22 de setembro de 2006

UM GIGANTE EM FLORIANÓPOLIS





"Com uma abertura que suspende ao máximo a curiosidade do leitor, antes do vertiginoso mergulho em um universo fantástico, o conto presta-se a uma reflexão sobre o papel cultural de Florianópolis", diz o escritor e jornalista Rodrigo Schwarz na capa do caderno Idéias, de A Notícia, de Joinville. A matéria é sobre meu novo livro, O Refúgio do Príncipe - Histórias Sopradas pelo Vento (Editora Cartaz, 150 páginas, R$ 25,00) e tem bela ilustração de Fábio Abreu. Mostra a capa do livro e contém uma entrevista comigo, que reproduzo a seguir. Agradeço ao Rodrigo, romancista de primeira água, e aos editores do jornal, pelo magnífico espaço para este lançamento. O título desta edição do Diário da Fonte é o mesmo título da capa do caderno Idéias.

Nei Duclós apresenta o livro mais recente, uma coletânea de contos e crônicas chamada "O Refúgio do Príncipe - Histórias Sopradas pelo Vento"

Rodrigo Schwarz
Joinville

Elogiado por nomes como Mário Quintana e Raduan Nassar, o poeta e romancista gaúcho Nei Duclós está lançando a coletânea de contos e crônicas "O Refúgio do Príncipe - Histórias Sopradas pelo Vento" (R$ 25,00, 150 páginas), pela Editora Cartaz. Abre o livro de Duclós, o sexto de sua carreira iniciada em meados dos anos 70, um conto que narra a lenda de gigantes que teriam habitado Florianópolis, em tempos ancestrais. O escritor redigiu o trabalho em 1983, quando visitou a capital catarinense - cidade na qual viria a fixar residência quase duas décadas depois. Com uma abertura que suspende ao máximo a curiosidade do leitor, antes do vertiginoso mergulho em um universo fantástico, o conto presta-se a uma reflexão sobre o papel cultural de Florianópolis. Outro componente importante da coletânea é o pampa gaúcho, que remete à infância do autor, em Uruguaiana. Duclós, que além da labuta literária é jornalista, tendo passado por veículos como a "Folha de São Paulo" e "Veja", conversou com A Notícia sobre o novo livro, as paisagens que o inspiram e a produção de crônicas e poemas, que ganhou um novo sopro de vida com a internet.


Nei Duclós - Poeta e romancista

A Notícia - No conto "O Refúgio do Príncipe", a lenda sobre os gigantes que habitavam Florianópolis foi criada por você?
Nei Duclós - A lenda que está dentro do conto me foi "soprada" pelo vento, inteira, em alguns dias em frente ao mar. Eu estava em São José, numa casa na praia. Claro que é um trabalho de criação e também de mediunidade. É um mistério, mas nem tanto. Tem a ver com o trabalho diário de escritor, com minhas leituras, meu foco nos poderes da paisagem, que sempre me invocou, principalmente esses vestígios existentes no Brasil, essas pedras arrumadas, gigantescas e sem explicação. Você vê isso em todo o litoral, e também no Piauí, no Paraná, entre outros lugares. Uma das minhas fontes é Jeronymo Monteiro, autor de "A Cidade Perdida", que enxergava as terras brasileiras como as mais antigas, as primeiras que se formaram e por isso são tão estáveis, sem terremotos. Elas teriam abrigado as primeiras civilizações, que deixaram vestígios tão ancestrais que, segundo ele, viraram a própria paisagem. A partir dessa constatação, escrevi o conto. É a presença gigantesca de algo perdido para sempre, que está na nossa frente e só podemos enxergar afastando o olhar para ver melhor. Ou conduzindo a inspiração para o território da lenda.

AN - De que forma a narrativa reflete o papel histórico e cultural de Florianópolis?
Duclós - Aí entra o papel do narrador, o migrante que entra em contato com a Ilha nos anos 70 e 80. Por meio de um habitante estranho que o leva para um transe mediúnico, a lenda se revela. Esse narrador tenta explicar a cidade que vê, especialmente o fato de ser um lugar de muitas promessas, que segundo ele não se cumpriam. Ele nota que há algo misterioso na Ilha, que assombra os habitantes e assusta os migrantes. Procura ver nesse poder que emana da paisagem um fator desestabilizador, apesar de seus encantos, especialmente nas pessoas que se dedicam à arte. Isso tem a ver com minhas reflexões sobre a ilha, onde sobra gente vindo para cá para mergulhar em um trabalho de criação. O conto se presta a várias leituras, e uma delas é que só encarando esse mistério de frente será possível estar à altura do que a cidade propõe. O narrador imagina Florianópolis como um centro cultural, "uma Grécia antiga sem escravos", como ele diz. Para que isso aconteça, é preciso conhecer a maldição do poderoso príncipe, que aqui se deixou encantar e por isso renunciou ao trono a que tinha direito.

AN - "O Refúgio do Príncipe" inicia como um texto de Poe e H.P. Lovecraft, algo um tanto diferenciado de seu romance "Universo Baldio", que retrata de forma realista a ditadura militar no Brasil. há mais obras inédita no estilo de "O Refúgio do Príncipe"?
Duclós - Sim, tenho alguma coisa inédita em livro. Um conto como "O Dragão de Jade", escrito logo depois do tsunami que varreu a Ásia, tenta colocar no poder de um amuleto a explicação para a tragédia. Outro exemplo é "Trolé e o Gafanhoto Mutante", que é um conto de Natal sobre uma viagem louca até o fim da internet. Quando escrevi o "Refúgio" não tinha lido ainda Lovecraft, que é uma referência obrigatória para esse tipo de literatura. E Poe é mestre absoluto, inspiração para todo escritor. Nesse tipo de conto, o fantástico chega sem cerimônia e não há como evitar. Eles diferem bastante de outros contos, mais cruzados com a realidade dura que estamos vivendo hoje.

AN - Por que apenas agora publicou esse conto?
Duclós - Não há explicação lógica. Tentei a primeira vez por meio da Secretaria de Cultura de Florianópolis. O projeto foi aprovado, mas depois não foi adiante. Mais tarde, tentei publicar como brinde de fim de ano de uma empresa de Florianópolis, mas contratempos impediram também a realização desse sonho. Depois, o texto ficou misturado às minhas coisas em São Paulo. Felizmente, meu filho Daniel, que ficou morando lá, resgatou o conto, digitou (estava apenas datilografado) e me enviou. Esse foi o início do resgate. Sorte que a Editora Empreendedor resolveu criar o selo de literatura Cartaz (o mesmo nome da revista cultural da editora), inaugurado exatamente com este livro, em que o conto é integrado a uma seleta de crônicas que escrevi nos últimos três anos. Os textos fazem parte do mesmo livro porque são histórias, em forma de contos e crônicas, que refletem a viagem literária desse narrador que aos poucos se adapta à paisagem que o assombrou e no fim faz o resgate das raízes.

AN - Como atesta a obra, Florianópolis e Uruguaiana são marcantes para a sua literatura. São Paulo, onde morou tanto tempo, também deixou marcas significantes nas suas obras?
Duclós - Sim, deixou. Minha literatura está muito impregnada da minha vivência cosmopolita em São Paulo. No fundo, São Paulo me permite fazer um distanciamento das outras cidades, para as quais acabo retornando. Essa perspectiva é altamente fecunda e inspiradora. Meu romance "Universo Baldio" é ambientado em parte em São Paulo. Meus livros de poemas "No Meio da Rua" e "No Mar, Veremos", também têm muito da capital paulista. O pampa e o mar são estuários para onde deságuam as palavras que passaram pela dura experiência da megalópole. São Paulo é o desafio de uma vida árdua, mas também, a seu modo, gratificante.

AN - Onde podem ser lidos os seus textos?
Duclós - Escrevo diariamente. Publico tanto no meu blog (www.outubro.blogspot.com), quanto no site (www.consciencia.org/neiduclos) e também crônicas para a mídia impressa, como acontece com o "Diário Catarinense", e para outros sites, como o "Comunique-se", a revista literária virtual "Cronopios", além de colaborações em sites estrangeiros como o "La Insignia", de Madri e o "Sagarana", de Lucca, na Itália. Fiquei muito tempo calado. A internet é a oportunidade de um escritor se manifestar sobre tudo. Meu blog é pioneiro, é de 2002 e o "Diário da Fonte", que é um jornal dentro da ferramenta blog, aborda de tudo: cultura, política, humor, literatura etc... O hábito de escrever crônica todos os dias tem sido gratificante e este livro é o primeiro resultado de uma série que pretendo ainda publicar. Na gaveta, tenho um livro de ensaios literários, de crônicas sobre o cinema, um novo livro de poemas e também um novo livro de contos.

RETORNO - Imagem de hoje: o mistério das pedras da Ilha.

21 de setembro de 2006

OPOSIÇÃO DENTRO DO IMPÉRIO





O escritor, jornalista e Mestre Moacir Japiassu colocou versos do meu poema Outubro como epígrafe da sua coluna de hoje no Comunique-se. E fez a seguinte nota: " Refúgio do poeta - Leia no Blogstraquis a íntegra do poema de Nei Duclós que encima esta coluna. O poeta, que também é Mestre da prosa, acaba de lançar, pela Editora Empreendedor, o best-seller O Refúgio do Príncipe -- Histórias Sopradas Pelo Vento. Janistraquis lê e, encantado, esquece-se até de trabalhar". Tomara que a generosidade do Mestre e a leitura atenta de seu secretário confirmem mesmo a possibilidade de o livro ser um best-seller. A seguir, o post de hoje.

Nei Duclós

Mesmo um crime perfeito deixa pistas e sobre elas se debruçam alguns criadores do cinema. V de Vingança, baseada na graphic novel de Alan Moore, que se referia ao governo Tatcher, foi adaptada ao século 21, engrossando o caldo dos que acham ser o 11 de setembro de 2001 uma armação do Império para conseguir o que queria. O filme diz isso de maneira indireta, trocando atentados e protagonistas, mas o recado está na cara: a atual ditadura mundial foi viabilizada pelo medo implantado a partir do terror. V, o personagem do filme, é um terrorista vingativo, mas de bons propósitos. É tão anglo-saxão que o filme cumpre a escrita e bate pesado na Igreja Católica, o que já é lugar comum no cinema gringo. É de se perguntar para que e para quem serve este tipo de oposição dentro do Império, que passa ao largo das teses da esquerda e procura uma denúncia dentro dos moldes do superespetáculo: clara, indireta, inócua?

MANIPULAÇÃO - Depois que Michael Moore também disse com quase todas as letras que havia algo de podre no 11 de setembro, insinuando que Bush estava amarrado aos sauditas e à família Bin Laden, e tudo o que ele falou foi inútil pois Bush se reelegeu, nos perguntamos se o cinema hollywoodiano teria cacife para remar contra a corrente e peitar o cerco que se fecha sobre a arte. A inspiração na graphic novel, que é uma peça de resistência à idiotização dos comics e que desmascara os limites entre arte e cultura de massa, não é uma coincidência. Faz parte dessa briga surda de artistas que procuram manter sua integridade, mas não querem ou não sabem trair os princípios do grande comércio instaurado no cinema. Os irmãos Wachoswki, responsáveis pela produção e o roteiro de V, são os mesmos de Matrix: o recado é que toda a mídia (o filme bate pesado na televisão e seus noticiários e comentaristas) está voltada para a manipulação. Não há liberdade, mas denunciar isso na forma de um filme como V é a saída?

PESADELO - Costa-Gravas tenta fazer sua parte com O Corte, que é um exagero sobre a atual concorrência excludente do mundo competitivo: um desempregado sai matando seus concorrentes para conseguir uma vaga. Como V, o filme de Costa-Gravas (que nos deu o magnifgico Missing, sobre o golpe do Chile de 1973, o outro 11 de setembro) é hiper realista. Apesar dos bairros certinhos, das casinhas arrumadas, dos automóveis do ano, há algo sinistro em tudo o que os personagens fazem, e a história em geral não nenhuma verossimilhança. Foge-se do real, que escapou também da realidade. Se a realidade é uma fantasmagoria, como quer Matrix, nada melhor do que denunciar isso por meio do exagero. Tudo em V usa o real e o transforma em pesadelo. Tudo em O Corte usa o pesadelo para denunciar a realidade. Costa-Gravas consegue um happy end do avesso, pois o pretendente consegue o emprego que queria. E V também consegue seu intento: promover uma revolução explodindo o Parlamento britânico e convocando a massa para a insurreição (mas isso tem um preço).

NATALIE - Em V, vemos novamente essa estupenda atriz que é a israelense Natalie Portman, que nos deslumbrou já no seu primeiro filme, O profissional, quando tinha apenas 13 anos. Depois, foi indicado a um Oscar por seu papel em Closer. Ocupou um espaço regular em Star Warz, que queria apenas sua estampa e não seu enorme talento e agora nos brinda com uma performance arrasadora em V. Natalie Portman é uma estrela maior na atual galeria de grandes atrizes.

RETORNO - Dados sobre os filmes citados: gosto do site adorocinema, que traz boas fotos e uma sinopse completa. Nos meus posts, apresento créditos, quando apresento, de maneira superselecionada. Para economizar olho do leitor, que dispõe de todos os recursos para ir atrás da informação que lhe interessar.

20 de setembro de 2006

ESSA BANDEIRA FARRAPA





Nei Duclós

Vinte de setembro é a data maior da gauchada, que desfila garbosa pelas avenidas e se reúne mais uma vez em torno do churrasco e do chimarrão. É também data de balanços e implicâncias, pois o tom laudatório do tradicionalismo incomoda a intelectualidade e isso, longe de ser um transtorno, é mais uma prenda riograndense, pois a polêmica, o debate, a contrariedade fazem parte do perfil dos habitantes sulistas. Eu balanço pelos dois lados. Gosto de tudo do Rio Grande do Sul, menos do inverno excessivo e ao mesmo tempo escuto e leio as críticas que se fazem à civilização dos pampas. Texto de Mario Maestri no La Insígnia resgata estudo dos anos 60 sobre latifúndios, peões e capatazes e coloca mais lenha nessa fogueira de discussões sobre o ethos de bombacha. Faço parte das duas bandas, como lenços brancos e maragatos trançados no mesmo nó e bato em todo o excesso: não precisa chorar para declamar um verso gaúcho, como fazem atualmente (povo guerreiro chora?), nem precisa chamar de traidor quem aponta as contradições e os problemas de tanto tradicionalismo.

BEDUINOS - Implico com o ctgismo pelo que ele tem de padronizante. Esses vestidos de chita hegemônicos, essas botas sanfonadas, esse bombachismo, esses barbicachos. Gosto da diversidade gaúcha que não perde a identidade. Um dia fui num restaurante típico em Porto Alegre que não tinha churrasco, só comida de panela de ferro: guizados, ensopados e outras iguarias. Mas o show da casa era o de sempre: aqueles excessos com as boleadeiras (sempre acho que aquilo vai pegar em alguém, talvez no dançarino) e piadas de galpão por parte de um engraçadinho metido a grosso. Meu calçado preferido pampeiro são as alpargatas Roda, que herdamos dos árabes, entre tantas outras coisas trazidas do Oriente, como nos lembra Manoelito de Ornellas com seu clássico Gaúchos e Beduínos. Gosto da sofisticada civilização urbana do Rio Grande, bem brasileira e não tão platina como querem os adversários. E de lembrar como éramos citatinos nos anos 50 com nossos cabelos engomados, vendo filmes de todas as nações, andando em carros magníficos, daqueles que tinham estribo para entrar e eram tão confortáveis que poderíamos morar neles. E gosto de brandir as memórias de João Neves da Fontoura que resgata o início do século 20 em Porto Alegre, que era a glória de uma civilização.

GALPÃO - Mas não existe espaço mais democrático do que o galpão, com seu cheiro de fumaça, lenha e chimarrão. É um lugar limpo, agradável, soberano. O galpão funciona em roda, ou seja, não há hierarquias inúteis, a não ser a do capataz, que ali se iguala aos outros, e a dos narradores, os que fazem até do silêncio motivo da máxima atenção. Os habitantes do pampa são gentis e democráticos, mas também super debochados logo que conseguem alguma intimidade. São exímios cavaleiros e carneadores e possuem aquela franqueza encantadora das almas que vivem em campo aberto. Não sei como estão hoje, passadas tantas décadas que não visito uma fazenda, um bolicho, um barraco na beira do arroio. Mas imagino o entusiasmo de Dom Pedro II, perdido numa tempestade, longe das carroças de mantimentos, que foi acolhido por uma senhora muito velha e dela provou uma galinha a molho pardo irresistível. Quando a comitiva chegou, de olhos esbugalhados no dia seguinte (tinham perdido o Imperador!) viram os dois anciãos às gargalhadas se contando causos.

VIVA!- Essa história está na "Viagem ao Rio Grande do Sul", do Conde D´Eu, que descreve o caminho percorrido até Uruguaiana, onde retomaram a cidade para os aliados. Da civilizaçção gaúcha sai todo tipo de livro e é neles que mergulhamos com alegria para conhecer melhor o nosso Continente de São Pedro. Longa vida à nação riograndense, brasileira de berço e de coração, que nos engrandece e jamais perde o prumo. Viva o 20 de setembro!

RETORNO - 1. Imagem de hoje: obra de Felipe Constant, que está atualmente em exposição coletiva importante em Porto Alegre, inaugurada ontem, 19 e que vai até o próximo dia 30. Fica no Átrio do Bourbon Shopping Country (terceiro piso). 2. Agradeço ao Geraldo Hasse, que me corrigiu: "Gaúchos e Beduínos" é de Manoelito de Ornellas e não de Moisés Vellinho, como tinha colocado. É o que dá ficar longe da minha biblioteca em Sampa, mas não será por muito tempo. Geraldo é um cavalheiro. Segue à risca a máxima "o elogio é público, a crítica é privada". Enviou um e-mail revelador, que recolocou o crédito no lugar. Dá-lhe, Rio Grande.

19 de setembro de 2006

A BIBLIOTECA SUBMERSA


Nei Duclós

Fui novamente conversar com Sinistrus Joe, pois o tema das eleições estava me pinicando a mente. Quando as contradições engarrafam na saída para a longa avenida dos textos, costumo pedir ajuda para o Sábio do Puxadinho na Pedra, como que mora num casebre grudado em grande menir numa praia escondida aqui da ilha. Encontrei-o lendo um livro velho, com as folhas caindo na areia, que ele segurava com força nas duas mãos, enquanto os olhos fixavam a página com o fuzil azul de sua atenção. Quando ouviu meus passos, lentamente levantou a cabeça, despregando o olhar da sua leitura. Pensava enquanto me via. Essa era a maneira de ignorar minha presença, imaginava eu. Mas ele estava atento. Como sempre, puxei conversa, depois de sentar ao seu lado, abençoado pelo grande mar que nos fazia companhia.

- Você vota, Joe?
- Deixei de votar em 1985, quando empossaram o Sarney. Já tinham assassinado o voto. Mas aquilo foi deboche.
- Parece que o Dr. Nulo vai vencer agora em outubro.
Sinistrus não gosta de personagens. Implica com gente inventada. Acha que estão se referindo a ele. Vi que estava contrariado com minha observação, me olhando fixo.
- Vai ver ninguém anula o voto na eleição, disse ele, só para me contrariar. Talvez o Lula vença mesmo de lavada.
- Mas isso é uma tragédia.
- O povo é escaldado. Passou o tempo todo na mão dos bandidos. Se chega um cara com o jeitão do interior, fica mais confortável. Mesmo que o ataquem de tudo que é jeito. E o eleitor já se acostumou ao Lula. Para que arriscar?
- Isso tem me invocado, Joe. Contra todas as evidências, as pessoas vão insistir nesse voto.
- Eleição não tem importância, seu escritor. O que pega é a sobrevivência. É o estômago, a paz de acordar todo dia e tomar um café. Por falar nisso, já tomou café hoje?
- Já, mas posso te acompanhar em mais um.

Fomos então para o birosca mais próxima, que servia horrendo café frio feito de saco marrom de tanto uso. Continuamos a conversa numa das mesinhas fincadas na praia. Joe não desgrudava de seu livro.
- O que está lendo, Joe?
- Um manualzinho sobre a restauração da monarquia da França depois da queda de Napoleão. Mas é uma droga. Foi um espanhol que traduziu para o português. Fica incompreensível. E ainda tem todo esse veneno ideológico de burguesia contra mundo feudal. É intragável essa porcaria.
Achei que estava se referindo ao livro, mas era ao café.
- Gosto de ler o que todo mundo joga fora, disse ele.
- Onde você consegue esses livros, Joe?
- Na biblioteca que tem aqui perto.
Biblioteca? Na praia? Fiquei com cara de desconfiado, de sonso, e Joe percebeu.
- Vamos até lá, então, sabichão. Vou te mostrar.

Por trás da duna, chegamos a um vasto casarão que parecia abandonado e que se derramava pelo mar adentro.
- A biblioteca fica ali, disse ele, apontando o casarão. É uma construção antiga, que está sendo engolida pela maré cada vez mais alta. Um dia tudo isso vai voltar ao ser o que sempre foi, o fundo do oceano.
Entramos e vi que o chão era de terra batida. Um senhor preto de barbas brancas ficava atrás de uma escrivaninha velhíssima, que se sustentava por alguns paus colocados de viés. Nos pés do móvel, livros empilhados faziam a altura adequada ao bibliotecário.
- Este é Jack, o Marujo, disse Joe. Jack, diga bom dia para o escritor.
O velho nem me olhou. Achei que não enxergava. A convite de Joe, que fez sinal para eu acompanhá-lo e esquecer o porteiro, desci por um imenso corredor atulhado de livros que iam até o teto sem forro. Inúmeras estantes se acotovelavam e iam mergulhando aos poucos. Os volumes da ponta ficavam entregues aos peixes. Muita coisa já estava submersa. Vi um Os Sertões só com a metade para fora, o resto já estava sendo tragado.
- Mas isso é um escândalo, Joe. Uma biblioteca desse tamanho, deve ter aqui mais de dez mil livros e eles estão estragando na água. Como você deixa isso?
- O que quer que eu faça? Apenas abasteço isto aqui, não sou pedreiro e ninguém faz nada hoje por amor. Eu apenas vou recolhendo os livros que vejo no lixo.
- Livros no lixo?
- Aos montes, é o que mais tem. As pessoas se desencantam com os livros, se livram deles. Acho que ficam furiosos porque não conseguem ler o que compram. Ou lêem e acham uma porcaria. Ou lêem e ficam humilhados com a própria ignorância. Desistem. Então deixam no meio da rua, como se fossem bebês abandonados. Eu vou recolhendo e trazendo para cá. Um dia encontrei um saco cheio de cópias espiraladas, feitas de xerox. Eram teses acadêmicas de História. Coisa fina, recente. Nenhuma tinha sido publicada.
Diante do meu espanto, ele continuou, indiferente:
- Os brasileiros produzem de tudo, mas as coisas não emergem para o debate. Fica essa montanha de saber amontoado, desperdiçado. O que pega é dizer que nós não lemos nem temos memória. As pessoas acabam acreditando. Na superfície, escolhem alguns eleitos para serem os papas e assim vão indo por gerações. Normalmente são pais que passam o espólio para os filhos. Aqui no Brasil herda-se a cátedra ou o lugar dos sabe-tudo. Enquanto isso, você vê historiador pedindo esmola ou então vendendo cachorro quente.

Um vento bateu forte e toda a casarona começou a ringir. Livros despencavam: Marx, Engels, Max Weber, Max Heindel. Logo adiante Graciliano, Rosa, Vinicius, Drummond, Nava. Mais além, memórias de Juarez Távora, Cordeiro de Farias, João Neves da Fontoura. Tinha até Tesouro da Juventude, de capa dura vermelha (já desbotada) e o Monteiro Lobato inteirinho de capa verde. Quando vi A Chave do Tamanho no chão de terra, sendo pisoteado por um cachorro vadio que estava por ali, não agüentei mais e saí.

Precisava respirar um pouco de ar puro. O cheiro de mofo de livro velho me fazia espirrar. Não demorou muito e estava jogando para fora toda minha alergia a bibliotecas abandonadas. Para a euforia de Joe, que ria sem parar.
- O escritor tem alergia a livro velho! Essa é boa. E eu que pensava em doar para você todo esse acervo.
- Pode ficar, Joe, pode ficar.

E fui me embora, cheio de dúvidas sobre as eleições e assombrado pela Biblioteca Submersa de Jack, o Marujo.

RETORNO - 1. Imagem de hoje: foto de Regina Agrella. 2. O blog, cada vez melhor, de Bebeto Alves, revela magnífica pesquisa sobre biodiversidade no pampa. Fotos maravilhosas e textos dos pesquisadores, Nilza e Ricardo Duarte. O projeto, franqueado à comunidade, chama-se Bioma Pampa-Projeto Agrobiodiversidade. É fundamental uma visita ao blog para conhecer esse trabalho maravilhoso feito numa região que atualmente está sob a mira da indústria do chamado reflorestamento, que nada mais é do que uma fábrica de desertos.

18 de setembro de 2006

AQUELES PROFESSORES





O escritor e jornalista Sergio da Costa Ramos, uma das instituições da crônica brasileira e pessoa muito querida aqui em Florianópolis, voltou hoje a ocupar o seu espaço no caderno Variedades, do Diário Catarinense. Generoso, deixou o seguinte recado: P.S: Como leitor em férias, acompanhei, com renovado prazer, a prosa sempre arguta e surpreendente - como um enredo de Hitchcock - que se alinhava diariamente neste espaço. Crônicas sopradas pelo vento criativo de Nei Duclós, poeta, contista e prosador poderoso. A ele, meu abraço e meu "muito obrigado". Agradeço ao Sergio pela citação e pela honra de escrever em sua coluna. A seguir, minha crônica de hoje, seguindo o pique a que já me acostumei aqui no Diário da Fonte.

Nei Duclós

A dispersão geográfica e a pesada carga horária do ofício já estão incorporadas na imagem que fazemos dos professores. Dar aula em vários lugares, para turmas de todos os tipos, e muitas vezes em matérias diferentes, para que tudo isso componha um salário, é uma espécie de servidão excessiva para uma atividade que não se circunscreve apenas ao ensino, mas à memória, nem ao conhecimento, mas ao caráter, nem à escola, mas à nação.

Ganhar razoavelmente para se dedicar a um grupo menor de alunos, numa escola só, é coisa do passado. Na minha casa, tivemos a sorte de ter uma professora o tempo todo, pois a mãe exercera o magistério por um tempo até migrar para o serviço público da Saúde, onde ficou até se aposentar. Não perdia o jeito porque gerou sete filhos a quem lecionou todas as tardes, e não apenas quem era da família, mas os vizinhos, os amigos e até mesmo aqueles estudantes trazidos pelo braço por mães desesperadas. Ser reprovado, naquela época, era para valer. Não se passava por decreto. E bastava rodar numa só matéria para repetir todas as outras. Poderia ser num exame oral: bastava um contratempo para que o ano se perdesse miseravelmente. E no caso de reincidência, perdia-se a vaga na escola, porque muita gente estava na fila, na época em que colégio público era sinônimo de qualidade.

Também uma tia minha, irmã da minha mãe, lecionava, mas profissionalmente, em escola do subúrbio. Uma de suas histórias mais impressionantes era de um aluno muito problemático que um belo dia estava muito quieto. A certa altura, ele suspirou: "Hoje estou feliz por causa que eu comi". Ambas tinham vindo da escola rígida da palmatória, da tabuada cantada em voz alta por toda a classe, da caligrafia impecável. O clima de estudo era reforçado pelo grande colégio em frente à minha casa, dos irmãos Maristas, onde havia dedicação exclusiva ao magistério, quando as vocações colocavam à nossa disposição verdadeiros catedráticos.

Um professor de História que jogava futebol conosco era muito sério em aula. Hoje, o Irmão Arno está com 80 anos e é diretor do colégio onde estudei. Foi homenageado esses dias, segundo me informou o escritor e amigo Fernando Pereira da Silva, que leu belo texto seu destacando a importância do nosso mestre. Um professor de física era considerado gênio: o irmão Guido, capaz de fazer uma circunferência perfeita no quadro negro sem a assistência do compasso gigante. Seu truque era fazer o cotovelo como centro do círculo. Mas ele não era considerado por essa qualidade, mas sim porque era capaz de montar uma estação de rádio na sua sala de estudos. Preparava suas turmas com esmero, ensinando os fundamentos da física com seu cabelo despenteado e seu jeito de inventor. O professor de francês fazia gincanas de vocabulários, com prêmios (pontos extras nas provas) para quem fosse capaz de lembrar o maior número de palavras na língua estudada.

Perto da minha casa, moravam mais duas professoras. Uma delas veio me ver esses dias, quando lancei um livro de contos e crônicas. Olhe bem para minha cara, disse ela, e vê se me reconheces. Professora Elsa! exclamei e ela se desmanchou, pois a tinha reconhecido. Era professora particular e fazia parte daqueles quadros preparados, que viviam dignamente, sem precisar se desbaratar por mil endereços. Não que não houvesse escassez, sacrifício. Mas nossos professores faziam parte de uma categoria eleita como prioritária, e isso era uma exigência da sociedade.

Um professor é o penhasco à beira mar para quem navega na costa sinuosa do aprendizado: serve de parâmetro e deslumbramento. É a postura, o lugar que ocupa, o jeito que nos recebe em sua majestade que formatam a idéia que temos dessa profissão que nos carrega vida afora. Eternos estudantes, todo nosso esforço é orientado, mesmo depois que conseguimos todos os diplomas, pelo que ouvimos e estudamos nesse período de formação.

RETORNO - Imagem de hoje: os pórticos, a Igreja do Carmo e todo o horizonte de Uruguaiana, a capital da América Pampeana, vista da ponte. Foto de Anderson Petroceli.

17 de setembro de 2006

MEDICINA CIRCULAR





Nei Duclós

A gripe cruza o umbral das duas semanas e volto ao médico. Ele se decide pelo antibiótico, pois não gostou do recado do estetoscópio. Tomo um comprimido por dia durante uma semana. A gripe finge que se retira, mas surge um problema dermatológico. Isso é comum quando se toma antibiótico, que baixa a resistência do organismo, me confidencia outro médico. Ele me receita poderoso remédio que deve ser ingerido de três em três dias. Á primeira cápsula me destrói o estômago. Leio a bula e diz que o troço pode provocar casos hepáticos fatais. Decido esperar para ver se o efeito vale a pena, apesar do risco.

Nas farmácias, me armo de paciência. Compre o genérico, me dizem, é mais barato. Ou: só temos o genérico, é a mesma coisa. Experimentado em fórmulas no lugar de produtos, em que muitos resultados foram pífios, prefiro não arriscar. Digo minha escolha para o atendente. Ele não acredita. Olha o cara, podendo levar o mais barato, prefere gastar. Conto o troco. Ficarei liso depois de sair do estabelecimento.

Não acredito em medicina, acredito em médicos, cada vez mais raros. Depois dos 50 anos, prepare-se. Você será xingado por ter ido tão longe. Oftalmologista acha um desaforo se você mantém ainda o foco. Todo seu corpo está errado. É preciso virar um atleta. Corra, ande, se exercite. Diminua a sal, faça dieta balanceada, exagere nas frutas e legumes. Frituras e doces, jamais. Consuma a vida crua, que ela retornará em bem estar. Cuide da postura, da aparência. Não pareça...velho.

É sempre um mistério. Você vê os outros, onde de perto todo mundo é normal. Mas não se enxerga. Disso cuidam os semelhantes. Seu cabelo está crescido demais, suas costas estão curvadas, sua pele precisa de tratamento. Lembro da juventude. O corpo estava também totalmente errado. Era magreza excessiva, falta de cálcio, o cabelo então nem se fala. O corpo humano é um acinte para uma cultura fundada nos comerciais. Pobres criaturas inventadas pelo tratamento da imagem são chamadas de poderosas. Os corpos perfeitos cercam a precariedade humana por todo lado. Esse é o paciente ideal da medicina circular: alguém que não precise de médicos, pois está dentro da lei e da ordem mundiais.

É como o crédito. Banco adora emprestar para rico. Quem precisa acaba ficando sem acesso ao dinheiro. A saída foi ceder dois vinténs para passeador de cachorro, que, está provado, é exemplo de bom pagador. A população abaixo do subemprego é assim: faz de cem reais o início de um império. No fundo, a ciranda financeira é o único negócio. As lojas viraram unidades arrecadadoras de prestações. Você deixa a merreca lá e vai retirando móveis ou roupas descartáveis. É como pagar aluguel. Imagine a quantidade de camisas que você já usou. É sempre a mesma camisa, que você vai pagando ao longo da vida. Nesses usos, não há leasing, a possibilidade de pagar tudo em troca da posse definitiva. Quando você adquire enfim o produto, está na hora de trocá-lo.

E se você se recusar a fazer o jogo, há muita gente querendo entrar. Ninguém faz falta na sociedade circular. Não há mais espaço para um poeta consumidor de uísque, como Vinícius de Moraes, ou um obeso memorialista genial como Pedro Nava. Ler hoje está relacionado com fazer exercício. Se você cruza um romance, é como numa maratona. Se lança um livro, deve ter o aspecto triunfante de um praticante de triatlo. Pule na água, pedale cem quilômetros, cruze o canal da Mancha nadando e pronto, já podes dar um autógrafo.

Mas isso são coisas que não se devem dizer. As pessoas ficam ofendidas com análises assim. Acham que você está errado por achar que tudo tem esse aspecto sinistro de circo pós-moderno, em que os animais foram substituídos pelos seres humanos irados e em pânico. É preciso desfrutar a vida como ela é. Deixe essa lição: você passou 60 anos achando tudo bom, comeu brócolis com acelga a maior parte do tempo, correu como um desesperado pelas avenidas lisas e brilhantes do mundo publicitário, doou sangue e contribuiu para todas as campanhas corretas. Pode então morrer em paz, junto com seus documentos. Não faça como uns e outros, que vivem reclamando. E não esqueça de fazer sinal de positivo antes de fechar a tampa.

RETORNO - Imagem de hoje: o pampa, que a tudo cura. Foto de Anderson Petroceli.

16 de setembro de 2006

O GATILHO DO TEXTO





Nei Duclós

Esta é a rua Bento Martins, em Uruguaiana, onde me criei. A casa amarela à esquerda, de esquina, é onde vivi por mais de dez anos, os principais da minha vida. Graças a Anderson Petroceli, fotógrafo maior da fronteira, posso mostrar esse pedaço da infância e adolescência, que ainda está lá, pulsando. À direita, o monumental Colégio Santana, minha verdadeira universidade. No lugar do edifício, havia a casa dos Mena Barreto, um telhado coroado por um coqueiro, que ornamentava a inesquecível paisagem. Será que o coqueiro da foto é o mesmo daquele tempo? Naquela casa, escrevi os primeiros poemas e textos. A seguir, a crônica de hoje no Diário Catarinense, que encerra minha interinidade no caderno Variedades, na coluna do jornalista e escritor Sergio da Costa Ramos.

Quem acampou na chuva, e possui apenas um fósforo e está só, no ermo; ou quem tenta tirar faísca de madeira verde, e não consegue fazer uma pequena chama (nem sequer uma labareda), sabe o deslumbramento que é um raio depois de horas de nuvens carregadas. Como a natureza pode fazer corisco apenas com água suspensa?

Se houve alguém que um dia tentou chegar na primeira chispa, deve ter desistido muitas vezes, depois de uma vida vendo o fogo surgir quando menos esperava, ou ficando longe do incêndio quando mais queria. Ele sentou-se numa pedra numa tarde em que se prenunciava a tempestade e notou o susto de uma veia saltada de néon no azulão escuro do céu. Só um milagre poderia ensinar alguma coisa sobre esse mistério. Assim também acontece no texto.

Acumular histórias, informações, falas, não faz nenhum milagre. O que pega é o gatilho do texto, a faísca que bota fogo na montanha de coisas que juntamos, o grude que garante a massa, quando tudo finalmente faz sentido. Comparo o resultado dessa faísca que gera vida com um esqueleto imantado. É a espinha dorsal da narrativa, que deve ser sólida pela concepção, pela idéia que a sustenta. Os outros elementos são coadjuvantes, grudam nele naturalmente como atraídos por um imã. É a informação, o detalhe, o dado, a declaração.

O esqueleto imantado é a narrativa que atrai com prazer a inocência das frases soltas e faz delas parte de si. O encantamento provocado por um texto ou uma história vem dessa junção de criaturas dispersas, que acabam formando algo único.

É importante termos essa arquitetura bem clara na mente para evitar que intervenções secundárias ocupem o seu lugar. No descampado, ao redor da fogueira, só os grandes narradores sabem manter acesa essa força que por sua vez atrai olhares e atenções. É a mágica do narrador vocacionado.

Vi uma reportagem na TV sobre pescadores do nordeste. O personagem entrevistado, velho pescador de Fortaleza, falava em vento misturado, do nordeste e sul ao mesmo tempo, e era debochado constantemente pelo repórter. Foi a fagulha que faltava para a história que eu guardava num canto. Descobri naquele instante que a mudança contínua era o universo de quem estava sempre dependendo das águas para viver, e quem não participava daquele mundo não conseguia entender esse redemoinho. Fiquei meses com uma narrativa em potencial, querendo sair. Mas foi aquele clarão que juntou as peças dispersas.

O talento dorme dentro de nós como Deus na barca. Lá fora, a tempestade. Entramos em pânico, vamos afundar. Despertamos então aquele que nem toma conhecimento do nosso susto. Ele se levanta, se equilibra na precária superfície e faz um gesto. As nuvens se dissipam e ressurge o dia. Ele então pergunta por nossa fé. Onde estava a fé quando a barra pesou? Essa pequena e deslumbrante explicação de Alan Kardec para um trecho do Evangelho serve para nos revelar o segredo. Acredite que vai conseguir. Carregue-se. De repente, o céu se ilumina com um clarão. É tua alma que implodiu diante do sagrado. Você atingiu a forja dos deuses.

RETORNO - Há ainda um texto como interino, sobre Hitchcock, no caderno Donna DC deste fim de semana. No próximo domingo, voltarei às minhas crônicas mensais no meu espaço próprio no Donna.

15 de setembro de 2006

ETERNO PRESENTE





Nei Duclós

Quer que eu "levo"? Perguntou a passageira para quem estava de pé carregando um pacote. O fim do subjuntivo coincide com a eliminação de conjugações inteiras, como acontece também com o mais-que-perfeito e o condicional. Não há mais nada a conjugar, já que vivemos no eterno presente. Não se trata de preguiça mental ou de sentimento de exclusão, como querem os pensamentos tradicionais à direita e à esquerda. Mas do foco escolhido pela civilização para onde fomos empurrados, que é uma espécie de O Feitiço do Tempo (o cult de 1993 de Harold Ramis, com Bill Murray) em escala planetária. Nesse filme, o protagonista não consegue se desvencilhar de determinado dia e praticamente enlouquece tentando chegar na manhã seguinte.

Quando não há amanhã, o agora substitui toda espécie de vivência. Isso é incentivado pela literatura de auto-ajuda, religiosa e corporativa. Como a mulher de Lot, você está proibido de olhar para o passado sob pena de se imobilizar para sempre no gesto catatônico que fez sua ruína. Quando a educação é substituída pelo sistema mal assimilado dos Estados Unidos, em que o pragmatismo vence a formação humanista (expulsão do inglês, francês e latim obrigatórios no ginásio, que também sumiu), e o rigor do ensino é vencido pelo falso protecionismo, então temos essa preciosidade confundida com linguagem popular que é o já clássico "nós vai".

O que chamam de povo é apenas uma projeção das limitações dos que deveriam representá-lo sem preconceitos. Por achar que o povo não merece nada mais do que frenéticos sacudir de quadris em horário nobre (de manhã à noite) a produção audiovisual se escuda no lugar comum de que "é disso que o povo gosta". Quando lembramos Paulinho da Viola ou Baden Powell, que vieram de classes sociais abaixo do que se considera nobre, sabemos que essa argumentação tem algo de errado. A verdade é que se impôs uma imagem equivocada de povo, que exclui a possibilidade de uma redenção por meio da educação e das oportunidades.

A catástrofe é que se espalhou por todo tecido social essa idéia equivocada de um povo ágrafo e sem condições mínimas de consumir ou produzir qualquer cultura mais sofisticada, como a conjugação de todos os tempos de verbos em todas as pessoas existentes. A gíria, que tinha graça quando era transgressão e fonte de novas palavras, acaba sendo estimulada por essa necessidade de agradar o povo e virando uma pandemia da linguagem. Parece que existe uma obrigação de todo mundo estar ligado e ser chamado de cara. Quando não há o parâmetro da língua culta, não há também a noção de vanguarda ou avanço.

O que invoca nesse pesadelo da linguagem é que os gestos acompanham a postura folgada das expressões. É preciso se defender dos cotovelos, por exemplo, que freneticamente pontuam as relações verbais em ambientes cada vez mais apertados, como nos coletivos. Se você está sentado, e ao seu lado uma dupla se esmera em contar alguma coisa em monólogos concomitantes (já que não existe mais diálogo), cuidado com os cotovelos pontiagudos. Eles podem abater seu rosto numa curva da frase, se é que podemos chamar de frases os arranques de muitas interjeições recorrentes. Quer que eu "saio?" deveria ser a pergunta básica para esse tipo de ameaça.

RETORNO - 1. Na foto do lançamento do meu novo livro, "O Refúgio do Príncipe - Histórias Sopradas pelo Vento", a companhia gratificante de Luís, leitor diário deste jornal virtual. Luís tem residência no Exterior e está no Brasil terminando seu trabalho de pós-graduação. Fomos apresentados no lançamento do romance "A Ilha dos Cães", de Rodrigo Schwarz. Luís representa neste post todos os amigos que me prestigiam com a leitura. 2. Esta crônica foi publicada hoje no caderno Variedades, do Diário Catarinense.

14 de setembro de 2006

LÁ NO FUNDO





Nei Duclós

Meu novo livro, "O Refúgio do Príncipe - Histórias Sopradas pelo Vento" (Editora Cartaz, 150 pgs., R$25,00), está chegando às redações. Ele é uma seleta da minha literatura em texto curto e se insere no meu trabalho de escritor, que vai do ensaio à poesia, do conto à crônica, do romance à memória. Faz parte de uma obra que está em sua maior parte na internet, mas já conta com cinco volumes impressos, de 1975 a 2006. Estou gratificado com mais este lançamento e aguardo a manifestação dos contemporâneos, para os quais tenho dedicado as palavras que escolho todos os dias, vocação que me mantém vivo culturalmente. A seguir, a crônica de hoje, publicada no caderno Variedades do Diário Catarinense.

O último assento é escolhido por uma questão de estratégia. De lá é possível ter visão completa do recinto, seja sala de aula ou ônibus. É possível monitorar o movimento de todos, que estão de costas, portanto não enxergam o que se passa atrás. É uma espécie de anonimato que dá uma série de vantagens, como atingir nucas com projéteis variados, saber o que fazem quando acham que ninguém está olhando e até dormir sem que desconfiem de nada.

Quem senta na frente está ansioso para se mostrar à autoridade, quem fica atrás já desistiu de ser visto, ou nunca quis virar alvo de observação alheia. Há uma linhagem de maus alunos que sentam no fundo, ou então de falsários que fingem prestar muita atenção instalados no último assento, o que lhe dá um ar de compenetração de quem não está escutando absolutamente nada. Há bruscos arrastar de cadeiras lá atrás, gritos espasmódicos de alguém que foi atingido e não pode entregar os pontos, sob pena de ser visto como um traidor.

Os últimos lugares formam um pacto de resistência. É uma espécie de gang que compartilha o que era antes traquinagens e hoje é sabe-se lá o quê. Por isso há escolas pedagógicas que eliminam as carteiras colocadas em fila. Colocam os alunos em roda, o que pretensamente é mais democrático, quando todos devem mostrar a cara de maneira totalmente explícita. Não há como se esconder numa roda, mas imediatamente o pessoal que sentava no fundo cuida para que o círculo vire o caos e, para solucionar o problema, volta-se à formação original.

Nos derradeiros assentos dos coletivos estão os pragmáticos, que permanecem perto das portas. Antigamente se entrava por trás e se saía pela frente. Mas a turma do fundo acabou com esse hábito, pois aproveitavam a distração do cobrador e do motorista e se mandavam sem pagar a passagem. Hoje não tem conversa. Você pode sentar lá atrás, mas antes tem que morrer com alguns trocados valiosos na catraca.

Quando tradicionais ocupantes dos últimos assentos se encontram, tudo pode acontecer. Uma conversa falando de famílias partidas, de separações, de violências de todas as espécies. Eles se misturam aos estudantes ansiosos para descer, já que ficam na iminência de algum surpresa daqueles que conversam animadamente sobre problemas domésticos, trabalhos mal pagos, dores de cabeça. No fundo se descobre que vivemos num país partido e que ficar um pouco à frente é a maneira que temos de escapar da barbárie.

No meio da conversa, um dos participantes do encontro se levanta num salto e abre a janela com fúria, fazendo estrondo. Todos tremem. Olhares ocultos de cabeças que se viram para trás. Os certinhos temem a turma que ocupa o último lugar. Esses estão preparados para tudo. Tiram a cabeça para fora da janela, peitam o motorista que demora a sair do terminal, ameaçam algum passageiro que olha feio. Mas às vezes são apenas grupos animados que nas noites de sexta-feira voltam para casa ocupando os assentos marcados pela exclusão.

Ou no final dos semestres, em que os estudantes riem do tempo que passou e se preparam para a folga. Ficamos lá atrás quando não queremos mais participar desse jogo bruto que é comportar-se diante da mesmice.

RETORNO - A imagem é de Helcio Toth, Barco. Tinha colocado por engano a foto de Bill Murray numa cena de "O Feitiço do Tempo". Paciência.

13 de setembro de 2006

LIVRO CÚMPLICE





Nei Duclós

O livro é cúmplice quando revela o que ninguém sabe. A narrativa nos empolga porque, acreditamos, somos testemunhas de segredos só a nós revelados. É como um tesouro escondido, do qual possuímos a exclusividade do mapa. O autor dormia em seu anonimato de papel antigo até que fôssemos lá abrir uma fresta na sua solidão e degredo. Levamos esse tipo de livro de maneira disfarçada, misturado a coisas comuns, como uma revista ou um impresso qualquer. Se formos flagrados, sacudimos os ombros e pegamos a brochura na ponta dos dedos, com desdém.

Aprendemos coisas como a palavra desdém nessa literatura que não deixou marcas, essa memória oculta, essa única edição sobre o que para sempre foi perdido. Ninguém pode desconfiar do que trazemos embaixo do braço como se fosse uma côdea de pão. Exatamente, côdea é também esse tipo de palavra enterrada em páginas esquecidas. Nós, os leitores oblíquos, costumamos ler obras atiradas no tempo, antes que descubram o quanto é cult, ou importante, ou fundamental.

No momento da descoberta, ninguém à vista sabe do que se trata. Você vira o mundo atrás de algumas pistas e não encontra uma só pegada de uma possível leitura. Então, satisfeito, embaixo de cobertas, na curva do quintal, na praça vazia em feriado, você abre, trêmulo, aquela mina anônima, aquele território sagrado onde somos ouvintes de sinetas, passos em castelos, sons de metralha.

Quando o exemplar capaz de nos prender a respiração escasseia, mergulhamos ainda mais fundo à procura de pepitas. É o momento de enfrentar bibliotecas gigantescas e vazias e resgatar do fundo de armários de ferro coisas que só nós vamos ler, porque só nós temos essa obsessão de ir até o fim quando algo nos acena de fora do tempo. Podemos então abrir a faca o relatório sobre a construção dos quartéis, de autoria do jovem engenheiro Roberto Simonsen, na gestão do ministro da Guerra Pandiá Calógeras. Ou então descobrimos, enrolados em alguma estante contra a parede do último andar de um sebo que vai fechar no dia seguinte, aquele pequeno volume de capa vermelha e que mostra textos e fotos de uma guerra desconhecida.

Dentro da encadernação caprichada e velha, você vê um saqueador coçando a cabeça diante de algumas bolsas de arroz e feijão. A legenda diz que ele não consegue carregar o produto do seu roubo. O autor é um padre que conseguiu levar a bom termo o momentâneo caos de uma escola famosa nos anos vinte, alvo da revolução que tomou conta da grande cidade. Mas tudo isso no Brasil? - me perguntaram no dia em que escancarei as fotos de tiros de canhão em prédios de todos os tipos, para estudantes surpresos.

Há também os volumes que jamais reencontramos, como os livros de aventuras sobre insurretos indonésios, que estavam dormindo na biblioteca, já extinta, do colégio. Ou o livro de bolso que lemos em 24 horas seguidas e nem atinamos direito que era O Morro dos Ventos Uivantes, a maior história de amor jamais escrita. Éramos Heathcliff a perambular pela charneca.

Lemos charneca e lembramos uma piada de Vinícius de Moraes sobre essa palavra. Só existe em romance inglês antigo. Em livro cúmplice, escrito só para nós, leitores oblíquos, essa espécie que jamais se extingue.

RETORNO - 1. Imagem de hoje: Lawrence Olivier e Merle Oberon no clássico de William Wyler, "O Morro dos Ventos Uivantes", baseado no livro imortal de Emily Bronté. 2. Crônica publicada hoje no caderno Variedades do Diário Catarinense.

12 de setembro de 2006

CASTELO DE VIDRO





Nei Duclós

Contornei o grande muro do Castelo, que fica situado no miolo da cidade. Em algum lugar as pessoas eram engolidas pela construção. Não atinava onde ficava exatamente a abertura. Mas ao tentar apalpar uma porta de vidro fumê, ela bruscamente obedeceu. Junto com um grupo, me transportei para dentro do vasto recinto.

Bastou entrar para não enxergar mais a portaria que me franqueara a invasão. O labirinto tinha sido feito de propósito. Uma vez aceito no ambiente climatizado, pontuado por seguranças, voltar para a rua vira uma idéia absurda. A não ser que houvesse uma insurreição, a quebra de alguns vidros ou todo mundo se atirasse do quinto andar, que é o segundo do estacionamento, ou do quarto andar, que é o primeiro.

Notei que romper a lógica era um dos muitos instrumentos do Castelo. Você não pode seguir exatamente as setas, que apontam para vitrines e não para os sanitários ou telefones. Deve-se raciocinar e fazer a tradução dos signos para a orientação dos passos. As escadas rolantes estão sempre situadas no lado oposto onde nos encontramos. Imaginei que havia uma rotatória que nos punha frente a alguma megaloja enquanto procurávamos mudar de andar.

Mesmo dentro do banheiro é impossível vislumbrar uma saída. Estamos condenados a ficar lá indefinidamente e, exaustos, abrir portas que dão para privadas achando que conseguiremos escapar da armadilha. Quando finalmente nos livramos do sanitário, eis que estamos de volta ao templo do consumo, uma espécie de não-nação com palavras estrangeiras por todo lado.

Há lugares assustadores, como os cantos dos últimos pisos, onde se concentram comércios invisíveis. Mas o lugar mais sinistro é onde as pessoas se reúnem para comer. Todo mundo precisa repor energias para forçar a fuga do labirinto. Mas em vão. Existem funcionários - só pode ser gente contratada - que fica cuidando dos lugares, ou seja, impedindo que as pessoas se sentem e comam. Fica-se com a bandeja servida, de um lado para outro, em meio a inúmeras mesas vazias, que estão ocupadas por bolsas, adolescentes ou idosos encarregados de reservar as cadeiras para pessoas que estão na fila.

A concentração maior é a das refeições abaixo dos cinco reais. Todas as outras estão mais ou menos disponíveis. Mas é na fila imensa que você se posta, pois conta com pouco dinheiro e não sabe se vai encontrar determinada peça do vestuário. É para isso que serve o Castelo: para mudar o guarda-roupa, mas normalmente um caminhão de grana é depositada no caixa em troca de um trapinho colorido.

É a moda, são as estações nos dizem. Enquanto a friaca nos lambe os calcanhares, as atendentes, sempre solícitas, estão com maravilhosas roupas da próxima primavera. Para onde foram as blusas de lã, os casacos, os cachecóis? Tudo vendido, você chegou tarde. Mas não sobrou nada, nem uma peça de número maior? Ah, essas são as primeiras que saem. Mas se os grandes panos somem, por que não repõem? Ninguém explica. Sobram as vestes miúdas, aquelas que cobrem apenas um ombro ou meio quadril e deixam latifúndios de umbigo, ou canela, de fora.

Você então vai em busca de uma saída. Mas as ruas são perigosas. Fique aí dentro do Castelo de Vidro. É mais seguro.

RETORNO - 1. Imagem de hoje: foto "Paulista 200", de Helcio Toth. 2. Crônica publicada hoje no caderno Variedades do Diário Catarinense. 3. Nova foto institucional: o poeta e a lua diurna, por Juliana Duclós. 4. Novo link permanente, no lado direito deste espaço: o blog "Nada a ver", de Ida Duclós que atualmente cruza memórias familiares com o Brasil de outros tempos. 5. Atualizações do Outubro: webmaster Miguel Duclós.

11 de setembro de 2006

NATUREZA SOLENE




Nei Duclós

A relação com a natureza deve ser solene, longe dos sentimentos descartáveis, do uso fundado em superficialidades, dos gestos vazios, dos olhares cômicos. Toda paisagem é ancestral e nos remete a verdades como a eternidade ou a morte. Por estarmos num planeta que vaga pelo céu, por força de muitos mistérios, ficamos amedrontados com o que nos dizem as estações, as catástrofes, os eclipses, as estrelas, o mar, a montanha. O temor nos transforma em habitantes rasos numa abóbada de cristal, pois fugimos das catedrais do Acaso quando encaramos com demasiada obsessão as rotinas que nos cercam.

Mas ser solene não quer dizer ser metido a sério. Nada mais chato do que aturar a pose de olhares longos ou conversas fúteis vestidas de filosofia barata. O humor faz parte do necessário distanciamento que precisamos ter para conviver com a obrigatória grandeza da paisagem. O humor nos refresca a mente e nos ajuda a sobreviver, mas jamais nos transforma em palhaços. Rir diante do espelho é qualidade das pessoas realmente sérias. E franzir o sobrecenho em hábitos de sobrecasaca faz parte de uma história universal do ridículo.

Podem achar que é sofisticado demais entender a seriedade quando alguém está sendo leve nos comentários, autocrítico na conversa, criativo nas cenas que descreve. É mais fácil a linha pão-pão, queijo-queijo. Segundo esse conceito, se você quer ser sério, então feche a cara. E se você for um tolo, ria. Não deveria haver esse equívoco.

A comédia clássica já nos ensinou o caminho da tragédia e o melodrama provou o quanto é fútil o esforço óbvio de ser grave e taciturno. Sabemos também que, ao fingir seriedade, muita personalidade pública quer mesmo é esconder a pândega que pode fazer com o patrimônio nacional.

Ter com a natureza uma relação solene nos leva obrigatoriamente para o respeito com a paisagem, a defesa de sua integridade, a busca de soluções para diminuir a agressão ambiental. O problema é que a violência contra os recursos naturais cresce e avança, ao mesmo tempo em que o discurso a favor da sua preservação aumenta.

A contradição então se torna mais aguda: quanto mais metidos a sério os argumentos contra o desmatamento e a destruição do solo, mais risível é a situação do território que gerações passadas conquistaram com sacrifício.

A solução não é incrementar o discurso e o número de eventos ou difundir mais mensagens de boas intenções. Mas aprofundar a relação solene com a natureza por meio da arte. O cinema, a pintura, o romance, a crônica, o conto precisam resgatar esse sentimento grandioso que sempre tivemos em relação à natureza. É costume rir dos antepassados, que teriam medo de cataclismas. Ou rir da identificação das manifestações naturais com deuses em forma humana. Fala-se do medo do trovão, que teria gerado Tupã, o incômodo caminhante do céu nublado que assustava os moradores das selvas.

Mas a relação solene não significa esse tipo de retrocesso. É possível emocionar-se com a natureza sem precisar se ajoelhar diante dela. Basta escutar o vento. Ele ensina coisas e te deixa sério como os heróis antes da batalha. Habitado por essa força, você passará por cima de qualquer gargalhada que tentar identificar a ética da tua percepção com alguma piada sem graça.

RETORNO - 1. Esta crônica foi publicada no caderno Variedades de hoje do Diário Catarinense. Mas, no site do jornal, o clicrbs não assinou meu nome. Sou interino do jornalista e escritor Sergio da Costa Ramos, mas, no site, meu nome não aparece na coluna. Isso será corrigido ao longo do dia. Faz um mês que o clicrbs assina meu nome na cronica de Maicon Tenfen, "A marquesa saiu às cinco horas". Tudo isso gera confusão de autoria.2. O escritor em plena forma: Urariano Mota e "A Segunda Morte de Trotsky", no La Insignia. 3. A foto é de Anderson Petroceli, que tem uma relação solene com a paisagem da fronteira.

9 de setembro de 2006

LIVRO COSTURA O TEMPO





No lançamento ontem do meu novo livro, O Refúgio do Príncipe - Histórias Sopradas pelo Vento (Editora Cartaz, 150 pgs., R$ 25,00), tive o prazer de receber amigos, colegas, parentes e algumas surpresas maravilhosas, como foi o caso da inesperada visita da Professora Elsa, que nos lecionou quando éramos muito crianças. Há anos ela mora em Canasvieiras e ficou muito feliz quando a reconheci. Destaco também outra presença ilustre: Walter Galvani, cronista e romancista, meu primeiro Diretor de Redação e que fez história no jornalismo ao montar uma equipe de primeira na virada dos anos 60 para os 70, entre outros grandes feitos. Galvani me deixou mensagem de congratulações e foi meu convidado de honra na tarde em que coloquei na praça mais um rebento literário.

O livro é a soma de manifestações ao longo do tempo e aborda um narrador que se civiliza conforme vai se aprofundando na relação solene com a natureza e os habitantes de mar e pampa. Quem viabilizou tecnicamente o livro foi Juliana Duclós, que fez uma diagramação primorosa e uma capa totalmente sintonizada com o conteúdo das histórias. Foi proposital a opção da editora de arte ao refletir visualmente o tom poético do livro. A excelência do trabalho teve acompanhamento atento e valioso de Osmane Garcia Filho, o Maninho, amigo querido de São Paulo e um dos maiores editores de arte do país, com quem trabalhei na W11, hoje Francis, na época em que lancei meu romance Universo Baldio. Ontem vi o Refúgio exposto nas livrarias e confirmei o acerto da capa, que nos conquistou depois de um bom tempo em que Juliana dedicou ao projeto. Agora a obra está na praça. Longa vida à literatura.

A seguir, minha crônica de hoje no caderno Variedades, do Diário Catarinense.


VIAGEM NO BARRO

Nei Duclós

Aos 13 anos, fui arrancado da minha casa para uma viagem inesquecível, que cruzou três Estados por estradas de barro e aportou no meio do mato. Começamos na fronteira, passamos por Santa Rosa, Xaxim e Xanxerê, Cascavel e Londrina, que ainda exibiam um aspecto de faroeste de terra vermelha. O destino era Goio-Erê, município que fica além de Campo Mourão, cidade maior e mais conhecida. Tudo idéia de um cunhado que manobrava sua kombi de estimação, o pior carro possível para tão longa cruzada.

A kombi derrapava em curvas alagadas e costumava ficar presa nos contratempos das trilhas. Nessa ocasião tive oportunidade de conhecer as correntes dos pneus, que servem para dar pegada em território escorregadio. O detalhe é que eu não tinha conhecimento do objeto e ao ser convocado, no meio do temporal, para corrigir o problema das derrapagens, fiquei boiando no fundo do assento. Correntes? Onde? É que as ditas eram maiores do que o calibre do aro e costumavam escapar, deixando à mercê das intempéries nossa ambição de fazer mais do que cem quilômetros por dia, o que era muito raro.

A paciência do capitão da jornada se esgotava cada vez que vislumbrava minha falta de atenção a coisas básicas como amarrar um pneu com argolas de ferro para que o barro cedesse ao acelerador. Mas finalmente o sol levantou-se quando cruzamos a fronteira com Santa Catarina, na única vez em que passei pelo oeste do Estado, que me apareceu encantador, principalmente depois de toda aquela chuva. Mas o clima se vingou ao chegarmos no Paraná. Lá tivemos que pousar em oficinas para descobrir porque raios a carruagem se recusava a seguir adiante, especialmente naquela ocasião em que estávamos perto de chegar ao fim da provação.

Esses acontecimentos se deram no início dos anos 1960 e sempre que conto essa história tenho de jurar que vi um animal silvestre de grande porte saltar bem no meio da picada que nos levava a Goio-Erê. Em apenas um segundo ele sumiu do mato. Dez anos depois passei pelo mesmo local e só encontrei descampado. As árvores tinham sumido, assim como aquelas sensações do menino em pleno rito de passagem.

A temporada na casa do cunhado e de minha irmã coincidiu com a leitura compulsiva de Sherlock Holmes, pois nada havia a fazer na pequena cidade do interior paranaense. Li metade da coleção e só parei depois de dois eventos. Um deles aconteceu no instante em que o bravo Sherlock descobrira a origem do interlocutor apenas observando a natureza do barro que grudava no sapato do visitante. Achei que era perspicácia demais, mesmo para o maior detetive do mundo. O outro evento envolveu o volume O Cão dos Baskervilles, que me assustou, já que estávamos no ermo e tudo aquilo que cheirava a solidão e suspense no livro estava sintonizado com a paisagem que me rodeava.

Na volta, também coroada de heroismo, peguei um pinga-pinga até Curitiba, por estrada com mais barro. Sozinho, acabei entregue à boa vontade dos motoristas, que me ciceronearam o dia todo até eu pegar outro ônibus, em direção a Porto Alegre. Da capital gaúcha parti num Maria Fumaça até minha cidade, Uruguaiana. Voltei transfigurado. Tinha virado personagem de romance. Meus amigos sofreram com isso, pois precisaram aturar os detalhes da aventura por um longo tempo.

RETORNO - 1. Na foto maior: autógrafo, a parte mais gratificante do ofício. Na menor: Juliana Duclós, editora de arte, formada em artes plásticas em São Paulo.2. A Cartaz é um selo editorial de literatura da Editora Empreendedor, dirigida pelo jornalista Acari Amorim. Atende pedidos de compra do livro pelo e-mail luzia@empreendedor.com.br ou pelo telefone 0800-48 0004. Mediante depósito, o Refúgio será enviado sem serem cobradas as despesas pelo correio. 3. Agradeço também a colaboração de Claudia Abeling, que nos ajudou a solucionar vários enigmas da produção e Regina Rossi, com seus contatos providenciais e seu entusiasmo vocacionado.4. Agradeço a Luzia Weiss, da Editora Empreendedor, que resolveu o problema do registro na Biblioteca Nacional, além de ser uma das pessoas chave nos passos que o livro está dando em direção ao público. E à equipe da Editora, amigos e colegas do trabalho diário, que foram me prestigiar no lançamento.

8 de setembro de 2006

SOPA DE INVERNO




Hoje é o dia. Lançamento do livro "O Refúgio do Príncipe - Histórias Sopradas pelo vento" a partir das 14 horas no estande da Fundação Catarinense de Cultura da Feira do Livro de Florianópolis, sexto piso do Beiramar Shopping, em Floripa. A divulgação está a pleno. Hoje tem nota em A Notícia, de Joinville, e matéria de Marcio Alves e foto no caderno Variedades do Diário Catarinense (que publicou a cronica de hoje, transcrita abaixo). Na quarta feira fiquei 15 minutos dando entrevista na TVCom, no programa Estudio 36 (reprisado ontem de manhã), ao meio-dia compareci ao Balanço Geral, da TV Record e às três e meia da tarde bati um papo proveitoso com Luiz Carlos Prates, colunista do Diário Catarinense, jornalista polêmico e entrevistador de primeira água.

Agradeço ao editor, Acari Amorim, que apostou no autor e no livro. Agradeço também o excelente trabalho de divulgação que está sendo feito pela jornalista Sara Caprario, a força nas mensagens pessoais, nos convites e nas pontes com as mais variadas fontes por parte de Ida Duclós, e o belíssimo projeto visual do livro de autoria de Juliana Duclós. No lançamento, terei o privilégio de abraçar alguns personagens das histórias, como Virson Holderbaum, o Colecionador de Identidades, Lisca, o irmão de A Volta na Quadra, Elo, que está presente na crônica A Casa do Pescador. Seria pedir muito autografar também para o Vigia do Mar, a Ascensorista que Lê Escondido, além daqueles que já se foram e estão presentes, como Mestre Bazinho, Chagas e Silva, Leonel Brizola, entre outros.

Agradeço também o retorno das mensagens por parte de todos os uruguaianenses, representados por Ricardo Peró Job, Miguel Ramos (em novembro estarei lá na feira!) e Rubens Montardo Filho, dos paulistanos como Luciana Felix e Daniel del Fiore, dos mestres como Moacir Japiassu e Deonísio Silva, dos escritores e amigos como Urariano Mota, de leitores como JE Castro e por aí vai. Não tem fim a lista das pessoas com as quais compartilho o privilégio de sermos contemporâneos. A seguir, a crônica de hoje.

Nei Duclós

A presença da mãe, na beira da cama, era a garantia da cura. Os remédios serviam apenas para atrapalhar, causar desconforto, nos lembrar que estávamos caídos. O que valia era a companhia poderosa de quem se dividia entre tantos filhos e responsabilidades. E o melhor: aquele gesto, que atendia a um pedido fundo, era por tempo indeterminado, já que o doente sempre gozava de privilégios. Quando ela mergulhava o rosto na mão exausta, sustentada pelo no braço frágil e ao mesmo tempo firme, quando chegava bem perto seu rosto preocupado, ou deixava cair seu cabelo para a frente, a sugerir abandono (o que fazer com tantos problemas?), é que então sentíamos ser possível voltar à vida plena.

E ela só saía de perto do moleque enfermo depois de muita negociação. Ou quando enfim dormíamos, entre temperaturas excessivas no corpo ardente, chiados no peito, coriza interminável. Cada gripe, febre, corte ou susto nos atirava no território lúgubre do desespero. Uma dor de garganta nos empurrava para o orfanato, a não ser que a mãe surgisse na porta do quarto, a garantir a continuidade das coisas que de repente tinham ido embora. A cura pela presença materna é mais uma prova do que dizia meu pai. Ele insistia: tudo o que dizíamos sofrer não passava de manha. Isso mais tarde foi batizado de carência, mas na nossa infância não lidávamos com palavras tão complicadas.

As exigências aumentavam no Inverno, quando o vento polar batia nas frestas, e a geada brotava junto com o rubor de orelhas e faces. Não havia cobertor que nos livrasse da provação. A lenha, cortada em rodízio pelos que mantinham ainda a saúde, era consumida vorazmente pelo frio que viera para ficar. Naquele tempo, não havia o que hoje é comum: mês de julho com calor e outras excentricidades. A temperatura baixava em março e só levantava a cabeça em novembro.

Revezando com a mãe, o médico da família fazia sua visita, mas havia uma certa impessoalidade no seu cabelo lambido para trás, seu olhar manso e suas certezas, que me colocavam de quarentena. Ele sorria por motivos que desconheço, pois me receitava dietas de sal por meses e me cercava de cataplasmas, uma invenção que felizmente ficou no passado. O reforço eram as sopas, de caldo grosso quando de trigo, e que faziam também parte da medicina. O cardápio era voltado para a sobrevivência e dividido entre irmãos. O gosto ficava restrito a alguns pratos especiais, inesquecíveis, e às sobremesas, que só eram servidas quando havia um recesso nas doenças e o tempo novamente nos franqueava alguma esperança.

Por algum motivo, nasci sem resistência para o Inverno, o que contrariava a linhagem familiar devotada à caça e à pesca em paisagens geladas. Houve até algum esforço do meu pai em me colocar de frente com os rigores de julho, para me fazer ver que eu poderia resistir a qualquer catástrofe do clima. Ensinava que o acampamento precisava estar bem fornido de lãs e que os sapatos deveriam ficar embaixo de tudo, para que o sereno tenebroso não os encharcasse.

Entre a prudência materna e os desafios propostos pelo pai, esvaiu-se o tempo, mas não a alegria de lembrar aquela casa. Lá, havia a vida plena que nos protegeria de todos os invernos.

RETORNO - Imagem de hoje: Praia dos Ingleses, foto de Miguel Duclós.

7 de setembro de 2006

O CRIME DE CAPOTE




Nei Duclós

Truman Capote cometeu um crime: invadiu a reportagem com recursos de ficção, extraiu fatos esgrimindo mentiras, transgrediu o jornalismo levando-o à literatura e atingiu a celebridade ao mesmo tempo em que se tornou prisioneiro da própria obra. Inconformado com a submissão da realidade à imaginação (esta, muito mais fecunda e inspiradora), apostou a vida num envolvimento que lhe custou caro. No fundo, queria romper a maldição que assombra todo o escriba desde suas origens.

No mais baixo escalão da escravatura situava-se a pessoa encarregada de tecer os signos de um reino. A palavra texto vem da obra desse tecelão ancestral, que produzia algo impossível de vestir, e que limitava sua arte a tornar inteligível o que lhe era ditado. Na longa linhagem literária, sobram exemplos de escritores amaldiçoados pelo pouco carisma da sua atividade, onde se sobressaem Dostoievski e Kafka. São raros os exemplos de escritores celebrados em vida, como foi o caso de Victor Hugo, que recebeu uma chuva gigantesca de flores da população parisiense quando completou 80 anos. Vocação fadada ao insucesso, por não permitir a sobrevivência regular e fatídica, escrever se transformou numa impossibilidade, que a voragem do jornalismo só soube acentuar.

Confinados nas redações, os escritores empurrados para a reportagem entregaram-se à invenção mais deslavada a partir dos prontuários policiais. Forjar ficção para vender jornal virou o estigma maior de um ofício que exige a ética para se impor. Truman Capote rompeu com essa barreira e trouxe para o noticiário policial o detalhe do observador de gênio, que usava de todos os recursos - da astúcia à emoção - para chegar ao seu objetivo. No filme Capote, de Bennett Miller , de 2005, que chega em forma de DVD exibindo a performance do ganhador do Oscar, Philip Seymour Hoffman, no papel principal, vemos como ele se impregnou do objeto do seu tema, a partir do talento e da memória privilegiada.

A constatação mais importante do filme é o fato de que Capote reconhecia a identificação entre ele e o assassino. "Fomos criados na mesma casa", diz, "só que eu saí pela porta da frente e ele pela dos fundos". Ambos com problemas familiares, com históricos de suicídio, desamor, abandono e violência, o escritor e seu alter ego trocam confidências sobre a vida perversa ocupada do outro lado da América, a que fica situada no lado oposto da rotina asséptica. Aproximar-se dos corpos assassinados foi uma revelação: ele queria mesmo era ver a vida normal esvair-se, talvez para se livrar da canga que a realidade o condenou.

Ocupar integralmente o espaço criado pela transgressão (o assassinato, por parte do criminoso, o livro A sangue frio, por parte do escritor) acabou com as ligações frágeis de Capote com o mundo que o sustentava. Essa arquitetura ruiu quando os corpos desceram no cadafalso, num evento do qual ele jamais iria se recuperar. Não terminou mais nenhum livro. A espera do desfecho (a execução) que viabilizaria seu livro, o empurrou para um beco sem saída.

Da sua ousadia se aproveitaram todos os outros escritores, que puderam seguir o caminho do texto com mais liberdade. Mas seu estigma permanece, o de ter cometido um crime e sair aplaudido no final.

RETORNO - 1. Ontem dei entrevista de 15 minutos no programa Estúdio 36, da TVCom, aqui de Florianópolis, que foi ao ar às nove e meia da noite. O programa será reprisado hoje às 10 horas da manhã. Ao meio dia de hoje, dia 7, compareço na TV Record e às 15h30min, uma entrevista com Luiz Carlos Prates na CBN. 2. Hoje saiu nota sobre o livro "O Refúgio do Príncipe - Histórias sopradas pelo vento" (Editora Cartaz, 150 pgs., R$25,00) na seção Contracapa, assinada pelo jornalista Marcos Espindola, no caderno Variedades, do Diário Catarinense. No mesmo caderno, foi publicada a crônica de hoje sobre Truman Capote. 3. Amanhã, sexta, a partir das duas da tarde, estarei autografando no estande da Fundação Catarinense de Cultura, na Feira do Livro de Florianópolis (sexto piso do Beiramar Shopping). Quem quiser adquirir o livro, que está chegando nas livrarias e nos sites, pode também escrever para luzia@empreendedor.com.br. O exemplar será enviado mediante depósito bancário e sem taxas de correio. 4. A imagem enfoca o ganhador do Oscar, Philip Seymour Hoffman no papel do talento maior do new journalism.

6 de setembro de 2006

LER COM PRAZER




A história do conto O Refúgio do Príncipe, que empresta o título para meu lançamento de contos e crônicas nesta sexta feira (ver post anterior) tem 25 anos de vida. Em 1981, sentei em frente à janelona de vidro e escrevi dois textos: República de Itaguaçu, que veio ser a primeira parte do meu romance Universo Baldio (Francis, 2004) e esta história sobre os gigantes da ilha de Santa Catarina que agora finalmente vem à tona. Primeiro tentei publicar por meio da secretaria de Cultura, mas o projeto, aprovado, não foi adiante. Depois, tentei lançar como brinde de fim de ano da empresa do meu irmão Lisca, mas outros contratempos impediram a realização. E agora chega nas livrarias este livro junto com alguns contos e crônicas que produzi nos últimos três anos. O livro todo é uma reflexão sobre o papel cultural tanto da ilha quanto da minha cidade, Uruguaiana. Enm linguagem poética, por meio de um narrador que começa estrangeiro e fora de mim (como é o caso do conto principal), até chegar onde estou. Graças ao Daniel Duclós, que achou os originais na minha casa em Sampa, redigitou o texto e me enviou, foi possível levar este trabalho adiante. A seguir, a crônica de hoje do caderno Variedades, do Diário Catarinense.

Nei Duclós

Se você não tem biblioteca na maior parte do território urbano do país e se você chega numa livraria e só são destacados os livros descartáveis, e se essa situação ultrapassa as duas décadas, então você está formando gerações de analfabetos, por mais que falem em analfabetos funcionais. Quem sabe ler e não entende o que lê não é alfabetizado, ponto. Quem só procura livro para esquecer no dia seguinte está perdendo seu tempo com leituras sem sentido. Todo aprendizado é árduo e talvez esse seja o maior equívoco do cultivo da leitura: para evitar que os jovens se aborreçam com os livros tornado obrigatórios, achar que o período de aula deva se transformar num recreio.

Quando chega a hora do recreio, se a aula foi lúdica, o que o aluno deverá fazer? As novas gerações, como todas as outras, têm fome de sobriedade, de seriedade, de responsabilidade. Não se deve tirar de quem aprende o privilégio de percorrer um caminho difícil até o conhecimento. Partir para a brincadeira, achando que isso vai resolver, é desistir da luta.

A barreira maior entre uma formação completa e a situação em que todos fingem ensinar ou aprender é a indiferença. No filme Elefante, de Gus Van Sant (título que se reporta à fábula oriental de quatro cegos que tentam adivinhar o bicho tocando apenas uma parte dele), vemos o que faz a indiferença nutrida pela impessoalidade do ambiente estudantil. A ausência dos adultos nos problemas chaves da adolescência, a omissão diante de uma vida confinada ao luxo, geram massacres não compreendidos em suas causas. Tateamos o problema com nossas mãos cegas, enquanto se despejam na vida adulta milhões de pessoas sem a companhia fundamental do livro. Pelo menos, do livro inesquecível, o amigo certo para esta vida complicada.

Hoje existe uma tendência de tentar preservar as crianças de situações duras na hora de pegar os livros. Revi um dia desses, graças à Internet, o texto da minha primeira leitura, O Pequeno Lorde, de Frances H. Burnett O pai do narrador-criança morre no início da história! Nesse caso, não há concessões para a criança que vai pegar o livro. Falar com franqueza, não tentar iludir com expedientes marotos, é a maneira mais sólida de conquistar leitores. Deve haver um sentido para ficar horas do dia em frente às palavras. Não será colocando a grande aventura de estar vivo para debaixo do tapete, ou mentir sobre nossos destinos, que vamos conseguir algum resultado.

O mal do livro obrigatório é que limita a mobilidade de quem procura o que ler. Deveria ser liberada a busca pela leitura mais adequada (claro que com acompanhamento). Gostar de ler significa encontrar no livro algo que prenda a atenção e emocione. Se isso não for feito na escola, o novo leitor será presa fácil dos livros descartáveis. Pois ele vai procurar o prazer negado na aula, o prazer que nada tem a ver com aprendizado lúdico, mas com o legítima vontade de aprender que trazemos do berço. Não se lê com prazer quando somos forçados a engolir pedreiras literárias nos verdes anos. Ou quando somos levados a brincar de aprender na hora da primeira dificuldade.

RETORNO - A foto dos estudantes é de Marcelo MIn.

5 de setembro de 2006

LUGAR PARA MORAR





Chegou ontem da gráfica Pallotti, de Porto Alegre, os exemplares do meu mais novo livro, O Refúgio do Príncipe - Histórias Sopradas pelo Vento. O primeiro lançamento será neste sexta-feira, dia 8, na Feira do Livro de Florianópolis (Sexto piso do Beiramar Shopping), a partir das 14 horas, no estande da Fundação Catarinense de Cultura. O livro publica o conto inédito que empresta o título a todo o volume, e que aborda uma lenda sobre os gigantes que habitavam a Ilha de Santa Catarina (uma história realmente soprada pelo vento e escrita em 1981). O conto é uma reflexão sobre o papel histórico e cultural de Florianópolis, mas se presta a outras leituras. No livro, dividido em duas partes - Mar e Pampa - enfeixei uma seleta da minha colaboração no Donna DC, do Diário Catarinense, e do Diário da Fonte. A Editora é a Cartaz, selo literário da Editora Empreendedor, onde trabalho, do jornalista e empresário Acari Amorim. O projeto visual, diagramação e capa é de Juliana Duclós. O livro já começa a ser distribuído nas livrarias de Santa Catarina (Catarinense e Entrelivros) e está também disponível na feira do Beiramar. Está chegando também em Porto Alegre e em breve será distribuído para todo o Brasil. A seguir, a crônica de hoje publicada no Caderno Variedades, do Diário Catarinense.

Nei Duclós

Ter um canto nem sempre significa teto, cama, criado-mudo, escrivaninha, TV. Pode ser que morar seja um verbo mais amplo e se refira à atual fase da oferta excessiva de informações, onde nos sentimos desprotegidos e procuramos um lugar onde descansar as retinas. Trata-se de uma armadilha: notícia demais nem sempre quer dizer diversidade de fontes, variedade de protagonistas, multiplicidade de situações. A maçaroca de coisas que nos atingem, ou procuram atingir, por meio de todas as mídias, podem circular pelo Mesmo, aprisionando nossa percepção em alguns guetos, ruas reviradas, casas demolidas, eventos recorrentes, personalidades eternas.

Há uma surda insurreição contra essa impostura que é o resultado da filtragem que fazem dos fatos, como se de repente estivéssemos com a visão limitada em 60 graus disponíveis nas telas ou nas páginas impressas. O olhar que varre a realidade se sente traído pelo que vê e ouve e que lhe é oferecido como a versão acabada de tudo. Há uma contradição entre o que precisamos e queremos saber, e o que nos colocam à frente, tudo amarrado com alguma mensagem ditada por todo tipo de interesse.

Mas isso é outro paradoxo, pois tudo está disponível, inclusive o que aparentemente nos é negado. Hoje é possível escutar os clássicos cantados pela Doris Day sem ter viajado a Nova York ou ido a alguma cdteca caríssima; rever pela milésima vez o filme definitivo (que, como todos sabem, é Os sete samurais, de Akira Kurosawa); lembrar a letra da marchinha de carnaval perdida ("dizem, em voz corrente, que em Goiás será a nova capital, leve, tudo para lá seu presidente, mas deixe aqui o nosso carnaval"); provar que existe um filme chamado O quinto poder, de Carlos Pedregal, que é sobre as mensagens subliminares no Rio de Janeiro dos anos 1960; tudo isso faz parte do grande acervo que a tecnologia colocou à nossa disposição.

É pela seleção do que gostamos de ter por perto (Lord Jim, de Joseph Conrad, traduzido por Mário Quintana), de reler (Um mestre na periferia do capitalismo, de Roberto Schwarz), de escutar (Morning has broken, de Cat Stevens), que formamos nosso ninho, o lugar para morar. Podemos estar em qualquer parte do mundo, coloque Frank Sinatra para cantar. Fuja para o deserto, desde que seja possível escutar Villa-Lobos rodopiando sobre o beijo entre Ioná Magalhães e Othon Bastos. Donos desse espaço único, podemos então enfrentar a mesmice dos fatos, já que temos o alimento necessário para cruzar o Inverno.

Basta deixar de lado a moda, esse condomínio impessoal que a todos nivela. Acabamos incorporando outro tipo de perfil, muito parecido com muitos de nossos pares. Somos capazes de ver O filho da noiva, de Juan José Campanella, a comédia dramática encantadora que os argentinos souberam produzir em 2001, sem sentir vergonha de estar falando de algo tão distante (cinco anos hoje é mais ou menos um século). Moramos nesse lugar encantado em que a cultura não é a medalha que brilha na festa, mas o pão que aguarda, perto do fogo, o momento de nos aquecer na noite interminável.

O resto é tornado, enchente, contratempo. Talvez, no miolo do furacão, algo nos deslumbre e fique fazendo parte das relíquias que juntamos ao longo dos anos.

4 de setembro de 2006

TEMPOS INFALÍVEIS





Nei Duclós

Um dos efeitos mais nocivos do evolucionismo mal estudado é a pretensão de que estamos à frente do que veio antes de nós. Como se os avós tivessem existido só para preparar a nossa magnífica chegada à terra. "Já naquele tempo" é uma expressão muito usada, revelando a grande surpresa que é a constatação de que o mundo existia antes de nós. Um dia, quando me fizeram a pergunta "como eram os anos 50?", respondi, exausto da visão limitada sobre o passado: vivíamos em árvores e nos comunicávamos por sons selvagens. Aí fomos evoluindo até chegarmos ao auge da civilização, que é a conversa interminável ao celular num ambiente coletivo.

Quando a evidência é brutal demais, quando o gênio se manifesta de maneira explícita, e ele não está mais vivo, costumamos dizer que fulano "estava à frente do seu tempo". Ou seja, o sujeito confrontava o registro em cartório da sua época e como não se comportou conforme nossas definições, acaba fazendo parte de uma esquisitice, de algum evento bizarro que contraria a linha ordeira dos fatos que se sucedem obedecendo a uma lógica infalível. A arrogância que vemos hoje faz parte dessa certeza (talvez por isso se diga tanto "com certeza"): que o passado é digno de pena e deve ser visto sempre da mesma maneira.

A verdade é que somos criaturas zeradas a cada geração. Não nascemos com a teoria da relatividade fazendo estrepolias no nosso cérebro de nenéns. Temos que aprender a comer, falar, andar. O cálculo infinitesimal é uma conquista árdua, assim como a noção mais ou menos exata de como funciona um computador. Não recebemos de bandeja o que os antepassados, pobres figuras, levaram mais de uma vida para criar. Precisamos percorrer o mesmo caminho, já que toda geração parte do nada até chegar ao seu esplendor.

Num drible esperto, o que acaba se impondo é a marcha da espécie e não o esforço dos indivíduos. Não foi fácil, dizem, sairmos da condição de macacos até chegarmos à humanidade, como se Darwin fosse culpado de semelhante equívoco. Descendemos de uma espécie de hominídios que viram vantagens na postura bípede e se aprofundaram no uso de ferramentas, e não dos macacos propriamente, nos diz o evolucionismo clássico. Mas isso é só um detalhe. O importante é achar que a obra humana foi fazer o chimpanzé virar o Brad Pitt.

Quando vemos uma obra-prima absoluta como Luzes da Ribalta (1952), de Charles Chaplin, notamos que a arte deitou raízes fundas no futuro e que ver um filme desses hoje é tomar um banho de civilização perdida. Não que o passado seja a maravilha total que todos devam celebrar. Mas sim o fato de que há 54 anos um filme existe para nos dizer algumas verdades. Uma delas é que uma geração, ao chegar à suprema essência da sua arte, como foi o caso de Chaplin e de seu imortal personagem, o comediante Calvero, acaba sendo enterrada precocemente pela burrice do tempo.

Cada cena é pura poesia, é a imaginação no poder, que nele deveria permanecer para todo o sempre. O gênio pincela nossos dias com sua monumental lucidez e talento e dele não devemos nos afastar. É preciso aprender humildemente, não apenas com o que nos chega de herança verdadeira, mas com o que nos rodeia e não prestamos atenção. O tempo não é infalível, e por isso oferece a chance de ser tão encantador.

RETORNO - 1. A imagem, magnífica, é do Gênio: Charles Chaplin no auge da sua arte em "Luzes da Ribalta", o filme que levei 40 anos para rever (a oferta da outra obra-prima, "Luzes da cidade", ocupava todos os espaços). 2. Esta crônica dá seqüência à minha interinidade na coluna do jornalista e escritor Sérgio da Costa Ramos, no caderno Variedades, do Diário Catarinense. Sérgio está de licença até o meio deste mês.

2 de setembro de 2006

ANDAR É SER OBSERVADO





Aprender a caminhar, para quem sai do berço, já é assumir uma identidade

Nei Duclós

Todo mundo sabe como John Wayne anda. É o caminhar mais imitado do cinema. As pernas possuem vida própria e há um ritmo diferente no gesto que ele imprime ao tronco. Parece que anda meio de lado, como a espreitar inimigos. Ao mesmo tempo, é um andar franco, desassombrado, grandalhão. Robert Mitchum tem outro tipo de passo. As pernas vão a reboque da sua vontade de andar, fazendo com que seu corpo (encimado por formidável cara de sonso) flutue enquanto os pés palmilham territórios há vários segundos deixados para trás.

Aprender a andar, para quem sai do berço, já é assumir uma identidade. Pelo ritmo, pela postura assumida no caminhar de qualquer um, é possível dizer quem ele é. Por isso atores como John Travolta costumam modificar o passo para criar personagens. Mas quem encontra o passo certo (contundente, personalíssimo) diante da observação alheia, não abre mão dele, seja o papel que for desempenhado.

Quando aprendemos a andar, descobrimos que essa ação está sendo acompanhada com atenção redobrada. O mundo adulto volta os olhos para você, na expectativa e ao mesmo tempo pressionando-o para que você se saia bem da empreitada. É importante que uma criança ande, o que irá amenizar o trabalho dado aos adultos. É também sinal de saúde física, de coordenação motora e, infelizmente, de precocidade (a pressa em fazer o nenê andar é que inventa as pernas tortas de tanta gente).

Andar, portanto, é ser observado, o que torna essa atividade tão fundamental no teatro e no cinema. É preciso chamar a atenção para o personagem a ser criado. Atrair a atenção alheia é fazer a criatura andar. O passo do terror é conhecido: pé ante pé, pesado, fazendo o tronco acompanhar o esforço de maneira tacanha. O passo do medo costuma ser obviamente trêmulo, ou trôpego. A comédia usa o andar para compor o riso na cabeça da platéia. Buster Keaton é duro, com pernas e quadris em movimento burocrático. Chaplin usa o excesso dos sapatos para inventar o andar do palhaço distorcido pelas luzes do circo. Há o andar imperceptível dos ladrões. Não se iluda: se você for roubado, não escutará nada. Se escutar, você tem uma chance, o ladrão é ruim de bola.

O andar furioso é curto, apressado. O andar sensual é a base bamba de um templo majestosamente curvo. O passo de ganso é o nazismo impondo seu tacão no mundo. O do marreco são as pernas tortas que pretendem ter um andar militar, mas não conseguem. O andar na ponta dos pés te surpreende. O andar duro do salto alto é um pedido de passagem na calçada estreita. O andar cria espaços imaginários diante da câmara. É uma ferramenta que não pode cair em si, como os ombros. Quando José Wilker gira, ele está decidindo que não quer mais estar ali, que vai inventar outro cenário para o seu personagem se movimentar. Bruna Lombardi como Diadorim andava como se estivesse caindo, o mesmo tipo de passo de Romário quando se retira do campo. Andar é o bicho mais humano que podemos criar.

O andar dos anos cinqüenta, aprendido nas matinês, era bem específico. Na calçada larga, sabíamos que mil olhos voltavam-se para nós. Tínhamos platéia, era preciso caprichar. Havia uma dança comandada pelos ombros e pelo tronco, que se revezavam no impulso para frente. Nesse bambolê estranho havia o charme de passar a mão no topete ou jogar a cabeça para trás para acertar o cabelo caído. Uma leve raspadinha com a sola do sapato no chão era admissível, desde que não se exagerasse na dose. Isso dava a impressão que atrairíamos garotas tontas com nossa performance.

Mas no fim nos reuníamos em grupos nos postes, carros estacionados (já que não tínhamos carros) para ver olhar o que realmente interessava: o andar das gurias, que costumavam levantar a sola dos pés para ganharem altura enquanto iam para frente, ao mesmo tempo em que viravam o rosto para nós, felizardos daquela época sem igual. Andar, naquele caso, era observar. Mas quem andava na nossa frente voltava os olhos para nos ver parados. Nunca foi tão bom ser platéia.

RETORNO - 1.Imagem de hoje: minha neta Maria Clara de casaco azul. Foto de Juliana Duclós. 2. Esta cronica foi publicada neste fim de semana no caderno Donna DC, do Diário Catarinense.

TESOURO PESSOAL





Nei Duclós

A verdadeira citação é a feita de memória. Citação letra por letra parece plágio. Lembramos o que foi dito ou escrito por alguém para que a frase ou o pensamento admirável ajude a conversa a atingir um ponto de iluminações. Cada vez que algo é citado pela lembrança, a criação alheia recupera o viço e funciona melhor, evitando também que nos tornemos reprodutores do já visto ou lido. É a nossa maneira de dizer o que já faz parte do acervo coletivo.

Com o tempo, acumulamos um tesouro dessas peças vivas, num convívio que se torna cúmplice e ajuda a nos identificar em qualquer conversa. O perigo é limitar o número dessas recordações da linguagem, o que nos transformaria num pequeno almanaque de referências, para o bocejo de quem se aproxima de nós.

Pode-se argumentar que as ferramentas de busca na Internet impedem que tenhamos dúvidas nas citações. Basta pesquisar rapidamente e eis a frase perfeita para uso imediato. Mas não podemos nos transformar em palm-tops ambulantes e nem sempre há energia suficiente para alimentar os instrumentos que nos permitem utilizar a busca virtual e infalível. Continuamos humanos e o que nos define é uma soma de produção própria de pensamento com o apoio dos mestres que nos servem de bússola.

Na identidade pessoal, formatada pela experiência e as leituras, reside o que há de mais importante nesta época de informação de massa, de cultura manipulada, de leituras apressadas, de excesso de exposição, de total interferência nos territórios de sobrevivência nacionais por parte de forças explícitas, armadas ou imaginárias. Notório ensaísta, dias atrás, lamentava o fato de termos uma literatura excessivamente voltada para a questão nacional, o que nos atrapalharia para a modernidade. O certo, disse ele (e aqui cito de memória, para deixar claro o que ficou em mim da leitura do texto alheio) seria deixar esse tipo de preocupação para lá e abraçar o mundo irreversível dos sem-nação.

Não foi exatamente com essas palavras que o autor se expressou, mas coloco assim para dizer como esse tipo de colocação me incomoda. Só nações com fronteiras secularmente definidas, que se espalham em ações imperiais pelo mundo, produzem cultura própria embalada como internacionalismo. O que os países ricos geram na superestrutura seria a modernidade globalizada, o resto não passaria de folclore. Para sermos iguais a eles, portanto, devemos imitá-los e deixar de ser tão brasileiros.

Não há espaço aqui para aprofundar essa conversa, mas é bom tocar no assunto, porque a campanha contra as fronteiras parece sob medida para nós, que temos tantas e foram conseguidas em séculos de lutas. Fronteira é paz na diferença e definição de identidades. O Brasil, território aberto para o mundo, sempre foi o exemplo de tolerância e sob sua guarda todos os povos encontraram abrigo. Aqui forjamos uma identidade própria, que se parece com uma conversa informal onde entram muitas contribuições. Essa é a sua solidez, pois qualquer origem encontra espaço suficiente para continuar intacta e ao mesmo tempo transformada pela vida no país continente.

E se nos perguntam o que é ser brasileiro, citamos algo da nossa literatura. Ela cuida disso desde que nasceu. A linguagem é a única arma que dispomos.

RETORNO - 1. Esta crônica foi publicada hoje, dia 2 de setembro de 2006, no caderno Variedades do Diário Catarinense. Escrevo diariamente como interino na coluna do jornalista e escritor Sergio da Costa Ramos, que está de licença. 2. Imagem de hoje: Garças, de Helcio Toth.

1 de setembro de 2006

A VOLTA DA FÁBULA





Nei Duclós

Quando éramos crianças, queríamos viver no mundo maravilhoso em que os animais falavam. Fomos atendidos. Não da forma certa: escutando narrativas alegóricas que encerravam alguma lição no final. Mas da forma errada: convivendo com todo tipo de sons guturais emitidos pela falta de produção de pensamento. Essa comparação chega a ser uma injustiça aos animais, já que a ciência começa a notar o que todo mundo sabe: que os bichos pensam e sonham. E que suas linguagem são bem mais complexas do que imaginávamos.

Enquanto nos distraímos com a proliferação de equipamentos de uso veloz, a exclusão de Plutão do Olimpo planetário, e a falta de vacina para a malária, há um derrapar nas velhas fórmulas em plena era do conhecimento. Essa situação mantém atual a tese de Thomas Kuhn, o pensador alemão que escreveu livro clássico sobre as revoluções científicas: a de que a ciência se comporta de maneira obscurantista e só vai adiante quando a geração que defende o velho paradigma morre ou se aposenta. Ele cita Newton, que só foi aceito cem anos depois que suas revelações vieram à tona. Kuhn não é bem visto pelos seus pares, por motivos óbvios, mas sempre que vejo um documentário sobre animais dou-lhe razão.

Sob a capa científica, os documentários costumam nos apresentar os animais engessados em comportamentos já conhecidos. Neles, os bichos jamais brincam, eles estão apenas treinando para a vida adulta. Se fazem algum exibicionismo com suas penas e bicos, é para perpetuar a espécie. Toda manifestação de inteligência é forçosamente colocada no território lúgubre do instinto. O uso de ferramentas por parte dos chimpanzés, o gato que abre porta pulando sobre o trinco, ou o pássaro que acha o alimento driblando armadilhas, são acontecimentos que ainda não romperam definitivamente a casca do preconceito humano.

Mas isso está mudando, e graças à fábula. A Marcha dos Pingüins, por exemplo, nos diz o quanto podemos aprender sobre o comportamento dessas resistentes criaturas do deserto ártico, sem recorrer às certezas ditas científicas. Nesse premiado documentário de Luc Jacquet, os animais falam e expressam seus sentimentos enquanto as imagens reportam a tarefa praticamente impossível de procriar em ambiente tão hostil. A linguagem poética redime a aridez da trajetória de sacrifícios e coloca identidade em cada protagonista da história, enquanto destaca a importância fundamental do trabalho em grupo.

São várias as lições desta fábula premiada. Primeiro, a responsabilidade que implica o prazer do acasalamento. Segundo, a necessidade de compartilhar tarefas na difícil obra de gerar um descendente. Terceiro, a transcendência da passagem sobre a terra, que tem a ver com mistérios soberbos de um universo pautado pela grandeza. A admiração confessa do diretor pelo que os pingüins fazem repassa para o espectador, que assim fica mais confortado diante das dificuldades diárias.

Luc Jacquet assumiu que um documentário é apenas uma versão. Apostou no potencial de fábula que havia nas diversas marchas em direção à vida e à morte. E não nos engana com uma linguagem considerada científica. Ele optou pela poesia, não por ignorar as pesquisas (ele é biólogo), mas para poder enxergar melhor o que nos parece tão familiar.

RETORNO - 1. Este texto foi publicado hoje, dia 1º de setembro de 2006, no caderno Variedades do Diário Catarinense. Estou publicando, até metade do mês, minhas crônicas como interino da coluna do escritor e jornalista Sérgio da Costa Ramos, que está de licença. 2. Hoje é aniversário do meu irmão Luiz Carlos. Longa vida, saúde, dinheiro e felicidade ao nosso Lisca.