24 de junho de 2009

UM CLÁSSICO NO CÍRCULO DE LEITURA


“De ambos os lado elevam-se picos de granito, altos e esguios como imensos minaretes turcos, perfurando as nuvens. No espaço aberto entre um e outro avistava-se a verdejante planície lá embaixo, ornada de vilas, estendo-se até a beira d´água. Ali começava a linda baía, salpicada de verdejantes ilhas numa das pontas e de navios de todas as nações, na outra; mais além ficava a cidade, estendo-se ao longo das praias e entremeada de morros cobertos de mata, com suas encostas pontilhadas de chácaras e seus cumes encimados por igrejas e conventos. Mais além ainda erguiam-se o Pão de Açúcar, o Corcovado e outros morros de singular formato que dão à entrada da baía um caráter tão incomum. E, por fim, ao longe, as águas azuis do Atlântico, estendendo-se pelo espaço infinito até se perderem ao longe no azul do céu. Mas é impossível para mim dar a você uma idéia de quão soberbo é esse panorama, que excede de muito o que já vi até agora ou que ainda espero ver. “

Noticias do Brasil (1828-1829), de R. Walsh, uma edição USP-Itatiaia).

Meu amigo e poeta Alcides Buss, coordenador do Círculo de Leitura de Forianópolis: o segundo volume do clássico de R. Walsh é minha leitura atual. Estou completamente tomado pelo texto, traduzido de maneira magistral por Regina Regis Junqueira. O Brasil está inteiro ali. A viagem que ele faz do Rio de Janeiro até os grotões auríferos de Minas Gerais, passando por seis regiões distintas, por campos e serras, gerou um relato fundamental sobre geografia, ambiente, costumes, populações, produção, comércio. Por todo o livro perpassa o humour inglês, já que o bom capelão de Lord Strangford precisava dizer a verdade por uma questão de princípios, mas evitava ao máximo ferir as suscetibilidades dos anfitriões brasileiros.

Estalagens tomadas por morcegos, hospedeiras embriagadas, chuvas torrenciais a maior parte do caminho, dieta variada e nem sempre satisfatória convivem com sustos, medos, isolamentos e uma sensação permanente de deslumbramento. Sabe o que me deu vontade, poeta? De fazer como Monteiro Lobato, de contar a viagem de Walsh do meu jeito e de maneira sucinta. Mas seria perda de tempo. O bom é encarar, em qualquer idade, os dois volumes dessa obra tão importante, que mostra como existia, antes de os caminhões levarem no lombo toda a produção, as caravanas de tropeiros com seus burros de carga, levando café, mandioca, açúcar e tudo o mais pelas escarpas e lodaçais do país.

Não mudamos muito. No lugar dos trens, resolvemos manter as estradas imperiais e colocar caminhão no lugar das mulas. E em vez de usar direito a grande extensão de terra arável, resolvemos continuar disseminando os desertos, uma situação que já existia naquela época, final da década de 1820. Mas de modo nenhum o livro traz desesperança. O país emergente, que se formava, tinha inúmeras qualidades, apontadas de maneira minuciosa pelo viajante desassombrado. No fundo, ele escreveu uma vasta defesa do Brasil, sobre nossa hospitalidade, vontade de aprender, cordialidade, respeito aos estrangeiros, honestidade. E nos dá lições de como devemos enxergar o que temos de bom e também nossas mazelas, para serem corrigidas.

É isso, amigo e poeta Alcides. Fica esse registro e o aviso aos internautas de que vale a pena levar lá o livro que cada um está lendo e debater com a platéia e o escritor em destaque. Já fui alvo deste privilégio. Desta vez, o contista, cronista e tradutor, Flávio José Cardozo é o convidado da 44ª edição do Círculo de Leitura de Florianópolis, que será realizada às 17h de quinta-feira, dia 25, no mini-auditório Harry Laus da Biblioteca Universitária da UFSC.

Ele falará de suas primeiras leituras, da passagem pelo seminário de Turvo, onde foi apresentado aos grandes clássicos da literatura, das lembranças da paisagem inóspita de Guatá, onde viveu a infância, de seus escritos e dos livros e autores prediletos, que revisita freqüentemente, na tentativa da “redescobrir” suas peculiaridades e o prazer que elas proporcionam. Essas e outras informações estão neste endereço.

23 de junho de 2009

POSE


Nei Duclós (*)

Pose é posse: a imagem pública pertence a quem briga para formatá-la. Quando esse perfil arduamente conquistado escapa e rola na sarjeta, a biografia corre perigo. É preciso então intensificar as poses para recuperar o espaço perdido e definir o que chamam de “virada”. Vemos isso a toda hora. Depois de fazer uma besteira, a celebridade diz em rede nacional que vai colocar a casa em ordem, ou seja, recuperar a identidade ferida.

A pose faz parte da luta pela sobrevivência, dessa verdadeira vida social, que é comparecer todos os dias, por décadas, em lugares lotados de pessoas desconhecidas. O resto – almoço de domingo, entardecer no bar, festas, bailes, visitas – são ralos minutos de convivência, jamais comparados à extensa rede de relações estabelecidas nos empregos, projetos, empresas, negócios em geral. Entre as duas realidades, que às vezes se confundem (quando, por exemplo, sua sala é transformada numa redação) proliferam os gestos estudados, essa dramaturgia necessária, que formata uma persona, a cara com que você se apresenta no teatro humano.

As celebridades intensificam a arte de parecer porque dependem disso. Usar óculos escuros é o truque mais recorrente. Significa que o famoso não enxerga os outros, já que não é platéia, está ali para ser visto e não ver. Quem usa óculos escuros mostra que é cem por cento observado. O olhar para o nada é acompanhado pelo sorriso vazio de qualquer significado, a não ser o de expor a dentadura ou sugerir intimidade com os fãs. Existe mais impacto quando a pessoa famosa fecha a cara, como a dizer que está farta de tanto assédio, mas não abre mão da sessão de fotos.

Quem ocupa um lugar menos privilegiado no pódio faz o que pode. A estrela simpática evita frases completas e pontua sua fala com alguns risos aparentemente espontâneos, para aumentar sua dose de bem-querer. Sincopar o texto emitido é um velho hábito que ronda a gagueira, sem se entregar ao desconforto de uma deficiência.

Mas tudo depende. Não gagueje numa reunião ministerial. Nem pontifique em entrevista de bastidores. É preciso manter a persona afiada para cada ocasião. Não vá fazer como aquele jornalista excêntrico que recebia o “bom dia” dos colegas com um sonoro e desesperador “tu achas, é?”.

RETORNO - 1.(*) Crônica publicada nesta terça-feira, dia 23 de junho de 2009, no caderno Variedades, do Diário Catarinense. 2. Imagem desta edição: Dan Aykroyd e John Belushi, os Bluebrothers, um sarro em cima da pose.

22 de junho de 2009

O POETA COMO PERSONAGEM


Nei Duclós

Há o nerudismo, em dois vetores. Um, o épico, em que você faz gestos largos e tem a voz tremida quando canta nuestramerica. Outro, o íntimo, em que o crepúsculo se deita como um cachorro a seus pés. O épico,depois da luta, recolhe-se em frente ao mar, a apascentar leitores a distância. Lá ele cultiva lembranças, como o tempo em que tentou ser pragmático, quando celebrava a cebola e lamentava jamais ter construído nada com as mãos, nem mesmo uma vassoura. O íntimo migra para o apaixonado, o amante viajador. Ambos usam boné, imitado por todo mundo. É uma estranha compulsão. Parece que ao chegar a idade mais avançada, corre-se ao boné nerudiano de maneira obsessiva e misteriosa. Por que as senhoras idosas pintam o cabelo de azul? É tão enigmático quanto usar o boné de Neruda.

Outra persona é o poetinha, que tem Vinicius de Moraes como modelo supremo. Bebe uísque na banheira cheia com espuma, toma todas até amanhecer, quando sai de porta em porta pelas casas dos compositores a providenciar letras, como se fosse (o achado é dele) um “letreiro”, espécie de leiteiro-poeta. O poetinha é quase um Villa-Lobos, que ia ao concerto de chinelo por sofrer de gota. Fez carreira na diplomacia, mas esnoba. É amigo de figuras populares. Trata todo mundo no diminutivo. Quando a crise aperta, faz shows. Levanta o copo para a platéia e saúda: saravá! O poetinha é o tipo inesquecível que todos querem passar a mão na cabeça. Mas ele morde.

João Cabral foi o anti-poeta, com sua anti-poesia, escrita de fora para dentro, a partir do andaime até chegar ao reboco. O poeta cabralino sofre de enxaqueca, tartamudeia nas entrevistas e se esconde a maior parte da vida em lugares ermos, como se fosse nosso homem em Havana antes da revolução, ou um cônsul em Angola avesso às guerras, um adido no Senegal, vestindo linho branco. Em Sevilha, vai a touradas. Mantém a luz lorqueana e às vezes até sua música, mas, paradoxalmente, não faz concessão a elas. Gosta de ser comparado a um engenheiro e usa terno e gravata o tempo todo. Quando era chefe de gabinete do MEC, Drummond de Andrade tinha uma persona cabralina, apesar de chamar de “essas coisas” a poesia de João Cabral.

O poeta do avesso é diferente do cabralino, que é uma figura da alta burocracia. O poeta do avesso é como Quintana, que trabalha para sobreviver e acaba vivendo de favor. Passa a maior parte da vida tentando mostrar que o poeta é diferente do que dizem, não é condoreiro como Neruda, ou íntimo como o poetinha. É uma espécie de boêmio diurno, a caminhar a esmo por ruas sem sentido, meio de banda, carregando os mortos, e olhando o azul das venezianas. Não se identifica com nenhum ethos regional ou nacional. Nasceu na lua, vive ao Deus Dará. É reconhecido só depois dos setenta anos, mas, como Quintana, implora que não o chamem de septuagenário.

O herdeiro é outro tipo de poeta. Ele é uma espécie de substituidor de talentos. Ocupa o lugar do seu ídolo e, ao contrário deste, acaba na Academia. Tenta se diferenciar caindo no Mesmo, usando o boné de Neruda ou secando sua poesia até o osso. Não pode ser confundido com qualquer leite derramado. Cerebral, foi por um tempo o queridinho dos estudos de pós graduação literária. Hoje acumula uma obra de uns cem títulos e espera ser lembrado no minuto seguinte ao seu desaparecimento, o que é altamente improvável.

Há o poeta cool, que tira fotos sentado no chão encerado da biblioteca do seu apartamento nos Jardins. Representa o Brasil, apesar da pouca idade, em eventos internacionais. Tem um pé virtual em Nova York e um pé real no engarrafamento. Cita os clássicos. Gosta de poetas eruditos desconhecidos. Superou o leminskismo, o trocadilho que fica insosso na segunda leitura. Agora quebra o verso até virar uma pasta disforme. Prefere a sílaba à palavra. Cala mais do que escreve. Isso na poesia. Nos tratados, é boquirroto. Sabe tudo e mais um pouco.

O poeta pobre é o mais comum. Por falta de recursos, emprego ou patrocínio, não consegue ir ao Flip tomar umas birras. Não é convidado para eventos. Não ganha o suficiente para negociar publicações. Mora em meio a gavetas e é considerado um desperdício. Espécie de extra-terrestre consentido, é tido como bôbo pelas pessoas realmente próximas . Cresce sob essa suspeita. Quando chega à idade adulta, confirma o escrito e só faz bobagens. Como poesia, por exemplo.

RETORNO - Imagem de hoje: o legítimo e genial Pablo Neruda.

21 de junho de 2009

RETORNOS DE LEITORES ATENTOS


Estou acumulando agradecimentos às pessoas que tem me escrito comentando textos, fazendo análises, dando retornos variados para o escriba veterano, que assim não se sente isolado aqui no ermo, onde a coruja pia e o inverno aporta ao redor de um mar gelado, dias azuis ou cinzentos, ventos esporádicos, quietudes. Antes de mais nada, destaco a ilustração acima, que acompanha meu texto Separatismo, publicado neste domingo na revista Donna DC, do Diário Catarinense.

Por falar em Diário Catarinense, o Diário da Fonte saúda o editor-chefe Claudio Thomas, que volta para sua Porto Alegre querida. Ele me enviou o seguinte e-mail: “Depois de 11 anos, deixo o Diário Catarinense e assumo novos desafios profissionais no Grupo RBS. Serei o editor-chefe do Diário Gaúcho em Porto Alegre, a partir do dia 23 deste mês. Obrigado pela constante colaboração com o DC. abraços Claudio Thomas Editor-Chefe.” Thomas é um jornalista sério, competente, compenetrado e excelente anfitrião: me recebeu, junto com o editor de Variedades, Dorva Rezende, de braços abertos no jornal.

Separatismo recebeu o seguinte comentário do escritor, poeta, cronista Olsen Jr., o talentoso viking das letras catarinas: “Olá, Nei, salve!Engenhosa e brilhante a crônica de hoje, revista Donna, no DC...Congratulações!” Olsen faz parte de um projeto comum que vai dar o que falar. Hoje estou meio misterioso.

Do leitor T. Ludovico, médico, publico trecho da sua mensagem: “Parabéns pela reportagem, gostaria de incluir minha posição quanto ao assunto, sou espiritossantense da cidade de Colatina e confesso que me emocionei ao ler a matéria,pois sou "viciado " em BRASIL. Tudo que está contido nesse texto me interessa. Tenho ouvido conversas que remetem ao termo desde que separatismo interessaria apenas aos estados da região sul, assunto que graças ao bem da soberania nacional , tem reduzido bastante. Hoje mesmo ouvi impropérios contra José Sarney, relatado como "nordestino safado", seria um péssimo exemplo para o país.Nossos valores não podem deixar de ser levados em consideração, pois somos muito fortes desde que considerados como um todo".

Do poeta Alcides Buss, sobre minha crônica Frio, de terça-feira passada: “Caro Duclós: Gostei de ler sua crônica de hoje no DC. Nos meus tempos de guri, no rigoroso frio do oeste paranaense, o melhor agasalho era o sol, quando aparecia. Quando não tinha sol, e ainda por cima se estivesse chovendo, aí era de lascar! Abraço, Alcides.“ O poeta Alcides reúne as qualidades do poeta importante e fecundo com a gentileza em pessoa.

E, quase todo dia, alguém posta uma edição do DF em algum lugar. Mario Medaglia colocou no seu blog Batendo Forte a crônica Separatismo, Sergio Rubim o texto sobre a valorização do diploma de jornalista, Juliana Meira publicou no seu blog o poema Cofre, Orlando Lago, que colocou vários poemas meus na comunidade Poesia e Luz, do Orkut, gostou de Trapézio, que publiquei dias atrás. É muita coisa. São muitas dádivas de leitores e das amizades que vou fazendo ao longo da rede. Nos meus scraps ou recados do Orkut, então é brincadeira. Dá um quilômetro de retornos, principalmente sobre meu verso de Outubro, “quero um sorriso que dure uma quadra e dobre a esquina a iluminar-me.”

De Miguel Ramos, ator maior, citando frase de um poema publicado aqui: “..a indiferença cobria o mundo de porcelanas e imundície . Confesso que não tenho nada a declarar. Está tudo declarado. Deflagrado. Che, tu estas cada dia pior de tão melhor. É assustador.”

Mas tem muito mais. Tenho me correspondido com Getulio Vargas Valls, que, descubro agora, é filho do grande prefeito uruguaianense Íris Valls, aquele que transformou minha cidade num esplendor de administração publica. Íris, que morreu de enfarte em 1962, logo depois de ter sido escolhido para assumir o cargo de prrimeiro prefeito de Brasilia (imaginem Brasilia nas mãos deste homem!) era casado com a Professora Maria Eva, que me alfabetizou. Isso vai dar um samba danado, que depois conto com detalhes. Só para adiantar: em 2009 comemoramos - nós, o povo brasileiro - o centenário de Iris Ferrari Valls, um estadista do Brasil Soberano. Aguardem.

Falei que eu estava meio misterioso.

BATE O BUMBO

Leia o poema "O tempo que dura o aplauso", de Julio Conte: "Lembrei de uma apresentação de uma peça minha em Buenos Aires quando o público aplaudiu mais de dez minutos. Foi neste momento, na reclusão da igreja, que percebi isso, que a vida dura o tempo de um aplauso. O tempo de um reconhecimento. O tempo da reverência."

20 de junho de 2009

O QUE O IRÃ NOS ENSINA


Nei Duclós

Não há democracia sem eleição direta, mas eleição direta não garante a democracia. Ditadores adoram eleições. Servem para justificar o poder ilimitado e colocar a culpa nos votantes. Qual o modelo de democracia no mundo? Os Estados Unidos, claro. Você conhece algum presidente americano que não seja democrata ou republicano? Não passa de uma gigantesca república café-com-leite, onde dois partidos se revezam para manter a continuidade da política imperial. Adolf, o austríaco nazista, foi eleito pelo voto direto. Assim como o atual presidente iraniano.

Se o Ahmadinejad desempenhasse seu papel com lisura nas eleições, quando em tese teria recebido 62% dos votos, não haveriam gigantescas manifestações, violentas, ameaçando a estabilidade do país. O atual estágio do Irã nos revela um país surpreendente. Eu acreditava, na minha ignorância habitual (plantada pela modorra do noticiário ) que se tratava de uma espécie de Coréia, onde os donos do poder se eternizavam no trono. Só a existência de um aitaolá que paira sobre as nuvens, ou seja, tem mais poder do que os eleitores, nos diz bastante sobre a situação. Mas vemos que o Irã é uma nação com uma gigantesca oposição militante, que foi à forra depois que os resultados vieram à tona, boiando como coisa morta na superfície da opinião pública alarmada.

É sintomático que o presidente Lula tenha feito pouco desse enorme movimento de massas, que pode ser comparado à pressão popular contra o Xá, antes de o país virar uma república islâmica. Lula acha, assim como o aitolá Khamenei, que não tem de chorar sobre leite derramado, que aos vencedores as batatas do poder. Ou seja, o resultado que as comissões eleitorais extraem das urnas é sagrado e não se pode contestar essa ação humana, e portanto aberta a falhas. Com o assim, o resultado é sagrado, não pode mexer? E se o resultado foi fraudado, como tudo indica que foi? E por que é sintomático que Lula tenha apoiado o presidente reeleito dessa forma tão contestada?

Porque aqui temos algo semelhante, uma ditadura que usa as eleições para se perpetuar. A militância trabalhista tem falado como foi fraudado o resultado das eleições presidenciais de 1989, quando tiraram de Brizola o direito de assumir o Planalto e colocaram Lula e Collor na final, com evidente vantagem para o presidentinho que tungou todo mundo. Notícias de fraudes existem, mas jamais são apuradas de maneira devida. Fica um diz-me-diz-que, uma onda do rádio peão. Ninguém vai a fundo ver, ninguém “recrama”. É porque temos uma oposição pulverizada contra a ditadura. A ferida aberta do trabalhismo, a força política assassinada e insepulta, é apenas um aspecto dessa insurgência surda, que acaba gerando defecções pífias como o Psol ou o PSTU.

Não temos, como no Irã, um consenso de oposição capaz de fazer os ditadores se arrependerem de brincar de democracia. Aqui no Brasil tivemos um exemplo nas eleições de 1974, quando os senadores de oposição ganharam em quase todo o Brasil, fazendo o poder tremer. Lembro até hoje o Correio do Povo, de Porto Alegre, ostentado a foto de Paulo Brossard, acenando com o chapéu de feltro (num gesto típico de Primeira República), enquanto a manchete dizia: “MDB lidera eleições em todo o país”. Não foi o início do fim da ditadura, mas de sua auto-superação. Foi um susto que os ditadores aproveitaram para se recuperar logo em seguida, providenciando a anistia para os torturadores, o longo mandato de Figueiredo (para preparar o terreno do continuísmo), a derrota das diretas-já no Congresso, a morte de Tancredo Neves e a eleição de José Sarney.

Agora é moda chutar Sarney, mas foi a imprensa que incensou essa ditadorzinho metido a estadista. Tanto é que ele há anos é colunista da Folha. A porção britânica da mídia brasileira fez uma análise sobre o Sarney colunista do jornalão. Tarde piaram. A crônica política precisa se desvencilhar da imagem bem comportada do analista consentido, que fala elegantemente nas entrelinhas, uma herança da fase áurea da ditadura civil-militar. É preciso desmascarar esse bom mocismo bem pensante que bate uma no cravo e outra na ferradura, conforme se movimenta a biruta.

É preciso aprender com o Irã. Democracia não é só eleição. É também povo na rua para virar o jogo das eleições fraudadas. E também uma oposição de texto engajado e não apenas olímpico, como se o sexo dos anjos fosse o tom apropriado para lidar com eventos que matam gente e destroem gerações.

RETORNO - Imagem de hoje: o presidente do Irã, submisso ao poder teocrático (ou seria o contrário?). A foto tirei daqui.

18 de junho de 2009

DIPLOMA DE JORNALISTA SERÁ VALORIZADO


Nei Duclós

Há uma explosão indignada contra o STF, que extinguiu a obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo. Gente dizendo que vai pedir indenização, que se sente ludibriada, acusando os ministros togados de irresponsabilidade, que vai jogar o diploma no fundo do armário, doar para museu etc. São reações naturais, mas é uma pena que a fúria substitua a razão. Acho que vai acontecer exatamente o contrário: o diploma será enfim valorizado. Vou dizer porquê.

Primeiro, acaba a fabriqueta de faculdades de comunicação. A obrigatoriedade serviu para que proliferassem inúmeras instituições voltadas para o ganho fácil dos seus donos, oferecendo uma formação ineficiente. O que garantia o negócio era o diploma obrigatório, passaporte para uma atividade reconhecida e remunerada. Haverá um natural enxugamento e sobreviverão apenas aquelas que realmente estão preparadas para formar jornalistas. É hora de o governo intensificar os investimentos nas boas faculdades do ramo, como a da UFSC aqui de Florianópolis e, acredito, a ECA da USP.

Pois os empregadores vão valorizar os diplomados num sistema enxuto e altamente qualificado, já que o fim da obrigatoriedade vai dispersar os aventureiros, ou seja, os fabricantes de diplomas fajutos. Lembro que fui editor de focas que jamais tinham lido um livro. Mas também de recém formados no rumo da erudição, preparadíssimos. Tudo depende da instituição séria, que sairá fortalecida.

Ao contrário do que todos temem, não haverá um avanço de aventureiros na carreira. Trata-se de um trabalho complicado, que depende de vocação, de preparo. Exige fôlego, determinação, dedicação. Não é qualquer um que passa na peneira. Quem tem formação específica poderá se impor, se sobressair. Acho que aventureiros existiam até agora. Havia muito burro diplomado. Gente despreparada, de canudo na mão, tirava o lugar de outras pessoas, inclusive diplomados.

Não se trata de otimismo a qualquer preço. O jornalismo passa por uma fase decisiva. O que está sendo ameaçado no jornalismo não é sua essência, mas seus equívocos. Acredito que o jornalismo como gênero (sério) literário voltará com tudo. Acho que o jornalismo de mãos dadas com a formação acadêmica tradicional, como história, economia, engenharia, nos ajudará a dar novos saltos. O que pega agora é competência e isso uma boa faculdade pode proporcionar.

Então, meus queridos alunos, professores, colegas: nada de pânico. O STF prestou um serviço, não porque tenha clareza sobre tudo isso, mas porque foi o instrumento para uma atividade que será valorizada. Ter diploma de jornalista, de agora em diante, será para valer. Quem vai querer passar por esse crivo para um nicho que não exige diploma? Só mesmo nós, os ursos que jamais se extinguem.

Eu deixei os bancos escolares do jornalismo quando ele era apenas um curso, que foi ferido de morte em 1968, no AI-5. Era ruim e ficou pior com a repressão. Não achei ético continuar. Acabei me formando em História. Mas se tivesse 18 anos, iria prestar vestibular para jornalista. Como eu fiz, quando tinha 19 anos e ninguém valorizava essa formação acadêmica, ainda no seu início.

17 de junho de 2009

BRIC A BRAC DO APOCALIPSE VIRTUAL


Nei Duclós

Que fim deram os observadores internacionais? Como não há resposta tangível (no google) resolvi ir até uma obscura taberna situada nos arredores de Istambul. Uma visita virtual, claro, via Voip, pois todos sabem que Istambul só existe em livros antigos de aventuras. Descobri que eles bebem absinto e relembram os bons tempos dos anos 70, quando eram capazes de mudar o mundo com apenas algumas frases. O assunto do momento era os Bric, sigla criada em novembro de 2001 pelo economista Jim O'Neill, do grupo Goldman Sachs, que colocou no mesmo saco os quatro principais países emergentes do mundo, Brasil, Rússia, Índia e China. Eles ficaram impressionados quando souberam que o grupo Sachs mapeou as economias dos países Brics até 2050. Baseados nisso, eles resolveram criar os Bracs.

Os Bracs reúnem quatro países nada-a-ver que poderão sobreviver a um iminente apocalipse virtual. São eles: Barbados, Ruanda, Andorra e Cazaquistão. São nações que obedecem aos parametros necessários para definir uma posição oculta e cheia de significados. Barbados é o país mais oriental das Caraíbas, situado a leste da área conhecida como Índias Ocidentais (ou seja, é puro século 17, com piratas e tudo). Ruanda é um pequeno país montanhoso da África, encravado entre o Uganda, a norte, a Tanzânia, a leste, o Burundi, a sul e a República Democrática do Congo, a oeste; sua capital é Kigali (“encravado” mata a pau). Andorra é um pequeno país europeu localizado num enclave nos Pirineus (enclave é fundamental). Cazaquistão é fundamentalmente asiático, embora também inclua uma região européia entre o rio Ural e a fronteira russa (nada mais misterioso do que “fundamentalmente asiático”).

Os observadores internacionais, fazendo suas projeções usando velhos ábacos e infográficos coloridos tipo Newsweek, e em preto e branco tipo Economist, profetizam que os Bracs, por não disporem de banda larga, poderão continuar existindo, enquanto o resto do mundo irá travar miseravelmente. Pensem com os grandes eruditos confinados na taberna de Istambul. As profissões todas acabaram, com exceção dos passeadores de cachorro e os arrastadores de ferro. Esses não podem ser substituídos pelos blogs. No mais, é o que vemos. Não temos mais jornalistas, economistas, professores, burocratas, estadistas, engenheiros, médicos. Só temos blogueiros. Isso significa o fim da espécie humana.

Não adianta mais fazer qualquer consulta, basta acionar a ferramenta de busca. É inútil produzir qualquer coisa que preste, voce não vai mais ganhar dinheiro com isso. Desista de ser ator, os personagens avatares já são uma realidade. Promotor de eventos? Não me faça rir. As pessoas hoje vivem nos estandes virtuais fazendo negócios. E quais negócios? Poucos restaram e em questão de meses não haverá quase nenhum, pois tudo está sendo devorado pelo apocalipse virtual. É um travamento total da realidade. Ninguém mais vive. Só falta terceirizar a respiração, já que comer virou horário de novela faz tempo. Janta-se na novela das seis.

Mas toda essa tragédia, segundo os observadores internacionais, não será visível, ou não acontecerá, como queiram, nos Bracs. Os países que são enclaves encravados a leste das Indias Ocidentais, ou que são fundamentalmente asiáticos, mesmo tendo uma pequena porção européia limitada pelo rio Ural, terão grandes chances então de se desenvolverem. Só deverão ter o cuidado de não implantar a banda larga entre eles. Será o fim, e irão para o brejo da mesma forma que os Brics, que exibem estadistas que se abraçam confiantes num futuro incerto.

No bric a brac da vida, será possível no futuro continuar vivendo desses pequenos badulaques que fazem a vida uma realidade. Um canivete suíço, um pião usado, uma pandorga sem rabo, um velho LP do Sinatra, um toca-discos com a agulha rombuda, uma carta de amor sem destinatária, uma caixa de bombons rasgada, uma flor amassada entre livros de amor. Será nossa salvação, essa de frequentar lugares atulhados de coisas inúteis e maravilhosas, mas concretas, que se possam pegar, cheirar, provar. E que façam barulho quando jogadas no chão.

RETORNO - 1. Imagem de hoje: obra de Tavik František Šimon (1877-1942), artista tcheco, do acervo do The British Museum em Londres. 2. Meu amigo internacional Osmar Freitas Jr. me telefonou ontem a tarde de São Paulo, quando tentamos colocar em dia uma conversa acumulada de vinte anos. O texto acima foi inspirado nesse papo proveitoso. Osmar é um dos maiores talentos do texto pátrio e mora em Nova york, onde está estabelecido com a família. Prometeu uma visita para definirmos ao vivo os rumos do jornalismo mundial e o futuro da humanidade.

16 de junho de 2009

FRIO


Nei Duclós(*)

Inverno exige uma resposta à altura. Para quem nasceu no Brasil profundo – a fronteira entre uma civilização possível e a natureza bruta – era necessário refugiar-se nas peles dos animais. Lembro do grande couro estendido na sala, único lugar possível para brincar no chão. Ou do grande pelego de ovelha, trincheira contra as madrugadas polares batidas pelo vento. Ou ainda as campeiras, grossos casacos que cobriam costas e peitos; as meias e calças de lã, que devolviam vida a pernas e pé condenados ao congelamento; e as boinas, que tiravam os cabelos do relento.

Os grossos cobertores forravam as camas quando nos recolhíamos precocemente aí pelas nove da noite, depois das narrativas dos adultos, veteranos de guerra. Na cabeceira, um rádio salvador despejava música de todas as nações. Vivíamos na diversidade cultural. Não havia ainda o ganho de escala a qualquer custo, esse que, a exemplo das plantações de banana, produz em série o providencial baticum ou a abobrinha datada.

Existia também a margem para leituras, de preferência Monteiro Lobato, com as ilustrações inesquecíveis de Le Blanc, que nos levavam no dorso do rinoceronte para a Grécia Clássica. A insônia, rara, era povoada de histórias pessoais, inventadas entre faroestes e namoros. Não cobiçávamos estrelas de cinema, mas as beldades do burgo, esplendorosas em sua graça inatingível.

O frio era um acontecimento matinal, de geada cobrindo o campo de futebol do colégio, onde exercitávamos a ginástica sueca sob as ordens de um severo sargento do Exército. Os movimentos brutos antecediam um jogo de vale-tudo, território seletivo para futuros torneios e medalhas. Na manhã rósea e azul, ainda não ocupada pela claridade total do sol de junho, orelhas vermelhas recebiam o castigo aplicado com réguas afiadas, manipuladas por grandalhões prevalecidos.

Éramos vítimas do frio, naquela época de casacos de pele que enfeitavam as senhoras distintas. Gostávamos de abrir os armários para passar a mão no vison hoje condenado pela militância. Aquele gesto carinhoso na pele que dava charme e glória a quem a usava faz parte do acervo abandonado do frio de outros tempos. Quando éramos crianças, ou seja, bichos em plena temporada de provações, quando cultivávamos a esperança da próxima primavera.

RETORNO - 1. Imagem desta edição: quadro de Juliana Duclós. 2. (*)Crônica publicada neste terça-feira, dia 16 de junho de 2009, no caderno Variedades, do Diário Catarinense. 3. Ida Duclós mostra como os açorianos aprenderam com os índios a pescar, a comer, a viver na ilha de Santa Catarina. Trata-se de uma edição do seu magnífico blog com trechos de relatos antigos sobre como os indígenas pegavam as tainhas no nosso litoral, entre outras atividades. Aviso aos navegantes: ao postarem sobre o mesmo assunto, por favor não esqueçam do crédito (Ida Duclós). A pesquisa e a elaboração do texto dão o maior trabalho.

FRIO

Nei Duclós(*)

Inverno exige uma resposta à altura. Para quem nasceu no Brasil profundo – a fronteira entre uma civilização possível e a natureza bruta – era necessário refugiar-se nas peles dos animais. Lembro do grande couro estendido na sala, único lugar possível para brincar no chão. Ou do grande pelego de ovelha, trincheira contra as madrugadas polares batidas pelo vento. Ou ainda as campeiras, grossos casacos que cobriam costas e peitos; as meias e calças de lã, que devolviam vida a pernas e pé condenados ao congelamento; e as boinas, que tiravam os cabelos do relento.

Os grossos cobertores forravam as camas quando nos recolhíamos precocemente aí pelas nove da noite, depois das narrativas dos adultos, veteranos de guerra. Na cabeceira, um rádio salvador despejava música de todas as nações. Vivíamos na diversidade cultural. Não havia ainda o ganho de escala a qualquer custo, esse que, a exemplo das plantações de banana, produz em série o providencial baticum ou a abobrinha datada.

Existia também a margem para leituras, de preferência Monteiro Lobato, com as ilustrações inesquecíveis de Le Blanc, que nos levavam no dorso do rinoceronte para a Grécia Clássica. A insônia, rara, era povoada de histórias pessoais, inventadas entre faroestes e namoros. Não cobiçávamos estrelas de cinema, mas as beldades do burgo, esplendorosas em sua graça inatingível.

O frio era um acontecimento matinal, de geada cobrindo o campo de futebol do colégio, onde exercitávamos a ginástica sueca sob as ordens de um severo sargento do Exército. Os movimentos brutos antecediam um jogo de vale-tudo, território seletivo para futuros torneios e medalhas. Na manhã rósea e azul, ainda não ocupada pela claridade total do sol de junho, orelhas vermelhas recebiam o castigo aplicado com réguas afiadas, manipuladas por grandalhões prevalecidos.

Éramos vítimas do frio, naquela época de casacos de pele que enfeitavam as senhoras distintas. Gostávamos de abrir os armários para passar a mão no vison hoje condenado pela militância. Aquele gesto carinhoso na pele que dava charme e glória a quem a usava faz parte do acervo abandonado do frio de outros tempos. Quando éramos crianças, ou seja, bichos em plena temporada de provações, quando cultivávamos a esperança da próxima primavera.




15 de junho de 2009

CAMANGAS E AMAGADAS


Nei Duclós

Camanga todo mundo que nasce entre o rio Ibicuí e o Uruguai sabe: é quando o mocinho consegue amagar os bandidos. Vou dar um exemplo clássico do Gene Autry. Todos nós acreditamos que o grande cowboy cantor tinha enfim se estrepado. Ele estava tocando seu banjo ou guitarra na cadeira de balanço na varanda. Os malfeitores vieram pelas costas e atiraram nele várias vezes. Deu então “episódio”, ou seja, o curta metragem acabou, apareceu a chamada “cenas do próximo episódio” e só iríamos saber o destino do herói no domingo seguinte. Ninguém apostava mais um vintém furado nele.

Quando chegou o dia da sessão esclarecedora, ficamos sabendo de tudo. O esperto Gene Autry tinha colocado um boneco com um violão atravessado no peito, um chapéu largo na cabeça, e cantava como um ventríloquo, a distância, para tornar convincente sua artimanha. E como a cadeira de balanço se movimentava, dando impressão da mais completa entrega aos prazeres da arte country naquele momento supremo do entardecer no deserto? Simples, nosso mocinho puxava uma corda e fazia o troço ficar tão parecido com a realidade que chegou até a amagar a nós, vivarachos espectadores das matinês.

Baita camanga, a mais bem bolada de toda a história dos faroestes z. Tremenda amagada, pois a corja tinha descarregado seus revólveres e ficaram à mercê de Gene Autry no segundo seguinte, para delírio de nossas palmas e pontapés nas cadeiras desferidos de forma sincopada, fazendo tremer o cine Corbacho (ou seria o Carlos Gomes?). Foi assim que, como os leõzinhos na savana, treinávamos para a vida adulta. Ficamos especialistas em camangas, mas o mistério é que só levamos amagadas.

Vejam o caso do José Sarney. Na hora em que ele se queimou no Maranhão, amagou os eleitores do Amapá e se reelegeu para sempre senador da República. Baita camanga essa de trocar o domicílio eleitoral. Depois, foi fácil: simplesmente distribuir santinhos ao lado do pobre do Papa e posar de grande estadista da redemocratização, quando não passou de fundador da ditadura civil. O Brasil amaga até o Papa. Não há camanga do Vaticano, nem da Máfia, que dê conta. Aliás, como notou Mino Carta, o único lugar onde a máfia siciliana se dá mal é no Brasil, porque aqui a máfia local não suporta concorrência.

Outra tremenda camanga é a que amagou o Noblat na edição de hoje do seu festejado blog. Noblat invoca o exemplo dos japoneses que, pegos em flagrante de corrupção, acabam lavando a honra com o suicídio. Akira Kurosawa já provou, no seu filme de 1960, The Bad Sleep Well, comentado aqui, que a máfia japonesa obriga os executivos e as autoridades, que são desmascarados, a se suicidar. Portanto, não há nenhum mérito no ato extremo. É puro assassinato. Os japas amagam todo mundo com suas camangas.

Mas a maior camanga de todas foi a do tucano-petismo. O tucanato surgiu como ordem moral contra a podridão do PMDB e acabou entregando o país de mão beijada, em troca de algumas propinas e títulos universitários. O petismo não quer sair mais do poder e já está pensando naquilo que condenava em Getúlio, o continuísmo. Ambos enfeixaram a indignação popular contra a ditadura e se transformaram em agentes da ditadura. Foi uma camanga eleitoreira, a maior amagada da história mundial. Claro que eles foram mais sofisticados do que o Collor, que fez sumir o dinheiro da conta corrente e da poupança – depois, claro, integralmente devolvido (!).

A verdade é que todos esses camangosos nos amagaram de verde e amarelo. E hoje sentimos saudades do tempo do faroeste. Pelo menos os mocinhos venciam no final.

RETORNO - 1. Imagem desta edição: Gene Autry. Atenção: pronuncia-se autri mesmo, de au-au, e com tri de Petry, Gessy. E não "ôutryi", com cuspidinhas gringas no final. Depois de pronunciar corretamente Gene (de gêne mesmo, nada de "giini") Autry, puxe as calças e dê uma fungada feia. É para prevenir: vai que algum engraçadinho ache estranho um cow-boy tocador de violão. 2. Este post me foi inspirado pelo comentário do uruguaianense Flavio Lago, que resuscitou o verbo amagar, de uso corrente nos anos 50.

14 de junho de 2009

FLAGRANTE


Nei Duclós

Não peço desculpas pelo atraso
Nem pelo caldo, folia de Reis
na serra do Espinhaço, turismo
de sal na areia depois das seis

Não faço de conta que passo
Que desisti na hora do salto
Pedras sem som de arremesso
Ruído de abismo e desespero

Ritmo de roedor no cadafalso
Música aleatória, palimpsesto,
Destino na brasa do cinzeiro

Tudo faz sentido ao despertar
atrás do espelho, rapa de feira
sarro pelo avesso, moço, velho

RETORNO - 1. Poema inédito, feito neste domingo. 2. Imagem desta edição: foto de Ida Duclós, antrópologa formada pela USP, que no seu blog Feriasfloripa está inovando na abordagem das inúmeras manifestações aqui da ilha. Já surgem epígonos - muita gente indo atrás, sem dar o crédito. É bom lembrar quem está abrindo caminho e tirando os assuntos desta parte do Brasil do ramerrão e da mesmice.

13 de junho de 2009

VAMOS DANÇAR?


Nei Duclós

Alto demais para idade, pé 44 antes da hora, calça quase de pular sanga com bainha italiana, casaco apertado de cor diferente, meia branca, cocoruto pelado saltando dele um pelincho, gomina Glostora no topete, nada disso importava. O baile ou a reunião dançante eram eventos democráticos. Você poderia tentar tirar para o meio do salão a musa do colégio do Horto, o das gurias. Ela até poderia rir, mas pelo menos uma volta dava com você, que teria assunto para mais de um mês, só para falar do cheiro dela, dos passos que se desencontraram e, milagre, dos corpos que se entenderam desde o primeiro acorde. Poderia virar namoro. Naquele tempo, o coração agüentava.

Era bem mais prático do que a atual balada, onde a abordagem é mais complicada, pois não se tira alguém para dançar, nem existe espaço para o bate-coxa. É cada um por si na geléia geral das mãos ao alto. Há êxtase antes da hora, e não um ritual mais apropriado à realidade emocional, ou seja, a timidez, a natural distância entre pessoas desconhecidas e de sexos diferentes. Tem que ser aceito na mesa onde ela se encontra e é constrangedor se acomodar numa roda que não lhe pertence.

A dança, ao contrário, não era coletiva e sim exclusiva a dois. Falando claro: dava para agarrar a moça no primeiro segundo e todo mundo achava natural. Era assim que se dançava. Algum acontecimento sinistro fez com que os casais se desgrudassem na hora do bem bom e hoje o que existe é exibicionismo individualista expresso em passos redundantes, mas com pose de originais. Dois para lá e dois para cá eram o cúmulo da sofisticação. Bem melhor do que dois mil para qualquer lado.

Havia um ranking de tempo que revelava sua performance com elas. Se pediam licença só aí pela quarta música, era um feito. Se ela quisesse ficar contigo o baile inteiro, já era quase um noivado. Mas o mais difícil era a conversa. No fundo, o agarro não definia o laço na prenda e sim a conversa, mistura de sinceridade com estratégia. Você não poderia improvisar tudo, mas também não podia cair nas armadilhas dos lugares comuns como “vem sempre por aqui?”. Essas coisas podem provocar gargalhada hoje, época da gravidez precoce e da ficaria geral. Mas aproximar-se de alguém era bem penoso.

Havia olheiros, testemunhas, guardas. Irmãos, que você, se fosse folgado e garantido por algum grandalhão ou turma de meliantes, poderia chamar de cunhados. Pais: senhoras de coque alto e colar de falsas pérolas, sisudas como seus consortes; senhores barrigudos e com uma perna de lado, para dar espaço para algum trabuco. E amigas, as arroz de festa que estragavam tudo arrastando o objeto de desejo para longe.

Outro lugar de caça para incompetentes no namoro como eu era a praça. No fute, as gurias olhando para os caras encostados nos automóveis (nós, os abombados de plantão) pediam acompanhamento. Um flerte na praça poderia evoluir para um aperto de coração apressado e um calor nos lugares certos. Havia mais emoção do que simplesmente passar a noite olhando para as gatas sem poder chegar, porque não existe nada organizado.

Vejo as matérias e todas se queixam de que falta homem sério na balada. Não pode haver gente séria num evento que não é sério. O baile era a ponte entre os gêneros consentida, onde se encaminhavam os relacionamentos duradouros. Havia, claro, os lances de fugir para o carro ou um hotelzinho barato. Mas o grosso da tropa obedecia aos trâmites legais. Um bate-coxa básico poderia evoluir para o namoro no portão, depois uns agarros no sofá e finalmente o casamento com o 38 encostado na nuca. Coisa civilizada.

Hoje o pessoal engravida e fica tudo por isso mesmo. Sai até casamento, mas não dura, pelo que vejo nas reportagens (posso estar enganado). É preciso que haja algumas barreiras para a coisa dar certo. A falsa liberalidade no fundo é prisão. A organização antiga, tida como um cárcere, revela-se hoje, vista à distância, como fruto de uma longa elaboração. Foram muitas gerações até se chegar à solução que encontramos na adolescência. Mas achamos que estava tudo errado e explodimos tudo. Não deu certo.

É por isso que minha mãe gostava de mostrar as fotos do filho poeta revolucionário envergando um smoking caprichado, nos bailes de gala, e de cabelo curto. Dizia: “Esse é o guri que eu criei, diferente do cabeludo que vocês conhecem”. Mãe sabe tudo.

RETORNO - A imagem desta edição tirei daqui.

11 de junho de 2009

O SOM DO TECLADO


Nei Duclós

Havia um piano na minha casa, fazia parte da formação das moças. As teclas pareciam de marfim, brancas e pretas, de onde jamais tirei som que preste, nem mesmo um bife básico. Ao redor do piano vinham de fora as sanfonas, manipuladas com estardalhaço por talentos reconhecidos na cidade. A cascata de teclas me confundia ainda mais. Como podiam acertar as notas com tanta oferta para os dedos? Música sempre foi um mistério para mim. Acabei ganhando a vida no teclado mais banal, o das máquinas de escrever.

Há uma mística sobre as velhas Olivetti. Mas batucar nas pretinhas era um exercício de várias marcas. Lembro que por mais de uma vez martelei em antiqüíssimas Underwood, além das Remington de vários calibres. A gurizada de hoje que desliza as mãos para produzir em massa vai rir quando souber como eram as máquinas de escrever na Folha de S. Paulo. As mesas eram de fórmica e o monstro do teclado estava embutido nelas. Para produzir o texto, era preciso puxar a maçaneta que o mecanismo funcionava: do ventre da mesa saltava a ferramenta de uso diário.

Depois do rec rec e do tec tec intermináveis para desovar matérias ou fechamentos (título, olho, legenda, etc.), o que gerava um lixo considerável de laudas jogadas fora, acionava-se de novo o mecanismo para que a máquina voltasse ao ventre da baleia. Assim, com a mesa desimpedida, passávamos a caneta nos textos, antes de enviar para as oficinas. Funcionava assim: em cima das mesas, havia potes de goma arábica. Servia para colar as laudas uma na outra. Eram tripas enormes, conforme o tamanho da matéria.

Você enrolava a coisa, fazia um canudo com aquilo e gritava para o office-boy: desce! O rapaz então vinha e levava até o centro da enorme redação, e jogava dentro de um orifício, que era o bocal de um cano curvo, comprido, que se dirigia aos porões. O canudo de papel deslizava para lá, onde os gráficos compunham a sua obra em letrinhas da composição. No primeiro dia de Folha, recém vindo dos pampas, não tive dúvida. Gritei: Baixa! , o que provocou gargalhadas por alguns meses. Sempre me perguntavam como estava o baixamento.

É preciso dizer essas coisas, pois irão se perder e ninguém vai mais atinar como tudo funcionava. Os teclados faziam o som das profissões em plena atividade. Os locais de trabalho era os escritórios, lugares onde se escrevia. Trabalhar, durante toda minha vida, sempre foi escrever. Se você está escrevendo no escritório, está trabalhando. Havia pose nos veteranos, que teclavam com a espinha reta, quase olhando para o infinito. Era um jeito cool de se mostrar, exclusivo para quem era observado, estrelas do ofício.

Mas havia os mais espertos, que jamais curvavam a espinha e davam ordens de pé o tempo todo, sem batucar no teclado. Não eram respeitados como operários das letras, como nós. Quem pegava no pesado, a estiva das redações, fazia parte de um grupo identificado com a força bruta da profissão. Garantíamos o que chamam de conteúdo pregando em milhões de páginas os milhões de letras que batíamos sem parar pela vida afora.

A sensação é que éramos eternos, aquilo iria ser sempre assim. Falávamos muito em mudanças, mas jamais pensamos que essas iriam cavar fundo na essência da nossa atividade. Mudar era a palavra de ordem e lutávamos por isso. Tudo realmente mudou e o mundo que conhecemos e ajudamos a construir e levar nos ombros acabou indo para o ralo. Hoje, confinados em blogs, sites e até mesmo nos veículos de comunicação que sobrevivem e irão seguir em frente, somos o resultado de um século desse som no teclado.

Somos os peões das palavras, os árduos fazedores de textos, os compositores da música da linguagem, o que fabricam o andar dos carrilhões do tempo que nos devora. Nas rebarbas do nosso ofício, cultivávamos a poesia, como se fosse a primavera. Mas ela era mais do que isso. Era nosso futuro e sobrevivência. Hoje, os que vivem de escrever, espalhados pelo Brasil ágrafo e bruto, são o poema humano de um barro brindado pelo sopro imortal: a vocação e o talento, esse mistério da sabedoria, que sobrevive a todas as mudanças e atinge o tempo como a seta envenenada de Cupido, o deus travesso.

IMPÁVIDO COLOSSO


Nei Duclós

Falar da seleção brasileira é perda de tempo. Tudo já está dito. Por exemplo: disseram que Dunga é tosco, quando hoje é líder. Não significa nada, claro. Se é líder, é porque os adversários permitiram, não por méritos próprios, que, todos sabem, o bom capitão Dunga não possui. O fato de o time estar acima de todos os outros não é nada para quem conhece profundamente futebol e fala da seleção como se falasse de chouriços. Como não entendo nada de futebol e só abordo esse assunto para incomodar a vizinhança, posso garantir que o Brasil pentacampeão do mundo, hoje líder das eliminatórias, é o que a letra do hino diz: impávido colosso. O gigante indiferente, pois seu destino está assegurado.

Vejam o caso do Paraguai, o ex-bicho papão das eliminatórias. Dá gosto de ver o Galvão Bueno escolhendo o Cabañas como o boludo da vez. Sempre que o Brasil enfrenta um time estrangeiro, o Galvão Bueno escolhe um jogador deles e começa a chover no cara a gosma de uma incompreensível babação de ovo. Foi assim com o Zidane, o Beckman, o Veron e tantos outros. “Essssse é craque!” Acho que o Cabañas se parece com um rinoceronte de espartilho. Para os mais moços, espartilho é aquele troço que aperta o torax e engole a barriga e deixa o sujeito com uma pose artificial quando caminha. Cabañas é assim. Fica pior quando, por sorte, faz um gol e sai sacudindo a cabecinha como se fosse o fodão do cabaré.

O Bueno usa esse expediente porque assim garante o seu. Se o Brasil tropeçar, o comentarista global pode dizer que isso ele já sabia, pois desde o início do jogo está pulsando sua retenção em cima daquele adversário. Ele vibra numa patriotada pelo avesso, ou seja, transformando o inimigo numa espécie de Brasil que deveria dar certo. Porque o importante aí é a patriotada, não o futebol. A patriotada é o mau uso do carisma da nação em proveito próprio. É desmascarada no primeiro revés. É só tomar um gol que a patriotada vai toda para o inimigo. Chamam isso de "isenção".

O futebol é uma obra nacional que alcançou a permanência. Isso transmite segurança a quem faz parte do país e não precisa de patacoadas, já que tem uma ligação sincera com a pátria. Para mim, o importante é descobrir que a seleção canarinho (ainda usam esse apelido? eu gosto) é obra da nação, não da CBF, dos treinadores ou mesmo dos jogadores. Esses, cumprem o destino do Brasil cheio de glórias.

Não se trata de misticismo, mas de evidência. Você não pode se insurgir contra Atlas se estiver ao pé dele. Pode levar um pisotão. Não pode apontar para Antares e dizer: puxa, ele é do tamanho de dois Paraguai. Não é. É maior. Começa pelo hino. Enquanto os paraguaios usam metáforas sinistras, Osorio Duque Estrada encheu nossa letra de florão, vida, amada, e outras palavras maravilhosas. Dá gosto cantar o hino e ver a multidão teimar na letra considerada incompreensível. Como resistir a um poema que diz: “Se ergues da justiça a clava forte, verás que um filho teu não foge à luta”? Foi o que aconteceu em Recife, no jogo desta quarta-feira, entrando na madrugada de quinta e do feriadão de Corpus Christi.

Começa pelo Kaká, o mais injustiçado garçom do futebol mundial. A todos ele serve, com seus passes, suas arrancadas, sua inteligência. Recebe quase nada em troca, como a ser punido por ter sido vendido por trocentos quaquilhões para o Real Madri. Mas falar de Kaká é redundância. Só podemos louvar seu talento e, acrescento, a humildade de um guerreiro que no front olha para os companheiros.

Depois de Kaká, teve Robinho, que se transformou em mestre de mais um oficio, o do sobrepique. O sobrepique, conhecido como bate-pronto, é quando a bola é chutada sem dó depois de quicar no chão. Ao receber o passe em diagonal e em curva, Robinho chutou de primeira, no sobrepique, e mostrou que o Paraguai é o que parece, um time raçudo mas sem vocação para a grandeza.

É preciso também louvar Nilmar, que veio ao mundo sem peso (as balanças emudecem quando recebem Nilmar) e é capaz de driblar sete adversários antes de se imortalizar num gol inesquecível, como aconteceu recentemente no campeonato brasileiro. No jogo contra o Paraguai, Nilmar fez um passe de peito que acabou nos seus pés. Conseguiu colocar a bola mesmo recebendo um tranco do zagueiro. É a estrela da vez, gerada pelo céu brasileiro representado no globo azul da bandeira.

Também deve se fazer justiça a Lucio, não só pelo que fez na linha de fundo paraguaia, quando quase causou um estrago de grande monta. Mas pela consistência, a persistência. A zaga não é simpática, é difícil ter um herói ali. Lúcio honra a posição e manteve a escrita de um time que é o perfil da garra brasileira. Lucio se parece com Dunga, um sujeito sério, aparentemente bruto, sem muito domínio de bola. Mas nenhum dos dois está balançando no cargo. São uma espécie de projeção do que o Brasil é, esse desengonço geográfico que inventou-se por teimosia.

Gostei do jogo. Os paraguaios foram duros e perigosos. O Brasil manteve um equilíbrio ofensivo e em alguns lances exerceu sua arte suprema, o de transcender um pedaço de chão, uma história complicada, um presente aos pedaços e um futuro incerto. Brasil é o impávido colosso visto de longe, daquele fim do mundo para onde foi o Felipão e, escreva, que de lá poderá sair campeão do mundo com seu time desconhecido. Felipão é implicante e está com os ingleses e todos os europeus atravessados no gogó. Cuidado com o Felipão, o chão treme quando ele caminha. Cuidado com Dunga, o cara anda colocando os pés para dentro. Cuidado com o Brasil, terra adorada.

RETORNO - 1. Imagem desta edição: capitão Dunga. 2. A Folha cumpre a escrita: "Fora do estilo de Dunga, Brasil vira e ganha elogio". Ou seja, quando o treinador está acertando o time, sofrendo nesse processo, a imprensa cai em cima e define que isso é o "estilo" dele. Quando consegue acertar e mostra a que veio, então não foi ele o responsável. Haja. 3. Repressão violenta na USP: o velho coronelato civil, com seu exército particular, a força pública, repete o que faz desde 1964. É a chamada "democracia" da ditadura.

10 de junho de 2009

MAQUIAGEM NA REALIDADE CRIMINOSA


É a Lei de Murphy: a economia brasileira sempre cai com o lado do Mantega para baixo. “Estamos em recessão técnica”, disse o ministro Guido, “mas isso é passado”. Quer dizer então que o presente do indicativo (estamos) virou passado perfeito? Ou não ensinam mais conjugação de verbos na escola? Talvez seja isso. O ministro usa o presente no passado e todos os tempos do verbo vão para o exílio, junto com o subjuntivo, que caiu faz tempo.

A verdade é que não conseguem mais mentir com a mesma competência. Estamos em recessão, ponto, segundo dados explícitos do IBGE. Se cai o PIB, a atividade industrial e comercial, então estamos escorregando. Não há pesquisa que segure, nem cobertor de campanha publicitária que cubra os pés frios da realidade. E como estamos indo para o buraco, podemos nos dar o luxo de “emprestar” dez bilhões de dólares para o FMI. A verdade é que esse dinheiro pertence à especulação internacional, que gera as divisas aqui dentro e pega uma parte gorda do butim, maior agora depois da crise. Não é dinheiro do Brasil. Não temos nem moeda.

Em Uruguaiana existia nos anos 50 a expressão manequim de turco, que eram as peruas enfeitadas em excesso. “Bota rouge, rouge, rouge, bota pó, pó, pó”, diziam as debochadas diante do espetáculo das caras pintadas com maquiagem fajuta. É o que temos hoje. Uma realidade maquiada por um sistema político criminoso, que se alterna no poder para dividir o fruto do suor popular. O PSDB agora está cheio de moral. É a vez do leite da república café-com-leite.

Recessão técnica faz parte de:

AS PIORES EXPRESSÕES DA LÍNGUA

JOGAR CONVERSA FORA – Quem usa deveria ter o mesmo destino.

DESOPILAR O FÍGADO – Para desmoralizar a arte da comédia. É quando o dom de provocar o riso, dificuldade suprema, é visto como jogar conversa fora.

ACABA EM PIZZA – Denota esperteza, lucidez e originalidade de quem a emite.

NÃO ME FALA AO PAU – Em desuso, caiu junto com o machismo. Quer dizer: a sensibilidade existe, mas não nesse caso.

A QUATRO PATAS – Parceria entre escribas, que denunciava a verdadeira natureza do que se produzia com ela.

FORA DE SÉRIE – Lugar comum. Usado quando o Mesmo se impõe como novidade.

PASSA LÁ EM CASA – Senha para te manda, me esquece. Senão te passo fogo.

E QUANDO É QUE CHEGASTE? – Traduzindo: quando é mesmo que vais embora?

PRATICAMENTE DA FAMÍLIA – Usada para escravas convocadas para o papel de laranja em falcatruas com o dinheiro público.

DO MEU PRÓPRIO BOLSO – Para as vítimas de cambaus e desfalques. O autor do crime admite uma impossibilidade, se separar de qualquer dinheiro.

GOSTAMOS DO TEU TRABALHO, MAS... - Para as demissões sumárias.

VOU ENFRENTAR NOVOS DESAFIOS - Exclusivo para recém desempregados.

VAMOS DAR UM TEMPO – É o nunca mais dos namoros.

JÁ FALO CONTIGO - Significa: não me atrapalhe, estou ocupado.

ESTÁ EM REUNIÃO – Reúne as piores intenções de quem quer evitar os outros.


MARCAS NOTÓRIAS INVENTADAS EM TEMPOS DE RECESSÃO TÉCNICA

VAI MUITO DA PESSOA BAR – Lugar cult para conversar sobre coisas que falam ao pau.

CAFÉ SÓ AROMA – Já vem tomado. Para quem gosta de dar o seu melhor.

ARROGÂNCIA MODAS – Um substituto para a Daslu, mas com nota fiscal quente.

RETORNO - Tirei a imagem desta edição daqui.

9 de junho de 2009

POR UM TRIZ


Nei Duclós(*)

Triz vem de thrix, cabelo, segundo a etmologia de Antenor Nascentes citada pelo dicionário Caldas Aulete. Foi difícil encontrar o significado num dicionário que tem cinco volumes, cada um com mil páginas e com as referências da ordem alfabética completamente desmaiadas na lombada. É preciso levantar peso para chegar ao destino. Seria mais fácil ir direto na internet e descobrir a mesma coisa sem fazer força.

Como ganhei de presente a preciosidade impressa e antiga, a toda hora me envolvo com ela, certo de que me dará uma resposta melhor. Mas a rede, a cada dia, amplia seu alcance e acervo, deixando toda a papelada por um triz, ou seja, segurada por um fio de cabelo. O problema do fim das bibliotecas será nossa dependência total a um mistério, a eletricidade. E se no futuro essa mágica que faz o computador funcionar ficar também por um triz?

É o que acontece conosco a maior parte da vida. Por um quase nada jogamos tudo fora. Por um triz nossa vida corre risco, o que origina a clássica expressão “risco de vida”, já que a morte, sendo definitiva, não oferece nenhum risco. O que está por pouco são nossas finanças, nossa profissão, a viagem, a amizade, o amor. Tudo se balança no abismo preso por fios invisíveis, caprichosos, que oferecem resistência quando menos esperamos ou se partem no auge de alguma coisa boa.

A bola que raspa pelo lado de fora da trave no segundo final do campeonato e decide carreiras, fortunas ou paixões. O casal que deixou de embarcar no voo fatídico. O momento anterior a uma abordagem importante, gasto numa indecisão qualquer, e que serviu para perdermos para sempre a oportunidade de fazer o contato salvador.

Foi por uma ninharia que não lançamos o olhar na direção salvadora, que não tivemos aquele lampejo de iluminar a face oculta da Lua. Por um triz não conseguimos publicar na hora certa o livro torturado pela gaveta, conquistar o amor longamente cultivado em silêncio e que deixou a sorte passar. Por um triz deixamos de ser a glória que sonhamos e viramos esse pó de armário no canto, quando só anjos pálidos e Deus em pessoa veem, abismados, o quanto somos precários e por isso tão encantadores.

RETORNO - 1. (*) Crônica publicada dia nove de junho de 2009 no caderno Variedades, do Diário Catarinense. 2. Imagem deste post: Rendas, foto de Ida Duclós.

8 de junho de 2009

O QUE DEVE SER SUBSTITUÍDO


Nei Duclós

Soube que estão demolindo os viadutos e que no seu lugar áreas urbanas deterioradas ressurgem, livres dos monstrengos que por um tempo foram confundidos com progresso – parece que o Minhocão de São Paulo está na lista. Recentemente, um radioamador deu um furo internacional em todos os novos recursos da mídia no caso da Air France. Nada mais obsoleto do que a idéia de “progresso”. O erro é o mesmo que alimenta o preconceito contra a idade. O que era velho – bonde, trem, radioamador – não prestava. O chamado novo sim é que era uma maravilha.Essa besteira está fazendo água, pois o mundo não se divide entre velho e novo e sim entre o que é adequado e o que não funciona.

Por exemplo: os jornais impressos. O que não vale mais não é o fato de serem de papel, mas o de insistirem em serem a única mídia que conta, como aconteceu com o acidente da Air France. Todo mundo já sabia, comenta o ombudsman da Folha deste domingo, mas a manchete do jornal nada acrescentava o que a internet e o rádio divulgaram no dia anterior. Outro exemplo: bandas de rock. Até quando vão tirar as fotos fazendo cara de mau, em planos diferentes, olhando de maneira cool para a câmara, normalmente cruzando os braços? Até quando vão fazer aquelas piruetas com guitarras? O público já demonstra cansaço tentando bandas de rapazes bonzinhos, mas o esquema continua o mesmo.

Mais um exemplo. Programa de auditório. Diante da quantidade de atrações que a internet mostra, para que serve as merdas (nunca serviram) apresentadas nessas joças? Agora querem mostram vídeos, como se pudessem imitar o you tube. Ou fingem que navegam tocando em telas imaginárias, a clonar o internauta. As grades da TV aberta estão completamente defasadas. Se colocassem no ar os maravilhosos filmes dos anos 40 e 50, como faz a TCM, canal pago, haveria uma saída. Mas não precisa ser isso. Pode ser outra coisa. Mostrar uma banda que não seja metida a cool, por exemplo.

No fundo, os programas de auditório estão repetindo o Chacrinha. No Faustão, as chacretes estão chegando aos 40 anos. O pessoal que faz coreografia lá atrás firmou no emprego, garantido pelo monopólio, e ocupa o lugar das garotas de 20. Deveria acabar com esse esquema fajuto e inventar outra coisa. Um programa cultural de massa, que tal? Sem celebridades instantâneas e com gente da pesada falando, atuando, dançando, cantando, tocando? Ainda temos esses talentos no Brasil? Aos potes, de todas as gerações. Estão sumidas, muitos morrendo. É uma lástima. Você viu alguma vez o Zé Gomes em horário nobre? Jamais! Nem em horário nenhum.

O que deve ser substituído são as fórmulas inadequadas, não o que é velho. Uma idéia recente pode ser uma droga. É preciso somar tudo o que há e houve de bom em um século de indústria cultural. Vi hoje Sorry, wrong number (1948), de Anatole Litvak, com Burt Lancaster e Barbara Stanwyck (foto) baseado numa peça escrita para o rádio por Lucille Fletcher, considerada a melhor e mais importante peça radiofônica do mundo pelo Orson Welles, que era do ramo. Mulher inválida pega linha cruzada e ouve o plano do seu próprio assassinato. Filmado em tempo real, é de arrepiar. Depois foi imitado até mesmo pelo roteirista de Hitchcock, Frederick Knott, em Disque M para Matar. Peça de qualidade para radio, eis algo que não poderia ser deixado de lado.

Escritores profissionais produzindo para as empresas de comunicação, hábito americano que jamais imitamos. No Brasil, pegam os talentos para fazer bobagem. Eu fui anexado ao copy desde o primeiro emprego, como se corrigir o texto alheio fosse mais importante do que produzir textos para a própria mídia que me empregava. Tive que fazer tudo à revelia, paralelamente. Produzi muito e publiquei pouco, menos mal. Poupa os leitores de erros.

Mas agora produzi um trilhão de caracteres, que estão na rede. Quem quiser, acessa. Está disponível. Não esqueçam de dar o crédito. Sou mídia e nunca escrevi tanto. Também estou envolvido em projetos para produtos impressos. Sinal que há espaço para a criação, que deve romper as comportas do que é defasado. E filme noir é atual, de hoje. Assim como a rabeca de Zé Gomes. Eterna.

6 de junho de 2009

ZÉ GOMES: MORRE O GÊNIO


Essa foi demais. Soube por Juarez Fonseca. Um enfarte matou Zé Gomes, o gênio. O compositor e arranjador que mudou a música brasileira e é autor de uma longa obra. Zé Gomes me acolheu, generoso, e musicou dois poemas meus, canções já postadas aqui e que podem também ser vistas no you tube. O que dizer? Morremos todos os dias e perdemos os melhores, os grandes criadores que amargam o anonimato neste país sem lei. No escasso noticiário da mídia sobre o assunto, foi divulgada na pequena biografia que reproduzo a seguir:

"Será cremado em São Paulo, onde vivia, o corpo do compositor, arranjador, luthier, maestro e pesquisador gaúcho José Kruel Gomes, internacionalmente conhecido como Zé Gomes, que faleceu na manhã do dia 5 de junho de 2009, vítima de infarto, aos 72 anos.

Zé Gomes começou a tocar profissionalmente aos 14 anos. Natural de Ijuí, aos 17 muda-se com a família para Porto Alegre e ingressa no Movimento Tradicionalista, com o grupo ?Tropeiros da Tradição?, com Paixão Cortes. A formação serviria de modelo a todos os conjuntos que os sucederam.

No início da década de 1950, integrou o conjunto ?Os Gaudérios?. Aos 18 anos, viaja com o conjunto à França, para participar do Festival Internacional de Folclore promovido pela Universidade Sorbonne, e volta ao Brasil com o primeiro prêmio.

Em 1955 trabalhou com João Gilberto, juntamente com Luis Bonfá, compositor da música do filme Orfeu no Carnaval, que já tinha elementos da Bossa Nova.

Em 1958 criou o Curso de Violão José Gomes, no qual ensinou mais de 1.500 alunos em uma década de funcionamento, época em que freqüentemente palestrava em seminários culturais ou integrava a OSPA.

Em 1966, Zé Gomes funda, com Bruno Kieffer e Armando Albuquerque, o Seminário Livre de Música (Selim), que dois anos depois vira o Centro Livre de Cultura. Em 1969, por concurso público, torna-se professor na Escola de Artes da UFRGS.

De 1968 a 1971 participa, como arranjador, de vários festivais. Muda-se para São Paulo no início dos anos 70, onde, além de continuar lecionando, compõe músicas para teatro, trilhas para cinema, fábulas infantis, quartetos, trios e duos instrumentais, corais, peças para viola e rabeca (instrumento que mais tarde viria a construir), e música sacra.

Zé Gomes participou de mais de 200 gravações, com Chico Buarque, Heraldo do Monte, Arthur Moreira Lima, Diana Pequeno, Grupo Tarancon, Renato Teixeira, Elomar, Pena Branca e Chavantinho, Paulino Pedra Azul, Marluí Miranda, Alzira Spíndola, João do Valle, entre muitos outros. Ultimamente, gravava discos independentes com suas prórpias composições.

É considerado um dos maiores intérpretes de Villa-Lobos, cuja obra estudou profundamente. Dedicou-se ao estudo da rabeca e da viola de cocho.

Com os parceiros Almir Sater e Paulo Simões, viajou a cavalo mais de mil quilômetros pelo Pantanal, para fazer um filme sobre o homem pantaneiro e pesquisar a música da região.

Criou inúmeros projetos de artesanato e fabricação de instrumentos musicais, tais como rabeca acústica, chorongo ou baixo acústico, calimba cromática, violino mudo.

A última vez que se apresentou em Porto Alegre foi ao violino, acompanhando Almir Sater no Projeto Acorde Brasil, do Sesc, em 2007."

RETORNO - Mais Zé Gomes aqui. Juarez Fonseca escreve sobre o maestro aqui.

KAR-WAI WONG: ARTE E TRANSGRESSÃO


Nei Duclós

Acho “Amor à flor da pele” (2000), que vi hoje, assim como “Um beijo roubado” (2007), que já comentei aqui, ambos desse fenômeno que é o chinês Kar-Wai Wong, filmes de transgressão. É quando a arte transborda das formas conhecidas, ou quando usa formas conhecidas para dar um salto quântico, para fazer outra coisa. Wong trabalha a indústria cultural, ou cultura pop, ou seja o nome que se dê ao mundo visto por Andy Warhol, ou alguém parecido, com um toque pessoal. Ele submerge na tralha de luz estourada, de cores quentes, câmaras que espiam, para narrar sobre personagens que se escondem e amores que não se consumam.

Antigamente, antes que a esquerda mostrasse o que é, ou seja, antes de aparecer essa pseudo esquerda de resultados, que te obriga a votar nela te assustando com o bicho papão (real) da direita, era moda acusar alguém de “comercial”. Era no tempo em que o capitalismo não fazia parte a natureza humana. Descobrimos que faz. Hoje, comercial é um conceito precário para bater ou qualificar alguém. Wong é arte em alta voltagem e seu filme americano, o do beijo roubado, pode ser considerado uma “concessão” ao mercado, o que não me parece.

Por exemplo: Wong faz do bolerão uma referência de arte conceitual, para incorporar um amor proibido e que por isso vive de esperas e talvezes (quizás, quizás, quizas). No seu filme totalmente chinês, o do amor à flor da pele, ele virou alvo das críticas dos consumidores confortáveis, os que acham chatice tudo o que não explode ou vira tiroteio. É mortal o efeito conseguido por Wong ao fazer seus personagens ensaiarem cenas limite, como a confissão de um adultério ou a separação definitiva.

A mulher sempre dança e chora, pois leva a sério o que foi ensaiado só para evitar drama. Ela sabe que o treino é real, assim como o cinema, que é pura fantasia, é mais real do que nossas rotinas e hábitos. O casal, abandonado por seus respectivos cônjuges (que estão sempre trabalhando ou viajando) se rodeiam o tempo todo sem chegar à cama e acabam construindo um amor impossível, que se arrasta pela terra e pelo tempo como uma ferida aberta. Revisitar o lugar onde se encontraram pela primeira vez é a penitência dos quase amantes que não conseguiram driblar o cerco sinistro das convenções e dos compromissos sociais.

Parece obsoleto, mas não é. Há uma ilusão de que tudo é fácil em relação ao sexo, amor e casamento. Esquece-se que a complexidade permanece, que o ser humano é o mesmo e que os sentimentos, a razão e a carne nem sempre são datados. Vejam o caso de David Carradine, cheio de casamentos destruídos, solitário num quarto de hotel de luxo, aos 72 anos, depois de se tornar célebre primeiro como o substituto de Bruce Lee na série Kung Fu (um chinês não podia ser o astro principal de uma produção televisiva americana). E depois de ter sido “ressuscitado” pelo Quentin Tarantino. O que aconteceu com David?

Soubemos pelo site (imperdível) de Renzo Mora (link ao lado), que matou a charada em primeira mão. David estava num exercício autoerótico, que na fronteira tem um nome mais chulo (mas vamos deixar para lá). Ele se amarrou todo para ter o prazer que não encontrava ao seu redor, logo ele, estrela da TV e do cinema (o que resta para os outros?). Morreu por asfixia, num acidente provocado pela sua fantasia. Ou talvez tenha mesmo se suicidado, preferindo gozar até morrer, nunca se sabe.

É difícil, para qualquer artista, equilibrar tradição e ruptura, deixar sua marca e sair ileso. David, admirado por tanta gente, provocou sofrimento com seu gesto, involuntário ou não. Mas ele não foi submisso. Participou de rupturas importantes. A vida, que não faz graça com ninguém, exige do artista sua melhor performance, o seu vôo mais alto. Somos o que deixamos de herança. E o nosso tempo é a sobrevivência do que criamos em meio à escassez.

RETORNO - Imagem desta edição: cena de "Amor à flor da pele".

4 de junho de 2009

TRAPÉZIO


Nei Duclós

Tempo não ocupa espaço
Desanda quando acontece

Rastro de sombra, penhasco
Com os minutos em queda

Anunciação de palhaço
Salto triplo de trapézio

Assim mesmo, tempo pesa
Como pluma de amianto

Coleciono primaveras
No lombo vazio do canto

Tempo é chute de arrabalde
No baldio que cumpre pena

É raiz sem seiva dentro
Fruto do próprio veneno

Sonho, rebento de vela
Em direção ao extremo

3 de junho de 2009

O MERGULHO DO VÔO


Nei Duclós

Num acidente, tragédia, catástrofe, a primeira vítima é a linguagem. Como escrevem mal os jornalistas das hard news! Isso seria frivolidade diante do luto, o desespero, a perda? Não, seria a parte que nos toca, a dos mídia. Primeiro, algumas considerações:

- Talvez milhões de vezes por dia a tripulação dos vôos repete que no caso de pouso na água a poltrona flutua. Foi a primeira coisa que apareceu nas buscas: uma poltrona flutuante! Vazia, naturalmente. Por que perdem tempo dizendo essas bobagens?

- Nesta época de twitter, internet, blogs, microblogs, tv digital, celular, e que sei eu mais, o furo foi dado por um bom e velho radioamador, que descobriu a conversa entre pilotos da FAB. Eles faziam a varredura e diziam ter encontrado algo. O radioamador deu imediatamente a notícia. Nada fica obsoleto, tudo é soma.

- Os franceses deram um banho de procedimentos corretos. Jogaram pesado. Foram totalmente transparentes com os parentes das vítimas, que souberam de tudo o que ocorria antes de qualquer novidade chegar à mídia, evitando assim surpresas. O presidente francês foi imediatamente para o aeroporto. O maior número de vitimas era de brasileiros. Nós, fomos a reboque, capitaneados por aquele que fez questão de dizer que não sabia o que dizer. Há vaga de ghost writer no Planalto.

- Já perguntaram mil vezes. Se avião não foi feito para bater, já que se desmancha no primeiro crash (até um pássaro na turbina é capaz de causar estrago) porque não fabricam aviões com o material da caixa preta? Ok, deve ser pesado. Mas não pensam nisso? Em alguma blindagem? Destroços de avião lembram pedaços de papelão.

O ACIDENTE E A MISÉRIA DA LINGUAGEM


Vamos pegar uma nota da Folha de S. Paulo que tem como titulo “Governo francês minimiza mas não descarta possibilidade de atentado contra Airbus”. Você alguma vez minimizou sem descartar? A série de verbos usados diz tudo sobre a capacidade claudicante de dar uma notícia simples, direta, limpa. Além do já clássico “minimiza mas não descarta” temos aos potes “considerou, não se pode dizer, se deva, insistiu, não se pode excluir, precisou, corrobore, não seja possível, comentou, destacou, antes de acrescentar, reiterou, assegurou”.

Na linha fina, logo abaixo do título: “Secretário de Transportes considerou que tese de queda ter sido causada por raio é incompleta”. É dose “tese de queda ter sido causada”. O pessoal não tem mais ouvido. Destruíram a melodia, a harmonia, os arranjos e puseram no lugar o baticum e o vibrato interminável da pop musica (aquele esganiçamento sem fim, que vibra). O resultado fica claro no texto. Não se atenta mais para a música do encadeamento das palavras. “Raio como causa do acidente não convence Secretário dos Transportes” seria uma forma mais amena, direta, sonora.

Continua a matéria: “O governo francês ressaltou nesta terça-feira que não se pode dizer que o desaparecimento do avião da Air France, ocorrido na segunda-feira, se deva a um atentado terrorista. Insistiu, porém, em que também não se pode excluir essa hipótese.” Ou seja, não se pode dizer e ao mesmo tempo insistiu. Onde estão esses jornalistas com a cabeça? A falta de sentido desse trecho tem a ver com a incapacidade absoluta diante das palavras. “Atentado terrorista é considerado improvável, mas essa é uma hipótese que não pode ser totalmente descartada, segundo o governo francês” ficaria muito melhor.

Mais do mesmo: “O ministro da Defesa, Hervé Morin, precisou à emissora de rádio Europe 1 que por enquanto não há ´nenhum elemento` que corrobore esta hipótese como a causa do acidente, embora ´por definição` não seja possível excluí-la.” Meu Deus, corrobore! Você já corroborou alguma vez, não corroborou? Eu jamais corroborei o que quer que fosse. Corroborar hipótese é de lascar. Sobre o sentido do trecho: tudo é improvável, mas o ministro “precisou” à emissora de rádio. Que coisa precisa! O que precisa é um pouco de formação escolar.

Mais não digo porque até aqui já trabalhei de graça o que chega. E não me venham dizer que é preciosismo caprichar em textos pontuais, urgentes. Besteira. Quem sabe escrever desova num jato o texto certo. Quem não sabe, como é o caso aqui, cai em todas as armadilhas. Vão corroborar a hipótese numa tuna.

TODA VIDA EM QUINZE MINUTOS

Sorte que a Folha tem Ruy Castro, que nesta quarta-feira publicou o texto “Quatorze minutos de eternidade”. Achei que Ruy iria se referir ao filme de 1953, Toda Vida em 15 minutos, do Pereira Dias (que mais tarde filmou o Teixeirinha), com Mara Rubia, Renata Fronzi, Rodolfo Arena e Jardel Filho, entre outros. Lembro que fiquei bem impactado com este filme. Mas não foi isso o que aconteceu. Ruy não citou o filme. Talvez esteja enterrado demais na memória.

Vamos aos primeiros parágrafos de Ruy, para esclarecer o assunto: “Entre a hora presumida de entrada do Airbus A330 da Air France na zona de turbulência sobre o Atlântico e a última mensagem enviada pelo equipamento do avião, na noite de domingo, passaram-se 14 minutos. Se fosse só isso, já seria aterrorizante. Mas o tempo de apreensão, angústia e pavor a bordo pode ter sido ainda maior para os 228 passageiros e tripulantes. É tempo de sobra para que, diante da iminência de morte, a vida -tudo que se fez e se disse, ou o que deixou de ser feito ou ser dito- passe várias vezes pela cabeça de uma pessoa, com uma definição de cinema. E com uma crueldade de Juízo Final, porque não há mais tempo para dizer ou fazer o que faltou.”

É exatamente isso o que acontece no filme. A câmara dá um close em cada passageiro, que faz um balanço de sua vida. Trata-se de uma refilmagem, com boas mudanças e adaptações, de Phone Call from a Stranger (1952), de Jean Negulesco, escrito por Nunnally Johnson e I.A.R. Wylie, segundo o site IMDB, e que tem Bette Davis e Shelley Winters no elenco.

2 de junho de 2009

GÊNIO


Nei Duclós (*)

Gênio é uma palavra multiuso. Há o sentido mítico, das narrativas ancestrais e que se refere a criaturas encerradas por milhares de anos em garrafas, sem haver explicação plausível de como o continente conseguia acompanhar a eternidade do conteúdo, já que barro e vidro são datados, ao contrário do duende salvador que tudo podia, menos abrir uma rolha. Palavra mais propensa à figuração do que à realidade, acabou rolando pela sarjeta das conversas, como a prática adotada do elogio aleatório a algum evento ou pessoa, que já chega sem força ao objetivo.

Mas há o significado dito correto, de pessoa que transcende a mortalidade por meio de obras ou de uma personalidade que vira referência, graças a uma biografia sem limites, que se consagra. Esse cânone é oposto à lista dos candidatos contemporâneos, onde sobram exemplares, especialmente nas artes e nas ciências. É difícil chamar de gênio o Lindauro, por exemplo, que dedicou sua vida ao hobby de colecionar cachimbinhos de barro. É mais fácil chamar o chefe de gênio, já que ele lançou um livro sobre crônicas psicografadas por entidades marcianas. Dá mais futuro.

O certo é reconhecer Camões ou Da Vinci de gênio, mas esse tipo de abordagem não permite nenhuma elasticidade. O Olimpo do gênero está lotado e há tempos não oferece vagas, com algumas exceções, como a súbita e longeva existência de Borges. A escassez acaba gerando sua abundância, num paradoxo digno da sociedade de espetáculos, que a tudo provê e padroniza. Já que não existe margem, o melhor é atulhar os limites da palavra de candidatos.

Se fosse cargo remunerado, com direito a carteira assinada, haveria um pouco mais de ordem na bagunça. Manteria em atividade uma quantidade considerável de gênios reconhecidos, que poderiam até dar carteiraços em concertos internacionais ou entradas das boates, se é que ainda existem boates. A dificuldade seria encontrar empregador à altura, que tivesse critérios suficientes para decidir quem iria usufruir da atividade.

No Brasil, já sabemos como seria. Todo parente que não se enquadrasse em alguma espécie de diretoria receberia salário para exercer a nobre função. Mas quem evitaria o excesso, como as assessorias especiais de gênios, com direito a viagens gratuitas de especialização na Europa?

RETORNO - 1. Imagem de hoje: Amsterdam, Vondelpark, foto de Daniel Duclós.2. (*)Crônica publicada nesta terça-feira, dia 2 de junho de 2009, no caderno Variedades, do Diário Catarinense.

31 de maio de 2009

PORQUE FLORIANÓPOLIS NÃO SERÁ SEDE DA COPA


O pessoal da Fifa preferiu Natal e eliminou Florianópolis da Copa de 2014. Natal é mais próxima da Europa, dizem. Porque Floripa não tem estrutura, argumentam. Porque não teve competência para se impor, falam por aí. Mas os motivos são outros. Descobri por acaso, num relatório feito por um espião da Fifa. Na cópia esquecida na areia no centrinho aqui de Ingleses, no norte da Ilha, há uma lista de argumentos definitivos para não sediar na capital catarinense um evento tão importante. São eles:

Porque nos dias de jogos iria chover. E choveria não só nos noventa minutos, como também nos treinos, nas horas de ir ao estádio ou sair dele. Nos dias sem jogos, não haveria chuva sob hipótese nenhuma. Seria só vento sul e eventualmente um ciclone extra plus tropical atípico. No final da Copa, quando todo mundo fosse embora, abriria o mais esplendoroso sol com céu azul de anil.

Porque, como diz o hino da cidade, aqui é um pedacinho de terra perdido no mar. É difícil para uma equipe com 22 jogadores, mais comissão técnica, mais jornalistas etc. pegar um navio, navegar semanas para chegar e descobrir que as pontes da ilha ao continente não ultrapassam os mil metros de extensão. Ou que a cidade tem a maior parte da população no continente. Prestar atenção nesses detalhes sem importância é pura implicância. Coisa de quem não é daqui.

Porque a Copa seria feita pelos que não são daqui. Não teria Guga nem Teco Padaratz, nem ninguém nascido embaixo da figueira. E como seria disputado no inverno, ficaria impossível vender bebida hipergelada, que é uma lei local. Não existe o conceito de temperatura ambiente. Ou as coisas são geladas ou quentes. “Quer quente, é? Então espera aí que vou te servir um café”. Por isso guarda-se no freezer tudo o que vem das fábricas de bebidas. Nada fica fora da temperatura abaixo de zero. Isso seria trair a ilha, terra de moça faceira, da velha rendeira tradicional.

Porque a Copa não poderia ser disputada no horário do almoço. Porque tudo para no horário do almoço, até mesmo os restaurantes, que fecham para o almoço. E seria duro ouvir a advertência tradicional de “não me apareça mais aqui no horário do almoço”.

Porque ninguém poderia chegar a tempo no jogo. Todos os acessos estariam lotados de pessoas que querem chegar ou sair do aeroporto.

Porque os argentinos não reconhecem a cidade no inverno. Eles só chegam no verão para ver las chicas, comer camarón, morar em Canasvieiras e freqüentar a praia do Santinho. Os argentinos desconhecem os outros extremos da ilha, para onde teriam que ir em dia de jogo. Se perderiam pelo caminho e acabariam na BR-101, em direção a Curitiba ou Porto Alegre. Então, é melhor ir direto para essas cidades, que foram aprovadas pela Fifa.

Porque, aqui, todo o corpo em movimento permanece em movimento. É um paradoxo difícil num terra com tantos engarrafamentos, principalmente para motoristas adventícios, que ficarão ilhados entre pedestres que jamais cortam o passo, bicicletas que nunca deixam de seguir em frente e automóveis que cruzam as preferenciais porque preferencial é exclusivo para quem é daqui. Vieste de fora e queres ter a preferencial?

Porque ninguém poderia derrubar o boi de mamão, feito de barro colorido, senão teria que pagar a loja toda. Não tem?

Confesso que fiquei aliviado. Assim poderei assistir os jogos pela televisão. Se fossem disputados aqui, não haveria transmissão direta. Teríamos que seguir pelo rádio ou acompanhar as atualizações nos sites informativos. Copa fora de casa é mais confortável. Comendo tainha, que gostam de aparecer quando há frio, vento e chuva.

RETORNO - Imagem desta edição: estádio da Ressacada.