu ofício. Venceu a parada não porque seja obrigatório ficar ao lado das vítimas da perseguição, mas porque toda arte que atinge o apogeu se impõe como um súbito temporal que varre o mundo no cair da tarde.

SEAN PENN EM MILK

Há várias críticas sobre Milk, de Gus Van Sant, das mais tradicionais às mais vanguardistas, mas prefiro abordar o filme como sendo uma extrema demonstração de força de Sean Penn. Não se trata de um trabalho que retrata suas posições progressistas. Não é o fato de Sean ser a favor das minorias e da luta pela democracia que faz dele um grande ator. A arte não se vincula à percepção correta ou errada que o artista tem mundo e da vida, mas sim ao seu talento e o que faz com esse dom. E o que ele faz neste filme, sobre o principal ativista gay americano nos anos 70, é um arraso.

Sim, claro, ganhou o Oscar. Não é esse o parâmetro. Interpretações pífias já venceram na noite de gala. O que se destaca é que ele desbastou o personagem de todo o entorno a que estamos acostumados a ver nele e emergiu com uma criatura oposta ao patrimônio conhecido do seu carisma. Aquela testosterona vencida que enruga testa e cria o ar hostil e de enfado dos heróis que interpretou, de 21 Gramas a Menino com Lobos, aqui é substituído por algo mais complexo, fundado não na autosuficiência do rosto, mas na precariedade do gesto estudado, segunda natureza de uma espontaneidade plantada, que bem poderia ser confundida com um acervo fake de interpretação.

Representar o homossexual é uma tragédia na indústria audiovisual de última categoria, com o Brasil na frente, com suas piadas de viado que tomam conta dos programas de humor. Mas Sean não representa, ele se transforma em Harvey Milk na luta pelos direitos humanos. As expressões do personagem são o resultado da desconstrução facial a que se submeteu o ator. Os braços que se movem nos comícios buscam a espontaneidade contundente, pois era preciso criar um novo estilo de fazer política, que fosse o porta-voz de um movimento de massa emergente.

Sean não sob no palanque sabendo tudo. Ele procura, e encontra, o desenho dessa personalidade sob fogo cerrado, e cria a ilusão de que está puxando (quando no fundo é empurrado) pelos que o apóiam e aplaudem. O ator mostra como o personagem, a partir de sucessivas derrotas, foi-se se colocando na maré alta de uma insurgência que tomara conta das ruas e explodia na cara de uma sociedade tradicional que procurava se defender invocando princípios da tradição e da religião.

Convencer o seu público de que era preciso sair do armário, conquistar o voto dos indecisos, peitar a concorrência fundamentalista, abrir caminho na burocracia política, negociar sem fazer concessões (como acontecera com o advogado rico e dono de uma revista gay), tudo conflui para o corpo do personagem exposto na tela. Isso levaria um ator menos competente a se entregar ao exagero, a atrapalhar, com a emoção, a coreografia necessária para trafegar pelas cenas. Sean mantém sob jugo pesado a criatura que inventou, libertando-a quando necessário, fazendo assim jus à imagem pública do homossexual que não precisava se travestir para assumir.

Milk coloca terno para irromper na política, antro de retrógrados seculares, faz piada sobre a imagem pronta armada pelos preconceitos, duela com a decadência física nos seus embates do amor (que deságuam sempre em suicídio) e isso é construído por Sean como um concerto de câmara em atividade num camarote de ópera: o minimalismo é o espectador do grande drama, mas a lágrima escancarada do bel canto é a mesma do sofrimento contido, perplexo diante do desenlace iminente.
Não é com caricatura que se constrói uma grande interpretação, mas a performance genial inclui tudo, inclusive a caricatura. Sean não abre mão de nada, porque tem o domínio pleno do seu ofício. Venceu a parada não porque seja obrigatório ficar ao lado das vítimas da perseguição, mas porque toda arte que atinge o apogeu se impõe como um súbito temporal que varre o mundo no cair da tarde.


25 de outubro de 2009

AS MIL E UMA NOITES DO MILIONÁRIO INDIANO



Sherazade contava histórias para o rei que queria matá-la depois de fazer sexo. Deixava o conto em suspense para continuar no dia seguinte e assim foi adiando sua execução. Quando chegou ao fim da sucessão de contos, pediu clemência, no que foi atendida. Dizem que as Mil e Uma Noites são os degraus da iniciação do budismo. Assim também no filme “Quem quer ser um milionário”, de Danny Boyle, que ganhou 8 Oscars. O protagonista é um contador de histórias, que desfia os passos de sua vida bruta nas favelas indianas, onde começou órfão, passou a ser mendigo e acabou como servidor de chá numa empresa de telemarketing. Seu objetivo é escapar da tortura e da morte numa delegacia policial.

Sherazade fazia parte de um gênero sob suspeita, pois foi a infelidade da esposa que fez o rei vingar-se nas virgens do seu reino, matando-as uma a uma. Assim também aconteceu com Jamal, o garoto que sabia todas as respostas porque em cada uma delas havia a encarnação de uma vivência profunda. Sua performance num programa lotérico de televisão, onde ganhou uma fortuna, que poderia dobrar com a respsota certa da última pergunta, despertou suspeita do organizador do show e dos policiais. É porque ele faz parte dos garotos pobres da Índia, que jamais dizem a verdade, segundo a visão oficial. Por pertencer a um grupo social determinado, está condenado por antecedência, como Sherazade.

Sherazade contou as histórias para poder escapar da morte certa, pois cedo ou tarde seria convocado ao palácio, por ser uma das donzelas da região. Mas acabou se apaixonando pelo rei, com quem teve três filhos. Assim também Jamal, protagonista de uma jornada de encontro ao amor, distante no início, complicado o tempo todo, mas que enfim se consuma porque esse era seu destino, sua chance, sua sorte. A história de amor está imbricada na tragédia social como uma pérola em ostra intragável, escondida no fundo da miséria e do terror. Ela mesmo não acreditava que se encontrariam ainda em vida, mas ele apostava alto na oportunidade que a vida lhe reservava.

Eis o encanto deste filme que arrebatou a multidão e os críticos e levantou todos os prêmios da academia. Os politicamente corretos torceram o nariz, obviamente, pois um filme que acerta na veia exatamente por pertencer a uma linhagem narrativa clássica não poderia emocionar, como realmente emociona, não poderia ser de vanguarda, como realmente é, já que a montagem múltipla embala o encadeamento lógico e previsível, pois fica claro desde o início que este é um conto de fadas moderno, com todos os ingredientes que fazem a festa das exegeses das ciências humanas.

Ver o filme como uma paródia criativa das Mil e Uma Noites ajuda a decifrar a charada do seu sucesso. De vez em quando, um grande filme nos arrebata e torna a vida mais suportável. Quando isso acontece, devemos nos submeter aos desígnios da nossa sorte. Pois muita coisa sinistra passará debaixo da ponte até vir novamente uma obra como esta. Não dê ouvidos ao canto morno das falsas sereias. Este é um belo filme, que merece seu sucesso e que nos empolga por tratar de algo cada vez mais raro: a importância de dizer a verdade quando tudo gira em torno da mentira.

Jamal responde a verdade para os policiais, para o entrevistador, para a namorada, para o irmão, para os bandidos. "E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará", diz a Bíblia (João 8:2). Amém.

RETORNO – 1. Imagem desta edição: Tanvi Ganesh Lonkar (Latika - jovem), cena de “Quem quer ser um milionário?” . 2. Agradeço a Ida Duclós por soprar a idéia das Mil e Uma Noites para entender o filme.

24 de outubro de 2009

O ESTRANHO BENJAMIN BUTTON


Leio entrevista do roteirista Eric Roth, o mesmo de Munique (de Steve Sipelberg) e Forrest Gump (de Robert Zemeckis), sobre O Caso Curioso de Benjamin Button, de 2008. Consultando especialistas, descobriu que Scott Fitzgerald não levava a sério o conto, que fez apenas por dinheiro, pois era para ser publicado em revista e não em livro. Reli o conto depois de ver o filme. Como o gênio jamais descansa, Fitzgerald criou uma fábula com extrema consistência na estrutura narrativa, tanto é verdade que continua firme e forte, apesar do tema bizarro: o sujeito que nasce ancião e morre bebê. Esse núcleo é que deu margem para a indústria cinematográfica arriscar 150 milhões de dólares no filme, dirigido por David Fincher, o mesmo do violento Clube da Luta.

Eric Roth perdeu os pais enquanto preparava o roteiro do filme, protagonizado por Brad Pitt e a onipresente Cate Blanchet, a nova Emma Thompsom, já que todos os filmes são com ela. Não lembram de convidar outra atriz. Por que será? Lembro de Hitchcock fugindo do assédio de James Stewart, que queria ser de novo o ator principal de um novo filme dele depois de ter feito quase todos os outros. Tom Hanks diz que Eric escreve roteiros sobre a solidão. Ele não concorda, mas é verdade. Button é a saga de uma criatura excêntrica que sofre sua sina com parceiros eventuais que vão sumindo aos poucos, conforme sua vida vai se desenrolando pelo avesso.

Apesar de reclamar da voragem presencial de Blanchet, ela está ótima, como sempre. Mas Brad Pitt, que poderia ser apenas um rosto de Hollywood, se supera a cada lançamento. Vi grandes filmes com ele, sendo o maior, sem dúvida, o brilhante O assassinato de Jesse James, de Andrew Dominik Neste, desenvolve um personagem concentrado, sofredor, emocionado. A tecnologia e a maquiagem fazem horrores, mas o que vale é a interpretação dos atores, que nos convencem numa história de extrema originalidade (a idéia teria sido soprada por Mark Twain). O que será que significa o texto, se é que ainda toleram a leitura de significados na atual fase de relativização e abandono de velhos paradigmas teóricos?

Não podemos esquecer que o conto se passa na sociedade escravista do sul, em que a extrema bizarrice e marginalização era jogada nas costas dos negros. Eric Roth faz com que Benjamin seja rejeitado pelo pai e acolhido por uma babá negra estéril (não podia ter filhos) que cuida de um asilo de velhos. As convenções condenam o recém nascido, mas o amor, que se recolhe ao reduto dos marginalizados, o salva. No conto, o pai de Benjamin diz que gostaria que seu filho fosse negro, assim não passaria tanta vergonha.

Todos os personagens do filme acompanham essa maldição de serem outsiders numa sociedade que leva gerações sucessivas para a carnificina das guerras. Eric coloca a história como um contraponto do conflito, pois andando para trás o relógio poderia devolver os solados mortos para os pais e a sociedade, onde poderiam crescer e envelhecer com suas famílias. Fitzgerad teria usado o artifício da vida ao contrário para passar o recado de que a humanidade deve acordar para o amadurecimento e fazer dele uma fonte infinita de renovação?

O conto foi escrito nos anos 20 e a história se passa a partir da Guerra Civil americana. O filme começa na Primeira Guerra e vai até o furacão Katrina, no século 21. Vivemos hoje a inversão dos valores, com os jovens desprezando a herança das gerações passadas e os velhos querendo engrossar as fileiras do desfrute e da irresponsabilidade. Há marginalização da Terceira Idade, empurrada para roupas “jovens” e comportamentos estranhos, enquanto a meninada, liberta pelas novas tecnologias, vive um mundo à parte, tendo rompido com a velha linhagem do repasse da experiência. Algo se partiu no mundo e o conto apenas captura uma tendência que se consolidou no século 20 e hoje faz parte da natureza das coisas.

Não sei se é isso. O filme é bom, intrigante, super bem feito. Destaque para os coadjuvantes que trazem para a tela momentos inesquecíveis do capitão bêbado e tatuado do rebocador, que se considera um artista, o pigmeu contador de histórias, freqüentador de bordel, o velho que vivia contando como escapou de sete raios mortais, a mãe negra de Benjamin, entre outros. Uma galeria de anti-heróis magníficos, que fazem deste filme um dos grandes lançamentos desta primeira década do século.

RETORNO - Imagem desta edição: Brad e Cate em Benjamin Button.

23 de outubro de 2009

TATIBITATI MATA IMPRENSA


Título, olho, linha fina, intertítulo, legenda, chamada de capa, lead: todos os recursos de uma notícia sobre o mesmo assunto não podem repetir exaustivamente as mesmas palavras e dados. Estes precisam ser apurados com competência e distribuídos criativamente para que o leitor tenha acesso imediato a algo mais do que disse a manchete.

É preciso levar em conta o potencial informativo de cada destaque. Uma foto tem muita informação e a legenda não pode ser redundante. Isso, claro, contraria os manuais, que obrigam os jornalistas a fazer o que o Macaco Simão chamou de legenda para cego. A imagem mostra o homem dando água para a criança. Legenda: homem dá água para a criança. Isso mata a imprensa.

A verdade é que a imprensa, em sua maioria, reproduz o que diz a assessoria e isso serve para tudo. Quadrilha assalta banco em Madureira, diz o título. Elementos de uma quadrilham assaltam banco no bairro de Madureira, diz a linha fina. E aí a matéria começa: Uma quadrilha assaltou ontem um banco em Madureira...Legenda: O banco de Madureira que foi assaltado. Quem tem saco para esse troço?

Outra coisa repetitiva são as suítes. Essas foram inventadas para situar o leitor na notícia que foi veiculado originalmente nos dias anteriores. Quando há uma novidade, você informa e dá uma suíte do que passou. Mas esse recurso, pelo excesso, se transformou num pesadelo. Por exemplo: dois ladrões que fazem parte da quadrilha que assaltou ontem em Madureira continuam foragidos. O delegado disse que o assalto ao Banco em Madureira foi realizado pelos dois bandidos. Ontem, a quadrilha assaltou o banco em...e por aí vai.

Isso acontece porque as redações são editadas por gente que não é do ramo. São paraquedistas titulados ou não que estão convencidos que só assim pode ser feito jornalismo. A desculpa é que tudo precisa ser mastigadinho para o idiota do leitor, enquanto este está mergulhando na imprensa internacional, traduzindo automaticamente as notícias e se inteirando dos fatos inclusive do Brasil. Os imbecis não tomaram o poder no resto do mundo, só no Brasil. Somos governados por idiotas e esse baixo nível mental se espalha por toda a rede profissional e social.

A culpa seria do povo que não lê e que prefere apenas consumir besteiras. Um, é mentira. Dois, você não pode nivelar por baixo, isso é crime. Nivele por cima que todo mundo chega lá. Se não fizer isso, haverá migração para outras mídias. A imprensa pátria fica no tatibitati da notícia, na celebração do evento, no colunismo pífio, com textos sempre iguais, enfoques sempre os mesmos, expedientes repetidos até a exaustão. Digo isso porque não consigo ler o noticiário on-line dos jornalões do eixo Rio-São Paulo. Não há o que ler. É terra arrasada.

Na internet, o que vemos é o aparelhamento crescente da notícia. Ou isso protege Lula ou isso beneficia os tucanos. Há uma obsessão maldita pelo tucano-petismo, um calo ideológico granítico cevado em décadas de ditadura. Nem com cirurgia passa. O que devemos fazer é passar ao largo dessas certezas, em que tudo deságua no estuário milionário do desvio de verbas públicas. CPI, MST, DEM, PT, PDT: é tudo a mesma choldra. Quando você começa a gostar de determinado articulista, determinado blog, descobre que está aparelhado, a serviço da campanha, enquadrado nos trâmites da disputa do butim. Será possível?

É essa mediocridade política a fonte de todo o tatibitati da imprensa., Uma boa imprensa livre derruba qualquer medíocre do poder. Isso não pode. Temos de aturá-los até o final dos tempos. Eles fazem planos para 2030. Xô, Buuu, Fora. Quero o Brasil de volta.

RETORNO - Imagem desta edição: uma das fotos magníficas da Russia antes da Primeira Grande Guerra, de Sergei Mikhailovich Prokudin-Gorskii. Peguei a dica no Twitter, via @daniduc. É o que vemos na farta colheita da rede, muito longe da mesquinharia da imprensa nativa.

ELO


Não costumo escrever sobre parentes. Preservo assim algo do que tenho, das excessivas exposições públicas. Acho que não interessa a ninguém fora do círculo familiar. Faço exceções para meus pais, que precisam ser lembrados, homenageados e queridos. No mais, são assuntos que ficam por aqui. Só às vezes dou notícia.

Mas de um em especial preciso falar neste 23 de outubro, data do seu aniversário. Mesmo que ele ache estranho, já que é dessa estirpe riograndense avessa a homenagens, pois vale mais a sinceridade do que o aplauso ou o tapinha nas costas. Mesmo assim, vou arriscar, sob pena de levar uma “dizida”.

Elo é o primeiro filho homem, herdou o nome do pai. Lembro da liderança natural quando estava no ginásio, da atração que exercia na gurizada sempre pronta a ouvi-lo nas rodas improvisadas, das brigas em que se meteu, homéricas, com grandalhões da vizinhança. Ou quando montava a cavalo ao inaugurar um dos primeiros CTGs do mundo, o Minuano, que ficava nos fundos do Colégio Santana, que por sua vez situa-se em frente à nossa casa (os dois prédios, casa e colégio, ainda estão lá). Lembro que, todo pilchado, declamava nos saraus arrancando manifestações entusiasmadas, pois todos “se abriam”, como se diz, para sua franqueza e naturalidade de falar em público.

Também lembro o católico devoto, que rezava todas as noites, aluno brilhante, mas meio avesso a disciplinas (acordava com o sino chamando para a aula). Do locutor da hora da Ave Maria, que deixou o pai meio sem jeito diante dos amigos, pois os engraçadinhos foram tirar satisfações do gauchão Elo pai, ateu, sobre essa história estranha de estar rezando publicamente. “Mas é o meu filho", dizia. Em vão. Todos queriam curtir a repentina devoção do velho pescador. Apesar do mesmo nome, são duas pessoas opostas, esses dois. Um nada tem a ver com o outro, mas de longe, o sangue não se renega. De perto é que a coisa muda. Mas não muito de perto.

Nunca nos aproximamos demais de um irmão mais velho. Nós, os menores (sempre serei o piá, apesar das seis décadas de vida) nos acostumamos com essa distância. Tem a ver com hábito e também com um certo temor. Não é bom chegar assim de pronto, pois se corre o risco de levar um corridão. Melhor assim. Essa excessiva proximidade, que é falsa, de hoje, não preserva o que há de melhor na fraternidade: o respeito mútuo das diferenças, a sabedoria de se encarar o próximo como um estranho, que ao mesmo tempo faz parte de nós. Essa contradição entre ficar perto e longe é que faz o encanto das relações duradouras entre irmãos.

Porque amizade é uma coisa, irmandade é outra. Com o amigo você fica mais à vontade, pode brigar, as feridas não são tão fundas. Por mais convívio que haja, você nunca saberá nada sobre ele. Com o irmão é preciso ter cuidado. Por nos conhecermos desde o berço, é mais fácil pisar nos calos, sair uma briga. Portanto, cultivamos com os irmãos essa fraternidade exposta como um balão de gás subindo brilhante em noite clara de verão. É nossa senha, nosso sinal. Ninguém tem nada com isso nem sabe do que se trata. É um caso à parte, sobre o qual não precisa inventar muito.

Sem dizer quase nada, acabo chegando ao final da crônica. Hoje, Elo exerce seus grandes conhecimentos culinários, com pratos inesquecíveis como sua lendária paella, seu assado de cordeiro na brasa temperado por chicotadas de galho de limoeiro embebido em salmoura, além de suas aprontadas com grandes camarões em domingos que causam estrago entre os convivas, já que fica difícil um elogio chegar ao nível de excelência do prato.

Mas tudo isso é só detalhe. O leitor compulsivo, que sabe absolutamente tudo, que enxerga com antecedência o que ainda estamos tateando, o carismático administrador de contratos, tudo aponta para uma personalidade sem igual. Claro, é meu irmão, poderia dizer. Está errado. Eu é que sou irmão dele, pois vim depois, o que é sempre lembrado quando cometemos o deslize de apresentá-lo sem o devido cuidado. Respeito é bom e ele gosta. O que fazer com o cara que jamais falha quando é convocado, que cumpre fielmente sua responsabilidade para a generosidade legítima, a que não deixa rastros nem pede reconhecimento?

Esse é o Elo, meu irmão mais velho. Parabéns, Elo. Conquistaste o direito de ser o líder, pois se a vocação nasce conosco, é preciso coragem para mantê-la.

RETORNO - Imagem desta edição: Elo Ortiz Duclós Filho, aos 67 anos, junto com seus livros e cds favoritos.

22 de outubro de 2009

AS PIORES EXPRESSÕES DA LÍNGUA


Elas são as piores pelo excesso de repetição. Como não há sinais de que serão abandonadas, vou destacá-las para que caia a ficha, haja simancol.

LIÇÃO DE CASA – O Brasil fez a lição de casa: superconcentrou mais a renda, alargou a bolsa esmola, paga tão bem os investidores estrangeiros que, em vez de baixar os juros, cobra pedágio, só para constar. Os empresários também fizeram a lição de casa: sucateados completamente, fecharam suas fábricas ou as entregaram aos chineses. O pessoal que roubou as provas do Enem também fez a lição de casa, só que foram reprovados assim mesmo.

SAIA JUSTA – Marmanjos horrendos com cara de furúnculo são tratados como donzelas pela imprensa, pois a toda hora entram em saia justa. Como se aqueles ternos de alpaca, as gravatonas sedosas, os cabelos lambidos, os gestos estudados, o rosto bexigoso lembrasse alguma coisa do gênero que usa saia.

POR CONTA DE - A mais execrável e recorrente muleta dos textículos do atual estágio de ejaculação precoce da imprensa. Serve para costurar o incosturável. Quando o redator se mete em encrenca, não encontra uma solução para a frase tosca que escolheu, não sabe onde quer chegar, mas precisa inserir alguma coisa que ele pensa ser informação, então coloca por conta de, ou seu agravante, por conta de que.

DOIS A MAIS OU DOIS A MENOS - Usada nas estatísticas. Como são todas inventadas e servem para quem paga mais, então eles abrem uma margem politicamente correta, para mostrar como são relativistas e fiéis à realidade. Os índices são todos fajutos, mas parece que obedecem a uma lógica matemática sofisticada.

QUANDO NÃO HÁ INTENÇÃO DE MATAR - Morre gente paca todos os dias, vítimas de pessoas que são enquadradas como se não tivessem intenção de matar. Imaginem se fossem tomados pelo desejo de assassinar em série. Seríamos dizimados e no nosso lugar colocariam os chineses. Opa, isso já não aconteceu?

CÍRCULO VIRTUOSO - Inventada pelo Roberto Campos, que queria (e conseguiu) sucatear o estado brasileiro, que obedeceria a um círculo vicioso. O objetivo era entregar tudo na mão dos especuladores que, como se sabe, são pessoas que enfeixam as maiores virtudes do mundo.

SUPEROU A CRISE - As crises são campanhas de marketing que tem por objetivo veicularem notícias sobre sua superação. Na crise estamos há muito tempo, mas quando ela é anunciada, é sinal que vão nos tungar mais. Raparão os cofres para depois dizerem que pronto, pronto, já passou. A idéia é fazer você trabalhar de novo para ser roubado mais adiante, quando vier nova fase da eterna crise superável.

DISPOSTO A NEGOCIAR - Ninguém abre mão de nada e todos se envolvem na raivosa disputa do butim. Mas para a platéia é bom chamar o rosnar de dentes de negociação, porque pega bem e dá manchete.

PEDE PASSAGEM - Criada no tempo em que o pessoal do morro resolveu descer ao asfalto para mostrar o samba, virou epidemia. Nunca mais o samba deixou de pedir passagem. Resultado, não existe mais samba, pois quando a gente pede, não dão. Quem fica esmolando passagem acaba pagando pedágio e assim mesmo não cruza o umbral.

RETORNO - 1. Imagem desta edição: círculo virtuoso? Tirei daqui. 2. Comentário amplia o cânone: "Nei, outras duas que não aguento mais ouvir é GERADOR DE EMPREGO E RENDA e DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL. Muito usado por políticos daqui quando querem justificar investimentos fraudulentos, ilegais, de empresários picaretas. Abraço Canga". 3. Mais uma grande contribuição: "Mestre Nei, acrescentaria mais duas: CHOQUE DE GESTÃO, que aqui no RS significa assalto descarado, e a quase debilóide epidemia de COM CERTEZA. Abraço Simch"

21 de outubro de 2009

O QUE NÃO CONSIGO ENTENDER


Não se trata do acervo infinito da minha ignorância, mas meu estranhamento diante da falta de lógica de alguns eventos pátrios. Não vale contra-argumentar que o Brasil é assim mesmo ou usar expressões como "está na cara". Eu realmente gostaria de entender.

MACONHA NO MARANHÃO - A notícia de que estão erradicando pés de maconha no Nordeste tem mais de 30 anos. Por que esse acontecimento é permanente? O Nordeste é do tamanho de Júpiter para ser impossível detectar as terras próprias para o cultivo da erva e definitivamente acabar com o plantio?

ARMAS PARA O TRÁFICO - Se todos sabem de onde vem as armas, quem são os traficantes, conseguem gravar a conversas dos caras fazendo negócios, se as armas são apreendidas, se há evidências que elas são compradas do Exterior ou dos acervos militares internos, por que tanta oh surpresa!diante do armamento dos bandidos? E por que eles continuam usando se arma não é pérola e ocupa um espaço físico razoável e por isso podem ser encontradas, bastaria um mínimo de logística, ou estratégia, ou seja lá o que for?

ACESSO AO DINHEIRO PÚBLICO - Gostaria de saber como uma verba de 100 milhões para combate à bandidagem carioca levará seis meses para ser liberada enquanto a conta do hotel em que ficou a comitiva presidencial nas eleições para a sede das Olimpíadas (4 mil reais a diária) é paga de maneira direta, sem choro nem vela? Como acontece o acesso ao dinheiro público? O sujeito que ocupa um cargo executivo vai lá e pega e gasta? Ou tem que solicitar antes? Falo também da grana preta dos trens da alegria da atual campanha eleitoral oficial ilegal – rimo de propósito, para chamar a atenção. Eles vão pegando?

PROVAS DO ENEM SEM LACRE - Descobriram várias caixas sendo carregadas sem lacre com as respostas do Enem de oito de novembro próximo dentro. A “transparência” das provas é praxe e já virou uma indústria, e só foi descoberta porque os ladrões envolveram a imprensa? E se pegaram as provas a descoberto numa só van, teriam outras em outros veículos? E se descobriram, por que desta vez não anulam novamente a prova?

ONDE ESTÃO OS TALENTOS VETERANOS? – A prefeitura de Florianópolis vai gastar 800 mil euros no cachê do tenor Andréa Bocelli para um show no final do ano. Por que não temos mais grandes cantores veteranos que valham isso? Ontem, no Jô Soares, vi Tony Bennet cantar aos 83 anos. Bocelli tem 51. Mientras tanto, Cauby Peixoto continua com seus vibratos inúteis, seus maneirismos. Há décadas ele esqueceu de apenas cantar. Sofre do mal brasileiro, o da performance. Perdemos Moacir Franco para os shows de humor. Só João Gilberto brilha, mas João não vale, João é gênio. Estou falando de grandes talentos, não de mestres.

BONECA TERESA CULTURAL - É a velha brincadeira das meninas dos anos 50: quando a coisa é conhecida, a garota pegava a barra do vestido e compunha uma espécie de cabeça falante que dizia: boneca Teresa, isso eu já sabia. Pois se todo mundo sabe o que é bom, do filme de primeira à música maravilhosa, do cantor magnífico ao artista plástico sem igual, por que esses horrendos gritalhões sertanojos são destacados, incensados, celebrados? E por que a TV continua passando só baixaria? E por que só lembram do Helio Oiticica quando queima todo seu acervo? E por que não mantém os dois ladrões do Masp na prisão? Se é um crime federal, por que anular o encaminhamento feioto até agora de crime estadual? Quer dizer que pode ir lá e roubar telas do Masp?

A CARGA DO HELICÓPTERO LIGEIRO - Se sabiam que o helicóptero não era blindado, por que mandaram os policiais militares lá? E se eles, que estavam dentro do helicóptero, sabiam disso, por que foram? E por que, sendo tão óbvio que houve negligência criminosa de quem deu a ordem, esse responsável, que pode ser no plural, não está preso? E por que acham que os soldados mortos no Rio valem menos do que as vítimas do metrô de Londres? O grande desastre da Carga da Briga Ligeira foi provocado por uma ordem dessas: colocaram os cavalos diante dos canhões. Contraria a lógica da guerra. Merece punição.

RETORNO - iMAGEM DESTA EDIÇÃO: David Hemmings olha e não acredita que terá de enfrentar os canhões russos na guerra da Criméia com sua cavalaria no clássico imperdível A Carga da Brigada Ligeira, de Tony Richardson, mais um feito desse ano de infinitas realizações que é 1968.

20 de outubro de 2009

GANHAR TEMPO


Nei Duclós (*)

Teorias novas levam um tempo para se instalar no discurso de massa, mas depois que pegam não saem mais da moda. Principalmente se o conjunto de idéias pode ser sintetizado numa palavra de impacto, como relativizar.

Foi preciso desestabilizar as percepções consagradas nas ciências humanas para instaurar enfoques inéditos sobre eventos passados ou acontecimentos emergentes, que desafiam nossa capacidade de análise. Por exemplo: quando todos estavam convencidos que a História era uma sucessão de feitos militares heróicos, a abordagem específica do que era deixado de lado subverteu os velhos manuais. Quando todos achavam que os fatos eram incontestáveis, os mestres apontaram para a impossibilidade de abarcarmos o real apenas com nossa vista cansada.

Mas como todo mundo relativiza a toda hora, perdeu-se a responsabilidade pelo excesso de uso, que acaba beneficiando o jogo bruto de interesses. Hoje, relativizar é negar tudo, principalmente as evidências, quando deveria ser apenas o recurso de afastar o olho para enxergar melhor. O óbvio foi expulso do seu status de consenso. Perde-se tempo e dinheiro em pesquisas que provam que o leite faz bem, por exemplo, ou que, respirando, a pessoa sobrevive.

Se um grupo de pessoas pratica assalto e roubo em nome da justiça social, a nova onda diz que isso pode, pois o alvo do crime também exerceria o mesmo tipo de prática. Essa influência no cabo de guerra da política coloca o relativismo na agenda do dia, ainda mais que nos aproximamos de uma campanha eleitoral decisiva. A propaganda partidária é o paraíso do relativismo. Tudo pode ser, desde que se faça a expressão certa e se adote o tom adequada da voz.

Para ganhar tempo, o cidadão deve voltar-se aos conceitos clássicos e redescobrir o sabor da leitura proveitosa. A batida opção de levar um livro para uma ilha deserta, no fundo, quer dizer o seguinte: precisamos ler o que vale a pena sem a tralha que o envolve, sem o cerco dos autores coadjuvantes. Ter os olhos livres diante das palavras arduamente elaboradas é gerar, dentro de si, os instrumentos necessários para enfrentar todo tipo de manipulação.

Aí, sim, poderemos relativizar. Ou seja, colocar no seu devido lugar as certezas comercializadas em função do assalto aos tesouros nacionais.

RETORNO - 1. Imagem desta edição: praça de Amsterdam, foto de Daniel Duclós. 2. (*) Crônica publicada nesta terça-feira, dia 20 de outubro de 2009, no caderno Variedades, do Diário Catarinense.

SAGARANA NÚMERO 37 HOMENAGEIA FERLINGHETTI

Mensagem de Julio Monteiro Martins, da Italia: "Cari amici e amiche, siamo lieti di annunciarvi che, a partire da oggi, potrete consultare il numero 37 della Rivista Sagarana. Questo numero è l’edizione speciale commemorativa del 9° anniversario della rivista, con un’intervista esclusiva per Sagarana del grande poeta statunitense Lawrence Ferlinghetti: a lui, ai suoi 90 anni appena compiuti, è dedicata questa edizione.

L’Editoriale di Julio Monteiro Martins, Il dilemma dell’artista, parla del perché sia importante l'esistenza di una rivista con le caratteristiche della Sagarana in Italia e dei dubbi presenti nel rapporto tra artisti e scrittori con il loro stesso processo creativo e con l’ombra dell’autocensura, ai giorni d'oggi.

Poi, oltre alla sezione I Cortometraggi, incentrata sulla video arte e sui linguaggi multimediali sperimentali, una Mostra Virtuale inedita, sui Migranti, di Guido Villa (Vercelli 1943): sono immagini di impatto, fonti di grandi emozioni.

La sezione Saggi oltre all’intervista con Ferlinghetti, realizzata dalla poetessa italo americana Pina Piccolo, propone una ricerca inedita del poeta statunitense Paul Polanski sulle “storie orali degli zingari rom”, e riflessioni di Jacques Le Goff, Primo Levi, Peppe Sini, Jorge Luis Borges e Nadia Urbinati.

In Narrativa ci sono racconti e brani di romanzi di Thomas Mann, Giuseppe Berto, Lucio Mastronardi, Gustave Flaubert, Marguerite Duras e W. G. Sebald, oltre a quelli di autori viventi come Nanni Balestrini, Lourenço Cazarré, Junot Diaz e Ascanio Celestino.

In Poesia, oltre a Ad alcuni piace la poesia, di Wieslawa Szymborska, ci sono poesie di Giorgio Gaber, un’inedita in Italia di Philip Lamantia e una di Bozidar Stanisic’. Nella sezione Gegner, le tre parti del Tacito soccorso all’ombra del Reich di Markus Mohr, e la sezione Nuovi libri presenta tra l’altro un brano tratto dal romanzo appena uscito, Tutto-mondo, di Édouard Glissant. A questo stesso indirizzo troverete anche gli aggiornamenti della sezione Il Direttore, con il racconto inedito Questione di sicurezza, di Julio Monteiro Martins.

Ci auguriamo che le immagini, i video, le testimonianze, le riflessioni, i saggi, i racconti e le poesie da noi selezionati possano offrirvi ore di piacevole lettura.
A partire da questo numero, sarà possibile fare donazioni alla Sagarana, con offerte libere, cliccando sulla casella Sostieni il Progetto Sagarana, sul sito della nostra rivista.

I più cari saluti
La redazione di Sagarana"