17 de abril de 2009

POESIA A TODA HORA


Nei Duclós

Cresce minha dívida com poetas que me enviaram seus livros, todos ótimos. Não tenho escrito muito sobre essa arte suprema, esperando alguns insights que costure tanta diversidade e talento. Aproveito, como se fosse o início de textos sobre o ofício, o lançamento amanhã, sábado, na Barca dos Livros, na beira da Lagoa da Conceição, aqui em Florianópolis, da XXI Poetas de Hoje em Dia (Ante), coletânea da editora Letras Contemporâneas (com apoio do governo catarinense) organizada pelas poetas militantes Priscila Lopes e Aline Gallina . A introdução é de Jayro Schmidt e o prefácio de Eduardo Jorge.

Livro de poesia patrocinado é uma solução que vale por uma semeadura generosa. Minha estréia com Outubro aconteceu graças ao mecenato do dinheiro público, do Instituto Estadual do Livro do Rio Grande do Sul. Não que seja a solução definitiva, mas um empurrão, uma abertura, uma proposta, uma sugestão para que as editoras se animem e dêem continuidade ao que nasceu no ninho. Foi o que aconteceu: logo depois de Outubro, a L& PM (do entusiasmado Ivan Pinheiro Machado, que cedeu uma obra sua para a capa) cacifou No Meio da Rua e mais tarde, a Editora Globo (na época, 2001, dirigida por Wagner Carelli) lançou No Mar, Veremos.

No caso da antologia XXI, não são apenas estreantes, mas alguns veteranos convivendo com autores que chegam ao livro. Todos identificados pela atual tendência de usar a internet para difundir o que está sendo chamado de e-poesia. O produto impresso é âncora e referência, fundamental para consolidar obras que ficam tão dispersas no infinito mundo virtual. É uma forma de balizar trabalhos que confluem para os bits e bytes por opção e muitas vezes, por falta dela. Mas seja qual for a ferramenta usada, o que vale é o trabalho poético, que se impõe pela intensidade, vocação e talento.

Poesia vale por vários motivos. Um deles é um poema inesquecível, que fisga na primeira leitura e nos acompanha, como este de Cynthia Lopes, da coletânea XXI: “passou por mim. estabanado, esbarrou no meu céu, derrubando estrelas”. A limpidez do verso, sua precisão, sua trajetória certeira, não pode ser confundida com a atual tendência de gerar hight-lights de impacto, mais fundado no trocadilho e na falsa surpresa. Um poema como o de Cynthia faz parte de outra linhagem, de uma poesia que usa o clima do aforismo para criar uma imagem, uma metáfora, quase uma parábola. Derrubar estrelas como um sinal do amor que chega de surpresa é pura criação, de uma leveza que acena para um võo mais alto.

Mas o que mais tem atraído o fazer poético é a criação em cima da própria linguagem, numa busca incessante de caminhos, de procurar entender todas as nuances e caprichos da poesia, nesta quadra da vida em que se acumulam inúmeros poetas magistrais que fazem parte das leituras obrigatórias. Depois da Praxis, do Concretismo, do Estruturalismo, depois da sonoridade de Lorca, da contundência de Maiakovski, depois da grandeza doce de Vinicius, da amargura e lucidez eternas de Drummond, depois de Cabral, Jorge de Lima, Cecília Meirelles, Manuel de Barros, o que resta para poetas de hoje em diante fazer? Buscar, investigar, pesquisar, contradizer, reinventar, ultrapassar. Verbos da árdua poesia.

A isso se dedicam os poetas da XXI, especialmente Érica Zingano com seu Inventário de Semelhanças- "não somos mais do que um simples conjunto de signos, signatários da diferença”; Wilson Guanais: “um dia eu quebro o inquebrável: a casca do indizível”; Paulo Aquarone, que encontra a na disposição das letras SOS o desfecho “Só os ossos”, lido em todas as direções, síntese de um pedido de socorro que chega tarde demais; ou Marcelo Sahea, que encontra na forma dos pés uma interrogação ou um levantar de asas.

São mais do que experimentos, mas uma poesia que viaja segura. Sem querer enquadrar nenhum autor em escolas ou tendências, podemos vislumbrar buscas de outra natureza, mais chegada à barra cotidiana do país inextrincável, e a identidade pessoal e poética nesse caos terminal, como acontece em Priscila Lopes, Aline Gallina, Estrela Ruiz Leminki, Izabela Leal, Julia Almeida, entre outros. Aline: “o dia cinza reflete em seu corpo sujo”. Priscila: “Estamos fracos, sim/ Quebramos frascos/ de perfumes baratos” .

Além dos citados, os outros poetas, todos com seus projetos e obras afiadas para a análise, estão: Caio Cesar Mayer, João de Moraes Filho, Julia Studart, Karina Gulias, Marcelo Montenegro, Mônica de Aquino, Ronaldo Werneck, Rubens da Cunha, Victor Paes, Victor da Rosa, Wilson Gorj e Wilson Guanais. Uma pequena resenha como esta foi escrita mais para celebrar o lançamento do que propriamente analisar o livro. Tanto o texto de Eduardo Jorge quanto o de Jayro Schmidt são ótimos passaportes para a leitura desta antologia sintonizada com a diversidade da criação literária, que revela o trabalho de 21 autores insubordinados diante dos esquemas consagrados, mas também atentos às heranças e às perguntas que jamais são respondidas, antes são repassadas para as gerações seguintes. Estas, se debruçam sobre novos e antigos enigmas.

RETORNO - Priscila Lopes avisa sobre o lançamento: "É no próximo sábado, dia 18 de abril, às 20h, na Barca dos Livros, o lançamento da coletânea XXI POETAS DE HOJE EM DIA(NTE). O evento será aberto ao público e aquele que comparecer terá direito a um exemplar. Mais informações: Nosso Blog - Comunidade no Orkut .
Sociedade Amantes da Leitura/Biblioteca Barca dos Livros
Fone: (048) 3879-3208. Rua Senador Ivo D’Aquino, 103, Lagoa da Conceição. Florianópolis/SC.

16 de abril de 2009

SAGARANA NÚMERO 35: BANQUETE CULTURAL


Sagarana, a melhor revista cultural do mundo chega à edição número 35. O diretor Julio Cesar Monteiro Martins, escritor que hoje é professor de narrativa e autor de vários livros lançados em língua italiana informa quais são as atrações:

“Caros amigos, é com satisfação que anunciamos a presença on-line, a partir de hoje, do n° 35 da revista Sagarana, em língua italiana, neste endereço telemático.

Este número, dedicado ao poeta Paul Celan, oferece aos nossos leitores, além da seção “I Cortometraggi”, voltada para a videoarte e para as linguagens multimediáticas experimentais, uma Mostra Virtual com a atmosfera sinistra das fotografias de Rocky Schenck.

A seção Saggi propõe reflexões de Juan Goytisolo, Antoine Compagnon, Roberto Saviano, Erri De Luca, Félix Guattari e uma entrevista com Mangabeira Unger publicada na Espanha. Em Narrativa são presentes contos e trechos escolhidos de romances de Margherite Duras, Alki Zei, Fernando Pessoa, Céline, Pontiggia e Carlo Dossi, além dos contemporâneos John Berger, Nelson de Oliveira, Stefano Tassinari, Mercedes Abad e Mátyás Dunajcsik. Em Poesia, Wieslawa Szymborska, Pier Paolo Pasolini, Nicanor Parra, Nanni Balestrini e Maram al-Masri.

Neste mesmo endereço telemático poderão encontrar a seção Il Direttore atualizada, com o conto inédito "Febbe alta", de Julio Monteiro Martins, e na seção Scuola todas as informações sobre o Laboratorio di Narrativa da Sagarana, que terá início no final de setembro de 2009, em Lucca, na Itália. Ademais, na seção Archivi, estão já disponíveis para leitura todas as "Lavagne del Sabato" publicadas até hoje em Sagarana.

Esperamos que os vídeos, as imagens, os ensaios, os contos, as poesias e os trechos de romances selecionados possam oferecer-lhes muitas horas de agradável leitura. "

RETORNO - Imagem desta edição: obra de Rocky Schenk.

14 de abril de 2009

MARINHA URUGUAIA ATIRA E SE GARANTE



O Uruguai, todos me dizem , é civilizado e pacífico. Temos excelentes relações com o país vizinho, tanto é que compartilhamos muitos quilômetros de fronteira seca sem que haja conflitos evidentes. Na foto acima, de Vânia Möller, a Ponte sobre o rio Jaguarão é o símbolo dessa coexistência. Mas no episódio que o Diário da Fonte vem seguindo, baseado na imprensa de uruguaianense e em entrevistas exclusivas com a vítima e sua família, a situação é outra.

A Marinha uruguaia já tinha se pronunciado: 50 tiros no pescador brasileiro Vilmar Rosa Duarte, que foi atingido por trás, fugiu se arrastando pelo mato, escapou e foi salvo numa operação delicada no hospital de Uruguaiana. A Marinha brasileira, segundo me contou Vilmar pelo telefone, registrou a ocorrência e teria comprovado que ele e seu companheiro de pescaria estavam desarmados.

Esse é um assunto para o Ministério do Exterior, por envolver conflito com forças armadas de país estrangeiro; para o Ministério da Defesa, por envolver militares armados do Uruguai; para o Executivo federal, já que envolve conflito entre países vizinhos. Mas o caso foi parar nas mãos de vereadores para esclarecer os fatos com os uruguaios, segundo informa o jornal Momento de Uruguaiana:

“MARINHA URUGUAIA DÁ SUA VERSÃO PARA
O INCIDENTE COM PESCADOR BRASILEIRO


Dois vereadores da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Municipal de Uruguaiana reuniram-se, na quarta-feira, 1º., com o capitão Juan Montero, comandante da Prefeitura Naval do Uruguai, em Bela União. Os vereadores e o comandante trataram do caso do pescador brasileiro, Vilmar Rosa Duarte, 60 anos, ferido por marinheiros uruguaios no Rio Quaraí.

O fato ocorreu na noite de 11 de março passado, próximo à cidade de Barra do Quaraí. Duarte e outros dois colegas pescadores foram alvo de dezenas de disparos de arma de fogo de uma patrulha uruguaia embarcada. Dois disparos alvejaram Duarte pelas costas e ele necessitou de socorro médico no hospital Santa Casa de Caridade de Uruguaiana. No relato à Comissão de Direitos Humanos da Câmara Municipal de Uruguaiana, Duarte disse que ele e os colegas pescadores estavam em águas brasileiras do Rio Quaraí e que foram surpreendidos pela violência dos marinheiros. "Estávamos desarmados e, quando vimos a embarcação uruguaia, pensamos que eles precisavam de ajuda. Nos aproximamos para prestar auxílio, mas fomos recebidos a tiros pela patrulha", disse Duarte.

VERSÃO DOS URUGUAIOS

Na reunião com o comandante da Prefeitura Naval de Bela União, os vereadores José Clemente Corrêa (PT) e Luis Gilberto de Almeida Risso (PMDB) ouviram a versão da marinha uruguaia sobre o caso. "O comandante não negou os disparos efetuados pela embarcação uruguaia contra os pescadores, mas disse que os disparos foram em resposta a um disparo efetuado contra a patrulha embarcada uruguaia que, naquela noite, estava retirando uma rede de pesca que impedia a navegação no Rio Quaraí", disse o vereador José Clemente. "O comandante também alegou que a ação da patrulha ocorreu em águas uruguaias e que a intenção dos marinheiros não era vitimar os pescadores", acrescentou.

A Comissão de Direitos Humanos solicitou a liberação do barco brasileiro apreendido, mas não foi atendida. A embarcação somente será liberada se o pescador Vilmar Duarte se apresentar na Prefeitura Naval do Uruguai para prestar declarações sobre o fato. O comandante garantiu que o pescador não será preso se procurar a Prefeitura Naval. A Comissão de Direitos Humanos é presidida pelo vereador Luis Gilberto de Almeida Risso (PMDB), e integrada pelos vereadores José Clemente Corrêa (PT), Ronnie Mello (PP), Rafael Alves (PSDB) e Francisco Barbará (PMDB).”


CONCLUSÃO DO DIÁRIO DA FONTE

Quer dizer então que eles: 1. admitiram ter atirado, mas, sem “a intenção” de atingir quase mataram Vilmar, que foi salvo por milagre. 2. acusam os pescadores de iniciarem um conflito contra marinheiros estrangeiros armados. 3. não devolvem o barco apreendido e ainda querem a presença da vítima lá no território deles.

É louvável a iniciativa dos vereadores, que foram tentar esclarecer os fatos. O que não pode é a versão dos algozes ganhar destaque sem que haja a contrapartida da vítima. É preciso entrevistar novamente Vilmar para reforçar sua versão, a partir do que disse a Marinha uruguaia. Fica parecendo, como sempre , que a vítima é culpada, e recebeu o “castigo merecido” (o famoso “alguma ele aprontou”). Não se pode admitir que os verdugos, depois de encher de bala dois cidadãos brasileiros desarmados e seqüestrarem o patrimônio brasileiro, ainda tenham o desplante de querer que Vilmar se apresente.

A versão uruguaia, confrontada com os fatos, não se sustenta. Eles dizem que estavam "retirando uma rede de pesca que impedia a navegação no Rio Quaraí". O rio é estreito, tem uns 60 metros de largura no Pai Passo. Qualquer ação tem de ser feita em comum acordo. Como podem decidir sobre a navegação, tomar atitudes de mão única, em águas compartilhadas? Iso não é motivo para perseguir e tirotear pescadores, ainda mais de país estrangeiro. Uma rede estendida começa no Brasil e acaba no Uruguai e vice-versa. A verdade é que o pescador foi atingido no barranco do lado brasileiro. Se tivesse sido atingido do lado uruguaio (o que seria lógico para a versão deles) então Vilmar não escaparia, não iria para Uruguaiana. Iria para Montevidéu, está certo?

Era mesmo o que faltava. O Uruguai canta de galo, faz pouco dos Direitos Humanos e ainda trata brasileiro atingido por seus disparos como um criminoso? Há fronteira para quê? Não tinha nada que ir lá pedir explicações. Os uruguaios já fizeram suas declarações: 50 tiros em Vilmar Rosa Duarte. Isso é assunto de soberania nacional, não de direitos humanos. Os presidentes dos dois países tomaram conhecimento do fato? O que está acontecendo no rio Quaraí? Eles são donos do rio, atiram e se garantem?

Ou tudo isso não passa de exagero? Devemos deixar para lá, não mexer em vespeiro, engolir o desaforo, achar que está tudo bem? Uma coisa é certa: se Vilmar for obrigado a ir, o Brasil sai perdendo. Tragam o barco de volta! E peçam desculpas! Não tentem colocar a culpa na vítima. Basta ser brasileiro para ficar sob suspeita?

RETORNO - Geraldo Hasse é quem me envia as fotos de Vânia: "As fotos anexas da Ponte Mauá foram feitas em janeiro pela Vânia Möller para matéria sobre contrabando. Uma delas foi publicada em página dupla na Panorama Rural. A Vânia é artista gráfica em Porto Alegre mas passa temporadas lá pela fronteira. Ela desenhou dois livros meus".

FUTEBOLZINHO


Nei Duclós (*)

Escuto conversa na vizinhança sobre o pacato pai de família de 43 anos que foi “jogar um futebolzinho” e quanto voltou para casa, morreu. Leio a história do tritleta de 60 anos que gostava de dar uma arrancada final nas provas, muito aplaudida, e que, por motivos misteriosos, também morreu. Os esportes foram formatados na época em que havia corpo físico para suportá-los, quando a seleção natural da era pré-antibiótico colocava na arena aqueles caras que fizeram guerras e estraçalharam mundos.

Hoje, falta proteína na primeira infância mesmo para quem tem condições financeiras para isso, pois a indústria alimentícia se encarregou de eliminar qualquer resquício natural da sua linha de montagem. Vemos criaturas sem condições de agüentar o desgaste em campo ou nas pistas, mas como foi armado um gigantesco e milionário circo em volta disso, assistimos a um massacre. Não apenas entre os profissionais, mas principalmente entre os amadores, que são no fundo os excluídos desse falso Olimpo.

A televisão mostra preparadores físicos distribuindo plaquetas concentradas de suprimentos para jogadores que cada vez mais se parecem a palitos de fósforo. Não sei como conseguem perder três quilos por partida e continuarem vivos, pois, além disso, tem a quebradeira de caneladas e rasteiras. No final, ainda é preciso dizer “com certeza” depois da partida, quando não há fôlego nem para ficar em pé, mas deve-se honrar o compromisso e despejar alguma coisa nos microfones.

O único futebolzinho que existe é este na nação exaurida de seus recursos. Antes, levavam para o estrangeiro os adolescentes, agora escolhem crianças. Daqui a pouco vão carregar o futuro atleta na barriga da mãe. Assim garantem que o Brasil forneça o que mais falta fora daqui: talento. O problema é o que aconteceu com Kaká: quando chegou na Itália, tiveram que turbiná-lo, pois era um ser normal e não iria suportar a barra de jogar entre os brutos.

O futebol é uma representação do conflito, praticamente uma guerra. Mata quem joga e quem assiste. Tratá-lo pelo diminutivo só se houver pernas-de-pau em campo. É o que vemos nos campeonatos, para desespero das torcidas.

RETORNO - 1. Imagem desta edição: Futebol em Angola, foto de Antônio Azevedo.2. (*) Crônica publicada nesta terça-feira, dia 14 de abril de 2009, no caderno Variedades, do Diário Catarinense.

12 de abril de 2009

VERBOS DO EGO NA PUBLICIDADE


Por serem repetidos a cada cinco segundos, todos sabem quais são:

EU QUERO - Os bobalhões dos anúncios aparecem caminhando a passos rápidos e largos (o marketing da pressa) dizendo que querem banda mais larga, portabilidade nas Bahamas, andar de skate em Machu Picchu, telefonar do Himalaia, tudo isso sem fronteiras no Brasil, porque pode ter fronteira no mundo todo, menos por aqui. Fronteira atrapalha os bandos de quero-queros dos reclames.

EU MEREÇO - Ninguém mais merece, só o que diz “eu mereço”. Conheço um que disse numa reunião: “Eu só faço o que é justo”. Claro, os outros só fazem o que é injusto. Merecer é ter acesso a tudo, sem nenhuma responsabilidade, e serve de vingança contra a grande injustiça no mundo que é a existência dos outros. Merecer é ter nascido para isso sem ter feito nada para merecer de fato.

EU POSSO – O cara pode tudo, ver futebol na lua-de-mel, usar o cartão a fundo perdido, ser recebido com sorrisos no banco mesmo sem ter visto jamais uma fatura de cartão de crédito (na publicidade a cobrança nunca aparece, só o usufruto). As novas favelas americanas estão cheias de gente que tudo podiam antes de os espertalhões da ciranda financeira rasparem os dólares realmente existentes (que é o lucro), deixando o passivo de trilhões de dólares reais (que é a dívida realmente existente dos trouxas).

EU CUIDO - Banco que lucra vinte quaquilhões por dia agora convoca pessoas de todas as raças para segurar uma árvore da Amazônia. A indústria de cosméticos que usa tudo que é insumo artificial nos seus produtos “naturais” canta como índio. Quem polui mesmo investe em propaganda mentirosa dizendo que preserva o meio ambiente. Nos anúncios, terceiriza essa virtude para os babacas que assistem. Você cuida, você pode, você merece, você quer.

EU VIVO - Viver todo mundo sabe o que é: basta jogar os cabelos recém lavados com xampu no ar cheio de flores, correr cem mil quilômetros sorrindo sem nunca ter um enfarte, passar margarina no pão rodeado da família padrão numerosa, saltar em câmara lenta de terno e gravata, sorrir de lado com o buzanfan bem instalado num carro milionário, trafegando em ruas vazias, ou seja, em que ninguém mais existe. Sem esquecer que viver é agora, entende? Antes e depois não existem.

EU TORÇO – Fazer parte da tchurma, abraçar-se a multidões de sovacos, enrolar-se em bandeiras, beijar camisetas, cruzar ajoelhado o campo, pedir autógrafo para analfabeto, decorar letras hediondas (“eu amoooo, você tem que vir aquiii, ó meu Deus quanta loucuraaaa, porquêêêê, só eu sinto por vocêêêê...”), tudo isso faz parte do verbo torcer, que é para identificar grupos de compradores compulsivos.

EU IGNORO – O melhor verbo de todos. Sua indiferença é a satisfação do consumo e a roda que gira o mundo. Serve não apenas para passar por cima de todo mundo como para cobrar virtudes nos outros, pois a coisa mais funda de ignorar é achar que só o ego é perfeito e que o resto não passa de um monte de sangueruim gente má pontafrouxa. Ignorar é viver, torcer, cuidar etc.

RETORNO - Imagem desta edição: Narciso, de Caravaggio.

11 de abril de 2009

SEREIAS DE DOIS MUNDOS


Nei Duclós(*)

Novelas de Mempo Giardinelli e Giuseppe Tomasi di Lampedusa são narrativas sobre a relação com o mito.

O canto das sereias é a sedução impositiva do mito, o chamamento ancestral que leva a criatura para o abismo de suas próprias origens, para a negação da sua individualidade e razão. A sereia encarna esse sequestro do humano para os confins do não-ser, ou do ser-um, o caos primordial que indiferencia todos os que foram criados. Fazer parte dessa humanidade primordial, misturar-se a essa água infinita, entregar-se a esse mar que desorienta o navegador é renunciar ao esclarecimento, pois no mito a sabedoria é cifrada e o enigma pertence aos que estão acima do humano (1).

Para se livrar desse laço mortal e enxergar sua identidade, o herói pede que o amarrem ao mastro, para que não caia na tentação de ouvir o ímã que o puxa para o fundo. Ele precisa insistir na busca de si mesmo, na rota que deve levá-lo de volta ao seu ego. Precisa se autoimolar, para se desprender das raízes e empreender uma busca completa de autoconhecimento. Consegue, assim, seu intento e aporta na realidade. Mas quem o espera é mais uma armadilha: seu entendimento é tão triunfante e completo que se transforma numa nova mitologia. Ele descobre, então, que o esclarecimento estava implícito nos velhos mitos e o que fez foi seguir um ciclo de volta ao seu início. O saber racional vira mito e o mito ancestral encerra a sabedoria.

A sereia habita as profundezas do mar primordial e busca na superfície as vítimas do seu encanto. Se for tomada como símbolo do que foi formatado na proto-História, o que regula e influencia a História humana posterior, ela assume não só essa dupla maldição, a de demônio que rouba a alma por meio da voz, ou de divindade que se interpõe no destino. Ela é mulher, e aí está o terceiro vetor do tridente. A parábola, o poema épico, a filosofia e a literatura se encarregam desse triângulo mortal, as três faces da sereia como construção do imaginário.

Dois ficcionistas de gênio abordam o mito da sereia de maneira oposta. Ambos compartilham ambientes parecidos: o sufoco da Sicília, no caso de Giuseppe Tomasi di Lampedusa (1896–1957), ou do Chaco, região noroeste da Argentina, no caso de Mempo Giardinelli (1947). A lua, o deserto, o calor envolvem o protagonista siciliano de O Senador e a Sereia e o argentino de Luna Caliente, no embate dessa busca de si mesmo, encarnada no encontro libertador (em Lampedusa) e fatal (em Giardinelli) com as sereias (2). São narrativas sobre a relação com o mito. Em Lampedusa, há o heroísmo da entrega e da redenção. Em Giardinelli, há voragem, em que o anti-herói quer devorar o que pretende evitar, sem reconhecer que está sendo engolido. A volta à origem é feita de maneira consciente no siciliano e por meio da ruptura e da tragédia no argentino. Ambos precisam aprender a lidar com a Outra, o gênero feminino.

Lampedusa traça o perfil do senador e catedrático Rosário de La Curcia, hiperespecialista em cultura grega, arrogante e misantropo, que tortura o narrador, um jovem jornalista decepcionado com seus amores e que acaba conquistando a amizade do helenista célebre. O motivo principal do desprezo que nutre pelos outros, especialmente os de pouca idade, são as ilusões do amor. O velho é um abstêmio sexual porque na juventude se satisfez com o amor tórrido com uma sereia, de verdade, daquelas que até falavam grego. O senador alcançou a imortalidade ao fazer sexo com a sereia, que o espera em qualquer quadra da vida, de volta, quando cansar do mundo. Sua segurança vem dessa promessa, que, afinal, se cumpre.

Giardinelli coloca na roda um trintão alienado politicamente, que volta de Paris formado, pronto para ascender socialmente numa Argentina dominada pela ditadura e pelo mito da pátria. É, então, seduzido pela visão da sereia adolescente e conduzido, por instinto e covardia, ao estupro e ao assassinato. Mas a ninfa imortal sempre volta para atormentá-lo, por mais que ele se esforce em assassiná-la. Ao contrário do senador, que se entrega às certezas do mito, o carreirista tenta, em vão, destruí-lo.

Giardinelli, um dos mais notórios escritores do seu país, destacado autor da literatura das democracias restauradas, como ele gosta de frisar, e que hoje vive no cenário de Luna Caliente, a cidade de Resistência, no Chaco, aparentemente trabalha o medo do anti-herói diante da mulher. Mas sua narrativa pega mais fundo. O personagem descobre que a Argentina vive uma época de destruição de identidade nacional e de imposição de uma mitologia obscura, fundada na ideia fascista de uma pátria madrasta. É tarde demais para escapar, pois já está comprometido com a cátedra da universidade local. É então seduzido pelo canto de sereia, o chamamento para as delícias da falta de razão e identidade, para o caos primordial, para a fuga. O sexo tórrido é a saída para suas amarras, sua decepção, sua solidão.

Ele cai na tentação e tenta se livrar da culpa, mas os novos verdugos, a ditadura argentina, o perseguem. O poder acena com um acordo: ele assume a culpa, se mantém, assim, preso ao regime e continua fora da cadeia. Ou, então, será desmascarado e encarcerado por décadas. Prefere escapar pela fronteira, mas é alcançado por quem, aparentemente, tinha sido eliminada. É o canto da sereia, que o leva de volta para suas origens no Chaco castrador, de onde fugiu para se salvar e voltou porque estava convicto da vitória da sua razão sobre as verdades impostas pelo clima, a paisagem, os laços familiares, o regime político instável e perverso.

Da mesma forma, Lampedusa reproduz o ambiente fascista da Itália, com seus intelectuais supérfluos, seus jornalistas vendidos, seus costumes amarrados. Tanto o jovem narrador quanto o velho sábio remam contra a corrente dessas imposições. Estão apartados da Sicília, vivem no norte do país, lugar considerado frio demais pelos habitantes do sul. Mas a condição de conterrâneos os aproxima, para que compartilhem de um segredo: a relação prazerosa com o mito, a salvação da vida medíocre por meio da entrega pessoal a tudo o que representa as origens, a terra, o mar ignoto. Desde que, claro, esses elementos sejam intermediados pela alta cultura.

É uma releitura do que pode fazer uma sereia, que, assim, perde o caráter demoníaco, tão presente em Giardinelli. O sufoco, em Lampedusa, está no frio, na racionalidade, na capital. A lua, a água do mar que geme de prazer sob o sol a pino, o sopé do vulcão em repouso, as tempestades, tudo o que é primordial e siciliano faz parte dessa mitologia particular dos migrantes que sonham com as delícias da terra natal.

É mais uma sintonia com Giardinelli, que escreveu sua novela no México, para onde emigrou depois da perseguição da ditadura. No exílio, ele cria a história do argentino que volta para suas raízes para impor a identidade e a razão e acaba sucumbindo diante da força da irracionalidade mitológica. Lampedusa tece a trama do siciliano que volta para os braços da sereia para escapar da aridez da sua vida, cercada pela irracionalidade e incompetência. Giardinelli não fala em sereia, mas em uma chaquense de 13 anos insaciável, incapaz de morrer diante do seu algoz. Mas é o mesmo mito. Senão como explicar sua imortalidade, sua reaparição constante depois de sofrer o atentado do amante?

As duas novelas são puro cinema. Luna Caliente foi filmada pela Casa de Cinema de Porto Alegre e veiculado pela Rede Globo em 1999. O Senador e a Sereia já nasce como sessão das quatro, aquela das tardes de verão em que nada se podia fazer além de fugir do calorão sentando numa poltrona para ver um filme inesquecível.

Notas: 1. Sobre o mito e a sereia, me baseei na leitura de Jürgen Habermas, que no volume O Discurso Filosófico da Modernidade, capítulo 5 (Martins Fontes, 2000, 540 págs.), comenta A Dialética do Esclarecimento, famoso texto de Horkheimer e Adorno de 1944.

2. Luna Caliente – Três noites de Paixão e O Senador e a Sereia foram editados pela L&PM, em 1985 e 1980, com traduções de Sergio Faraco e José Antônio Pinheiro Machado, respectivamente.


RETORNO - 1. Ensaio publicado neste sábado, dia 11 de abril de 2009, no caderno Cultura, do Diário Catarinense.

EXTRA: VIAGEM A SATURNO

Dando continuidade às Edições de Gala da Páscoa do Diário da Fonte (criar a e acessar cultura e informação são formas de oração), apresentamos mais um video com poemas meus musicados por grandes artistas. Depois de No Mar, Veremos e Minuano, ambos com José Gomes, já postados aqui, agora é a vez de Viagem a Saturno, música composta por Muts Wyrauch sobre um poema meu. A realização é da artista plástica multimídia Juliana Duclós:

10 de abril de 2009

O VETERANO DE GUERRA, DE RODOLFO KONDER



Nei Duclós

Um exemplar, autografado, do livro O Veterano de Guerra, de Rodolfo Konder faz parte da minha biblioteca desde o lançamento, em 1988. Sou o típico leitor desavisado. Se não houver pressão – fazer uma resenha, por exemplo - levo um tempo para mergulhar na obra de alguém, ainda mais se for contemporâneo e, por algum tempo, muito próximo, como Konder. Daqui a pouco vou ler, dizemos, e passam-se vinte anos. Como se fôssemos eternos e não tivéssemos a obrigação urgente e prazerosa de compartilhar a literatura que nossos pares produzem com tanta intensidade. Essa pouca vergonha acabou hoje, quando li, de uma sentada, esta composição de memória e ficção da melhor qualidade.

O Veterano de Guerra é um documento precioso sobre a repressão desencadeada pelo golpe de 64 e a transição da ditadura civil-militar para a chamada redemocratização, em que o personagem parte de uma vida bem resolvida para um estágio avançado de loucura. O mundo resgatado retalha os ideais e revela a face sinistra da decomposição. Rodolfo consegue fazer um retrato brutal do amadurecimento pessoal, criando, por meio da loucura do protagonista assumida como metáfora, uma expressão da lucidez ferida de morte. Ao mesmo tempo, o humor, a coragem e a grandeza do personagem fazem do livro um corte profundo de vidas desenraizadas pela repressão e as ditaduras. Sucessão de lugares, restaurantes, relacionamentos, episódios variados, eventos enriquecem a narrativa tornando-a uma densa navegação pelo mundo cheio de atrações entre o luxo e a miséria

O livro é dividido em cinco partes, todas parafraseadas por Jorge Luis Borges. Cada uma é pontuada por parágrafos que mais parecem telegramas de agência internacionais escritos por um sobrevivente. É como se o veterano de muitas batalhas encontrasse no meio das ruínas um teletipo ainda em funcionamento, e prevendo que tudo irá para os ares em poucas horas, escreve seu testemunho e seu testamento. O balanço da violência a que é submetido o narrador aprisionado num hospital psiquiátrico é a mais completa descrição do que vivemos hoje: as lembranças da tortura, da repressão, da indiferença, da violação das casas e do incêndio dos livros convivem com algo ainda mais profundo e letal:

“Outras formas de violência tem sido minhas companheiros, neste país que – todos dizem – pertence a um povo de índole pacifica e cordial. Há, por exemplo, a violência de antigos conhecidos, que há décadas me agridem com o mesmo discurso doutrinário, que eles brandem como tacapes(...) Há também, a violência dos frustrados e dos ressentidos(...) A violência aqui presente é a da rotina implacável. Não é a da ação, é a da proibição. (...) Lembra um quartel do Rio. Às vezes um hotel, simples e asseado. Ou um sonho, que pode tornar-se pesadelo”.


Quando Rodolfo chegou na redação da Istoé (onde eu trabalhava no final dos anos 80), depois de uma turbulento pedido de demissão ao vivo na TV Gazeta, onde era comentarista de Internacional, tinha (como até hoje) tanto prestígio e nome que desconfiamos. Além do mais, era de família rica, “apesar” de comunista. Isso era uma coisa incompreensível para nós, remediados debochados, o fato de alguém da elite vir ombrear conosco nos fechamentos. Rodolfo logo mostrou quem era: uma pessoa de primeira, afetivo, esclarecido e talentoso, que nos conquistou com sua gentileza de cavalheiro de grande formação, temperada por larga experiência como viajante pelo mundo, a maior parte do tempo como exilado, perseguido que foi pelo abril de 1964.

Cronista, romancista, contista, professor, militante dos direitos humanos, o talentoso Rodolfo é há décadas um jornalista multimídia e acaba de assumir a coordenação da atividades da Representação da ABI – Associação brasileira de imprensa, em São Paulo, em substituição a Audálio Dantas. No início deste mês, no dia 5, Rodolfo completou gloriosos 71 anos. Longa vida aos heróis da Pátria.



Jornalista e escritor Rodolfo Konder morre aos 76 anos em SP


 

O jornalista, escritor e professor universitário Rodolfo Konder morreu aos 76 anos na manhã de ontem em São Paulo.
De acordo com sua mulher, Silvia Gyuru Konder, com quem era casado havia quase 40 anos, Konder morreu devido a complicações no tratamento de um câncer. Ele estava internado há dois meses no hospital Beneficência Portuguesa. Há 20 dias, ele foi internado na UTI (Unidade de Terapia Intensiva), onde morreu às 10h30.
"Ele estava em uma batalha insana contra o câncer. Rodolfo foi uma pessoa muito séria, muito íntegra, muito intrigante. Era um excelente pai. Muito divertido. Foi uma perda muito grande", disse Silvia. O corpo de Konder foi cremado ontem às 17h, no Crematório Horto da Paz, em Itapecerica da Serra (Grande SP), em cerimônia restrita aos familiares.
Konder era diretor da representação da ABI (Associação Brasileira de Imprensa) em São Paulo. Natural de Natal (Rio Grande do Norte), Konder nasceu em 1938, filho de Valério Konder, que foi dirigente do PCB, e de Ione Coelho. Era irmão do filósofo Leandro Konder e de Luíza Eugênia Konder. O jornalista deixa um filho.
Um dos maiores defensores das liberdades e destacado militante contra a ditadura militar (1964-1985), Konder foi preso político em 1975, ao lado do jornalista Vladimir Herzog. Ele foi testemunha do assassinato sob tortura de Herzog nas dependências do DOI-Codi (Destacamento de Operações de Informações do Centro de Operações de Defesa Interna) em São Paulo.

Reprodução/abi.org.br
O jornalista e escritor Rodolfo Konder
O jornalista e escritor Rodolfo Konder
Konder foi secretário municipal de Cultura de São Paulo nos governos Paulo Maluf (1993-1996) e Celso Pitta (1997-2000). Além disso, foi membro do Conselho da Fundação Padre Anchieta (TV Cultura), integrou a diretoria da Bienal de São Paulo e foi presidente da Comissão Municipal para as Comemorações dos 500 anos do Descobrimento do Brasil.
Como jornalista, Konder trabalhou nas revistas: "Realidade", "Singular Plural", "Visão", "Isto É", "Afinal", "Nova"'; e colaborou com a "Playboy", "Revista Hebraica" e "Época". Também trabalhou em jornais e em rádio –como a Rádio Canadá, em Montreal. Durante quatro anos, foi editor-chefe e apresentador do "Jornal da Cultura" (TV Cultura) e colaborador permanente de "O Estado de S. Paulo" durante dez anos.
Publicou artigos na Folha e nos jornais "Movimento", "O Diário", "Voz da Unidade", "Jornal da Tarde", "Gazeta Mercantil", "Diário Popular", "Pasquim", "O Paiz", "La Calle", "El Clarin", "História", "Venus", "Opinião", "Povos e Países", "Jornal do Brasil", "Jornal da Semana", "Leia Livros", "Shopping News", "Américas" e "Shalom".
Konder foi professor de jornalismo na FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado), diretor da FIAM (Faculdades Integradas Alcântara Machado). Além disso, Konder fez palestras e conferências no Brasil e no exterior, sempre sobre temas relacionados ao jornalismo, à liberdade de expressão e à luta pela democracia.
Como escritor, Konder venceu o Prêmio Jabuti em 2001 pelo livro "Hóspede da Solidão". Ele também é autor de: "Cadeia para os Mortos", "Tempo de Ameaça", "Comando das Trevas", "De Volta, os Canibais", "Anistia Internacional: uma Porta para o Futuro", "O Veterano de Guerra", "Palavras Aladas", "O Rio da nossa Loucura", "As Portas do Tempo", "A Memória e o Esquecimento", "A Palavra e o Sonho", "Hóspede da Solidão", "Labirintos de Pedra", "Rastros na Neve", "Sombras no Espelho", "Cassados e Caçados", "Agonia e Morte de um Comunista", "A Invasão", "As Areias de Ontem", "Educar é Libertar" e "O Destino e a Neve".
Konder também venceu os prêmios Monteiro Lobato (1979), Vladimir Herzog (1982), Hebraica (1995), ECO (2002) e Borba Gato (1996)

BAÚS DA MEMÓRIA



Nesta sexta-feira da Paixão, o jornalista Cesar Valente fez uma brincadeira com os termos religiosos para desencavar fotos e fatos do baú que ele guardava. Digo guardava pois as memórias estão recorrentes nos blogs catarinenses desde que publiquei a agora clássica e antológica foto da equipe original do Jornal de Santa Catarina (publicada pela primeira vez no próprio JSC por ocasião do lançamento do meu livro Outubro em 1976, numa matéria do jornalista José Rodrigues). Memória é arte prazerosoa e infinita, pois sempre tem alguma coisa guardada.

A foto acima, por exemplo. Um flagrante na redação do jornal O Estado, que inaugurava suas máquinas off-set e convidara Jorge Escosteguy para ser editor de Nacional e Internacional. Escosteguy me chamou para ser seu redator e é nessa atividade que me encontro na imagem acima. Na redação liderada por Marcílio Medeiros, Filho, fazíamos o melhor jornal possível, limitados por inúmeras contingências. Foto que o Cesar Valente guardava para uma ocasião como esta. O que não dá para aguentar é a cara de felicidade do sujeito folheando um jornal. De que ria o rapaz?

A seguir, o post do blog de Cesar Valente, De olho na Capital:

DIRETO DA SACRISTIA

Cesar Valente


"O irmão Nei Duclós tem revirado seu baú de lembranças da década de 70 e publicou algumas fotos e fatos relativos à turma de jornalistas que implantou o Jornal de Santa Catarina. E citou expressamente dois apóstolos daquela época que ficaram na ilha até hoje. O bispo Mário Medaglia e o monsenhor Paulo Brito, que por sua vez citaram as escrituras de Duclós em seus sermões, criando um círculo virtuoso que é oportuno lembrar num dia santificado.

Eu não estava entre os gaúchos que implantaram o Santa, nem entre os gaúchos que, poucos meses depois, vieram para Florianópolis implantar a nova fase do jornal O Estado, porque não sou gaúcho. Mas estava entre os sacristãos catarinenses que ajudaram a missa em off-set de O Estado, desde a primeira hora.

E também tenho um baú de guardados, que começo a examinar. Achei, pra começo de conversa, duas fotos muito interessantes, de minha própria lavra e apropriadas para um dia de orações e jejum.

Este jovem de longos cabelos, enquadrado numa moldura pop (o teclado desfocado de uma máquina de escrever) é o poeta quando jovem. Ninguém menos que o irmão Nei Duclós, na redação do mais antigo. Apesar da má qualidade da foto e de sua digitalização, vêem-se as moderníssimas cadeiras de madeira moldada, que faziam a felicidade de nossos derrières.



Este outro jovem, que aparentemente estava lendo o breviário, é Mauro Júlio Amorim, manezinho, cronista de mundanidades, apresentador de TV, observador da cena artística, amigo de nove entre dez celebridades do teatro nacional. E, ao fundo, desfocado, Pinóquio… não, não, brincadeira, não é ninguém de nariz comprido, aquilo é apenas uma sombra malévola. Aquele é o Renan Ruiz, diagramador, da turma do Santa que veio para O Estado.

A propósito das lembranças do Nei, caso ainda não tenham visto, dêem uma lida no texto em que ele revisita a história do robô da Fainco."

8 de abril de 2009

MINUANO, A CANÇÃO



Minuano, Música de Zé Gomes, Poema de Nei Duclós: "O vento é uma pedra polar/ que põe o campo de cabelo branco/ e acende meu corpo tropical/ O pampa não sonha quando balança/ ao som do minuano no varal/ mas meu coração se lança contra o tempo mau/ Armo as velas neste vendaval." (Do livro "No meio da Rua", de Nei Duclós, L&PM Editores, 1979)

JORNALISMO ITALIANO NÃO APONTA COM O POLEGAR


Não causou nenhum impacto, claro, minha denúncia de que os jornalistas da televisão brasileira se postam de costas para os fatos e os ambientes reportados e apontam para eles com o polegar. Como se a coisa situada atrás não fizesse parte da mídia privilegiada. Como todas as matérias agora são assim (deve ter um consultor que treina os repórteres e os ensina a apontar com o polegar), parece mentira que em outros países não funcione assim. É o caso da Itália. No terremoto italiano, a repórter se posta na frente da casa destruída e quando vai se referir a ela se volta quase totalmente para o assunto focado, estende o braço e a mão, a significar que a reportagem faz parte da paisagem, a repórter faz parte do povo e a fala que está sendo dita é a extensão das ruínas. Vejam a Reportage da Onna.

Apontar com o polegar é como fazer fofoca. É postar-se fora do que está sendo mostrado. É colocar-se acima, é provar que a empresa de comunicação não faz parte da nação sucateada. Faz sentido, pois enquanto aumentam os destroços do país sem soberania (que agora vai colocar dez milhões de dólares no FMI para socorrer a ciranda financeira), mais a mídia exibe a cara limpa e bem posta da elegância fake. São Homers Simpsons da indiferença. A jornalista italiana não está fantasiada de palhaça, não faz trejeitos e tem a voz realmente emocionada, mas ao mesmo tempo firme. Não faz papel de canastrona que finge interessar-se pelo sofrimento alheio. Ela é o próprio sofrimento, mas como está informando, tem a compostura necessária para exercer seu ofício.

Essas coisas me deixam nervoso e acabo acessando pouco o jornalismo estrangeiro. Eles fazem o que deveríamos fazer, tanto na televisão quanto no impresso. É mais do que triste, é uma tragédia. Também não vejo na cobertura do terremoto gente nada-a-ver expressando emoções baratas. As pessoas entrevistadas são especialistas, autoridades, técnicos, voluntários, vítimas, gente envolvida no fato. Não fazem alguém descer de para-quedas e exibir caras e bocas de que está sofrendo e por isso todos devem então se emocionar. Perdemos o referencial, estamos fora da vida normal.

A tecnologia simplesmente acabou com todos os obstáculos para se fazer algo que preste no jornalismo. Você é sua própria mídia, você faz o vídeo, você vai até lá e reporta. Ou então os próprios jornais superam a televisão, expondo imagens que podemos acessar quando quisermos. Sem essa de assistir as chamadas do noticiário (“não perca, viu?”) e depois esperar milhares de minutos sobre como alisar cabelo com abacate até chegar ao que interessa. E quando vem a matéria, ela ocupa menos tempo do que o espaço ocupado pelas chamadas.

Tudo isso é distorção e perversidade. O jornalismo intensificou suas exigências, tanto para quem lê e assiste quanto para quem produz. É o fim do jornaleco, já que o paradigma é, por exemplo, o Corriere della Sera ou El País, ambos acessíveis a um toque de mouse. Ou, pelo menos, deveria acabar. Nos blogs também aumentou a exigência. Hoje um blog é completo, tem além dos posts, os links para inúmeros acontecimentos e personagens.

Desde ontem, mais um link permanente foi inserido aí ao lado: o De Olho na Capital, de Cesar Valente, jornalista que conheci muito menino nas redações da vida e hoje é um veterano e respeitado profissional de comunicação. Leitura obrigatória para quem vive por aqui em Florianópolis e também para quem acompanha os acontecimentos, pois Cesar Valente é antenado em tudo. E tem aquela postura tranqüila e limpa de quem não faz pose e acerta sempre no veio.

De olho na mídia, do sul ou do norte, da capital e do interior: os fatos somos nós e nosso entorno, o que está distante e próximo . Repórteres de televisão: não apontem com o polegar o que está nas costas de vocês. É feio e pega mal.

RETORNO - 1.Imagem desta edição: Aquila antes do terremoto. 2. Querem conhecer ou saber mais sobre Clovis Heberle, o jornalista que se aposentou e, segundo os comentários na Coletiva.net, faz falta nesta época de crise na profissão? Acesse este belo perfil.

7 de abril de 2009

CALÇADAS



Nei Duclós(*)

Acho uma coincidência suspeita o fato de os calçadões terem sido criados quando as calçadas começaram a sumir do país. Já que o passeio público cedeu diante da especulação imobiliária e o avanço criminoso do automóvel, foi preciso reservar uma área que não comportava o excesso de trânsito para o pedestre fazer as compras com tranqüilidade. Ao mesmo tempo, as praças também foram demolidas, abandonadas ou invadidas pelos despossuídos de casas e televisão. Play-ground, então, é um conceito ultra-sofisticado para a atual fase de barbárie. O que existe, às vezes, são algumas gangorras estilizadas sobre areia pedregosa e suja, que atrai mais cachorro abandonado do que criança.

Vejo mulheres empurrando carrinhos de bebê pelas ruas, como se as rodinhas pudessem enfrentar o rosnar dos pneus que cantam e desrespeitam o último acordo civilizado, a contra-mão. Como há no caminho empecilhos como buracos, caminhantes, bicicletas, os veículos saem do seu leito normal para avançar perigosamente sobre os que vêm em sentido contrário. O ambiente urbano assim se transforma numa catástrofe.

Isso no perímetro urbano. Nas estradas, é o que sabemos. Não há motorista que perdoe o outro rodando a menos de 110 km/h, mesmo que as placas anunciem o limite de 60 ou 80. As placas existem pró-forma. A única lei é a vontade de quem dirige.

Esse caos se instala de maneira veloz à medida que as cidades perdem completamente seu status de lugar pacato e comunitário e atingem o nível dos volantes que se xingam, se ultrapassam em lugares proibidos, cruzam na frente sem fazer sinal, pressionam quase encostando na traseira, buzinam de maneira enlouquecida ou impõem suas presenças no meio das pistas. Estamos intensificando os impasses, com prejuízos evidentes nas estatísticas. A todo momento, alguém bate em quem está na frente. Quando ficam dançando atrás de um carro que não está na velocidade requerida pela ansiedade e a arrogância, fica explícito que o objetivo é a eliminação física do indesejado interlocutor.

Uma coisa que atrapalha muito são as calçadas. Vai chegar uma hora, em que elas serão totalmente erradicadas. Trata-se de uma idéia obsoleta. Ela atrapalha a violência crescente que devora uma velha esperança, o futuro.

RETORNO - 1. Imagem de hoje: calçada portuguesa - "meia esquadria, aplicação de pedra antiga". O melhor de Portugal não imitamos mais. Prefirmos esse troço, esse monstrengo, essa situação-limite gerado pela incúria. 2. (*) Crônica publicada pelo Diário Catarinense, caderno Variedades, de 7 de abril de 2009.

6 de abril de 2009

NO MAR, VEREMOS: A CANÇÃO


Este é o video (que já está no you tube) feito por Ida e Juliana Duclós sobre meu poema No Mar , Veremos, musicado e interpretado pelo talento e a voz poderosa de José Gomes, o maior compositor do Brasil, o multiinstrumentista que pesquisa sons de raiz e de lá tira um movimento permanente de vanguarda musical. Atentem para a viola pesquisada e adaptada de José Gomes no acompanhamento desta canção que já nasce épica, para ser cantada pela multidão em praça pública. É o que sonhamos. E sonhamos para mudar o mundo. Veja, ouça, diga lá:

http://www.youtube.com/watch?v=HMsZhzPEbe8

Lembro que fiquei anos escrevendo o poema. Inventei, na poesia, a lenda do barco que não se entregava, que não se dobrava diante das tormentas, pois sempre voltava e ficava firme na beira. Era uma história da infância transformada pela poesia. Em três ou quatro meses de 1986, quando trabalhava na Lapa de Baixo, em São Paulo, na revista Senhor, eu rescrevi o poema todos os dias. Era um poema diferente a cada 24 horas. Deu o maior trabalhão. Mas ele está aí, 15 anos depois, firme e forte. Agora, vestido de gala, com o trabalho maravilhoso de José Gomes.

Conheci José Gomes depois que li uma entrevista sua dizendo que não havia mais bons poetas no Rio Grande do Sul. Escrevi para ele reclamando e mandei alguma coisa. Ele me recebeu em sua casa e escolheu então No Mar, Veremos e Minuano, para musicar. As duas canções existem desde 2004. Minuano também será transformado em video proximamente.

Agora, siga o poema No Mar, Veremos, que está inteiro no video e foi publicado no livro do mesmo nome em 2001 pela Editora Globo, que tinha então no comando editorial Wagner Carelli.

NO MAR, VEREMOS

Nei Duclós

Pescador de rio pequeno
coloca tudo nos eixos:
seu aço guardado em sótão
sua lança quebrada ao meio

Sabe o rumo da tormenta
o passo da palometa
o avesso de toda malha
o limo sob o sereno

Pescador de rio moreno
charrua de preta escama
seu barco já está a prumo
aguarda a voz do minuano

E se vier o mar
com séquito de sereias
a espuma em seu território
a carne suja de areia?

E se vier o mar
usando arpões de baleia
sargaços ardendo em febre
gáveas altas como estrelas?

Pescador tem a resposta
dobrada em lenço vermelho
que aviva os sonhos do sótão
de aço posto nos eixos

Pois o mar é uma lenda
cultivada pelo vento
a porta de um outro mundo
maré de água estrangeira

é uma espécie de terror
com batalhão de tridentes
generais do imperador
roubo de comerciantes

O mar, para um pescador
criado em água corrente
nos arames dos arroios
entre os moirões das fazendas

é uma dança pelo avesso
a trilha do formigueiro
metralha sob a vanguarda
canhão contra baioneta

Pois se vier o mar, veremos
o barco a remo do pampa
puxando um cordão guerreiro

para atiçar a batalha
para tingir os valentes
para costurar a mortalha
do sal que resseca a rede

que suga o sangue farrapo
com sua manha de peixe

Pescador vem do levante
e um milhão atrás dele

LEITURA À BEIRA DO TEMPO


Vamos resgatar essa bela instituição do jornalismo que é a foto-legenda:"O livro que Fernando Gabeira lê é Quando Alegre Partiste, de Moacir Japiassu, seu amigo e companheiro no Correio de Minas, em 1962/63, e no Jornal do Brasil, entre 1964 e 1967. Gabeira é personagem do romance, cujo cenário principal é o Rio durante o golpe militar. Ele e Japiassu, com mais outros amigos, viveram nas aperturas de uma quitinete no antigo 200 da Barata Ribeiro, naqueles tempos de horror". A legenda veio junto com a foto.

Lembro quando recebi os originais do romance, na época em que fui editor executivo da W11, hoje Francis, capitaneada por Wagner Carelli. Li numa sentada, nos originais, antes mesmo de o livro ficar pronto. Regalias de quem costuma, não sei porquê cargas dágua, estar sempre perto dos acontecimentos. Sorte de quem tem amizades como a de Japi, hoje habitante de pacato sítio em Cunha, no interior de São Paulo.

5 de abril de 2009

O MITO VOLTA À MINA FUNDA


Reproduzir texto alheio é complicado. Dificilmente faço isso aqui no DF. Quando citam em algum lugar, jamais dão o crédito devido. O que vem a seguir, por exemplo, foi escrito pelo jornalista gaúcho-catarinense Paulo Brito, mais um que demora a publicar seus arquivos. Como mexi com os brios dos sessentões, agora aos poucos eles estão sendo conquistados para a mais prazerosa das artes, escrever as memórias, resgatar o que foi dito e escrito ao longo da vida longeva. Então, repito: o texto seguir é de Paulo Brito e mais ninguém. Combinado? A foto é de um comício de Brizola, não obrigatoriamente em Criciúma. Serve como ilustração.

CRICIÚMA NÃO ESQUECERÁ JAMAIS

Paulo Brito, 1992

"Ao pisar no primeiro degrau do jatinho, Brizola foi agarrado pelos braços de Leonel Pavan, prefeito de Balneário Camboriu e em seguida, nos braços da multidão foi levado e arrastado até a caminhonete que o levaria ao prédio da Prefeitura. Os mais velhos recordavam os tempos de cadeia, da repressão e do fechamento dos sindicatos. Os mais jovens começavam a conhecer a história do trabalhismo. Crianças e mulheres se misturavam na multidão. Todos queriam abraçar, tocar e chegar perto de Brizola. Uma excitação que se espalhava pelas ruas de Criciúma e chegava à praça Nereu Ramos.

Um delírio que tomou conta da cidade desde que foi anunciada a vinda de Brizola à Criciúma. Nos círculos de pessoas que se formavam em torno das obras do palanque, velhos e moços misturavam-se recordando o passado de luta do trabalhismo. Um senhor de 40 anos mostrava a Doutel de Andrade um rascunho sobre a vida de Brizola e pedia para que o partido financiasse a publicação, pois acreditava:

- “Ninguém conhece sua vida. Eu conheço. O que escrevi vai acabar com as especulações de que Brizola fugiu do país vestido de mulher. Ele, na verdade, saiu vestido de brigadiano”.
Do comício na noite anterior, as pessoas só falavam da violência dos seguranças; dos ovos jogados em Collor de Mello e no “Careca”; dos bastões de choque; do gás lacrimogêneo e do desrespeito do candidato da direita com a imprensa.

Ansiosas, as pessoas, queriam entregar bilhetes; relembravam os tempos do Grupo dos 11; do tempo de prisão, das torturas. “Pinicilina” falava com orgulho das conspirações contra o regime militar e orgulhoso exclamava:

- É o nosso líder e podemos voltar a falar, criticar sem que os “gorilas” nos tirem das ruas.
Como “Pinicilina”, Criciúma queria lavar a alma. Os mineiros queriam ver e abraçar Brizola. A história de antes, que não foi apagada pela ditadura, era lembrada a cada momento nas ruas, nos bares e na praça, enquanto o coreto era arrumado para o grande comício do dia seguinte. Uma festa que Criciúma jamais esquecerá. Uma festa que só o Metropol sabia fazer, nos anos 60 quando ganhava todos os campeonatos de futebol.

O povo nas ruas e na praça recuperava a história. A história do trabalhismo, arraigada na alma daquele povo e ressurgirá entre os mais jovens.
- Como presidente da República vou dar continuidade ao governo de Getúlio.

Uma frase histórica. A frase mais aplaudida pelo povo na praça. A vinda de Brizola, o trajeto do aeroporto até o centro da cidade era saudado a cada instante, a cada momento. Quando ele chegou o povo se dividia entre o aeroporto e a praça. A distância era muito grande, caso contrário Brizola teria sido carregado nos ombros do povo do aeroporto até a praça Nereu Ramos.

Nas calçadas das ruas e avenidas, as pessoas aplaudiam, outros, afoitos, aproximavam-se da caminhonete, como transtornados, tentando tocá-lo. Na Prefeitura, a multidão pegou Brizola nos ombros e o colocou em cima do caminhão. Lentamente a caravana conseguia passar, homens queriam subir na carroceria, impedido gritavam:
- Eu estive preso por causa dele. Me deixa subir -, imploravam.

Devagar a comitiva se deslocava, mais de mil carros formavam o cortejo, que hoje chamam de carreata. O caminho parecia longo. Devagar, Brizola foi chegando, cumprimentando o povo. Mary Terezinha parou de cantar e a multidão que se encontrava na praça desde o meio dia, pôde ouvir o que queria ouvir. Foram mais de quatro horas de espera, mas ao final - sem ovo, sem vaia, sem seguranças e sem violência - o povo voltou para casa feliz. "

Paulo Brito
Criciúma 1992

GAUDÉRIO


Nei Duclós

Retrato de vagabundo
sou escritor estradeiro
passageiro em Gotham City
peão das letras

Escrevo por ser escravo
de uma possível colheita
que me faça companheiro
do gaudério da lenda

Conheço os heróis de nome
mas prefiro as estrelas
Debaixo do céu noturno
sinto medo

(Do livro No Mar Veremos, Editora Globo, 2001)

RETORNO - Imagem desta edição: desenho de Fontanarrosa para Martin Fierro, o Filme.

4 de abril de 2009

ROBÔ DA FAINCO: FATO, MEMÓRIA E FOLCLORE


Nei Duclós

Invasões provocam uma busca incessante de legitimidade local. Os adventícios, as mudanças de hábitos, as transformações do tempo conspiram contra a identidade de um lugar. Os habitantes precisam então cultivar a memória, dar sua versão dos fatos, manter o folclore, intensificar suas certezas. Há uma natureza escorregadia nesse processo: o conflito acontece pela artimanha, a tradição oral, os casos isolados.

Não há um confronto explícito, pois os nativos também estão envolvidos na geração dessa borboleta que sai da casca,a cidade que não é mais a mesma, os personagens que morrem, as anedotas que se perdem e os confortos e problemas que substituem a imagem de uma urbanidade pacata e paradisíaca. Mascarar o dito, aumentar um ponto, apagar os vestígios, celebrar conchavos narrativos e lembrar de vez em quando de algo perdido para sempre são maneiras de, aparentemente, um nativo continuar sendo o que sempre foi, quando todos sabem que ninguém mais é o que costumava ser.

O caso do Robô da Fainco é exemplar. Recebi a história pronta, versão hilária da esperteza de um empresário que tentou ludibriar os ilhéus com um robô inspirado na mesma criatura da série televisiva, sucesso na época (anos 60 e 70), Perdidos no Espaço. Foi atração e estrondoso sucesso numa das Fainco, que se realizava todos os anos. A edição número 1 da Veja de 11 de setembro de 1968 informava que na I Feira e Amostras da Indústria e do Comércio, a ser realizada no campus da Universidade Federal de Santa Catarina (Bairro da Trindade) cem expositores estariam presentes no evento, que era um promoção da Faculdade de Engenharia da UFSC.

A Fainco, segundo minha pesquisa na internet, "despertou muito a atenção do público, pela forma como foi promovida pelos engenheirandos da 1968. Na oportunidade foi aproveitado o edifício em estado de acabamento da Faculdade de Filosofia, em Trindade, juntamente com a esplanada da Universidade Federal de Santa Catarina, onde se instalou também um parque de diversões. Em 1969 programou-se uma segunda Fainco tendo por local o edifício em acabamento da Assembléia Legislativa". Nessa segunda edição, a agência AS Propague, de Antunes Severo, lançou mil exemplares de uma gravação do Rancho do Amor à Ilha, composto por Claudio Alvim Barbosa, o Zininho.

Mas vamos voltar ao Robô. Vários fontes se sucedem para contar a história. Uma delas é do filho do repórter que na época escreveu para o jornal "O Estado" sobre a prisão do Robô da Fainco. O escritor e contador de histórias Luiz Aurélio Baptista diz como foi. Quem me enviou a mensagem de Baptista foi o jornalista Paulo Brito. O texto diz o seguinte:

"Corria o início da década de 70, e na pacata e sempre ingênua Florianópolis acontecia todos os anos a Feira da Industria e do Comércio (Fainco – o A é de Amostras e não Anual, como saiu em alguns veículos – Nota do Diário da Fonte). Em determinada ocasião, a Fainco foi realizada na então inacabada obra da Assembléia Legislativa de SC, no centro da cidade.

Uma das atrações era um Robô, parecido com aquele do seriado "Perdidos no Espaço", coqueluche da época. O tal Robô, dizia o empresário que o trouxera, era totalmente "robótico e inteligente", ou seja, sem um ser vivo sequer dentro dele...A manezada ingênua pagava ingresso para ver aquela maravilha tecnológica da época, e como a comunicação naqueles idos era difícil, não foi possível saber que "aquela maravilha" já havia sido um fracasso em outras cidades do Brasil, tendo em vista a desconfiança das pessoas, pois achavam que ali dentro havia um ser humano, ou seja, não enganava ninguém!

Pois bem, a Fainco foi inaugurada com toda pompa, banda de música e muita reverência àquela fantástica atração - o Robô da Fainco. Após dois dias de filas intermináveis para ver o Robô, e o "empresário" do monstro já com as bufas cheias de dinheiro da manezada, eis que um singelo vigia noturno da Fainco ficou desconfiado, pois havia sido furtada uma bolsa de uma manezinha, bem no local onde o Robô circulava e ficava "desligado" à noite.

O vigia, já desconfiado que o robô era o larápio resolveu ficar de campana naquela noite, só observando o bicho, de longe, afinal, ele teria que descansar um pouco ou sentar-se, se humano fosse. Aí, pensou o esperto vigia, chamo a polícia e dou o flagrante. Não deu outra: lá por uma hora da madrugada o istepô apoiou o pézinho na parede, como todo ser humano faz, e além disso, deu um espirro... Aí foi demais! O nosso Sherlok Holmes fez um escândalo e chamou a "rapa", que prontamente prendeu o Robô e o seu dono, ou empresário, como queiram.

Foram todos madrugada adentro para a 1 ª DP explicar-se para o delegado Elói. Mas ninguém tinha coragem de tentar desmontar o bicho e nem sabiam por onde começar, pois a geringonça era bem bolada mesmo, tipo lacrado. Tenta desmontar daqui, desmontar dali, eis que chega proeminente figura do Governo Do Estado com o objetivo de levar as notícias fresquinhas ao governador, tendo em vista que o escândalo já tomava conta da madrugada. O figurão, meio afeminado que era, chegou perto do robô, olhou, olhou, tocou no bicho, não se conteve e fez a pergunta:
- Robô, tu falas? E o Robô respondeu
- Falar falo, mas com veado não!!!”

Vamos a mais um capítulo da história. No blog do Dogman, ela é um pouco diferente: “Aconteceu no ano de 1968 em Florianópolis, mas eu só soube agora. Numa feira de invenções ou inovações industriais (ou coisa parecida) chamada Fainco, promoção do Departamento de Engenharia da UFSC, surgiu um robô de lata, no melhor estilo Perdidos no Espaço. Os estudantes, os pesquisadores, o público, a imprensa, enfim, todos os freqüentadores do evento ficaram boquiabertos com tamanha tecnologia, até então só vista na ficção do cinema e das histórias em quadrinho. O robô era articulado, movimentava-se com agilidade, só faltava falar.

A polícia foi chamada para conter o tumulto provocado pela novidade, afinal, era coisa de outro mundo. Um dos investigadores já avaliava a situação e, astutamente, percebeu quando o homem de lata se dirigiu ao banheiro. Por uma fresta da porta, viu claramente um anão sair de dentro da fantasia e correr, apurado, para fazer um pipizinho. Esclarecido o mistério, o detetive deu voz de prisão a ambos. O anão, dias depois, foi solto e se mandou pra São Paulo. O robô, que fizera sucesso no programa Flávio Cavalcanti semanas antes e fora contratado para animar a feira, continuou preso na capital.”

Outra fonte, Aldírio Simões, conta do seu jeito: “A prisão do robô da Fainco, por exemplo, não poderia ter sido mais burlesca, pois o policial prendeu o robô e soltou o sujeito que estava dentro da armadura. O meliante, conhecido como Sapo, protagonizou uma fuga espetacular, dessas de cinema, e aos olhos da imprensa. Sapo era um arrombador respeitado, abria as fechaduras mais sofisticadas na época e isso intrigava a polícia. Ao ser preso, o radialista Jorge Salum foi entrevistá-lo no porão de uma delegacia e o delegado, um pavão de penacho, porém incrédulo diante da especialidade de Sapo, determinou que mostrasse ao repórter a sua habilidade em abrir uma fechadura. Ele aceitou, pediu que o delegado e Salum entrassem na cela, o que foi atendido, e, do lado de fora, Sapo trancou a porta e ganhou a liberdade.”

O colunista da RBS e do Diário Catarinense, Cacau Menezes, comentou o acontecimento em janeiro deste ano: “Morreu domingo, em Los Angeles, o ator e dublê Bob May, que interpretou o robô no seriado Perdidos no Espaço. “Perigo, perigo”, alertava ele com uma voz metálica. Já outro robô também muito famoso, o da Fainco, deve estar “mocozado” em algum canto desta Ilha rara. O robô da Fainco (uma feira da indústria e do comércio local) movimentava-se e até falava, foi atração na cidade. Daí um policial desconfiou e descobriu um anão dentro do robô, que foi preso. Governador Luiz Henrique, que trabalhava no Dops, era o escrivão da época. Os detalhes desta passagem estão fazendo falta na literatura folclórica da Ilha.”

Mas há ainda outra versão, a do filho do empresário do robô, que se assina Lima no blog do Dogman e é de São Paulo: “É claro que o robô possuía alguém dentro. Vcs não assistiam perdidos no espaço?? em plenos anos 60 vc esperava robo eletrônico?? aquilo é como magico que tira coelho da cartola é para atrair pessoas e deu certo O robô não respondia perguntas decoradas, como o cidadão citou. Existia um sistema de radio intercomunicador dentro do robo Como já disse, aquilo atraiu publico e deu dinheiro para fainco. as crianças gostam os adultos tambem. Meu pai não tinha que ser alvo de mentiras subjetivas aquilo é o que todo mundo esperava. quem assistia perdidos no espaço sabia que tinha um homem dentro, nem poriço deixei de gostar dele e gosto de assistir a serie ate hoje. Se a nasa em 1969 levou quase 40 anos para produzir um robô, porque o motivo do alarde na epoca isso é ridículo, tanto é que ganhou na justiça. foi um trabalho bonito, atraiu o publico, deu dinheiro para os stands todo mundo ganhou...”

Eis um rodízio de ingenuidade e esperteza, a revelar a mudança da capital catarinense, de pacata e bucólica, num centro de indústria e comércio, com feira importante de tecnologia. O choque foi inevitável. O perfil da cidade mudava, o robô, que deveria ser um exemplar futurista, se transformou, ou foi transformado num caso de polícia. A desconfiança em relação às mudanças, o folclore em cima da modernidade, a piada substituindo a importância do evento, tudo isso serve para “colocar as coisas no lugar”. Ou seja: não venham tentar transformar esse lugar em algo diferente que nós não permitimos. Hoje, as histórias deitam e rolam em cima da ingenuidade da ilha, numa auto-punição consentida, fonte de todo humor, pois "só nós temos direito de rir de nós mesmos".

Ou talvez nada tenha essa seriedade toda. E foi apenas um fato folclórico, lembrado às gargalhadas. E que merecia um registro aqui no Diário da Fonte, que acaba de colocar vários links permanentes para blogs de Santa Catarina e Porto Alegre, basta ver aí ao lado.

RETORNO - A imagem desta edição me foi enviada por e-mail por Paulo Brito.

BATE O BUMBO: DF NO ITAÚ CULTURAL!

Este Outubro é citado no Banco de Cultura, do projeto Rumos Itaú Cultural 2009, entre 149 sítios considerados importantes: "Blog do poeta e jornalista Nei Duclós, sobre artes, com destaque para a literatura; traz também esportes, política e pequenas crônicas sobre o cotidiano da ilha onde vive, Florianópolis, sob o formato de um jornal, Diário da Fonte".

2 de abril de 2009

CORAÇÃO DE VELUDO


Nei Duclós

A foto que republiquei recentemente da equipe original do Jornal de Santa Catarina, o JSC, atual Santa, de Blumenau, obteve grande repercussão. Fui adotado pelos blogs mais prestigiados de Florianópolis com notas e links. Soube (e li o discurso) que Paulo Brito, o veterano querido do jornalismo catarinense e do curso da UFSC, fez na abertura das aulas deste semestre, onde ele cita Mario Medaglia e eu, a partir desse post da foto histórica. É por isso que volto á carga, agora com outra foto que dorme em meus arquivos.

Vejam o núcleo, a semente da redação original do Jornal de Santa Catarina em 1971, antes de o jornal sair, ou seja, antes de chegar o José Antonio Ribeiro, o Gaguinho, que assumiria o cargo de editor-chefe; antes de chegar Virson Holderbaum, que dividiria comigo a redação de Nacional e Internacional (copidescávamos os telegramas da UPI e da AP, da agência JB e acho até que da France Presse). E antes de eu chegar . Ou seja, esse é o núcleo principal do JSC, de Blumenau. Falta na foto o Nestor Fedrizzi que, claro, já estava lá, montando essa equipe. E outras pessoas, que se somaram ao projeto.

Acompanhem comigo, dentro dos meus limites da memória (ei Brito, Medaglia, Strix, Canga: me ajudem!). Bem à esquerda, de barba, olhando compenetrado para o papel, o Sergio Becker, grande repórter em Porto Alegre que aí no JSC virou editor. Ao seu lado, de óculos caídos, o Renan Ruiz, editor de Arte, um baita talento que também se juntou ao grupo de gaúchos que foram inaugurar jornal no interior catarinense. Aliás, é impressionante a seriedade desta redação. Era sempre assim: no início, quando participávamos da inauguração de um veículo, era um rilhar de dentes, uma compenetração tremenda, uma seriedade que se mantinha ao longo do tempo. Mais tarde, ficávamos um pouco mais à vontade, mas eram assim as redações antigas: nada de fumaças nem romantismo, era estiva, eito brabo, trabalho para caralho!

Na frente, de barba hirsuta e também compenetradíssimo, Mário Medaglia, editor de Esportes, o cara que inaugurou os cadernos especiais esportivos na imprensa catarinense, quando deu um banho de jornalismo na cobertura dos jogos Abertos de Santa Catarina, os Jasc. À direita de quem vê a foto, de óculos de lentes escuras, o chefe de reportagem José Reinoldo - acho que era o único catarinense da redação (se não me engano, de Timbó). Incrível que não lembro de nenhum repórter, mas tínhamos chefe de reportagem! Gaguinho queixava-se que todos os dias o Reinoldo, para fazer massa de oferta, colocava algumas pautas meio frias. Um dia, dois, três, passava. No quarto dia da mesma ronha (essa palavrinha era da época), Gaguinho tirava um sarro: “Ò Reinoldo, outra vez esse troço?” Lembro de Reinoldo aos berros pelo telefone, ligando para todo o estado. No fundo era isso: ele era sua própria equipe!

Strix me lembrou que da outra vez eu deveria ter citado o Ayrton Kanitz, chefe da sucursal do JSC em Florianópolis, e que não aparece na foto. Cito para não esquecer do grande Kanitz, que há décadas não vejo, com seu humor inglês, sua postura elegante e carismática, suas palavras escandidas em tom baixo, com um humor arrasador, daqueles que nos fazia rir ainda dias depois de a piada ser dita. Bueno, vamos em frente na foto. O casal que aparece à esquerda de Reinoldo, em mesas separadas, eram figuras importantes do jornal, cuidavam da distribuição e arquivo, acho. Strix sabe mais do que eu, pode nos dizer.

E finalmente ao fundo, o colunista social Paulo Becon, que tinha a árdua tarefa de reportar a sociedade fechada de Blumenau, um espaço dominado por grandes nomes como Beto Stodieck, do jornal O Estado de Florianópolis. Não foi fácil para Becon, mas ele tinha como apoio um programa de televisão.

Tudo isso em 1971, somente 38 anos atrás. Nem foi tanto tempo assim. Continuamos guris, só que sessentões. Alguns se foram, como Fedrizzi, Gaguinho. Outros se nobilitaram, como Virson Holderbaum, que depois de séculos de jornalismo pesado e produtivo vive num castelo à beira mar no sul da ilha e tem o título de Conde Von Holderbaum. Mario Medaglia continua no front, com sua contundência de sempre no blog Batendo Forte e na sua coluna no Diarinho. Dos outros não tenho notícias. Cartas para a redação do Diário da Fonte.

Lembram de nós? Ainda somos os mesmos. Temos um segredo guardado e estamos loucos para revelar: somos portadores de um coração de veludo, de um texto guerreiro, de um talento ancestral, de uma coragem sobrevivente, de uma vontade de que tudo dê certo, neste país que carregamos nos ombros como um andor de santo, daqueles antigos, que atraem o vôo arisco das andorinhas e o chumbo grosso das tempestades.

O ESCÂNDALO DA CARNE


O filme Garapa, de José Padilha, mostra a fome do povo, no país que exporta proteínas, sendo mascarada por água com açúcar. Causou engulhos no Festival de Berlim, onde foi apresentado fora de concurso. A Alemanha é uma das nossas principais consumidoras da carne que produzimos por aqui. Com a crise internacional, a exportação diminuiu brutalmente. Foram vendidos menos 42% em relação ao início do ano passado. O resultado é demissões em massa. Milhares de trabalhadores foram para a rua no interior de São Paulo e Mato Grosso do Sul. Ao mesmo tempo, o preço da carne baixou em média uns 10 por cento nos supermercados.

Isso sim é que deveria dar engulhos. Como que países ricos, politicamente corretos, cheios de boas intenções, sustentam um comércio ilegal desses, em que são usadas nossas extensões de pastagens, a tradição da pecuária e a excelência do que aqui produzirmos para tornar coradas as faces estrangeiras, enquanto o amarelo-miséria é cevado por toda a nação? Como pode a proteína ser exportada quando o povo morre de subnutrição? Como pode ser encarado como normal o fato de que agora o filé mignon custa a metade, já que a União Européia e os eslavos pararam de comprar um pouco da melhor peça do boi?

Parei de comer carne há tempos. Só de vez em quando tenho uma recaída, mas me arrependo. Churrasco, nem pensar. Já estou criado. Mas a massa gigantesca de crianças e adultos em petição de miséria precisam comer o que o Brasil produz.”Ué, vai dar esmolas?” perguntarão. “Como eles terão condições de comprar?” Claro que existe condições, se encararmos o ganho de escala. Em vez de empurrar carne de segunda ou clandestina (nos vários abates ilegais tolerados pela corrupção) esse produto de primeira que cai no bucho dos gringos deveria ser distribuído a preço subsidiado por todo o país. Custaria menos do que arcar com as conseqüências da fome. O governo deveria se encarregar de criar uma rede de distribuição decente, que atingisse toda a população. Em meio ano veríamos os resultados.

Tenho para mim que os empresários de alimentos não gostam mesmo dos brasileiros. Eles preferem encher a carcaça de árabes com nosso frango, que falta à mesa e é substituído por garapa, com a nossa carne, que tiraria da maldição absoluta milhões de pessoas encarceradas pela fome. Com tanta terra e fartura, a fome no Brasil é produzida, de propósito. Eles fomentam a fome porque assim desejam. Grandes empresários e políticos se dedicam a provocar a fome na população, enquanto engordam as estatísticas perversas que falam em divisas e provocam consternação nos jornalistas vendidos, os que se acostumaram a rir do churrasquinho de gato no caminho para o trabalho e a se locupletar nas casas de luxo dos restaurantes especializados.

Picanha maturada, já provou? É invenção argentina. Ele colocam a carne no leite e deixam amolecer. Depois servem pequenas porções em grandes pratos brancos. Cobram os tubos. Os jornalistas adoram. Dá sensação de poder. Enquanto isso, a população consome, quando consegue, a carne de zebu duro que vem de Minas, enquanto o gado europeu do Sul vai para o Exterior. Fui criado no meio dos rebanhos. Açougue em Uruguaiana tinha perfume de carne fresca. No lado argentino então era covardia. A melhor carne do mundo. Em São Paulo, por décadas tive que consumir os bifes duros dos zebus, búfalos, que sei eu.

Mas pelo menos é melhor do que consumir água açucarada. No fundo, quem provoca a fome se acha de sangue azul. Acha que merece vender em dólar. Tem orgulho do seu negócio. Diz que é bom para o Brasil, que o país se desenvolve, que isso e aquilo. “Veja só, o estrangeiro não compra, gera desemprego, o povo sofre”. Bando de cretinos. Não demitam ninguém, dirijam a produção para o mercado interno, baixem os preços. Ganhem em escala. Isso aconteceria num governo de Brasil soberano. Numa ditadura, essa é a situação.

RETORNO – 1. Imagem desta edição: cena de “Garapa”, de José Padilha.

EXTRA: SOBRE AS ELIMINATÓRIAS

1. Quer dizer então agora que a Argentina, por ter levado seis a um da Bolívia, nunca prestou? A seleção é um bando de cretinos, jamais jogaram nada, o Maradona é um fracasso e merecem o repúdio de toda a população de lá? Ou será que o tropeço será lembrado apenas como um mau momento da seleção, de tantas vitórias? Pergunto isso porque toda vez que o Brasil joga mal a tendência é fazer tabula rasa de tudo, achando que somos os vira-latas já enterrados sucessivament em cinco campeonatos mundiais.

2. Escândalo é uma platéia de dezenas de milhares de pessoas e uma audiência de milhões ter de esperar até as dez da noite pelo jogo. A população vem em segundo plano. O destaque é para os energúmenos do Big Brother, que se roçaram bastante cantando o hino do desfrute, o tal da "festa do apê" (que divide a glória com o "vai rolar a festa"). A Globo coloca todo mundo na grade.

3. Borghetinho é muito querido no Rio Grande do Sul, espécie de unanimidade, mas fiquei desconfortável, para dizer o mínimo, com suas interpretações dos hinos do Peru e do Brasil na sua sanfona. Apesar do muito que já tocou e gravou, interpretando música tradicional gaúcha e também a vanguarda que bebe nas águas de Astor Piazzolla, eu continuo preferindo o João Damásio, de Uruguaiana, e seu eterno tema, o Suco-suco. Aliás, quem contaria para nós as histórias do João Damásio? Esqueci todas.

1 de abril de 2009

O TRABALHISMO E A POLÍTICA DAS ALIANÇAS


Nei Duclós

Hoje, Primeiro de Abril de 2009, é o aniversário de 45 anos do regime que nos governa, instaurado em 1964. É uma ditadura de camaleões, que usam todos os disfarces, mas deixam o rabo de fora: seu ódio, sua permanente campanha contra o trabalhismo. Um novo livro da professora Maria Luiza Tucci Carneiro, por exemplo, tenta desmoralizar o fato de Oswaldo Aranha ter uma estátua em Israel e ter sido indicado para o prêmio Nobel da Paz no final dos anos 40. Sua obsessão é provar que Aranha, Getúlio e os governo trabalhista de 1937 a 1945, era anti-semita. Sua prova? O fato de Aranha ter negado visto a milhares de emigrados judeus.

Só em 1940, o chanceler Aranha conseguiu liberar 1.800 vistos para judeus. Ele lutava contra as forças de ultra-direita instaladas na Polícia e em alguns ministérios, como o de Francisco Campos. Trata-se, portanto, de uma prova de araque, que passa por cima das contradições do Estado Novo, um regime instaurado graças a um contra-golpe que evitou que a porção nazista das Forças Armadas, da Política e da Polícia (que estava fortalecida depois da quartelada da Intentona Comunista, em 1935) tomasse o poder. As forças da ultra-direita, em plena era Hitler, estavam fortalecidas e ao serem derrotadas em 1937 não foram neutralizadas totalmente (tanto é que em 1938 os integralistas tentaram tomar o poder a tiro). Participaram do governo perseguindo inclusive o chanceler Oswaldo Aranha, que segundo seu grande biógrafo, Stanley Hilton, queixou-se a Getúlio Vargas da atitude invasiva do chefe policial Felinto Muller (que participou de 1964 e tornou-se seu líder no Congresso) inclusive contra a própria família.

Essa tensão dialética, que faz parte da natureza da História, é deixada de lado pelos que querem caluniar a Era Vargas. Aranha venceu a parada quando Getúlio Vargas fez sua mais importante aliança ao assinar o acordo com os Aliados na II Guerra. O fato de estar sendo pressionado por forças poderosas para o nazismo é encarado como sua “simpatia” a Hitler. Quem foi empurrado miseravelmente para o nazismo foi o país argentino, que forneceu insumos para a Alemanha e depois acolheu grandes carrascos que fugiram da Justiça.

As alianças fazem, portanto, parte do trabalhismo. A Revolução de 1930 foi uma árdua composição de forças antagônicas: militares e civis, Minas e Rio Grande do Sul, conservadores e radicais, legalistas e revolucionários, elite e povo. Duas personalidades são fundamentais para entender essa difícil sintonia que desaguou no movimento vitorioso: o próprio Oswaldo Aranha, nascido em Alegrete de um ramo familiar que viera de São Paulo, e Virgilio de Melo Franco, de tradicional família mineira (assassinado por um empregado em 1948) autor do mais revelador livro sobre essa guerra: Outubro, 1930, de leitura imprescindível.

Virgilio conta com detalhes e farta documentação, como foi difícil fazer acontecer a revolução, pois Getúlio, ao contrário do que dizem seus detratores, não era um dúbio instável e matreiro, mas sim um estadista de grande responsabilidade, que deixou claro aos organizadores da revolta o conceito de que não haveria volta e que a briga era para valer. Não se tratava de uma aventura nem Getúlio tinha vocação para o exílio. Era vencer ou morrer. E foi essa radicalidade que instrumentou Virgílio e Aranha para o embate. Claro que logo depois da revolução encarregaram-se de criar o mito da esperteza getulista, com Barbosa Lima sobrinho e seu livro “A verdade sobre revolução de outubro” à frente. Apesar da má vontade de Barbosa Lima Sobrinho, o livro é bom e merece ser lido.

O gênio político de Vargas compunha forças antagônicas em favor de um bem sucedido projeto de Brasil – que foi destruído a partir de 1964 e é por isso que vivemos nas ruínas de um país, bata olhar em torno. Isso foi confundido, de propósito, com manha, matreirice, esperteza. Seus sucessivos governos (Governo Provisório de 30 a 33, Governo Constituinte de 34 a 37, Estado Novo , de 37 a 45, e a presidência sob a Constituinte de 46, de 1950 a 54), todos a favor do povo brasileiro, foram definidos como populismo e é por isso que inventaram Jânio Quadros, que seria um Getúlio providenciado pela direita (e não é outro o motivo de Jânio escandir as sílabas imitando o sotaque gaúcho).

Depois de 45, Getúlio fundou o PTB e o PSD, para que as alianças ao trabalhismo funcionassem. O PTB trabalharia no centro, onde se situa o trabalhismo, que é a implantação da harmonia entre capital e trabalho por meio de um governo de país soberano, e à esquerda, pegando socialistas e comunistas. O PSD iria do centro para porções mais conservadoras. Era um processo político e eleitoral imbatível. Juscelino era o PSD com um vice trabalhista. Depois dele viria Jango, depois Brizola. O trabalhismo só seria parado a tiro, como realmente foi.

Um dos motivos da derrota do trabalhismo em 1964 foram as alianças mal resolvidas, entre Jango e alguns militares que o rodeavam, com patentes militares subalternas, com os próprio comunistas que radicalizaram irresponsavelmente o processo levando a presidência junto. Outra aliança mal resolvida vinh de mais longe. O golpe foi, ntre muitas outras coisas, uma vingança de Ademar de Barros, governador paulista, que tinha dado seu apoio em 50 a Getúlio em troca de sua candidatura em 1955. Os trabalhistas preferiram JK. Por isso Adhemar, em 1964, era o mais radical líder civil do golpe de estado.

Um dos motivos da derrota do trabalhismo pós Anistia foi exatamente a política de alianças. Brizola, pressionado pela ditadura, que seqüestrou sua sigla, apelou para quadros políticos fora do trabalhismo e colecionou uma gang de inimigos e defecções da mais pobre estirpe. O trabalhismo assim ficou só, à mercê da sanha assassina dos que o devoraram e hoje o exibem como um troféu no Ministério do Trabalho, onde essa personalidade fake do Carlos Luppi faz o triste papel de coveiro do trabalhismo numa época de sucateamento, na prática, dos direitos do trabalhador.

O trabalhismo precisa abandonar sua política de alianças mal sucedidas, deixar de amealhar quadros vindos de outras forças, como é o caso de Cristóvão Buarque, o candidato vindo do PT que cantou sua derrota antes da votação e que acha que a educação é panacéia (sabemos que não é; nada se faz na educação sem uma mudança radical na política econômica).

Para ressuscitar, o trabalhismo deve apostar nos seus quadros: os veteranos não contaminados pela espúria política de alianças e a jovem militância, que está com gana de fazer acontecer. Só fortalecido internamente o trabalhismo poderá voltar a fazer alianças. Fraco como está, todos se servem e ainda debocham.

RETORNO - Imagem desta edição: Getúlio Vargas e Oswaldo Aranha, segundo a revista Life, em 1939 (foto copiada do espaço do Orkut do trabalhista Eduardo de Lucca). O Brasil tinha prestígio e era paparicado como grande nação.