18 de dezembro de 2011

AMOR EM ARTE


Nei Duclós

O que seduz não é essa abordagem
é o ser em si, sem nenhum disfarce
no lugar de insistir na camuflagem
o dom de transformar amor em arte

Como se faz, se o mando é das feras
fica impossível romper a maquiagem
Amor não é conquista, mas entrega
me soprou aquela que mais quero

Amor é o armistício, não a guerra
o acordo que manobra as diferenças
teu riso frouxo quando o corpo acorda

qualquer truque joga o coração fora
melhor é desistir, a vida sabe a hora
e ficar atento à flor da tua espera


RETORNO – Imagem desta edição: Rita Hayworth

17 de dezembro de 2011

PINGENTE


Nei Duclós

Da vida algo se leva: é o sentimento
que fica impregnado nos crisântemos
enfeitados na planície onde sonhamos
e nas montanhas e demais extremos

Fica grudado em ti, minha princesa
como pingente de alto compromisso
o que selamos na vida sem caprichos
quando éramos livres e nem tão moços

Esse amor eterno, que é um exemplo
ultrapassa as condições da despedida
e fica no ar com as artes da carícia

É o toque de emoção em teu esboço
coração precário, mas jamais sozinho
para sempre faço parte do teu corpo


RETORNO – Imagem desta edição: Merle Oberon

LANCE DE ESGRIMA


Nei Duclós

Não digo seu nome. A não ser no momento certo, aos gritos

Você me pergunta, eu respondo. Passei no teste? Você silencia. Então apago a luz e me aprovo à revelia, mas com teu consentimento

Quando estou distraído, você me atinge com um lance de esgrima. Sem proteção, acuso o golpe. Você ri, bandida

Musa é excesso de poesia. Sopro, inundação. Não se economiza musa. Amor é abuso

Falo tudo entre nós como se você fosse outra pessoa. Assim nos preservamos e fazemos amor enquanto a praça está cheia

Deixe de ficar amuada, venha ver o corso, disseram para a guria. Tem príncipe? ela pergunta. Só se tiver príncipe

Encilhei o cavalo na noite alta sem estrelas e passei por tua janela para te pegar. Mas já estavas grudada em mim, neblina

O dia prometia calor intenso. No quiosque, pedimos dois momentos de amor. Serviu-nos a providência. Eros nos expulsou para o apartamento

Chega de ler poesia, disse o patriarca. Desse jeito seremos vitimas de enchente

Tenho medo quando enfim me respondes. Posso estragar tudo. Nem devo ficar em silêncio. Então ameaço fazer um gesto e tropeço, delícia

Peço ajuda do anjo. Tenho antecedentes, ele dá uma força. A palavra brilha e te segura pelos ombros. Consegues chorar, flor do campo

Curto sua imagem, em reconhecimento pelo que me dás. É pouco, mas viajo junto. Acabo fazendo parte dos teus momentos

Vou partir para a terra do crepúsculo. Vá me visitar. Vire uma nuvem

Refaço o rumo, ou esclareço a trilha quando acendes a luz. A que trazes de ti, íntima música

Uma vez por dia, como a estrela guia. Que, como Dalva ou Vésper, são no fundo duas. Fadas entre luz e sombra nas passagens súbitas

Três palavras e está encerrada a visita.Faço delas um navio para cruzar o Atlântico.Viro capitão desse navio de sonho, movido pela lembrança

Cansei com o que fazem do sentimento. Embrulham no balcão e jogam as criaturas no limbo. Prefiro a secura da tua dúvida, amor invisível

Foi só puxar esse paninho que te cobre, floresta

Cansei de sonhar, ela me disse. Vou mudar de estação. Estou saudosa do mundo real. Pode ir, falei. Leva essa porção inútil de coração

Passou muito tempo fora, disse o Poeta chefe. Perdemos quorum. Volte logo e produza choro. Estou feliz demais para isso, disse o funcionário



RETORNO – Imagem desta edição: Vera Miles

FÉRIAS


Nei Duclós

Quando fores de férias neste ano
me abandonando como cão sem dono
o que farei dos pássaros, minha prenda
aqueles que no sonho alimentamos?

Sem tuas asas o que será do vôo
sem teu sopro o que será da vela
sem teu toque o que será da pele
sem teu olho o que será do amante?

Preferes dar um tempo do teu corpo
expor tua formosura em outros cantos
do que compartilhar comigo teu intento

Te deixo ir, assim meio a contragosto
imaginando que sentirás saudade
a não ser que, por amor, me leves junto


RETORNO – Imagem desta edição: obra de Albert Bierstadt

POESIA, ALUNA DA BELEZA


Nei Duclós

Você diz coisas bonitas, ela disse. Minha poesia é aluna da tua beleza, falei

Você me toca quando escreve, ela disse. Meu poema é tua pele, disse o poeta. Mas é só até o coração que ele chega

A verdade rompe o fino laço que imaginei entre nós.Aguardo a próxima encarnação, meu espírito.A não ser que me faças aceitar o que me prende

Penso que dormes com o rosto tomando a forma de nuvem no horizonte. Mas estás atenta e choves quando digo alguma bobagem

Peguei sua mão e fomos passear. Era dia, mas havia estrelas. Era lua, mas havia o sol da manhã. Era uma cidade, mas ela providenciou o mar

Estou com vergonha da poesia, ela mostra o que sempre escondi, disse ela. Faz de conta que não é você, eu disse. Impossível,tem o meu rosto

Agora que estava tudo certo acabei falando o que escondia. Melhor assim. É o teste que o amor se faz olho no olho

Quando voltará a ave da promessa?Quantas estações passarão pelo corpo exausto?Quem poderá valer-me na solidão?Talvez só este lenço de adeus

Não falei contigo, amiga, musa. Falei com quem não digo . O fogo da sua cabeça salpica marcas pelo corpo todo. Acho que estou louco

Descubra o que está exposto em mim e procure pousar na fonte que me alimenta. Tome banho na cachoeira do poema. Estou lá, no alto da rocha

Agora é esperar. Vamos ver o que ela manda. Talvez a ruptura, ou então o amor de fato, desta vez sem armaduras

Poesia?? perguntou o Grande Arquiteto. Sim,falei. Isso deve ser coisa dos anjos. Ei, tem alguém usando o fole da oficina para soprar poesia?

O que você pretende com a poesia? perguntou o Grande Arquiteto.Por que não cálculo? É preciso que a eternidade também tenha uma casa, falei

Entendi, disse o Grande Arquiteto. Poesia é a mobília para dar conforto às pessoas. Não, falei. É um candeeiro no apagão da tempestade

Gostei da poesia, gosto de conhecer coisas novas, disse o Grande Arquiteto. Estimulo a criatividade das criaturas. O mar é seu poema, falei

Na religião, nunca se brinca, disse o fundamentalista. Deus foi criança, respondeu o profeta

Vamos ter fim do mundo este ano? perguntou o garoto. Acho que já esgotou a cota, disse o profeta.

Vi Vésper finalmente pela primeira vez este ano. É um diamante, de olho líquido, orientando o brilho das estrelas que vem chegando

Ok, te espero. Vou sentar aqui neste banco. Estou protegido pelo forro azul veludo do céu neste início de noite. Por você, durmo no relento


RETORNO – Imagem desta edição: Grace Kelly

16 de dezembro de 2011

NAVEGANTE


Nei Duclós

Tupã arrasta os móveis acima das nuvens. A primavera com chuva apronta na noite cheia. Sou o da mesa em frente, minha navegante

Nenhuma mensagem ficará de nós. Guardaremos o momento num coração ainda invisível. Que pulsa, sem motivo aparente

Ela brilhou como um meteoro. Faiscou meu olho e reacendeu o coração. Depois sumiu de novo. Voltou ao seu cofre, amor distante

Num relance era apenas tu, relâmpago. Perdi a pista do teu fôlego. Busco teu âmago, sonho

Voltei para te ver, espanto. Refiz o caminho pelo inverso. Teu rastro era o guia. Foi assim que cheguei ao teu abrigo, meu castigo

Quando menos esperas, lá estou eu a sussurrar no ouvido o perfume de um novo estufar de velas

Agora não adianta. Firmei o rumo do teu salto. Pulo contigo para o alto

É pura carroça a estrada de terra onde me encontro. De repente, o rasante do teu avião me joga longe

Você não descansa? pergunta o retirante. Sim, respondo. Já vou tocar aquele rosto de amanhecer que vem de longe

Amor não tolera demagogia. Nem o verso falso que pensa emocionar com armadilhas. Ou entregamos o ouro ao dizer ou calamos


Babar emoções sob medida para conquistar pelo verbo é tão óbvio que causa dó mesmo em quem tem um grande coração. Diga a verdade

A poesia é real. Senão não seríamos gente, seríamos partículas

Não existe inspiração, poeta não é fole nem faz cara de paisagem na hora de criar. Existe a incorporação da palavra no ofício duro do poema

Escrever não é dourar a pílula, isso é pirataria de remédio. Nem colocar cerejinha no bolo. Escrever é tomar o forte no deserto

Poema de amor não faz a corte para ninguém. É como pássaro de luz na tarde. Assombra, encanta, mas não constrange

O poema é teu companheiro de viagem. Ele reparte o pão e semeia o abraço. E junto contigo pede carona para o amor, nosso estado de arte

Ninguém marca encontro para depois do poema. A poesia é o café repartido entre rostos confidentes, que acham graça da infelicidade

Se eu tiver o privilégio de estar perto de ti, serei próximo como as nuvens no céu de verão

Ganhei um beijo, que vale por um reino. Assumi o comando do coração que voltou do exílio. Sou agora filho do Sol, que todos amam

Não me ponha de castigo. Diga que passa por aqui no final da tarde. Ou então revele o endereço do lugar onde você vai se esconder de mim


RETORNO - Imagem desta edição: Debora Kerr

CIRANDA


Nei Duclós

Soneto não resolve, disse o anjo
precisas capturar aquele sonho
antes que a poeira recomponha
o hábito que define o teu refúgio

Poesia é o instante que criamos
para penetrar o miolo do deserto
a dor do puro sentimento
palavra que não tenho e se repete

O poema ilude porque é doce
mas sem a carne e o calor do beijo
somos sabor inútil sem carisma

Venha, amor, diga sim nesta ciranda
perdi a chance combinando tanto
e agora quero me jogar no abismo


RETORNO – Imagem desta edição: obra de Tiziano Vecellio

15 de dezembro de 2011

CORAÇÃO


Nei Duclós

És a doçura que brota no deserto, alimentada pela flor do meu poema

Para entrar no departamento precisa deixar metais na porta de segurança. Coisas que tilintam: celular, chaves, poesia

Revistaste meu coração para ver se tinha algum ruído de amores antigos. Tinha, enrodilhado num canto. Quando você chegou perto, ele pediu socorro

Bate, coração, anunciando a tarde. Haverá um tempo só de poesia, quando enfim poderemos voltar aos parques. Acompanharei você e seu vestido

Não te criei com tanto esforço para caíres na lábia de um poeta, disse o patriarca. Te enviarei para Paris. Lá mora o perigo, disse ela

Quis fazer um poema com as palavras estupenda, esplêndido. Estava difícil quando, subitamente, apareceste com o esplendor do teu sorriso

Pessoa de qualidade é aquela que não finge amizade nem te cumprimenta, mas arrisca a vida por ti se for preciso porque faz parte dos seus princípios

Preciso sair, te deixo um beijo. Volto quando puder. Alimente os gatos e ponha alpiste na gaiola. Assinado: Eu, morto por ti

Nem sente nada, me abandona. Mas está limpo. Vou me atirar no abismo

Não posso negar meu coração. Ele grita pelos meus olhos e rebate em teus lábios trêmulos

A noite tem tudo para acontecer.Já choveu e há brisa. Estou descansado e pronto. Falta apenas que você exista

Fui aprovado como copista da Corte. Vou passar a limpo teu diário. Cada folha tem uma lembrança. Quando chegará a vez do meu trevo?

Não ceve a ilusão, tenha piedade, disse o patriarca Converse sobre negócios. Todos precisam saber economia. Ele é bom em álgebra, disse ela

Soube que foste a uma consultoria de amor. Desmarcaste até um encontro. Poderias muito bem servir teu coração numa bandeja. Eu saberia o que fazer

Levei um reparte do que ganhei para o amor que mora no alto da trilha, de onde se avista o vale. Mas o pacote foi deixado de lado. Só quero você, disse ela

Tarde demais para o amor, foi o que ouvi no meio da nossa conversa. Mas tua roseira está cheia de brotos de flor, reclamei

Minha fantasia favorita é você chegar de surpresa no café lotado e pedir licença para sentar na minha mesa. Claro, digo. E assim infinitamente

Imagino que no primeiro dia, depois de tantos acenos, estaremos prontos para dividir uma ciranda. Haverá rodízio de choro, minha cantiga

Talvez no início nossas conversas não combinem. Mas não desistiremos. Noites e noites tentaremos descobrir a fonte desta sintonia

Estamos apaixonados mas não damos bandeira. Fingimos que não nos veremos mais. O adeus fica cada vez mais demorado. Até que te beijo

Era para ser só isso. Mas eu pedi um chorinho. E você errou a dose e jogou todo o conteúdo do amor num dedal, meu coração despreparado

Bateu o sino do recreio. Mas eu não saí para o pátio. Fiquei debruçado sobre o livro que deixaste cair aos meus pés, quando se levantou


RETORNO - Imagem desta edição: Sandra Bullock

JACK O MARUJO, UM HOMEM HONRADO


Nei Duclós

Qual será seu epitáfio? perguntou a biógrafa. Era um homem honrado, disse Jack o Marujo

Não estás mais conosco, disse a viajante. O mar é imenso, disse Jack o Marujo

Qual a mensagem que deixa para quem te admira? perguntou a amiga. Sou amor e tudo gira em torno disso, disse Jack o Marujo

Adeus, disse o garoto. O Sr. me traga uma estrela do mar. Vou colher a mais bela, disse Jack o marujo. E enviarei pelas mãos da Sereia

O senhjor não ditará mais suas aventuras? perguntei. Já tens o suficiente, disse Jack o Marujo. O resto vou soprar no ouvido do Criador, a quem tudo pertence

O senhor então vai partir, disse o Almirante. Cumpri o dever, meu mestre, disse Jack o Marujo. Agora faço parte do mar

Quando o sol beijar o horizonte, serei eu selando teus lábios, disse Jack o Marujo. Troco tudo por um lugar no teu barco, disse a viajante

Ele precisa sumir, disse a Sereia. Não há mais lugar para um bravo em terra firme. O capitão será nossa bandeira, disse o novo grumete

Hora de partir! gritou o corsário. Desçam todos e me deixem com a Sereia, disse Jack o Marujo. Esta viagem não comporta coadjuvantes

Todos ficaram tristes, disse a Sereia apontando o grupo solitário no cais. Vão superar, disse Jack o Marujo. Agora eles abraçaram a bravura

O nome do novo grumete era Santiago. Muitos anos depois perguntavam: O capitão existiu? E onde está agora? Onde houver mar, dizia Santiago


RETORNO – Imagem desta edição: Velho marujo, de Antonio Ferreira. Tirei daqui.

MISTÉRIO


Nei Duclós

Mulher é mistério que ninguém chega
não por magia, reza ou descarrego
mas por ser água e mel pela parede
quando tudo está seco desde a véspera

Quem toca sabe, ela não desmancha
apenas borra a percepção alheia
a que não vê além do quadro negro
e gosta de dizer antes que enxergue

Segredo se instala em lugar modesto
dobra de maquiagem ou confidência
sombra de um patrimônio pelo avesso

Por isso ajoelhe quando houver apego
e beije tudo o que tiver consenso
guarde a ilusão de que sabe mesmo


RETORNO – Imagem desta edição: obra de Charles Lenoir

PISANDO AS NUVENS


Nei Duclós

Você me ensinou a voar. Agora me diz onde pouso

Passei dez vezes em frente à tua janela. Fica no milésimo andar. Ando a pé, pisando as nuvens

O amor saiu de moda. Nesta estação o quente é ser descolado, disseram. Está certo, admiti. Descolei de mim quando ela me derreteu

Não tem mais o que fazer? gritaram para o cachorro de rua. Vai latir teus versos em outro lugar! Estou esperando minha dona, a Lua cheia, disse o cão

Cliquei três vezes para ver teu rosto mais de perto. Foi quando levei um beijo

Visitei teu espaço hoje. Era o mesmo de ontem,a estas horas. Estava imóvel. O amor também não mudou nada

Querem te enquadrar num tipo, mas sei que tua forma extrapola. És névoa e arco-íris. E pintas o rosto, teus lagos, no crepúsculo

Estás apaixonado? ela perguntou. Não, disse ele, estou morto. É só um sonho que eu tive

Diga que imaginou uma dança em homenagem ao poema. Depois me mostre, quando todos forem embora

Queres ser minha por delicadeza. Mas eu sei que essa é a forma mais exagerada de amor, pois o passo prudente é quem dá as cartas

Quem te ensinou tanta coisa? perguntou o duende, assombrado. Estava tudo preso numa árvore, disse. Eu apenas colhi, espantando o beija-flor

Jogaste em terreno inculto tantas sementes, me disse o patriarca. Deverias ter revolvido a terra e tirado as ervas daninhas. Plantei flor selvagem, disse

Estamos perto,disse ela. É logo depois daquela pedra. Quando chegamos lá, a neblina tomava conta de tudo. Melhor assim, falei. És meu mirante

O tempo que acumulas no silêncio é o fermento do meu sonho. Imagino tudo se não me dizes nada

Prefiro assim, fixo no cais sem ter nada, do que me iludir à mercê da maré que me leva para longe da tua praia

Antes que o dia me arrebate, durmo ao lado do teu gesto ausente, lá onde me alimento, deusa que invento

Agora é esperar que o dia traga a surpresa.Meu barco passa pelo lugar onde te vi e de lá aguardo o teu aceno, passageira

Comprei passagem para lugar incerto. Desci no aeroporto da esperança. Peguei um táxi de surpresas. Aportei no hotel onde me chamas

Não quero ficar disponível para a dor. Nem guardado para depois.Nem amarrado ao desamor. Nem perdido no além mar.Quero você, meu bem querer

Não precisa entender, passe ao largo. Note o que tenho de fato. O coração solto como o pó do quarto iluminado pelo teu despertar

Falo de outra pessoa. A que ainda não existe. Sou assim, conto com vôos perdidos. Tenho a mão lotada de futuros encontros

Já falei demais, perdi os sentidos. Deliro enquanto te vestes. Vais embora depois de dizer bom dia. Adeus, amor da minha vida. Até a noite


RETORNO – Imagem desta edição: Nas alturas, obra de Charles Courtney Curran

14 de dezembro de 2011

FUNDA


Nei Duclós

Sem pose, e com a postura mínima
oposta à vocação de quem inspira
o barroco e sons do romantismo
és criatura de outra competência

Tens excessos, mas não são firulas
teu perfil faz parte da vanguarda
não pelo acervo, mas a insolência
indiferente e ao mesmo tempo firme

e assim sem dizer nada, digo tudo
sobre o que vejo em ti, musa com livros
és idêntica no amor, mas não transpiras

esses derramamentos passadistas
Preferes a prudência, na aparência
porque no fundo sei que és puro fogo


RETORNO – Imagem desta edição: Virginie Ledoyen

TU O TEMPO TODO


Nei Duclós

É para sempre que vou esperar o cumprimento das promessas que brotaram quando nos conhecemos. O primeiro encontro é teu anel de brilhantes

Tudo teu é tudo eu pensando em ti

Fugi, senti medo. Fui encontrado por ti numa madrugada. Eu estava de cabeça baixa. Iluminou-me uma subida rajada de vento vinda do cosmo

Maior cuidado para não dar um fora contigo. És atenta. Rompes o silêncio quando soa teu alarme. É quando me chacoalhas o mel preso no fundo

No fim estou sem equilíbrio, não consigo andar direito. É que deixei meu coração contigo

Combinei na praça e compareci com a melhor roupa. Caiu uma chuva e encharcou os sapatos. Voltei à noitinha depois de passar pela vitrine, onde moras

Deixaram tua beleza no anonimato e agora acendem holofotes sobre tua idade. Mas como te filmo há tempos, deusa, te ostento nos camarotes

Passa do meio dia e não tomei conta do jardim que nasceu no canto esquerdo do corpo. Desse jeito a tarde será seca e a noite de chumbo

Se você não levanta os olhos em minha direção eu fico sem conseguir ver nada. Tudo vira uma pasta disforme a que chamam mundo

Estamos arrependidos da briga. Agora monta no meu sonho e voa até o próximo abrigo. Lá tenho uma cabana de vidro, aberta para o céu

Mas é você que eu espero, silêncio profundo. Quando virei à tona no teu oceano?

Conheço o gatilho do teu fogo. Basta te querer de coração aberto, de manhã à noite, sem perder o fôlego. O resto é lucro

Tu o tempo todo. Assim fica difícil. Nem quando sonho tua imagem me abandona. Parece que acabei pintando teu rosto nos meus óculos

O amor secou. Agora é esperar as chuvas. Talvez brote alguma coisa. Teu olhar, por exemplo, minha perdição

Aguardo no leito seco o fio de água que descia da montanha. Era a pista do gostoso momento em que tinhas o olhar parado e o mel na boca

Tua beleza deveria ser convocada para resolver conflitos. Soldados assinariam a paz quando vissem o desperdício de morrer enquanto és rainha

Ninguém pode contra o amor, nem tua distração em dias que ficas longe de quem te quer. Chega a hora de prestar contas. Aqui me tens, coração

Que adianta esses encontros, me disse alguém. Vocês estão longe. Mas nos falamos, repliquei. Ela grita por mim e eu me desmancho

Nenhum expediente nos separa. Nenhum horário nos une. Somos soltos como poeira de estrelas. Grudamos a esmo, em busca de uma chance

Decidiste me dar uma oportunidade. Fiz teste de seleção e aguardo. Espero que não tenha pesado contra o momento em que desmaiamos


RETORNO - Imagem desta edição: obra de Eliseu Visconti.

SERVIDÃO


Nei Duclós

Não sou peão nem presto serviço
não confunda jugo com corrente
uma coisa é a escravidão do beijo
outra é o chicote dos desmandos

Tens o perfil e a gana de patroa
distribuis ordens pelos ermos
ai dos pássaros se não voarem certo
ai do gado se não recolherem cedo

Relembro a formação que ostentaste
quando nos conhecemos nos eventos
só vi gentileza e papos de açucena

Bastou chegar nestes domínios
para virares a peste dos comandos
Lave a louça para ver se achas lindo


RETORNO – Imagem desta edição : Lord Frederick Leighton

CORAGEM


Nei Duclós

Não posso te ferir, minha pastora
sob pena de perder toda a alegria
ninguém toca na barra do vestido
nem merece dizer o que não digo

Peço perdão se eu for injustiça
me jogo aos pés da tua doçura
Fico intenso para dar motivos
de seres o que sonho todo o dia

Não caia em tentações do inimigo
Não ouça aqueles que me julgam
de ser um traidor de tanta vida

Não guarde rancor em teus suspiros
por ciúme ou qualquer outra maldade
Seja amor que inventa minha coragem


RETORNO – Imagem desta edição: obra de Daniel Ridgway Knight

13 de dezembro de 2011

COMO SE A LUA FOSSE VÊNUS


Nei Duclós

Sim, você sai de férias, me abandonas por um mês e eu fico a ver navios. Normal. Quando voltares, não esqueça de me telefonar. Sou o cara que te ama

Ela esperou que eu desistisse para dar um aceno. Quer a melhor parte de mim, a que não sofre tentações de mentir. Estou me esforçando, delírio

Como os antigos, tiro o chapéu para ti, mesmo jamais tendo usado um. Te cumprimento por não deixares que eu estragasse tudo

Poderia cercar-te de armadilhas, mas te perderia no mesmo instante. Por isso sumi de vista e quando me dei conta estavas ao meu lado, em silêncio

É para sempre que vou esperar o cumprimento das promessas que brotaram quando nos conhecemos. O primeiro encontro é teu anel de brilhantes

Mesmo com todo o calor, é venenoso o vento que vem do mar na primavera. Para ser perfeito, o dia tem que ser como você, minha bela

Me aproximo de ti, cabelo de fogo, no luau deste amor que custa a começar. Brilhas intensa, como se a Lua fosse Vênus

A poesia substitui as horas vazias. Enche de água o jarro no lado oculto de Júpiter. Naves do teu coração se aproximam

Não te chamo de bela porque é vício de linguagem. Pleonasmo explícito. Basta você, arrasando a terra

Ela me tem nas mãos como um pássaro ferido. Não me cuida, porque nada tem a ver com isso. Enquanto conserto a asa, ela me observa, maravilhosa

Ela se refere a si como se fosse outra pessoa. Serão duas? Ou mais? Quero todas

Onde você vai? Por que, está a fim de me seguir? Não, só quero medir a distância da saudade

Sem uma história que o sustente, o coração aguenta virar carvão no forno do silêncio. Quero ver depois, quando houver o beijo

Queria colar teu rosto para que todos vissem. Mas prefiro na minha parede, onde olhas penalizada o estrago do amor não correspondido

Tudo isso é teu, disse eu mostrando a paisagem. Nada me importa, disse ela. Quero apenas teus olhos

Teu corpo é tão pequeno que a cama parece um latifúndio. Sobra espaço vazio. Fica tudo concentrado na semeadura do teu beijo

Hoje milito em todas as frentes da solidariedade e da ação social. Quero deixar bem claro que te amo


RETORNO - Imagem desta edição: Marilyn Monroe, ruiva

SILÊNCIO ENCANTADO


Nei Duclós


A flauta doce se escuta em outro plano
e não neste, entregue ao silêncio
que compões com tuas mãos ausentes
e o som imerso no prazer do sonho

Em cada nota muda eu me concentro
não para ouvir o impacto do arranjo
mas para sentir teu sopro, minha virtuose
com a melodia que sai do teu segredo

Palavras se recolhem aos pés do anjo
para compactuar com este projeto
em que teu olhar desenha um oratório

onde contrito sou só quem passa adiante
o recado que dás aos quatro ventos
estás apaixonada e teu encanto é a glória


RETORNO - Imagem desta edição: Monica Vitti em Deserto Rosso, de Antonioni

SERVIÇO


Nei Duclós

A pessoa perfeita não existe
desista de buscar a transcendência
melhor se conformar em ser castigo
nas gaiolas da dor, trinado cego

Alguém que balance o teu coreto
fora das armadilhas da esperteza
merece o luxo do deprezo
para que chiar quando está certo?

Mas basta o toque do olhar surpreso
para todo esse acervo virar lixo
e despertar o que fica além do medo

O coração não inventa o que já existe
ele apenas dá conta do serviço
Somos histórias de amor e apenas isso


RETORNO – Imagem desta edição: obra de Lord Frederic Leighton

TECLADO


Nei Duclós

Arte ou verso, tens a vocação da musa
que inspira e ao mesmo tempo assume
pintora de óleos que transmutam
és também odisséia de alto vulto

Fiquei mudo com o talento e a formosura
quando te vi enfim soprando a esmo
as palavras e os tons da partitura
que trazes da eternidade para o berço

Preciso de ti, para versejar à toa
neste ofício que é meu tempo e meu delírio
quero abraçar-te, confusão de idéias

Não tens noção do que fazes com o poeta
quando pousas com teu seio em meu ouvido
morro de amor no teclado onde me tocas


RETORNO – Imagem desta edição: Brigitte Bardot

12 de dezembro de 2011

ESCOLHI O DESERTO


Nei Duclós

Sempre que eu quis fazer alguma coisa alguém não deixou. Por isso escolhi o deserto. Ninguém pode me impedir de entardecer

Me afogas em poesia, queixou-se ela. Assim não durmo. Quero que mudes de cama, eu disse. A que eu fiz com a renda dos teus ouvidos

Extraí a palavra encruada no veio. Usei a força física e alguns sonhos. Acharam pouco porque sentiram a tentação de roubá-la

Não me monitore, não me manipule. Não sou marionete de suas pupilas, nem protetor de tua pele. Sou o sujeito distante e não escrevo cartas

Uma frase sua é a trilha onde me situo. Mesmo que fales de outra coisa. Basta saber que esse vento foi gerado por tuas folhas

Quando terminar este romance, jogarei a fórmula no mar, para alimentar os peixes.

Tenho estações no sentimento. Ardo no inverno, chovo no outono, sonho na primavera e me recolho no verão. Venha, viração, firmar o tempo

Interromperam meu trem de palavras e elas ficaram a reboque de outras linhas. Preciso agir rápido porque tua estação é no próximo quilômetro

Escolhes os brilhos mais raros, os poemas mais íntimos. Estou de olho, princesa. Depois não finja que não entende

Assustei você? Achavas que eu estava longe? Fico onde me beijas, na tua imaginação sem freio

Ser cavalheiro é obedecer o protocolo sem dar importância para ele. Beijar a mão por gentileza tem grande força de sedução

Ensina os caras a se comportar, disse alguém. Eu não, disse o interlocutor. Quero vocês todas para mim

Que faço com teu segredo? Vou enterrá-lo no ermo e assim ficarás me devendo. Quero o que tens de sagrado

Não vou facilitar tua vida. Passarei às nove, como combinado. E te arrastarei, beleza, pelos salões com teu tomara-que-caia vermelho.

Chove e teu cabelo molhado prevê a tempestade.Sugiro um quarto, mas queres ir até o mutirão do bairro. Lá é o amor, solidária

Chega tarde e não me acorda. Sai cedo sem bater a porta. Ao meio dia telefona: almoço um sanduiche em tua memória. Janta comigo ou morre

Passaste a semana fora. Chegas morta. Faço um prato bem temperado com suco ácido. Só estou indo à forra, digo, derrubando-a

Não sou romântico, explico. Sou tradutor de sânscrito. Nasci na ilha de Java. E encaro a álgebra como um cogumelo. Estou mais para o pós-tosco

É bom um momento de solidão. É quando sinto falta de ti. São os cinco segundos mais intensos da minha vida



RETORNO – Imagem desta edição: Debra Winger, de costas, no filme O Céu Que Nos Protege, de Bertolucci

MOLDEI TEU CORPO COM AS MÃOS


Nei Duclós


Moldei teu corpo com as mãos. Quantos te chamam de amor? Te tomei do mundo, doçura

Eu voltei, meu coração. Agora fica em supremo espasmo, infinita, ao meu lado, enquanto faço a maior cara de paisagem

Estive onde ninguém ousou chegar: tua trêmula confluência do mistério. E vi o rosto desfigurado pela tensão do êxtase ao te tirar do sério

Não entendemos porque vivemos este momento. Só nos interessa o sentimento bruto descoberto em nossa busca, mina de preciosas gemas

Enxergue por mim, criatura de espumas. Veja os navios voando sobre as ondas. E tu, condessa, manobrando o leme, gargalhas, confusa

Não faço parte do teu mundo. Não me inclua em teus projetos. Não se aproprie da minha alma. O coração já não basta?

Nem sei do que falas. Imagine que eu tenha um mundo. Porque te amo não significa fazer parte da mobília

Sou teu, mas a vida é minha. Me tens, mas não o meu espírito. És dona, mas não mandas. Rainha, mas do meu sentimento. Não do meu ofício

Grandona, pequeninha, nissei, caucasiana, amarela ou morena: em qualquer corpo és tu, minha sereia

Quero de você distância: mil quilômetros, baile a fantasia e uma vontade torpe de te fazer perdida

Ninguém te entende, ser humana. Ninguém te compra, solidão no ermo. Ninguém te vende, coração aos prantos. Só eu te amo, miserável deusa

Agora me segues por toda parte. Quando descanso ou vou às compras. Perdeste o rumo de ti, amoroso encosto. Voltaste à costela, eva

É um coro de anjos que me sopra este romance. Eles brincam comigo. Levar a sério implica uma recompensa: aprender a amar sem desperdício

Primeira lição: aceito. Segunda: não durmo. Terceira lição: conquisto. Quarta: me visto. Quinta lição: padeço. Sexta: me liberto. Sétima lição: revido

Os homens não entendem, disse ela, a tesão da gente. Acham que são só eles e por isso sentem medo. Não somos só o prazer, mas o êxtase


RETORNO – Imagem desta edição: Ingrid Bergman

SÓ EU TE TOCO


Nei Duclós

Sou teu intermediário entre a cama e o desejo. Cumpro com prazer, e ainda ganho de brinde um beijo

Parece um morango e na consistência um pêssego. O sumo é doce, como nas frutas quentes. Mais não digo, para não parecer ingênuo

Já vi que te arrependes quando é inevitável o gozo. E tentas fugir, minha amêndoa. Mas te condiciono pelo corpo. Ardo por ti, confidente

Insistes em querer quem está tão distante. Vocação de chuva perdida no horizonte. Fico na praia, e te chamo

Não damos conta da sedução, minha inconstante. Perdes o foco e partes para a balada, onde te cantam. Mas voltas para mim, só eu te toco

Cheguei a te esquecer, de tão intensa. Fogo de palha, me enterraste no silêncio. Mas continuo teu, cabelo de incêndio

Não quero que digas, apenas sinta. As palavras me ferem, como alfinetes. Só o sim do teu semblante faz parte dos meus tesouros

Agora me diga: sentiu saudade? Ou aproveitaste minha ausência para negar meu gesto? Vou cheirar teu quarto, buscar pistas. Quem te quis, amante?

É macia o que tens, e vibra. Mas não é para mim, invasivo. E sim para teu outro amor, em quem confias

É pouco o que tenho. E está contigo, portento

Montei o mecanismo que te encanta: duas palavras de amor, a mão no peito, o mergulho no lago e o lábio em teu ouvido, pirilampa

Faço trilogias de surpresas. Depois lanço nas tuas tardes, atraindo pombas. Custas a ceder, mas teu vestido se encarrega de subir um pouco

Parece fácil o que te digo, mas vem do fundo, lá onde mora o perigo. Fui buscar, sem proteção no abismo

É um continente de delícias o poema que não finda. Nele moras como rainha. Quando sentas no trono, te baseias em mim, firme

Agora me arranha, já acabei contigo. Esta é a senha. Nada me tira de ti, mulher plena


RETORNO – Imagem desta edição: Monica Bellucci

SOU ÍNTIMO DE TI


Nei Duclós

Vieste junto com os guardados. Te descobri tardiamente, quando descarregava os jarros. Tinhas o aspecto de uma flor, de olhos assustados

Corri para evitar a solidão, mas era tarde demais. O ultimo barco partiu e estavas nele, levando teu lanche, embrulhado no meu poema em celofane

Sou íntimo de ti. Me tens na toalha, na estante. É o máximo que consigo me aproximar sendo um estranho

Bastou um dia longe para descobrirmos que nada ficou daquele primeiro encontro. Só a vontade de morrer de vez em quando

Não somos românticos. Admitimos isso naquela festa em que nos conhecemos. Por sermos tão idênticos, nunca mais nos desgrudamos

Você está piorando, disse o crítico. Já foi melhor, obrigado. Lembro, respondi. Quando fui ignorado

Precisa trabalhar mais esse material, me disse o superintendente. Amasse barro e não use borboletas. Custam caro e morrem no primeiro vento

Fizemos uma excursão na firma para comemorar o fim de ano. Estavas de cachecol lilás, no primeiro banco. Eras, à revelia, o meu presente

Estou pronta, disse a noiva. Antes, corte o meu cabelo. Foi uma promessa que fiz para Santo Antônio

Vim te conhecer para dizer adeus, disse ela. Não suportaria ver este amor virtual se desmanchar na minha frente. Prefiro voltar a ser um avatar

Construí uma ponte de conchas com as mãos, sem nenhuma noção técnica. Mas serviu para pisares nela, desmanchado meu suor em mil promessas

Estive fora. Não regressei antes da aurora. Estendeste teu lençol de sonhos para me receber. Vi de longe. Era uma espécie de fogueira

No povoado dizem que demorei demais. E que no fundo não me esperaste. É que não podem nos ver juntos, entender nosso amor absurdo

Viajei em junho, voltei em dezembro. Teceste uma camisa que coloquei agora. Estamos na varanda e o sol veio sentar-se para uma conversa

Fui buscar mantimentos. Ficaste de guarda. Os cachorros estava inquietos. Mas o caipora não teme guaipeca, teme o fogo dos teus olhos

Refizeste o caminho pelo corredor. Recusaste auxílio, estou orgulhoso de ti. Tateando as paredes, atingiste o esplendor: os lençóis que eu estendi

Perguntam o que faço neste ermo perdido. Porque não emigro, como todos. Alguém precisa guardar a natureza, digo. E ter um amor entre os jasmins

Não me leve daqui, destino. Custei a vir, quero ficar. Sou o sentinela do caminho. Se alguém invadir, vai ter comigo. Sinto que não estou sozinho

Não tem importância. Ninguém atenta para o amor, mesmo. Só não consigo descobrir para que serve esse talismã que me deste e não sai do meu peito

Você trocou de namoro. Achou que não precisava ouvir. Eu mantive o amor. Dá gosto ver teu erro. Conto os segundos para te dizer


RETORNO – Imagem desta edição: Catherine Deneuve

11 de dezembro de 2011

NA ALTURA DE VÊNUS


Nei Duclós


Tuas rendas na altura de Vênus, eis o segredo do verso. Teu espaço de sereno aguarda o momento certo

Este romance não acaba. Há trens, estações, acenos, tranças, lampiões. Até o neón parece antigo. Custo a chegar ao tempo que nos comove

Volto cheio de planos. Monto um escritório. És minha cliente. Quero o amor de volta, dizes. Providencio então uma dúzia de rosas

Ainda sentimos. Herança de um mundo perdido, que nos mantém vivos

Faço parte da insurreição do poema. Soldado, envio uma carta do front. Ela chega em segundos. Estás ao meu lado, amor

Aceitei sua renúncia. Mas não vou substituí-la. As forças do poema ainda não cerraram fileiras. Aguardo o apoio da multidão dos seus desejos

Tem gente que prefere ver uma luta. Nós decidimos comer algodão doce num barco, em meio ao lago. Na beira, uma cantata. A bordo, teu seio

Declarei o amor, minha alforria, e parti para a guerra, ver a dor. Voltei alquebrado, minha alegria, e aqui estou aos teus pés, com uma flor

Só o que importa é o dinheiro.A poesia é tratada como lixo.Mas os réquiens de luxo mendigam palavras que emocionem para fazer jus a uma vida

O deserto é feito de espetáculos bisonhos. Solidão de luzes roxas. Horizontes estranhos. Mas teu coração, pássaro de encanto, te dá conforto

Ninguém impedirá que sejas teu destino, esse fundo enredo de águas interiores. Deixe que falem, cubra-se com o teu amor que vem de longe

Somos criaturas de sonho. Abra mão do que derruba a fantasia e vista-se em direção à fonte. Depois tire a roupa, cachoeira de gozo

A missão do homem é ser a rocha onde pousa esse beijo trêmulo. Que o civiliza para celebrá-lo. A magia da flor que medra em seus escombros

Conduza a carruagem pelo pântano. A princesa que levas junto suja o vestido, mas não importa. Ela tem os olhos fixos em teus ombros, gigante

Há um conluio de sombras que te impedem de chegar ao pote do arco-íris. Elas varrem a aliança com dedos sujos. Use o cheiro, mas consiga

No momento em que você brilha, acerta o veio, debate-se desesperada a alma em chagas que te cerca e aposta em tua penumbra. Seja forte

De que vale ser a ave sagrada pelo batismo se não permites que renasça o amor em ti, submersa pedra coral

Ele é meu escravo, fica na corrente, mas pensa o que quer, disse o feitor. Então ele é livre, disse o ditador

A virtude aprisiona quando se apropria do sentimento alheio. Ou libera, compartilhando a dúvida e dando chance ao amor, ou terá retaliação

Falarei de maneira explícita, se quiseres. Direi o que sinto em cartazes imensos. Passarás indiferente pelo que sangra, minha flor de cardo?

Fico surpreso quando vejo teus sinais na estrada onde durmo. És tu? pergunto. Meu sonho oculto. Onde medra esse amor infinito?

Renasces em mim dizendo apenas que me escuta. Teu silêncio não germina o desencontro, antes o abastece

Não tens culpa de seres tudo. E que qualquer gesto, mínimo, me reacenda a esperança de um amor que contava perdido. És minha ilusão favorita

Te lembro alguém, de algum lugar. Mas é ilusão. Sou aqui e agora e agarra essa chance. Não porque precises, mas porque me salva

O sonho não estava solto no ar. Mas em lugar sabido, onde pulsa a disforme condição de criaturas que não vivem sem amor

Quem segura essa paixão feita de pólen, com o açúcar extraído de um coração que não desiste, e borrifado pelo perfume das estrelas?




RETORNO - Imagem desta edição: Gisele Bundchen

10 de dezembro de 2011

MINHA SEMENTE DO ESPÍRITO


Nei Duclós

Ensina-se a fragilidade,não a fraqueza; a entrega,não a submissão; o perdão,não a conivência; a sedução, não o assédio; o amor, e não o medo

Ensina-me a doçura, não a docilidade; a delícia, não a facilidade; a confissão, não o exibicionismo; a firmeza, e não a crueldade

Ensina-se a viração, não a tempestade; o sonho, não a amargura; a comunhão, não a falsidade; a inteligência, não a secura

Ensina-me o sopro,não a chantagem; a amizade,não o encosto; a solidariedade,não a pena; o exemplo, não o conselho; o gesto, e não o discurso

Ensina-se o tesão, não a rotina; o toque, não a preguiça; o laço, não o confisco; o ofício, não o cargo; o beijo e não o estrago

Ensina-me a ser e não a querer; a ver,não a esquecer; a sentir,não a chorar; a viver,não a cair; a compor,não a quebrar; a ler e não a matar

Ensina-me a trilha do teu abrigo, a devolver o que não consigo, a alcançar o que não digo, a driblar tanto perigo. Minha semente do espírito


RETORNO – Imagem desta edição: obra de William Bouguereau

A PALAVRA QUENTE DO POEMA


Nei Duclós

Além dos poemas de amor, que fazem um livro à parte, estou escrevendo um longo romance em prosa poética, que posto diretamente no facebook e no twitter. O que vem a seguir faz parte desse outro livro inédito, que os amigos das mídias sociais e os leitores deste blog e do site tem acesso com antecedência. A postagem múltipla nesses espaços virtuais indica minha autoria para essas obras.

Esperas a palavra como o pão que tarda. Ela chega quente, embalada. Desembrulhas e vês o sopro da noite alta borrifando de manhã a carne exposta

Mãe pergunta se hoje não tem poema, disse a garota. Não, mas leva esses versos. Mistura e põe na mesa. Alguém há de chorar, disse o padeiro

Adormeceste tarde, quando eu já tinha escapado no escuro. Ficaste boiando no vazio e por isso tens esse rosto de anjo na manhã de chuva

Tinhas reunião cedo por isso deixaste teu coração me vigiando. Acordei com o pulso de um beijo enviado por ti a distância

Estás cercada de despedida. Preciso arrancar cada pergaminho colado em teu vestido. Eles dizem adeus no espaço onde vou inaugurar um incêndio

Não conheci o mundo, mas cheguei perto. Fiquei preso na fronteira, amarrado ao meu coração deserto. Por sorte te vi, flor da pedra

O dia em que o céu negar a gota que te alimenta, flor do cardo, baterás teus sinos prejudicando as asas. Só eu te escutarei, melindrosa

O orvalho desistiu de ti quando choraste. Já tinhas água. Fiquei só, esmigalhando pétalas molhadas com minha bota

Não era para ficar aqui, morto de saudade. Mas alguém mencionou teu nome e vim rever a praça onde nosso amor mora

Lembra da Lua? Exilou-se na primavera, como aquelas viajantes batidas pelo vento no convés de cruzeiros absurdos

Não se insurja contra algo que você não percebeu claramente. Não intensifique a prisão do seu isolamento. Consulte o amor, pintor de paredes

É fácil me acusar de algo que está acumulado em tua vivência. Não faço parte da tua obra, a não ser que gostes de novos projetos, arquiteta

Desisti de me aproximar de ti, me conformei. Só me perdoa, nesta cerimônia mal assombrada, por pisar na longa cauda do teu branco vestido

Perdi você antes do vôo. Não estavas mais na lista dos passageiros. A bordo, olhei para fora e te vi na nuvem, anjo. Cansaste de ser humana

Todos foram embora e ficamos nus na praia à mercê do tufão. Nos agarramos e fechamos os olhos. E rodopiamos até virarmos pó, tesão

Mesmo depois de partir, estavas comigo. O reencontro se deu por força desse destino, traçado por ti como um beijo demorado

Quem segura essa paixão feita de pólen, com o açúcar extraído de um coração que não desiste, e borrifado pelo perfume das estrelas?

O sonho não estava solto no ar. Mas em lugar sabido, onde pulsa a disforme condição de criaturas que não vivem sem amor

Te lembro alguém, de algum lugar. Mas é ilusão. Sou aqui e agora e agarra essa chance. Não porque precises, mas porque me salva

Você me enlouquece. Melhor dizer para o vento que o tempo precisa parar um instante para que a eternidade tenha acesso a si mesma

Não tens culpa de seres tudo. E que qualquer gesto, mínimo, me reacenda a esperança de um amor que contava perdido. És minha ilusão favorita

Renasces em mim dizendo apenas que me escuta. Teu silêncio não germina o desencontro, antes o abastece

Fico surpreso quando vejo teus sinais na estrada onde durmo. És tu? pergunto. Meu sonho oculto. Onde medra esse amor infinito?

Falarei de maneira explícita, se quiseres. Direi o que sinto em cartazes imensos. Passarás indiferente pelo que sangra, minha flor de cardo?

Não faz sentido ficarmos longe até mesmo nas palavras. Gire para mim a biruta de teu corpo. Que a alma já peguei entre meus salmos

Mal acordas e te espero com meu verbo. Como se fosse possível viver disso. E nada mais importasse a não ser o prazer da letra exposta


RETORNO – Imagem desta edição: Lord Frederick Leighton : The maid with the yellow hair.

BEM-ME-QUER


Nei Duclós

Agora faz sentido ser mulher
disse ela depois do bem-me-quer
em que a última pétala foi o sim
e o primeiro gemido muito além

Cruzamos o umbral de Araken
onde estive a mando do sultão
e fugimos para o deserto de Nefud
perseguidos por beduínos do harém

Te roubei entre beldades orientais
porque achei desperdício até demais
e entrei numa loucura em espiral

Hoje estamos a prêmio minha flor
nossas vidas não valem um vintém
mas o gozo nos preserva desse mal


RETORNO – Imagem desta edição: Greta Garbo em Mata-Hari

9 de dezembro de 2011

OFERTA


Nei Duclós

Poesia é o nome do semblante
aberto como a rosa da oferta
vermelha de sorriso intenso
por seres bela da mais pura fonte

Não há complicação quando este rosto
acompanha a comunhão de espantos
tudo é claro no Olimpo, onde o silêncio
se submete ao calor do patrimônio

Expressas um amor que não nos falte
como a glória da manhã e os sons da tarde
com a platéia suspensa pelo impacto

Sabendo que manobras personagens
usufruímos a colagem dessa obra
que nos dás com a força da tua arte



RETORNO - Imagem desta edição: Juliana Biancato (foto de Paulo Chiquiti). Depois de tanta atriz estrangeira aqui neste espaço, uma homenagem à atriz brasileira. Juliana Biancato sobra em talento e agradeço por permitir o uso de sua bela imagem para este soneto.

MILITÂNCIA


Nei Duclós

Não tivemos tempo de ser doces
Amargos militantes do sonho
quisemos tudo para hoje, que foi ontem
e ficamos perdidos entre os escombros

Resolvemos recuperar o que está longe
recompondo a dor de ser inteiro
mas quebrou-se o encanto, musa louca
que nos aprontou o irreversível tombo

Substantivamos tanto, e eis-nos pobres
do verbo e de seus adverbiais amantes
Com vergonha das vogais, somos consoantes

E foi assim que ao te levar ao parque
não sabia expressar meu sentimento
Foi quando um anjo me soprou sonetos


RETORNO - Imagem desta edição: Jean Seberg

DISFARCE


Nei Duclós

Foi bom o disfarce. Como se não houvesse o vulcão do teu charme. Mas foste traída pelo veneno escarlate das unhas. Por ti levaria um tiro

Cicatrizou? ela disse ao abrir a porta. O ferimento sim, falei. Mas não o beijo que me deste no dia do acidente, desconhecida.

Quantas te querem? ela falou. Contando com você? perguntei. Sim, disse ela. Só uma, falei.

Qual teu objetivo? ela perguntou. As mil e uma noites, respondi. Ah, sultão maldito, disse ela.

Pare com isso, não estou agüentando. disse ela. Vire sereia, falei. Poderás respirar ao mergulhar para sempre nas tuas águas interiores

Ela apagou as pistas, mudou de endereço, se fez de desentendida. Mas não conseguiu virar o rosto quando vi seu braço tatuado com meu nome

Você fala por parábolas, eu sou o escriba. De vez em quando durmo em cima do manuscrito. Quando acordo, ele está imprestável

Já vi todas as apresentações possíveis e pedi bis para que caísse tua ficha. Não adiantou. Não tiraste a máscara. Vou invadir o palco

Humor é involuntário. Por isso a platéia gargalha do palhaço que, sem querer, tropeça

Eles vendem espaços no teu coração em pedaços. Ninguém costura o que tens, exausta, porque usam tua fome em seus banquetes

Parece bonito o que dizem. Funciona. Mas quando giras a chave do quarto, uma vertigem te devora e nenhuma palavra de verdade te ampara

O que pega é o amor que cultivas em teus canteiros, longe do olhar dos usurpadores. Lá medra a flor que me beija, possuída

Ele é teu ídolo porque é teu grande amor, disse o marido. Não, ele é meu ídolo porque me fez ver que meu grande amor é você, disse ela

Perdi todas as tuas cartas. Foram jogadas no vazio uma a uma, por obra do mistério. Ficaram apenas as minhas, que devolveste

Sei agora qual foi o motivo: aquela frase, de verbos errados, que te escandalizou. Não fui perdoado. Viste como um sinal do que sou de fato

Nem sempre consigo esconder o que me forma.O verbo escasso deixa algo de fora,como roupa que não encolhe.Também te vejo através da maquiagem

Não te peço trégua nem volta, pois vou acabar repetindo o que me estraga. É melhor a distância e a lembrança daquela tarde

Pedes que eu olhe a paisagem. Mas ela é dominada por ti, portentosa.O que pode o olho diante do teu foco?


RETORNO – Imagem desta edição: Kim Novak