12 de novembro de 2018

SOPRADO NUM SONHO

Nei Duclós


O que acontece com Deus
quando você desaparece
E aparece
do outro lado da vida?

Ele te abandona
como se não existisse
Ou te protege
como fez com os apóstolos?

Vem e segue-me, dirá
Ou ficará sem a voz
que falou aos profetas?

Uma coisa é certa
Só contarás com a fé
Teu passaporte

Nei Duclós

9 de novembro de 2018

DA SORTE


Nei Duclós


Perdeu a graça aproximar-se
Agora já sabes
Que não há mistério
Apenas o humano laço
Sem nenhum disfarce

Nossa contingência
Falta de pendor
Para a eternidade
Só a suspeita
De que não somos o que imaginamos
Mas o que sobra da sobrevivência

Reatar o sonho com arte
A breve iluminação da sorte possível
Como um norte inventado na bússola que nuncs usamos
 

COMANDO

Nei Duclós


A vontade é que faz a criatura
Não sua capa
A estrela-guia além da carne
A conduta apesar da roupa

A lealdade à lei que vem da origem
A que o fim do tempo respeita
Pois o transcende

O sangue não comanda
Mas a liberdade




ATRASO

Nei Duclós


Foste me receber
Mas eu já tinha partido
Sou a próxima viagem

Fique com os lenços jogados do convés
Pelos enamorados

Fomos assim um dia
Estávamos com as mãos abanando
Sem bagagem

Hoje transportamos cargas
Eu com pressa
Tu com atraso




SALA DE PROJEÇÃO

Nei Duclós


Vida pequena
Projetada enorme na tela
Para que vejam a imagem
E não a fonte
menor do que aparece na parede

Estás muito bem, dizem
Melhor assim
A escassez é de foro íntimo
Tua dor não entra em cartaz
A não ser como coadjuvante
No drama épico da tua passagem

Venha, anjo
Nos ensine esse difícil oficio,
a humanidade




7 de novembro de 2018

BALANÇO PRECOCE



Nei Duclós

Tenho recebido votos de Natal dois meses antes da data. Sinal que há pressa em se despedir de 2018, que para a literatura foi bastante generoso.

Lancei três ebooks de poesia
FIO SUSPENSO
TANTOS VERSOS QUANTO ESTRELAS
O VALOR DA CRIAÇÃO

Lancei um romance pela Amazon:
A DURA LUZ DO SUBÚRBIO

Aumentei minha presença na Amazon
ARRASO POEMAS DE AMOR
A VIAJANTE OBSCURA
OUTUBRO
O REFÚGIO DO PRÍNCIPE

Relancei dois livros de poesia em forma de ebook:
NO MAR, VEREMOS
PAMPABISMO & ENIGMINAS: CONVERSOS

E um de ensaios literários:
AS RUÍNAS DO DISCURSO


Lancei em setembro uma Campanha do Livro para comemorar meus 70 anos, completados em outubro, com excelente retorno.As vendas de livros impressos e em ebook foram muito bem este ano, graças à consideração de muitos leitores, que acompanham por aqui o jorro da fonte. .

Fiquei ainda de atualizar meu livro de ensaios sobre cinema, que já está há mais de dois anos defasado.

E periga estou formatando nova seleta de poemas.para reunir em novo volume.

Um ano complicado de eleições, em que a poesia e a prosa contribuíram para habitar os espíritos e disseminar a paz na diferença.

Boas festas adiantado!!!



:

6 de novembro de 2018

VERSOS SEM AMPARO

Nei Duclós


Linguagem bizarra
de funda camada
Versos sem amparo
Estrofes que não conversam

Talvez seja o caos
Que o fim dos encontros
Gerou no poema

Rolo no discurso sem forma
É teu coração
Que puxou o apoio

Boiei como nuvem pesada
Depois chovi em vão na calçada

Arco-íris de carros
Nas poças d' água
Raspo a solidão
nos muros sem pintura

Esperas de braços cruzados
No mesmo portão que nos separa

Nei Duclós

VESÚVIO

Nei Duclós


Falo nos bares que ainda abrem como a flor projetada no ar pelas bombas que erram o alvo e pipocam na agua que o sal corrói

Os bêbados escutam o estrondo provocado pelo último poema que quebra os copos em queda de pratrleiras feitas com madeiras de lei

As orquídeas depositadas nos ombros dos heróis se refazem da longa marcha no deserto
e só um clarim tem permissão de acompanhar a palavra arrancada de corpos moços de um exército mudo a cruzar o pântano
Silenciosamente como um franco atirador na borda do Vesúvio


5 de novembro de 2018

PELA LIBERDADE

Nei Duclós


Livrai-nos, Senhor, do radicalismo,
filho dileto da burrice
Livrai-nos dos grilhões da direita,
da esquerda, da vanguarda,
e da retaguarda

Dai-nos a coragem do livre arbítrio
O pensamento liberto das amarras
De origem divina,
que transcende a razão
mas jamais a contraria (*)


RETORNO - (*) "que transcende a razão mas jamais a contraria" tirei de Hobbes







O BARCO NA SARJETA

Nei Duclós


O poema confessional é de autoria de personagens ocultos, que o autor cria ou invoca. São múltiplas personalidades lendárias a navegar nos versos reunidos sob um mesmo nome real. Elas se encaixam nas percepções variadas de quem lê, contesta ou se identifica.

Depois de jogar seu barco de papel na correnteza feita pela chuva na sarjeta, o poeta, garoto, se recolhe. E se perguntam pelos versos ele sacode os ombros. Diz que não é com ele. Escapa assim pelas reticências...

Ninguém pode se decepcionar quando insiste em ver as asas de um anjo que não existe. Que não é alegre nem triste, como diz Cecília Meireles. É só poesia, e isso é tudo.



A DOR E A FORTUNA

Nei Duclós


Todos os tempos são duros
Qualquer momento é um abismo
Teu entorno é tua aposta
Entre a dor e a fortuna

A memória é que costura
O passado em novo ritmo
Viaje agora no futuro
O presente como um fruto

A notícia é coisa bruta
Ninguém tolera a censura
Teu corpo contém a cura
O gesto é tudo o que resta




A VOLTA


Nei Duclós


Entendo que agora não me reconheças
Desapareci por muito tempo
Por obra de misteriosos eventos

Desisti de te convencer da minha experiência
Da qual não me lembro, nem por hipnose
E hoje meu nome transformado em lenda
Não pode ser manchado por qualquer notícia

Vou sumir de novo, desta vez para sempre
Pois se há dor na ausência
Ela é maior quando somos jogados de volta
Sem merecimento

Mudou minha aparência, mas mantenho intacta
A identidade doada pelo berço
Minha mãe saberia, mas ela não pode mais ser consultada

De todas as marcas desta enrascada
Que nem o teste de DNA resolve
Fica apenas a íntima alegria
De poder voltar à vida

Sou um náufrago que à revelia
Foi tragado numa curva do incógnito universo
Por motivos ignotos, num momento sem registro
E agora pede socorro à Lua
Que me acompanha, por ter o mesmo destino



4 de novembro de 2018

QUASE TU


Nei Duclós

Quase tu no intervalo imperceptivel
Em cada dobra da praia há um deus
Escutei o que não havia, talvez um zumbido
Incorporei o verso sem origem
Montado em Pégaso de pintura em bar fechado

Muito obrigado musa que embaralhou as cartas
Para eu não ver inteira a persona em sua costura



3 de novembro de 2018

O CINEMA EM PRETTY WOMAN


Nei Duclós

É de cinema, como acontece sempre na Sétima Arte, que trata o filme Pretty Woman (Uma Linda Mulher) , de1990, dirigido pelo veterano Garry Marshall (1934) com script de J.F. Lawton – com 30 anos na época do lançamento - interpretado por Julia Roberts e Richard Gere, que atingiram o estrelato como o casal romântico formado pelo empresário e a prostituta. O escritor J.F tem DNA em Hollywood: é filho de Harry Lawton, autor do livro que originou o clássico Willie Boy (1969), a perseguição e morte de um fora da lei, dirigido por Abraham Polonsky, que fez dessa antológica obra sua reentrada em Hollywood depois de ter sido alvo do macartismo.

A crise econômica e a decadência dos costumes é o foco principal de Pretty Woman, com sua consequência direta no cinema. A calçada da fama, que eterniza os ídolos cinematográficos do passado, é território dividido pelo trottoir. As pessoas despossuídas pela crise se amontoam disputando migalhas até que surge um protagonista da situação, o grande especulador financeiro que compra empresas em decadência para loteá-las e obter mais lucro. O encontro entre o cara perdido em Hollywood e a profissional que o orienta na vida amorosa é a reiteração do sonho do cinema, que fez a fama da América em épocas mais esperançosas.

O sucateador de empresas tem a ver com os predadores da própria indústria cinematográfica, também vítima da indústria financeira, que acabou gerando mais tarde, em 2008, o grande colapso do sistema, de onde jamais saímos. Em 1990 havia essa interseção entre o tradicional – o grande empresário construtor de navios e seu herdeiro – e a voragem emergente do advogado sem escrúpulos (Jason Alexander, de Seinfeld) e seu patrão ambicioso, que acaba mudando de rumo porque se apaixona.

O sonho retorna de qualquer lugar. Pode ser de uma calçada decadente, de um hotel de luxo, de uma ópera de Verdi, de botas de cano longo ou de uma limusine. Os americanos jamais tentam excluir os fatos que demolem cenários obsoletos, anexando-os em novo patamar, sempre no ritmo e no rumo de uma América indestrutível, porque se adapta. Enquanto nós nos entregamos ao horror das transgressões, os americanos não se opõem à multiplicidade das situações terminais, deixam fluir e reiteram sua pertença.

Pretty Woman, um dos grandes sucessos do cinema, mostra a decadência de Hollywood ao mesmo tempo que salva o principal, o sonho de um amor impossível. O encanto vem do amparo que o filme tem no próprio cinema, pois o fato de Richard Gere tirar os sapatos e roçar os pés na grama vem de Descalços no Parque (1967, baseado em peça de Neil Simon), e nas adaptações cinematográficas dos contos de fados, no caso aqui Cinderela. Eis o segredo de Pretty Woman, sempre bom de ver, se observarmos suas camadas mais profundas.



2 de novembro de 2018

OBRA ABERTA


Nei Duclós


Feche o poema a tempo. Não o submeta ao fardo das hipérboles e chaves de ouro. Freie quando as rodas dianteiras do comboio balançarem na margem do abismo.

Abandone o leitor à sua própria sorte. Volte a pé sem olhar para os lados, perseguido pelo crocitar das palavras que deixaste de usar, por saber que a criação fica sempre aberta, como flor à mercê do orvalho.


FEITA DE VELUDO

Nei Duclós


És feita de veludo por dentro
Fibras da manhã, corpo no tapete
Convite aberto em leque japonês
O que gera brisa em modelos de ateliê

Evitas o suspiro que em ti é redundância
Pois em tuas porções inteira manifestas
Desenho de um acaso que decide a festa
Guizos do mármore que virou promessa

Estátua de sal sem ressentimento
Te desmanchas quando faço vento
Conheço o cenário da tua elegância
Evento célebre te cerca de talentos

Escovado, compareço,rude, atento
Ao teu lado protejo o patrimônio
Guardo segredo sobre os interiores
O que escondes sob plácida aparência


27 de outubro de 2018

PLENA DE AMOR


Nei Duclós


Quando acordas como o sol a leste me ilumina
Abrindo o dia que brotou no escuro
Plena de amor sobre a pele nua
Descubro o motivo de ter vindo à terra
Ser tua companhia na cama da vontade


25 de outubro de 2018

VERBO CLARO

Nei Duclós


É penoso o ofício do poema
Evitar os truques do sentimento
Pensar em soluções não redundantes
Manter o verbo claro na penumbra

Criar é sombra para sair do espelho
Não entregar o segredo que faz vento
Mergulhar quando tudo é superfície
Voar se for nuvem, pousar se me convences

Sair inteiro do naufrágio
Desistir para que todos vençam
Entregar-se à correnteza, colar de pedras
Emergir no barro antes do Gênesis



FORA DO EIXO

Nei Duclós


Nada do que se diz terá efeito
 A palavra é contorcionista do Direito
A injustiça é contrapor cada verdade
 com o lixo de um acervo violento

Serve para nós, para todo mundo
Vale a poesia se ela for
como se diz  da amizade, do peito

O amor é a base no piso do entendimento
 Desde que não se esvazie o conceito
Não diga que concorda só para tirar proveito
A boa palavra ocupa lugar fora do eixo



LIBERTA PELO VOO

Nei Duclós


Quem te representa
são as palavras da calúnia
As que usas para atingir o alvo
Não quem ganha teu apoio
Pois a ira é maior do que a concordância

Não é o amor tua bússola
Dela só tens a agulha
rodopiando como a biruta
Pois os ventos, inúmeros
contribuem para a fúria insana

Quer jogar? Ponha a bola no chão
Não em favor do lance rasteiro
Mas sim colocar a longa distância
Tua palavra liberta pelo voo
Servindo na cabeça do atacante

Vamos vencer, disse Didi na Suécia
Recolhendo o revés do fundo da rede
E repondo no centro do gramado
a vontade de empunhar a taça



23 de outubro de 2018

FORA DO MAPA

Nei Duclós


Éramos poucos no largo espaço do deserto
O único poço ficava fora do mapa
Imploramos um milagre e veio a chuva
Descobrimos depois que não fora a divindade
Que escutou nossa sede no feirão das graças

Mas sim a terra, exausta da secura
Da vingança que o Destino, louco milionário
Aprontara num jogo de pôquer com a Fortuna

Foi um sonho, eu sei, tenho sentido
falta de razão nesses embates
Farei o dever de casa em causa própria
Para deixá-los à vontade no areal da caça



MORO NO MAR

Nei Duclós


Moro no mar
Junto com as águas
Que um dia foram rio
E hoje são sal

Cardumes provisórios
Passam em direção ao cais
Viajo nos ventos vindos da costa
Vou para não voltar

Navego sem intenção de chegar
Sou o que o sonho me faz
Acordo o que vive fundo
O amor feito de corais



22 de outubro de 2018

DIFERENTE

Nei Duclós


Se você fosse diferente
Eu poderia forçar a barra
Te convidar para a poesia
Em vez de cultivar a guerra

Eu deveria também mudar o rumo
E me tornar ativo em tuas obras
Distribuir o pão, cuidar dos doentes
E na tua mão deixar de ser bizarro

Mas fico esperando tua iniciativa
Fechado no milésimo apartamento
No condomínio já condenado
Por projeto de futuro saneamento

Bates na porta. Carregas uma cesta
Finges me alimentar, musa travessa
Vestindo essa roupa de faltar à escola



CORRENTES

Nei Duclós


Não foi o tempo que arruinou nossa amizade
Dias perdidos já fazem parte
dessa porção de vida que nos cabe
Nem as ideologias ou as distâncias
Somos craques em ficar longe e pensar bobagens
Ou tampouco as palavras, de uso tão escasso
Ou os silêncios, de péssimo hábito

Foi a infelicidade que cultivamos sem alarde
Somando barro às tristezas da tarde
A desistência de resistir ao destino
Que traçaram para nós, pobres soldados

Em frangalhos revistamos as sobras
De uma devastação que não nos pertence
Mas compartilhamos com as correntes da solidão de arrasto



21 de outubro de 2018

SINAL

Nei Duclós


Foi só o sinal do sentimento
Brilho do olhar, tosco desenho
de um coração vermelho

Não é para responder, basta que vejas
E saiba que uma vida é pouco
para tanta espera

Meu beijo aguarda o melhor momento
Quando virás, não importa como
Nada separa os corpos nascidos um para o outro
Nem a distância evita as almas 
que juntas se atiram no abismo
do amor sem conserto



UMA SÓ PESSOA

Nei Duclós


O tempo pune e perdoa
Pune com a fome de hoje
Perdoa depois ou antes

A Trindade é amanhã
(o Espírito Santo)
o filho presente
e o pai que se foi

Passado, Presente e Futuro
Uma só pessoa
É verde quando está maduro
(nunca o sumo alcança o ponto)
E podre quando cai da árvore
(tudo é inútil se não há flagrante)

Aprendo quando passo adiante
Nada retorna como nas fábulas
Somos de outra natureza
O tempo nos ameaça



20 de outubro de 2018

CAMPO MINADO

Nei Duclós


A vaidade dos velhos
À altura dos seus crimes
A longevidade é uma folha corrida
Único documento que a mentira
Gravou em mármore e granito

Medalhas no teu peito, prêmios
E o discurso sobre o que não aprende
Longe do espelho, ilusão permanente
O rosto é um deboche do tempo

A flor possível é contar a verdade
Chance para o perfeito drible
No campo minado de falsidades
Passo terminal que apressa o paraíso



19 de outubro de 2018

INCERTO

Nei Duclós


Insetos tem vida curta
Não sobrevivem ao outono
Quando lhe sonegam flores
E os jogam como folhas soltas

Andam às cegas, como rebanhos
Voam para perto das cercas
Devoram colheitas, depois somem
Deixam restos de asas dos seus abdômens

Inseto sou, parte do povo
Ando de ônibus, viajo pouco
Só me resta zunir, supersônico
É o poema, motor do meu sonho



18 de outubro de 2018

ÁGUA DA MONTANHA

Nei Duclós


Tudo apontava para a doçura
A vida em comum, o amor em obras
Ficamos amargos na cinza dos minutos
A suspeita, os entraves, rupturas

Tudo conflui para o desfecho
Este sol que devorou a lua
Esse vento sobre as dunas
Esse impossível recomeço

Nada perdura. É como as poças de chuva
O que fica é a passagem sem retorno
E o teu rosto, água da montanha
Que alimenta o tempo
Para que nos surpreenda

Tudo está conforme o vento
Invisível, rastro de espuma
A carne provisória e o eterno espírito
Nossa inteligência, única alegria



17 de outubro de 2018

SOU OUTRA PESSOA

Nei Duclós


Sou outra pessoa, a que ganhou o mundo
E o perdeu, por ter ficado à toa
Não entendeu que a fase boa
É uma só, como um quarto de lua

Hoje estou só por não saber ao certo
Se sou o mesmo, o que faz o verso
Ou o mendigo, que escolheu a rua

Gêmeo de um sonho, sou minha memória
Risquei a página que ficou em branco
Tenho uma prenda no corpo ainda vivo
Pedra brilhante que escolhi ser tua