18 de outubro de 2008

O HUBBLE QUER COLO


Simpatizo com o Hubble, o telescópio que mudou tudo e já é considerado obsoleto, com suas avarias, superado por outros portentos que enxergam ou enxergarão tricolhões de anos luz mais do que ele. Nada supera a ingratidão humana. Imagino que já exista a percepção de que o Hubble pertence ao acervo da arqueologia. É a voragem da pressa, todo mundo quer avançar sem dó, deixando para trás as melhores coisas de nossas vidas. Aquelas colunas estelares (foto acima), vistas pela primeira vez graças ao Hubble, foram incorporadas ao imaginário popular e às pesquisas científicas, mas já ninguém presta atenção no pobre e gigantesco telescópio espacial, que se recusa a emitir dados e obriga uma visita pessoal a seus aposentos, já que todas as tentativas de resolver o problema a distância fracassaram. O Hubble quer colo.

Vejam o caso do Douglas Prasher, bioquímico que descobriu porque as algas brilham. Separou o gene, sei lá, essas coisas, e com isso contribuiu para que outros cientistas, que pediram e levaram (ele entregou suas pesquisas generosamente) o segredo da descoberta, ganhassem o Nobel, ou seja, 450 mil dólares cada um. Douglas hoje, informa o New York Times, dirige uma van e ganha dez dólares a hora. Sofre de depressão. E admite que não gostaria de tomar o lugar de nenhum dos três laureados, pois isso seria uma injustiça.

É que não pode ter mais do que três ganhadores do mesmo prêmio. Deveria ter quatro, desta vez. Mas Douglas, grande sujeito, ficou de fora e se conforma. Numas. Depressão é falta de colo. Douglas precisava de dinheiro para continuar suas pesquisas, não deu certo. Deixou de transmitir dados. Exige a presença de astronautas. Ganhou apenas espaço na mídia. É pouco. Merecia mais. É a ingratidão humana. Essa exclusão acaba com o sujeito. “Eu poderia ser alguém, eu poderia estar na luta”, dizia Marlon Brando na célebre cena com Rod Steiger em Sindicato de Ladrões, de Elia Kazan.

Todos os que se identificam com o Hubble e Douglas sentem essa voragem mortal, o bafo da medusa no rosto, o cheiro da múmia. Todos os que ficaram no desvio, no canto, na estrada, vendo a caravana passar. Todos os que fizeram alguma coisa e foram esquecidos. Todos os que disseram algo importante e vêem suas palavras sendo apossadas pelos espertalhões de sempre. Todos os que compuseram músicas que viraram domínio público. Todos os que não tiveram nenhuma oportunidade na vida. Todos os que se desperdiçaram, todos esses são como o Hubble solto no espaço depois de cumprirem seus destinos.

Os nós que atavam o grande telescópio à terra se esgarçaram e ele rodopia pelo espaço afora. Ele então continua, o grande e majestoso Hubble, enxergando por mais da conta, mas não compartilha com mais ninguém. Foi deixado de lado, como um velho herói esquecido sem netos que escutem suas histórias. Foi liberado para a morte. Ele cruza a fronteira do Sistema Solar e se perde para sempre. Talvez desça num planeta gigantesco, desses descobertos recentemente, tão enormes que deixam Júpiter no chinelo. Lá, será encontrado por uma criança e vai virar, por ser minúsculo diante das novas dimensões, um brinquedo querido. Será guardado em armários brilhantes. E aí será a alegria das festas de aniversário.

Grande e poderoso Hubble, o telescópio das nossas vidas, deixa eu ir até aí te consertar. Vou colocar um disquete, daqueles que não se usam mais, no teu drive, que também não existe, vou me fechar numa sala e sem que ninguém veja, nem mesmo esses pulhas de Houston, Texas, vou teclar a palavra mágica: format! Pronto, estarás reformatado. Então, poderás simplesmente capturar e transmitir dados espirituais, nebulosas de gelatina gosmenta, sonhos de verão, corações virtuais, canções perdidas no cosmo. Toque, Sam, aquela velha canção. Se ela pode suportar, eu também posso.

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